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quinta-feira, 21 de março de 2013

Brasil: uma democracia racial?



O mito da democracia racial afirma que não há racismo no Brasil e que o que é chamado de racismo hoje é apenas um problema oriundo da situação financeira da maioria dos negrxs. O mito sustenta a ideia absurda de que as políticas afirmativas em prol dos negrxs, como as cotas universitárias raciais, é inconstitucional por ferir o princípio da isonomia.

O trote racista e sexista que ocorreu na faculdade de Direito da UFMG foi assunto de destaque nessa semana e no meio de vários argumentos dos defensores de que tudo não passou de uma piada, várias pessoas diziam que não concordavam com o teor racista do trote, porém achavam que o fato do assunto ter tomado conta da internet era apenas um exagero. O argumento da piada é facilmente destrinchado pelo vídeo "O riso dos outros" e pelo texto da Paula Mariá "É só uma piada". Mas e esse suposto exagero? Por que sempre quando se fala em racismo, as pessoas evocam lutas que eles consideram mais urgentes e que nada tem a ver com o racismo?

O racismo é visto como um exagero e às vezes até como um devaneio. O defensores da ridícula idéia de que vivemos numa democracia racial afirmam que não há racismo nem no caso do trote da UFMG, nem nas ridículas declarações do atual, e indesejado pelos movimentos sociais, presidente da Comissão de Direitos Humanos e minorias da Câmara Federal, Marco Feliciano. Afirmar que não existe racismo é uma das formas mais eficazes de manter negrxs numa situação de marginalização.

Ignorar as especifidades de grupos vulneráveis na formulação de leis e políticas públicas é ignorar que o racismo, no caso, é um discurso de reprodução de poder, uma forma de tentar justificar e dar continuidade a dominação de um grupo sobre o outro. E que essa relação de poder tem origem na história e na cultura e não desaparece se forem negligenciadas. Afinal, dizer "todos somos iguais" não impediu que os preconceitos e a marginalização dos grupos historicamente oprimidos continuem existindo.

Quem evoca o princípio da isonomia para criticar qualquer política pública contra negrxs comete um erro terrível. Isto é ignorar que a igualdade não se resume ao "todos somos iguais", afinal, em casos onde um grupo social detém vantagens sobre outro grupo, a igualdade se aplica de acordo com a máxima "desigualar os desiguais para que enfim se atinja a igualdade de fato".


Um dos argumentos utilizados para dizer que racismo não existe e deslegitimar qualquer política pública a favor dos negrxs é que a ciência provou que não existe raça. Mas a questão não é essa, a origem do racismo é sociológica e cultural. Não dá pra dizer que não existe racismo porque não existe raça, sendo que quando nos pautamos em critérios políticos e sociais é insustentável ignorar que negrxs ganham menos que brancos fazendo a mesma função, que existe uma divisão negro-branco no trabalho e etc.

"Ah, mas o Brasil é um país miscigenado, não tem isso de racismo não, todo mundo tem sangue de negro, índio e branco no corpo" também não é argumento para negar a existência de racismo, porque quem é visto como negro sofre discriminação. E nesses casos, sempre é válido citar a famosa frase: "Não dá pra saber quem é negro e quem é branco, mas o segurança continue sabendo quem barrar e a polícia continua sabendo em quem bater".

O suposto exagero que algumas pessoas dizem que há nos apontamentos do que é racismo e nas reações ao que é visto como racista está naquela ideia de que racismo é só quando uma pessoa é assassinada por ser negra, quando um cartaz de oferta de emprego diz que querem pessoas brancas para aquela vaga e etc. O racismo no discurso é ignorado, apesar de ser potencialmente letal. Não vêem que piadinhas que chamam quem é negro de macaco são mais uma forma de desumanizar os negrxs. E que a desumanização dos negrxs é uma constante necessária para a manutenção do racismo, que acaba por naturalizar uma série de violências, como o genocídio da juventude negra.

E por fim, não esqueça de ler a Nota de repúdio ao trote racista e sexista da faculdade de Direito da UFMG que foi assinada por diversos coletivos, blogs e pessoas, incluindo o Ativismo de Sofá e que foi reproduzida aqui no blog.

ESSE POST FAZ PARTE DA BLOGAGEM COLETIVA PELO DIA INTERNACIONAL PELA ELIMINAÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO RACIAL, UMA INICIATIVA BLOGUEIRAS NEGRAS.



quarta-feira, 13 de março de 2013

A voz das mulheres nas ruas

Acervo pessoal - foto tirada no Ato.

Sexta-feira, eu participei do ato do oito de março de Belo Horizonte. Não foi a primeira vez que fui às ruas pela luta feminista. Antes dessa sexta, eu já tinha participado de duas Marchas das Vadias, mas posso dizer que foi a primeira vez que estive numa manifestação tão plural. 

Cheguei atrasada, confesso que estava bem perdida sobre onde ir, o que gritar, o que fazer, mas logo me situei. Depois de passar rapidamente no bloco da luta contra a violência doméstica, fomos todxs para a frente do Palácio da Justiça. E lá esperamos os outros blocos chegarem cantando, batucando, dançando. Além do bloco que participei, havia o bloco da diversidade da mulher levantando a bandeira da luta contra a lesbofobia e transfobia, o bloco contra a mercantilização do corpo feminino, o contra a violência do Estado, o contra a violência do campo e o bloco das negras e nordestinas.
Acervo pessoal - foto tirada no ato. 

Ouvi mulheres quilombolas, sindicalistas, idosas, estudantes, do movimento sem terra e de vários coletivos falarem de seus problemas principais e me emocionei junto e inclusive vi quem chorasse ao sentir a coragem e a emoção na voz daquelas mulheres. Gritamos por diversas vítimas de violência, entre elas Eliza Samúdio. 

Andamos juntas pela Afonso Pena. Ouvíamos gritos e cantos diferentes em diversos pontos da marcha, havia batuque, havia alegria, havia o sonho de um mundo melhor, havia a vontade de lutar em todos aqueles cantos, que apesar de terem letras tão diferentes e serem tantos, acabavam por ficar uma voz uníssona de esperança. 

Deitei emocionada no chão da Afonso Pena para a minha amiga Carol me desenhar de giz. O objetivo do desenho era que na rua ficasse um lembrete para a sociedade das tantas mulheres que são violentadas diariamente. E o ato teve fim ali.

Acervo pessoal - foto tirada no ato.
Eu e outras mulheres saímos juntas para comer, beber e celebrar a sororidade. Estávamos todas anestesiadas de tanta emoção, cansadas de tanto andar, mas queríamos curtir aquela sensação de dever cumprido e cumplicidade. E meu oito de março acabou sendo o que deveria ser: um dia de luta, amor e esperança.

Participar de uma manifestação, apesar de ser cansativo, dar vergonha aos mais tímidos e etc, é mágico porque ali nós nos sentimos fortes o suficiente para lutar o quanto precisar. Ali me senti renovada, senti que vale a pena e acho que é essa a magia de ir às ruas gritar ao mundo "ME RESPEITE", essa é a magia da sororidade, de estender a mão para todas as mulheres.

No outro dia, ao andar pelas ruas de um bairro belo horizontino, ouvi uma mulher dizendo que nenhum marido trata a esposa bem e que o cara que estava sendo citado por outra mulher na conversa só podia ser uma exceção. E me relembrei que a luta é todo dia até que todas nós sejamos bem tratadas por todos.

Outras fotos do ato: Aqui e aqui.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Oito de março é dia de luta.

Texto de Thaís e Flávia. 

Não é novidade para ninguém que o oito de março, uma data que deveria reforçar a necessidade da nossa luta para sermos vistas e respeitadas como ser humano, é visto pela mídia e pela sociedade como mais um dia para reafirmar ideais de feminilidade.

Campanha da Prefeitura de PoA.
A Prefeitura de Porto Alegre, por exemplo, em sua página no Facebook, postou uma série de afirmações que iniciavam com um "só uma mulher sabe". E as frases utilizadas para complementar a chamada são exemplos do estereótipo do que é "ser mulher". A nossa existência não pode ser resumida, em nenhum dia do ano, a apenas chegar em casa e enfim poder tirar o salto alto ou em ficar triste porque estragou o esmalte recém passado.
  
A problemática desse tipo de manifestação que resume as mulheres a enfeites, seres frágeis ou quase mágicos por aguentar tripla jornada e poder ter filhos não está só no fato de que o oito de março é um dia de luta, mas também se encontra na reafirmação do que é "ser mulher".

O dia oito de março é cheio de homenagens que nos colocam num pedestal. A mulher ideal para a sociedade patriarcal é aquela que se sacrifica diariamente e é vista como forte por isso, aquela que aguenta calada xingamentos, ofensas em forma de piada e a restrição de seus direitos. E é por isso que é tão comum vermos comentários como "parabéns mulheres por aguentarem tudo". Sacríficio é algo considerado bonito, principalmente para quem é mulher. Porque quem é mulher parece ter que ser punida diariamente por isso, com salários menores, com tripla jornada e etc.

Banner da programação da semana da mulher.
Quando a mídia e a sociedade nos parabeniza por ser mulher, foca todas as ações do oito de março em distribuir flores e chocolates, fazer promoções de itens de consumo voltados para a vaidade feminina, ela não só reforça os papéis de gênero, como também negligencia como a violência contra a mulher continua sendo um problema sério. É fácil distribuir cartõezinhos e se esquivar de discutir em profundidade a guerra contra as mulheres em que se encontra o mundo. Porque ao discutir com profundidade nota-se que o problema é a cultura de ódio em que vivemos. Uma cultura misógina, machista, homofóbica, transfóbica, lesbofóbica e racista. 

Os feminicídios ainda são chamados de "crimes passionais", as "cantadas" que ouvimos na rua desde cedo são chamadas de elogios, a objetificação das mulheres ainda é rotineira. Os salários das mulheres continuam sendo cerca de 30% mais baixos que o dos homens, sendo que a mulher negra ganha ainda menos que uma mulher branca. 
  
Campanha resposta.
Oito de março é um dia de luta contra esse ideal de feminilidade tão excludente e opressor. É o dia de falarmos que não precisamos "aguentar caladas", de jogar fora essa idéia de que é legal se sacrificar, de incentivar a solidariedade feminina e nos empoderar. Nos empoderar para lutarmos não só nesse dia, mas diariamente.

Oito de março é um dia para lembrarmos que a nossa luta é diária, que a cada passo que damos para melhorar a vida das mulheres, a sociedade se encarrega de "nos colocar em nosso lugar", em um backlash que coloca à prova a nossa força. Às vezes o desânimo toma conta de nós, pois parece que nada muda. É por isso que datas como o oito de março são tão importantes. Porque é através das "homenagens" que recebemos, que fazem questão de celebrar um sistema castrador e opressivo, que encontramos força para protestar. Oito de março é dia de dizer: o sistema tem que mudar.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Uma luta que soma e o comentário sobre a Valente.

Uma das coisas mais recompensantes de se ter um blog, na minha opinião, são as discussões que podem ser geradas a partir de um post. Trata-se de um processo enriquecedor, disso não há dúvidas. Não há nada melhor que receber links e até mesmo sugestões que adicionem e ampliem os nossos horizontes.

Dias atrás eu tratei da galera do “me convence”, que faz questão de levar suas discordâncias a extremos, de forma a não engendrar crescimento em absolutamente nenhuma das partes envolvidas. Hoje, porém, eu gostaria de celebrar e reconhecer o valor de alguns comentários que somam. Acreditem, em tempos nebulosos em que diversas vozes minoritárias são silenciadas pelo mundo, são comentários assim que nos deixam a certeza de que nossos esforços não têm sido em vão.

Queria portanto agradecer a cada pessoa que dispôs de algum tempo para acrescentar algo às discussões. Seja através de relatos pessoais, através de exemplos que amplifiquem o nosso campo de visão acerca de determinado assunto, seja simplesmente nos dando força e dizendo “é isso aí, adorei o blog!”. Fica de minha parte e da parte de todas nós do Ativismo, os mais sinceros agradecimentos.

E gostaria de dar visibilidade a um comentário que me tocou muito. Trata-se do comentário da Ana, sobre o meu post acerca do filme Valente. Ana, muito, muito obrigada!  Eu assisti "Como treinar seu Dragão" esse fim de semana e não poderia concordar mais com tudo que você escreveu.

Então é isso, amgs. Fiquem com o comentário da Ana e, se possível, discutam, sugiram, nos ajudem nessa construção de um ativismo que é muito maior que qualquer uma de nós.



 Atenção: Contém Spoilers :)

"(I)
Muuuito atrasada, mas vamos lá.

FINALMENTE UMA CRÍTICA POSITIVA DE VALENTE.
E gostei muito das informações sobre a simbologia do urso :D

Eu sei que fui burra, mas caí em tentação e li alguns textos na internet antes de ver o filme. Fui pro cinema com a minha mãe bem desanimada por isso, mas depois de assistir, saí indignada com quem falou mal da história >:|

É perfeita? Não, não é. Mas é um ótimo primeiro passo.
Sou filha de mãe solteira e sinceramente, eu estou de saco cheio de ir pro cinema e passar o maior climão porque a história toda gira em torno da figura paterna. Podem me xingar de paranóica whatsoever, mas eu preciso desabafar.

Sei que ninguém tem nada haver com isso, mas meu pai era uma pessoa horrível, e Valente é o primeiro filme que não me deixa desconfortável em momento nenhum; não me faz lembrar do rombo que ele deixou. Nada contra a figura paterna, mas puxa, nunca antes na história desse país eu tinha saído tão leve de um filme.
Se a conta fosse 50%/50%, tudo bem. Mas a maioria esmagadora não trabalha a relação com a mãe - e mesmo os que tem mãe presente no roteiro não chegam aos pés de Valente. O foco nunca tinha sido esse. É difícil de explicar, e sei que não é um argumento plausível para crítica por ser muito pessoal, mas pra mim é muito importante. Esse foco na relação mãe-e-filha teve um impacto muito forte em mim, muito tangível. Mais do que perceber ou analisar, eu senti a diferença. Senti.
Me sinto obrigada a dizer, pensando nas tantas outras que são como eu: esse filme me trouxe um alívio tremendo. Pela primeira vez saí do cinema sabendo que aquele entretenimento era meu E da minha mãe, nosso, sobre a nossa relação. Até hoje, tudo o que eu via precisava entortar pra fazer caber na minha realidade, ainda que me identificasse com o drama.

Eu tinha, TINHA que dizer isso. Podem me chamar de egoísta, mas eu não me sentia representada por outras histórias onde a relação com a mãe não era tão importante. Eu estava, sim, esperando avidamente por algo que falasse um pouquinho do que eu vivo.

Pra mim, Valente dialoga muito com 'Como Treinar o Seu Dragão', da DreamWorks (maravilhoso, estupendo, recomendo muito, muito mesmo). O cenário, a coisa viking/celta, gente ruiva por todo o lado, rs... Em CTSD, Stoico, Chefe de Tribo Viking, tem altas expectativas para seu filho, Soluço; do mesmo jeito que a Rainha Elinor tem expectativas para Merida.

A diferença gritante - Stoico quer um filho Guerreiro, Matador de Dragões; Elinor quer uma filha princesa, casada por convenção (Depois desigualdade entre gêneros é tudo invenção da cabeça de feminista doida...)

Eu ficaria muito, muito feliz se a DW sentisse uma pressãozinha básica pra ter uma protagonista mulher. Eu gosto muito do jeito que eles zombam dos contos de fada em Shrek, e CTSD é uma obra prima, acho que podia sair coisa muito boa do estúdio.





(II)
O filme tem cenas maravilhosas e muito emocionantes. Eu cito:

- a competição de arqueiros: ato de rebeldia e independência sem igual, Merida atirando aquelas flechas pra mim foi ÉPICO

- a briga de Elinor e Merida, o corte na tapeçaria e o arco no fogo: a tapeçaria me lembrou muito as fotos de família que mães tanto amam, cortá-la foi algo muito simbólico. Vi gente chamando Merida de mimada, mas eu discordo. Veja, “Eu prefiro morrer a ser como você” É um exagero, mas É a cara de uma adolescente. Já vi isso na vida real, e por coisas muito menores que um casamento.

Aliás, acho bom ressaltar o peso do casamento. Dá pra ser pior que se sentir sozinha, desamparada, e forçada a tomar uma decisão que vai mudar sua vida drasticamente? Merida está DESESPERADA, e por motivos fortes. É um casamento, caramba. É mais que passar o final de semana sem vídeo game, é mais que um capricho, é uma razão muito forte pra se rebelar. Ela é princesa, querem pautar sua vida toda nisso, a mãe que é tecnicamente a pessoa mais próxima dela é justamente quem não a apóia. Ela é vítima de uma injustiça descarada e não tem pra onde correr. Acaba passando dos limites. Não é justificável, mas pra mim é plausível. 

A mãe, por outro lado, tem suas razões e está tão angustiada quanto a filha. Resultado: reage com uma agressão igualmente violenta – joga o precioso arco no fogo.
Merida cortou a relação entre ela e sua mãe; Elinor queimou a independência da filha. É uma batalha, elas machucam uma à outra de maneira feroz porque estão ambas desesperadas; é um cabo de guerra. Obviamente, em guerra ninguém ganha nada. Ambas saem sangrando, ambas são vítima e algoz ao mesmo tempo. Elinor entra em pânico logo depois de jogar o arco no fogo porque ela sabe, ela tem perfeita noção do quão tremendamente importante ele é para a filha e quão devastada Merida fica sem sua liberdade, que é sua marca maior. Merida se embrenha na mata chorando. É traumático.

- o momento em que Merida fica trancada no quarto, assistindo um pelotão de homens saindo à caça de sua mãe: além de rebelde, Merida me parece uma otimista incorrigível. A verdade é que, não importa o quão ruim a situação pareça, ela continua crendo que tudo vai dar certo e que ‘não é tão grave assim’. Ela só reconhece o perigo quando é deixada no castelo. Só aí ela percebe que as coisas perderam o rumo, que o ‘acidente bobinho’ com a poção pode acabar custando a vida da mãe. Merida chora, lamenta, e pra mim é nesse momento que ela se arrepende verdadeiramente, é o momento da redenção.

- a breve luta com o pai, já quando a mãe ursa está subjugada: Gostei de ver Merida lutando, literalmente, pra defender a mãe. Sei que a cena no castelo impressionou também, mas do lado de fora eu vi a força à serviço da proteção. Quantas vezes vimos homens lutando para salvar donzelas indefesas? Merida lutou, na base do muque, para proteger a mãe. Foi mais do que apaziguar, mais que se jogar na frente, foi ativo.



- a luta entre a mãe ursa e o herdeiro amaldiçoado: Elinor tinha muitos defeitos, era cheia de não-me-toques, mas quando Merida estava em perigo, ela se transformou. Foi para o ringue, no final é isso que todas as mães acabam fazendo. Pra mim foi muito significativo ver a mamãe rainha da elegância rolando na grama com o maldito que tentou machucar sua filha. Eu não pude deixar de imaginar como seria a cena com seres humanos. Pra mim foi o momento mais épico da história. ‘Ninguém mexe com meus filhos!’ – e de repente o mundo desaparece, a coroa e todas as obrigações sociais se vão pelo ar, porque não há nada que uma mãe não faça pra salvar uma filha.

(III)
Finalizando, e eu me desculpo sinceramente pelo comentário exagerado, Valente é um bom filme, com emoção e profundidade. Talvez não seja tão bem humorado quanto muitos queriam, mas tem cenas lindas, épicas, cheias de significado. Não é perfeito nem de perto mas é o pontapé inicial que precisávamos.

Vi críticas à figura apática do pai, mas como vejo casais assim na vida real, tenho que dar o braço a torcer e dizer que aquele pai nada mais é que um retrato do que pode existir por aí.


A parte que mais me decepcionou foi o discursinho de Merida ‘conquistem meu coração primeiro’ e blablabla. Tudo bem, quebramos a tradição, ela não vai ter que casar, yay. Mas eu ainda acho que a autonomia de Merida sobre seu destino devia ficar mais clara como um direito, e não apenas uma concessão.

Por hoje é “só” isso, porque não me lembro de mais nada que queira comentar XD"

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Diversas resistências; um mesmo feminismo.


O feminismo é, em sua essência, um movimento pela igualdade de gêneros. Acreditamos que vivemos em uma sociedade organizada de forma patriarcal que determina nossas vidas a partir do momento em que nascemos e somos “diagnosticados” como meninos ou meninas. O objetivo então é a desconstrução dessas determinações prévias e a valorização do ser humano enquanto ser único e livre independente de seu sexo.

Acontece que para atingir a igualdade precisamos passar por cima do machismo: A teoria que estrutura a nossa sociedade, na qual homens são tidos como superiores e as mulheres são oprimidas. E é por isso que falamos tanto de resistência, luta e empoderamento feminino, por exemplo. Então dentro de uma mesma teoria, com os mesmos pressupostos e partindo em direção ao mesmo objetivo, essas questões deveria se apresentar de forma igualitária, certo? Errado.

Antes de mais nada o que determina uma atitude como libertária, retrógrada ou qualquer outra definição é o contexto que a envolve. Não existem atitudes que possam ser colocadas em caixas de “conservadora” ou “transgressora” justamente porque para conservar ou transgredir algo em um determinado meio é preciso ter consciência de qual é aquele meio. A cultura vigente é o fator base para análise da possível resistência. Por isso o movimento feminista é um movimento heterogêneo, que tem por objetivo se opor as mais diversas formas de opressão contra a mulher.

Entretanto, é sempre complicado para quem está inserido em um contexto analisar outro distante e, muitas vezes, oposto a sua realidade. E, falando multiculturalmente, o que é extremamente imposto a um grupo,  pode ser muitas vezes o que é vetado a outro. E se a luta feminista é justamente pela libertação, nenhuma imposição pode ser considerada justa, dentro disso a resistência é justamente ir contra a ditadura, seja ela qual for. E aí obviamente, ditaduras diferentes, pedem libertações diferentes.

Recentemente assisti a um filme chamado A Fonte das Mulheres que me esclareceu muito essa questão. A história é fictícia e retrata uma vila na qual as mulheres, por terem que subir uma montanha perigosa para buscar água todos os dias, estão cansadas e perdendo seus bebês por conta das quedas. Para protestar contra isso elas então resolvem fazer o que chamam de “uma greve de amor”: sem abraços, sem sexo, até que os homens resolvam buscar a água.

Essa situação retrata duas coisas contra as quais lutamos aqui no ocidente: A visão da mulher como um ser frágil e do sexo como uma moeda de troca. Porém, alguém ousa dizer que essas mulheres não estavam resistindo? Não lutaram pelos seus direitos? Não foram feministas? Há até um momento – logo no começo do filme (e da greve) – no qual elas cantam uma música para os homens, exigindo, entre outras coisas, máquinas de lavar roupa.

Valesca Popuzuda em ensaio ativista.
E para nós tudo isso é muito opressor, essa visão da mulher como a dona de casa. É estranho pensar dentro da sociedade que vivemos em algumas dessas atitudes como libertadoras. Bem como é estranho pensar, quando estamos em um contexto de mulher objetificada, no funk feminino como uma forma de empoderamento.

Porém lutamos com as armas que temos. Para as mulheres do filme, o único poder que tinham sobre os homens foi utilizado como forma de lutar pela própria vida, de buscar formas melhores de ser mulher, transgredindo o meio que estava ao redor delas. Isso é resistência. Bem como para as mulheres que se sentem castradas, sem a possibilidade de dizer que gozam, com o medo constante do estigma da puta, o funk pode ser libertador.


Neste vídeo (maravilhoso, por favor, assistam), Kavita Ramdas fala sobre as mulheres que questionam por meios extremamente tradicionais. Como uma professora que, alegando que uma comunidade precisava de fé, utilizou-se do Corão para alfabetizar meninas, em um ambiente onde a educação feminina é tão desprezada.  Ou um grupo de mulheres que se dedica a interpretar canções tradicionais, mesmo religiosas e... são lésbicas.

Como então seria possível determinar quem é mais ou menos feminista? Como nos enquadrar em resistentes ou não? Nos encontramos em uma luta por todas e consequentemente no meio do nosso caminho encontraremos todas: Desde a visibilidade lésbica, passando pelo direito ao aborto até a maternagem consciente.

 Particularmente muito me agrada essa ideia de o feminismo ser um movimento tão plural quanto são as mulheres. E tão capaz de aparecer nas mais diversas formas, mesmo que timidamente, mesmo que não funcionando de forma universal, mas validando os pensamentos e desejos de algumas de nós. Vamos emergir todas juntas, no mesmo sentido, mas de maneiras diferentes. Andando com nossos próprios pés de acordo com o chão ao nosso redor.

Gizelli Sousa falando sobre o mesmo assunto aqui. 

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Orgulho lgbt*: a dor de quem ousa ser diferente.


Arte de Maika Pires Milezzi.
 Ontem, 28 de junho, fez 43 anos desde a "rebelião de Stonewall". Esse dia foi um marco por ter sido a primeira vez que um grande grupo lgbt* resistiu à ação violenta da polícia. O fato desencadeou dois dias de protestos, e em 1º de julho de 1970, houve uma Marcha que hoje é considerada a precursora da "Parada do Orgulho LGBT".

Ontem seria o dia perfeito pra se discutir a criminalização da homofobia (e da transfobia), seria um dia pra se falar sobre a necessidade de educar a sociedade para a tolerância, poderia até ser um dia de se discutir o casamento civil homoafetivo. Mas a pauta da Câmera dos Deputados foi a "cura gay". Um retrocesso. 

Na madrugada do dia 24 de junho, dois irmãos foram confundidos com um casal homossexual e foram espancados por oito homens. Um deles morreu, o outro foi para o hospital com ferimentos sérios no rosto. Um crime chocante motivado pela homofobia. Porém, a homofobia não se expressa apenas nos assassinatos, mas no dia-a-dia, existem muitas outras violências que criam um ambiente favorável para haver a violência final, que são essas agressões e homicídios. Uma delas é colocar a homossexualidade (e também a transexualidade** e a bissexualidade) como doença, um pecado, uma subversão de valores. 

A Rússia proibiu as "Paradas de Orgulho lgbt*" pelos próximos 100 anos. Motivo que levou os ativistas lgbt* a buscarem o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos para reverter essa proibição. O grupo lgbt* na Rússia não tem o direito de se manifestar nas ruas de sua capital. Direito, teoricamente, consagrado para a população heterossexual. Quem é gay, lésbica, bissexual e transexual é considerado cidadão de segunda categoria, seus direitos reconhecidos são ignorados e são desrespeitados, como se essas pessoas não fossem "dignas" o suficiente de serem parte da universalidade dos Direitos Humanos.

Talvez um dos mais importantes pontos a ser tocado é o uso do "orgulho gay" no lugar do "orgulho LGBT*". Ao falar em "gay", há uma exclusão de uma grande parcela de pessoas que também sofre preconceito pela sua orientação sexual e/ou pela sua identidade de gênero. Lésbicas, bissexuais e transexuais, ao não serem incluídos, têm seus direitos ainda mais marginalizados. Se gays são considerados um grupo de cidadãos de segunda categoria, imagine só as lésbicas, bissexuais e transexuais que nem sequer são citados em muitas notícias e na própria luta pelo reconhecimento de seus direitos.

A marginalização do grupo LGBT* invisibiliza as discriminações sofridas pelo grupo como um todo. É necessário falar que gays, lésbicas, bissexuais e transexuais não são doentes, não são loucos, nem depravados e imorais. São seres humanos que buscam uma vida plena, com acesso aos seus direitos, sem medo de morrerem por serem quem são e por amarem e/ou desejarem que quiserem.
Foto de  Gabriela Gasparotto. 

Campanha das Mulheres de Viçosa em movimento na Marcha das Vadias

Restringir os direitos desses cidadãos é impedir a plena participação deles na sociedade, é um atentado contra o próprio Estado Democrático de Direito. Afinal, a pluralidade é um componente da Democracia. O Estado, ao negligenciar a violência sofrida por esse grupo de pessoas, atenta contra seus próprios princípios e também contra os Direitos Humanos.
Não é normal impedir que um grupo de pessoas tenha acesso aos seus direitos civis, não é normal fechar os olhos a uma violência sistêmica contra esse grupo específico.

**A transexualidade ainda é considerada uma patologia. Já a homossexualidade, desde 1990, deixou de ser considerada assim pela Organização Mundial de Saúde. A discussão da Câmara foi sobre permitir tratamento para curar a homossexualidade, ou seja, "patologizar" novamente a homossexualidade.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Beleza circunstancial e a Marcha das Barangas


Não é de hoje que o padrão de beleza vigente oprime as mulheres. E digo especificamente as mulheres porque embora ele esteja aí para todos é no corpo feminino que ele é cobrado com mais força e veemência. Homens aparecem são retratados e congratulados por sua formação, inteligência e tudo o mais. Já nós somos o tempo todo questionadas pela nossa beleza (ou a falta dela) e só isso (vide Dilma Rousseff, que tem mais matéria criticando seus cabelos e suas roupas do que falando sobre qualquer outra coisa).

A Marcha das Vadias, que aconteceu em diversas cidades do Brasil no último sábado tem como seus maiores inimigos os machistas. Estes que odeiam ver mulheres organizadas, unidas. E obviamente esses mesmos machistas são os que curtem julgar uma mulher por nada mais nada menos do que: a aparência delas, com base nos padrões de beleza vigentes. Para eles, a palavra “feia” é a maior ofensa que se pode proferir a uma mulher (e gorda também né, porque gordofóbicos que são, acreditam que feia e gorda são praticamente sinônimos).
Pois então o que mais choveu de “críticas” as ativistas chamando-as de barangas, não é brincadeira. Basta procurar as imagens para concluir que a aparência das manifestantes é o maior foco dos haters. Além é claro de outros clássicos como “mal-amadas”, “mal-comidas”, mas obviamente tudo isso tem origem no fato de serem feias, dizem eles.

 A famosa organização ucraniana Femen, que protesta a respeito de diversos temas, tem o foco da mídia voltado para apenas algumas das manifestantes, as que tiram a blusa e estão perfeitamente encaixadas no padrão de beleza vigentes: Altas, loiras, magras. Entretanto mesmo elas quando olham para as câmeras em momento de fúria, aos berros em seus protestos, são imediatamente desvalorizadas (tanto é que essas imagens não são geralmente publicadas por aí, estão em maior número no site/facebook/etc da própria organização). Toda beleza é desconsiderada quando nela não está presente um rosto sereno e pacífico ansioso para agradar seu opressor, mas sim um grito transgressor.

E aí está a maior prova de que a beleza é circunstancial. Ou seja, uma pessoa é considerada bonita ou feia dependendo do contexto em que se encontra. Uma mulher que está indo contra o status-quo, questionando os valores que lhes foram impostos e o privilégio masculino será, com certeza, chamada de feia.

Coloque as mulheres da marcha de vestidinho e salto alto. Coloque-as sorrindo para uma câmera, bebendo um champagne (porque mulher que se dá ao respeito não bebe cerveja, todo mundo sabe), piscando para um homem. Coloque-as em um filme pornô, em um programa de TV num domingo a tarde, coloque-as  de biquíni buscando entreter os homens e pronto. Automaticamente muitas delas serão imediatamente colocadas na categoria de gostosas.

E se é esse o critério que querem nos colocar, eu peço a licença para falar em nome das vadias que marcham em todo o nosso país: Seremos feias. Se ao nos ver andando por aí, questionando seus valores, gritando nossas reivindicações, exigindo transformações sociais, tudo o que você consegue pensar é que somos um bando de barangas, então ótimo. É isso que queremos ser: Um bando de barangas.

Não queremos servir para o entretenimento masculino, não queremos seguir caladas para que vocês possam simplesmente nos achar bonitas. Sinto muito informar, mas seu julgamento a respeito da nossa estética não é mais tão importante assim. Somos mulheres organizadas e com voz. Voz essa que usaremos sempre. E sempre para nós, não para concordar em te manter nessa confortável posição que o patriarcado te colocou.

Com muito orgulho somos vadias, somos barangas. Somos a favor da igualdade e contra o seu privilégio.

terça-feira, 29 de maio de 2012

O corpo é meu! O Facebook não é nosso!


A marcha das vadias lavou minha alma. Lavou a alma de muita gente. Eu não sei muito bem o quanto eu precisava daquele momento na minha vida, eu sei que ele foi muito importante para mim. Desde que eu conheci o feminismo e fui lentamente tomando consciência de todas as pequenas violências que sofria, que tolhiam a minha liberdade em muitos aspectos diferentes, muita coisa foi embora de mim. Mas principalmente muitas pessoas foram embora. Só que ao mesmo tempo, eu não me sentia só. E nesse sábado eu não estive só mesmo. Cerca de três mil pessoas em Brasília estiveram comigo, botando para fora em alto e bom som muito daquilo que dizemos todos os dias discretamente: queremos ser respeitadas e isso independe da forma como falamos, nos vestimos (ou não nos vestimos), nos relacionamos. Só que muita gente por aí nem sabe o que o verbo respeitar significa. 

Foto da fan page da Marcha das Vadias DF
Aquela velha história de que mulher tem que se dar ao respeito carrega uma carga de machismo e moralismo tão grandes, que eu juro que não entendo como eu não consegui enxergar isso até alguns anos atrás. "Se dar ao respeito" não é respeitar suas escolhas, suas preferências, sua liberdade de ir e vir, de agir como quiser... Via de regra, "se dar ao respeito" é repetido por aí como sinônimo de privação de liberdade individual. Se você usa roupa curta, não se dá ao respeito. Se tem vida sexual ativa, goza e gosta muito, não se dá ao respeito. Se não tá afim de um relacionamento afetivo monogâmico, não se dá ao respeito. Se anda ficando com quem tá afim sem pensar em namoro, não se dá ao respeito. Respeito é uma palavra que precisa ser ressignificada. Respeito, como é repetido por aí, está diretamente ligado à invisibilidade da sexualidade feminina. Eu sou vadia e me dou ao respeito. 

Respeito não se pede, se conquista. Exigimos que nos tratem com respeito, e fazemos isso sem implorar de pernas e bocas fechadas, mas mostrando para a sociedade o quanto a sua noção de respeito é falha. Para isso é preciso união. É como nós gritamos na marcha: "Ah! que é isso! Elas estão organizadas!". E estamos mesmo, cada vez mais. E estamos conseguindo visibilidade também. Um movimento nacional que só em um final de semana reuniu cerca de 10 mil pessoas? Isso não passa despercebido. E com certeza aumentaremos em número e em consciência. Feminismo é um aprendizado constante. 

Foto da fan page da Marcha das Vadias DF 
Entretanto, a luta ainda é necessária. Prova disso é a forma reacionária e moralista como o facebook tem encarado as fotos das mulheres que estavam na marcha com os seios de fora. Que fique claro: não são fotos pornográficas. Seios não servem apenas para entreter os homens, mostrar os seios na marcha é uma atitude política, porque o nosso corpo não é apenas sexual, ele é político. Ele é tão político, que em alguns países as mulheres precisam escondê-lo inteiramente ou podem morrer caso não façam. O facebook parece ignorar essa característica e tem apagado sistematicamente as fotos das moças de topless. Infelizmente, a mesma rede social que apaga fotos não pornográficas de mulheres exigindo uma sociedade mais justa, não apaga imagens racistas, homofóbicas ou misóginas. Ultimamente nem tenho mais usado a opção "denunciar" do Facebook, tenho ido direto ao safernet e à PF denunciar esses conteúdos. Isso posto, é de se perguntar porque a nudez choca mais que a violência cotidiana. 

Foto da jornalista Luka Franca
censurada pelo Facebook
Não é a primeira vez que isso acontece no facebook, em outro momento fotos de mães amamentando foram retiradas arbitrariamente da rede social. MÃES. AMAMENTANDO. O corpo feminino é sempre sexualizado ainda que ele não seja usado para fins sexuais. Me diga, você se alimenta cobrindo o rosto? Porque um bebê precisa se cobrir para se alimentar? Foi necessário protestar com mamaços virtuais para o Facebook permitir fotos de mães amamentando seus filhos. Se você acha que o Brasil é um país libertário em que tudo pode, pense de novo. Não é bem assim, a onda conservadora que assola o país também esbarra nos nossos corpos. por isso é preciso gritar: "Meu corpo, minhas regras!" Fazer ouvir a voz de quem nem sempre, no dia-a-dia pode externar esse sentimento sem receber toda sorte de julgamentos morais. 

Ao contrário dos homens, que ao sentir calor não pensam duas vezes em tirar a camiseta, mulheres não tem esse privilégio. Guess what? Mulher também sente calor. Mas toda a nudez feminina será censurada. Toda nudez será objetificada, será rotulada, será retirada dos perfis do Facebook como se fosse ofensa. E ofende também o fato de que nem sempre os seios exibidos são durinhos, apontem para cima, caibam na mão. Com certeza o peitaço no fim da marcha das vadias de Brasília foi o final perfeito para a marcha de um movimento libertário como o feminista, porque contradiz essa idéia de que a mulher é um pedaço de carne. O nosso corpo não é inerte, não é produto, não é objeto, ele também fala por nós.  Lamentamos profundamente que a maior rede social do mundo tenha uma visão tão tacanha do corpo feminino.

Foto por Leiliane Rebouças

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Guestpost: Minha cor não é insulto, seu racismo sim


Diante da decisão favorável de ontem do STF sobre a constitucionalidade das cotas para negros  que julgou improcedente a ação movida pelo DEM e da proximidade do mês de maio,  em que a abolição da escravatura vergonhosamente completa apenas 124 anos, o Ativismo de Sofá inicia uma série de textos sobre a questão racial. O primeiro post, não poderia deixar de ser um guestpost de uma leitora muito querida, a Laís.

Minha cor não é insulto, seu racismo sim

Durante a minha adolescência, em uma discussão com alguém que eu detestei durante meses à época, vomitei furiosamente todos os motivos que me levavam a não suportar a sua presença na minha vida:

“Você sempre mentiu, foi arrogante e nunca teve escrúpulos e nem o mínimo de competência pra pelo menos passar despercebida quando fazia intriga. Até porque o que te sobra em inveja, falta em cérebro, né?” – concluí, abusando de todos os clichês que fazem uma adolescente desprezar alguém.

Ela corou de raiva. A respiração ficou mais intensa e eu já estava ansiosa para saber quais eram os meus defeitos mortais aos seus olhos. Afinal, meus amigos sempre me mostravam minhas qualidades, mas ninguém melhor que um inimigo pra apontar meus defeitos. A princípio ela gaguejou, ameaçou três ou quatro vezes dizer algo e parou. Até que berrou de vez:

“Sua preta! Você pode falar o que quiser de mim, mas eu sou branca, tenho cabelo liso e não fico com a perna russa quando sento no chão. Nem tenho suvaco preto.”

Eu parei um instante. Era isso mesmo? Ela estava realmente achando que dizer que eu sou negra ia me ofender? Era essa a brilhante resposta e o maior dos meus defeitos? Pois é, era. Obviamente depois de ouvir aquilo eu dei uma das gargalhadas mais gostosas da minha vida. E parei de detestá-la, porque a única coisa que ela merecia era pena, e orientação, é claro.

 Nesse estranho mundo hipócrita em que vivemos, há a certeza de que chamar alguém de preto, crioulo, neguinho, é a maior das ofensas, desqualifica o caráter, reduz o interlocutor à sua posição de “direito”, porque ele DEVE lamentar todos os dias ter nascido negro.

Imagem da exposição "Olhares cruzados"
Bem, deixe-me então esclarecer uma coisa: isso não é ofensa. Sou negra, preta, neguinha, e não tenho o menor problema com isso. Apontar o dedo e informar que essa é a minha cor ofende tanto quanto dizer que eu tenho um nariz, por exemplo. Não há xingamento, não é humilhação. O que incomoda é o racismo, é saber a carga de ódio infundado que há por trás de quem profere essas palavras em tom de insulto. O que ofende é a ignorância de quem sustenta o dedo que aponta.

Mas quem dera que apenas os meus inimigos chegassem à conclusão de que dizer que alguém é negro é ofensivo. Quem dera que esse conceito fosse apenas dos ignorantes e dos assumidamente racistas. Infelizmente, meus amigos mais íntimos e até a minha família – que tem a mesma cor de pele que eu – demonstram constantemente o outro lado da moeda desse tipo de preconceito.

“Ah, mas você não é negra, você é moreninha” – essa é clássica, as pessoas realmente acreditam que negro é uma palavra forte, de carga negativa, e usam esses eufemismos para parecer mais carinhoso com uma pessoa querida. Então... não é.

“Seu cabelo é bom, não é cabelo de preto” – eu sei que meu cabelo é bom, ele nunca maltratou ninguém. Mas por favor, né? Já deu desse papo de chamar cabelo crespo de cabelo ruim. E também de achar que esse tipo de fios não nasce na cabeça gente branca, e que fios menos encaracolados não nascem em gente negra.

“Mas seu bisavô era branco, então você não é negra, é mestiça” – teoricamente quase todos somos mestiços, pelo menos no Brasil. Mas ter um parente distante de outra etnia não muda a forma como eu sou, como a sociedade me vê e, principalmente, como EU me identifico. Minhas vivências e a minha aparência física são de uma mulher negra, então é isso que eu sou.

“Mas a sua gengiva é rosinha, quem é negro tem a gengiva mais puxada pro roxo e pro marrom” – Ok, acho que essa eu nem preciso justificar, né? Mas é só pra compartilhar com vocês o tipo de coisas que somos obrigados a ouvir, e as risadas que algumas delas causam também, é claro. Ah! Essa pérola foi dita em sala de aula por uma professora... negra. De gengiva rosinha também.

Bom, piadas à parte, o assunto é sério. O racismo é rodeado de facetas, de mitos esdrúxulos e de boas intenções. Seja no dedo em riste de quem vocifera “crioulo!” ou no sorriso meigo de quem chama uma negra de “moreninha linda”, ele se manifesta e se propaga no nosso cotidiano, nos nossos adjetivos, no nosso caráter. Negro não é xingamento, negro não é elogio também. É apenas uma característica, e a carga que se dá a ela vem do racismo nosso de cada dia, esse sim deve ser jogado fora JÁ, independentemente da forma como ele se mostra em cada um.

*Sou Laís Rangel, mulher, negra, 22 anos, estudante e estagiária de jornalismo e fã nº 1 do Ativismo de Sofá, é claro.

sábado, 14 de abril de 2012

Uma vitória de todas as mulheres.



Em 12 de abril de 2012, o STF tomou a decisão histórica de descriminalizar o aborto de fetos anencéfalos (interrupção terapêutica da gravidez). Não entraremos nos pormenores da decisão, já que tais detalhes estão mais do que espalhados pela internet. Deixaremos, ao final deste texto,  alguns links que consideramos de suma importância pelo caráter informativo que encerram.

Não há dúvidas que tal evento representa uma vitória das mulheres. Mesmo daquelas que se posicionam frontalmente contra o aborto. Mesmo daquelas que nunca tiveram ou terão que se preocupar com tal infortúnio em suas vidas. Porque, de agora em diante, todas nós poderemos falar efetivamente em escolha, pelo menos com respeito aos casos de anencefalia.  

Por outro lado, existe sempre o outro “lado”, não é mesmo? Não, não era preciso ter uma bola de cristal para prever que reações negativas à decisão do STF inundariam blogs e redes sociais. A grande maioria oriunda de pessoas ditas religiosas. Repetiu-se ad nauseam aqueles velhos argumentos reacionários de sempre, em cartazes tão agressivos que em algum momento tivemos a impressão de que foi criada uma trincheira. Colocou-se aquele que deveria ser um pilar da cristandade numa berlinda bizarra: o livre-arbítrio.

Liberdade de escolha. Um valor tão caro ao mundo ocidental, e ao mesmo tempo tão mal-interpretado. É muito triste ver que as pessoas não fazem cerimônia ao bradar “argumentos” essencialmente religiosos para embasar o inexplicável. Porque não há explicação plausível para um Estado que se diz laico se basear em questões religiosas para aplicar a lei a suas cidadãs. Nem que tal religião represente a maioria. Porque, sendo laico, o Estado é neutro. E isso significa que o Estado deveria garantir direitos a pessoas oriundas dos mais diversos credos, ou credo nenhum, de forma igualitária. O nome disso, carxs leitorxs, não é capetice, satanismo nem anti-cristianismo. O nome disso é democracia.

Ademais, como foi bem lembrado pelo ministro Celso de Mello, não dá nem pra clamar que a decisão do STF tenha sido anticonstitucional. Sim, porque se aos religiosos não foi dada a oportunidade de argumentar com a bíblia em punho (oh, coitadinhos), caberia a eles argumentar à luz da Constituição brasileira. Como o fez, muito verborragicamente e em um discurso tão floreado quanto vazio, o ministro Ricardo Lewandowski. Porque, voltando a Mello (e Ayres Britto também falou disso), a Constituição não delimita onde se inicia a vida. Mas delineia o que é a morte. E como a morte é ausência de atividade cerebral, o feto anencéfalo seria praticamente um natimorto cerebral, dada a limitação da atividade cerebral apresentada. E, conforme podemos verificar aqui , para o Conselho Federal de Medicina,  os sinais de reatividade infraespinal, ou seja, respiração e batimento cardíaco, não excluem o diagnóstico de morte cerebral.

Nesse debate todo (que deveria ter acontecido no Brasil há no mínimo 30 anos atrás), fica sobressaltada não apenas a questão da intolerância que a maioria religiosa do país tem para com aqueles que divirjam de suas crenças. Porque a questão do anencéfalo é isso: uma questão de crença. Pulularam relatos, dos mais emocionantes, de mães que resolveram levar a gravidez adiante e enterrar suas crias. Relatos belíssimos, cuja validade ninguém está tentando contestar. O que se está em pauta, e o ministro Ayres Britto colocou brilhantemente, é que ninguém é obrigado, por convicção de outrém, a se martirizar.

Pois bem. Além dessa intolerância que salta aos olhos, ficou mais do que clara uma outra triste particularidade de uma sociedade patriarcal como a nossa: a misoginia. Um ódio irracional e injustificado às mulheres. As pessoas reagiram como se, de agora em diante, o aborto de anencéfalos fosse uma obrigação. Oh, essas feministas maldosas. Insultos diversos, que nem tinham relação direta com o caso da anencefalia (na hora de abrir as pernas você quis, né minha filha?) forneceram o esteio necessário a um sistema brutalizante que, por suas raízes culturais, ainda permanecerá por um bom tempo entre nós. E contará com a nossa resistência. Sempre.

Links interessantes:

ADPF-54 O julgamento do STF e a anencefalia

Especialistas comentam julgamento de aborto de fetos anencéfalos 

Médico pode se negar a interromper a gravidez de feto anencéfalo mas deve orientar paciente

Depoimentos sobre anencefalia e bebês malformados 

Pela morte da tristeza clandestina

Lei é eficaz para matar mulheres, diz especialista.