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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Feminicídio e misoginia: por que é tão importante usar essas palavras?

Machismo mata mulheres todo dia - Grafites Feministas
Mais um caso de massacre com motivação misógina ocorreu na última sexta-feira (23/05). Elliot Rodger esfaqueou três colegas de quarto e atirou em duas mulheres no campus, além de atirar sem alvo até ser encontrado morto em sua BMW. E a mídia, em sua grande maioria, mais uma vez, ignora a questão de gênero que está por trás desse crime.

Elliot Rodger deixou claro o quanto odiava mulheres em um vídeo gravado por ele em que ele culpava as mulheres por sua solidão e jurava vingança contra todas as mulheres que o rejeitou se referindo a elas como "vagabundas mimadas". Foi achado um diário de 140 páginas em que ele destila seu ódio com frases como "Mulheres não merecem ter qualquer direito". 

No Brasil, ocorreu um massacre em Realengo, em 2011, quando Wellington Menezes entrou numa escola e assassinou dez meninas e dois meninos. Quando isso ocorreu, por mais que o crime claramente tivesse sido motivado pela misoginia e essas meninas tivessem sido vítimas por serem mulheres, a mídia não se pronunciou a respeito. E assim como Elliot, Wellington tinha vínculo com grupos masculinistas. 
Fonte
Mas a misoginia não influencia apenas ataques em massa, mas também nos assassinatos de mulheres por seus maridos, ex-namorados e até mesmo pais. Quando a cultura misógina diz que mulheres devem obediência aos homens e que pertencem a eles, ela influencia esse tipo de crime. O feminicídio de Eloá é emblemático: seu ex-namorado, Lindemberg, invadiu a casa de Eloá, onde ela estava fazendo trabalhos escolares e ela e uma amiga foram mantidas por ele em cárcere privado . A amiga dela foi liberada e participou das negociações e depois de 100 horas, Eloá foi assassinada pelo ex, após uma ação mal efetuada pela polícia. O feminicídio foi televisionado, entretanto, jamais foi falado do caráter misógino da ação do ex. 

Chamar um feminicídio de crime passional é ignorar os aspectos culturais que induzem homens acharem que mulheres são propriedade deles e assumir que paixão/amor são capazes de fazer pessoas agirem com tamanha violência. Sendo que não é o amor, paixão ou desejo que motivam essa violência e sim as relações de poder e a naturalização de relacionamentos abusivos como românticos. 

É importante desmistificar que só é misoginia e machismo quando chega a ocorrer tais crimes. Afinal, por trás dessa violência, há o descaso e despreparo da polícia para atender as vítimas de violência doméstica e de estupro, o que dificulta que as denúncias sejam feitas e que quando feitas, surtam efeitos. E há também toda uma cultura que reafirma que os corpos das mulheres são disponíveis, de culpabilização da vítima e que coloca o ciúme e o controle da vida do parceiro como românticos, o que naturaliza os relacionamentos abusivos.

Elliot Rodger já tinha demostrado antes seu ódio por mulheres. Por exemplo, ele jogou café em duas mulheres numa lanchonete, porque elas não sorriram de volta para ele. No diário citado acima, ele afirma que queria que o café estivesse mais quente, para queimá-las. Se vocês tiverem estômago, leiam esse texto aqui, que expõe várias barbaridades que ele escrevia.

Homens: Mulheres não te devem nada. Isso mesmo, nem mesmo um sorriso

A importância da mídia nomear esse tipo de crime como um crime de gênero é que ao fazer isso, ela reconhece que a misoginia e o machismo existem e devem ser combatidos para evitar mais mortes. O reconhecimento de que existe sim uma cultura que coloca a mulher como inferior ao homem e de ódio contra tudo que é feminino e a influencia dessa cultura na existência de alguns crimes, faz parte do processo de conscientização de que ela tem que mudar.

Só é possível combater a misoginia, usando essa palavra toda vez que comportamentos e discursos que a reproduzem aparecer.  É necessário dizer que é misoginia, quando frases como "Aquela vadia dá para todo mundo, menos pra mim. Odeio essa vagabunda" são ditas e assim aos poucos destruir a ideia de que mulheres devem alguma coisa para os homens. Nomear o problema é um passo essencial para que ele passe a ser combatido como deve e não ter aspectos essenciais de mecanismo de desconstrução negligenciados.

Quem o machismo matou hoje? 

Vale muito a pena dar uma olhada na hasthtag "#YesAllWomen" ("#YesAllWoman")

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Recalque Misógino


Na semana do dia dos namorados percebe-se que ao contrário do que deveria ser, o amor não é pra todos. Nas propagandas que anunciam promoções para o dia você só vê casais, héteros, cis e brancos. Como se amar mais de uma pessoa não fosse amor, como se casais de lésbicas de gays não existissem, como se transexuais não amassem e negros também.

Versão Só que não de uma imagem machista.
E sabe quem mais não merece amor? A mulher considerada vadia. Ela sente toda a pressão para estar acompanhada de um homem, como se ela precisasse dele. Sente que o valor dela depende se ela consegue arrumar um namorado ou não, mas a sociedade diz que ela não merece um namorado, ela não merece um amor e nem sequer pode reclamar que não está num relacionamento, simplesmente porque ela tem vida sexual ativa, porque o comportamento dela difere dos papéis de gênero, porque ela é uma mulher e se ela não foi "escolhida", ela não se dá valor e não merece nem amor, nem respeito e nem carinho. 

Essa (falta de) lógica misógina da nossa sociedade se mostra de forma ainda mais doentia: com piadas de "feliz dia dos namorados" utilizando imagens do caso Eloá. Brincar com o femicídio de Eloá não é politicamente incorreto, não é só uma piadinha inofensiva, não é uma crítica ao dia dos namorados, é negligência, é babaquice, é falta de ética e é misoginia.

A negligência está em ignorar as estatísticas assustadoras de mulheres que sofrem e sofreram violência por parte de seus parceiros e companheiros, ignorar o medo de várias mulheres de denunciar a violência sofrida, ignorar o tratamento recebido pelas mulheres que são vítimas de violência nos hospitais, na justiça e na delegacia e ignorar que até hoje os crimes como o do caso Eloá são considerados "crimes passionais".

Propaganda típica de dias dos namorados. Só loiros amam.
Na semana do dia dos namorados é importante destacar que amor e paixão não tem nada a ver com assassinato, com estupro, com ameaça, portanto não há que se falar em crime passional quando uma mulher é morta pelo seu companheiro, o nome certo é femicídio. Quem ama não mata e nem maltrata, quem ama não se acha dono do parceiro, quem ama respeita. 

Enfim, não se engane, o amor não é para todos. São poucos que tem a permissão de amar, e dentre esses poucos, praticamente não há mulheres. Afinal, em tempo de patriarcado, mulher que tem voz, se ama independente se ama outrx, se respeita e não é submissa, não merece respeito e nem amor, merece sim ser punida por ser assim.