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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Não salva fetos. Mata mulheres.


Ontem, 28 de setembro, foi o Dia Latino Americano e Caribenho pela Descriminalização do Aborto. Em várias cidades do país, mulheres foram às ruas para reivindicar o controle sobre seus direitos reprodutivos. Em São Paulo, cerca de 200 feministas ocuparam a Avenida Paulista para lembrar que o assunto é da esfera da saúde pública e que o Estado Laico, ao descurar desse direito, assume a morte de mulheres sujeitas ao aborto clandestino.

Com esse enfoque, o "Cortejo da Mulher Morta em Aborto Clandestino - Pela Legalização do Aborto" fez coro em lembrar que é a mulher pobre, sem acesso aos procedimentos seguros que fica mais vulnerável pela proibição.

Um caixão, carregado por ativistas clandestinas, tratava do assunto em primeira pessoa, como deve ser. É preciso humanizar a mulher que opta pelo aborto. O pensamento moralista de que a gravidez, e consequentemente um bebê, é punição para a mulher que faz sexo desconsidera a participação de um homem na concepção. 

A realidade é que a proibição legal, retrógrada e incoerente, não inibe que as mulheres abortem. Você conhece alguma mulher que abortou? Provavelmente você não sabe, mas sim, você conhece. Mais de 800 mil mulheres se submeteram ao procedimento no Brasil. Dessas, há estimativas de que a cada 2 dias, uma morre. Muitas outras recorrem aos hospitais pelas complicações ocorridas no procedimento.

Elizangela tinha três filhos e não queria o quarto. Jandira tinha dois e não queria o terceiro. E em nome da legislação que protege um feto, mais duas mulheres perderam a vida. E, vamos calcular, cinco crianças ficaram órfãs. 

Nota como a proibição não salva fetos? Mata mulheres! E, repise-se, mata uma a cada dois dias.

A desonestidade com que se defende a proibição é vergonhosa. Uso de imagens de crianças já nascidas. Uso de imagem de fetos já formados, com muito mais semanas de vida do que se defende como seguro. Tratamento da mulher como mero receptáculo salvador. Uso de dados falsos, vídeos falsos e nenhum aprofundamento nos argumentos, trazendo rasos argumentos baseados no moralismo fundamentalista e no senso comum. 

Métodos contraceptivos falham. Fetos sofrem anencefalia. Mulheres são submetidas à estupro. Gravidezes provocam riscos de vida. Mulheres não podem, ou não querem, ter filhos. Não importa qual motivo, a escolha não cabe ao pensamento moralista e individual. A escolha é de cada um.

Essa, que é a pauta mais polêmica do feminismo na atualidade, é a nossa luta. Pelo direito ao aborto seguro, legal e gratuito. 

Instruções de uso:
1. Pegue uma pedra
2. Julgue
3. Atire
"Eu abortei"

Numa tarde, caminhando de luto sob o Sol, rememorei vários sentimentos. Naquele caixão, logo ali na abertura do ato, eu poderia ter sido enterrada. Quem estaria no meu cortejo? Quantas pessoas me julgariam por ter feito sexo. Diriam que eu procurei isso, que não me protegi. Poderiam até afirmar que eu mereci, que fui suicida. Que paguei com minha vida por ter esquecido da proteção. Não acredito que alguém perguntaria qual o segundo sujeito da gravidez que para mim era indesejada. "Cadê o homem que engravidou? Por que o crime é da mulher que abortou?"

Poderia ser eu, naquela vez que aliviada comemorei a vinda da menstruação. Poderia ser eu se não tivesse recurso de ter tomado, uma vez na vida, a pílula do dia seguinte. Poderia ser eu, caso a camisinha furasse. Poderia ser eu, caso a pílula anticoncepcional falhasse. Poderia ser eu, mulher adulta que trepo. Que ando pelas ruas insegura. Eu, que vivo num país em que o aborto é proibido e criminalizado. Penso que poderia ser eu quando leio notícias sobre a prisão de mulheres. Penso que poderia ser eu e sinto pela morte de Jandiras e Elizangelas. Eu só tive um pouco mais de acesso à informação e aos contraceptivos. Eu só tive um pouco mais de sorte de que eles não falhassem.  

*Aborto legal, seguro e gratuito não é apenas direito das mulheres, homens trans e pessoas não binárias com útero também podem engravidar. A reivindicação é para todas essas pessoas. E nem todas as mulheres podem engravidar e tem útero.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Revogação da Portaria 415: e o aborto permitido por lei, não será seguro e gratuito?

A legislação brasileira permite abortos nos casos em que a gravidez decorra de estupro ou que coloque em risco a vida da gestante. Além desses dois casos, o STF, descriminalizou, no ano de 2012, o aborto do anencéfalo.

A legalidade deveria assegurar gratuidade e segurança no procedimento. A mulher que buscava o Sistema Único de Saúde para a realização do aborto encarava uma odisseia e raramente obtinha sucesso na empreitada.

No último dia 22 de maio, foi publicada a Portaria 415 incluindo na tabela de procedimentos do SUS a interrupção da gestação/antecipação terapêutica do parto nos casos previstos em lei, em substituição à expressão "curetagem". Havia, finalmente, uma garantia mínima de que dignidade para as mulheres que dela necessitassem, com o procedimento adequado. Sem que houvesse tempo para a aplicação prática da Portaria, houve articulação política para a revogação da norma.

A barganha política atendeu o clamor de um grupo fundamentalista, ignorando, mais uma vez, a laicidade do Estado. Mais um retrocesso comemorado pela bancada evangélica que empurra às mulheres, independente de suas crenças, o que lhe parece acertado.

Os argumentos para a revogação são infundados, afirmou-se que a regularização favoreceria abortos ilegais, que não havia necessidade rigorosa de comprovação de que a gravidez era decorrente de estupro ou mesmo que o médico seria obrigado ao procedimento ainda que contrário às suas convicções religiosas.

Considerando que em duas das hipóteses a legalidade é comprovada por mero atestado médico, resta mais uma vez questionada a idoneidade da mulher. A palavra de quem afirma ter sofrido um estupro é colocada em descrédito, vez que ela tem que provar a ocorrência do crime, independente da dor que sente, da vergonha, do tempo que se passou e da iminência de ter uma prole indesejada, fruto de violência sexual.

A revogação da portaria atinge, mais uma vez, a dignidade de mulheres pobres, que não podem pagar pelo procedimento seguro e se submetem aos métodos perigosos e clandestinos.




Segurança na realização de aborto nos casos previstos em lei é uma questão de saúde pública. O Estado é laico, então a moral e a religião não podem influenciar nessa questão.

Se essa notícia também lhe pesou como um retrocesso aos direitos das mulheres, atente para a nossa convocação. Tire uma foto com sua manifestação de repúdio à revogação da Portaria 415 e em favor da laicidade do estado e envie para ativismodesofa@gmail.com. A Page do Ativismo de Sofá no Facebook fará um álbum com as imagens enviadas.

Organize, articule, escreva, levante-se. Em SP já há um ato organizado. E twittaço com a hashtag #AbortoLegal marcado para o dia 06/06. 

*Aborto legal, seguro e gratuito não é apenas direito das mulheres, homens trans e pessoas não binárias com útero também podem engravidar.  A reivindicação é para todas essas pessoas. 

Textos que recomendamos:

Revogação da Portaria Nº 415: na contramão dos direitos humanos das mulheres brasileiras - Nota de repúdio. 
Aborto não é palavrão: entenda a portaria 415 - Lugar de Mulher 

sábado, 8 de junho de 2013

Marcha das vadias: rara oportunidade de liberdade da mulher no espaço público

Aproveitando que hoje aconteceu a Marcha das Vadias em Londrina (PR), aproveito para trazer meu relato atrasado sobre o que vivenciei na MdV de São Paulo.

A polêmica Caitlin Moran faz um apelo em seu livro “Como ser Mulher”: a assumir sua adesão ao movimento subindo numa cadeira berrando “Sou feminista”.


Para muitas de nós, esse momento de subir numa cadeira e gritar seus ideais feministas para o mundo tem uma data certa: A marcha das Vadias. Por mais que cada uma de nós declare seu ativismo no dia a dia, em ciberativismo, nas conversas de bar, nas atitudes, nos estudos, na universidade, no trabalho, em família, é nesse instante que um coro lindo se forma para mostrar o quanto o patriarcado nos oprime e dizer que não toleramos mais a violência contra o gênero feminino.

Arquivo pessoal
Aguardei ansiosamente pela data. Não só pelo protesto em si, mas por saber que ali eu encontraria meus pares. Mas, como nossas rotinas nem sempre colaboram, meu dia 25 de maio estava abarrotado de atividades inadiáveis.

Foi por esse motivo que eu me atrasei, iniciei minha marcha uma hora depois daquela definida pela organização. Perdi a oficina de cartazes, estando há duas quadras da praça do ciclista. E perdi a saída da marcha por responsabilidades escolares há menos de dois quilômetros da esquina da Paulista com a Augusta. Frustração define.

Dadas as adversidades, eu fiz, acompanhada de uma amiga, uma marcha um pouco mais silenciosa. Ambas vestidas de “vadias” atravessamos a rua Augusta, saímos dos Jardins até a Praça Roosevelt. E foi nessa nossa caminhada que a cada esquina, fosse um boteco, ambulantes, transeuntes ou motoristas, notávamos que as roupas curtas, ainda que com as pernas protegidas por meias opacas e casacos cobrindo nossos colos e abdome,  davam margem a olhares libidinosos, comentários grosseiros, convites inoportunos.

Será que é necessária muita empatia para que um assediador entenda que isso é agressão? Que um "psiu", "ê, lá em casa" e outros comentário análogos não são elogios? Em que momento nossas roupas autorizaram o assédio? Onde há previsão legal de que machistas detêm o direito de rotular pela vida sexual que eles imaginam que temos? 

Não, não há respeito à individualidade, à tranquilidade e à dignidade de uma mulher na rua. E está enganado que isso depende do quanto a vestimenta feminina revela o corpo.

Comportamento machista revisitado minutos depois de mil e quinhentas pessoas passarem por ali, celebrando o direito de se vestir como quiser. Homens se impondo, validando a masculinidade por meio de cantadas. Não te parece um abuso ainda maior? 

Num dia normal esse tipo de assédio me ocasionaria acuada, enojada, desprotegida, com aquela sensação de desprezo que toda mulher conhece e que tanto tememos demonstrar. Mas, naquele dia, e só naquele dia, a cada quadra que eu ultrapassava, a sensação de empoderamento aumentava. A rua era nossa.

Nós também sentimos calor
Ao final da caminhada quase que solitária (Geisa, obrigada pela companhia), encontrar uma bateria entoando cânticos feministas me marcou. Foi ali, que eu encontrei amigos, pude, aliviada, despir meu casaco, refrescar meu corpo e me rotular “vadia”. 

A cada grupo que eu via, meninas, mulheres, algumas crianças, homens, cartazes, sons e sensações, eu alimentava mais meu feminismo, reforçando todo o orgulho que eu tenho de berrar, sussurrar ou argumentar minha posição de feminista.


Importante mencionar que, cumprido o papel de ativistas, um grupo, cuja amizade se materializou na marcha, se reuniu para uma confraternização. 

Amigxs do grupo "Machismo Chato de Cada Dia"

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Convivendo com intolerantes.





Acredito que uma pergunta que sempre surge em nós quando começamos a militar em prol de direitos iguais é: como conviver com pessoas intolerantes? 

Eu sei que é bem cansativo discutir com reaças e mascus que não conhecemos, online ou mesmo em salas de aula. Porém, a coisa muda quando se trata de pessoas próximas a nós, seja da família, ou mesmo amizades antigas. Não é raro ver esse tipo de discussão em grupos online, que acabam servindo de momentos de auto-ajuda, mas... a pergunta fica. 


Como lidar? Eu confesso que o meu caso é um pouco mais confortável nesse sentido que o de muita gente. Porque meu contato com muitas pessoas que conheço há tempos se restringe à internet. Morar fora do país tem inúmeras desvantagens mas, em se tratando de evitar atritos diários, eu diria que é uma bênção. 


Porém, mesmo comigo já aconteceu de bloquear/ser bloqueada. Tratavam-se de pessoas queridas. Pessoas que eu queria ter perto de mim, ainda que "perto" significasse apenas curtir status no facebook. Em todos os episódios, ficou a amarga constatação: as diferenças ideológicas entre eu e essas pessoas eram tão imensas, que já não dava mais para tê-las em estima. E assim elas se foram. E eu sofri. E por um bom tempo, eu me perguntei se fazia algum sentido sofrer por alguém que publica comentários odiosos no facebook como se estivesse fazendo um grande favor à toda humanidade. 


Hoje eu vejo que fazia, e faz, muito sentido. Isso de sofrer a perda. Faz sentido porque houve um momento, lá no passado, em que essas pessoas me demonstraram humanidade. Essas pessoas foram legais comigo. Elas me ouviram em algum ponto em que precisei ser ouvida. E eu também as ouvi. Houve troca. Houve sentimentos. 


Porém, nem tudo na vida segue de acordo com aquilo que almejamos. Eu queria dizer "nada" ao invés de "nem tudo", mas prometi a mim mesma que serei mais otimista. Então, chega um momento em que precisamos, de verdade, fazer escolhas. E não digo "escolhas" no sentido pieguinha do termo ("você é o que escolhe ser"), mas... escolha. Um momento em que você opta por não se desgastar. Porque, convenhamos, a vida já é difícil demais pra ficar em atrito o tempo todo com alguém que veementemente discorda de nós. 


Eu acho chato, muito chato, que o feminismo e os direitos humanos sejam vistos, por muitxs, como mera questão de opinião. Eu sonho verdadeiramente com o dia em que será ponto pacífico que mulheres e minorias merecem ser tratadxs com dignidade, em igualdade de direitos. Que o respeito é para todxs, independentemente de gênero, raça, crença, orientação sexual, status social. Entretanto, eu tenho consciência que esse dia ainda está bem longe. O andar da carruagem da política do nosso país, e do mundo, é prova disso. 


Como os tempos são difíceis para os sonhadores, como bem disse a nossa querida Amélie Poulain, a prática do nosso ativismo muitas vezes se torna angustiante, insuportável. Não é rara a sensação de perda de tempo, a frustração em ver que não estão lhe ouvindo, ou ainda, que lhe taxam de rebelde sem causa, que isso é "fase", ou então, que você enlouqueceu de vez. Em maior ou menor grau, eu já ouvi tudo isso. 


Mas então... o que me faz caminhar, o que me motiva a continuar, mesmo entre trancos e barrancos, com longos períodos de silêncio e muitas oportunidades em que eu simplesmente não encontro forças para falar? Eu acredito que a resposta está na sororidade. Está em encontrar espaços, no meu caso online, em que eu posso discutir idéias, estar com pessoas que acreditam no mesmo que eu. Está em ver minhas amigas indo para marchas diversas e vibrar com isso. Está em saber que alguma amiga que você jamais imaginava que concordaria contigo foi lá e curtiu seu status. Está em perceber que há meninas que enfrentam um verdadeiro calvário em suas famílias porque resolveram ser elas mesmas, ou seja: seres humanas dotadas de inteligência, personalidade própria, sexualidade, sonhos que ultrapassam tradições. 


Imagem retirada do blog Cabeça Tédio


Eu sei que o texto já está demasiadamente longo, mas queria deixar uma história que ouvi esses dias, em um curso que estou tentando fazer fazendo online: é sabido que o racismo impera nos Estados Unidos. Houve um tempo, porém, em que ser negrx era muito mais insuportável do que hoje em dia. Nesse tempo, que no caso do curso se trata do final do século XIX e início do XX, as pessoas negras viviam amedrontadas, pois havia uma alta probabilidade de serem linchadas em público, especialmente no sul do país. 


Imperava, então, a noção de que as raças deveriam permanecer separadas, mas sem diferenças no tratamento dado a todxs. Dessa forma, um bonde dedicado a brancxs deveria ter o mesmo conforto que um bonde dedicado a negrxs e todxs viveriam felizes para sempre, fechadxs em suas bolhas. 


Acontece que na vida real as coisas não eram tão simples. Não era raro que algum branco entrasse em lotações destinadas a negrxs, e os motoristas simplesmente pediam que algum negro cedesse o lugar ao branco. Também era bem difícil para os negrxs, que precisavam do transporte coletivo bem mais que as pessoas brancas, que dispunham muitas vezes de condução própria para se locomoverem pela cidade. E bem. O "conforto igual" só existia mesmo no papel. 


Então. Várixs negrxs resolveram burlar a lei, entrando nas lotações que não lhes eram alocadas. E houve brigas. E tumultos. E linchamentos. E protestos. E processos. Contudo, xs negrxs, que foram se organizando cada vez mais, perceberam que talvez fosse mais fácil - e eficaz - boicotar o transporte público. Daí que elxs resolveram andar. 


Campanhas e mais campanhas foram feitas para angariar pessoas ao boicote. E dentre as inúmeras histórias que a professora contou, uma ficou na minha mente: a de uma empregada doméstica cujo patrão, branco, não aceitava que ela andasse. Ela teria que levar o almoço para o patrão todos os dias, e voltar para a casa dele e preparar o seu jantar. Se ela caminhasse, o almoço chegava frio. 


Essa empregada discutia diariamente com o seu patrão. Pelos registros, percebe-se que ela realmente colocava a sua voz sempre que necessário. Parece que ficou acordado que ela pegaria a condução para levar o almoço a ele, mas voltaria a pé para casa. Mas, todos os dias eles discutiam a respeito. E ela, vendo que não poderia contrariar o patrão totalmente, encontrou a mencionada saída. 


Pode ser que o patrão realmente amasse a sua comida. Pode ser que seu dote culinário sobrepujava-se ao inconveniente de discutir com ela. Porém, uma análise mais atenta a tudo o que acontecia na época nos dá a dica: ele certamente não procurava uma outra empregada porque sabia que seria a mesma coisa. Porque todas aderiram ao boicote.


Aquela empregada fazia o que estava a seu alcance fazer. Mesmo tendo que pegar o tal do ônibus uma vez ao dia, ela fez o que podia fazer. Dentro das suas possibilidades. Porque ela sabia que aquilo era maior que ela. Que ela pertencia a algo grande. 





E é assim que eu me vejo. É nesse tipo de história que eu encontro forças para continuar a fazer o que eu posso, ou seja, escrever de vez em quando, em prol de uma causa que eu sei que é muito, muito maior que eu. 

Chegou um momento em minha vida em que percebi que o sofrimento é inevitável. Ficar em silêncio, entretanto, é opcional. É por isso que tenho tentado, cada vez mais, seguir adiante com a minha militância. Com o foco naquilo que realmente importa. Portanto, quando a convivência é compulsória, é preciso tentar encontrar uma forma de militar sem que a relação se deteriore tanto. E pra quando não houver necessariamente a obrigação de conviver:

"Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto pra enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar" - Geraldo Vandré. 


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O patriarcado e a manutenção da cultura do ódio

Hoje eu quero falar de dois acontecimentos dessa última semana que me deixaram bem entristecida. Em ambos os episódios, eu senti o amargo sabor da constatação: a misoginia encontra-se tão profundamente arraigada em nossa sociedade que eu sinto, infelizmente, que o nosso ativismo está longe, bem longe de acabar.

O fato é que eu lembrei de um texto que li outro dia, que você pode encontrar aqui (em inglês), cujo título é “5 razões pelas quais a humanidade deseja desesperadamente que monstros existam”. Eu confesso que comecei a ler o texto e achei-o bem bobinho. Não sou muito afeita a fatalismos biológicos e o artigo se baseia neles para dizer que os seres humanos precisam criar monstros para fazer valer a sua própria existência. Em outras palavras, para que você se sinta melhor com as decisões altruístas que fez em sua vida, é preciso opô-las a decisões moralmente condenáveis tomadas por outras pessoas. E é preciso, também, odiar profundamente essas pessoas.

O autor segue adiante dizendo que seres humanos sentem a necessidade de acreditar que as pessoas são deliberadamente más. Que qualquer ação que o senso comum considere ruim é feita com uma risada maligna nos lábios, como quem diz “hoje, por pura maldade, eu vou fazer algo que todos reprovam”. Afinal de contas, se acreditarmos que o outro pode estar agindo de forma “errada” sem saber, estamos abrindo o precedente para o fato de que nós, também, erramos inconscientemente. Precisamos acreditar, por exemplo, que somos exímios cidadãos e cidadãs incorruptíveis, ainda que furemos fila, xinguemos muito no trânsito e bem... tem os produtos oriundos de trabalho escravo que consumimos, né?

E por quê exatamente eu estou falando desse artigo aqui? Ora, para argumentar que, embora eu não acredite que estejamos biologicamente preparados para agir pelo ódio, eu creio sim que a humanidade realmente se deixa levar pelo ódio. E vejo o patriarcado como a grande origem disso.  Afinal de contas, é a cultura patriarcal que ensina, repete e reafirma à exaustão que qualquer desvio de uma suposta conduta moralmente aceitável deve ser achincalhado, apedrejado, tratado como uma abominação e queimado em praça pública. É aí que vemos pessoas “de bem” recorrendo à barbárie total para defender o seu código de honra. É o ódio sendo pago com ódio em um ciclo que acaba por desumanizar não apenas quem agiu “errado”, mas também quem defende, a unhas e dentes, aquilo que é “certo”. A Paula já falou disso aqui .

E sim, um dos episódios é a surra que a Carminha levou do Tufão, na novela da Globo. O fato é que a Carminha é uma vilã. Seguindo a lógica exposta acima, a sociedade simplesmente vibrou com a surra que ela levou do marido. O que me deixa com a pulga atrás da orelha, afinal, o episódio em questão revela o quanto a nossa sociedade valoriza o ódio. E comportamentos de vingança. E ver a violência tomando lugar como um ato de justiça. O Tufão teria sido justo. Milhares e milhares de brasileiros fazem essa mesma “justiça”, esbofeteando esposas, surrando namoradas que traíram, ou fizeram algum “mal”. Os índices estão aí. Indianas são mortas aos montes por conta de uma única palavrinha: honra. É preciso dizer ou vocês já sacaram que a dinâmica do ódio é muito mais cruel para com as mulheres, dado o caráter misógino com que se apresenta? E que as novelas, enquanto moldura e representação da cultura brasileira, acabam por perpetuar essa dinâmica de crueldade?

Mas peraí, Flávia, você está dizendo que a Carminha, tendo enganado meio mundo e traído seu marido, estava certa? Não. O que eu estou dizendo, ou pelo menos tentando dizer, é que a sociedade acha certo o linchamento público de mulheres. A sociedade, por considerar algum comportamento errado, reage com total barbárie, dando espaço a seus instintos mais violentos, no sentido de fazer valer o seu código de honra. É disso que estou falando. É dessa naturalização da violência com altos requintes de misoginia. Afinal, as pessoas não se juntam para linchar moralmente um cara que trai a esposa. Trata-se de dois pesos e duas medidas. E nem adianta argumentar que não é assim, a traição vinda de ambos os lados é ruim e errada. Porque essa é uma visão minoritária. E não são as minorias que aumentam os índices de violência doméstica contra a mulher. Porém, as minorias podem levantar a voz, e tentar mudar um cenário que está muito, muito errado.

O outro exemplo que eu quero apresentar a vocês também me embrulha o estômago. Tava lá eu no facebook quando me deparo com uma página comemorando a atitude da Skol em retirar o patrocínio do festival em que o New Hit participaria. Como eu achei o post engajado, fui lá e curti a página. Minutos depois, para o meu horror, a página posta um slut-shaming aberto e declarado contra a mulher Pêra, que você pode conferir aqui.  A página em questão possui 314 mil seguidores. Trata-se, claramente, de um meio formador de opiniões. Eu fico apreensiva com essa onda de backlash e barbárie que recai sobre as mulheres. Sim, as mulheres-frutas, as piriguetes, as prostitutas, as trans e todas as outras mulheres que habitam esse mundo e que ousam agir diferente daquilo que se considera “correto”, não são uma categoria à parte. São mulheres. Porém, a sociedade insiste em alçá-las à categoria de monstros, abominações. Só para resguardar seu direito de apedrejar quem pensa e age diferente.

Em uma sociedade que divide as mulheres em boas x ruins, unicamente de acordo com aquilo que elas fazem com o próprio corpo, não é de se assustar que comentários como os que vos apresento abaixo tenham surgido, em consequência do simples fato de que ela se atreveu a se candidatar a alguma coisa. Como que uma vadia dessas ousa adentrar o imaculado cenário político brasileiro? Eu dividi os comentários em 3 categorias:

1. Slut-shaming:

“É só mais uma cadela querendo se eleger, mas enfim pra combinar com ladrões em brasilia agora teremos uma vadia.”

“Nossa! depois dessa eu abandonaria a política, mulherzinhas iguais a esta aí só servem pra ficar num puteiro servindo os porcos...que nojo!”

“"VOTEM NAS PUTAS , POIS VOTAR NOS FILHOS DELAS NÃO DEU CERTO...." Parece que ela levou essa frase bem a sério”

“mesmo se ela me desse o rabbo dia 6 no dia 7 eu nao votava nela kkk”

“VIROU É PUTARIA ISSO SIM. CÂMARA DE VEREADORES NÃO TEM ND A VER COM CAMERA DE TV OU D FILME PORNÔ OU DA PLAYBOY. SUA IMBECIL. VÁ VESTIR UMA ROUPA E PROCURAR UM JEITO DE ESTUDAR PRA SER ÚTIL À SOCIEDADE.”

2. Recalque misógino:

“Por favor nao votem no partido que aceitou esse tipo de pessoa. Imagina o nível dessa gente que aceita - servem pra representar quem?”

“Mulheres q não se valorizam e só lhes resta apelar para serxo a fim de conseguir algo na vida. Totalmente sem conteudo de trabalho e de v ida.”

"Uma vergonha ver que minhas avos lutaram pelo voto da mulher, e meus pais pela democracia para uma politica mais justa, e pensar que existem pessoas que sao capazes de jogar essa historia e seu voto em uma bunda! tem que ser um bando de bundao mesmo, pírcing intimo chove no brasil soque quando vierem reclamar que nada muda, que precisam de hospitais, creches, etc... diremos temos vaginas com pírcing!"

3. Manutenção da cultura do estupro:

“Ela sabe bem o que é democracia, ali naquela rabeta todo mundo tem direito de botar, ops, votar kkkkkkkkkk”

“VOU DEPOSITAR UM VOTO DE 25CM NA BUNDA DELA!!!”

Por fim, eu deixo aqui as perguntas: por que a sociedade insiste em agir assim? Por que as pessoas lançam mão de uma selvageria maior que os alvos de suas críticas, só para fazer valer a manutenção de seus valores? Por que uma mulher que resolve exercer a sua sexualidade abertamente tem que ter a sua humanidade extirpada por pessoas que se acham acima do bem e do mal? Por que as pessoas insistem em não entender que porrada não resolve nada, apenas colabora para a manutenção de um estado bruto de incivilidade? Até quando teremos que viver nessa cultura do ódio, que encontra todo apoio e respaldo no patriarcado?

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Empresas: Menos ego e mais responsabilidade!

Foto por Raphael Araújo

Esse mês de agosto foi marcado pela crítica à publicidade machista em vários coletivos e blogs feministas e acabou por gerar a "Marcha nacional contra a mídia machista", que aconteceu no último sábado, dia 25 de agosto. O estopim dos protestos foi a imagem publicada na página da prudence, marca de preservativos, que fazia apologia ao estupro. Assim, como quem não quer nada, estava escrito lá: "tirar a roupa sem o consentimento dela". Amigos, entendam, sem consentimento é estupro. Seguido à isso, houve o caso da Nova Schin, que nos jogou na cara uma propaganda em que homens se tornam invisíveis e resolvem bolinar mulheres, o que para nossa legislação, configura estupro. 40 segundos de puro horror.

Por que estou novamente falando no assunto? Porque na segunda-feira passada, a DKT que é detentora dos preservativos Prudence, Sutra e Prudence l'amour lançou uma página no Facebook com a intenção de minimizar os danos que a propaganda equivocada causou na sua imagem. 

Vamos ser pragmáticos, não podemos esperar das empresas que elas sejam caridosas e altruístas, o que podemos esperar e exigir é responsabilidade, como forma de agregar valor à marca. Capitalismo é isso aí, onde há lucro o altruísmo praticamente inexiste. Mas isso não tira o valor das iniciativas das empresas para a construção de um mundo melhor. Então, essa é mais uma conquista que conseguimos através do ativismo nas redes sociais, pressionamos uma empresa a mudar sua postura e se responsabilizar pelo seu erro. O resultado está aqui. 

Achei que a proposta da DKT foi tímida, no sentido de sua efetividade, pois levar propostas à secretaria de políticas públicas para as mulheres não é algo difícil de realizar e já vem sendo feito. Mas o espaço que a DKT criou está aberto à sugestões e quem tiver uma idéia de como ampliar a ação em prol do fim da violência contra a mulher pode se manifestar. Entretanto, ao mesmo tempo que é tímida quanto à efetividade é ousada em atrelar a marca à um tema difícil, doloroso, invisibilizado. Acho que a DKT e a prudence ganham pontos com o público feminino, que também é consumidor, que usa camisinha, que faz sexo.


Foto por ADphotos
Gostaria que tudo isso servisse de exemplo para empresas como a Nova Schin, que tripudiam em cima das consumidoras, ao não admitir seus erros conosco, ao nos bloquear quando deveria nos ouvir. Vale lembrar que a propaganda "Homens invisíveis" saiu do ar, para evitar maiores danos, claro. Mas o estrago está feito e parece irremediável. Não dá para confiar numa empresa que reage às críticas da maneira como a Nova Schin reagiu. Exigimos menos ego e mais responsabilidade.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Teu privilégio não é minha prisão


Tantas vezes falamos aqui no blog sobre "privilégio" e percebemos que nem sempre essa noção foi plenamente compreendida. Por isso tentarei jogar alguma luz sobre a questão.

O privilégio é uma vantagem. Não é algo para se envergonhar, é apenas fruto de certas características. Um exemplo: eu sou uma pessoa que fala, escuta, possui todos os movimentos e dispõe de uma boa visão (na verdade tenho um probleminha de vista que é corrigido com lentes). Possuo portanto, a vantagem de jamais me preocupar em tatear o piso antes de dar o próximo passo, pois posso enxergar o caminho adiante. Não me preocupo em frequentar espaços públicos em que uma cadeira de rodas possa circular livremente, pois posso andar. E nunca aprendi a linguagem de libras, pois posso falar e ouvir, portanto, me comunicar sem o uso de sinais.

Muitos privilégios (a maioria, acredito eu) são construídos culturalmente. Ser branco traz uma série de privilégios em relação à ser negro. O que fica evidenciado a cada vez que colocamos a raça diante do elogio, por exemplo. Já parou para pensar porque quando se elogia uma mulher branca dizemos apenas que é uma mulher bonita, mas quando o elogio é direcionado à uma mulher negra, ela se torna uma "negra bonita"? Ou ainda, já tentou imaginar o motivo pelo qual se um homem branco dirigir um carrão muita gente achará que ele é rico, mas que se o mesmo carro for dirigido por um negro, muita gente achará que ele é apenas o motorista? É a expressão do privilégio do branco, não ser discriminado por sua cor (Sobre o privilégio branco, por favor ler esse link, esse e esse).

O privilégio masculino também é cultural. Numa sociedade tão marcada pela cultura do estupro, é uma vantagem dos homens, sair à noite e temer crimes patrimoniais. Traduzindo, temer ser roubado. Uma mulher quando sai à noite teme ser estuprada. Aliás o medo do estupro que uma mulher sente é tão grande que isso rege as nossas vidas desde muito jovens e não nos abandona nem na velhice.

E aí você me diz, "MAS CALMAÍ GIZA, se não é para se envergonhar do privilégio, porque tantas vezes vocês, aqui do Ativismo de Sofá, o criticam?" Por três motivos, o primeiro é a construção de cenários que se formam em torno de um privilégio e que pode ser muito díspar. E isso revira meu sensível estômago. Uma situação que se forma em torno do privilégio masculino: recentemente, li que a escritora de romances Margaret Atwood perguntou a um grupo de homens (na minha leitura não estava especificado se eram apenas homens cis) porque os homens se sentem ameaçados pelas mulheres, eles responderam que tinham medo que elas rissem deles. Quando perguntou a um grupo de mulheres porque elas se sentem ameaçadas por homens, elas responderam que têm medo de serem assassinadas. A polaridade das respostas gera insatisfação e revolta em quem é mulher.

O segundo motivo é que os privilégios citados acima são abstratos. No sentido que não estão escritos, codificados. Mas há privilégios escritos. Ilustrando melhor, a nossa Constituição Federal, ainda não permite o casamento igualitário. Dando a um grupo, os heterossexuais, um enorme privilégio em relação a outro, os LGBTs. Um outro exemplo é o sufrágio feminino, no Brasil conquistado há apenas 80 anos.

O terceiro motivo é porque em muitos casos, na visão da pessoa que é detentora das vantagens acima citadas (e outras tantas), o privilégio se torna a sua noção de "normalidade". Ou seja, a pessoa não consegue sentir empatia por grupos não privilegiados em questões tocantes apenas a eles, gerando uma perspectiva distorcida e parcial. Pessoalmente esse motivo é o que mais me incomoda, e também é o que mais gera discussões improfícuas. Alguns exemplos de manifestações privilegiadas nesse sentido:

Quando um homem afirma que as mulheres não possuem espaço na política porque preferem seguir outras carreiras, ele se esquece que participação política muitas vezes depende de investimento. E que nem sempre os investidores estão interessados em dar crédito às mulheres. Porque a sociedade costuma incentivar mulheres à dedicar-se ao âmbito privado, relegando ao homem o âmbito público. 

Toda vez que um branco diz que as cotas raciais nas universidades são um privilégio dos negros, ele ignora a indiscutível participação ínfima dos negros em espaços acadêmicos (ainda mais se considerarmos que a maioria da população brasileira é negra), um resquício de uma sociedade que vergonhosamente aboliu a escravatura por meio formal há 124 anos.

Quando um heterossexual alega que não se incomoda com LGBTs desde que eles não andem de mãos dadas, não beijem em público, não cheguem junto, eles se esquecem que é socialmente aceitável que um heterossexual faça todas essas coisas. 

E é claro, há os privilégios que o dinheiro proporciona. Uma casa própria, um carro, um computador, um bom celular, boa educação, viagens e etc. Nenhum problema em possuir bens materiais, o problema é esquecer ou desvalorizar quem não possui ou está em situação de classe social abaixo da sua. Daí podemos extrair por exemplo as questões trabalhistas. Quando o(a) patrão(patroa) exige que a empregada durma no serviço, será que ele(a) pensa no absurdo que seria ele(a) próprio(a), dormir no escritório em que trabalha, voltando para casa apenas no final de semana? Possivelmente, não.


Os exemplos acima tratam de privilégios sobre minorias, mas mesmo entre minorias há privilégios. Não é porque fazemos parte de um grupo em desvantagem que temos a autoridade de falar sobre o sofrimento alheio. Aqui há um texto excelente falando dos privilégios da mulher branca em relação à mulher negra.

Por Arnaldo Branco
É preciso entender que embora possuir um privilégio não seja motivo de vergonha, tampouco é motivo de orgulho. Quando uma pessoa branca anda por aí com uma camiseta "100% branco" ele está exaltando algo que não gera motivo para orgulho. É muito diferente de alguém que exalta sua raça negra, pois ser negro significa um histórico de opressão e normalmente de luta e conquistas condicionadas pela raça. Se orgulhar de ser heterossexual (uma modinha que tá rolando aí nas redes sociais) é o equivalente a se orgulhar de uma facilidade, de uma condição que não impõe desafios. Eu acho até engraçado (apesar de triste), que eu tenha que escrever sobre isso, porque me parece realmente muito óbvio. 

O privilégio é cumulativo e quanto mais privilégios uma pessoa possui maior a possibilidade dela possuir a visão distorcida da qual falei antes. Tente visualizar um muro cuja altura aumenta à medida que os privilégios se acumulam. E para algumas pessoas o muro é tão alto que é impossível enxergar o que está do outro lado. 

Retomando um pouco a idéia do título desse texto, o privilégio do grupo não é prisão de outra pessoa pois não regula a vida, os pensamentos, as atitudes dos outros. Rever seus próprios privilégios, nem sempre buscando exterminá-los, pois muitas vezes isso nem é possível, mas entendê-los faz parte do processo de compreender o outro. Enquanto você não conseguir determinar onde residem os seus privilégios, você será incapaz de aceitar que as pessoas que não detêm as mesmas vantagens que você têm outra perspectiva sobre as suas próprias vidas e que é importante demais que você as ouça mais do que questione. Não são os seus privilégios que definem e norteiam a vida dessas pessoas. Como eu disse no meu post "não me ensine a militar" somente o oprimido sabe onde e como o calo aperta. 

Obs.: Se eu não me fiz entender como eu gostaria e você ainda tem interesse no assunto, eu sugiro muito esse texto aqui.

terça-feira, 29 de maio de 2012

O corpo é meu! O Facebook não é nosso!


A marcha das vadias lavou minha alma. Lavou a alma de muita gente. Eu não sei muito bem o quanto eu precisava daquele momento na minha vida, eu sei que ele foi muito importante para mim. Desde que eu conheci o feminismo e fui lentamente tomando consciência de todas as pequenas violências que sofria, que tolhiam a minha liberdade em muitos aspectos diferentes, muita coisa foi embora de mim. Mas principalmente muitas pessoas foram embora. Só que ao mesmo tempo, eu não me sentia só. E nesse sábado eu não estive só mesmo. Cerca de três mil pessoas em Brasília estiveram comigo, botando para fora em alto e bom som muito daquilo que dizemos todos os dias discretamente: queremos ser respeitadas e isso independe da forma como falamos, nos vestimos (ou não nos vestimos), nos relacionamos. Só que muita gente por aí nem sabe o que o verbo respeitar significa. 

Foto da fan page da Marcha das Vadias DF
Aquela velha história de que mulher tem que se dar ao respeito carrega uma carga de machismo e moralismo tão grandes, que eu juro que não entendo como eu não consegui enxergar isso até alguns anos atrás. "Se dar ao respeito" não é respeitar suas escolhas, suas preferências, sua liberdade de ir e vir, de agir como quiser... Via de regra, "se dar ao respeito" é repetido por aí como sinônimo de privação de liberdade individual. Se você usa roupa curta, não se dá ao respeito. Se tem vida sexual ativa, goza e gosta muito, não se dá ao respeito. Se não tá afim de um relacionamento afetivo monogâmico, não se dá ao respeito. Se anda ficando com quem tá afim sem pensar em namoro, não se dá ao respeito. Respeito é uma palavra que precisa ser ressignificada. Respeito, como é repetido por aí, está diretamente ligado à invisibilidade da sexualidade feminina. Eu sou vadia e me dou ao respeito. 

Respeito não se pede, se conquista. Exigimos que nos tratem com respeito, e fazemos isso sem implorar de pernas e bocas fechadas, mas mostrando para a sociedade o quanto a sua noção de respeito é falha. Para isso é preciso união. É como nós gritamos na marcha: "Ah! que é isso! Elas estão organizadas!". E estamos mesmo, cada vez mais. E estamos conseguindo visibilidade também. Um movimento nacional que só em um final de semana reuniu cerca de 10 mil pessoas? Isso não passa despercebido. E com certeza aumentaremos em número e em consciência. Feminismo é um aprendizado constante. 

Foto da fan page da Marcha das Vadias DF 
Entretanto, a luta ainda é necessária. Prova disso é a forma reacionária e moralista como o facebook tem encarado as fotos das mulheres que estavam na marcha com os seios de fora. Que fique claro: não são fotos pornográficas. Seios não servem apenas para entreter os homens, mostrar os seios na marcha é uma atitude política, porque o nosso corpo não é apenas sexual, ele é político. Ele é tão político, que em alguns países as mulheres precisam escondê-lo inteiramente ou podem morrer caso não façam. O facebook parece ignorar essa característica e tem apagado sistematicamente as fotos das moças de topless. Infelizmente, a mesma rede social que apaga fotos não pornográficas de mulheres exigindo uma sociedade mais justa, não apaga imagens racistas, homofóbicas ou misóginas. Ultimamente nem tenho mais usado a opção "denunciar" do Facebook, tenho ido direto ao safernet e à PF denunciar esses conteúdos. Isso posto, é de se perguntar porque a nudez choca mais que a violência cotidiana. 

Foto da jornalista Luka Franca
censurada pelo Facebook
Não é a primeira vez que isso acontece no facebook, em outro momento fotos de mães amamentando foram retiradas arbitrariamente da rede social. MÃES. AMAMENTANDO. O corpo feminino é sempre sexualizado ainda que ele não seja usado para fins sexuais. Me diga, você se alimenta cobrindo o rosto? Porque um bebê precisa se cobrir para se alimentar? Foi necessário protestar com mamaços virtuais para o Facebook permitir fotos de mães amamentando seus filhos. Se você acha que o Brasil é um país libertário em que tudo pode, pense de novo. Não é bem assim, a onda conservadora que assola o país também esbarra nos nossos corpos. por isso é preciso gritar: "Meu corpo, minhas regras!" Fazer ouvir a voz de quem nem sempre, no dia-a-dia pode externar esse sentimento sem receber toda sorte de julgamentos morais. 

Ao contrário dos homens, que ao sentir calor não pensam duas vezes em tirar a camiseta, mulheres não tem esse privilégio. Guess what? Mulher também sente calor. Mas toda a nudez feminina será censurada. Toda nudez será objetificada, será rotulada, será retirada dos perfis do Facebook como se fosse ofensa. E ofende também o fato de que nem sempre os seios exibidos são durinhos, apontem para cima, caibam na mão. Com certeza o peitaço no fim da marcha das vadias de Brasília foi o final perfeito para a marcha de um movimento libertário como o feminista, porque contradiz essa idéia de que a mulher é um pedaço de carne. O nosso corpo não é inerte, não é produto, não é objeto, ele também fala por nós.  Lamentamos profundamente que a maior rede social do mundo tenha uma visão tão tacanha do corpo feminino.

Foto por Leiliane Rebouças