Mostrando postagens com marcador Violência obstétrica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Violência obstétrica. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Chega de violência obstétrica! Pelo direito de parir e nascer sem violência.

Retratos da violência obstétrica
A violência obstétrica acontece quando profissionais de saúde desrespeitam a vontade e autonomia da grávida, omitem informações sobre parto e saúde que possibilita a mulher de fato escolher se quer parto normal ou cesariana, utilizam-se de técnicas arcaicas e agressivas contra o corpo designado como feminino e tratam a grávida de forma completamente desumanizada, fazendo piadinhas com sua sexualidade e impedindo que a grávida manifeste suas emoções . 
"A violência obstétrica existe e caracteriza-se pela apropriação do corpo e processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso da medicalização e patologia dos processos naturais, causando a perda de autonomia e capacidade de decidir livremente sobre seus corpos e sexualidade" 
Ela é naturalizada em nossa sociedade por causa da misoginia tão enraizada na nossa cultura e nas práticas médicas. Uma das fontes dessa naturalização da violência é a ideia de que o corpo da mulher é público, especialmente durante a gravidez. Muitas mulheres relatam que ao noticiar a gravidez todos se sentem no direito de opinar sobre o corpo delas e se o comportamento delas é coerente com o de uma futura mãe e até mesmo passam a tocar na barriga sem consentimento. 

Se a grávida se mostra incomodada com as intromissões e toques não consentidos, ela ouve frases como "Nossa, mas grávida fica muito sensível mesmo, não é?" e até mesmo "Nossa, bem que dizem que grávida fica beirando a histeria". Essa visão de que grávidas são malucas, histéricas e não sabem o que querem e o que fazem contribui muito para a naturalização da violência obstétrica porque é uma forma de desvalorizar a voz das mulheres que ousam denunciar. As denúncias de violência obstétrica são encaradas pela maioria das pessoas como um exagero, excesso de sensibilidade, sendo que é uma violência e é necessário dar visibilidade a voz das mulheres que foram vítimas dessa desumanização para que as pessoas parem de encarar uma violência sistêmica como uma bobagem. 

Na maioria dos relatos de sobreviventes dessa violência a gente vê como a demonização da sexualidade feminina influencia nas frases tão agressivas que são ditas para as pacientes. Frases comuns nos relatos são "Na hora de fazer você não gritou" e "Pensava nisso antes de abrir as pernas" e elas escancaram como a dor na hora do parto muitas vezes é vista como uma punição para a mulher que exerce sua sexualidade. 

Um procedimento médico comum nos hospitais brasileiros é a episiotomia de rotina e posteriormente, o "ponto do marido". A episiotomia é um corte cirúrgico na área do períneo pra ajudar na saída do bebê que é, na grande maioria das vezes, desnecessário. A episiotomia de rotina, procedimento tão naturalizado no mundo médico, é uma violência obstétrica, principalmente porque ela ocorre muitas vezes sem o consentimento da grávida. O "ponto do marido" ocorre na sutura da episiotomia e consiste em dar um pontinho a mais. Normalmente também ocorre sem o consentimento e sem o médico dar as devidas informações para a grávida. A violência do "ponto do marido" é escancarada, já que o corpo da mulher, sua recuperação e sua sexualidade são colocados como menos importantes que o prazer do parceiro e também por ter muito a ver com a visão arcaica que vaginas "relaxam" e da valorização da virgindade feminina.

"No Brasil e em outros países, temos o agravante do chamado "ponto do marido", a apertada adicional da vulva supostamente para "devolver à mulher a condição virginal", muito freqüentemente associada a dores na relação sexual e mesmo à impossibilidade da penetração, necessitando correção cirúrgica".

Não só o machismo influencia nas agressões, mas também o racismo, visto que as mulheres negras sofrem com o mito, que se funda no racismo, de que elas são mais resistentes. Por causa desse mito, mulheres negras recebem menos anestesia durante o parto. 

A violência obstétrica está presente na história das mulheres que engravidam e sua gravidade não é reconhecida pela sociedade. Falar sobre violência obstétrica, lutar pela humanização do parto, utilizar a internet e conversas para informar mulheres sobre seus direitos e sobre procedimentos considerados arcaicos e agressivos é lutar contra a violência contra a mulher.

Por isso, no dia 24 de julho, haverá um tuitaço com a hashtag #ParirSemViolência, a partir das 16 horas. Ajude dar visibilidade a esse problema e diga conosco: Chega de violência obstétrica! (a hashtag #NascerSemViolência também pode ser usada em conjunto com a outra)




Para quem quer saber mais sobre o assunto, eu indico os sites Paula IrRita, Para Beatriz, Femmaterna, Estude, Melania, estuda, e Cientista que virou mãe e os nossos textos sobre maternidade e feminismo.

Cientifique-se humana -  Paula Mariá 

Quanta dor cabe em um corte de cesária -  Paula Mariá

Não deixem de conhecer o projeto Retratos da violência obstétrica e sua página no facebook Projeto 1 : 4.

Mais textos:

Violência obstétrica é violência de gênero. Ou até quando vamos tolerar misoginia? - Para Beatriz 

Negra e grávida: ainda mais invisível? - Blogueiras Negras

Grávida, pobre e negra - quando a violência e a omissão obstétrica matam e parir vira uma questão de coragem - Blogueiras Negras

Na hora de fazer não gritou 

Observação: homens trans e pessoas não binárias com útero também podem engravidar.  A reivindicação de um parto sem violência é alcança também essas pessoas. (Nem todas as mulheres podem engravidar e tem útero). 

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Cientifique-se humana

No último domingo mulheres de diversos lugares do país foram as ruas na Marcha pela Humanização do Parto. A Marcha é uma resposta a diversas atitudes dos Conselhos de Medicina do nosso país e posturas do sistema de saúde em geral que violentam os direitos das mulheres diariamente ao negá-las, entre outras coisas, o protagonismo da parturiente.

A violência obstétrica se dá por meio do desrespeito, tortura psicológica, realização de procedimentos não autorizados pela gestante, alertas desnecessários, informações falaciosas e muitas outras formas. Há uma tendência (baseada exclusivamente na falta de informação sobre o assunto) de se pensar que o movimento pela humanização do parto quer torná-lo "obrigatório". Não é isso. Nossas queixas com relação a violência sofrida se estendem as mulheres que precisavam de uma cesárea e tiveram essa negada, que pediram por medicamentos e foram negligenciadas. Todo e qualquer atento contra o direito de escolha, autonomia e necessidade de uma mulher com relação ao seu próprio corpo é uma violência brutal.


Eu já relatei aqui minha história para vocês. E basta ler os comentários para compreender a problemática desse assunto. O que não falta é gente dizendo que isso é pouco, que desejar ser bem informada, apoiada e escolher arbitrariamente a melhor forma de parir é “mimo”, que o médico sempre sabe o que é o melhor para a gestante e para o bebê e, por fim, que ao invés de eu estar reclamando deveria era estar curtindo a minha filha (!).

Essa reação é típica de quem está envolvido ou adaptado a um sistema de saúde tecnocrático. As questões emocionais e psicológicas são consideradas secundárias e desimportantes, o nascimento enquanto trabalho é envolvido em um fordismo racionalizado que desconsidera qualquer outro tipo de conhecimento que não o masculino técnico-científico. A gestação é um festival de misoginia. Uma mulher gestante tem constantemente sua voz calada em nome dessa suposta ciência (que na realidade, nada se baseia em evidências).

Enquanto a Organização Mundial da Saúde recomenda que a porcentagem de cesáreas seja de 15%, no Brasil essa taxa chega a 85%. Embora os riscos de tal cirurgia sejam muito maiores do que os apresentados no parto, tanto para mãe quanto para o bebê. O parto não é compreendido como um evento natural fisiológico e a gestante é comumente tratada como “uma louca cheia de hormônios que não sabe o que está dizendo”, um clássico do diagnóstico da histeria que associa o corpo e a mente da mulher a um ambiente hostil e irracional.

Pense: É coincidência que as profissões ligadas ao parto humano e domiciliar sejam majoritariamente femininas? Quando se unem gestantes, parteiras e doulas está ali formado um ambiente de protagonismo da mulher. Um ambiente de força e união que não se baseia em mitos e não permite que se instale ali a opressão machista que insiste no controle do corpo da mulher em todos os aspectos: Desde a determinação do que é correto em nossa sexualidade até a invasão ao nosso físico.

Não é exagerado comparar essa resistência moderna ao conhecimento feminino com a caça as bruxas medieval. As áreas de conhecimento dominadas pelas mulheres estão sendo desconsideradas e marginalizadas, jogadas para fora do que determinaram que seria chamado de “ciência”. A proibição parto em casa e da ocupação de Doula demonstram como a medicina moderna está assustada com a possibilidade desse processo de humanização da ciência, no qual se preza por uma visão mais universal do corpo (considerando aspectos psicológicos, a possibilidade de somatização, entre outros pontos).

A resistência a essa medicina controladora continuará sendo demonstrado por nós diariamente. Nós não queremos ser dominadas por esse Conselho que age incutindo medo e falta de autoconfiança em nós. Cada mulher conhece o seu corpo e, com a ajuda dos que acreditam em sua capacidade, é capaz de exercer sua autonomia com segurança e de forma plenamente saudável.