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terça-feira, 16 de julho de 2013

Isso não é "dote", "isso" sou eu.


Anita Sarkeesian é uma feminista famosa na internet por causa de seus vídeos que apontam a misoginia dos games. E nessa imagem, que inspirou esse texto, ela é resumida a um troféu e seu interesse por games deixou de ser algo dela e se tornou algo para os homens. E mais uma vez a gente se depara com mulheres que gostam de futebol, de games, de filmes, de rock ou qualquer coisa que é definido como um "gosto masculino" sendo vistas como prêmios, como raras e seus gostos se tornando um "dote".

A mulher que demonstra gostar de determinados assuntos considerados masculinos vive sendo acusada de "attention whore" e outros termos babacas, afinal, numa sociedade tão presa aos padrões de gênero e tão misógina, se você é mulher e gosta de algo fora do que é dito como feminino, você só pode estar fingindo, querendo atrair atenção masculina.

É tão problemático que a personalidade da mulher, seu comportamento e suas preferências sejam sempre vistas como parte de uma tentativa desesperada de impressionar homens. Isso é só mais um exemplo de como as mulheres são resumidas a um mero acessório masculino; um objeto. Afinal, se você é humano, você tem sua individualidade, sua personalidade, seus gostos e sentimentos, e quando uma pessoa é considerada um troféu e seus gostos um dote, claramente há uma desumanização. 

A valorização da mulher é claramente ligada a função que ela cumpre na vida do homem, a existência dela só é válida se estiver vinculada a vida dele, de forma que fora de um relacionamento, a mulher que gosta do mesmo do que ele sequer existe. Ela só pode ser um mito, uma poser.

Ser mulher e ter um hobbie, mesmo que dentro dos padrões de gênero, choca simplesmente porque demonstra que não somos incompletas. Se somos resumidas a acessórios e tudo que fazemos é visto como uma forma de despertar desejo masculino, quando a gente mostra ao mundo que somos indivíduos e temos personalidade própria, a primeira reação é a de choque e num sistema que quer manter as mulheres e sua individualidade invisibilizados, a melhor forma de responder a isso, é pegar aquele hobbie e colocá-lo como uma forma de chamar a atenção.

E mais uma vez as lésbicas e também as mulheres bissexuais são invisibilizadas, uma mulher que gosta de mulher nega toda essa teoria de mulheres são acessórios, mostra que somos donas de nossa sexualidade e não só dela, mostra que somos indivíduos, completos e que não precisam de homens para existir. E aqui, a heteronorma chega e diz que essas mulheres são anormais, diz que elas não existem e assim continua o apagamento feminino. 

A busca pela mulher "diferente" e "sem frescuras" é motivada principalmente pela misoginia da sociedade, afinal, o desvio ao padrão de gênero feminino é o que torna aquela mulher objeto de desejo de muitos homens. É perceptível o quanto tudo que é considerado feminino é desvalorizado, mas essa misoginia é mais ampla do que aparenta ser: porque ao mesmo tempo que a mulher diferente é desejada, ela também é punida, porque ela vira um troféu, um mito, um dote, ela é resumida a um acessório masculino e caso ela não tenha interesse no cara que a deseja, ela se torna a "attention whore" citada acima. E não é todo "desvio" ao papel de gênero feminino que é aceito, por exemplo, ser "atraente" e ser submissa continuam fazendo parte da "mulher diferente" tão desejada. 

Nós somos humanas e essa busca pela "mulher diferente" se pauta também na ideia de que a mulher é apenas o esteriótipo não humano, não indivíduo, e isso não é um exemplo de misoginia? Enquanto a busca pela uma mulher diferente acontece, fica claro que eles estão cegos pra ver que toda mulher é diferente, tem personalidade, gostos, individualidade.


Textos relacionados:
Guestpost: Feminismo e cultura pop: Parte 1 – As Representações Femininas - Taís Fantoni
Guestpost: Feminismo e cultura pop: Parte 2 – Mulheres como jogadoras - Taís Fantoni
e o excelente blog da autora dos guestposts "Colchões do pântano" 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Amor à vida do feto e a má fé para tratar do tema do aborto.

Novelas, livros, filmes e afins demonstram a ideologia do autor de diversas formas e inclusive muitas vezes obras de ficção são utilizadas para mostrar certos pensamentos e difundi-los. Uma cena da novela "Amor à vida" que foi transmitida no dia 28 de maio tratou do aborto como se fosse uma mera irresponsabilidade dos pais e inclusive utilizou da má fé em diversos argumentos. Apesar de ser apenas uma cena de novela, foi um desserviço enorme para a luta da descriminalização/legalização do aborto e desconstruir o que foi falado é importante para tentar minimizar o alcance dos mitos que foram difundidos ali. 

O personagem de Antônio Fagundes afirmou que o aborto mal feito é a terceira causa de morte materna no Brasil, como forma de dissuadir a mulher de tentar abortar. O uso dessa estatística como forma de dissuasão apenas é de uma má fé tremenda, porque ignora o motivo dessas mortes maternas existir, que é justamente o fato do aborto ser criminalizado e isso não impedir que mulheres busquem abortar e morrer por complicações. (E no caso, as principais vítimas dessas mortes maternas são mulheres negras e pobres). A precariedade dos direitos reprodutivos das mulheres no Brasil é justamente o que faz com que as mortes maternas ocasionadas pelo aborto mal feito sejam tantas, por isso se luta pelo direito ao aborto seguro para todas as mulheres, além da educação sexual e da distribuição de métodos contraceptivos e afins. 

Outra coisa bem criticável da cena é o médico se referir ao feto/embrião sempre como criança, o que é uma forma de colocar a mulher que aborta ou quer abortar como um monstro. Crianças e bebês são seres humanos já nascidos, enquanto feto é o estágio de desenvolvimento intra-uterino que leva esse nome só após oito semanas de vida embrionária. E embrião é o nome dado a fase anterior ao feto, ou seja, antes das oito semanas. 

Frases como "Você mesmo criou essa situação" que resumem a questão apenas a "Você foi irresponsável, agora lide com isso" são extremamente cruéis por ignorar que métodos contraceptivos tem chance de falhar e que infelizmente, muitas pessoas ainda não tem acesso a educação sexual de qualidade e a anticoncepcionais e médicos. Além de colocar o fruto dessa gravidez indesejada como uma punição pela irresponsabilidade. Filhos não são uma punição, encarar essa questão dessa forma, é objetificar uma pessoa já nascida, instrumentalizá-la para que a mãe daquela pessoa "aprenda". 

É necessário acrescentar que a pessoa que é punida pela sociedade caso aborte ou opte por não fazê-lo é a mulher, tanto a mulher que aborta, quanto a mãe solteira, são vítimas de constantes julgamentos, sendo que filhos não são feitos sozinhos. E o pai? Ele raramente é visto como irresponsável e só é lembrado no discurso "pró vida" quando eles são a favor da manutenção da gravidez, sendo que na realidade, muitos ao saberem que serão pais abandonam a mãe sozinha ou pressionam para que ela aborte. 

As ricas abortam, as pobres morrem.
Hipócritas!
Quando o personagem invoca o juramento que os profissionais da medicina fazem e a questão da vida como justificativa para negar fazer o aborto, ele simplesmente ignora as mortes maternas que ele mesmo sabe que são decorrentes dos abortos clandestinos. A suposta vida de um embrião tem mais valor que a vida de uma mulher adulta? Negar o direito ao aborto nos casos que são legais no Brasil também é comum. Não só médicos negam fazer o procedimento, como também hospitais. O que no caso de feto anencéfalo pode ocasionar até risco de vida para a mãe. 

Destrinchar essa cena completamente daria um texto enorme, porque além de tratarmos da questão do aborto sob a ótica da saúde pública, também seria necessário tratar da autonomia da mulher, mas antes de finalizar o texto, queria destacar que o comentário do personagem médico a respeito da paciente contar para o pai sobre a gravidez para que quem sabe isso fomentar um relacionamento duradouro. É inacreditável essa fala simplesmente porque ele fez um juízo de valor a respeito da vida sexual da paciente e acha que seguir com uma gravidez indesejada pode ajudar num relacionamento, como se isso fosse uma solução mágica. E inclusive, é só nesse momento, que o personagem de Antônio Fagundes lembra que aquele embrião tem um pai e fala nele, sem em nenhum momento julgá-lo. 

Imagem da page Médico Legal.
*Não só mulheres podem engravidar, homens trans e pessoas não binárias que tem útero também podem. Logo, todos os direitos defendidos pelo texto, como o aborto seguro e educação sexual, se estendem a essas pessoas.
*Quem quiser ver a cena em questão, é só clicar nesse aqui. A cena se inicia aos 56 segundos. No dia 29 de maio, a cena teve uma continuação completamente irreal, para conferir é só clicar aqui e ela começa aos 8 minutos e 6 segundos. 
*A objeção de consciência é um direito do profissional de negar realizar certos procedimentos, como os casos de aborto é legalizado no Brasil (casos de gravidez de feto anencéfalo, por exemplo). Mas hospitais se negarem a realizar o procedimento podem ser acionados na justiça. Na cena, o que aconteceu não foi um caso de objeção de consciência, visto que há diversos julgamentos implícitos na fala do personagem e também porque a paciente buscou um procedimento não legalizado no Brasil. 
*Posteriormente na novela, houve uma cena favorável a legalização do aborto. A cena e nossos comentários a respeito dela se encontram nesse link. 

Lei é eficaz para matar mulher, diz especialista.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O Machismo por trás da música "Esse cara sou eu"


Morena e Théo, o casal principal de Salve Jorge
Sabe aquela música do Roberto Carlos que é a faixa principal da trilha sonora da novela "Salve Jorge", tema do casal Morena e Théo? "Esse cara sou eu"? Prestei um pouco mais de atenção na letra e preciso tecer alguns comentários sobre o assunto. Provavelmente alguém virá dizer "é só uma música" ou "é só uma novela". Mas a soma de todas as músicas e de todas as novelas são representativas. Uma grande parte da nossa cultura musical e televisiva são reflexo de determinados preconceitos e acho que sempre vale o questionamento sobre o que estamos de fato consumindo.

Eu assisto novelas. Confesso que no momento não tive a paciência de acompanhar a novela da Glória Perez, mas conheço novelas e sei que elas são mantenedoras de certos preconceitos, valores, status quo. De vez em quando, uma novela ousa botar uma discussão na mesa de jantar das famílias e é muito produtivo. Então tento não vilanizar as novelas, por saber que elas também promovem, vez ou outra, alguns debates. Se não fosse assim não haveria tanta polêmica em torno de colocar em alguma novela um beijo homossexual.

O amor romântico
exaltado desde a infância
As novelas, em geral, ainda são o campo de propagação de alguns preconceitos arraigados. E é o meio mais efetivo na cultura brasileira de manutenção do "amor romântico" como ideal de felicidade e por isso pode-se dizer que a música do Roberto está bem colocada dentro da programação. Assim como os contos de fada da Disney que ensinamos as crianças a gostar, assim como as revistas adolescentes, assim como as comédias românticas, as novelas continuam nos oprimindo em idade adulta. Continuamos acreditando que é somente através de uma relação heterossexual, monogâmica e tradicional, que seremos felizes. O eterno mito das mulheres incompletas. Alguém tem visto nas novelas uma "mocinha" sem "mocinho"? sem par romântico? Eu até vejo novelas em que o romance fica um pouco de lado, mas não o suficiente para afirmar que a personagem central é alguém que não precisa de outra pessoa para ser completa.

Na música do Roberto Carlos, a princípio, a gente pensa que o tal "cara" é alguém atencioso, alguém preocupado e gentil. Só que nessa atenção escondem-se alguns aspectos interessantes do que a sociedade espera de uma mulher, de um homem e do relacionamento entre os dois. E de como somo condicionados a idealizar esse sujeito que supostamente é "O CARA". Quando o Roberto Carlos diz:

"O cara que pensa em você toda hora
Que conta os segundos se você demora
Que está todo o tempo querendo te ver
Porque já não sabe ficar sem você"

Falarei um pouco por mim, namoro à distância com alguém e essa idéia de "não sabe ficar sem você" é perfeitamente superável. O amor romântico carrega consigo o conceito de posse. É impossível "ficar sem", "ficar longe", não observar o que a pessoa faz, onde ela está, com quem ela está. Pode parecer exagero meu, mas é verdade. Há quem afirme até que não existe amor sem ciúmes. Pois deixe eu falar logo, existe sim. Nós é que somos treinados desde pequenos para sermos incapazes de amar sem possuir. 


Se existe algo extremamente danoso é a idéia de posse. É exatamente essa coisificação da mulher que nos sujeita à violência, desde as simbólicas às violências físicas mais brutais. Daí surge o "crime passional" (expressão que normalmente é usada como eufemismo para feminicídio), da associação de paixão e posse. Que talvez comece nessa frase "Eu, que  não sei ficar sem você" e pode terminar em "Se você não é minha, não será de mais ninguém". Precisamos ter muito cuidado com os caras que não sabem ficar sem a mulher.


"O cara que pega você pelo braço
Esbarra em quem for que interrompa seus passos
Está do seu lado pro que der e vier
O herói esperado por toda mulher

Por você ele encara o perigo
Seu melhor amigo
Esse cara sou eu"

A canção está reafirmando que a mulher espera do homem que ele a proteja, que haja de acordo com esses papéis pré-estabelecidos de gênero em que a mulher é frágil e que sua segurança está nas mãos de um homem. E nem preciso comentar o quão heteronormativo é a afirmação que toda mulher espera por um herói. O cara, afinal, é mais uma versão do príncipe no cavalo branco.

"O cara que sempre te espera sorrindo
Que abre a porta do carro quando você vem vindo
Te beija na boca, te abraça feliz
Apaixonado te olha e te diz
Que sentiu sua falta e reclama
Ele te ama
Esse cara sou eu"

Aqui, por fim, ele traz a idéia do cavalheirismo. Bom, amigos, vamos deixar uma coisa clara, uma coisa é a gentileza. A pessoa que abre a porta do carro para mim, deveria abrir para todas as pessoas. Isso é gentileza. Se um amigo meu está com frio e eu ofereço o meu casaco, não estou sendo "cavalheira", estou sendo gentil. Gentileza é um tipo de empatia. A gente faz algo por outra pessoa porque essa atitude é típica de um modo de ser. Cavalheirismo é outra coisa, esse é o nome que se dá à idéia de que mulheres devem ser presas em uma redoma. É uma forma de nos chamar de incapazes. Incapaz de abrir a porta do carro, incapaz de pagar as próprias contas, incapaz de tomar as rédeas da sua vida sem um homem por perto. Cavalheirismo é, como o próprio nome fala, uma atitude que parte de um homem para uma mulher, não é um gentileza altruísta, mas uma gentileza com segundas intenções. As gentilezas de gênero são assim, mal intencionadas. Pode até ser que o cara não queira fazer sexo com você porque abriu a porta do carro, mas com certeza ele acredita que aquilo faz dele um homem mais respeitável. O problema é que também torna a mulher mais passiva, mais dependente (note que estou usando como exemplo a porta do carro, mas na verdade estou tratando do somatório de cavalheirismos que são comuns na nossa sociedade). Cavalheirismo é uma forma de dominação, sim.

É extremamente prejudicial para TODOS, homens e mulheres, que estejamos idealizando o tipo perfeito de ser humano com quem deveríamos nos relacionar, primeiro porque são expectativas vazias, já que as pessoas não vêm com manual de instrução com todas as especificações de fábrica perfeitamente anotadas para que possamos saber se aquela pessoa é mesmo a ~~ideal~~. E segundo, porque esse cara da música, que parece tão legal, soa como exemplo de "entitlement". O termo designa a sensação de merecimento que acomete alguns homens. Sabe quando um homem assedia alguém na rua? Ele faz isso porque sente que pode, sente que merece. E assim é nesse relacionamento, ele acredita que se a protege, se paga suas contas, se abre a porta do carro, se pensa nela... Ele tem poder o sobre ela para que ele seja amado em retribuição. Só que não se trata de uma operação matemática em que esses cavalheirismos e sentimentos dele são somados e o resultado é o amor correspondido.

É exatamente a falta de compreensão que não existe fórmula do amor que frusta tanto quem tenta se enquadrar nesses perfis ideais e acaba com a cara na poeira. Sabe o que isso acaba gerando? aquele mimimi mascu de "friendzone". Homens que não entenderam ainda, tomem nota: não é porque vocês tratam alguém bem que essa pessoa é obrigada a amar, ok? Vocês podem achar que estão sendo legais, mas as outras pessoas podem não pensar assim. Fiquem cientes disso e parem de acusar as mulheres de colocarem vocês na "friendzone", afinal amigos também fazem gentilezas e a mulher tem o direito de acreditar que você é só um amigo. Tratar as pessoas bem deveria ser algo natural e desprovido de interesses, se você é gentil esperando amor ou favores sexuais, você não é um cara legal. 

Por fim, ressalto que todas as características desse "cara" da canção, são frequentemente exaltadas, como se fossem aquelas que tornam esse homem, o ser humano ideal para fazer uma mulher feliz e isso é extremamente castrador e normativo, pois a felicidade de uma mulher pode nem sequer residir em outra pessoa. A felicidade pode estar em si mesmo ou em qualquer lugar.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Guestpost: Feminismo e cultura pop: Parte 2 – Mulheres como jogadoras

Olá (novamente), pessoal do Ativismo! Me chamo Taís e sou a blogueira do Colchões do Pântano. No blog, um dos meus objetivos é analisar mídias de entretenimento como games, quadrinhos e séries sob a ótica feminista. No primeiro post, o tema foi as representações femininas tanto nos jogos quanto nas HQ's. Agora o foco será sobre o tratamento que muitas mulheres recebem dentro da cultura nerd/geek/gamer em geral.

Talvez por eu ter me inserido nesse universo com força há poucos anos, já passei por preconceito algumas vezes, mas nada tão gritante em comparação aos depoimentos que jogadoras (principalmente as gringas) já deram por aí. Inclusive, parece que existe uma espécie de dicotomia: enquanto alguns jogadores as desprezam e inferiorizam com todas as forças, outros quase as idolatram e, em casos ‘extremos’, as assediam sem qualquer pudor. Alguns exemplos dessas situações:

1) Jogos multiplayer online. Só de olhar o nick e/ou avatar de alguma jogadora, desconhecidos mandam mensagem dizendo frases como “volta pra cozinha e me faça um sanduíche” ou “gata, tenho um pau grande e quero te comer”. Esse tipo de assédio também acontece quando elas se atrevem a falar pelo microfone, principalmente em jogos de tiro em primeira pessoa. No site Fat, Ugly or Slutty temos VÁRIOS exemplos.

2) Se disfarçar de homem, obviamente pelo motivo de cima. Desligar o microfone e mudar seu avatar/nick para masculino não só te poupa de tudo isso como evita que você seja expulsa (ou, no caso de jogos com friendy fire[1], morrer na mão do seu grupo) de partidas online.

3) Surpresa por você gostar de jogos e entender do assunto. Lembro muito bem de quando eu estava conversando com um cara e mencionei o fato de Portal 2 ter concorrido ao GOTY[2] de 2011. A reação dele? “Não tenho preconceito, mas uma menina saber o que é GOTY? Wow!”. Nem precisa explicar o tamanho da babaquice de se dizer isso, certo?

4) Itens raros de presente. Em multiplayers, principalmente RPG’s online, é bastante comum homens darem de bandeja presentes para personagens femininas não porque elas são bacanas ou porque sabem jogar super bem, mas simplesmente por serem mulheres. Depois de assédio, essa é a segunda maior cuspida na cara por mostrar a gritante diferença de tratamento, afinal elas não têm autonomia o suficiente pra conseguir esses itens/dinheiro virtual sozinhas! Homens também aproveitam tal comportamento se fingindo de mulher pra ganhar tais “benefícios”.

5) Seu argumento é inválido. Se você está dando sua opinião sobre um jogo/HQ/filme e é mulher, principalmente se for pra reclamar daquela roupa minúscula de uma super heroína, será automaticamente desprezada (especialmente se você não for atraente na visão deles). Mulher se metendo em assunto de homem? Sai fora! Isso nem foi feito pra você!
Outras pérolas e argumentos do tipo podem ser vistos no bingo de sexismo nos jogos.
6) Comprar pra você? Nãããão. Se você vai numa loja física comprar aquele jogo/HQ que tanto esperava, vão te tratar não como consumidora do produto, mas alguém que está comprando pro irmão/primo/amigo. E ainda pode ser assediada. Esse e vários outros problemas citados também estão no texto Nerds e o privilégio masculino.
7) Sua poser! Attention whore! Esse tópico renderia inúmeras discussões. A grosso modo, é quando uma mulher se atreve a se chamar de nerd, geek e/ou gamer e age/conhece/gosta de coisas de uma forma diferente do que é dito pela bíblia imaginária dessas tribos sobre como elas deveriam se comportar pra serem de verdade. Não gosta de Star Wars e se diz nerd? É poser! Tem o cabelo colorido, joga Super Mario, usa uma camiseta do Pikachu e se diz nerd? Poser, óbvio. Nerd de verdade é feia, espinhuda, (possivelmente) gorda, não tem vida social e usa roupas sem graça, tipo aqueles que viveram nos anos 80. É bonita e diz que gosta de jogos? Só quer chamar atenção, lógico. Posou com um joystick na boca? SUA VADIA! Ou ainda, te fazem perguntas pra testar seu conhecimento e terem certeza que você é nerd ou não. Você não vê esse tipo de questionamento voltado para homens.

Cagação de regra? Estereotipagem? Nãããão, imagina!

Todo mundo aqui sabe que quando uma mulher decide tratar seu corpo como seu e usando roupas curtas, decotes e similares, rapidamente aparecem os cagadores de regra pra contar direitinho a ela a diferença entre ser sexy e vulgar. Se você for sexy, vão te amar e enfatizar do quão é linda e gostosa; se for vulgar, vão te chamar de vadia ou usarão um termo exclusivo da tribo: pirinerd. E poser, naturalmente.

Ainda assim, reconheço que nem tudo são flores: Muitas mulheres internalizaram concepções machistas; não apenas em fazer slut-shaming com as outras, como também em “se objetificar” porque aprendeu que deve ter uma aparência agradável pros homens héteros a aceitarem e a valorizarem. Mesmo se ela jogar bem ou tiver um amplo conhecimento do que gosta – sua aparência sempre será colocada em primeiro lugar. Existem até mesmo sites enfatizando isso ao fazerem compilações de imagens com mulheres nerds sexy.

Peraí, agora você está sendo hipócrita! Por que elas podem ser gostosas sem problema algum, mas as personagens femininas de jogos e/ou HQ’s não?

Vamos fazer uma analogia. Pense numa mulher com os peitos à mostra na Playboy, depois pense em outra na mesma situação na Marcha das Vadias. O contexto e objetivos são iguais? Absolutamente não. Essas gostosas mostradas na mídia de entretenimento não seriam realmente um problema se:

- Elas não fossem o padrão como representação feminina;
- Elas não tivessem seus corpos distorcidos para parecerem mais atraentes (leia-se: hiperlordose lombar, coluna vertebral elástica, ausência de órgãos internos);
- Elas não fossem criadas para serem objetos e realizarem fetiches dos seus criadores;
- Elas não fossem tratadas como peitos e bundas ambulantes.

Assim, não é nenhuma novidade você se deparar com textos que soltem pérolas como essa: "Ok, agora mãos à obra. Vamos ajudar os quadrinhos, tentando trazer mais mulheres até eles. O pior que pode acontecer é deixarmos o mercado mais bonito”. Porque é isso que realmente importa, sabe? Sermos enfeites. Ou produtos, como as booth babes são tratadas.

Agora vamos falar sobre algumas mulheres em específico que têm ou tiveram destaque na mídia. Ano passado, um grupo de garotas publicaram o vídeo Game Girl Manifesto. Em dois minutos, elas passam uma mensagem perfeitamente clara: julgá-las pelas suas habilidades, não por serem mulheres. Elas estão aí pra jogarem. E no final dizem “Don't be racist. Don't be homophobic. Don't be sexist”. Se você tiver estômago pra ler comentários, verá que muitos odiaram o vídeo e, lógico, aproveitaram pra vomitar preconceito.

Já outro caso mais recente é sobre Anita Sarkeesian. Ela é dona do blog Feminist Frequency que criou a web série Tropes VS Women (com legendas em português), em que ela discute a qualidade das representações femininas na cultura pop. Anita se tornou extremamente popular quando começou um projeto no Kickstarter chamado Tropes VS Women in Videogames. Como você pode ver, sua intenção inicial era juntar 6 mil dólares, mas conseguiu 158 mil! Como já esperado, ela recebeu inúmeros ataques de trolls, inclusivemensagens e montagens misóginas. Fizeram até mesmo um jogo em que você a espanca e seu rosto vai se deformando a cada batida. Depois disso, não há desculpa pra disfarçar o tamanho da nojeira que existe nessa cultura.  Maiores detalhes estão neste post do Arena.

Além disso, uma mulher chamada Katie Williams contou neste post do Kotaku Austrália o que aconteceu quando ela foi à E3[3] deste ano. Ao reservar uma hora e meia para experimentar a continuação de um shooter militar conhecido, um cara das Relações Públicas que deveria estar ali pra auxiliar não acreditou que ela saberia jogá-lo por si e, pasmem, pegou o teclado sem pedir nem nada e disse que iria jogar no lugar dela! E não acabou por aí: em outras situações durante o evento, ela foi bastante subestimada, afinal de contas, garotas não entendem muito desse material, sabe? Ela também aponta uma questão interessante quando diz:

“É inacreditável que isso esteja acontecendo. Se esta é a forma que as pessoas de Relações Públicas se sentem sobre a capacidade das mulheres, não é à toa que a parte promocional dos jogos seja tão sexista. Não é à toa que as pessoas de marketing achem que está tudo bem até certo ponto ter um trailer em que um homem ataca um bando de freiras sexies, não é à toa que estamos vendo isso se espalhar entre desenvolvedores, que colocam achievements[4] no jogo pra olhar debaixo da saia de uma mulher com 19 anos vestida feito colegial[5]. Não é à toa que estamos vendo isso acontecer com os jogadores, que falam às mulheres entre nós que elas provavelmente não podem saber sobre os jogos online que jogam”.

Finalmente, deixo um convite pra vocês participarem do grupo que criei no Facebook cujo objetivo é justamente analisar elementos da cultura pop sob o ponto de vista feminista. Textos em inglês sobre a questão são suficientemente fáceis de achar, tanto que alguns blogs que conheço e têm essa abordagem em menor ou maior grau são: The Mary Sue, Go Make me a Sandwich, Gaming as Woman, The Border House e Geek Feminism. Infelizmente, eles são raros em português.
Obrigada por lerem até aqui e espero que as informações tenham sido úteis!

[1] Fogo amigável. É quando você pode ferir seus aliados e, dessa forma, torna o jogo mais difícil. O problema desse recurso é quando aparecem babacas que gostam de prejudicar os outros puramente por prazer.
[2] Game of the Year. Título dado por várias publicações especializadas (como revistas e sites) para um jogo que se destacou em seu ano de lançamento. Skyrim, por exemplo, foi um dos mais votados. Além disso, os indicados ao prêmio são divididos em várias categorias, tais como Melhor Jogo de PC, Melhor Multiplayer, Melhor RPG etc etc.
[3] Electronic Entertainment Expo. É um importante evento internacional em que empresas de jogos mostram novidades como prévias de futuros lançamentos de games e informações detalhadas de consoles e portáteis da nova geração.
[4] Um “prêmio” simbólico de quando você realiza um objetivo específico, geralmente com o intuito de ser difícil de completar. Por exemplo, resolver um puzzle em 1 minuto, ou matar 50 inimigos sem morrer.
[5] Ela provavelmente está se referindo à Juliet de Lollipop Chainsaw, que na verdade estaria especificamente vestida de cheerleader.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Guestpost: Feminismo e cultura pop: Parte 1 – As Representações Femininas


Olá, pessoal do Ativismo! Me chamo Taís e sou a blogueira do Colchões do Pântano. No blog, um dos meus objetivos é analisar mídias de entretenimento como games, quadrinhos e séries sob a ótica feminista. Nesta série de guest-post, farei uma (não tão) pequena compilação de problemas e fatos que pude perceber e aprender com o tempo.
Quem já está familiarizado o suficiente com feminismo conhece vários estereótipos, falácias e preconceitos quando o assunto é sobre mulheres. Tudo isso também aparece no meio nerd/geek/gamer com suas peculiaridades e semelhanças.

De acordo com a ESA (Entertainment Software Association), as mulheres representam 47% dos jogadores americanos. Mesmo assim, a carga de machismo e misoginia que existe tanto nos jogos quanto entre os próprios jogadores é assustadora. O problema começa com as representações femininas criadas por desenvolvedores predominantemente masculinos. Um dos estereótipos mais frequentes é:

A Fighting Fuck Toy – Protagonista feminina que é hiper-sexualizada e ao mesmo tempo é forte, independente e chuta a bunda dos inimigos. Esse tipo de personagem me irrita bastante porque muitos a tratam como símbolo de empoderamento feminino, quando ela nada mais é do que um produto criado para satisfazer o público masculino heterossexual (ao mesmo tempo que é usado para invalidar o argumento de que elas não são objetificadas porque, afinal, olha como elas são fortes e incríveis! Como ousa não gostar delas?).

Exemplos: Ivy de Soul Calibur (que a cada jogo lançado, seus peitos tornaram-se cada vez maiores), Bayonetta (com o diferencial de usar literalmente sua “sexualidade” como fonte de poder), Lara Croft de Tomb Raider (que passou a ter um corpo ligeiramente mais realista a partir de Angel of Darkness e passou por mudanças bem mais significativas com um reboot ainda não lançado), Juliet de Lolipop Chainsaw (incluindo o bônus fetichista com uma líder de torcida), Mai Shiranui de Fatal Fury e The King of Fighters (que passou por um processo similar ao de Ivy) e as mulheres de Mortal Kombat em geral.
Fighting fuck toys, representações femininas positivas? HAHAHAHAHAHA CONTA OUTRA.

Talvez por objetificação e força estarem tão atrelados para mulheres, é possível ver um “padrão inverso”: quando a personagem não é visualmente apelativa, muitas vezes ela é como a princesa Peach: passiva, fraca e indefesa. Cheguei a fazer uma listinha com exemplos. Esse padrão também aparece na página doTV Tropes.

Outro exemplo constante de objetificação aparece nas armaduras femininas. Em muitos MMORPG’s* (principalmente os orientais), você pode comparar os gêneros da mesma raça, classe e nível que a mulher provavelmente vai ter muito menos proteção que o homem. Existe até um nome próprio para couraças femininas: boopblate (ou seja, a armadura tem o formato dos peitos definido).
Exemplos: Tera Online, Fiesta Online, World of Warcraft, Perfect World e Dragon Nest**.
Comparação de armaduras de níveis diferentes e a lógica “menos é mais e melhor”. Imagem de Tera Online.
Como homens de armadura ficariam se tivessem o mesmo nível de proteção das mulheres.

Por último, temos uma situação que não chega a aparecer tanto nos jogos, mas MUITO em HQ’s: a “boob-and-butt pose”, em que as mulheres são desenhadas em uma posição que é possível ver os peitos e bunda ao mesmo tempo. O problema é que além de ser desconfortável, a contorção é tão grande que a coluna vertebral quebraria se fosse de verdade (além de outras poses ridículas consideradas “sexy”). Tal fato deu origem ao tumblr Escher Girls, publicando, parodiando e consertando inúmeros exemplos.
Sexy ou ridículo? Depende, é claro.
Aí aparecem alguns com a falácia da falsa simetria afirmando que homens fortes e musculosos também são objetificados! Tá reclamando do quê? Homens também sofrem, tadinhos!

Tal afirmação é falaciosa por uma razão muito simples: Homens musculosos e mulheres gostosas são produtos para um público dominante masculino heterossexual.  Enquanto heróis musculosos representam o que eles gostariam de ser, heroínas gostosas são o eles querem que elas sejam para satisfazerem seus desejos e fetiches (além de mulheres halterofilistas não serem consideradas atraentes por motivos óbvios). Em suma: não confunda idealismo com objetificação.

Cara, como você é uma feminazi chata, credo! Só tá reclamando neste post! Não tem nada de positivo pra mostrar não?

Tem sim. Apesar de poucas, existem personagens que não só são mais realistas na aparência, como também podem ter uma personalidade mais interessante e humana.
Exemplos: Faith de Mirror’s Edge, April de The Longest Journey, Zoë de Dreamfall, Jade de Beyond Good & Evil, Alyx de Half-life 2 e Episodes, Zoey de Left4Dead, Rochelle de Left4Dead 2 e Chell de Portal e Portal 2.

Quanto a jogos em que mulheres usam armaduras convincentes, temos Skyrim, Mass Effect e The Lord of the Rings Online como exemplos.
Representações femininas legais (e mais diversas) existem, apesar de serem escassas.
Ah, mas você tá levando os jogos a sério demais! Eles foram feitos pra nos divertirem!
Primeiro, se divertir com alguma coisa é bastante subjetivo depende dos gostos de cada um (ou você conseguiria se divertir jogando Dear Esther ou Amnesia: The Dark Descent?). E segundo, esse tipo de desculpa para fugir do problema não é muito diferente de dizer “é só uma piada!” para gracinhas preconceituosas.

Então você está sugerindo que os desenvolvedores sentam e pensam de como vão criar uma personagem feminina ofensiva.

Sim, eu já tive a oportunidade de ouvir essa pérola e alguém acreditar que esse problema é exclusivo E intencional da indústria de jogos é ser bastante ingênuo e não ver o preconceito como fruto de uma sociedade machista.

No próximo post, o tema será sobre o tratamento que mulheres como jogadoras recebem (ou dão) nesse meio, principalmente quando é para protestar contra o preconceito que elas sofrem.

*Massive Multiplayer Online Role-Playing Game. Jogos com vários jogadores simultâneos conectados que criam personagens com um determinado nível de customização na aparência, roupas e funções, e que precisam realizar tarefas para subirem de nível e consequentemente adquirindo armas, armaduras e poderes melhores.
**Esse jogo tem gender lock, ou seja, o gênero do personagem que você vai jogar é pré-determinado pela classe. Warrior e Cleric são garotos enquanto Archer e Sorceress são garotas.


Para ler a parte dois da série de guestposts sobre Feminismo e Cultura Pop escrita pela Taís Fantoni clique aqui. 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O gay e a piriguete nas novelas da Globo


Helena sofredora moradora da Zona Sul
Eu é que não vou mentir, curto a novela Avenida Brasil. A Zona Sul do Rio de Janeiro tirou férias do horário nobre, a bola da vez é a Zona Norte. Lá fica o fictício bairro "Divino" que é muito mais interessante. Os personagens da novela refletem a ascensão das classes sociais no Brasil. De forma totalmente realista? Não. Quando eu digo que "reflete", quero dizer que o telespectador começa a querer se sentir representado. Quando o Manoel Carlos colocava uma Helena branca e rica na tela da TV, indiretamente o que se pode compreender é que apenas ricos escrevem a história, o dinheiro é o que torna possível ser agente do seu próprio destino, os pobres seguem conforme a maré, sendo, na maioria das vezes o núcleo engraçado da novela. 

Vilã e mocinha são
pessoas cheias de defeitos
Ainda que Avenida Brasil continue tendo protagonistas ricos, integram o grupo denominado "novo rico", que um dia foi pobre, e agora possui grana e disposição para gastar, mas sem o refinamento típico dos personagens do Manoel Carlos. Os personagens são moradores do Divino, jogadores de futebol, a mocinha é a (rica) empregada doméstica. E num arroubo dramático, a mãe adotiva da personagem principal mora no lixão. E ninguém é perfeito, todos tem pequenos deslizes morais em sua história, incluindo a mocinha sofredora e vingativa. Dentro desse contexto, cada personagem dá um texto, quiçá uma tese. Hoje, entretanto, vou focar em dois personagens que conquistaram o carinho do público. A piriguete Suellen e o gay Roni.


Vejamos o que diz o site da novela sobre Suelen:

"Musa mau-caráter do Divino. Trabalha na loja de Diógenes, mas vive faltando ao serviço para ficar assediando os jogadores de futebol. Maria-chuteira clássica, sua meta é se casar com um craque e se mudar para o exterior. Esconde um passado misterioso."

Se quem deu esse resumo ao site foi o autor, nem ele deve compreender o monstro que criou. Quando digo monstro, não falo de forma pejorativa, me refiro ao tamanho e densidade que a personagem hoje possui. Suelen é demais. Os mais apressados dirão que Suelen é uma mulher sem caráter, que não se dá ao respeito. Pois bem, se você pensa dessa forma, amigo, volte para os anos 50. "Se dê ao respeito" é uma das coisas mais machistas constantemente repetidas nos ouvidos das mulheres, pois significa "comporte-se". Pedir que uma mulher se dê ao respeito é o mesmo que dizer que ela abra mão da sua liberdade sexual, pela qual tantas mulheres lutaram. E Suelen é a liberdade sexual personificada, por isso incomoda. Ela deu pra todo mundo porque, quando e como quis. E também deixou de dar quando não quis. 

Outros ainda chamarão Suellen de interesseira, de mulher que não sabe amar (como a própria atriz Isis Valverde falou para o Faustão no programa do dia 08/07). Mas a Suellen é mais, muito mais do que isso. O "passado misterioso" a que se refere a descrição de Suelen é que ela já foi garota de programa e o seu ex-cafetão é obviamente um explorador, que já chegou a ameaçá-la e a bater nela em alguns episódios. Suelen é interesseira? Sim. Mas o que dizer dos homens que desejam dela apenas o corpo, um momento de diversão, que a objetificam, a usaram, humilharam e até bateram nela? Ninguém está por aí falando mal dos caras com quem ela fez sexo na novela. À piriguete couberam todos os julgamentos morais, por ser mulher, por ser ex-prostituta, por gostar de sexo, por não se envolver e por gostar mais de dinheiro que de homem (e olha que ela gosta muito de homem!). Entre uma cena e outra, ela diz "Já passei por muita coisa dura nessa vida. Mas nunca matei, nunca roubei, nunca fiz mal a ninguém. Só a mim mesma". A conduta sexual da Suelen não é atestado de seu caráter. Suelen é interesseira, mas no quesito dinheiro é sincera. Fala claramente para quem quiser ouvir que está interessada principalmente (e não apenas) no dinheiro. Acho que a cena que melhor mostra as diversas facetas de Suelen e como ela possui valores morais é uma em que ela repreende Lúcio pela forma como trata a mãe. Você pode ver aqui.

Se Suelen é a mulher julgada por todos pela sua conduta sexual, Roni é julgado pela sua orientação sexual. Duas faces do machismo, duas vítimas do mesmo ódio. Roniquito é o filho querido de um pai machão e de uma mãe evangélica. Jogador de futebol, mesmo que esse não seja o grande sonho de sua vida (e sim de seu pai), Roni é craque. E não consegue fechar com um grande time por causa da homofobia. Nossa sociedade machista e homofóbica botou o futebol como o esporte que reflete a virilidade e todo um ideal de masculinidade. Tanto é que ainda tem muita gente por aí que repete igual vitrola quebrada que "mulher não entende de futebol" e nunca ouviu falar de Marta ou de Formiga.

Entendidos os personagens, vamos aos fatos que inspiraram esse texto: Suelen foi presa e seria deportada para a Bolívia, seu país de origem. E Roni quer muito entrar para um grande time de futebol. A mãe, evangélica, convence o filho a pedir Suelen em casamento com a desculpa de que um casamento de fachada irá dissipar os rumores sobre a sua orientação sexual, mas na verdade o que ela realmente quer é "curar" o filho da doença que ela pensa existir. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

No princípio, eu comemorei o casamento de fachada de Suelen e Roni. Pois achei que essa era a forma dos dois de lutar contra a opressão que os acometia. Ele deixou claro que o casamento evitaria a deportação e que seria um relacionamento aberto e portanto ela poderia manter a sua liberdade sexual e ele poderia finalmente ser um jogador de um grande time. Eu imaginava que esse casamento não duraria muito porque é novela e todos os segredos são revelados no final e o segredo dos dois é grande demais para permanecer nas sombras.  Um casamento de fachada vai contra o final feliz que normalmente é adotado pela globo, que quase sempre reafirma que a felicidade só pode vir da família tradicional, do casamento, dos filhos e da monogamia.

Porém, o meu maior temor é outro. A união da piriguete e do gay não é novidade numa novela do João Emanuel Carneiro. Em "a Favorita", Orlandinho casou-se com Maria do Céu. O resultado no passado foi uma ex-piriguete e um ex-gay. O tratamento dispensado aos gays e às piriguetes não é a liberdade de ser, de existir, de agir, de amar quem quiser. Em vez de admirar a beleza do ponto fora da curva, a tendência é a de voltar todo mundo para o seu lugar heteronormativo, machista e castrador. 

Quem dera esses fossem os únicos exemplos de ex-gays em uma novela ou série da Globo. Recentemente também tivemos uma série toda em volta dessa temática: "Macho-man", onde o personagem principal sofre um pequeno acidente e SE TORNA heterossexual (Socorro, gente, não dou conta dessa série...).

Na novela Caras & Bocas, do Walcyr Carrasco, teve o casal queridíssimo do público Cássio e Léa. Um gay jovem e uma mulher mais velha e heterossexual. 

Beijo gay que é bom, cadê? LGBTs* não se relacionam seriamente com ninguém nas tramas da globo. Até existiram alguns exemplos, mas nunca vimos um só beijo. No máximo troca de olhares, insinuações. Ou mesmo amor sem carícias. Tudo fica implícito. Não são a piriguete e o gay que não sabem amar, é a Globo que não sabe diversificar. Mulheres piriguetes em geral acabam por se apaixonar por um homem para se redimir da sua conduta sexual pregressa. E gays em novela são em sua maioria tipos engraçados, pois só assim o homossexual é aceito, fazendo um papel risível, gerando situações cômicas. O drama de ser homossexual é invisibilizado (não vou nem falar de trans e lésbicas, que o buraco é muito mais embaixo e dá todo um outro texto). A Globo, como maior produtora de novelas da TV aberta, não pensa fora da caixa: até bota os holofotes sobre o personagem polêmico, mas tem feito aquilo que toda a bancada evangélica tenta fazer a tanto tempo: calar mulheres, exterminar/curar homossexuais. 

A heteronormatividade da Globo me leva a crer que o futuro de Roni e Suelen está traçado, que haverá um casamento mais padrão do que eles esperam. Só me resta torcer para que minhas suspeitas sejam infundadas, que João Emanuel Carneiro continue demonstrando a sensibilidade com que tratou os dois personagens até aqui, sem fazer de Roni uma piada e nem de Suelen um estereótipo. Esperamos que o autor não faça de "Roni e Suelen" outro "Orlandinho e Maria do Céu" e eles possam ser simplesmente livres. Um gay e uma piriguete até o último episódio dessa novela, que até aqui tem sido tão boa.