Mostrando postagens com marcador Padrões de gênero. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Padrões de gênero. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 6 de março de 2013

Oito de março é dia de luta.

Texto de Thaís e Flávia. 

Não é novidade para ninguém que o oito de março, uma data que deveria reforçar a necessidade da nossa luta para sermos vistas e respeitadas como ser humano, é visto pela mídia e pela sociedade como mais um dia para reafirmar ideais de feminilidade.

Campanha da Prefeitura de PoA.
A Prefeitura de Porto Alegre, por exemplo, em sua página no Facebook, postou uma série de afirmações que iniciavam com um "só uma mulher sabe". E as frases utilizadas para complementar a chamada são exemplos do estereótipo do que é "ser mulher". A nossa existência não pode ser resumida, em nenhum dia do ano, a apenas chegar em casa e enfim poder tirar o salto alto ou em ficar triste porque estragou o esmalte recém passado.
  
A problemática desse tipo de manifestação que resume as mulheres a enfeites, seres frágeis ou quase mágicos por aguentar tripla jornada e poder ter filhos não está só no fato de que o oito de março é um dia de luta, mas também se encontra na reafirmação do que é "ser mulher".

O dia oito de março é cheio de homenagens que nos colocam num pedestal. A mulher ideal para a sociedade patriarcal é aquela que se sacrifica diariamente e é vista como forte por isso, aquela que aguenta calada xingamentos, ofensas em forma de piada e a restrição de seus direitos. E é por isso que é tão comum vermos comentários como "parabéns mulheres por aguentarem tudo". Sacríficio é algo considerado bonito, principalmente para quem é mulher. Porque quem é mulher parece ter que ser punida diariamente por isso, com salários menores, com tripla jornada e etc.

Banner da programação da semana da mulher.
Quando a mídia e a sociedade nos parabeniza por ser mulher, foca todas as ações do oito de março em distribuir flores e chocolates, fazer promoções de itens de consumo voltados para a vaidade feminina, ela não só reforça os papéis de gênero, como também negligencia como a violência contra a mulher continua sendo um problema sério. É fácil distribuir cartõezinhos e se esquivar de discutir em profundidade a guerra contra as mulheres em que se encontra o mundo. Porque ao discutir com profundidade nota-se que o problema é a cultura de ódio em que vivemos. Uma cultura misógina, machista, homofóbica, transfóbica, lesbofóbica e racista. 

Os feminicídios ainda são chamados de "crimes passionais", as "cantadas" que ouvimos na rua desde cedo são chamadas de elogios, a objetificação das mulheres ainda é rotineira. Os salários das mulheres continuam sendo cerca de 30% mais baixos que o dos homens, sendo que a mulher negra ganha ainda menos que uma mulher branca. 
  
Campanha resposta.
Oito de março é um dia de luta contra esse ideal de feminilidade tão excludente e opressor. É o dia de falarmos que não precisamos "aguentar caladas", de jogar fora essa idéia de que é legal se sacrificar, de incentivar a solidariedade feminina e nos empoderar. Nos empoderar para lutarmos não só nesse dia, mas diariamente.

Oito de março é um dia para lembrarmos que a nossa luta é diária, que a cada passo que damos para melhorar a vida das mulheres, a sociedade se encarrega de "nos colocar em nosso lugar", em um backlash que coloca à prova a nossa força. Às vezes o desânimo toma conta de nós, pois parece que nada muda. É por isso que datas como o oito de março são tão importantes. Porque é através das "homenagens" que recebemos, que fazem questão de celebrar um sistema castrador e opressivo, que encontramos força para protestar. Oito de março é dia de dizer: o sistema tem que mudar.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Não pediremos "por favor, parem de nos oprimir"

Texto colaborativo escrito por Flávia e Thaís.

Imagem de CLIT Zine 

Hoje vamos falar da tal “educação” feminina. Por se tratar de um assunto que nos afeta diretamente, pedimos desculpas pela provável confusão do texto. Isso se deve ao nosso elevado grau de emputecimento. Oh, wait. Nós precisamos mesmo começar um texto falando olha, desculpaê, é que eu estou chateadinha com a maneira como sou forçada a pedir desculpas o tempo inteiro? Assim, por existir? Por estar respirando e ocupando lugar no mundo? Porque é exatamente assim que a gente se sente ao tentar abrir a boca pra falar qualquer coisa. E quando a discussão é dentro do próprio feminismo, amigxs, a coisa se torna ainda mais frustrante. Seguinte: tá rolando por aí um cartaz feminista que reforça a importância do NÃO na vida de uma mulher. Não - uma palavrinha tão simples mas que tem o poder de transformar a nossa vida. Pra melhor.

Parece óbvio que o patriarcado, com todas as suas artimanhas, procura nos forçar a baixar a cabeça e resignarmos com o fato de que certos comportamentos nos são proibidos, por irem de encontro àquilo que seria da "natureza" da mulher. Nesse cenário, o NÃO se configura como algo permitido às mulheres, desde que falado do "jeitinho" certo. 

Não vamos entrar na questão de que o movimento feminista é amplo, plural, e portanto abarca diversas vertentes. Queremos questionar, hoje, o porquê do cartaz ter gerado mal-estar. A princípio, podemos elencar os seguintes fatores:
1. Essa idéia, de que a mulher precisa ser dócil e saber usar da sua inteligência com meiguice, é algo tão arraigado entre nós que o cartaz em questão gerou protestos. De feministas. Teve gente dizendo que não é pra tanto: a mulher pode conseguir o que quiser sendo educada e falando baixo. Como se conseguir direitos fosse algo tão simples como pedir uma pizza.
2. Não demorou e surgiu o fatídico argumento: as mulheres, hoje em dia, estariam querendo "imitar" os homens. Sim, porque nós acreditamos com base empírica que o gênero é um construto social; nós lutamos para que o gênero que nos foi atribuído desde muito cedo em nossas vidas não nos defina. Batalhamos para que essa noção de gênero não se sobrepuje à nossa condição humana. Tudo isso para que alguém tenha a brilhante idéia de jogar o caô da "imitação˜ do homem.

É claramente perceptível como as mulheres são condicionadas a sempre se calarem, serem dóceis, sorrirem sempre e falarem com jeitinho. O termo "Bitch" é um bom exemplo da disparidade da avaliação dos comportamentos ditos masculinos e femininos. A mulher que busca realizar qualquer coisa, que tem um pulso mais firme e diz claramente o que quer é chamada por esse termo, enquanto se um homem faz exatamente o mesmo, ele é um bom chefe, um cara que busca colocar em prática suas coisas e afins.

 No cotidiano vemos outros exemplos: há quem diga "odeio gente barraqueira, se for mulher então...", "fumar é feio, mas se for mulher então...". "mulher que fala alto é feio demais" e etc. Espera-se que mulheres sempre ajam de forma muito dócil, passiva, sorridente, mesmo quando são ofendidas, têm seus direitos cerceados ou mesmo simplesmente queiram viver de acordo com o que acreditam. 

 Não é só na hora de criticar o comportamento feminino que essas características impostas às mulheres se tornam claras. Como se espera que mulheres sempre sejam recatadas, boazinhas, dóceis, não se espera que as mulheres reajam. Então, supõe-se que mulheres precisam de proteção, não conseguem fazer várias coisas sozinhas. Afinal, somos vistas como "apenas uma mulher, esses seres frágeis e passivos". 

Sequência de tweets da Carina Prates.
Clique na imagem para ler.
O comportamento feminino é condicionado a seguir esses moldes de "educação". Desde a infância nos deparamos com esses ensinamentos tipicamente femininos. As meninas muitas vezes são xingadas se o caderno está desorganizado, se brincou na rua e sujou a roupa, por terem se sentado de pernas abertas e afins. Enquanto os meninos não sofrem essas represálias citadas. E essas diferenças na criação, nas represálias, no que se incentiva é que cria a suposta "natureza feminina". 

É importante destacar que nós mulheres devemos aprender a dizer não, sermos grossas quando necessário, sentar da forma mais confortável, não temer falar nossas idéias, ideais, sentimentos e vontades. Nós devemos aprender que não é errado gritar se sentimos em perigo, que ao buscar nossos direitos, a gente não tem que pedir "por favor", que fechar a cara para quem nos aborrece e ofende é normal e aceitável. E apoiar tudo isso não é ser contra a gentileza, é simplesmente dizer que podemos reagir ao desrespeito e que nossas idéias e nossos incômodos podem ser ditos e ouvidos.

Dessa forma, acreditamos que o cartaz sugerindo que a mulher aprenda a dizer não representa uma luz em meio a tantos outros que querem regular o comportamento feminino tendo em vista apenas o paradigma "limpinho" e socialmente aceitável do silêncio.






quinta-feira, 18 de outubro de 2012

De mulher para mulher, Machista


Essa semana mais uma propaganda da Marisa foi veiculada e pela terceira vez seguida, estamos diante de uma bela demonstração de preconceito. Só para variar, afinal isso quase nem acontece na publicidade, não é? O que realmente causa algum espanto é que uma empresa cujo slogan é "de mulher para mulher" seja machista. Aliás, já li algumas pessoas na rede satirizarem o slogan da Marisa: "De mulher para mulher, Machista". De fato, eu não poderia concordar mais. Vamos relembrar as campanhas que nos fizeram repudiar a marca, mas antes do almoço que é para não acabar botando tudo para fora, beleza?

Primeiro rolou aquela propaganda de lingerie super bacana (só que jamais), mostrando "estatísticas" sobre como está difícil conseguir homem na praça. 





A premissa é: Mulheres (hetero, claro, porque para a Marisa, lésbicas não existem) passem a competir entre si por um belíssimo exemplar de macho viril. Para a Marisa, homem só vale à pena se seguir à risca aqueles velhos estereótipos de gênero. Homem não pode gostar de bichinhos, morar com os pais, ter medo de barata... enfim. O horror, o horror. Vê se pode, homem que é homem não faz esse tipo de coisa, não é? Ai, Marisa... Que belo desserviço você faz à todas as mulheres e aos homens sugerindo esses padrões de comportamento, que só oprimem à todxs. Aqui podemos ver uma ótima palestra de Tony Porter sobre como a sociedade cria os meninos para odiar mulheres e sobre como colocamos em todos, inclusive nos homens, as algemas do patriarcado.

Antes fosse só isso... mas não foi! Começaram as críticas a essa propaganda nas redes e a agência que cometeu essa atrocidade resolveu ATACAR as consumidoras. Sim, queridos. Veja o print com seus próprios olhinhos nesse post. A rede Marisa, em sua página no Facebook, dizia ouvir as reclamações e agradecia as críticas, mas nada foi feito, a propaganda continuou sendo exibida e a agência seguiu cometendo erros inacreditáveis nas campanhas da Marisa. Porém, não vou crucificar a agência, uma vez que é o cliente que tem a palavra final. 

Pouco tempo depois, tivemos outra ótima surpresa. A Marisa achou que seria uma excelente idéia inverter os papéis de gênero, botando mulheres para assediar homens. OPA, assediar, não! Elogiar! 





Para a Marisa, assédio de rua é elogio. Veja, sabe quando um homem desconhecido aborda você na rua te chamando de gostosa, dizendo o que faria com você na cama, objetificando, desrespeitando? Pois bem, isso tudo é um grande elogio, aparentemente deveríamos ser submissas e agradecer. Mano, que ano é hoje? Marisa, acho que está faltando uma informação: os anos 50 já se foram há uns 60 anos! 

Agora, na campanha mais recente, que tal uma boa dose de gordofobia? Propaganda meramente machista é coisa do passado, a onda agora é estimular um transtorno alimentar. Sim, porque no verão só as magras são felizes. Não venham usar o argumento "saúde" por favor, porque NADA nesse comercial indica que o motivo da dieta da moça seja esse. Especialmente pelo final da propaganda quando a macharada toda olha para a mulher como se ela fosse um pedaço de carne. 



Me desculpe se não elogio a grande criatividade dessa propaganda, mas é que o R7 já fez coisa bem similar há pouquíssimo tempo, com a manchete "elas não estão preparadas para o verão". Essa idéia não é exatamente original, entende? Todo mundo já se cansou de ouvir essa babaquice. Inclusive recomendo fortemente a página de humor do Facebook que satiriza essa notícia, a "Projeto Verão 2013". 

Imagem da página "Projeto Verão" no Facebook

São tantos os problemas dessa propaganda que fica difícil começar a listar. Primeiro, a perpetuação de um padrão de beleza gordofóbico. Magreza não é sinônimo de saúde, assim como obesidade não é sinônimo de doença. Algumas pesquisas bem recentes apontam que o obeso ativo é uma pessoa saudável. Pior ainda, atrelar a felicidade à manutenção da magreza. GENTE.

Depois, a própria idéia de que comer alimentos saudáveis é um sacrifício é contraproducente no sentido de garantir qualidade de alimentação, pois somos sempre estimulados a comer fora de hora, alimentos industrializados, altamente calóricos, fast food e etc.

E por fim, aquilo que me parece ser o mais grave de tudo: Retirar de nós o direito de ir e vir livremente. Como se o fato de não estar perfeitamente dentro de um padrão de beleza racista e gordofóbico fosse determinante para que não exista o direito de utilizar o espaço público. E sabe porque isso é tão ruim? Porque tem muita gente por aí que realmente pensa assim, a Carol Marques pontuou muito bem:



Lugar onde eram preparadas as
refeições para funcionários de oficina
de confecção da Marisa
Já comprei roupas na Marisa e acho que a qualidade é bem abaixo da média. Além disso, não sei se todos estão a par, mas a empresa já foi denunciada por ligação com o trabalho análogo ao trabalho escravo (com indícios de tráfico de pessoas) em algumas de suas oficinas de produção. Ao menos é o que informa essa notícia aqui. Foi realizado um acordo em 2007, chamado TAC, Termo de Ajustamento de Conduta. Contudo, recentemente, doída pelo dano que fez à própria imagem, a Marisa recebeu uma punição pela contestação que fez sobre a legalidade da Lista suja do Ministério do Trabalho . Falando muito claramente: A "lista suja" só prejudica o empregador. E é claro que no caso da Marisa, o empregador é uma grande rede de confecção. É quase uma carteirada, sabe? "Quem é o Ministério do Trabalho para decidir proceder de forma a prejudicar grandes empresas em prol de condições de trabalho justas para os funcionários?". Eu é que nunca mais vou de Marisa. Não quero nem de graça.

Então, recapitulando, machista, heteronormativa, gordofóbica e exploradora. O que mais está faltando, Marisa?

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A mais nova propaganda machista da última semana.


O vídeo começa com a namorada levando cerveja para o namorado toda carinhosa, o que é narrado como "o começo de namoro é lindo". Na segunda tomada, a namorada ocupada pegando pizzas, se recusa a levar cervejas para o namorado e para a galera dele. Nesse momento, os amigos dele riem da "tirada". O que é narrado como "mas com o tempo, a relação esfria", a narração continua falando "um dia inexplicavelmente elas se rebelam". E o vídeo continua fazendo propaganda do produto, um cooler movido por controle remoto. O que é colocado na propaganda como a maneira de permitir que o namoro volte para os tempos de paz.

Além de ignorar que, pasmem, mulher também pode gostar de beber cerveja, a propaganda coloca a namorada com uma função: buscar a cerveja gelada para o namorado; servir o cara. Nisso de "mulher não bebe cerveja", inclui todo aquele blablabla de que mulher é fresca, se bebe algo alcoólico é só coisa docinha ou bebe cerveja só pra agradar o namorado e que homens sabem se divertir e gostam disso, enquanto mulheres não. E nem venham me falar que quase no fim da propaganda, ela vai e toma cerveja. Como se isso anulasse toda a idéia que a propaganda passa, de que o cara bebe e ela serve.

Li nos comentários do youtube, (sim, às vezes sou masoquista), que reclamar dessa propaganda é idiotice, afinal, ela não é uma das piores e que na verdade ela é até uma crítica ao machismo. É fato que a propaganda fugiu do eterno "loira gostosa" se referindo a cerveja e as mulheres, né? Mas não acho que haja alguma crítica ao machismo em colocar as mulheres servindo como se essa fosse a utilidade de uma mulher. E no caso, a mulher se rebela com essa "exploração" e isso é tratado como algo inexplicável, afinal, conforme os padrões de gênero, mulheres são passivas, não tem atitude, não se rebelam e além disso, ela está se rebelando a fazer algo que mulheres "devem" fazer. No caso, a cerveja em questão, usa essa "rebeldia repentina" como uma forma de vender um cooler de controle remoto, porque se a namorada não mais vai buscar a cerveja pra ele, não é ele é que vai buscar, né? E ainda, a propaganda é totalmente voltada ao público masculino (e machista), porque quem mais supõe que mulheres devem buscar cerveja para o namorado? Quem mais fala que ela se recusar a fazer isso é uma rebeldia inexplicável? E quem mais tá interessado em resolver esse "problema dos tempos modernos"? 

Só faltou um "malditas feministas que 'ensinaram' nossas mulheres que elas não precisam nos servir" pra deixar ainda mais claro que uma mulher que se recusa a servir, tem voz suficiente pra tomar decisões que os contrariem, não é bem vista  pelos machistas de plantão. O item "inovador" nessa peça publicitária é existência de uma mulher que não só enfeita, mas tem voz. Mas que voz é essa que é considerada na narração da propaganda como "uma rebeldia inexplicável?". Nesse vídeo a mulher foi mais do que um objeto, mas continuou sendo menos que o homem.  

Sobre sexismo na mídia, indico um excelente post do Blogueiras Feministas, escrito pela Tássia Hallais: "Sobre cervejas, detergentes e desodorantes".

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Não quero ser musa!


Eu sou a heroína dessa história,
eu não preciso ser salva.

Independentemente do acontecimento, se há mulheres envolvidas, a mídia dá um jeito de eleger uma musa. A musa está em todas as pautas: há a musa do futebol, a musa do basquete, a musa dos bandeirinhas, a musa do rock, a musa do Congresso Nacional e até a musa de manifestação feminista.

Ser chamada de musa, embora pareça um elogio, colabora com a manutenção das mulheres no lugar estipulado para elas pelo patriarcado, ou seja, reafirma que a mulher pode até ser cientista, política, professora, atleta, ativista, mas o que importa é que ela seja bonita, um enfeite. A principal função feminina é embelezar o ambiente. Ser uma boa profissional, ser idealista e lutar pelo que acredita não importa, importa se ela está dentro do padrão de beleza e se os homens héteros a acham atraente.

Destaca-se que a palavra musa também carrega em seu significado a capacidade da mulher "dona" desse título de inspirar a produção intelectual de quem a admira. A sociedade (que supõe que mulheres só se relacionam com homens) coloca a mulher tão inferior ao homem que considera que ela não produz, o máximo que ela pode fazer é auxiliar a produção de conhecimento e arte sendo um "colírio" ao olhar masculino.

 Além disso, a autoestima feminina é detonada pelas contínuas cobranças para estar dentro de um padrão de beleza fantasioso e excludente. A possibilidade de ser considerada uma musa é uma cobrança acessória do próprio padrão de beleza que se fantasia de "prêmio". Ser musa é ter um combo de "qualidades" para o patriarcado, ser bonita e ter a capacidade de inspirador o outro. Esse combo de cobranças alimenta essa fantasia de querer ser linda, musa, diva, gerando infelicidade e frustração em mulheres de todas as idades. 

Não posso ser a mulher da sua vida porque já
sou a mulher da minha.
 Uma amostra de como a representação das mulheres na mídia reduz o gênero feminino a enfeite são as reportagens sobre a eleição de 2010 e suas críticas ferrenhas ao visual da Dilma e a ausência de comentários do mesmo assunto sobre o Serra. O documentário "Miss represetation" fala mais sobre como a mídia trabalha com a imagem feminina, a análise parte da realidade norte americana. É perceptível pelo vídeo que o tratamento midiático dado às mulheres vai além da redução a mero objeto, mas também há uma tentativa de sempre criticar e desvalorizar mulheres que saem fora do papel de gênero, pela sua função ou pela sua imagem. Em um dos primeiros minutos do documentário é possível perceber como a mídia não leva as mulheres a sério. Mesmo as mulheres mais poderosas dos EUA tem sua intimidade invadida e discutida com frases como "será que ela fez uma plástica?" ou então se a mulher demonstra um pulso mais firme pra tratar de uma questão, pronto, a atitude dela produz um apelido sensacionalista e com conotação sexual, "dominatrix". 

Bom, fazendo um paralelo com o que foi falado, pode-se trazer isso para o Brasil, a imagem da Dilma foi muitas vezes "amaciada" com o uso de sua presença em programas como o da Ana Maria Braga, que é considerado "feminino". Durante uma reportagem do Fantástico feita pela Patrícia Poeta, houve perguntas bem pessoais, a respeito até mesmo sobre os netos e sobre a rotina "feminina" da presidenta. Ao mesmo tempo que vejo essas reportagens como uma possibilidade de se aproximar do público, conquistar eleitores e afins por parte da Dilma, vejo que a mídia trata essa "aproximação com os ideais de feminilidade" como uma forma de "colocá-la" no lugar e mostrar para as mulheres que mesmo ela, mulher poderosa, ainda gosta de cuidar da casa e da família, reafirmando assim os papéis de gênero. E mesmo o uso desse tipo de programa como uma possibilidade de se aproximar do público mostra como a sociedade é machista, se uma mulher num cargo político se mostra pouco feminina, ela tem que mostrar que não é bem assim e que ela preserva a feminilidade dela de alguma forma pra assim conseguir respeito e possibilidade de ser eleita. Ainda sobre o mesmo assunto, a gente vê que a mídia sempre faz perguntas sobre vaidade, família e afins para mulheres em cargos tipicamente masculinos. "Como faz pra manter a feminilidade num ambiente desses?" é a pergunta padrão.

‎No caso das atletas, a invisibilidade do esporte feminino coloca essas mulheres como vítimas ainda maiores dessa objetificação, visto que essa forma de tratamento da mídia coloca o título de musa como uma das únicas formas de visibilidade. Assim, o tratamento da mídia condiciona os patrocínios e a própria valorização do esporte ao uso de roupas que exibem as formas das atletas e que são "femininas".

Eu não sou feminista, mas ficar aqui sendo um objeto decorativo é um pouco chato.
Na verdade, eu realmente sou uma feminista.
 Enfim, a valorização da mulher na sociedade depende da aparência dela, da capacidade de atrair olhares de desejo e aprovação dos homens héteros, e também depende de quão "feminina" a mulher é. A capacidade feminina para o trabalho, para os estudos ou para qualquer coisa que fuja do tradicional é desacreditada pela mídia de diversas formas, ou reduzindo as mulheres à coisa, incluindo aqui críticas com denotação sexual, como o "dominatrix" ou através de comentários que sempre reafirmam que o lugar de mulher não é o que ela quiser, mas o que o patriarcado quer. 

O patriarcado e o capitalismo tem uma parceria que "vende" a mulher segura e bem sucedida, como uma mulher que é mãe, dona de casa e sua profissão e tudo isso sempre bem arrumada, vinculando a vaidade à autoconfiança e à capacidade. Uma mulher não arrumada, é uma mulher que sem valor para o mercado de trabalho (e para toda a sociedade). E enquanto isso, a autoestima feminina só perde.