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terça-feira, 15 de julho de 2014

Pelo direito de envelhecer

Li esse texto, do ótimo Lugar de Mulher e fiquei pensando no texto que há muito ensaio para escrever.

Eu não sou uma mulher bonita, nunca precisei, e espero nunca precisar, me valer da aparência para conquistar algo. Mas, ainda carrego um número infinito de padrões martelando em minha cabeça: "emagreça um pouco mais", "cuide do cabelo", "maquiagem pode esconder essa cicatriz aqui", "faça mais exercícios", "essa roupa modela mais sua cintura". Frases ditas por outros ou por minha (falta de) consciência.

Ano passado, eu conheci uma mulher linda, fabulosa, chamada Lina Chamie (vejam os filmes dela, vejam). Tive a Lina como professora e musa inspiradora em muitos aspectos. Uma das mulheres mais fascinantes que eu já conheci, de 51 anos e cabelo quase branquinho.

Lina Chamie, dirigindo o fantástico documentário
                              São Silvestre
Eu tenho fios brancos desde a adolescência. Com o tempo eles foram buscando mais espaço dentre os meus milhares de fios. E, por pressão de muita gente, eu usava tonalizante/tinta mensalmente. Uma média desleixada, acreditem. Me parece que a margem segura para esconder a situação é de 20 dias, estourando. Me sentia terrivelmente feia e envelhecida quando aquele meio centímetro apontava. Uma escravidão que, eu sei, muitas de vocês passam, meninas.

Então, há um ano, em maio de 2013, eu decidi que ia assumir meus fios, tal qual minha musa, a Lina. E parei de pintar. Com o tempo, o incômodo de ter parte do cabelo ainda tinto, me fez encurtá-lo. Queria logo acelerar o resultado para saber se eu me reconheceria grisalha ou não.
Grisalha e fabulosa
Eu me reconheci. Não sou mais uma jovem  (há algum lugar da legislação que limita a juventude aos 29 anos). Não quero parecer menina. Sou adulta. Não quero negar o que já vivi, maquiando minha aparência enlouquecidamente, para sorrir envaidecida em agradecimento ao "nossa, mas 33? não parece".

Eu adoro o meu cabelo grisalho. Adoro também a praticidade de lavar e hidratar e nada mais. E, olha que engraçado, as pessoas o adoram também. A reação de quem decide comentar a minha decisão varia entre elogiar e se ver refletidas na minha experiência capilar. Mulheres que afirmam desejar fazer o mesmo, mas por algum motivo (insira aqui algum padrão estético) não o fazem. Até hoje, com esse um ano de cabelo sem tinta, eu recebi quatro comentários negativos. Um, de uma amiga querida, que por me ver raramente nem notou que era uma decisão pessoal, pensou que era desleixo ou falta de tempo. E a segunda, uma pessoa embriagada no metrô, que depois de falar que eu era muito nova para isso, saiu batendo a mão em toda placa que via. O terceiro e o quarto, ah, preguiça de comentar, tudo fundamentado no padrão de beleza e no convencimento de que eu não devia deixar o cabelo assim, sob pena de aparentar mais idade do que tenho.


Eu, meu cabelo grisalho e a satisfação dos 33 anos.
E qual o problema de aparentar mais idade? Envelhecer é legal. Negar o quanto de coisas boas já viveu, por conta de uma indústria que só quer te ver sem auto estima e consumista, não.

Essa não é uma ode aos cabelos brancos. É uma ode à satisfação de ter a idade que se tem, aparentando mais ou aparentando menos, mas com um montão de experiência acumulada.



Meu corpo mutante - Aline Valek

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Eu, balzaca e feminista


Eu nem sei com qual rapidez os anos deslizaram por entre os meus dedos, mas sei que parece ter durado menos do que durou. Eu tenho 29 anos. Portanto, doente terminal. Apenas um ano de vida me resta. Ao menos é assim que o senso comum desenha mais um estereótipo sobre mim. Aos 30 anos, eu já devia ter uma família (monogâmica e heteronormativa) formada, estar casada, até poderia ter uma carreira, se também fosse mãe e esposa. A tal jornada tripla, o destino certo da mulher de 30 anos. Minha beleza, já deteriorada pelas primeiras marcas do tempo (uma ruguinha aqui, cabelo branco ali, seio caído acolá), não é mais admirada. A juventude é parte inseparável daquele padrão de beleza do qual sempre falamos aqui no blog. Aos olhos da nossa sociedade machista, a beleza é o bem mais precioso que uma mulher carrega, sem ela, não existimos. Com ela, existimos apenas para deleite masculino.

Enquanto mascus bradam por aí que a vida deles começa aos 30, a minha deveria estar no fim. Sambando na cara da sociedade, nunca me senti tão bem comigo mesma quanto agora. Ok, há problemas aqui e ali, mas somente agora começo (sim, COMEÇO) a me entender mais claramente e a amar a pessoa que sou, ou ao menos a pessoa que me tornei. Importa bem pouco para mim a tal da ruguinha. A verdadeira mudança que vejo na pessoa que sou e naquela que fui veio de dentro. E é incrível como aconteceu em pouco tempo.

Balzac, em seu famoso livro, dizia:

"Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis. A mulher jovem tem muitas ilusões, muita inexperiência. Uma nos instrui, a outra quer tudo aprender e acredita ter dito tudo despindo o vestido. (...) Entre elas duas há a distância incomensurável que vai do previsto ao imprevisto, da força à fraqueza. A mulher de trinta anos satisfaz tudo, e a jovem, sob pena de não sê-lo, nada pode satisfazer". 

Sobre essa citação, como diria Raul Seixas, eu acho tudo isso um saco. Uma mulher de 30 anos não é diferente de nenhuma mulher. Ficar categorizando quem é melhor e quem é pior não faz bem a nenhuma de nós. O que nos difere não é a nossa idade, são experiências pessoais que podem ou não interferir na nossa vida individualmente e não coletivamente. E é nesse ponto que o feminismo fez a diferença na minha vida: 
Eu preciso do feminismo para que a sociedade entenda que minha vida não acaba aos 30 anos.

Aos quase 30 anos, eu olho para trás e vejo como fui tola em ter sido calma, quieta, submissa, calada, opressora comigo mesma e com outras mulheres. E nem tem tanto tempo assim. Eu costumava dizer todas aquelas coisas absurdas contra as quais eu luto atualmente. Por exemplo: Eu dizia que as mulheres deveriam se dar ao respeito, que é muito feio mulher que bebe, e, o pior de tudo, havia momentos em que eu dizia até mesmo que se a mulher apanhou, fez por merecer. A minha falta de empatia por outras mulheres resvalava num pedido de aceitação dentro dos grupos em que eu andava. Grupos predominantemente masculinos. Não é que esses assuntos fossem exaustivamente discutidos em nossos encontros, mas há um machismo que paira sobre algumas cabeças e que acaba contaminando a todos, de formas e intensidades diferentes. A objetificação é só uma das facetas desse machismo que se revela em um ou outro comentário. Aqui e ali, meio encoberto por uma conversa casual sobre qualquer coisa, não necessariamente sobre a questão de gênero. E assim, lentamente, eu me deixei levar.

Aliás, eu demorei demais para me dar conta do quanto eu fui colonizada. Eu realmente sou uma pessoa tímida, mas o meu silêncio quando estava com eles não era timidez, era só silêncio. Lembro-me que uma amiga, que a eras me conhecia, me disse naquele momento da minha vida que a minha luz tinha apagado, que eu estava sempre calada. Na época eu compreendia a verdade naquelas palavras mas não conseguia identificar quais processos me levaram à esse comportamento. E posso dizer sem sombra de dúvidas, observando o meu passado, que foi a minha aproximação com homens. Não todos, vale frisar. Há no meio desse grupo grandes amigos, mas mesmo entre as pessoas que mais amamos existe uma coisa chamada "comportamento de grupo", que por vezes se manifesta. E dentro desse comportamento de grupo masculino a opressão às mulheres (e ao feminino de forma geral) existe. 

Caminhando rumo aos 30 anos posso me congratular, sem pedantismo, de ter sido capaz de mudar minhas opiniões. Tive ajuda nisso. Mesmo assim, não é fácil conseguir soltar as amarras culturais que nos são impostas, especialmente quando sabemos que o preço a ser pago é alto. Perdi grande parte dos meus amigos, tenho medo de fazer uma entrevista de emprego e alguém consultar as redes sociais, espaço que uso para entretenimento mas também para uma militância contínua, e é claro que existem os haters.

Algumas coisas aconteceram na minha vida para que eu pudesse sair do meu estado vegetativo. Eu conheci um grupo de mulheres que embora não se definisse ainda abertamente como feministas, foram de grande importância para a construção não só do meu feminismo como também o delas. Construimos uma identidade coletivamente. Somado a isso, uma tragédia também aconteceu dentro da minha família, com uma prima minha, um caso extremo de violência que resultou na sua morte. Todas aquelas mulheres que apanharam do marido ficaram para sempre ligadas à mim por meio dessa história. Eu entendo a dor de seus familiares, eu entendo. Eu entendo agora que nada poderia justificar o que aconteceu com elas. Eu vejo a Carminha apanhar na novela e sinto um nó se formar em minha garganta. Eu queria poder dizer que mudei unicamente com a minha força de vontade, com o meu próprio discernimento, mas isso não é possível, fatores externos à mim me esbofetearam na cara até que eu entendesse o quanto era prejudicial o discurso que eu sustentava até então. 

E é por isso que eu não consigo simplesmente culpar as mulheres machistas pelas barbaridades que falam, talvez nem elas entendam o quanto aquelas palavras recaem sobre si. Às vezes não acho a paciência necessária para lidar com elas, mas não as culpo. Alguém, em algum momento, me estendeu a mão para me fazer entender o que acontecia comigo. E por diversas vezes eu rechacei as palavras que me foram ditas. Ainda urgia em mim a necessidade de aceitação de uma sociedade que, eu ainda não sabia, nunca iria me aceitar de maneira plena, unicamente porque sou mulher. Mas um dia, eu entendi e estou aqui construindo e desconstruindo o que eu fui e o que eu sou. A cada dia, a todo momento. 

Eu não sei o que será de mim após a marca dos 30, mas aos 29 eu estou muito melhor do que estava antes. Se não estou livre por completo, estou lentamente me dirigindo à minha liberdade. E estou gostando muito. Que venham os 30.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

As linhas da nossa história


Ontem foi um daqueles dias que a gente acorda com a autoestima quebradinha, sabem?  Acontece que eu percebi algumas novas marcas que estão aparecendo no meu corpo: Estrias nos seios. Tentei pensar que era só procurar tratamento e elas melhorariam, mas isso não melhorou meu dia. Tentei pensar que sou mais do que uma estria, que ela não representa meu todo, mas também não foi muito eficaz.
Até que uma linda, linda amiga me mandou este site. Um site sobre mulheres, sobre vidassobre a maternidade, sobre corpos e sobre... estrias. Ao ler as histórias e ver as fotos do site eu comecei a me sentir diferente. É engraçado, porque a gente sempre é estimulada a olhar para o outro corpo com um certo distanciamento, a vê-lo com rivalidade, os corpos são uma competição. Mas não foi assim que eu me senti, eu me senti... normal.

Claro que não é igual para todas, mas uma gestação altera sim nossos corpos. E vendo as histórias dessas mulheres, junto com as fotos de seus corpos percebi como as coisas se ligam. Uma marca não é apenas uma marca, ela mostra que temos um passado, uma história, mostra que estamos vivas.

E aí eu percebi porque buscar tratamentos ou pensar que eu sou mais que uma estria podia até parecer solucionar meu problema, mas não fazia eu me sentir melhor. Porque eu sou sim uma estria. Cerca de quatro dias após o nascimento da minha filha o meu leite desceu, os meus peitos incharam e desde estão ela costuma mamar me arranhando, segurando o peito, sabem? Adora dormir assim. E isso me deu estrias.

Quando dizemos que o padrão de beleza comercial é desumano, não é uma forma de sensibilizar, sensacionalizar o assunto. É apenas porque ele é, bem... desumano. Quando falamos em retoques, photoshop, iluminação e os mil e um truques (dos quais não entendo nem um pouco, vocês devem ter notado) utilizados estamos falando em formas de deixar a nossa pele apenas cada vez menos parecida com uma pele.
A imagem vendida do corpo por si só não representa sua totalidade. O nosso corpo é todo especial porque traz a gente dentro dele. É como se fosse uma casa na qual a gente mora a vida toda. E tanto tempo em um lugar deixa marcas. Nós não somos apenas as nossas estrias, mas sim, somos as nossas estrias. As nossas rugas, cicatrizes, manchas, olheiras... tudo isso é um pedaço da nossa história que ficou marcado em nós.
Entrar em contato com o nosso corpo é (re)conhecer nossa história. Se existe de fato uma “linguagem corporal” eu diria que é essa: A do corpo contando sobre nós. Sobre a nossa genética, nossos hábitos, nossos tombos, nossas dores, nossas noites em claro, nossas filhas arranhando os nossos seios.
Ora, se eu não quero ser hoje menos do que sou, então não quero menos de tudo o que vivi. Por que então vou querer menos marcas? Deixe que a vida siga acontecendo e que fique estampada em nós.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Mulher, jovem, grávida e solteira


"Eu estava grávida. E aí meu mundo caiu. Me escorei em um prédio e me agachei no chão de uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Chorando em soluços desesperadamente. Ali senti minha vida acabar, pensei em todo o horror que uma gravidez inesperada representa, pensei em todos os meus sonhos sendo destruídos, na minha vida sendo esmagada. Tudo o que eu era foi quebrado de repente com o resultado de um exame." (Paula Mariá, no texto "O terrorismo da gravidez")

É dessa forma que a Paula Mariá descreve o momento em que abriu o exame de Bhcg e descobriu-se diante de uma gravidez inesperada. 

Antes de mais nada, das quatro características do título, posso dizer apenas que sou mulher. Estou a poucos passos de adentrar os 30 anos, uma idade fatídica para uma mulher em nossa sociedade, a idade que dizem fazer tocar o tal do relógio biológico (essa babaquice). Passei incólume pela adolescência e pelos 20 anos sem engravidar e tenho um relacionamento bem estável na minha vida, embora não seja casada. Por isso, desde já eu peço desculpas por escrever sobre algo que não é minha alçada, mas me sensibiliza demais: O terrorismo, os julgamentos, a infantilização da mulher jovem, grávida e solteira.  

É muito possível que boa parte de vocês, leitores, tenha passado/esteja passando por essa situação ou conheça alguém que esteve nessas condições, pode ser alguém na família, uma amiga, uma conhecida. Porque por mais que as pessoas gostem de pensar que família é aquela coisa engessada: pai, mãe, irmãs, irmãos, a coisa nunca foi exatamente assim. Sempre existiram famílias que não se enquadram na tradicionalidade desse modelo. As famílias estão cada vez mais diversificadas e o modelo monoparental é muito comum, especialmente nas classes menos abastadas. Então porque estamos sempre tecendo julgamentos sobre uma família que é formada por uma jovem sem marido? Eu mesma já me peguei em pensamentos como: "coitada, tão nova, tanta coisa para viver antes de ter um filho..." e como eu me arrependo de já ter pensado dessa forma um dia. 

Então vamos por partes, um adjetivo de cada vez: mulher, jovem, grávida e solteira.  

A mulher que está aí nesse mundão patriarcal de meldels ainda está escrevendo uma história de luta por igualdade e isso não é novidade para ninguém. Esse blog está recheado de textos sobre a questão do preconceito de gênero, da violência, enfim, dos inúmeros desafios que a condição de se identificar como mulher significa. E desconfio que todos os outros adjetivos do título signifiquem em nossa sociedade uma condição desqualificadora, principalmente, porque designam a situação de uma mulher.  

Juno, um filme sobre
gravidez na adolescência
Ser jovem acrescenta à condição de ser mulher uma característica: A inexperiência. Para muitas pessoas inexperiência é sinônimo de incompetência ou imprudência, e não é bem assim... Atribui-se à juventude a capacidade de quebrar regras, destruir tabus, contudo também vemos por aí uma juventude que "decidiu esperar", que reforça algumas regras. Então, essa característica não é plena, não é universal. Acho que o que deveríamos realmente esperar da juventude é que ela seja livre para fazer escolhas. É muito importante compreender que a adolescência e, porque não dizer, o começo da vida adulta é um período um tanto confuso em que ainda estamos tentando nos entender. E talvez ninguém falará melhor sobre esse assunto do que uma pessoa jovem. Por isso recomendo muito o vídeo da Tavi Gevinson para o TEDTeen, que não fala de gravidez, mas de juventude (é preciso habilitar as legendas que infelizmente estão disponíveis apenas em inglês).



Eu não entendo como temos simultaneamente visões tão opostas da juventude, por um lado, acreditamos piamente que eles são o futuro, que eles são os detentores da mudança. E por outro, estamos sempre falando que eles são estúpidos, incapazes, imprudentes. Porque só reconhecemos os dois signos, os extremos, jamais observando o que está no meio.   

As duas últimas características, grávida e solteira, são melhor entendidas juntas, já que são vistas de forma antagônica. Isso porque a gravidez é celebrada, desde que dentro de um casamento. É assim que a nossa sociedade gosta de definir a felicidade para uma mulher: Através do casamento e da maternidade subsequente. Se a mulher engravida mas recusa o casamento, ela não pode ser feliz. Ou até pior, se ela engravida e está solteira ela não apenas é uma pessoa infeliz, como é uma vadia (mulher que faz sexo: esse tabu!). 

Está todo mundo aí botando na cabeça das mulheres que elas nasceram para o propósito da maternidade, mas se ela for muito jovem, ou não estiver casada, não será capaz de criar o próprio filho, de prover todas as necessidades afetivas e financeiras que uma criança demanda e tampouco será capaz de viver a sua própria vida. Como se a partir do momento em que se descobre grávida, a mulher fosse obrigada a deixar toda a sua identidade de lado, para ser apenas mãe. Essa visão chapada da mulher esconde que, dentro dela, existe lugar para uma pessoa multifacetada, complexa e até contraditória. Não por ser mulher, mas por ser uma pessoa. Pessoas são assim, são mais do que uma única característica a ser reforçada.  

O que não se fala em alto e bom som, é que a mulher solteira tem um significado que deve arrepiar até os pentelhos de uma sociedade machista como a nossa: Ela não depende de um homem.  Antes que alguém grite "pensão", aviso logo que não estou falando meramente da questão financeira. Me refiro à sua independência de forma mais ampla, da sua capacidade de gerenciar uma família, de criar os filhos e principalmente de continuar vivendo. 


Slut-shaming e culpar a mãe:
Duas formas de expressar machismo
Apesar disso, a mulher que passa pela gravidez nessas condições sofre todo tipo de julgamento, a maioria das mães solteiras são questionadas e cobradas de muitas maneiras, especialmente no tocante à paternidade da criança, o tal do "quem é o pai?","vocês vão morar juntos?" ou "vocês pretendem se casar?". Até tem pessoas que perguntam isso na melhor da intenções, no sentido de "o que ele está fazendo para te ajudar a criar o seu filho?". Mas de forma bem geral (óbvio que existirão casos diferentes), parece que existe a cobrança por uma família tradicional ("Toda criança precisa de um pai!"). 

Se a mulher está solteira, existe um motivo, ou ela quer estar solteira e não cabe cobrar a presença do pai, ou ela não quer, mas foi abandonada, e nesse caso a pergunta se torna bem dolorosa. Ademais, duvido que exista a cobrança do outro lado, que exista sempre alguém buzinando no ouvido do pai da criança para ele assumir suas responsabilidades, ou olhando torto porque ele tem um filho e não é casado. Não parece haver simetria nessa relação, como normalmente não há quando o assunto é o que a nossa sociedade espera de um homem e o que espera de uma mulher.

Não pára por aí! Os ataques à mulher podem ser muito mais agressivos. Existem aquelas pessoas que suspeitam das intenções da mulher, chamando-a de interesseira ("só quer a pensão" e "golpe da barriga"), pessoas que tentam puní-la por engravidar ("Na hora de fazer foi bom, agora não reclama"), e ainda outras que a condenam por sua vida sexual pregressa, ou simplesmente por ter uma vida sexual ("dava para todo mundo" ou "De santinha só tinha a cara") e etc. 

Entretanto, talvez a mais dura de todas as críticas venha da família: "Envergonhou a família". Ouvir esse tipo de agressão de quem mais se ama dói profundamente. Me emociona demais pensar nas muitas moças que são expulsas de casa por uma família que preza pela tradição. E são muitas mesmo. Eu me pergunto porque alguns pais jogam sobre a filha as suas frustrações de tal maneira, que se uma coisa sai diferente do que eles imaginaram para sua vida, ela não merece mais viver debaixo do mesmo teto que eles, tampouco ser chamada de filha. Não consigo chegar numa resposta. O que há de tão horrível em entender que aquela não é a vida deles? E nesse momento de rejeição o que já é suficientemente confuso e desconcertante até numa família que dá apoio, se torna um monstro engolindo os sonhos, as pessoas amadas, o futuro, tudo.


Uma gravidez não estraga uma vida, ela só a transforma, muda a sua direção. A vida me parece ser mais do que um ideal de felicidade que te entregaram pronto e embalado para consumo. As coisas seriam muito melhores para a mulher jovem, grávida e solteira se pudéssemos olhar para ela sem achar que por ser mulher, ela é frágil, que por ser jovem, ela é imatura ou incompetente, que por estar grávida, ela é burra ou piranha, e que por ser solteira, ela é infeliz. Talvez isso impedisse que tantas mulheres se sentissem diante de um abismo, do fim da sua vida, no momento em que recebem a notícia de uma gravidez inesperada. Antes de repetir esses julgamentos deveríamos pensar que tudo o que dizemos individualmente, ou coletivamente, e que à cada imagem fazendo troça da mulher que engravidou sem planejamento, geramos o sentimento de culpa, desespero, medo e aflição. Estamos constantemente abalando sua autoestima a cada vez que reforçamos esses estereótipos, a cada mulher para quem dizemos (ou mesmo pensamos): "Que pena, tão novinha..." 


sábado, 14 de julho de 2012

Disney-Pixar Valente: essa princesa aqui tem mãe!

*CONTÉM SPOILERS*

De um lado, temos o estúdio de animações Pixar e seu histórico: nenhuma protagonista do sexo feminino. De outro, temos a Disney: nenhuma princesa que tenha, de fato, uma mãe. Uma mãe com presença, que realmente se relacione com a filha. A boa notícia? A Disney-Pixar lança seu mais novo filme, Valente, que conta com uma personagem principal feminina, cuja história é praticamente toda centrada na relação mãe e filha. Foi emoção demais para o meu coraçãozinho feminista. 

Eu gostaria muito de escrever um texto sem spoilers, mesmo porque este não tem a menor pretensão de ser uma resenha (e porque eu sou péssima nisso, beijos). Porém, findado o processo de escrita, eu percebi que botei a história mais a perder do que o esperado. Peço sinceras desculpas. Creio que ultrapassei limites por conta do encantamento gerado por essa bela animação. O motivo do fascínio passa, obviamente, pelo fato de eu tê-la achado feminista.

A princípio, vou tentar focar na parte simbólica do filme: achei acertada a escolha do urso para firmar o enredo. Eu acho que o urso fornece um escopo muito forte para ilustrar o grau de profundidade de uma relação mãe e filha.

Porque é justamente o urso, animal temido e ao mesmo tempo admirado ao ponto de virar brinquedo de pelúcia, que possui a simbologia da introspecção, do despertar de consciência. Em culturas como a indígena norte-americana, o urso é o símbolo da sabedoria. O urso é visto como aquele que sabe discernir se o ato de continuar a insistir em algo vale ou não a pena. E, tomada a decisão, o urso não pestaneja em mudar, seguir adiante.

Como fiquei satisfeita de ver a simbologia do urso aparecendo na animação, fui ler mais a respeito e acabei encontrando um pouquinho acerca do urso na simbologia céltica: trata-se de animal cujos poderes são igualitários entre macho e fêmea. A mitologia celta conta com duas deusas que se transmutaram em urso, a Andarta e a Artio. O urso-macho é associado ao Rei Arthur. Além do mais, o urso aparece, na tradição celta, como o arquétipo materno: mãe por excelência, a figura do urso estaria diretamente vinculada à maternidade e proteção de crianças. 

É justamente essa bela simbologia, de um animal que cuida, protege suas crias, ao mesmo tempo em que não hesita em ponderar suas crenças e portanto mudar, que aparece na tela de Valente. Aliado a paisagens belíssimas, muito bem arquitetadas graficamente, o filme conseguiu me prender do início ao fim. Eu li algumas resenhas bem negativas, dizendo que a animação tinha tudo pra ser uma grande aventura e não foi. O problema é que esses críticos não conseguem enxergar que os desenhos animados (pelo menos os mainstream) nunca se aventuraram a aprofundar o assunto <relação mãe e filha>. Isso pra mim foi A aventura. 

Mas os críticos ainda estão muito preocupados em ver ações de acordo com aquilo que o olhar “masculino” deles considera uma aventura. Desconfio que tais críticos, cujos links não acho dignos de compartilhar com vocês, esperavam que a “valentia” da Merida (o nome da protagonista é Merida, eu falei que não sei escrever resenha, certo?) se fizesse ao decepar monstros ou derramar muito sangue. Só que não. A Merida é valente justamente por defender a mãe. Com o bônus de não precisar de nenhum príncipe encantado para ajudá-la. Aliás, a ausência de um príncipe encantado salvador é também digna de nota, já que a Disney é conhecida por reforçar o mito de que mulheres não sabem se virar sozinhas, colaborando, assim, com a manutenção do patriarcado nosso de cada dia. 

E o ápice da valentia se dá numa das cenas mais fortes do filme. Aquela cena em que me foi impossível não chorar. A cena em que, simbolicamente, ocorre uma violência doméstica. A cena em que ficou claro pra mim que a Disney finalmente entendeu que não precisa matar a mãe da princesa pra fazer uma história tocante, que valha a pena. Trata-se do momento em que a Merida se coloca entre o pai e a mãe e, muito corajosamente, desafia o pai e o impede de matar a própria esposa. Achei a metáfora perfeita, tanto para ilustrar a real de uma violência contra a mulher (ilustrar é diferente de justificar, pfvr), como para mostrar que somente após a morte de mães como a da Branca de Neve,  da Cinderella, da Ariel, da Bela, da Pocahontas, além do fato de Rapunzel e Bela Adormecida terem retornado à convivência materna somente após os 16 anos, que a Disney admitiu que, oh céus, dá pra retratar mãe e filha juntas, vencendo obstáculos, aprendendo uma com a outra, sendo amigas! Lavei minh’alma.

Preciso abrir dois parênteses. Primeiro, pra falar que sim, eu entendo que muitas das obras mencionadas acima são adaptações de contos de fada que já existiam. Aliás, tem um texto ótimo que eu gostaria de linkar aqui, além desse outro texto, um guestpost publicado pela Lola, que fala sobre a evolução das princesas Disney. Por outro lado, se formos analisar os desenhos Disney como um todo, e não só aqueles baseados em contos de fada, veremos que a maioria absoluta retrata crianças/adolescentes sem mãe. O segundo parêntese é pra dizer que esse fato talvez corrobore o que uma amiga me disse outro dia: talvez a Disney nem tenha nada contra a figura materna em si, mas apenas queira demonstrar que a vida sem uma mãe se torna, literalmente, um inferno. O que acabaria por cimentar em nós a noção de que homens não são bons cuidadores. E que madrastas são todas carrascas. O que é igualmente problemático, a meu ver. 



Pra terminar, não posso deixar de mencionar o cabelo da Valente. Fez justiça a todas as meninas crespas. Saber que as garotas de hoje terão um arquétipo com um cabelo natural, não-domado, é muito gratificante pra mim. Eu sei que sou Pollyanna demais, mas entendam: eu não me recordo de UMA princesa ou boneca que tivesse um cabelo não-domado. Até a Tiana, que eu me lembre, teve seu cabelo penteado “certinho”. Lembremos que Valente conta com a assinatura da Pixar, o que faz muita diferença em termos de qualidade gráfica. Portanto, celebremos a cabeleira natural da Merida, com seus cachos heterogêneos que, mesmo molhados, dão a impressão de algo real, não-fabricado. Em tempos de plastificação de corpos, cabelos e mentes, isso já é um grande avanço. 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Não quero ser musa!


Eu sou a heroína dessa história,
eu não preciso ser salva.

Independentemente do acontecimento, se há mulheres envolvidas, a mídia dá um jeito de eleger uma musa. A musa está em todas as pautas: há a musa do futebol, a musa do basquete, a musa dos bandeirinhas, a musa do rock, a musa do Congresso Nacional e até a musa de manifestação feminista.

Ser chamada de musa, embora pareça um elogio, colabora com a manutenção das mulheres no lugar estipulado para elas pelo patriarcado, ou seja, reafirma que a mulher pode até ser cientista, política, professora, atleta, ativista, mas o que importa é que ela seja bonita, um enfeite. A principal função feminina é embelezar o ambiente. Ser uma boa profissional, ser idealista e lutar pelo que acredita não importa, importa se ela está dentro do padrão de beleza e se os homens héteros a acham atraente.

Destaca-se que a palavra musa também carrega em seu significado a capacidade da mulher "dona" desse título de inspirar a produção intelectual de quem a admira. A sociedade (que supõe que mulheres só se relacionam com homens) coloca a mulher tão inferior ao homem que considera que ela não produz, o máximo que ela pode fazer é auxiliar a produção de conhecimento e arte sendo um "colírio" ao olhar masculino.

 Além disso, a autoestima feminina é detonada pelas contínuas cobranças para estar dentro de um padrão de beleza fantasioso e excludente. A possibilidade de ser considerada uma musa é uma cobrança acessória do próprio padrão de beleza que se fantasia de "prêmio". Ser musa é ter um combo de "qualidades" para o patriarcado, ser bonita e ter a capacidade de inspirador o outro. Esse combo de cobranças alimenta essa fantasia de querer ser linda, musa, diva, gerando infelicidade e frustração em mulheres de todas as idades. 

Não posso ser a mulher da sua vida porque já
sou a mulher da minha.
 Uma amostra de como a representação das mulheres na mídia reduz o gênero feminino a enfeite são as reportagens sobre a eleição de 2010 e suas críticas ferrenhas ao visual da Dilma e a ausência de comentários do mesmo assunto sobre o Serra. O documentário "Miss represetation" fala mais sobre como a mídia trabalha com a imagem feminina, a análise parte da realidade norte americana. É perceptível pelo vídeo que o tratamento midiático dado às mulheres vai além da redução a mero objeto, mas também há uma tentativa de sempre criticar e desvalorizar mulheres que saem fora do papel de gênero, pela sua função ou pela sua imagem. Em um dos primeiros minutos do documentário é possível perceber como a mídia não leva as mulheres a sério. Mesmo as mulheres mais poderosas dos EUA tem sua intimidade invadida e discutida com frases como "será que ela fez uma plástica?" ou então se a mulher demonstra um pulso mais firme pra tratar de uma questão, pronto, a atitude dela produz um apelido sensacionalista e com conotação sexual, "dominatrix". 

Bom, fazendo um paralelo com o que foi falado, pode-se trazer isso para o Brasil, a imagem da Dilma foi muitas vezes "amaciada" com o uso de sua presença em programas como o da Ana Maria Braga, que é considerado "feminino". Durante uma reportagem do Fantástico feita pela Patrícia Poeta, houve perguntas bem pessoais, a respeito até mesmo sobre os netos e sobre a rotina "feminina" da presidenta. Ao mesmo tempo que vejo essas reportagens como uma possibilidade de se aproximar do público, conquistar eleitores e afins por parte da Dilma, vejo que a mídia trata essa "aproximação com os ideais de feminilidade" como uma forma de "colocá-la" no lugar e mostrar para as mulheres que mesmo ela, mulher poderosa, ainda gosta de cuidar da casa e da família, reafirmando assim os papéis de gênero. E mesmo o uso desse tipo de programa como uma possibilidade de se aproximar do público mostra como a sociedade é machista, se uma mulher num cargo político se mostra pouco feminina, ela tem que mostrar que não é bem assim e que ela preserva a feminilidade dela de alguma forma pra assim conseguir respeito e possibilidade de ser eleita. Ainda sobre o mesmo assunto, a gente vê que a mídia sempre faz perguntas sobre vaidade, família e afins para mulheres em cargos tipicamente masculinos. "Como faz pra manter a feminilidade num ambiente desses?" é a pergunta padrão.

‎No caso das atletas, a invisibilidade do esporte feminino coloca essas mulheres como vítimas ainda maiores dessa objetificação, visto que essa forma de tratamento da mídia coloca o título de musa como uma das únicas formas de visibilidade. Assim, o tratamento da mídia condiciona os patrocínios e a própria valorização do esporte ao uso de roupas que exibem as formas das atletas e que são "femininas".

Eu não sou feminista, mas ficar aqui sendo um objeto decorativo é um pouco chato.
Na verdade, eu realmente sou uma feminista.
 Enfim, a valorização da mulher na sociedade depende da aparência dela, da capacidade de atrair olhares de desejo e aprovação dos homens héteros, e também depende de quão "feminina" a mulher é. A capacidade feminina para o trabalho, para os estudos ou para qualquer coisa que fuja do tradicional é desacreditada pela mídia de diversas formas, ou reduzindo as mulheres à coisa, incluindo aqui críticas com denotação sexual, como o "dominatrix" ou através de comentários que sempre reafirmam que o lugar de mulher não é o que ela quiser, mas o que o patriarcado quer. 

O patriarcado e o capitalismo tem uma parceria que "vende" a mulher segura e bem sucedida, como uma mulher que é mãe, dona de casa e sua profissão e tudo isso sempre bem arrumada, vinculando a vaidade à autoconfiança e à capacidade. Uma mulher não arrumada, é uma mulher que sem valor para o mercado de trabalho (e para toda a sociedade). E enquanto isso, a autoestima feminina só perde.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Eu acredito em amizade verdadeira entre mulheres


Dia desses, fui com algumas amigas à uma festa de conotação bem feminista. Lá tiramos uma foto segurando um cartaz com o título desse post. Um dos clichês mais repetidos por aí sobre as mulheres é que não existe amizade feminina, pois as mulheres são muito competitivas, fofoqueiras e invejosas (Curiosamente, muitas das pessoas que afirmam isso também dizem que não existe amizade entre homem e mulher heterossexuais. Então mulher só pode ser amiga de homossexuais e transgêneros?). E eu não poderia discordar mais. Eu tive a sorte de conhecer os dois lados. As amizades masculinas e as femininas. E as pessoas que perduram na minha vida são quase que em totalidade mulheres.
Não quero, com isso, negar a existência de mulheres que puxam o tapete das outras. Outro dia mesmo, uma amiga reclamou que teve a sua fé no feminismo abalada por causa de um grupo de mulheres competitivas com quem ela trabalha, daquele tipo que faz jus ao estereótipo: diz que é amiga, mas disputa homem, disputa atenção e ataca a sua autoestima. Eu sei que essas pessoas existem. Houve uma mulher que puxou o meu tapete também, mas também homens que fizeram o mesmo. A gente sempre vai encontrar na vida pessoas sem caráter, sem ética. Acontece. Creditar essas atitudes apenas à um gênero é simplista, machista, castrador. Convido nosso eleitorado feminino à reflexão. Se você é uma dessas pessoas, você já parou para pensar nos motivos para fazer isso?
A natureza da amizade feminina e da masculina é a mesma. Carinho, companheirismo, empatia. A diferença está no machismo com que as mulheres são vistas e que algumas de nós internalizaram. Eu explico: desde muito cedo a competição é instigada em todas as pessoas, só que de formas diferentes para homens e mulheres. Mulheres são objetificadas pela sociedade. Precisam ser lindas, precisam ser amadas, precisam recolher as migalhas de atenção de um homem. E para isso é necessário ser melhor que as outras mulheres. Seja para se encaixar num padrão de beleza limitador, seja para estar melhor colocada em sua profissão. Homens por outro lado também são estimulados na sua competição, só que competem de outras formas. Exemplo tão estereotipado quanto o da mulher competitiva é o do homem pegador. Homens precisam pegar mulheres para reforçar sua masculinidade. Então sim, há competição entre homens também, embora ninguém fale muito disso. Os dois casos de competição são ridículos, preconceituosos e não deveriam ser encarados como padrões comportamentais. Para exemplificar melhor a questão, darei exemplos pessoais que contrariam o senso comum vigente. 
Voltando muito atrás, no tempo, a primeira amizade que aqueceu meu coração foi de uma menina. Sabe, a coisa foi tão forte, que mais ou menos vinte anos se passaram, o Pará, meu estado natal, ficou para trás e ela ainda alegra a minha vida, com as lembranças da minha infância e com sua presença ainda que virtual. 
Da infância para a adolescência, a pessoa que mais me marcou não foi quem me proporcionou primeiro amor, o primeiro beijo ou a primeira transa. Foi a melhor amiga. A pessoa com quem eu dividi todas as minhas experiências mais profundas, meus sentimentos que eu não ousava contar sequer para o travesseiro, ela sabia. Às vezes parece que ela me conhecia melhor do que eu mesma. Talvez conhecesse. Acho que muitas de nós, mulheres, teve uma melhor amiga na adolescência que pode ou não ter se mantido em nossas vidas depois desse período conturbado. Me lembro com grande carinho das madrugadas que passei em claro só conversando e rindo. E também das intermináveis horas que passei chorando ao telefone com a voz carinhosa da minha amiga do outro lado me acalentando e ao mesmo tempo compreendendo a inquietude que é amar e não ser correspondido. Da faculdade, eu mantive uma amizade em especial, que está sempre por perto, participando imensamente da minha vida, inclusive profissional (onde muitas pessoas diriam que é o ambiente mais hostil, cheio de fofoca e intriga... Só que não).
Essas três amizades, sozinhas, já destruiram qualquer resquício dessa visão machista que eu poderia ter da amizade feminina. Porque elas se mostraram o perfeito oposto. Porém eu não parei aí, encontrei abrigo num grupo de umas quarenta mulheres, que são muito diferentes entre si, mas que dividem sentimentos de solidariedade, aceitação e carinho muito fortes. Há altos e baixos, há algumas discussões, mas o sentimento está sempre presente. Esse blog é um exemplo de como a amizade feminina é real. Somos todas amigas. Eu podia ter perdido todos esses momentos maravilhosos que tive na vida se tivesse olhado para essas mulheres incríveis com a superficialidade de quem só vê falsidade nas relações femininas.
Houve também uma época em que eu estive cercada de amizades masculinas, mas uma a uma elas foram caindo com o tempo e com a incompatibilidade entre essas pessoas e eu (e não entre os gêneros), assim como também deixei no passado algumas amizades de mulheres. Algumas vezes o erro foi meu, algumas vezes não foi. Outras vezes a vida se encarregou de me afastar das pessoas mais queridas.
A partir do momento que você, mulher, diz que "mulher é sempre competitiva, fofoqueira, egoísta", você se coloca no meio. Você támbém é mulher, esqueceu? Cair nesse senso comum pode impedir você de viver experiências maravilhosas ao lado de outras mulheres. Não seja competitiva e não alimente competição. Mudar essa visão estereotipada também depende de cada uma de nós, mulheres. É preciso parar de falar por aí que todas as mulheres são assim e vamos focar nas pessoas que não são. Somente olhando para outra mulher sem erguer esse muro de desconfiança é que nos daremos a chance de conhecer melhor umas às outras.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Menstruação: autoestima e ódio ao feminino.


There will be blood - Foto de Emma Arvida Bystrom
            O ensaio fotográfico publicado originalmente na revista canadense Vice, nomeado de "There will be blood" foi republicado no Brasil no portal da yahoo e em outras mídias. A aceitação das fotos foi péssima.     
             Nojento, desnecessário, nada sexy e horrível foram palavras utilizadas pelo maioria do público para descrever as fotos. Tanto homens, quanto mulheres manifestaram toda essa ojeriza pela menstruação. Os comentários inclusive ofendiam as modelos fotografadas, chamando-as de vadias nojentas e falando até que elas envergonhavam a espécie. O choque foi grande, afinal, a misoginia no ódio ao sangue de menstruação não é tão clara, mas ela se mostra sem disfarces nesse comentário. Para a comentarista, uma mulher que exibe sua menstruação é menos mulher, é uma mulher sem valor, é nojenta e não esconde envergonhada o "seu feminino" e por isso merece ser xingada dessa forma.

         O "nada sexy" merece um parágrafo especial porque mostra como a mulher é vista como enfeite, ela só é bem aceita pela mídia e pela sociedade se estiver magra, maquiada, photoshopada, enfim, não natural. A mulher como ela é, menstruada, com dias bons e dias ruins, sem photoshop é criticada justamente por sair dessa função que o patriarcado a colocou, que é a de objeto, enfeite, troféu. Passiva e bela, sendo admirada e servindo ao deleite masculino heterossexual. A mulher menstruada não enfeita, ela choca. Ela não está ai pra ser admirada, afinal, ela é natural, ela é humana. A mulher vista como sujeito, a mulher vista como ser humano ainda choca. E isso assusta.

Menstrala - Pintura de Vanessa Tiegs
       A depreciação pela menstruação é correlata ao ódio pelo que é designado como corpo feminino e também a diversos problemas de autoestima, afinal, como haver aceitação do corpo se as mulheres ainda vêem a menstruação como algo sujo, feio e nojento? Ver seu organismo dessa forma faz mal, é odiar uma parte de si. Odiar a menstruação, escondê-la, evitar falar nela contribui para a repressão sexual feminina e para a falta de conhecimento do próprio corpo. Esconder e silenciar contribui também para retirar das mãos das mulheres a própria sexualidade e o direito ao próprio corpo, porque o medo do que o outro vai achar, o medo de ser nojenta, suja e feia coloca a mulher numa posição de objeto do patriarcado. 

A misoginia em relação à menstruação coloca o corpo designado ao nascer como feminino pra servir aos outros e não a si mesma e prejudica a autoestima, por criar inseguranças que impedem que a pessoa exerça sua sexualidade e conheça o próprio corpo. Ver a menstruação como nojenta, é ver também a vagina, o útero, o ovário e todo o sistema reprodutor definido como feminino como algo a ser "limpado" ou escondido. A insegurança feminina a respeito do cheiro da vagina, bem como da depilação íntima como parte da higiene e até mesmo da "feiura" da vagina são componentes do ódio ao feminino e do ódio à menstruação. E chegamos ao "nada sexy" porque se mostrar natural, se mostrar humana, não tem aceitação, porque é sair do papel que o patriarcado nos colocou, que é de passiva, submissa e objeto.

Observação: nem toda mulher menstrua e nem toda pessoa que menstrua é mulher. Entenda melhor lendo textos no "Transfeminismo". 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Guestpost: Coletor menstrual: prós e contras

Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva 2@ Vermelha, um evento que surgiu com o objetivo de nos colocar para falar sobre menstruação, esse tema que pode ser símbolo, tabu, orgulho, vergonha, dor, alegria e muitas outras coisas dependendo da forma como é vivido por cada uma de nós. A leitora Natália Schmidt preparou um guestpost super bacana para nós contando a sua experiência com o coletor menstrual. Afinal, falar de menstruação é também questionar tudo o que está ligado a ela, desde a TPM até os nossos absorventes.

Coletor menstrual, para quem não conhece, é um recipiente (um “copinho”) reutilizável de material maleável (geralmente silicone) que serve para colher a menstruação. Funciona assim: você coloca no canal vaginal e ele se prende por meio de pressão nas paredes vaginais. Depois, é só retirar, esvaziar no vaso sanitário ou na pia (ou ainda, se quiser, diluir o sangue na água e regar as plantas !) e colocar de novo! Depois do ciclo menstrual, deve ser esterilizado e ele estará pronto para ser usado novamente. Hoje, existem várias marcas que comercializam (destaque para MissCup, que é a única marca brasileira), mas até um tempo atrás não era assim, e além de tudo, era difícil de se achar.

 Há 2 anos, fiquei sabendo do coletor menstrual pela minha irmã, li sobre e achei super interessante o fato de ser reutilizável e portanto ecológico (sempre me incomodei pela quantidade de absorventes que vai para o lixo). Além disso, é livre de pesticidas e outros produtos químicos dos absorventes tradicionais. Decidi experimentar. Na primeira menstruação, achei um pouco desconfortável na hora de inserir. Para colocar: a gente dobra o “copinho” e coloca, chegando na posição correta, é só soltar que ele desdobra e fica preso por pressão na parede vaginal. Por causa da pressão, senti um pouco de dor. Para tirar, mesma coisa. E vazava, bastante. Além disso, me incomodava com o “cabinho” do coletor em alguns movimentos. Fui reclamar com a minha irmã e me surpreendi quando ela me disse que para ela, tinha sido ótimo, e ela amou.
            Pesquisando, descobri que só vaza quando colocado da maneira errada. E que é preciso praticar até não vazar. Além disso, lendo no manual de instruções, foi muito alívio quando descobri que pode (e deve, se te incomoda) cortar o “cabinho” do coletor. O “cabinho” está lá para facilitar o manuseio, para dar mais segurança para quem ainda está insegura, mas se incomoda, deve ser cortado. Decidi então dar uma segunda chance.
            Na segunda vez, acertei o pé. Consegui colocar direito, nos primeiro dias, vazou um pouquinho, e depois não vazou mais. E o corte do “cabinho” foi realmente um alívio.
            Depois disso, foi “amor a segunda vista”! Sou assumidamente apaixonada pelo meu coletor menstrual, porque conforme o passar do tempo, eu fui me adaptando melhor, e percebi que ele foi uma das melhores invenções dos últimos tempos... rs
            Entre os pontos positivos, o fato dele ser muito mais ecológico que os absorventes tradicionais ganha destaque. Mas se fosse só por esse ponto, nós poderíamos adotar os absorventes de pano, não é mesmo ? Acontece que o coletor menstrual é também muitíssimo confortável. Depois do período de adaptação – e salvo raras exceções -, você não vai nem sentir mais, garanto  (as vezes, eu esqueço que estou menstruada). Pode ser praticado qualquer atividade física durante o uso, inclusive nadar. Você pode ficar, teoricamente, de 4 a 8 horas sem esvaziar, mas eu já cheguei a ficar 12 (!) horas tranquilamente (depende do fluxo). Além disso, é mais econômico. O custo de um coletor menstrual da marca Misscup, segundo o site, é de R$ 75,00, e pode durar de 2 a 10 anos (depende de alguns fatores, como a frequência de uso). Podemos gastar em torno de R$ 200,00 em absorventes descartáveis por ano!
            Os outros pontos positivos menos óbvios, mas não menos importantes: nessa cultura de desvalorização de tudo que diz respeito ao corpo das mulheres, e inclusive – e especialmente - a menstruação, utilizar o coletor menstrual é uma ótima maneira de quebrar mitos e conhecer melhor o seu ciclo. Eu, pessoalmente, amo menstruar, acho lindo, e o coletor menstrual me permitiu um contato muito mais profundo com meu ciclo. É muito legal ver a quantidade do fluxo – e perceber que não é uma hemorragia descontrolada, afinal -, perceber que aquele odor desagradável e forte da menstruação nada mais é que o absorvente comum abafando o local, entre outras coisas. Aliás, o coletor menstrual é também mais higiênico, menos propenso a desenvolvimento de alergias e de algumas pragas, como a candidíase. Além do contato com o próprio ciclo, o manuseio do coletor estimula o conhecimento do próprio corpo – o que infelizmente, é tão negligenciado na nossa sociedade.
            O único ponto negativo de acordo com a minha experiência é que esvaziar em banheiros públicos pode ser uma experiência não muito bacana. Eu sou desastrada por natureza, e dependendo da situação do banheiro público, eu não consigo retirar, esvaziar e colocar novamente sem me sujar. Para tirar e colocar, ainda sinto cólica por causa da pressão, mas não é nada que me incomode tanto.
            Enfim, sou uma mulher assumidamente apaixonada pelo meu coletor!
            Eu uso da marca Mooncup. No site das marcas Mooncup e Misscup tem mais informações e depoimentos. E no site do MissCup também tem uma pesquisa legal sobre a opinião das consumidoras. Vale a pena pesquisar e experimentar! :-)

Observação: nem toda mulher menstrua e nem toda pessoa que menstrua é mulher.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Eu não gosto de me depilar

Pois é, não gosto. E a parte triste da história é que estou sempre depilada. Não faço por mim, faço em nome do patriarcado, faço por não ter coragem de ir contra essa imposição. Mas não gosto.


Muitas mulheres dizem que se sentem bem, se sentem “limpas” (péssima essa associação de depilação com higiene, já totalmente furada pela medicina) e, por isso, acham que faz bem para a autoestima. Pois eu discordo. Apesar de também me sentir dessa forma, não acho que isso tenha algo a ver com autoestima. Se sentir bem por estar dentro do padrão não é necessariamente gostar de fazer algo.


Quando eu saio depilada me sinto bem, me sinto bonita. E não tenho a menor dúvida de que todos estão admirando minhas belas pernas depiladas (na minha cabeça, claro). Nem considero a possibilidade de alguém sentir desgosto ou aversão por eu estar depilada, o que não é apenas usual, mas senso-comum acontecer quando a mulher ousa sair sem se depilar. O que não há de programas de “fofocas” apontando as que deixaram escapar um pelinho na entrega do Oscar, hein.


Percebo que é muito diferente de me tatuar ou de pintar o cabelo, por exemplo. Nessas duas outras manifestações de vaidade – porque sim, por mais que a tatuagem tenha o significado mais transcendental da história, ela ainda é estética, então, sim, é vaidade – eu mal considero a possibilidade de alguém reparar. Me sinto tão bem, tão bonita, tão “para mim” que se alguém de fora vai olhar ou não, não faz a menor diferença. Se vai gostar então, menos ainda.

O momento em si também é diferente. Tatuar também dói, mas é uma dor que me agrada, pintar o cabelo demora, mas não me incomoda. Nos dois casos o resultado final é tão prazeroso quanto o resto do caminho. Já a depilação dizem que “dói, mas compensa” (?). Eu suporto a dor do processo em busca do resultado final, o momento da depilação não é, de maneira alguma algo que eu goste de fazer.

Acontece então que ao me depilar me sinto bem por conta da “aprovação social” que recebo, e coloco essa aprovação entre aspas, pois ninguém vai me dar parabéns ou me elogiar pela depilação, afinal, como mulher, "não é mais que minha obrigação" fazê-la. A aprovação em questão é meramente não receber olhares de repúdio, asco – e, claro, comentários maldosos – a pernas não depiladas. E eu preciso dessa aprovação social na depilação, justamente por não gostar dela. O “sentir-se bem” neste caso está diretamente ligado ao consenso do que é belo e não a minha imagem e satisfação pessoal e particular.

É necessário saber diferenciar o que nos faz intimamente bem do que é socialmente esperado de nós, pelo nosso próprio autoconhecimento. Autoestima é diferente de satisfação por se encaixar na estima alheia. A libertação é processo gradual e, de uma forma ou de outra, todas contribuímos com a escravidão de nosso corpo, quando nos mutilamos desgostosamente em função do outro. Reconhecer como nos sentimos e porque nos sentimos assim diante de cada detalhe do nosso corpo é libertar a consciência e visualizar o que há de mais íntimo em nós. É necessário.

Particularmente, eu me tatuo por mim. Mas me depilo pelo patriarcado. Ainda e infelizmente.