Mostrando postagens com marcador Repúdio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Repúdio. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Comer é necessário, Vogue.

"Uma cultura obcecada por magreza feminina não é obcecada pela beleza da mulher, mas sim pela obediência feminina. A dieta é o sedativo político mais potente na história da mulher, uma população levemente louca é uma população dócil". - Naomi Wolf


O Dia Internacional Sem Dieta acontece todo seis de maio e simboliza um pouco da luta das vítimas de transtornos alimentares para se curarem. Esse dia propõe celebrar a aceitação de todos os tipos de corpos e questionar o padrão de beleza e as discriminações decorrentes dele, como a gordofobia.

Enquanto a existência dessa data especial demonstra uma preocupação com os transtornos alimentares e suas vítimas, a sociedade continua a alimentar justamente o contrário que essa data prega: uma exaltação ao corpo magro, um incentivo às dietas e obsessões com o corpo inatingíveis. E é por isso que repudiamos a publicação da Revista Vogue intitulada "Comer pra quê? Fazer jejum está na moda. Saiba mais sobre a dieta da vez".

Irresponsável, prejudicial, lamentável é o mínimo que se pode dizer sobre essa reportagem que já no título tenta vender uma dieta que questiona a necessidade de comer. Dizer que ficar sem comer está na moda é glamourizar um sintoma frequente de anorexia e banalizar essa doença que atinge diversas pessoas, principalmente mulheres jovens. A nova tendência da moda é a de sempre: incentivar a busca por um ideal de corpo inalcançável, a qualquer custo. E a Vogue aprova e publica, mas sem esquecer de adicionar um "Só faça se tiver acompanhamento médico", como se adicionar essas palavras fizesse desaparecer a irresponsabilidade da publicação. Dizer que ficar sem comer dez dias do mês é válido é fazer uma campanha contra a saúde das mulheres.

O uso da palavra jejum para designar a dieta é fácil de relacionar com a ideia de penitência. A mulher é sempre condicionada a sofrer em nome de diversas coisas: por amor e pela beleza são as principais. Incentivar dietas altamente restritivas em nome de um ideal de beleza é colaborar com a ideia de que o sacrifício, por ambos, está ligado ao que é desejável para a mulher no patriarcado. A mulher que não se sacrifica é vista como desleixada e preguiçosa, coloca-se a dor e o sofrimento como uma motivação para a buscar ainda mais o ideal. E esse estigma não atinge só mulheres necessariamente, já que a sociedade vê todos que estão acima do peso como preguiçosos e trata de culpá-los e dizer que o sacrifício deles não é suficiente, alimentando ainda mais essa cultura de ódio a diversidade de corpos e sua consequência: oito milhões de estadunidenses (sete milhões mulheres) tem algum distúrbio alimentar. Um número incerto, visto que a maior parte das vítimas desses distúrbios não buscam tratamento e assim não fazem parte das estatísticas.

Garotas veem mais de 400 propagandas por dia
que dizem como elas devem aparentar.

O corpo designado feminino é alvo de muito ódio: ele é objetificado, só valorizado se considerado bonito, o cheiro que advem dele é considerado ruim e os pêlos que o cobrem vistos como anti higiênicos. A sociedade aponta defeitos em nossos corpos o tempo todo. E esse incentivo insano à dietas é mais uma face dessa misoginia.

E a Vogue, junto com outros veículos midiáticos, diz que é necessário ser magra a qualquer custo o tempo todo. Dizem isso através de fotos e matérias que dizem que só a magra pode vestir as roupas daqueles editoriais, que apenas a magra é bonita e feliz, reportagens que incentivam dietas, propagandas "vendendo" remédios de emagrecimento como se fossem inofensivos ou dizendo "comer pra quê?". Enquanto isso mais e mais mulheres aprendem e continuam a se odiar e a pensar que o "qualquer custo" é um preço justo a se pagar. 

E o Ativismo de Sofá repudia não só essa publicação, mas todas as que concordam com essa cultura de ódio.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Parem de culpar a vítima!

Estupro é causado por misoginia, estupradores, tolerância institucional e violência estrutural.
E NÃO pelas roupas, por estar no lugar "errado", bebendo ou não "tomando cuidado suficiente".

Integrantes da banda de pagode New Hit são os acusados de estuprar duas adolescentes fãs da banda após um show na cidade de Ruy Barbosa na Bahia. O exame de corpo de delito foi feito e através dele foi constatada a existência de hematomas internos vaginais em ambas as vítimas, o que é um indício grave de que sim, elas foram vítimas de estupro.

Os detalhes do caso são terríveis: as duas jovens foram estupradas por dez homens e a sociedade, em geral, se comporta de forma machista e misógina culpando, as vítimas pelo acontecido e também ameaçando suas famílias por terem denunciado o caso. Os apoiadores dos acusados alegam que a mera ida ao show já é considerado um indício que elas estavam "pedindo"; afinal, para essas pessoas, mulheres que saem de casa à noite não são dignas de respeito. Outros dizem que elas entraram no ônibus porque quiseram e isso seria mais um indício que elas estavam "provocando, pedindo, buscando" o que veio acontecer.

Há quem diga que elas forjaram o estupro, mas como então elas forjaram os hematomas que constaram no exame de corpo de delito? Há quem diga que elas são "umas vadias", deram muito e agora denunciaram o estupro porque a banda teria dinheiro. Para essas pessoas, eu informo: quando uma pessoa é condenada por estupro, ela não fica obrigada a pagar "muito dinheiro" pra vítima; por mais que vocês achem que estupro é um "problema menor" ou até mesmo uma forma de ganhar direito em cima dos outros; saiba que se ele está previsto na lei penal, quer dizer que essa conduta criminosa é relevante para o Direito e que essas pessoas devem ser punidas, pelo bem da coletividade. Há quem diga que eles não precisam estuprar ninguém, afinal, eles poderiam ficar com quem quiserem naquele show. Para essas pessoas, eu digo, estupro não é sexo. 
Marcha das Vadias de BH - 2011 - Acervo Pessoal

Mais uma vez a sociedade nos mostra sua cara misógina e machista e a gente destaca, novamente, que a culpa de um estupro é do estuprador, jamais da vítima. Não se evita estupros não permitindo que mulheres saiam de casa; não se evita estupros cobrindo o corpo das mulheres com determinadas vestimentas; não se evita estupros culpando as vítimas pela violência sexual sofrida.

É necessário deixar claro mais uma vez que se uma mulher estiver nua e desmaiada de bêbada numa cama, NINGUÉM TEM PERMISSÃO de tocá-la; afinal, ela não tem possibilidade de consentir com o ato. Se uma mulher beija um homem, ele não tem direito de tocá-la onde ela não permitir, ele não tem direito de supor que um beijo é consentimento para qualquer ato sexual que seja. Há diversos exemplos a serem dados mas, neste caso, é bom deixar claro que uma mulher de noite num show não "tá pedindo", uma mulher que entra num carro, na casa, ou num ônibus de um cara não "tá pedindo". Não existe "estar pedindo" por um estupro, porque o que determina se um estupro aconteceu é a ausência de consentimento. Se não há consentimento é estupro. Simples, né?

Roupa, comportamento sexual, a hora e o lugar onde a vítima do estupro se encontrava não a faz menos vítima. Dizer que essas garotas são vadias e mereceram é endossar ainda mais a cultura do estupro, é contribuir para que vários criminosos continuem impunes. Organizar uma marcha em defesa dos acusados não é possibilitar o acesso ao contraditório e ampla defesa numa ação penal, é simplesmente ignorar que essas pessoas podem ter cometido crimes, é banalizar todas as formas de violência contra mulher. Duvidar, dessa forma, de uma acusação de estupro, é dizer que o corpo das mulheres é disponível, pode ser violado se ela não se comportar conforme parcela da sociedade diz que é certo. A marcha que está sendo organizada pelos fãs da banda zomba da Marcha das Vadias, zomba das diversas vítimas de crimes que violam a dignidade sexual das pessoas, zomba também da própria ideia de um mundo menos violento e menos machista.

O caso deixa claro como denunciar um estupro não é uma decisão fácil e como a vítima daquela violência e todos que estão próximos sofrem com os julgamentos machistas que são destinados pra quem tem coragem de não se calar.

Ato em apoio às vítimas, aqui. 

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Relato de uma amiga a respeito de uma violência diária à coletividade

 Relato verídico de uma amiga e de uma cidadã brasileira, um relato que podia ser assinado por várias mulheres.

Escrevo para contar o que aconteceu hoje. Pensei que aconteceu tantas vezes, mas hoje foi mais forte e me indignei mais. Pensei que isso acontece todos os dias e que ao invés de educação, nos dão dois vagões no metrô/trem por cerca de 5 horas por dia. Contra a violação diária do direito aos nossos corpos ganhamos dois vagões nos horários de pico. Não tem educação. Não tem nada. Tem cartaz no metrô falando pr'a gente não colocar o pé na parede, tem cartaz no metrô falando pra não jogar lixo no chão, mas não tem cartaz no metrô falando pra não mexer na genitália das moças.

Hoje peguei o metrô para ir a faculdade. Peguei como pego todo dia. Quem é do Rio sabe o que é pegar a linha 2 (Pavuna) às 19h. Na verdade, quem é do Brasil sabe o que é pegar transporte público àas 19h.

Hoje um cara achou que seria bacana enfiar a mão na minha genitália. Não aquela roçada que vez ou outra a gente leva. Foi a mão. Quase embaixo da minha saia. E eu gritei. E esperneei. E sabe o que aconteceu? Nada. Ele saiu sorrindo numa estação depois da que eu comecei a gritar e eu fiquei lá. Talvez devesse ter descido e chamado a segurança.

Eu segui minha viagem (não sei se deveria ter descido, se deveria ter descido a mão na cara dele...) e ouvi, até descer no Maracanã que "Aposto que é baranga que está reclamando". E ver ou as pessoas rindo do que aconteceu ou completamente indiferentes. Nenhum olhar de indignação, nenhum olhar de compreensão com o que aconteceu.

E é isso aí. Ser mulher é isso aí. A qualquer momento alguém que você não conhece, não deseja, em uma situação que você não conhece e não deseja pode enfiar a mão na sua genitália e é tudo normal. Pq, né, foi só uma mão, não é como se o cara tivesse me violado ou algo assim, né?

Não. Ele me violou. Violou meu direito de dizer "não". Violou meu direito de escolher quem toca a minha genitália. Quem toca EM MIM.

E ele sorriu. Os companheiros homens riram, as outras mulheres, talvez tão acostumadas e preocupadas em não terem tocadas as suas próprias genitálias, sequer fazem coro com o meu grito de indignação.

E é isso.

Ainda hoje a mulher e seu corpo são tratados como propriedade pública. No Rio de Janeiro, neste centro urbano, nesse turbilhão de ideias, eu sou tratada como objeto.

Escrevi essa nota de maneira anônima pq tenho medo da reação das pessoas. Na internet as coisas tomam proporções gigantescas e isso vira faroeste, terra sem lei onde você é conhecido, ameaçado, ridicularizado. Sou feminista, universitária, independente, fui a vítima e ainda assim tenho medo.

Mas denuncio. Denuncio a violência que eu e todas as mulheres sofremos diariamente quando nosso único crime é estar lá, disponível com um corpo feminino.

Shame on us.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Blogagem Coletiva - Repúdio ao caso do Estupro Coletivo em Queimadas-PB.



Essa semana, mais um caso de violência contra a mulher foi assunto comentado nas redes sociais e blogs feministas. Trata-se do abominável estupro coletivo, que ocorreu em Queimadas, na região do agreste Paraibano. A polícia prendeu dez homens acusados de estuprar seis mulheres e matar duas delas.

O caso em si já é horrível, mas os detalhes são ainda mais cruéis. Luciano Pereira dos Santos comemorou o seu aniversário com uma festa, seu irmão, Eduardo Pereira dos Santos, convidou as mulheres que seriam as vítimas do crime que planejaram: Alguns homens armados e encapuzados invadiram a festa e separaram os homens e mulheres em cômodos diferentes.

Nesse ponto, as vítimas foram vendadas. Luciano e Eduardo se vestiram como os bandidos e estupraram seis das oito mulheres presentes na festa (excetuando-se apenas a esposa e a namorada de Luciano e Eduardo, respectivamente). Enquanto eram violadas duas vítimas reconheceram os estupradores e por isso foram assassinadas. Os dois rapazes chegaram a ir ao enterro das jovens, mas foram presos ali mesmo, na frente das famílias.

Ao se deparar com uma notícia tão chocante, a primeira reação da sociedade é chamar a estes homens de monstros ou animais, atribuir-lhes a pecha de selvagens. Não discordo de todo que há pouca civilidade neles, o problema é que as pessoas tem essa idéia que o criminoso é alguém distante, alguém que jamais conseguiria viver em sociedade. Ignoram que a crueldade é bem típica do ser humano, em todos os lugares do planeta. Chamar o criminoso de monstro é alegar que homens não cometem crimes tão cruéis, sendo que todos nós fazemos parte de uma cultura que estimula homens e mulheres a perpetuarem a violência contra a mulher em diversas modalidades, seja estupro, violência doméstica física ou psicológica.

Retirar dos criminosos da Paraíba, e de todos aqueles que agridem as mulheres, suas características humanas exime o homem comum da culpa de toda a violência simbólica que ele comete. Ao fazer isso ignora-se que há toda uma cultura que contribui para a idéia de que a mulher é um objeto, que não pode decidir por si e, no caso de Queimados, a situação é tão flagrante que a mulher é oferecida como um presente de aniversário. Especula-se inclusive que o estupro foi armado porque uma das mulheres teria recusado um dos estupradores. Ou seja, a mulher não pode ter opinião.

A alegação de que os criminosos são monstros/animais ignora que a violência de gênero é um problema estrutural. O machismo e a misoginia não são "doenças individuais", são problemas sociais. Não é coerente achar que está tudo bem rir de piadas que envolvem estupro, como aquelas feitas por Rafael Bastos ("estuprador de mulher feia merece abraço") ou Danilo Gentili ("esperar a mulher ficar bêbada demais pra dizer "não" é coisa de gênio") e depois chocar-se com notícias de violência contra a mulher.

Uma sociedade que aplaude uma piada de estupro, culpabiliza a mulher quando estuprada por causa de seu comportamento sexual e suas roupas, uma sociedade que vê o estupro como um vacilo da mulher e uma oportunidade para o homem é uma sociedade que produz crimes bárbaros, mas toda essa barbárie não é fruto de um monstro ou de um animal. É fruto de um ser humano que conhecia as vítimas e que agiu como se as mulheres fossem apenas meros objetos.

Na verdade, é uma contradição, afirma-se que o agressor é um animal, um monstro, um louco, um predador, atribuindo a este o instinto em vez da racionalidade, mas ao mesmo tempo, quando observamos todo o planejamento em volta do crime, podemos dizer que na verdade, eles foram frios ou calculistas.

O que realmente choca, é que tivemos três casos em evidência na mídia: O estupro no BBB12, o julgamento de Lindemberg Alves (algoz de Eloá Pimentel) e o estupro coletivo na Paraíba. E em nenhum dos três casos a grande mídia usou os termos "misoginia", "machismo" ou "feminicídio". O Estupro do BBB, nas palavras do Rei (por mim, deposto) Roberto Carlos, virou "brincadeirinha". O assassinato da Eloá, virou crime "passional" ou como a advogada de Lindenberg prefere chamar "uma decisão errada". E o crime de Queimadas, "uma monstruosidade". Assim, ninguém encara o que realmente acontece e nem toma parte na sua própria culpa ao incentivar o machismo cotidiano.

Escrito por Gizelli Sousa, com a co-autoria de Thaís e Elisa para a Blogagem Coletiva organizada pelas Blogueiras Feministas.

Para acessar os demais textos da blogagem coletiva, basta clicar aqui.