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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Cultura do estupro II: Nova Schin violenta mulheres "sem intenção"

Apenas dois dias se passaram desde que as pessoas se mobilizaram nas redes sociais em repúdio à propaganda da prudence, chamada "Dieta do Sexo", que banalizava o estupro e já se iniciou uma nova polêmica, dessa vez em torno de uma propaganda que vem sendo veiculada na tv há alguns meses. O nome da propaganda é "Homens invisíveis". Pelo nome já dá para tirar algumas conclusões.

Alguém já assistiu o filme "O homem sem sombra" (Hollow man), estrelado por Kevin Bacon? A Lola menciona o filme neste post aqui, e nós do Ativismo também não poderíamos deixar a referência de lado. A premissa é bastante simples: Um cientista resolve testar em si mesmo a sua descoberta, a fórmula da invisibilidade. Dentre as situações decorrentes da nova condição, houve uma especialmente sombria. O personagem costumava observar a sua vizinha em situações íntimas, e dada a nova condição, resolveu estuprá-la, pois jamais seria reconhecido. A cena nos causa horror.
Ter o poder da invisibilidade significa uma liberdade irrestrita, soltar-se de todas as amarras sociais. Não é à toa que a propaganda da Nova Schin escolheu, dentre tantos super poderes, exatamente aquele que dá ao homem o poder de fazer qualquer coisa, sem que isso seja punido, reprovado. O anonimato é a garantia da impunidade. Com isso em mente, os homens da propaganda animam-se a abusar das mulheres. Exatamente como no filme "O homem sem sombra". Enquanto lá o estupro é mais explícito, aqui ele é relativizado.
As pessoas ainda não se acostumaram com o fato de que a chave para entender o que é um estupro está em duas palavras: "não consensual". O Estupro não se resume àquele crime em que um psicopata desconhecido aborda uma mulher em um beco escuro e a penetra. Há estupro sem penetração, há estupro dentro de casa, com parentes, pais, conhecidos, amantes. Há estupro de vulnerável, que ocorre quando a parte violada não tem condições de reagir, ou por estar bêbada, doente, drogada e até mesmo por ser menor de idade. Há várias modalidades diferentes de estupro. Tirar o biquíni de uma mulher sem a permissão dela é estupro. Vamos recapitular então, recorrendo ao código penal:
Art.213 - "Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso"

Art. 217-A - "Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (quatorze) anos"


§ 1º "Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência."

Agora veja a
propaganda.


É preciso lembrarmos que a propaganda veiculada pela Nova Schin e legitimada pelo CONAR (que indeferiu as denúncias), dá margem à interpretação de que realmente há o estupro. Não o estupro em que há penetração, mas o ato de bolinar contra a vontade da vítima está explícito. A gente fica imaginando a reunião para decidir como seria a propaganda: "Ah, seria maneiríssimo os caras invadindo o vestiário feminino e elas saindo de lá apavoradas". GENTE.


Tópico criado pela Jarid (clique para visualizar) 
Uma vez que a campanha foi feita (Como assim, ninguém se tocou o quão ofensiva ela é?), aprovada pelo cliente (Como assim, você vai vincular sua marca ao crime de estupro?), veiculada no horário nobre (milhões de famílias assistindo), algumas pessoas, como nós, se ofenderam. Entramos em contato pelo Facebook da Nova Schin para pedir uma retratação e retirar a peça publicitária do ar. O que recebemos? A seguinte nota no tópico criado pela blogueira e ativista Jarid Arraes:
"Prezada Sra. Jarid Arraes,
Agradecemos o contato e esclarecemos que o Grupo Schincariol preza pelo respeito à dignidade de cada indivíduo.
Assim sendo, ressaltamos que não houve intenção de ofender qualquer pessoa no filme publicitário mencionado. Cordialmente, Grupo Schincariol".

Infelizmente, a nota em nada se retrata pelo absurdo conteúdo do vídeo, apenas afirma que a intenção não foi a de ofender. Oras, mas ofendeu. Depois dessa resposta, a atitude da empresa foi ainda mais violenta com as mulheres: desce um selinho Sandra Annenberg pra eles PFVR? Porque né, só fazendo brincadeiras pra tentar entender o grau do desrespeito a que fomos sujeitadas ontem o dia inteiro. Os administradores da página apagaram nossas mensagens sistematicamente, inclusive a mensagem da Jarid Arraes, que contava com mais de quinhentos compartilhamentos. Tolinhos. Ao tentar nos calar, inclusive bloqueando várias usuárias (do face, porque vamos combinar, ninguém em sã consciência vai se declarar ‘usuária’ duma cerveja chinfrin dessas), a Schin conseguiu aumentar mais ainda o nosso ódio. Sim, meus caros, escrevemos essas linhas com sangue nos zóio. E temos certeza que a Jarid, e todas as pessoas que compartilharam sua postagem ontem, estão, também, mais do que chateadas com essa reação opressora da cerveja. É basicamente por isso que estamos aqui, em blogagem coletiva, para dizer em alto e bom tom: vocês não vão nos calar!


O que é realmente invisível para a empresa e para tantas pessoas que defendem a propaganda, a galera do team "deixa disso", "era só brincadeirinha" e "não tem nada demais", é a situação calamitosa das mulheres. Vivemos em uma sociedade que adora chamar estuprador de monstro, de psicopata, de demônio, mas que incentiva o estupro de diversas maneiras. Se você é uma dessas pessoas, parabéns, você já sucumbiu à
cultura do estupro e já naturalizou a violência. Veja bem, não estamos dizendo que você é um estuprador, estamos dizendo que você relativiza, suaviza o abuso.

Alguns ainda dirão: "mas a propaganda é velha!" Ao que perguntamos: E o Kiko? E DAÍ? Acaso agora existe prazo de validade pra reclamar das coisas? Amigx, se o machismo fosse tão fácil assim de identificar, nós simplesmente não precisávamos estar aqui. Não ia precisar de ninguém fazendo blog pra tentar desconstruir preconceitos que cimentam sim uma cultura altamente opressora e prejudicial às mulheres. Ou você realmente acha que nos falta o que fazer? Que nossas contas são pagas milagrosamente? Que o tempo que gastamos aqui tentando fazer desse mundo uma merda um pouco melhor pra se viver não poderia muito bem estar sendo gasto em algo mais produtivo mas, OLHA SÓ, pessoas preconceituosas como você estão a todo tempo passando piadinhas de mal gosto e disseminando uma cultura asquerosa que, além de colocar a culpa do estupro na mulher, ainda incita a violência por meio das tais piadinhas?

Por fim, cerveja ruim, propaganda ruim. Sim, a cerveja é péssima. Como dissemos acima, ninguém se declara “fã” duma cerveja marromeno dessas. Mas, peraí. Não sabemos quem fabrica, mas dinheiro ali tá rolando, viu. Galera tá comprando, nem que seja pra guardar no freezer pra servir por último nas festas. Sem contar que estão com grana pra veicular a propaganda até em horário nobre na tevê. E a propaganda é ruim? Sim, é péssima. Mas isso não exime a Nova Schin. Se fôssemos protestar contra coisas de pretensa qualidade apenas, sobraria muito pouco a ser falado, não? Então, amigx, na boa, bora dar um tempo no elitismo e encarar o problema de frente? Propaganda mequetrefe nenhuma nos define, mas se nos desrespeita nós iremos sim levantar a voz e reclamar!

* Texto colaborativo de Flávia Simas e Gizelli Sousa.

Mais textos sobre o assunto:

Biacentrismo - Cerveja é bebida masculina, certo? - Por Maria Beatriz

Escreva, Lola, Escreva - A repercussão do protesto contra Nova Schin - Por Lola Aronovich
Popnoid - Nova Schin incentiva o estupro e você pode fazer a diferença - Por Mariana
Mulher Dialética - Desconstruindo a cultura do estupro - Por Jarid Arraes
SubJudice- E se você fosse invisível, o que você faria? - Por Fátima
Escreva, Lola, Escreva - Situações Absurdas - Por Lola Aronovich
Blogueiras Feministas - A Nova Schin quer nos calar, mas vamos fazer barulho! - Jarid Arraes

1+1-1 - Qual o seu preço - Por Geísa Mueller
Contravento - Machismo: Preservativo, cerveja e Alexandre Frota - Por Charô
Partido das Causas Perdidas - Cultura do estupro e publicidade - Por Lou Sevla
Tumblr Uma Feminista Cansada - Resumindo propagandas 
Tumblr Machismo Chato de Cada Dia - Nova Schin e seus desrespeitosos "Homens Invisíveis" 
Tumblr Machismo Chato de Cada Dia - Nova Schin, Leo Burnett e Conar
Kaleydoscopeeyes - A Nova Schin, as propagandas, o machismo e os publicitários moderninhos - Por Bete


No facebook:

Grupo -
Imaginação e não Apelação, chega de propagandas machistas - Grupo criado para debater (e combater) a publicidade machista.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Cultura do estupro, da propaganda da Prudence às piadinhas de estupro.


Um exemplo de como a cultura desvaloriza a mulher que faz sexo.
Via Slut Shaming Detected.
Numa cultura onde homens são valorizados por fazer muito sexo e com várias mulheres  e mulheres são desvalorizadas se fazem sexo, não é surpreendente que surjam muitas imagens no Facebook "ensinando" homens a "conseguir sexo". Nessas imagens, a vontade da mulher é completamente ignorada; afinal, na nossa sociedade, mulher não tem desejo sexual - ela faz sexo ou deixa de fazer por "interesses". A maneira mais mostrada de "levar uma mulher para a cama" é o pagamento de jantares e presentes, e tudo isso do mais caro e do melhor. O consentimento feminino é tratado como comprável, pois só em troca de algo valeria a pena para a mulher fazer sexo - já que fazer sexo é "se desvalorizar". Nesse ponto, muitos homens se revoltam, porque ao receber um "não" depois de todo "esse trabalho e dinheiro gasto", eles se sentem enganados. Se o jantar foi pago, pronto: na cabeça de tais homens, a mulher é obrigada a consentir.

Outro ponto, até mais assustador, é o incentivo ao uso de substâncias como o álcool (e, às vezes, outras drogas) para "dopar" a mulher e assim "conseguir sexo". Nesse caso, o consentimento da mulher é completamente ignorado e nem se faz questão de "conquistá-lo" - afinal, se ela bebe em companhia de um homem, "ela tá pedindo", ela quer.

Na cultura do estupro, o que a mulher pensa e deseja não importa: o que importa é o desejo masculino. As manifestações que reiteram essa cultura são várias e vão de "piadinhas", cenas de novelas e filmes até a publicidade. Recentemente a empresa de preservativos Prudence veiculou em sua página no Facebook uma imagem que banaliza a violência sexual. O texto da imagem rola na internet há anos, mas nunca antes tinha sido veiculado como propaganda de uma empresa. Na imagem relaciona-se o termo "sem o consentimento dela" a tirar a roupa, e também há o seguinte texto: "tirando o sutiã com uma mão e apanhando dela". Os dois itens são os que mais gastam calorias, ou seja, coloca-se a falta de consentimento feminino como algo positivo pra tal da "dieta do sexo".
Campanha do Bule Voador contra a propaganda.

O pensamento que mulheres gostam de fazer "charminho" para aceitar investidas masculinas é nocivo porque generaliza um comportamento, muitas vezes relativiza o consentimento feminino, supõe que todo "não" ou "talvez" dito por uma mulher é um sinal de que é só insistir mais que ela vai ceder e coloca toda a manifestação feminina negativa como parte de uma brincadeira. É necessário destacar que o consentimento é necessário mesmo para jogos eróticos - se não houver consentimento não há sexo: há violação do corpo. Há estupro.

O pensamento reiterado na propaganda da Prudence banaliza a violência contra a mulher, porque tira dela a condição de sujeito, de ser dona de suas próprias vontades e retira sua voz, porque a coloca  numa situação em que seu não ou sim é ignorado completamente. Ao falar "sem o consentimento dela", a violência sexual fica mais naturalizada ainda. Como se haver ou não consentimento não fosse algo que importasse. E essa naturalização da violência contribui para que o estupro seja visto como uma modalidade de sexo e não como o crime cruel e violento que é. Quando a propaganda fala sobre "tirar o sutiã apanhando dela", além de mostrar que realmente pouco importa se a mulher quer ou não fazer sexo, coloca os jogos eróticos BDSM como se eles não fossem algo de pleno acordo, baseado em confiança e em consentimento.

A Prudence, depois de muita pressão, postou uma nota se desculpando pela veiculação da propaganda e deixando claro para seus clientes que tirar a roupa da parceira sem seu consentimento é crime. Triste é ver que várias pessoas vêem essa propaganda como uma piada inocente e acham que as denúncias feitas são baseadas num "moralismo exagerado".

E um adendo: é necessário que as campanhas publicitárias de artigos sexuais, incluindo preservativos, façam propagandas levando em conta que mulheres também são ativas sexualmente. E que são donas de seus corpos e que são possíveis consumidoras de seus produtos. Colocá-las apenas como um prêmio para os homens héteros é nocivo porque contribui para a idéia de que mulheres não gostam de sexo e são apenas troféus. Homens não são predadores e mulheres não são suas presas. E é claro: seria interessante que fossem campanhas que não supõem que apenas casais heterossexuais fazem sexo.

O conceito de propaganda afirma que ela deve persuadir opiniões, sentimentos e atitudes do público-alvo. Se as campanhas publicitárias atuais levam em conta que apenas um grupo compra camisinhas e ignora outro: ela reitera a doença social do machismo. E também da homofobia e lesbofobia.

Demais textos em repúdio ao caso:
"Prudence e a fetichização do estupro", Blogueiras Feministas, Luka.
"Guestpost: Propaganda acima do bem e do mal", Escreva Lola Escreva, Vivian.
"Cultura de estupro? Não, imagine", Escreva Lola Escreva, Lola. 
"A propaganda da Prudence e a heteronormatividade", Minoria é a mãe, Kamila.
"O Estupro da Prudence e o que nós aprendemos com ele", Não precisa gritar, Lucy
"Desconstruindo a cultura do estupro", Mulher Dialética, Jarid. 
"A violência é fácil de se entender", Feminerds, Julia.
"dear Prudence", Meu palanque, Fran Carneiro.
"Nota de repúdio da Marcha Mundial das Mulheres à publicidade sexista da Preservativos Prudence", Marcha Mundial das Mulheres.
"Lira Alli: Camisinha Prudence faz apologia ao estupro", Viomundo.
"A absurda propaganda da Prudence", Machismo chato de cada dia. 
Notícia sobre o caso:
"Conar deve abrir, até amanhã, processo contra marca de preservativos Prudence"
"Marca de preservativos retira publicidade da internet após críticas"
"Fabricante de camisinha tira anúncio polêmico do ar"
"Propaganda de camisinha que incentiva violência contra mulher causa polêmica no Facebook" 
Outros textos:
"A graça de um estupro", Feminerds, Julia. 
"E onde está o meu consentimento?", Ativismo de Sofá, Thaís.

terça-feira, 29 de maio de 2012

O corpo é meu! O Facebook não é nosso!


A marcha das vadias lavou minha alma. Lavou a alma de muita gente. Eu não sei muito bem o quanto eu precisava daquele momento na minha vida, eu sei que ele foi muito importante para mim. Desde que eu conheci o feminismo e fui lentamente tomando consciência de todas as pequenas violências que sofria, que tolhiam a minha liberdade em muitos aspectos diferentes, muita coisa foi embora de mim. Mas principalmente muitas pessoas foram embora. Só que ao mesmo tempo, eu não me sentia só. E nesse sábado eu não estive só mesmo. Cerca de três mil pessoas em Brasília estiveram comigo, botando para fora em alto e bom som muito daquilo que dizemos todos os dias discretamente: queremos ser respeitadas e isso independe da forma como falamos, nos vestimos (ou não nos vestimos), nos relacionamos. Só que muita gente por aí nem sabe o que o verbo respeitar significa. 

Foto da fan page da Marcha das Vadias DF
Aquela velha história de que mulher tem que se dar ao respeito carrega uma carga de machismo e moralismo tão grandes, que eu juro que não entendo como eu não consegui enxergar isso até alguns anos atrás. "Se dar ao respeito" não é respeitar suas escolhas, suas preferências, sua liberdade de ir e vir, de agir como quiser... Via de regra, "se dar ao respeito" é repetido por aí como sinônimo de privação de liberdade individual. Se você usa roupa curta, não se dá ao respeito. Se tem vida sexual ativa, goza e gosta muito, não se dá ao respeito. Se não tá afim de um relacionamento afetivo monogâmico, não se dá ao respeito. Se anda ficando com quem tá afim sem pensar em namoro, não se dá ao respeito. Respeito é uma palavra que precisa ser ressignificada. Respeito, como é repetido por aí, está diretamente ligado à invisibilidade da sexualidade feminina. Eu sou vadia e me dou ao respeito. 

Respeito não se pede, se conquista. Exigimos que nos tratem com respeito, e fazemos isso sem implorar de pernas e bocas fechadas, mas mostrando para a sociedade o quanto a sua noção de respeito é falha. Para isso é preciso união. É como nós gritamos na marcha: "Ah! que é isso! Elas estão organizadas!". E estamos mesmo, cada vez mais. E estamos conseguindo visibilidade também. Um movimento nacional que só em um final de semana reuniu cerca de 10 mil pessoas? Isso não passa despercebido. E com certeza aumentaremos em número e em consciência. Feminismo é um aprendizado constante. 

Foto da fan page da Marcha das Vadias DF 
Entretanto, a luta ainda é necessária. Prova disso é a forma reacionária e moralista como o facebook tem encarado as fotos das mulheres que estavam na marcha com os seios de fora. Que fique claro: não são fotos pornográficas. Seios não servem apenas para entreter os homens, mostrar os seios na marcha é uma atitude política, porque o nosso corpo não é apenas sexual, ele é político. Ele é tão político, que em alguns países as mulheres precisam escondê-lo inteiramente ou podem morrer caso não façam. O facebook parece ignorar essa característica e tem apagado sistematicamente as fotos das moças de topless. Infelizmente, a mesma rede social que apaga fotos não pornográficas de mulheres exigindo uma sociedade mais justa, não apaga imagens racistas, homofóbicas ou misóginas. Ultimamente nem tenho mais usado a opção "denunciar" do Facebook, tenho ido direto ao safernet e à PF denunciar esses conteúdos. Isso posto, é de se perguntar porque a nudez choca mais que a violência cotidiana. 

Foto da jornalista Luka Franca
censurada pelo Facebook
Não é a primeira vez que isso acontece no facebook, em outro momento fotos de mães amamentando foram retiradas arbitrariamente da rede social. MÃES. AMAMENTANDO. O corpo feminino é sempre sexualizado ainda que ele não seja usado para fins sexuais. Me diga, você se alimenta cobrindo o rosto? Porque um bebê precisa se cobrir para se alimentar? Foi necessário protestar com mamaços virtuais para o Facebook permitir fotos de mães amamentando seus filhos. Se você acha que o Brasil é um país libertário em que tudo pode, pense de novo. Não é bem assim, a onda conservadora que assola o país também esbarra nos nossos corpos. por isso é preciso gritar: "Meu corpo, minhas regras!" Fazer ouvir a voz de quem nem sempre, no dia-a-dia pode externar esse sentimento sem receber toda sorte de julgamentos morais. 

Ao contrário dos homens, que ao sentir calor não pensam duas vezes em tirar a camiseta, mulheres não tem esse privilégio. Guess what? Mulher também sente calor. Mas toda a nudez feminina será censurada. Toda nudez será objetificada, será rotulada, será retirada dos perfis do Facebook como se fosse ofensa. E ofende também o fato de que nem sempre os seios exibidos são durinhos, apontem para cima, caibam na mão. Com certeza o peitaço no fim da marcha das vadias de Brasília foi o final perfeito para a marcha de um movimento libertário como o feminista, porque contradiz essa idéia de que a mulher é um pedaço de carne. O nosso corpo não é inerte, não é produto, não é objeto, ele também fala por nós.  Lamentamos profundamente que a maior rede social do mundo tenha uma visão tão tacanha do corpo feminino.

Foto por Leiliane Rebouças

terça-feira, 24 de abril de 2012

E onde está o meu consentimento?

"Quanto tempo os homens querem que o sexo dure?", "10 coisas que ele nunca quer ouvir você dizer" e outras frases afins. A frase no meio é "Por que uma revista que é feita pra mim fala tudo sobre ele?"
Me preocupa a forma que as revistas destinadas ao público feminino falam sobre sexo. As principais chamadas são “Como agradar o seu parceiro?”, “Descubra o que os homens gostam na hora H” e coisas do tipo.

O prazer feminino é sempre deixado de lado e quando é falado se resume ao orgasmo. E pra ilustrar o quanto a qualidade essas reportagens anda ruim, já vi numa dessas revistas até um manual para mulher aprender a fingir orgasmo. (Afinal, o orgasmo feminino muitas vezes assume o significado de uma prova da virilidade masculina, uma amostra do poder dele. Ou seja, até mesmo o orgasmo feminino é visto como algo pra agradar o homem).
Coerção/coação não é consentimento
Lembro de um episódio de The Big Bang Theory que ilustra bem como o prazer feminino é visto pela sociedade. A cena é a seguinte: Leonard e Penny fizeram sexo. Ao comentar sobre a experiência, Leonard falou que foi “just nice”, que seria algo meio que “foi bonzinho”. E o personagem Howard disse algo como “Foi bonzinho pra você ou só pra ela? Porque se foi só pra ela tá tudo bem”.

 A invisibilidade do desejo sexual feminino e o tratamento dele como algo sem importância é rotineiro e revoltante, mas além dele me preocupa também esse discurso que o sexo é um instrumento para a mulher conseguir o que quer e manter um relacionamento. Parece que nenhuma mulher pode realmente gostar de sexo. Mais uma vez nos deparamos com a questão de “feminilidade” e da “masculinidade”. O sexo para a mulher seria algo íntimo, afetivo, enquanto que para o homem seria uma forma de se provar másculo e viril. As revistas femininas colocam o sexo como uma obrigação numa relação heterossexual, a obrigação parte da ideia de que a mulher precisa daquele relacionamento, precisa do afeto, do carinho, enquanto o homem precisa do sexo em si. E todo o relacionamento heterossexual parte (supostamente) dessas “diferentes necessidades”. A mulher oferece sexo para ter carinho e afeto, enquanto o homem oferece o carinho e o afeto para ter sexo.

O consentimento feminino é tão manipulado que até a hora de dizer sim ou não para o sexo é ditada pelas revistas. Sexo no primeiro encontro é repudiado, muitas vezes a mulher adia o sexo com medo de ser mal vista, conforme as dicas das revistas afirma que vai acontecer. A sociedade diz  "a mulher não deve se entregar aos seus desejos sexuais" porque isso mancharia a reputação dela. E a "hora do sim" que deveria ser quando os dois querem, sentem desejo e tesão é transformado pela sociedade patriarcal em o homem quer e a a sociedade acha que tá tudo bem, ou seja, quando a mulher já tem "o respeito" dele. Por exemplo, dentro de um relacionamento sério considera-se que a mulher deve fazer sexo quando o cara manifestar vontade ou será trocada.

O desejo sexual feminino é considerado como um apêndice do desejo sexual masculino. E toda mídia coloca a boa namorada/boa esposa como uma mulher que não nega fogo, que entende os desejos sexuais do marido e cede. E eu me pergunto onde está o nosso consentimento quando essas revistas tratam o sexo hétero como uma obrigação num relacionamento. Se uma mulher faz sexo com o parceiro porque teme ser largada, trocada, traída, tem algo muito errado ai, se uma mulher se depila de uma forma que ela não gosta porque o parceiro pede, tem algo errado ai. Se a mulher cede e faz posições que não gosta pra agradar o parceiro, tem algo errado ai.
Não é consentimento se você me faz ter medo de dizer não.
Em relação ao próprio prazer, o homem é hipersexualizado, enquanto a mulher é educada pra ser pouco sexualizada e sempre agir de forma passiva a respeito. As revistas exploram esses estereótipos dos papéis de gênero e lotam suas páginas com depoimentos onde homens falam que num relacionamento monogâmico buscam sexo fora do casamento porque a esposa não faz tanto sexo quanto eles querem, colocam o sexo deles como uma necessidade fisiológica. 

Numa sociedade que explora, produz e intensifica as inseguranças femininas, principalmente em torno do corpo e do padrão de beleza e é heteronormativa e monogâmica, esses depoimentos tem um poder de coação enormes. Se nós mulheres sentimos que seremos trocadas ao recusar sexo e fazemos sexo sem vontade, não há consentimento.