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quarta-feira, 18 de junho de 2014

Guestpost: Blue Ivy e o racismo que vai até o fio de cabelo.


Semana passada surgiu na internet um abaixo-assinado pedindo que a Beyoncé e o Jay-Z penteassem o cabelo da filha Blue Ivy. O abaixo-assinado surgiu após a divulgação de uma foto da menina no colo do pai, ambos com caras de sono. 
Foda-se o seu padrão de beleza eurocêntrico!
A criadora é a estadunidense Jasmine Toliver e na página do abaixo-assinado, ela se diz uma "mulher que entende a importância de cuidados com os cabelos" e afirma ser "perturbador assistir a uma criança que sofre com a falta de cuidados do cabelo". A página afirma que Beyoncé e Jay-Z falharam em várias tentativas de cuidar dos cabelos de Blue Ivy, levando ao "desenvolvimento de dreads emaranhados e bolas de pêlos". E sugere o envio de um bilhetinho, como o pedido: "penteie os cabelos de Blue Ivy". Uma página inteira cheia de comentários racistas de gente que não entende que cabelo black é penteado e é questão de escolha. 

Tenho primas e amigas com lindos cabelos crespos e todas dizem que o processo para pentear os cabelos crespos é doloroso e muitas vezes é penteado a seco causando enorme desconforto. Por que uma criança de 2 anos precisa passar por isso só para deixar o cabelo “arrumado”? Lembrando que o conceito de arrumação é totalmente relativo. Cabelo arrumado é o que, aquele que não tem fios fora do lugar?

Também li comentários dizendo que a Beyoncé deveria logo alisar os cabelos da filha. Submeter uma criança de 2 anos a um procedimento químico no cabelo é algo criminoso, não é? Além de fazer mal para a saúde também prejudica a identidade da criança, que vai crescer achando que alisar o cabelo é um procedimento normal. Tenho uma priminha de 6 anos que já alisa o cabelo há algum tempo e um dia eu perguntei por que ela deixava o cabelo dela livre e ela respondeu “cabelo liso que é bonito, prima”. 

Acho importante falar que quando a Beyoncé resolve deixar de ter os cabelos loiros compridos para ter tranças rastafáris ou black power também chove comentários contra ela. Beyoncé é uma mulher negra que tem muito orgulho da sua identidade e cultura, mas pelo jeito as pessoas esquecem desse fato e só aceitam a beleza dela quando está dentro dos padrões.  

Por que toda essa cobrança em cima de uma menina de 2 anos? Não tem nada errado em deixar o cabelo da Blue Ivy livre. A Beyoncé sabe da sua representatividade e o fato dela deixar o cabelo da filha livre influencia outros pais a fazerem o mesmo. Deixem as crianças serem livres, deixem elas se conhecerem e se amarem do jeito que são. É muito importante para a construção de identidade de uma menina saber que o cabelo dela é lindo, saber que ela é linda e que ela não precisa se submeter aos padrões de beleza. A construção da autoestima é de extrema importância, porque cria estrutura para a mulher poder lidar com as questões da vida. 

Toda mulher sofre com a constante opressão de não estar “boa” e “bonita” o suficiente para todos os estereótipos que são estabelecidos pela sociedade patriarcal e machista, porém a mulher negra sofre duplamente por conta do racismo. E acontecimentos como esse envolvendo a Blue, piadas, papéis em novelas, filmes e séries influenciam diretamente na construção de identidade que a mulher negra cria sobre si mesma, sobre seu papel e lugar na sociedade. As mulheres negras vêem tantas representações negativas que acabam acreditando que é a realidade. 

É importante ressaltar a beleza negra, ressaltar que um black power é poder e não “desleixo”, ressaltar que a mulher negra não precisa se adaptar aos padrões, ressaltar que a mulher negra é linda como ela é. Uma das coisas maravilhosas do feminismo é que ele te ajuda a se libertar dos padrões de beleza. O feminismo dá empoderamento, ajuda a mulher a descobrir o amor por si mesma e mostra que ela não precisa se adequar ao padrão de beleza que as mídias vendem. 
"O cabelo da mulher negra, especialmente, não é somente um símbolo de seu próprio empoderamento e identidade, é também uma fortaleza que outras mulheres negras percebem e adotam como extensão da conscientização política. Isso precisa ser preservado e não pode, sob hipótese alguma, encontrar limites." - Em terra de chapinha, quem tem crespo é rainha? - Jarid Arraes


Cabelo veio da áfrica
Junto com meus santos

Benguelas, zulus, gêges
Rebolos, bundos, bantos
Batuques, toques, mandingas
Danças, tranças, cantos
Respeitem meus cabelos, brancos

Se eu quero pixaim, deixa
Se eu quero enrolar, deixa
Se eu quero colorir, deixa
Se eu quero assanhar, deixa
Deixa, deixa a madeixa balançar"

Chico César

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Beyoncé Feminista. E poderosa.

O texto que vos apresento abaixo está longe de ser uma unanimidade. Eu mesma confesso que nunca pensei na Beyoncé como um "grande ícone feminista". Tenho mudado de idéia. Principalmente por ter visto a última apresentação da diva, e pela leitura do texto abaixo, que traduzi com o intuito de postar aqui. E também pela leitura desse outro texto aqui (em inglês). 

Para contextualizar: o artigo trata, basicamente, da apresentação bombástica que a Beyoncé fez durante o intervalo do jogo de abertura do Super Bowl. Uma explicação rápida acerca do que é o Super Bowl se encontra aqui.

O nosso intuito, ao trazer esse texto para vocês, é estimular um debate a respeito. Eu, Flávia, acredito ser muito importante que mais e mais pessoas famosas se assumam feministas. Mesmo que elas se contradigam volta e meia, ou frequentemente, eu acho crucial que tenhamos mais visibilidade. E mais irmandade, afinal, ninguém está livre de contradições. Eis:




Imagem retirada da page do Machismo Nosso de Cada Dia, no Facebok
"Se o que você viu foi uma cantora vendendo sexo às massas em um figurino minúsculo, deixe-me dizer que você viu o que você queria ver.

Se o que você viu foi uma exposição ofensiva, inapropriada e hipsersexualizada de pernas e outras partes mal-cobertas, deixe-me sugerir que você viu apenas o que você estava  encarando, não o que realmente aconteceu naquele palco.

Se o que você viu foi uma artista levando homens (e mulheres) por toda a América a cometer o pecado da luxúria em seus corações, você perdeu o ponto totalmente.

Porque a performance da Beyoncé domingo passado em Nova Orleans não foi sobre sexo. Foi sobre poder, que a Beyoncé teve em abundância. Na verdade, o show dela foi uma das mais constrangedoras, encorpadas e proféticas demonstrações de poder feminino que eu já vi na televisão mainstream.

O fato de uma mulher negra ter se afirmado e se apropriado do seu poder durante essa celebração misógina e consumista conhecida como o Super Bowl realçou a bravura e o brilhantismo da mesma. Não é de admirar que as pessoas tenham tentado retomar o controle dela e de seu corpo ao marginalizar e sexualizar a sua performance.

A Beyoncé estava atraente, sexy? Certamente. Mas, mais do que tudo, ela estava poderosa. Poucas coisas são mais ameaçadoras à audiência masculina do que uma mulher bonita e poderosa que não precisa de um homem, nem mesmo de um olhar masculino.


Talvez os amigos não notaram conscientemente que não havia sequer um homem no palco. Durante aqueles poucos minutos, não houve vozes masculinas e nem corpos masculinos no controle, apenas mulheres que se recusaram a ser apropriadas. E não se tratava apenas de muheres dançando lá em cima, apesar do foco das câmeras ter sido basicamente nisso. As mulheres no palco estavam criando, tudo. Elas se apropriaram de imagens tradicionais masculinas e as transformaram em femininas - não apenas imitaram os homens. Elas estavam reinvindicando papéis e instrumentos tradicionalmente ligados a homens: os chavelhos e os saxofones, o solo pirotécnico de guitarra.  


Elas foram ferozes, mas se negaram a se masculinizar ou a se objetificar.
Parte de meus amigos zombaram da Beyoncé, postando insultos como " pior intervalo de show de todos os tempos" ou "tirem essa porcaria desse projeto de música do meio do campo". Teve um que simplesmente rotulou toda a apresentação como "Peitos do Sul Selvagem", um sofisma decididamente racista e sexista.

A resposta das minhas amigas foi marcadamente diferente. Uma exclamou, "o corpo dela é maravilhoso! Eu adoro como ela é encorpada! Eu quero aquele corpo e aquela energia!" O corpo da Beyoncé é importante - não porque é hipersexualizado - mas porque se tratava apenas de um corpo de mulher, não de um corpo de mulher esculpido para um homem.  

Então aqui, no meio dos comerciais e de uma cultura que objetificava as mulheres e seus corpos e no meio de um espetáculo esportivo que constrói poder em termos de violência, a Beyoncé começou sua performance derrubando a narrativa. Ao caminhar pelo palco, Beyoncé demonstrou mais poder em um punhado de passos premeditados e desafiadores que ambos os times durante todo o primeiro tempo. Em resumo, durante aqueles poucos passos, andando como uma mulher, a Beyoncé declarou posse daquele palco - daquele estádio - e, mais importante, reinvidicou posse de seu próprio corpo durante as mais misóginas e objetificantes quatro horas de cultura de massa.

É preciso ser guerreira pra conseguir fazer algo assim. Não foi de surpeender que na metade do show, a deusa guerreira hindu Durga apareceu, encarnada pela Beyoncé. Numa tela de pop-up, mãos emergiram e rodearam a Beyoncé por trás. Não se tratavam de mãos masculinas. Não eram as mãos de Justin Timberlake ameaçando despi-la em um "guarda-roupas defeituoso". Tratam-se das mãos dela e elas tentam abraçá-la, não para possui-la mas sim para expandir seu poder.

A imagem de Durga é a mais apropriada para a performance da Beyoncé. Durga, cujo nome significa um forte que não pode ser invadido. Durga, a mãe, a guerreira, a que protege do mal. Durga, a guerreira que luta contra demônios, e os vence.

Durante as duas semanas passadas, críticas foram disparadas à Beyoncé por dublar o hino nacional nas festividades de posse do presidente Barack Obama. Ela foi satirizada e descartada. Mas, domingo passado, a Beyoncé riu por último.

Quando as ex-integrantes do Destiny's Child deixaram o palco, a Beyoncé irrompeu em um poderoso número de dança. Naquele momento, parecia que ela estava dançando sobre o túmulo fresco do sexismo, da supremacia masculina, de todos os trolls que tentaram reduzi-la a qualquer coisa que não fosse bonita, talentosa, poderosa, qualquer coisa que fosse menos que uma mulher.

Foi uma dança de desafio.

E todas as mulheres do palco se juntaram a ela.

Não houve vergonha.

Beyoncé presenteou o mundo com a sua performance. Por 14 minutos, as mulheres não foram posse de ninguém. Ao invés disso, durante aqueles minutos poderosos e proféticos, a Beyoncé e as mulheres do palco se apropriaram da noite.

Naquela noite, os homens, a misoginia, a objetificaçao ou sexismo não venceram, ainda que tenham contado com a maior parte do tempo no ar.

Ao invés disso, graças à Beyoncé, as mulheres se apropriaram do Super Bowl XLVII."

* Texto de David Henson. Original, em inglês, aqui.