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quarta-feira, 9 de julho de 2014

Violência doméstica não é piada!

Alemanha não "estuprou" o Brasil. Eles simplesmente ganharam. Desde quando estuprar se tornou equivalente a ganhar? Escolha suas palavras com sabedoria.
O futebol ainda é um reduto masculino quase intocável: no Brasil, apenas o futebol masculino é valorizado, o jornalismo esportivo tem como uma das principais pautas musificar torcedoras, jornalistas, bandeirinhas e atletas e as torcidas continuam usando frases como "ele joga como uma menininha" para ofender jogadores e times e a rivalidade entre times é fortalecida com xingamentos homofóbicos, misóginos e às vezes até racistas.

A construção da masculinidade perpassa pela valorização da agressividade e pela reprodução de opressões contra grupos vulneráveis, como mulheres e crianças. Sendo, no Brasil, o gostar de futebol e ser torcedor parte da cultura da masculinidade, oprimir dentro do futebol é considerado algo natural e não criticável.

A ostentação que muitas vezes é reproduzida pelos jogadores e pela mídia reforça a cultura da meritocracia, que só fortalece o capitalismo e, principalmente, o machismo, visto que muitas vezes as namoradas, companheiras e esposas dos jogadores são tratadas como troféus. As mulheres que acompanham os craques são objetificadas, são vistas como um prêmio que veio do esforço e treino deles, assim como os carros importados que alguns adquirem. 

A objetificação das mulheres é um lugar-comum do jornalismo esportivo. A musificação de mulheres para atrair cliques é uma prática comum que mais uma vez reafirma que esporte, especialmente futebol, não é um lugar em que mulheres são bem-vindas. Atletas, jornalistas e torcedoras são constantemente lembradas que são enfeites e não indivíduos. Ainda hoje, quando uma mulher fala de futebol, ela não é levada a sério. Gostar de futebol é visto por muitos homens como algo que mulheres fingem fazer pra conquistá-los. Um exemplo do machismo em torno do futebol é que recentemente, uma bandeira, após cometer um erro crasso de arbitragem, sofreu com o machismo de fãs do esporte e até com um comentário objetificador e machista de um diretor de futebol. 

No período de Copa do Mundo, muitas mulheres relataram assédio verbal e até físico no espaço público por parte de torcedores estrangeiros e brasileiros e de certa forma, isso era previsível, não só porque são práticas naturalizadas na cultura machista, mas também porque a forma que o jornalismo esportivo é conduzido reproduz a ideia de que mulheres são apenas um corpo disponível e não pessoas completas, com vontades, anseios e direitos.

Além disso, quando um time perde de goleada, é comum ouvir e ler pessoas dizendo que o time perdedor "foi estuprado". Essa frase, apesar de comum no meio do futebol, é de uma insensibilidade tremenda porque banaliza uma violência seríssima. Mas as "piadas" de viés misógino não são apenas reforçadoras da cultura do estupro, mas também da violência doméstica.

Matéria "Goleada da Alemanha contra Brasil na Copa gera piadas na internet"

Após a derrota do Brasil de 7 x 1 na semi-final da Copa do Mundo em casa, essas piadas de extremo mal gosto viraram febre na internet. Vários memes foram feitos e de forma muito irresponsável, o G1 veiculou uma imagem reforçadora de violência doméstica com a legenda falando que a imagem representava "uma crise familiar".

A irresponsabilidade do veículo de comunicação ao veicular a imagem como se engraçada fosse e ainda com a descrição de que ela trata de uma crise familiar e não de violência é gritante. Num país com estatísticas tão assustadoras de violência doméstica e discriminação contra a mulher, banalizar uma violência como essa é reforçar a cultura que a mantem presente e sistêmica.


Vídeo da campanha inglesa.

A veiculação da piada misógina no portal do G1 se torna ainda mais absurda quando analisamos a publicação sob a ótica de que uma campanha inglesa contra violência contra a mulher apresentou o dado de que no contexto inglês, os casos de violência doméstica aumentam cerca de 38% quando a Inglaterra é derrotada. No Brasil, as estatísticas não devem ser as mesmas, mas agressões especialmente contra mulheres aumentam sim após derrotas, especialmente goleadas. 

Ser uma piada e ser sobre futebol não afasta o caráter opressor da imagem. É necessário reconhecer que sim, o futebol muitas vezes reproduz dinâmicas de poder que devem ser questionadas e criticadas. Enquanto ignorarmos o machismo, racismo, homofobia e transfobia presentes no futebol, jamais conseguiremos eliminar tais preconceitos da nossa cultura. A cultura de violência das torcidas, as ofensas preconceituosas que surgem com a rivalidade dos times e a exclusão das mulheres como futebolistas e comentaristas de futebol não é saudável e nem natural, ela só é um sintoma de como a masculinidade é construída de forma problemática e como o futebol, como espaço masculino, acaba por reproduzir tudo isso. 

"A mulher brasileira existe, mas não para satisfazê-los" - Aline Valek no Escritório Feminista.

"Quando o xaveco é quase uma agressão sexual" - Reportagem

"Mulheres relatam como foram assediadas nas festas da Copa na Vila Madalena" - Reportagem

"GQ India tells Indian men to harass Brazilian women" - Texto em inglês da Flávia Simas.

"World Cup of Sexism" - Texto em inglês da Flávia Simas. 

"O outro saldo da Copa" - Lugar de Mulher. 

"Mulheres nos esportes" - Podcast feminista "We can cast it!"

"Onde estiveram as mulheres na Copa do mundo?" - Blogueiras Feministas

Futebol também é lugar de mulher! Conheça a história da Marta Vieira da Silva, uma das maiores futebolistas do mundo e da Léa Campos que foi a primeira árbitra de futebol do mundo. 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Moça, a culpa não é sua.

*Trigger warning. Texto de conteúdo potencialmente incômodo.



Moça, hoje eu escrevo para você. Sei que muitas vezes você ouviu que a culpa foi sua, que você poderia ter evitado, mas esse texto quer passar uma mensagem muito diferente dessa que todas nós estamos cansadas de ouvir (ou ler). Sei que talvez você ouviu culpabilizações de alguém bem próximo em que você confia/confiava e que você contou o que aconteceu esperando uma palavra de apoio e um abraço e quando esse apoio não veio, você sentiu o peso dessa culpabilização recair em você e acreditou que foi culpa sua. Sei que talvez você não tenha acreditado por completo, mas ainda assim, se sente culpada.

Moça, acredite em mim, acredite em nós, você não tem culpa alguma. Ao contrário do que te disseram, seu short curto, sua calça justa, o fato de você ter bebido, o caminho que você percorreu, nada disso faz com que a culpa seja sua. A culpa é do agressor. A culpa é do estuprador. 

Moça, o corpo é seu e seus sentimentos, suas vontades e suas escolhas importam. A culpa é de quem ignora seu não e passa em cima do seu consentimento. Moça, lembre-se, a culpa não foi sua.

Moça, eu não me esqueci de você que sofreu violência do seu parceiro e esteve em um relacionamento abusivo e ouviu que a violência que você sofria foi causada por você. Você não tem culpa, moça. E eu sei que talvez você pode ter ouvido isso de policiais, mas o fato deles serem policiais não transforma o que eles disseram em verdade.

Moça, não tem nada de errado em tirar fotos nuas e filmar momentos íntimos. O que é errado e criminoso é divulgar essas fotos e o vídeo sem o seu consentimento. A culpa não é sua. Sei que estão te ofendendo e te culpando, mas a culpa é de quem violou seu direito à intimidade. 

Moça, talvez você tenha ouvido ou lido que o seu sofrimento é um exagero e eu sinto muito por isso, mas além de culpar a vítima, o machismo e a misoginia também faz questão de desmerecer a voz das mulheres que sofreram violência ou estão sofrendo para silenciá-las. E a forma que eles tem de desmerecer é banalizar diversas agressões e duvidar dos relatos de violência.

Moça, a culpa não foi sua, quando você foi encoxada no metrô. Você tem direito à cidade, você tem direito a utilizar o transporte coletivo sem sofrer violência sexual. A roupa que você usava no momento não importa, você não teve culpa disso ter acontecido.

Moça, a culpa não é sua. E nós estamos aqui para te lembrar disso quantas vezes você precisar. Estamos aqui para ouvir você, estender a mão para você e oferecer nossa solidariedade para que você se empodere.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Os estupros da Bolívia: cultura do estupro, perdão forçado.

*Trigger Warning* :  este texto expõe um cenário de extrema violência contra a mulher.

Saiu no feministe e, como o artigo era imenso, eu fui adiando a leitura. Até que sábado eu resolvi fazê-la. Confesso que o mal-estar foi tanto que a primeira coisa que pensei em fazer foi traduzir o texto. Diante da impossibilidade de traduzir um texto tão imenso (sério, acho que eu ia levar dias pra conseguir fazer algo decente), resolvi então escrever a respeito. Traçando um paralelo com um assunto que vem sendo bastante discutido entre as feministas brasileiras: o perdão. 

Não pretendo aqui entrar no mérito da religiosidade ou não do perdão. Se tal atitude é um valor humano universal, ou se ela é meramente um artefato das religiões para trazer alguma paz ao coração de quem sofreu algum mal, não importa. O que eu quero dizer aqui é que, independentemente da raiz do perdão, o apelo a ele é muito forte e nós, feministas, precisamos discutir e problematizar o assunto de forma mais profunda. 



Voltando ao artigo. Pelo título, "Estupros-fantasma da Bolívia", já podemos imaginar o que vem pela frente. Um denso relato de estupros em uma comunidade religiosa da Bolívia. Um relato que não deixa dúvidas quanto à capacidade humana de cometer atrocidades. Por anos a fio, mulheres da comunidade acordavam ensanguentadas, com as roupas rasgadas e as camas sujas de terra e de sêmem. Elas não conseguiam se lembrar de praticamente nada e, quando muito, lembravam-se que estavam sendo atacadas, mas não tinham forças para lutar contra o estuprador. 

A comunidade, de religiosos menonitas (algo parecido com os Amish dos Estados Unidos), inicialmente não acreditara nos relatos da primeira mulher que resolveu abrir a boca a respeito. Como acontece com praticamente toda mulher que é estuprada nesse mundo, duvidaram da legitimidade de tais estupros. Chegaram a cogitar que ela estava era de "namorico" pela cidade. Os ataques, porém, não só não cessaram, como se tornaram cada vez mais violentos. Crianças e mulheres de todas as idades eram brutalmente violentadas, sempre à noite, sempre dormindo. 

As mulheres da cidade estavam vivendo uma situação absolutamente nefasta de terror, e alguma explicação precisava ser dada a respeito. Obviamente que, por se tratar de uma comunidade religiosa (cristãos protestantes de origem alemã - inclusive utilizam o baixo-alemão para se comunicarem por lá), a explicação viria carregada de misticismo: o demônio estaria estuprando essas mulheres. E tudo estaria sendo feito por vontade de Deus. Ou seja, se o todo-poderoso estava enviando a provação, era porque elas deveriam aguentar firmes. 

Só se sabe que a situação estava tão absurda que o bispo local resolveu então pedir ajuda às autoridades bolivianas (que geralmente não se metem nas questões internas da comunidade, nem mesmo em casos de crimes, salvo assassinatos, pelo que entendi). Descobriu-se que um grupo de homens pertencentes à comunidade estavam por trás dos estupros. Usando um spray. Agora vou traduzir um parágrafo do texto para que vocês tenham noção dos requintes de crueldade: 

"Então, numa noite de junho de 2009, dois homens foram pegos tentando entrar em uma casa da vizinhança. Os dois delataram alguns amigos e, como um dominó que cai, um grupo de nove homens de Manitoba, de idade entre 19 e 43, acabaram confessando que eles vinham estuprando famílias da colônia desde 2005. Para incapacitar as vítimas e suas possíveis testemunhas, os homens usaram um spray criado por um veterinário de uma comunidade Menonita vizinha, que ele adaptara de um produto químico utilizado para anestesiar vacas. De acordo com as confissões iniciais (que foram negadas posteriormente), os estupradores admitiram que - às vezes em grupos, às vezes sozinhos - eles se escondiam do lado de fora das janelas dos quartos à noite, jogando o spray com a substância pelas janelas para drogar famílias inteiras, e depois entravam nas casas."

Acho que esse relato já seria assombroso se parasse por aí. Mas ele continua. E piora de um jeito que não tem como não pensar em um roteiro de filme de terror. Vou resumir: o governo da Bolívia ofereceu ajuda psicológica às vítimas. O bispo negou a ajuda. Só que ele não só não deixou que elas buscassem auxílio, como obrigou-as a PERDOAR os estupradores. Porque, segundo ele, se elas não perdoassem os estupradores, deus não as perdoaria. Acontece que não é "só" isso. A jornalista que fez a reportagem também fala em incesto. 

Para piorar a vida dessas mulheres, elas TAMBÉM são estupradas dentro de casa. Por irmãos. Pais. Parentes. Gente em quem elas deveriam confiar, sabe? E os relatos dizem que é "normal" serem molestadas, e quando elas levam isso às autoridades (ou seja, bispos e pastores), eles investigam, confrontam o estuprador, que se diz arrependido e voilá! Se ele se arrependeu, minha filha, sua obrigação como cristã é PERDOAR. E elas perdoam. E voltam para casa com seus algozes que agora tomarão cuidado redobrado para não serem pegos novamente. A união e estrutura familiar permanecem intactas. E os crimes continuam acontecendo. Pelo jeito, até hoje. 

Não tem como ler um texto desses e não se sentir impotente. Não tem como não emputecer. A questão maior que eu queria colocar aqui e não sei se vou dar conta é: até que ponto esse microcosmo não está aí nos ensinando o que acontece, sem tirar nem por, na nossa sociedade "aberta"? Até que ponto o perdão é realmente algo que deveríamos almejar? 

Porque sabe, a cultura do estupro já perdoa os estupradores, de antemão. Ao afirmar que a culpa é da vítima. Ao colocar mulheres não como seres humanos, mas como criaturas ardilosas, naturalmente programadas para representar uma tentação na vida dos homens. Não obstante, mulheres de todos os tipos, das consideradas "putas" às "santas", são violentadas. A situação de violência contra a mulher é epidêmica e a cultura do estupro permanece intacta. Bem como a cultura do perdão. 

A dinâmica é bem simples, e bem danosa também. Somos criadas, desde muito cedo, a almejar sentimentos nobres. Nenhum problema aí. Acredito sim que sentimentos nobres precisam guiar as vidas das pessoas. Entretanto, uma análise da forma como tais sentimentos são encorajados leva a crer que estamos falhando miseravelmente no quesito justiça. Porque sempre, repito, SEMPRE, o sentimento de culpa é inculcado na vítima, e não no agressor. Porque quem não perdoa é vista como uma pessoa má pela sociedade. 

Somos criadas em uma cultura que diz que é possível transformar sapo em príncipe. Somos levadas a crer que o amor é a solução para tudo, inclusive para relações violentas. Portanto, em um contexto desses, eu acho complicado falar em vitimização do opressor. Entendo que a humanidade é vítima de todo um sistema criado para aparentemente proteger mulheres e crianças (afinal, é essa a desculpa que ouço desde que me entendo por gente para justificar a opressão desses dois grupos). Entretanto, é inegável que o ônus maior desse sistema (que não funciona) recai sobre as mulheres.

Portanto, diante do exposto acima, fica as perguntas: faz algum sentido dar voz e vez ao discurso do perdão em espaços feministas? Será que um foco maior na busca por justiça, deixando de lado o perdão, que silencia a vítima e não resolve o problema, não seria a melhor saída? Que tipo de sociedade queremos construir (para nós e para as gerações vindouras): uma que efetivamente busca a justiça, ou essa em que o discurso pretensamente suave do perdão continua a manter tantas vítimas em silêncio?

A mulher estuprada já carrega uma carga pesadíssima de culpa, na nossa sociedade. Enfatizar o discurso do perdão é fazê-la carregar a culpa de não conseguir perdoar, de querer se vingar, de odiar, juntamente com toda a culpa que a sociedade já deposita nela. Lutar pelas mulheres significa entender muitas coisas que se passam com elas. O ódio, inclusive.

Para quem se interessou pelo caso, o artigo está bem mais completo e pode ser lido em inglês, aqui.

Por Flávia Simas com colaboração de Thaís Campolina. 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Cultura do estupro no espaço público: Nosso direito de ir e vir ameaçado.


"Las leyes son como las mujeres, están para violarlas".
 As leis são comos as mulheres, existem para serem violadas.

A frase, incrivelmente misógina, foi cometida há algumas semanas atrás pelo então presidente do Conselho Geral da Cidadania Espanhola no Exterior, o senhor José Manuel Castelao Bragaño. Felizmente, a repercussão negativa fez com que ele renunciasse ao cargo poucas horas após ter verbalizado tamanha imbecilidade (cargos de poder nas mãos de machistas é uma coisa que tira a tranquilidade do meu sono). Então, se ele foi afastado, qual o problema? O problema, queridxs, é que embora a sociedade rejeite de pronto uma frase que explicita o estupro, não rejeita uma série de outras frases e atitudes que acabam por tornar banal para o cidadão comum aquilo parece chocante quando colocado com tanta clareza.

Há uma relação óbvia entre a frase e a cultura do estupro. Já tocamos no assunto algumas vezes, mas não custa relembrar: quando usamos a expressão "cultura do estupro", nos referimos a como a sociedade coloca as mulheres em posição objetificante e vulnerável, através de pequenas violências e de um discurso agressor (porém velado) que acabam por fomentar o estupro. Aqui no blog falamos do assunto na época dos protestos contra a Nova Schin e contra a Prudence.

Imagem da Página Transexualismo
da Depressão, no Facebook
Dessa vez, entretanto, quero focar no espaço público, que é palco constante dessas demonstrações de desrespeito com as mulheres. Por vezes ressaltando aquilo que temos em comum (ou seja meramente por sermos mulheres), e outras vezes desrespeitando aspectos singulares de cada mulher. Por exemplo: mulheres trans são consideradas aberrações, transformam sua identidade num mero fetiche; mulheres negras são hipersexualizadas, uma lembrança do nosso passado escravagista; Funkeiras são as novas Genis; Gordas são humilhadas por estarem fora do padrão estético eurocêntrico e racista vigente (Alô, Marisa!); mulheres que se prostituem são desvinculadas de sua humanidade, tornando-se mero objeto, de forma que estão à disposição de qualquer abuso, num grau de vulnerabilidade muito grande e assim por diante. E é claro, tudo isso pode vir a desencadear um quadro de violência física também. No fim, em maior ou menor escala, o espaço público é hostil com as mulheres.

Essa hostilidade não encontra respaldo em lei escrita, pois as calçadas de toda e qualquer cidade não vêm marcadas para um gênero específico, tampouco o transporte público. A rua não tem dono, de forma que todxs possuem o direito de ir e vir. Contudo, para as mulheres esse direito está sempre ameaçado. 

Mulheres no mundo todo sofrem com o
assédio, independente da roupa que usam.
Não faltam exemplos: Há poucos dias, fiquei sabendo de um fórum dentro do Imgur em que um professor postava fotos que tirava de suas alunas menores de idade (sem a sua permissão, claro). Ele simplesmente as fotografava em espaços públicos e colocava a foto no fórum. Seguindo o tenebroso exemplo, criaram uma página no facebook em que postavam fotos de mulheres no metrô de São Paulo. ~~Daora a vida, néaum?~~ E sabe o que é pior? alguns dirão que elas já tinham se exposto no espaço público ao sair de casa vestindo roupa justa, colada, curta ou o que for. Mas elas nunca autorizaram ninguém a fotografá-las e usar sua imagem para fins punhetísticos. Simples assim, o corpo de uma pessoa é uma exclusividade dela, a roupa que ela usa não diminui esse direito. Aliás, roupa não previne o estupro em lugar nenhum do mundo. A forma como fala, anda ou se comporta, nada disso é determinante.

Imagem de documentário de
Sofia Peeters sobre o assédio nas ruas européias
São muitas as pequenas manifestações abusivas no tocante ao corpo da mulher. Outro dia, uma amiga relatou que estava dentro do táxi, no semáforo, quando um motociclista parou ao lado do veículo e ficou olhando as pernas dela. Ela fechou o vidro, indicando que estava incomodada e o sujeito continuou a observá-la. Outro exemplo é um depoimento que recebemos nos primórdios desse blog de alguém que sofreu abuso num espaço público. E o que as pessoas que estavam perto fizeram? Riram dela. 

Quadro BIZARRO do  Programa Zorra Total
Está tudo muito errado quando a maior emissora de TV aberta do Brasil coloca um quadro humorístico em que mulheres são bolinadas no metrô e se sentem agradecidas por isso. Sabe aquela piadinha super ~~politicamente incorreta~~ que afirma que mulher feia tem que agradecer se for estuprada? Pois é, continua fazendo muita gente rir, mas faz com que algumas pessoas lamentem também. É claro que nas cabeças conservadoras o lamento de alguns é menos importante que a diversão de outros. Só que o problema é tão sério que em muitos metrôs do mundo existem vagões exclusivamente femininos. A incorreção da piada não evoca nada de novo, de transgressor, apenas legitima o estupro, que é prática opressiva mais velha que o mundo. 

Giovana contando sobre
o assédio que sofreu
Mesmo com todos esses argumentos, os defensores do assédio de rua alegam que se estivessem em situação oposta, se em vez de assediar, fossem assediados, eles gostariam muito. E é aí que entra o privilégio: Mulheres são assediadas nas ruas desde muito jovens. Ao entrar na adolescência se torna comum ouvir todo tipo de cantadas. Acredite ou não, isso nos causa medo. Desde cedo passamos a temer pela nossa integridade física, pelo nosso corpo. Não precisa sequer adentrar qualquer tipo de padrão de beleza para isso, mulheres que não se enquadram nas características racistas e gordofóbicas do padrão eurocêntrico de beleza que rege a sociedade ocidental também são vítimas de assédio e de estupro. Assediar alguém na rua não é uma forma de abordar, de conhecer, é meramente uma forma de intimidar e mostrar poder. Quando reclamamos do desrespeito, entra em ação a eterna galerinha do "deixa disso" que acredita que a paz só reina no não enfrentamento, que é a forma como toda mulher deveria agir: de forma passiva. Afinal cantada de rua não é assédio, é elogio, eles dizem. Quando fugimos à passividade de considerar que assédio é um afago no ego, nos dizem para andar em outras calçadas.

Marcha em BH
Além dos espaços de transição, dos meios de transporte, há espaços que são considerados determinantes para definir o caráter de uma mulher, acredite você ou não, o ano é 2012, mas ainda tem gente achando que mulher que frequenta baile funk não se dá ao valor ou que bar que tem sinuca não é lugar de mulher. Enfim, aquela velha história de tentar determinar o que é "lugar de mulher". Terrível, mas esse pensamento ainda existe e se propaga na medida em que o direito de ir e vir de uma mulher é cerceado pelo assédio, pelas ofensas ou pelo medo. 

E assim seguimos, alimentando uma cultura que acredita que é normal um cara passar a mão na bunda de alguém na balada, puxar o cabelo da garota, tomar vantagem da bebedeira para conseguir ficar com ela, que é banal ser encoxada num ônibus ou num vagão de metrô. E nada disso é diferente de dizer que mulheres existem para serem violadas.

Se você acha que a culpa de ser assediada, ou desrespeitada de inúmeras maneiras é da mulher, saiba: Culpar mulheres pela violência sofrida é sempre a primeira defesa de quem é mantenedor da cultura do estupro. Então, se nos dizem que a culpa é nossa, que roupa devemos vestir? Que peso devemos ter? em que táxi devemos andar? Em qual estação de metrô? Em qual vagão? Em qual cidade? Qual calçada? A que horas? A verdade é que não há roupa ou comportamento que nos liberte dessa opressão sobre o nosso direito de ir e vir. Outras calçadas, no fim, não nos protegem quando o verdadeiro problema é todo um modo de viver, toda uma compreensão distorcida de nossa identidade e de nossa humanidade.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O patriarcado e a manutenção da cultura do ódio

Hoje eu quero falar de dois acontecimentos dessa última semana que me deixaram bem entristecida. Em ambos os episódios, eu senti o amargo sabor da constatação: a misoginia encontra-se tão profundamente arraigada em nossa sociedade que eu sinto, infelizmente, que o nosso ativismo está longe, bem longe de acabar.

O fato é que eu lembrei de um texto que li outro dia, que você pode encontrar aqui (em inglês), cujo título é “5 razões pelas quais a humanidade deseja desesperadamente que monstros existam”. Eu confesso que comecei a ler o texto e achei-o bem bobinho. Não sou muito afeita a fatalismos biológicos e o artigo se baseia neles para dizer que os seres humanos precisam criar monstros para fazer valer a sua própria existência. Em outras palavras, para que você se sinta melhor com as decisões altruístas que fez em sua vida, é preciso opô-las a decisões moralmente condenáveis tomadas por outras pessoas. E é preciso, também, odiar profundamente essas pessoas.

O autor segue adiante dizendo que seres humanos sentem a necessidade de acreditar que as pessoas são deliberadamente más. Que qualquer ação que o senso comum considere ruim é feita com uma risada maligna nos lábios, como quem diz “hoje, por pura maldade, eu vou fazer algo que todos reprovam”. Afinal de contas, se acreditarmos que o outro pode estar agindo de forma “errada” sem saber, estamos abrindo o precedente para o fato de que nós, também, erramos inconscientemente. Precisamos acreditar, por exemplo, que somos exímios cidadãos e cidadãs incorruptíveis, ainda que furemos fila, xinguemos muito no trânsito e bem... tem os produtos oriundos de trabalho escravo que consumimos, né?

E por quê exatamente eu estou falando desse artigo aqui? Ora, para argumentar que, embora eu não acredite que estejamos biologicamente preparados para agir pelo ódio, eu creio sim que a humanidade realmente se deixa levar pelo ódio. E vejo o patriarcado como a grande origem disso.  Afinal de contas, é a cultura patriarcal que ensina, repete e reafirma à exaustão que qualquer desvio de uma suposta conduta moralmente aceitável deve ser achincalhado, apedrejado, tratado como uma abominação e queimado em praça pública. É aí que vemos pessoas “de bem” recorrendo à barbárie total para defender o seu código de honra. É o ódio sendo pago com ódio em um ciclo que acaba por desumanizar não apenas quem agiu “errado”, mas também quem defende, a unhas e dentes, aquilo que é “certo”. A Paula já falou disso aqui .

E sim, um dos episódios é a surra que a Carminha levou do Tufão, na novela da Globo. O fato é que a Carminha é uma vilã. Seguindo a lógica exposta acima, a sociedade simplesmente vibrou com a surra que ela levou do marido. O que me deixa com a pulga atrás da orelha, afinal, o episódio em questão revela o quanto a nossa sociedade valoriza o ódio. E comportamentos de vingança. E ver a violência tomando lugar como um ato de justiça. O Tufão teria sido justo. Milhares e milhares de brasileiros fazem essa mesma “justiça”, esbofeteando esposas, surrando namoradas que traíram, ou fizeram algum “mal”. Os índices estão aí. Indianas são mortas aos montes por conta de uma única palavrinha: honra. É preciso dizer ou vocês já sacaram que a dinâmica do ódio é muito mais cruel para com as mulheres, dado o caráter misógino com que se apresenta? E que as novelas, enquanto moldura e representação da cultura brasileira, acabam por perpetuar essa dinâmica de crueldade?

Mas peraí, Flávia, você está dizendo que a Carminha, tendo enganado meio mundo e traído seu marido, estava certa? Não. O que eu estou dizendo, ou pelo menos tentando dizer, é que a sociedade acha certo o linchamento público de mulheres. A sociedade, por considerar algum comportamento errado, reage com total barbárie, dando espaço a seus instintos mais violentos, no sentido de fazer valer o seu código de honra. É disso que estou falando. É dessa naturalização da violência com altos requintes de misoginia. Afinal, as pessoas não se juntam para linchar moralmente um cara que trai a esposa. Trata-se de dois pesos e duas medidas. E nem adianta argumentar que não é assim, a traição vinda de ambos os lados é ruim e errada. Porque essa é uma visão minoritária. E não são as minorias que aumentam os índices de violência doméstica contra a mulher. Porém, as minorias podem levantar a voz, e tentar mudar um cenário que está muito, muito errado.

O outro exemplo que eu quero apresentar a vocês também me embrulha o estômago. Tava lá eu no facebook quando me deparo com uma página comemorando a atitude da Skol em retirar o patrocínio do festival em que o New Hit participaria. Como eu achei o post engajado, fui lá e curti a página. Minutos depois, para o meu horror, a página posta um slut-shaming aberto e declarado contra a mulher Pêra, que você pode conferir aqui.  A página em questão possui 314 mil seguidores. Trata-se, claramente, de um meio formador de opiniões. Eu fico apreensiva com essa onda de backlash e barbárie que recai sobre as mulheres. Sim, as mulheres-frutas, as piriguetes, as prostitutas, as trans e todas as outras mulheres que habitam esse mundo e que ousam agir diferente daquilo que se considera “correto”, não são uma categoria à parte. São mulheres. Porém, a sociedade insiste em alçá-las à categoria de monstros, abominações. Só para resguardar seu direito de apedrejar quem pensa e age diferente.

Em uma sociedade que divide as mulheres em boas x ruins, unicamente de acordo com aquilo que elas fazem com o próprio corpo, não é de se assustar que comentários como os que vos apresento abaixo tenham surgido, em consequência do simples fato de que ela se atreveu a se candidatar a alguma coisa. Como que uma vadia dessas ousa adentrar o imaculado cenário político brasileiro? Eu dividi os comentários em 3 categorias:

1. Slut-shaming:

“É só mais uma cadela querendo se eleger, mas enfim pra combinar com ladrões em brasilia agora teremos uma vadia.”

“Nossa! depois dessa eu abandonaria a política, mulherzinhas iguais a esta aí só servem pra ficar num puteiro servindo os porcos...que nojo!”

“"VOTEM NAS PUTAS , POIS VOTAR NOS FILHOS DELAS NÃO DEU CERTO...." Parece que ela levou essa frase bem a sério”

“mesmo se ela me desse o rabbo dia 6 no dia 7 eu nao votava nela kkk”

“VIROU É PUTARIA ISSO SIM. CÂMARA DE VEREADORES NÃO TEM ND A VER COM CAMERA DE TV OU D FILME PORNÔ OU DA PLAYBOY. SUA IMBECIL. VÁ VESTIR UMA ROUPA E PROCURAR UM JEITO DE ESTUDAR PRA SER ÚTIL À SOCIEDADE.”

2. Recalque misógino:

“Por favor nao votem no partido que aceitou esse tipo de pessoa. Imagina o nível dessa gente que aceita - servem pra representar quem?”

“Mulheres q não se valorizam e só lhes resta apelar para serxo a fim de conseguir algo na vida. Totalmente sem conteudo de trabalho e de v ida.”

"Uma vergonha ver que minhas avos lutaram pelo voto da mulher, e meus pais pela democracia para uma politica mais justa, e pensar que existem pessoas que sao capazes de jogar essa historia e seu voto em uma bunda! tem que ser um bando de bundao mesmo, pírcing intimo chove no brasil soque quando vierem reclamar que nada muda, que precisam de hospitais, creches, etc... diremos temos vaginas com pírcing!"

3. Manutenção da cultura do estupro:

“Ela sabe bem o que é democracia, ali naquela rabeta todo mundo tem direito de botar, ops, votar kkkkkkkkkk”

“VOU DEPOSITAR UM VOTO DE 25CM NA BUNDA DELA!!!”

Por fim, eu deixo aqui as perguntas: por que a sociedade insiste em agir assim? Por que as pessoas lançam mão de uma selvageria maior que os alvos de suas críticas, só para fazer valer a manutenção de seus valores? Por que uma mulher que resolve exercer a sua sexualidade abertamente tem que ter a sua humanidade extirpada por pessoas que se acham acima do bem e do mal? Por que as pessoas insistem em não entender que porrada não resolve nada, apenas colabora para a manutenção de um estado bruto de incivilidade? Até quando teremos que viver nessa cultura do ódio, que encontra todo apoio e respaldo no patriarcado?

sábado, 15 de setembro de 2012

Roupas não previnem estupros. Em lugar nenhum do mundo.

Todxs sabemos que existe uma tendência geral a jogar a culpa de um estupro na vítima. Casos recentes, como a reação de parte da população ao estupro das meninas do New Hit, nos dão a medida do quão alarmante é a situação. Porque sabemos que culpabilizar as vítimas só faz piorar o problema. Porque sabemos que não há relação nenhuma entre as vestimentas da vitima e o seu estupro. Sabemos disso, mas infelizmente há uma galera que insiste em levantar a voz, real ou virtualmente, para corroborar o mito de que quem se veste “decentemente” estaria imune aos ataques.  

Semana passada eu acabei botando os olhos no texto que vos apresento abaixo, e resolvi  traduzi-lo. Muitas vezes é preciso olhar para fora de nós mesmxs, para outras culturas, para realidades totalmente alheias à nossa, para que possamos entender a dimensão de um problema. Ao ler o texto você pode até pensar “ahhhh, mas isso é uma realidade muito diferente da brasileira”. Não é. O que o autor relata é realmente um absurdo. Um absurdo que tem lugar até no ocidente. Até no Brasil. E precisamos mudar isso.

O mito de como o hijab protege mulheres contra abuso sexual
Por Josh Shahryar
       
Eu tinha apenas 6 anos de idade quando minha família foi forçada a fugir da guerra civil do Afeganistão no final dos anos oitenta. Minha irmã, Neelo, que é cinco anos mais velha que eu, foi matriculada em uma escola saudita de inspiração fraterno-muçulmana para refugiados afegãos. Ela, assim como muitas mulheres muçulmanas, usava um simples lenço na cabeça. 
       
Eu me lembro da Neelo pegando a bolsinha dela, enrolando o lenço ao redor dos cabelos e indo para o seu primeiro dia de aula. Eu também me recordo, com tristeza, que ela voltou da escola naquele dia e disse aos nossos pais: “Os guardas me disseram, ‘ou você usa o hijab completo ou então um chador [a burqa afegã], ou então não entra na escola.’” O seu lencinho para a cabeça não era mais suficiente.

A escola que ela estava era dirigida por ultra-conservadores.

A Neelo foi forçada a usar o tipo mais restritivo de hijab - quase igual ao da mulher nesta imagem. As coisas correram bem, até o ano seguinte, quando eu comecei na escola. Minha mãe sentou-se comigo e me disse que a partir daquele dia eu teria que levar a minha irmã à escola todos os dias.

Eu acabei odiando a experiência. Todo dia escolar, por anos, quando nós andávamos até a escola da Neelo, os homens a encaravam, avaliando seu corpo por detrás das vestes escuras, cochichando entre si, fazendo sinais com as mãos, assobiando, insultando-na, e dizendo coisas como quão bonita ela era - à revelia do fato de que a única coisa visível em seu corpo eram os olhos.

Os homens que passavam por nós pela calçada diziam coisas humilhantes - coisas de natureza sexual que eu era muito novo para entender. Minha mãe e meu pai queriam que eu a levasse para a escola porque, se eu não estivesse com ela, o que esses homens seriam capazes de fazer? Eu cresci ouvindo histórias de mulheres que foram apalpadas, esmurradas, raptadas até - tudo isso enquanto usavam hijabs. Os perpretadores vinham de todos os grupos étnicos e eram tanto paquistaneses como, assim como nós, refugiados.

A experiência me deixou furioso, impotente, e traumatizado. Nós nunca conversávamos a respeito. O que ela não sabia é que eu sabia que ela se encontrava machucada, emocionalmente e psicologicamente. Ela não precisaria me dizer que não se sentia protegida sob o hijab. As lágrimas por detrás de seu véu eram-me suficientes.

Essas memórias vieram à tona para me assombrar na terça-feira última, Dia Mundial do Hijab (4 de setembro de 2012). O dia celebra o direito da mulher muçulmana escolher o que deseja usar. O lenço e outras formas mais restritivas de cobertura da face e do corpo são amplamente conhecidos como o hijab; ao longo dos séculos, ele se transformou num símbolo do Islã conservador e, para alguns, uma característica das devotas e modestas muçulmanas. A prática não é algo uniforme em todos os países, usar o hijab “conservador” significa cobrir completamente os cabelos de uma mulher e, em muitos lugares, até o seu rosto, com um véu, ou pardah (um longo e fino xale que cobre a cabeça e o tronco, usado principalmente no sul da Ásia), uma burca (um tipo de xale, com capuz e véu embutidos, usado no Afeganistão, Paquistão e Índia), ou diversas outras variantes. Não é permitido, nas interrpetações mais conservadoras, mostrar nenhuma parte do corpo de uma mulher, exceto seu rosto, mãos, pés abaixo dos tornozelos e, às vezes, o pescoço.

Os avanços nos direitos das mulheres ao longo dos dois últimos séculos permitiram que as mulheres religiosas tomassem algumas liberdades no tocante à escolha de suas vestimentas. Ainda assim a resposta dominante por parte desse movimento de uma corrente principal conservadora tem sido separar a prática de sua natureza religiosa e encontrar razões para justificar não apenas a observância à prática de fé, mas também por benefícios supostamente práticos.

Eu vou deixar um excerto de um artigo de uma escritora chamada Sehmina Jaffer Chopra para o site de questões islâmicas Islam101.com explicar o que vem ocorrendo:

Outro benefício de adornar um véu é que o mesmo trata-se de uma proteção às mulheres. Os muçulmanos acreditam que, quando as mulheres mostram sua beleza a todos, elas entram em estado de degradação, tornando-se objetos de desejo sexual e acabam ficando vulneráveis aos homens, que olham para elas como uma “gratificação ao desejo sexual” (Nadvi, 8).O Hijab sinaliza que tais mulheres pertencem à classe das mulheres modestas e castas, de forma que os transgressores e homens sensuais possam reconhecê-las como tais e assim, não as importunem com suas travessuras (Nadvi, 20)O Hijab resolve o problema de assédio sexual e avanços sexuais não-desejados, o que é tão humilhante para as mulheres, quando os homens recebem sinais mistos e acreditam que elas querem seus avanços baseados na forma como elas revelam seus corpos. [grifo meu.]

A idéia de que o hijab de alguma forma protege as mulheres contra assédio sexual e/ou violência, não se trata, de jeito nenhum, de uma visão minoritária. Clérigos célebres, como o egípcio Sheikh Yusuf al-Qaradawi - considerado amplamente como um líder da fraternidade islâmica e boa parte do pensamento islâmico sunita - e o Ayatollah Sayyed Ali Khamenei - a suprema autoridade religiosa e política e uma das fontes principais  de jurisprudência xiita islâmica - endossam essa visão. 

Esta não se trata apenas de uma afirmação que não tem base de fato; ela é, também, perigosa. Eu sei disso porque eu presenciei o hijab da Neelo falhando em protegê-la por anos a fio.

Eu sei disso porque eu vi, ouvi, ou li múltiplos relatos em primeira pessoa de vítimas de assédio e violência sexual que estavam usando o hijab no momento em que foram atacadas. O hijab não pode e não vai impedir homens de atacar mulheres. Mesmo que a única parte do corpo da mulher à mostra seja a sua sombra, os meliantes irão sexualizar e fetichizar a mesma. Tomemos como exemplo o Egito, país onde o assédio sexual de mulheres se tornou praticamente uma pandemia - estejam elas usando o hijab ou não.

O mito de que há uma correlação entre o hijab e uma baixa incidência de assédio e violência sexual contra as mulheres na verdade acaba por vitimizá-las. Os homens estão fazendo um desserviço às mulheres ao colocar a culpa nas mulheres que não se cobrem, bem como ao insinuar que uma mulher que foi atacada ao usar um lenço na cabeça de certa forma fez alguma coisa para merecer o mesmo. Como ocorre com toda culpabilização da vítima, isso impede as mulheres de falar abertamente acerca de ataques sexuais. Muitos clérigos muçulmanos e cientistas pseudo-sociais - como Zakir Naik, neste vídeo (link em inglês), que é imperdível para qualquer pessoa que deseje aprender sobre o problema - abertamente sugerem ou proclamam que mulheres que não usam o hijab estão pedindo um assédio ou um estupro. Eles chegam ao ponto de correlacionar o direito da mulher usar o que ela quiser no Ocidente com a alta incidência de violência sexual contra as mulheres de lá.

Eles convenientemente ignoram todos os relatórios que demonstram como a violência sexual não é registrada em muitas sociedades islâmicas conservadoras (link em inglês), devido à sua natureza de tabu e ao estigma associado à mesma; ignoram o fato de que a violência sexual leva a mortes por honra de muitas das vitimas todos os anos. 

Pervetidos são pervetidos. Eles irão assediar e cometer violência sexual contra as mulheres que usam o hijab ou uma minissaia porque eles são pervertidos - não porque as mulheres exercitaram seu direito de usar o que querem.                                                                                                

Continuar a perpetuar o mito do hijab mágico apenas faz com que o problema cresça. Não resolve nada, na verdade. Para tanto, nós precisamos conseguir falar abertamente sobre o problema, conscientizar, educar as pessoas, projetar leis contra, e ter delegacias que realmente tomem ação contra os homens que incorrem nesses crimes. Se isso tivesse sido feito nos anos oitenta, talvez a Neelo - ou as milhões de outras vítimas como ela - não precisariam ter que suportar toda a dor na qual viveram por anos. 



                                                                                                                                                 Usar ou não o hijab é uma escolha pessoal que precisa ser protegida.  Muitas mulheres que o utilizam escolhem fazê-lo e se sentem felizes com o gesto de modéstia e religiosidade. Entretanto, isso não se trata do hijab ou da escolha da mulher. Trata-se de pseudo-ciência e misoginia. 
                                                                                                                                               Trata-se do fato de que mulheres que usam o hijab não estão mais seguras que mulheres que não o usam. Trata-se do fato de que precisamos de proteção real às mulheres nas sociedades islâmicas, em casa, nas ruas, e no ambiente de trabalho - não apenas em trajes milagrosos.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Parem de culpar a vítima!

Estupro é causado por misoginia, estupradores, tolerância institucional e violência estrutural.
E NÃO pelas roupas, por estar no lugar "errado", bebendo ou não "tomando cuidado suficiente".

Integrantes da banda de pagode New Hit são os acusados de estuprar duas adolescentes fãs da banda após um show na cidade de Ruy Barbosa na Bahia. O exame de corpo de delito foi feito e através dele foi constatada a existência de hematomas internos vaginais em ambas as vítimas, o que é um indício grave de que sim, elas foram vítimas de estupro.

Os detalhes do caso são terríveis: as duas jovens foram estupradas por dez homens e a sociedade, em geral, se comporta de forma machista e misógina culpando, as vítimas pelo acontecido e também ameaçando suas famílias por terem denunciado o caso. Os apoiadores dos acusados alegam que a mera ida ao show já é considerado um indício que elas estavam "pedindo"; afinal, para essas pessoas, mulheres que saem de casa à noite não são dignas de respeito. Outros dizem que elas entraram no ônibus porque quiseram e isso seria mais um indício que elas estavam "provocando, pedindo, buscando" o que veio acontecer.

Há quem diga que elas forjaram o estupro, mas como então elas forjaram os hematomas que constaram no exame de corpo de delito? Há quem diga que elas são "umas vadias", deram muito e agora denunciaram o estupro porque a banda teria dinheiro. Para essas pessoas, eu informo: quando uma pessoa é condenada por estupro, ela não fica obrigada a pagar "muito dinheiro" pra vítima; por mais que vocês achem que estupro é um "problema menor" ou até mesmo uma forma de ganhar direito em cima dos outros; saiba que se ele está previsto na lei penal, quer dizer que essa conduta criminosa é relevante para o Direito e que essas pessoas devem ser punidas, pelo bem da coletividade. Há quem diga que eles não precisam estuprar ninguém, afinal, eles poderiam ficar com quem quiserem naquele show. Para essas pessoas, eu digo, estupro não é sexo. 
Marcha das Vadias de BH - 2011 - Acervo Pessoal

Mais uma vez a sociedade nos mostra sua cara misógina e machista e a gente destaca, novamente, que a culpa de um estupro é do estuprador, jamais da vítima. Não se evita estupros não permitindo que mulheres saiam de casa; não se evita estupros cobrindo o corpo das mulheres com determinadas vestimentas; não se evita estupros culpando as vítimas pela violência sexual sofrida.

É necessário deixar claro mais uma vez que se uma mulher estiver nua e desmaiada de bêbada numa cama, NINGUÉM TEM PERMISSÃO de tocá-la; afinal, ela não tem possibilidade de consentir com o ato. Se uma mulher beija um homem, ele não tem direito de tocá-la onde ela não permitir, ele não tem direito de supor que um beijo é consentimento para qualquer ato sexual que seja. Há diversos exemplos a serem dados mas, neste caso, é bom deixar claro que uma mulher de noite num show não "tá pedindo", uma mulher que entra num carro, na casa, ou num ônibus de um cara não "tá pedindo". Não existe "estar pedindo" por um estupro, porque o que determina se um estupro aconteceu é a ausência de consentimento. Se não há consentimento é estupro. Simples, né?

Roupa, comportamento sexual, a hora e o lugar onde a vítima do estupro se encontrava não a faz menos vítima. Dizer que essas garotas são vadias e mereceram é endossar ainda mais a cultura do estupro, é contribuir para que vários criminosos continuem impunes. Organizar uma marcha em defesa dos acusados não é possibilitar o acesso ao contraditório e ampla defesa numa ação penal, é simplesmente ignorar que essas pessoas podem ter cometido crimes, é banalizar todas as formas de violência contra mulher. Duvidar, dessa forma, de uma acusação de estupro, é dizer que o corpo das mulheres é disponível, pode ser violado se ela não se comportar conforme parcela da sociedade diz que é certo. A marcha que está sendo organizada pelos fãs da banda zomba da Marcha das Vadias, zomba das diversas vítimas de crimes que violam a dignidade sexual das pessoas, zomba também da própria ideia de um mundo menos violento e menos machista.

O caso deixa claro como denunciar um estupro não é uma decisão fácil e como a vítima daquela violência e todos que estão próximos sofrem com os julgamentos machistas que são destinados pra quem tem coragem de não se calar.

Ato em apoio às vítimas, aqui.