Mostrando postagens com marcador Aceitação do corpo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Aceitação do corpo. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

De mulher para mulher, Machista


Essa semana mais uma propaganda da Marisa foi veiculada e pela terceira vez seguida, estamos diante de uma bela demonstração de preconceito. Só para variar, afinal isso quase nem acontece na publicidade, não é? O que realmente causa algum espanto é que uma empresa cujo slogan é "de mulher para mulher" seja machista. Aliás, já li algumas pessoas na rede satirizarem o slogan da Marisa: "De mulher para mulher, Machista". De fato, eu não poderia concordar mais. Vamos relembrar as campanhas que nos fizeram repudiar a marca, mas antes do almoço que é para não acabar botando tudo para fora, beleza?

Primeiro rolou aquela propaganda de lingerie super bacana (só que jamais), mostrando "estatísticas" sobre como está difícil conseguir homem na praça. 





A premissa é: Mulheres (hetero, claro, porque para a Marisa, lésbicas não existem) passem a competir entre si por um belíssimo exemplar de macho viril. Para a Marisa, homem só vale à pena se seguir à risca aqueles velhos estereótipos de gênero. Homem não pode gostar de bichinhos, morar com os pais, ter medo de barata... enfim. O horror, o horror. Vê se pode, homem que é homem não faz esse tipo de coisa, não é? Ai, Marisa... Que belo desserviço você faz à todas as mulheres e aos homens sugerindo esses padrões de comportamento, que só oprimem à todxs. Aqui podemos ver uma ótima palestra de Tony Porter sobre como a sociedade cria os meninos para odiar mulheres e sobre como colocamos em todos, inclusive nos homens, as algemas do patriarcado.

Antes fosse só isso... mas não foi! Começaram as críticas a essa propaganda nas redes e a agência que cometeu essa atrocidade resolveu ATACAR as consumidoras. Sim, queridos. Veja o print com seus próprios olhinhos nesse post. A rede Marisa, em sua página no Facebook, dizia ouvir as reclamações e agradecia as críticas, mas nada foi feito, a propaganda continuou sendo exibida e a agência seguiu cometendo erros inacreditáveis nas campanhas da Marisa. Porém, não vou crucificar a agência, uma vez que é o cliente que tem a palavra final. 

Pouco tempo depois, tivemos outra ótima surpresa. A Marisa achou que seria uma excelente idéia inverter os papéis de gênero, botando mulheres para assediar homens. OPA, assediar, não! Elogiar! 





Para a Marisa, assédio de rua é elogio. Veja, sabe quando um homem desconhecido aborda você na rua te chamando de gostosa, dizendo o que faria com você na cama, objetificando, desrespeitando? Pois bem, isso tudo é um grande elogio, aparentemente deveríamos ser submissas e agradecer. Mano, que ano é hoje? Marisa, acho que está faltando uma informação: os anos 50 já se foram há uns 60 anos! 

Agora, na campanha mais recente, que tal uma boa dose de gordofobia? Propaganda meramente machista é coisa do passado, a onda agora é estimular um transtorno alimentar. Sim, porque no verão só as magras são felizes. Não venham usar o argumento "saúde" por favor, porque NADA nesse comercial indica que o motivo da dieta da moça seja esse. Especialmente pelo final da propaganda quando a macharada toda olha para a mulher como se ela fosse um pedaço de carne. 



Me desculpe se não elogio a grande criatividade dessa propaganda, mas é que o R7 já fez coisa bem similar há pouquíssimo tempo, com a manchete "elas não estão preparadas para o verão". Essa idéia não é exatamente original, entende? Todo mundo já se cansou de ouvir essa babaquice. Inclusive recomendo fortemente a página de humor do Facebook que satiriza essa notícia, a "Projeto Verão 2013". 

Imagem da página "Projeto Verão" no Facebook

São tantos os problemas dessa propaganda que fica difícil começar a listar. Primeiro, a perpetuação de um padrão de beleza gordofóbico. Magreza não é sinônimo de saúde, assim como obesidade não é sinônimo de doença. Algumas pesquisas bem recentes apontam que o obeso ativo é uma pessoa saudável. Pior ainda, atrelar a felicidade à manutenção da magreza. GENTE.

Depois, a própria idéia de que comer alimentos saudáveis é um sacrifício é contraproducente no sentido de garantir qualidade de alimentação, pois somos sempre estimulados a comer fora de hora, alimentos industrializados, altamente calóricos, fast food e etc.

E por fim, aquilo que me parece ser o mais grave de tudo: Retirar de nós o direito de ir e vir livremente. Como se o fato de não estar perfeitamente dentro de um padrão de beleza racista e gordofóbico fosse determinante para que não exista o direito de utilizar o espaço público. E sabe porque isso é tão ruim? Porque tem muita gente por aí que realmente pensa assim, a Carol Marques pontuou muito bem:



Lugar onde eram preparadas as
refeições para funcionários de oficina
de confecção da Marisa
Já comprei roupas na Marisa e acho que a qualidade é bem abaixo da média. Além disso, não sei se todos estão a par, mas a empresa já foi denunciada por ligação com o trabalho análogo ao trabalho escravo (com indícios de tráfico de pessoas) em algumas de suas oficinas de produção. Ao menos é o que informa essa notícia aqui. Foi realizado um acordo em 2007, chamado TAC, Termo de Ajustamento de Conduta. Contudo, recentemente, doída pelo dano que fez à própria imagem, a Marisa recebeu uma punição pela contestação que fez sobre a legalidade da Lista suja do Ministério do Trabalho . Falando muito claramente: A "lista suja" só prejudica o empregador. E é claro que no caso da Marisa, o empregador é uma grande rede de confecção. É quase uma carteirada, sabe? "Quem é o Ministério do Trabalho para decidir proceder de forma a prejudicar grandes empresas em prol de condições de trabalho justas para os funcionários?". Eu é que nunca mais vou de Marisa. Não quero nem de graça.

Então, recapitulando, machista, heteronormativa, gordofóbica e exploradora. O que mais está faltando, Marisa?

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Padrão de beleza: há algo muito errado...


... quando um cabelo é mais importante que uma medalha olímpica.

A foto acima é da ginasta norte-americana Gabby Douglas. Pra quem está em órbita em algum universo paralelo (não se preocupe, isso é piada interna porque eu também vivo em alfa e perco as notícias quentinhas), a Gabby é a primeira ginasta negra a ganhar medalha de ouro numa olimpíada. 

Diante de um feito desses, era pra todo mundo estar feliz da vida comemorando o pioneirismo da garota, a garra, os movimentos perfeitos, a força de vontade, certo? Errado. O que parece estar chamando a atenção, em especial da comunidade afro-norte-americana, é o cabelo da moça. 

Não, queridxs, dessa vez nem é uma questão de mídia mainstream. São redes sociais mesmo, sabe? São pessoas comuns reclamando nos twitters da vida que ela bem que poderia ter dado um jeitinho nesse cabelo pra “representar” melhor a classe negra norte-americana. É a própria população aplicando bullying na moça, corroborando a nossa tese dos jogos olímpicos do machismo.

Abrindo um parêntese: é no mínimo irônico que a obsessão com a aparência das pessoas tenha atingido esse grau de perversidade. Ora, estamos tratando de um esporte notadamente conhecido por cobrar beleza e graciosidade de suas participantes. Elas precisam estar com o cabelo impecavelmente preso E maquiadas para competir.  Trata-se de uma exigência (a meu ver injusta) que não passaria batido pela equipe de jurados. Ainda assim ela foi cyber-rechaçada por pessoas que, de tão colonizadas mentalmente, não percebem o teor do próprio racismo.

Ah, mas isso comprova que os negros é que são racistas, dirão alguns. Eu tenho preguicinha desse argumento, mas como sei que ele invariavelmente aparece sempre que há uma discussão do tipo, vamos lá: o padrão de beleza, tal como se apresenta a nós hoje, é racista. Antes que me apedrejem, vejam a continuação do argumento: porém, o racismo do padrão de beleza não é algo aberto, escancarado, arreganhado, explícito, registrado em cartório, como a galera do “você está exagerando” gostaria que fosse. É um padrão que, por se dar em graus (há vários elementos na aparência de uma pessoa que a aproxima ou a afasta de um “ideal”) sutilmente exclui diversos brancos e inclui alguns, veja bem, ALGUNS negros.  É exatamente isso que dá ao padrão uma pretensa aura de neutralidade. E é por isso que seu combate é difícil, exaustivo.

No caso específico dos EUA, recentemente um movimento de aceitação das madeixas naturais vem ocorrendo e tem até mudado a vida de muitas mulheres negras. Elas estão aprendendo a gostar de si, a viverem em paz com o fato de que não correspondem a um padrão caucasiano (ou há dúvidas de  que cabelos lisos e corpo esbelto com pouco quadril não exclui a grande maioria das mulheres negras e até latinas?), mas a mudança é lenta. Ainda impera por aqui a mentalidade de que cabelo não-alisado ou mal-alisado é ruim, é feio, é coisa de gente pobre. Sim, amores, o elitismo vai à mil nesses casos. 

Acusam a Gabby de não estar com um cabelo “apresentável”, que faça jus à sua posição. O cabelo dela estaria mal-alisado, pois ao suar ele estaria voltando às formas naturais, o que anularia todo o seu brilhante desempenho, na cabeça doentia das pessoas.  Em outras palavras, é imperativo que qualquer negra que goze de algum status na sociedade tenha um cabelo perfeitamente sedoso. Lembremos que sedoso vem de seda, uma textura completamente alheia à composição natural dos cabelos afro. Porém, se você dispõe de recursos, é possível sim atingir tal estrutura capilar. Daí gastam-se rios e rios de dinheiros com alisantes caríssimos, hidratantes potentes ou então apliques, feitos com os cabelos lisinhos indianos (que as indianas doam aos deuses em um templo lá em Tirupati, sul da Índia, para que os deuses vendam às americanas). É um negócio milionário que, a depender de uma "elite" negra norte americana, não vai parar. 

Com tudo isso, eu acho importante frisar que o caso estadunidense não é um caso isolado. Não se trata de um padrão tipo, sei lá, o das indianas que depilam o braço inteiro e que dificilmente vai pegar nas brasileiras, aficionadas que são pela descoloração. Americanos ditam tendências, comportamentos (obviamente, europeizados). Por isso o backlash sofrido pela Gabby é tão preocupante. Assim como é preocupante a declaração da atriz e cantora Jennifer Hudson (a de Dreamgirls: em busca de um sonho): “Eu tenho mais orgulho de ter perdido peso do que de ter ganhado um Oscar”. 

Por fim, as amarras do padrão de beleza são, além de preocupantes, algo triste e revoltante, pois, como já tratamos anteriormente, essa fiscalização intensa da aparência das mulheres é nociva, humilhante, desumana. Porque não importa o quão intelectual/forte/preparada tecnicamente uma mulher seja. Numa sociedade de valores enviesados, a beleza padronizada precede toda e qualquer habilidade que uma mulher possa vir a ter ao longo de sua vida.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Menstruação: autoestima e ódio ao feminino.


There will be blood - Foto de Emma Arvida Bystrom
            O ensaio fotográfico publicado originalmente na revista canadense Vice, nomeado de "There will be blood" foi republicado no Brasil no portal da yahoo e em outras mídias. A aceitação das fotos foi péssima.     
             Nojento, desnecessário, nada sexy e horrível foram palavras utilizadas pelo maioria do público para descrever as fotos. Tanto homens, quanto mulheres manifestaram toda essa ojeriza pela menstruação. Os comentários inclusive ofendiam as modelos fotografadas, chamando-as de vadias nojentas e falando até que elas envergonhavam a espécie. O choque foi grande, afinal, a misoginia no ódio ao sangue de menstruação não é tão clara, mas ela se mostra sem disfarces nesse comentário. Para a comentarista, uma mulher que exibe sua menstruação é menos mulher, é uma mulher sem valor, é nojenta e não esconde envergonhada o "seu feminino" e por isso merece ser xingada dessa forma.

         O "nada sexy" merece um parágrafo especial porque mostra como a mulher é vista como enfeite, ela só é bem aceita pela mídia e pela sociedade se estiver magra, maquiada, photoshopada, enfim, não natural. A mulher como ela é, menstruada, com dias bons e dias ruins, sem photoshop é criticada justamente por sair dessa função que o patriarcado a colocou, que é a de objeto, enfeite, troféu. Passiva e bela, sendo admirada e servindo ao deleite masculino heterossexual. A mulher menstruada não enfeita, ela choca. Ela não está ai pra ser admirada, afinal, ela é natural, ela é humana. A mulher vista como sujeito, a mulher vista como ser humano ainda choca. E isso assusta.

Menstrala - Pintura de Vanessa Tiegs
       A depreciação pela menstruação é correlata ao ódio pelo que é designado como corpo feminino e também a diversos problemas de autoestima, afinal, como haver aceitação do corpo se as mulheres ainda vêem a menstruação como algo sujo, feio e nojento? Ver seu organismo dessa forma faz mal, é odiar uma parte de si. Odiar a menstruação, escondê-la, evitar falar nela contribui para a repressão sexual feminina e para a falta de conhecimento do próprio corpo. Esconder e silenciar contribui também para retirar das mãos das mulheres a própria sexualidade e o direito ao próprio corpo, porque o medo do que o outro vai achar, o medo de ser nojenta, suja e feia coloca a mulher numa posição de objeto do patriarcado. 

A misoginia em relação à menstruação coloca o corpo designado ao nascer como feminino pra servir aos outros e não a si mesma e prejudica a autoestima, por criar inseguranças que impedem que a pessoa exerça sua sexualidade e conheça o próprio corpo. Ver a menstruação como nojenta, é ver também a vagina, o útero, o ovário e todo o sistema reprodutor definido como feminino como algo a ser "limpado" ou escondido. A insegurança feminina a respeito do cheiro da vagina, bem como da depilação íntima como parte da higiene e até mesmo da "feiura" da vagina são componentes do ódio ao feminino e do ódio à menstruação. E chegamos ao "nada sexy" porque se mostrar natural, se mostrar humana, não tem aceitação, porque é sair do papel que o patriarcado nos colocou, que é de passiva, submissa e objeto.

Observação: nem toda mulher menstrua e nem toda pessoa que menstrua é mulher. Entenda melhor lendo textos no "Transfeminismo". 

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Beleza circunstancial e a Marcha das Barangas


Não é de hoje que o padrão de beleza vigente oprime as mulheres. E digo especificamente as mulheres porque embora ele esteja aí para todos é no corpo feminino que ele é cobrado com mais força e veemência. Homens aparecem são retratados e congratulados por sua formação, inteligência e tudo o mais. Já nós somos o tempo todo questionadas pela nossa beleza (ou a falta dela) e só isso (vide Dilma Rousseff, que tem mais matéria criticando seus cabelos e suas roupas do que falando sobre qualquer outra coisa).

A Marcha das Vadias, que aconteceu em diversas cidades do Brasil no último sábado tem como seus maiores inimigos os machistas. Estes que odeiam ver mulheres organizadas, unidas. E obviamente esses mesmos machistas são os que curtem julgar uma mulher por nada mais nada menos do que: a aparência delas, com base nos padrões de beleza vigentes. Para eles, a palavra “feia” é a maior ofensa que se pode proferir a uma mulher (e gorda também né, porque gordofóbicos que são, acreditam que feia e gorda são praticamente sinônimos).
Pois então o que mais choveu de “críticas” as ativistas chamando-as de barangas, não é brincadeira. Basta procurar as imagens para concluir que a aparência das manifestantes é o maior foco dos haters. Além é claro de outros clássicos como “mal-amadas”, “mal-comidas”, mas obviamente tudo isso tem origem no fato de serem feias, dizem eles.

 A famosa organização ucraniana Femen, que protesta a respeito de diversos temas, tem o foco da mídia voltado para apenas algumas das manifestantes, as que tiram a blusa e estão perfeitamente encaixadas no padrão de beleza vigentes: Altas, loiras, magras. Entretanto mesmo elas quando olham para as câmeras em momento de fúria, aos berros em seus protestos, são imediatamente desvalorizadas (tanto é que essas imagens não são geralmente publicadas por aí, estão em maior número no site/facebook/etc da própria organização). Toda beleza é desconsiderada quando nela não está presente um rosto sereno e pacífico ansioso para agradar seu opressor, mas sim um grito transgressor.

E aí está a maior prova de que a beleza é circunstancial. Ou seja, uma pessoa é considerada bonita ou feia dependendo do contexto em que se encontra. Uma mulher que está indo contra o status-quo, questionando os valores que lhes foram impostos e o privilégio masculino será, com certeza, chamada de feia.

Coloque as mulheres da marcha de vestidinho e salto alto. Coloque-as sorrindo para uma câmera, bebendo um champagne (porque mulher que se dá ao respeito não bebe cerveja, todo mundo sabe), piscando para um homem. Coloque-as em um filme pornô, em um programa de TV num domingo a tarde, coloque-as  de biquíni buscando entreter os homens e pronto. Automaticamente muitas delas serão imediatamente colocadas na categoria de gostosas.

E se é esse o critério que querem nos colocar, eu peço a licença para falar em nome das vadias que marcham em todo o nosso país: Seremos feias. Se ao nos ver andando por aí, questionando seus valores, gritando nossas reivindicações, exigindo transformações sociais, tudo o que você consegue pensar é que somos um bando de barangas, então ótimo. É isso que queremos ser: Um bando de barangas.

Não queremos servir para o entretenimento masculino, não queremos seguir caladas para que vocês possam simplesmente nos achar bonitas. Sinto muito informar, mas seu julgamento a respeito da nossa estética não é mais tão importante assim. Somos mulheres organizadas e com voz. Voz essa que usaremos sempre. E sempre para nós, não para concordar em te manter nessa confortável posição que o patriarcado te colocou.

Com muito orgulho somos vadias, somos barangas. Somos a favor da igualdade e contra o seu privilégio.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Menstruação é tabu?

'Menstruate with pride', oil on canvas, 215 x 275 cm - Sarah Maple

           Quem nunca ouviu a frase "Fala mais baixo, ninguém precisa saber que você está naqueles dias" ao pedir um absorvente pra colega de sala? Durante meu ensino fundamental, depois de passar muito pelo "Shiiiiiiiiu, não fale isso alto, você não tem vergonha?", eu descobri uma série de apelidos que o período menstrual tinha, por exemplo, "Tô de papai noel", "Tô de chico", "Tô naqueles dias", "Estou com visitas" e "Sinal vermelho", entre outros, todos eles com o fim de esconder a menstruação ou colocá-la com um nome "menos nojento". Os mitos que envolvem a menstruação são vários, quem nunca ouviu que mulher menstruada não pode arrumar a cama porque quem deitará naquela cama ficará doente? E não podemos esquecer dos famosos "mulher menstruada não pode fazer bolo, porque impede que ele cresça" e do "nesses dias não pode lavar o cabelo não, porque o sangue vai pra cabeça". Além desses mitos, há também o mito de que a mulher menstruada tem que ficar de repouso durante o período, e também que a mulher deve evitar de sair de casa "nesses dias". É fácil perceber como o corpo designado como feminino e a menstruação são cercados de mitos de toda espécie. Os últimos dois mitos citados tem um caráter de esconder ainda mais a mulher, além disso é possível refletir que durante o período menstrual as regras para as mulheres ficam ainda mais rígidas, como se a menstruação fosse um castigo.

  O período menstrual, na sociedade patriarcal, é considerado um período de purificação da mulher, a menstruação é vista como algum impuro, sujo, assim como a mulher, que ao mesmo tempo em que é glorificada pela maternidade, é odiada em todas as outras formas. As mulheres são consideradas desde a Antiguidade perigosas, misteriosas, frias e o tabu da menstruação cresce baseando-se num suposto lado obscuro feminino, que supostamente é expelido durante a menstruação, e essa ideia é que fomenta a Bíblia condenar o contato da mulher menstruada com os demais familiares, lugares e coisas consideradas santas, por considerar o sangue impuro. 

            E a sociedade contemporânea compactua com esse pensamento de diversas formas, a menstruação é vista como algo a ser escondido, algo sujo, imundo e que não deve ser falado, principalmente com homens cis, porque “eles não precisam saber dessas nojeiras”. O nojo da menstruação é o nojo do que é considerado feminino, tudo que faz parte do ciclo menstrual, como o sangue, a vagina, o útero e os ovários são considerados imundos. E a mesma lógica do nojo da menstruação se aplica ao nojo da vagina, o constante estímulo comercial de venda de absorventes diários que teriam a função de despistar o cheiro da vagina, os sabonetes íntimos, a vinculação da depilação com a higiene são formas de esconder e despistar o feminino. E o ódio ao nosso corpo está muito vinculado a esse tabu, afinal, a vagina é considerada feia, incompleta, com cheiros desagradáveis e tem contato com o sangue de menstruação, com tantos julgamentos a respeito do que é bonito, feio, bom e mau, conhecer nosso corpo não é nem cogitado.

            O tabu da menstruação, a misoginia e o tabu de sexo estão interligados. A menstruação na nossa sociedade simboliza que o que vem das mulheres é impuro, a misoginia está na vinculação do que é feminino ao que cheira mal, é feio, nojento, impuro e por fim, o tabu do sexo. O sexo com uma mulher menstruada é considerado um "pecado" em diversas culturas, na maioria delas, os homens que tivessem contato com o sangue de menstruação também seriam considerados impuros, como as mulheres. Há diversos mitos sobre o tema, um deles diz que as mulheres que engravidassem durante o período menstrual teriam filhos-monstros. Em outras culturas simplesmente é dito que a gravidez ocasionada pelo sexo com contato com sangue de menstruação originaria apenas filhas mulheres e por isso deveria ser evitado. O tabu do sexo vai além do sexo com menstruação. O estímulo de esconder tudo que é vinculado ao sistema reprodutor feminino faz parte da própria repressão sexual feminina, visto que esconder o ciclo menstrual seria reforçar que o desejo sexual deve ser escondido. O sexo e o desejo são considerados pertencentes ao homem cis, enquanto a mulher deve esconder seu desejo até aparentar não ter nenhum.

            Colocar o tema “menstruação” como algo exclusivamente pertencente ao feminino, evitar tocar no assunto perto de homens, é sintomático. O corpo da mulher não é dela, o corpo pertence ao que o homem pensa sobre ele e para haver a libertação é necessário falar sobre, parar de esconder e se envergonhar do próprio corpo. Falar sobre menstruação, é tomar para si o desejo, o tesão e sua autonomia. 

Observação: nem todas mulheres menstruam e não somente mulheres menstruam, entenda melhor lendo textos no "Transfeminismo". Os mitos sobre a menstruação além de misóginos e machistas, são também cissexistas.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Start a revolution, stop hating your body!


Comece uma revolução, pare de odiar seu corpo.
I am beautiful no matter what they say
Words can't bring me down
I am beautiful in every single way 
Yes, words can't bring me down 
So don't you bring me down today”

O senso comum diz que toda mulher é carente, insegura e que precisa ouvir elogios durante todo o tempo. O mesmo senso comum diz que amizades femininas são cheias de traição, competição e falsidade. Ele também brada que mulheres são fúteis e só se importam com aparência, status e moda. E o senso comum não se esquece de generalizar também os homens, todos traem, todos mentem, todos sacaneam, todos se interessam apenas pela beleza, pelo corpo da mulher, enquanto toda mulher se interessa em tudo que o homem tem a oferecer, seja dinheiro, poder, e contrariando alguns,até mesmo carinho
O senso comum trata os relacionamentos amorosos heterossexuais como um eterno jogo de trocas, poder, sedução e interesse, onde a mulher se torna objeto sexual do homem em busca de segurança, carinho e completude. Como ter autoestima vivendo em uma sociedade onde a mulher sempre acaba por ser reduzida apenas a um corpo sem autonomia? Um corpo pronto para servir? Onde a mulher precisa de alguém pra enfim se sentir completa?
 Somos todxs bombardeadxs com imagens de um padrão de beleza só atingível através de programas de modificação de imagens, cirurgias plásticas e dietas quase humanamente impossíveis de serem seguidas. O padrão de beleza é a origem de diversas insatisfações e inseguranças, especialmente femininas.

Feminist Ryan Gosling
A veiculação de imagens femininas na mídia sempre observa o fator da beleza, ou melhor, da adequação, mesmo que mínima, ao padrão de beleza vigente. As demais características da mulher ficam em segundo plano ou são ignoradas. Tanto reducionismo faz a mulher comum se sentir inferior a cada propaganda, a cada comentário elogioso masculino e heterossexual a respeito das mulheres dentro do padrão de beleza. O machismo nos reduz a eternas insatisfeitas. O nosso corpo não é nosso, é de toda uma sociedade que aponta defeitos e o que tá até bom, mas pode mudar, de forma, que nunca estamos livres de possíveis intervenções, opiniões e ofensas.
A incessante busca pela beleza, pela jovialidade é estimulada desde a infância, meninas brincam de maquiagem, de usar salto alto e os adultos aplaudem, pois essas meninas já tão novas valorizam tanto a “feminilidade”. Um dos brinquedos mais famosos para meninas é a boneca Barbie, que reforça ainda mais o padrão de beleza: loira, magra, pernas longas, peituda, cintura fina, traços delicados. A opressão estética surge pras meninas assim que nascem, por exemplo, a perfuração da orelha para usar brinquinhos e os lacinhos de cabelo, e continuam através da constante observação da imagem "feminina" na mídia e na sociedade. Concursos de beleza, com destaque, os infantis, ajudam a alimentar ainda mais as frustrações e sonhos que se relacionam apenas a conquista do corpo perfeito e a valorização da beleza. A importância dada à imagem feminina, desde muito cedo, faz parte do triste processo da adultização das meninas. Meninas usam maquiagem, salto alto e se vestem como adultas, importam discursos de competição feminina e inveja da beleza e já tão cedo se aprisionam na busca ao padrão de beleza e também nos papéis de gênero impostos pelo patriarcado e deixam de lado a liberdade de correr, de brincar, de serem autênticas e, consequentemente, perdem a autoestima ao fracassarem na busca da perfeição.

Brincar de maquiagem, com roupas e penteados não é necessariamente a fonte dessa adultização e da "escravidão" pelo padrão de beleza, essas brincadeiras são lúdicas, pura fantasia e proibi-las fere a autonomia da criança. Enfeitar não é sempre negativo, o que é negativo é vincular a vaidade e os enfeites ao "feminino" e excluir os demais da possibilidade brincar com as cores, se pintar, a liberdade de ser e criar não é necessariamente afirmar que há uma obrigatoriedade ou necessidade de usar a maquiagem para corrigir defeitos, esconder características, aparentar mais jovem. O discurso da obrigatoriedade do ser sempre linda e da maquiagem como acessório essencial para a mulher é da sociedade, se reflete na mídia, no comportamento das pessoas, ele não se origina nas brincadeiras infantis.
A vaidade é considerada uma característica essencialmente "feminina", e o excesso de cuidados e preocupações com a beleza nunca é visto como uma desordem. E é visível como essa busca em se enquadrar no padrão de beleza pode causar problemas sérios, como depressão, o desenvolvimento de compulsões alimentares, o excesso de intervenções cirúrgicas, entre outros.

Beth Ditto
Essa cobrança da mulher sempre ser bonita, "feminina" distorce a imagem que a mulher tem de si mesma. O bonito, segundo o padrão de beleza, é inatingível e frustrante. Mesmo as mulheres que trabalham com a beleza, como modelos e atrizes, que são tão desejadas e admiradas pela beleza, se tornam escravas do espelho, da insegurança, das dietas e até mesmo de intervenções cirúrgicas.
O feminismo ao questionar a imposição social que a mulher deve sempre ser bela (a.k.a dentro dos padrões de beleza) e o que é belo, ao questionar a idéia da mulher como objeto, ao questionar a vida da mulher girar em torno de agradar os homens, me fez perceber o quanto o padrão de beleza e as minhas preocupações com ele me reduziam a um mero enfeite. Todas as minhas insatisfações com meu corpo, minha altura, meu cabelo e meu rosto que tanto me impediam de gostar de mim como eu sou e me fizeram sofrer, me sentir mal, através da minha aproximação com o feminismo, diminuíram.
Eu me senti por anos, um monstro, feia, horrorosa, pequena demais, com o nariz pouco delicado, o cabelo desgrenhado... Hoje, apesar das ainda existentes dificuldades de gostar de mim, me sinto, a maior parte do tempo, bonita em minha completude, com minhas experiências, minhas cicatrizes, meus pêlos, meus traços. É um exercício diário tentar não me importar em ser mais magra, mais alta, mais peituda, com a pele sempre bonita, uniforme e corada e em ter o cabelo liso, sedoso e bem cuidado. Mas eu tento e às vezes consigo, porque já não me importa tanto ser "feminina", ser valorizada por ser bonita pra alguém, eu não vejo ser bonita como uma prioridade. Amar a si mesma é revolucionar, é se sentir bem com a sua imagem refletida pelo espelho, é negar as insatisfações com a nossa imagem que são impostas pelo padrão estético e reforçadas pela sociedade e a mídia, é dizer "não" para o que a mídia acha bom ou não no seu corpo, enfim, é ser realmente dona do seu corpo, dona o suficiente para ser dona da sua autoestima.

Todo corpo é bonito.
Através de diversos questionamentos feministas, começou a desconstrução do que é "feminino", belo e importante dentro de mim e minha autoestima vai se refazendo, se recuperando de julgamentos, zoações a respeito da minha altura, dos meus traços, do meu corpo e do meu comportamento e assim eu tomo de volta pra mim a minha autonomia. O feminismo me fez ver que a liberdade está em questionar o que é ser belo e a necessidade disso e assim me permite ser livre para ser, desejar, sentir, revolucionar, me pintar, subverter e assim me amar.