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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Ver ou não ver fotos vazadas: uma questão de consentimento.

 "É meu corpo e deveria ser minha escolha.
O fato de não ser minha escolha é absolutamente nojento"

No final de agosto, várias famosas tiveram sua privacidade violada, entre elas Jennifer Lawrence. Várias fotos íntimas dela e de outras mulheres conhecidas no mundo do entretenimento foram roubadas e posteriormente colocadas na internet. Não preciso dizer que as fotos foram disponibilizadas sem o consentimento das vítimas, né?

Após o vazamento criminoso das fotos, as vítimas foram ofendidas e culpabilizadas, afinal, dentro do patriarcado, a sexualidade feminina é sempre atacada. As fotos das artistas rodaram o mundo, a internet em peso compartilhou as imagens ou pelo menos as visualizou.


A Atriz Mary E. Winstead, uma das vítimas dessa exposição em massa, publicou em seu twitter uma crítica a quem buscou as fotos dela com uma mensagem que poderia ser traduzida como "Para aqueles que estão olhando as fotos que eu tirei com meu marido há anos atrás na privacidade da nossa casa, espero que vocês se sintam ótimos com vocês mesmos."

Jennifer Lawrence demorou para se pronunciar sobre o acontecido, até que na entrevista para a revista Vanity Fair, a atriz falou sobre e como tamanha exposição mexeu com ela. Na matéria, ela deixou claro que o que ocorreu não foi um escândalo ou uma polêmica e sim um crime sexual. 

Ela afirma que temeu como a repercussão do caso poderia atrapalhar sua carreira e que tentou escrever diversas vezes sobre o acontecido, mas que sempre acaba ou com raiva ou chorando. Ela afirma também que chegou a começar a escrever um pedido de desculpas, mas que viu que não tinha motivo para se desculpar. A atriz falou várias vezes sobre o corpo ser dela e sobre escolha, deixando claro que visualizar as fotos vazadas é uma violação da escolha dela de não divulgá-las. Uma violação de consentimento.

Ao conceder essa entrevista, ela deu voz para várias mulheres que foram vítimas de revenge porn e que nunca tiveram onde se manifestar para serem ouvidas, mulheres que sofreram as consequências da exposição de imagens íntimas numa sociedade machista. Ela deixou claro que o vazamento criminoso de fotos é um crime sexual e que não deve ser relativizado por causa da existência das fotos e vídeos íntimos.

Jennifer Lawrence fez um favor para todos nós que combatemos o revenge porn, a objetificação do corpo designado feminino, a culpabilização da vítima e a demonização da sexualidade feminina ao dar um chega pra lá em todo mundo que diz "mas as fotos já vazaram mesmo" e buscam as fotos vazadas e as compartilham. 

Se as imagens estão na internet porque foram disponibilizadas sem o consentimento das fotografadas e filmadas, você ao buscar uma forma de visualizar as fotos viola a escolha dela de não ter essas fotos vistas por mais ninguém além do real destinatário. 

Jennifer Lawrence disse "Até pessoas que conheço e amo me disseram que viram as fotos. Não quero ficar com raiva, mas ao mesmo tempo penso que não disse a elas que elas podiam olhar para meu corpo nu". Vale a pena lembrar toda vez que ocorrer casos de revenge porn que não temos autorização para ver esses corpos, já que não somos destinatários desses nudes.

"Privacidade é um direito humano e mulheres, sendo anônimas ou não, devem ter seus direitos respeitados. Os corpos das artistas não pertencem ao fandom, nem aos sites de notícias e nem a quem as expôs. Os corpos das mulheres não pertencem aos namorados, companheiros, ficantes ou aos antigos relacionamentos delas. O corpo é delas e elas tiram fotos nuas se curtirem isso e compartilham apenas com quem elas quiserem e nós, internautas, que não somos os reais destinatários dessas imagens não devemos alimentar ainda mais essa exposição." - Trecho do texto do Ativismo de Sofá sobre exposição de fotos sem autorização das vítimas. 
As declarações de JLaw foram tão poderosas, que por represália editaram a página dela na Wikipedia adicionando as fotos roubadas. A página original já foi restaurada, mas o ocorrido serve de amostra da misoginia presente em nossa sociedade. Essa misoginia que quer punir a atriz pelas fotos ao saber que ela não vai pedir desculpa por ter sexualidade faz questão de tentar humilhá-la, mais uma vez, através das imagens.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Exposição de fotos sem autorização das vítimas, até quando?

Várias famosas tiveram sua privacidade violada ontem (31/08/2014) quando hackers invadiram suas contas no iCloud e disponibilizaram, sem o consentimento delas, fotos em que elas estavam nuas.

Assim como ocorrem com desconhecidas ao serem expostas, a caça às bruxas logo começou: condenavam as famosas por terem se fotografado nuas, culpando-as pelo ocorrido e assim afastando a culpa de quem roubou as fotos e as divulgou. E ao mesmo tempo, as pessoas buscavam as fotos incessantemente, pediam links e divulgavam entre si. Comentários jocosos ou mesmo elogiosos surgiam sobre os corpos das vítimas.

Sendo elas famosas, a culpabilização da vítima também teve o viés de "elas queriam a exposição para aumentar a fama" e a busca pelas fotos para muitos se justificava no simples fato delas serem pessoas públicas. Para alguns, se elas são famosas, elas devem ter seu direito à privacidade mitigado para que assim todos possam julgá-las e avaliá-las, acompanhar cada pedaço de suas vidas e alimentar ainda mais a sociedade do espetáculo. Achar as vítimas bonitas não é justificativa para alimentar a exposição. A beleza delas não serve à você e à sua sexualidade.
"O termo "caiu na net", cunhado no orkut e muito utilizado hoje, banaliza o que a exposição dessas imagens íntimas de fato é. Um crime, uma crueldade, uma forma de vingança e de humilhação. Viola-se o consentimento da mulher, coloca-se o corpo daquela mulher como um corpo disponível para ser visto por todos que queiram. A imagem não surge do nada, ela é postada por alguém."

O corpo das mulheres é visto como público em nossa sociedade, sendo elas celebridades, a banalização da exposição da privacidade delas aconteceu com ainda mais naturalidade. Até mesmos alguns que diziam #JenniferLawrenceWeSupportYou buscavam as fotos, comentavam o corpo dela, ignorando que esse clique da busca pela imagem é uma forma de compactuar com a continuidade desse tipo de crime. Mesmo que as fotos já estejam circulando na internet, ao buscá-las e compartilhá-las você contribui para que essas exposições continuem acontecendo dando o click e age de forma insensível com as vítimas, visto que elas não consentiram que você tivesse acesso ao arquivo.

Vazar fotos íntimas de pessoas sem a autorização delas é um crime que atinge principalmente mulheres por causa do machismo e da misoginia. A constante objetificação dos corpos designados como femininos, a visão de que eles são públicos e a condenação da sexualidade feminina são os porquês dessas imagens causarem tanto furor, julgamento e culpabilização. Anônimas, ao terem sua intimidade exposta, são atacadas de xingamentos carregados de misoginia, como "vadia" e tem seus corpos avaliados de forma cruel.  Muitas vezes perdem seus empregos, o apoio da família e dos amigos e algumas até suicidam, após tamanha perseguição e por causa das consequências da exposição em suas vidas.

Privacidade é um direito humano e mulheres, sendo anônimas ou não, devem ter seus direitos respeitados. Os corpos das artistas não pertencem ao fandom, nem aos sites de notícias e nem a quem as expôs. Os corpos das mulheres não pertencem aos namorados, companheiros, ficantes ou aos antigos relacionamentos delas. O corpo é delas e elas tiram fotos nuas se curtirem isso e compartilham apenas com quem elas quiserem e nós, internautas, que não somos os reais destinatários dessas imagens não devemos alimentar ainda mais essa exposição. 
"Para aqueles que estão olhando as fotos que eu tirei com meu marido há anos atrás na privacidade da nossa casa, espero que vocês se sintam ótimos com vocês mesmos."


Bons links: 

"This is why you shouldn't click on thenaked photos of Jennifer Lawrence"
"Tua intimidade nos pertence" - Lugar de Mulher

Sobre fotos nuas, Jennifer Lawrence, eu e você




quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Bullying machista: Somos todas Karina, Amanda, Denise...


Com o crescimento do uso das redes sociais e da internet, aumentou consideravelmente os casos de divulgação de imagens íntimas de mulheres. E as mulheres vítimas dessa exposição costumam sofrer uma verdadeira caça às bruxas. As bruxas do século XXI são as mulheres que fazem sexo.
A mulher que "cai na net" é massacrada por julgamentos, ofensas e culpabilizações. Mesmo muito dos "defensores" as chamam de tolas por terem confiado em alguém. As mulheres são proibidas de confiar em qualquer pessoa e devem estar sempre atentas, sob pena de serem consideradas culpadas. Quem divulgou as fotos ou os vídeos não foram elas, pode ter sido um ex-namorado, um vizinho chantagista, um hacker, mas a culpa é da mulher. Elas deveriam ser castas, não fazerem sexo e se fizerem, jamais se deixarem fotografar ou serem filmadas. Os nomes que são lembrados não são os dos caras que divulgaram as imagens dessas mulheres sem o consentimento delas. Os nomes marcados, as vidas que são destruídas, são as dessas mulheres. Sendo que fazer sexo não é crime, mas expor pessoas na internet sem autorização o é.
  
Um caso que chocou o mundo foi o da Amanda Todd, canadense de 15 anos que suicidou-se por não aguentar mas as perseguições machistas e misóginas que ultrapassaram os muros da escola. Essas perseguições foram causadas pela divulgação de imagens dela mostrando os seios. Ela sofreu ameaças, chantagens, entrou em depressão, foi ofendida e ameaçada pelos próprios colegas, acabou se envolvendo com drogas e no fim, suicidou. Uma história triste, onde se vê claramente o poder do machismo e da misoginia e como a caça às bruxas às mulheres consideradas "vadias" é cruel.
Via Não aguento quando.
A internet vira um tribunal para essas mulheres expostas. Expor essas imagens são uma forma de vingança específica contra mulheres. Afinal, enquanto fazer sexo é considerado um horror para as mulheres, uma forma de "desvalorização", para os homens a lógica que se aplica é contrária. Por que as mulheres não expõem imagens íntimas de homens? Simplesmente porque expor essas imagens não funcionaria como vingança, os papéis não se inverteriam. Ela continuaria a "vadia". A mulher que fizesse isso, seria chamada de louca, ciumenta, histérica. Afinal, a loucura e o ciúme são relacionados à irracionalidade, característica constantemente atribuída às mulheres. E o homem seria considerado vítima, ele não seria considerado culpado, ninguém diria que "ele mereceu". Afinal, o machismo diz que o sexo é humilhante e degradante pra mulher, enquanto para o homem não.

O termo "caiu na net", cunhado no orkut e muito utilizado hoje, banaliza o que a exposição dessas imagens íntimas de fato é. Um crime, uma crueldade, uma forma de vingança e de humilhação. Viola-se o consentimento da mulher, coloca-se o corpo daquela mulher como um corpo disponível para ser visto por todos que queiram. A imagem não surge do nada, ela é postada por alguém. Atrás dessa "postagem", há ameaças como "se você me pagar tal valor, eu não divulgo suas fotos", ou até mesmo "se você me abandonar, nosso vídeo vai para internet". Há a espera pela reação de julgamento da sociedade, há a intenção é humilhar.

Muitas vezes muitos dos que utilizaram essas fotos e vídeos para o próprio prazer, são os primeiros a julgar aquela mulher e montar seu tribunal. A pessoa é vista apenas como entretenimento para os julgadores. Afinal, o bullying se sustenta nessa cultura de ódio que diz que certos tipos de pessoas devem provar o seu valor para conquistarem respeito. O respeito para as mulheres não é considerado algo inerente, ele deve ser provado. E exercer sua sexualidade é considerado uma afronta ao comportamento ideal da mulher. E qualquer mulher que foge desse ideal conservador e machista, é considerada merecedora de exposição, humilhação e até mesmo violência.