Mostrando postagens com marcador Guestpost. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Guestpost. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Guestpost: Por um feminismo com maior alcance.

Recebemos o pequeno texto abaixo de uma leitora do AdS e achamos extremamente pertinente. Ela trata, basicamente, do pouco alcance que o feminismo atual tem na vida de mulheres que se encontram em estado total de vulnerabilidade. É justo lembrarmos da Marcha das Margaridas, que celebra, no dia 12 de agosto, o Dia da Luta Contra a Violência no Campo. O trabalho da MdM é louvável, e por reconhecermos que faz-se urgente um alcance maior na vida dessas mulheres, recomendamos a leitura do texto, para que possamos, juntas, refletir a respeito e buscar mecanismos de ação nessa área. Sintam-se à vontade para trazer aqui notícias de coletivos que já se empenham nessa área, pois é preciso dar visibilidade a tais coletivos. 

Fiquem então com o texto da Lerysse Scolimoski, estudante de veterinária e militante feminista intersecional. Lerysse faz parte do coletivo da Marcha das Vadias da sua cidade e de uma próxima.



Sou do interior e esses dias estava na rodoviária quando vi uma família rural humilde, o casal heteronormativo com seus vários filhos. Até aí tudo tranquilo, claro, desde que isso tenha sido escolha e não monogamia compulsória e falta de planejamento familiar (decorrente de pouca informação).

Então lembrei da minha família, minha avó, já falecida e da sua triste vida rural. Ela teve de se casar, teve muitos filhos, pois a informação de controle e planejamento familiar não lhe alcançaram e foi socialmente obrigada a permanecer no seu casamento infeliz. Dentro deste casamento infeliz, ela apanhava frequentemente do meu avô, o qual era alcoólatra. E se submetia a uma vida de agressões verbais e físicas, sem opção. Sem saber o que o feminismo é, sem ter opção de escolha pra algo melhor, porque isso não a alcançou.

Então, vi que o feminismo atual está concentrado. Concentrado nas grandes cidades. E que, o que aconteceu com a minha avó, ainda acontece, todo dia, eu vejo isso acontecendo. Toda a vida de inúmeras mulheres que estão à margem, que estão fora do alcance do feminismo das capitais e das cidades mais numerosas. A rotina destas mulheres é a submissão, é o patriarcado, é a misoginia, o machismo, todos os dias, toda a sua vida. E elas não conseguem se libertar, porque a libertação nem as alcança e pelo que vejo, nem tem previsão de alcançar. Devemos nos unir e ajudar xs companheirxs. E devemos nos perguntar: pra QUEM esse feminismo está sendo feito? Porque não vejo o interesse de levá-lo até as populações rurais, aquelas que tem um pedaço de terra pra subsistência à margem das cidades.

A militância deve atingir quem não tem internet, quem não tem saneamento básico, quem não tem condições de ir até outras cidades pela opressão social e patriarcal. A militância TEM DE atingir a todxs.

O que queremos e buscamos é um feminismo intersecional, um feminismo que inclua todxs, que seja um lugar seguro para todxs. E que esteja abrindo espaço, espaços trans*, espaços negros, LGBT, indígenas, espaço para o proletariado e espaço pras mulheres rurais. *

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Guestpost: O Tatu Bola e o espaço público em Porto Alegre

Augusto Salla é publicitário, tem um blog e tem ataques histéricos no Twitter.
Foto: Ramiro Furquim/Sul21



Nesta altura do campeonato, já deve ter ficado claro que o grande legado da Copa do Mundo de 2014 (e das Olimpíadas de 2016) estará dentro do bolso de grandes empreiteiras. Da promessa de uma nova infra-estrutura para toda a população, a única coisa que vemos são estádios financiados pelo dinheiro público e violência contra a população mais carente.

Assim como ocorreu no Pan em 2007, na Cidade do Rio de Janeiro, a especulação imobiliária entra forte para lucrar o máximo possível independentemente dos custos sociais, enquanto o Estado usa de todo o seu aparato para “maquiar” a cidade. Isso é de praxe em grandes eventos esportivos no Terceiro Mundo: na África do Sul, o Estado também removeu a população carente dos centros das cidades para que os turistas não os encontrassem:




Na Vila Chocolatão, no Pinheirinho, no Vidigal ou em tantos outros lugares Brasil afora, é certo que há muita precariedade, falta de saneamento básico e por vezes, a ausência completa do Estado que deixa de cumprir obrigações básicas para com o povo. Assim, o que o Estado faz é usar as suas próprias falhas como justificativa para arrancar as pessoas das suas casas quando está apenas atendendo a interesses privados.

O que vemos é que as pessoas são jogadas para cada vez mais longe da cidade perdendo não apenas as suas casas, mas também (e especialmente) as suas comunidades. E o pior é que muitas famílias só possuem promessas do Poder Público de novas moradias: as pessoas estão sendo expulsas das suas casas sem o Governo garantir um teto - por vezes, se obrigam a receber um auxílio-aluguel que dificilmente cobre as despesas de uma moradia digna e acessível.

Neste jogo, quem apanha é o pobre e quem faz o papel de agente do especulador é a polícia. É ela que reprime manifestações, que agride e que obriga as pessoas a saírem das suas casas.

O que vem acontecendo em Porto Alegre

A especulação imobiliária está firme e forte em Porto Alegre assim como a higienização da Cidade Baixa, bairro bohêmio da cidade. Ainda no primeiro semestre, a Prefeitura fechou o cerco aos bares com a justificativa de que a maioria não era regulada e que incentivavam a baderna durante a madrugada.

Esse cercamento ao bairro acabou por afetar não apenas quem curtia a vida noturna, mas diversos profissionais que faziam a sua vida ali resultando em desemprego para garçons, cozinheiros e músicos, conforme lembrou na época o advogado Marcelo Almeida. Inclusive, os músicos da cidade realizaram uma manifestação de protesto.

É importante salientar que a questão gira em torno da falta de alvarás dos bares, mas que as secretarias da Prefeitura têm dificultado há anos a entrega de alvarás aos empresários.

Pois bem, por mais que possamos encontrar razões (justas!) para uma maior fiscalização nos bares da região, a verdade é que o objetivo é higienização, é tirar o povo da rua, transformar o bairro para que a especulação imobiliária faça o que gosta de fazer: inflacionar valores e lucrar.

Aliás, mesmo aqui, numa fiscalização a estabelecimentos privados, a Brigada Militar se comportou de forma agressiva buscando intimidar os presentes nos bares ao entrar com armas em punho quando acompanhavam os fiscais. E aí pergunto, pra quê?

O Araújo Viana

O Auditório Araújo Viana era patrimônio público e se localiza em um dos maiores parques de Porto Alegre, tendo sido palco de atrações para o povo há muito tempo. Infelizmente, ele se encontrava em péssimas condições por descaso do Poder Público.

A solução: privatizar! Parceria do poder público com o setor privado para reformar (e lucrar muito). Não importa que agora é caro, do ingresso à latinha de refrigerante, o local está ótimo, então a classe média está muito feliz.

O Largo Glênio Peres

No Centro de Porto Alegre, ao lado do Mercado Público, existe o chamado Largo Glênio Peres. Este local sempre foi reservado para pedestres, manifestações e feiras, inclusive, uma Feira de Economia Solidária que ocorria periodicamente no local.

Com o absurdo do trânsito de Porto Alegre, a Prefeitura notou que havia um espaço no Centro que AINDA não havia sido colonizado por carros: o Largo Glênio Peres. Tchau feiras, tchau manifestações culturais, tchau espaço público para o cidadão, agora, durante todo o final de semana, o espaço é estacionamento.

Não contente com isso, a Prefeitura deixou a Coca-Cola “adotar” o Largo. Adotar, claro, é eufemismo para transformá-lo em espaço privado de publicidade para a marca.


O povo então foi se manifestar numa Defesa Pública da Alegria: parem com as privatizações do espaço público e devolvam a alegria e a democracia que tornou Porto Alegre referência em políticas republicanas para o resto do país (não é mais, mas já foi).

Dançamos, cantamos, beijamos, nos abraçamos, sorrimos e nos divertimos pra caramba. Sem violência, sem baderna, apenas alegria.

Entretanto, lá estavam cerca de 20 policiais da Brigada Militar guardando um BONECO INFLÁVEL, propaganda de uma empresa privada em um espaço PÚBLICO. Está certo, o policiamento em Porto Alegre está perfeito que pode deixar 20 brigadianos guardando um boneco inflável.

Danillo Ferreira, Tenente da Polícia Militar da Bahia, foi muito lúcido ao escrever que

Dentre todos os elementos que podem ser discutidos em momentos assim, o que agora nos chama a atenção é a natureza dos bens jurídicos que são postos como centrais nos esforços e dedicações das polícias. Como instituições com justificativa existencial pública, não é demais indagar sobre como se deve interpretar a designação de tal aparato policial para a defesa de um boneco de plástico. Mais: expor policiais ao confronto com manifestantes, e expor manifestantes ao confronto com policiais, em um jogo de interesses que não haveria de ter outro resultado.

Um dos manifestantes entrou no cercado ao redor do boneco e ficou por lá. Tocou pandeiro, fumou um cigarro. Mais nada, sem tentar furar o boneco, sem tentar derrubá-lo. Apenas ocupou um espaço PÚBLICO.

Então a Brigada Militar agiu como sempre age ao encontrar manifestações populares: partiu para a violência contando com o reforço de mais QUARENTA policiais, totalizando 60 brigadianos para defender um boneco inflável. Com truculência, foram para cima do manifestante e foi aí que o Largo Glênio Peres e arredores se tornaram um campo de batalha, pois os manifestantes reagiram - alguns atacando a Brigada, outros se defendendo, derrubando as grades do tatu e outros ainda defendendo pessoas que estavam sendo agredidas de forma bárbara pela polícia.

Pois, ora, não é barbárie agredir uma pessoa já jogada no chão e dominada? Não é barbárie correr atrás de manifestantes por mais de 100m com a única intenção de agredir? Não é barbárie bater na cabeça, quebrar braços, dar tiros de borracha à queima-roupa em pessoas desarmadas? Não é barbárie arrancar o celular de uma pessoa que não estava atacando a polícia e ainda agredi-la? Não é barbárie espancar pessoas que nem na manifestação estavam, mas tiveram o azar de estarem nos arredores naquele momento?

A justificativa da Brigada Militar era de que os manifestantes haviam danificado o boneco. MENTIRA! Conforme Hilton Muller, delegado da Polícia Civil, o boneco NÃO FOI danificado.

O boneco teve o seu aparelho de ventilação desligado após a Brigada Militar e a Guarda Municipal começarem as agressões. Quem foi? Tanto faz!

Mesmo que o boneco houvesse sido danificado por algum manifestante, isso não justificaria a truculência e violência desmedidas da Brigada Militar. Ora, o que vale mais, a vida e integridade física do ser humano ou a porcaria dum boneco inflável? Pra lembrar: bonecos infláveis não sangram.

Marcelli Cipriani relata que

Câmeras fotográficas e celulares dos que tentavam registrar as cenas mais violentas foram arrancadas e quebradas. Nenhuma policial possuía identificação na farda, e todos negavam-se peremptoriamente em conceder seu nome. Perguntou mais de uma vez? Vai apanhar também.

Amigas minhas, favoráveis e contrárias à derrubada do boneco, mas que não se encontravam nem ao menos perto dele, tiveram cortes na cabeça e o braço luxado. Uma, porque foi juntar os pertences de um menino que apanhava. Outra, porque – longe do tumulto – pediu, ingenuamente, para conversar. Ambas, já no chão, continuaram sendo brutalmente agredidas, física e verbalmente, sendo chamadas de vagabundas, putas, vadias, e todo o arsenal de armas verbais que jamais serão capazes de vencer uma luta.

Mas você pode achar que não foi nada demais. Buenas, olha aqui:



Esta violência da Brigada Militar NÃO É ISOLADA. É institucional! Não é por acaso que o Impedimento mandou uma carta aberta ao Governador do Estado do Rio Grande Sul pedindo o fim da presença da BM nos estádios.

O modus operandi das polícias ao encontrar manifestações populares é sempre o mesmo: repressão através da violência para defender os interesses de grandes empresas. Confira o documentário "Domínio Público". 

Assim, a discussão não deve se limitar a se os manifestantes destruíram um boneco inflável (e não o fizeram), mas 1) por que os espaços públicos das cidades estão sendo privatizados? 2) até quando a polícia irá agir de forma ignorante, bárbara, violenta e truculenta quando encontra manifestações públicas? 3) até quando teremos essa anomalia inconstitucional que são as polícias militares?  


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Guestpost: Feministas chatas e lugares de fala

Chato: adj. Liso, plano; sem relevo/ Fig. Gír. Importuno, maçante, aborrecido; monótono.” (Dicionário online de português).  Mulheres que vem a público demandar direitos ou tentar se inserir em práticas intelectuais e artísticas desde sempre existiram. Formavam uma tímida minoria, mas estavam lá.  Elas foram chamadas de “imorais”, “perigosas”, “diabólicas”, “bruxas”, e recentemente ganharam o título de “feministas chatas”.  Como nossa sociedade constrói significados engessados em oposições binárias e pouco subjetivas, a “feminista chata” só poderia existir em oposição a uma suposta mulher não-chata, ou mulher agradável.  Essa mulher agradável seria aquela que atende a todos os desejos do marido/namorado, é delicada e feminina, não questiona os padrões estabelecidos e aceita com candura a “natural” superioridade masculina.  Do outro lado da história está a “feminista chata”,  uma criatura incômoda que repudia sua própria natureza (feminina) e aterroriza mesas de bar com “teorias conspiratórias” de que está sendo vilipendiada pelo sistema. Ela é vista como uma figura ranzinza com mania de perseguição.  Se nos permitirmos a reflexão por alguns minutos, chegaremos a duas conclusões essenciais:

 1- Estamos realmente sendo vilipendiadas pelo sistema patriarcal e isso deixa muitas de nós irritadas e reclamonas sim;
2- Não é necessariamente o conteúdo da fala das feministas que é chato e chateia os homens.  O que os perturba é algo muito mais profundo e naturalizado nas sociedades: o lugar de fala. Quem pode falar? De que lugar se pode falar? Sobre o que certas pessoas podem falar e outras não podem? O que realmente incomoda os homens é o fato de uma mulher tomar o lugar público da fala e falar sobre coisas relevantes, sobre temas da esfera pública.

O espaço feminino e o espaço masculino são divididos entre o par privado x público.  Há inúmeros exemplos da aplicação dessa oposição em nossas vidas práticas e ela vai desde nossos corpos até nossa educação social.  Nós mulheres temos corpos e lugares de fala privados, já os homens têm corpos e lugares de fala públicos. Enquanto meninas devem manter as pernas fechadas e nunca brincar com os órgãos sexuais, meninos têm os pênis elogiados e tratados como personagens à parte.  Enquanto o homem vai ao trabalho, aos bares e às praças, a mulher é ensinada a se manter no espaço doméstico.  Seu corpo é propriedade e a propriedade deve ser guardada em local seguro: a casa. Quando uma mulher é estuprada, as primeiras perguntas que as pessoas fazem são: “Onde ela estava? Que hora aconteceu o fato? O que ela estava vestindo?”  Especula-se se essa mulher não causou o estupro fazendo o que não deveria, ou seja, saindo de casa a noite expondo publicamente partes do seu corpo. A mulher que se mantém no espaço privado estaria teoricamente isenta do natural e incontrolável impulso sexual masculino. Essa, infelizmente, é a lógica comum em casos de estupro. Lógica bastante incoerente se considerarmos o que realmente nos dizem os dados. A maioria dos casos de violência contra a mulher tem origem dentro de casa e o sujeito é o próprio companheiro.

A história, a política e as artes foram sempre espaços negados à mulher. Educadas para a passividade e excluídas da fala pública, não é surpresa constatar que mesmo em 2012 ainda não há muitas mulheres intelectuais, cientistas, comentaristas políticas ou deputadas. Não há muitas mulheres no hall dos “formadores de opinião”, pois a elas não foi permitido ter uma opinião. A mulher que tem opinião própria e não tem vergonha de expô-la em público será eventualmente chamada de “chata”, e se ela defender os direitos de outras mulheres de também expressarem suas opiniões, então ela será coroada  “feminista chata”.
Mulheres não falam demais como esbraveja o senso comum. Elas falam de menos.  Basta observar uma sala de aula ou uma mesa de jantar com pessoas de ambos os sexos e notar a desigualdade de iniciativa de fala e turnos de fala entre homens e mulheres.  As mulheres falam pouco, e quando falam seu argumento não é levado a sério ou é infantilizado.  É preciso falar e falar em público. Só dando voz às mulheres poderemos empoderá-las. Por tudo isso, digo com orgulho que sou uma feminista chata e falastrona.


Lídia Freitas é formada em Letras e atualmente é servidora pública. Seus textos podem ser encontrados no blog abajur literário. Contato: lidiaspes@gmail.com

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Guestpost: Feminismo e cultura pop: Parte 2 – Mulheres como jogadoras

Olá (novamente), pessoal do Ativismo! Me chamo Taís e sou a blogueira do Colchões do Pântano. No blog, um dos meus objetivos é analisar mídias de entretenimento como games, quadrinhos e séries sob a ótica feminista. No primeiro post, o tema foi as representações femininas tanto nos jogos quanto nas HQ's. Agora o foco será sobre o tratamento que muitas mulheres recebem dentro da cultura nerd/geek/gamer em geral.

Talvez por eu ter me inserido nesse universo com força há poucos anos, já passei por preconceito algumas vezes, mas nada tão gritante em comparação aos depoimentos que jogadoras (principalmente as gringas) já deram por aí. Inclusive, parece que existe uma espécie de dicotomia: enquanto alguns jogadores as desprezam e inferiorizam com todas as forças, outros quase as idolatram e, em casos ‘extremos’, as assediam sem qualquer pudor. Alguns exemplos dessas situações:

1) Jogos multiplayer online. Só de olhar o nick e/ou avatar de alguma jogadora, desconhecidos mandam mensagem dizendo frases como “volta pra cozinha e me faça um sanduíche” ou “gata, tenho um pau grande e quero te comer”. Esse tipo de assédio também acontece quando elas se atrevem a falar pelo microfone, principalmente em jogos de tiro em primeira pessoa. No site Fat, Ugly or Slutty temos VÁRIOS exemplos.

2) Se disfarçar de homem, obviamente pelo motivo de cima. Desligar o microfone e mudar seu avatar/nick para masculino não só te poupa de tudo isso como evita que você seja expulsa (ou, no caso de jogos com friendy fire[1], morrer na mão do seu grupo) de partidas online.

3) Surpresa por você gostar de jogos e entender do assunto. Lembro muito bem de quando eu estava conversando com um cara e mencionei o fato de Portal 2 ter concorrido ao GOTY[2] de 2011. A reação dele? “Não tenho preconceito, mas uma menina saber o que é GOTY? Wow!”. Nem precisa explicar o tamanho da babaquice de se dizer isso, certo?

4) Itens raros de presente. Em multiplayers, principalmente RPG’s online, é bastante comum homens darem de bandeja presentes para personagens femininas não porque elas são bacanas ou porque sabem jogar super bem, mas simplesmente por serem mulheres. Depois de assédio, essa é a segunda maior cuspida na cara por mostrar a gritante diferença de tratamento, afinal elas não têm autonomia o suficiente pra conseguir esses itens/dinheiro virtual sozinhas! Homens também aproveitam tal comportamento se fingindo de mulher pra ganhar tais “benefícios”.

5) Seu argumento é inválido. Se você está dando sua opinião sobre um jogo/HQ/filme e é mulher, principalmente se for pra reclamar daquela roupa minúscula de uma super heroína, será automaticamente desprezada (especialmente se você não for atraente na visão deles). Mulher se metendo em assunto de homem? Sai fora! Isso nem foi feito pra você!
Outras pérolas e argumentos do tipo podem ser vistos no bingo de sexismo nos jogos.
6) Comprar pra você? Nãããão. Se você vai numa loja física comprar aquele jogo/HQ que tanto esperava, vão te tratar não como consumidora do produto, mas alguém que está comprando pro irmão/primo/amigo. E ainda pode ser assediada. Esse e vários outros problemas citados também estão no texto Nerds e o privilégio masculino.
7) Sua poser! Attention whore! Esse tópico renderia inúmeras discussões. A grosso modo, é quando uma mulher se atreve a se chamar de nerd, geek e/ou gamer e age/conhece/gosta de coisas de uma forma diferente do que é dito pela bíblia imaginária dessas tribos sobre como elas deveriam se comportar pra serem de verdade. Não gosta de Star Wars e se diz nerd? É poser! Tem o cabelo colorido, joga Super Mario, usa uma camiseta do Pikachu e se diz nerd? Poser, óbvio. Nerd de verdade é feia, espinhuda, (possivelmente) gorda, não tem vida social e usa roupas sem graça, tipo aqueles que viveram nos anos 80. É bonita e diz que gosta de jogos? Só quer chamar atenção, lógico. Posou com um joystick na boca? SUA VADIA! Ou ainda, te fazem perguntas pra testar seu conhecimento e terem certeza que você é nerd ou não. Você não vê esse tipo de questionamento voltado para homens.

Cagação de regra? Estereotipagem? Nãããão, imagina!

Todo mundo aqui sabe que quando uma mulher decide tratar seu corpo como seu e usando roupas curtas, decotes e similares, rapidamente aparecem os cagadores de regra pra contar direitinho a ela a diferença entre ser sexy e vulgar. Se você for sexy, vão te amar e enfatizar do quão é linda e gostosa; se for vulgar, vão te chamar de vadia ou usarão um termo exclusivo da tribo: pirinerd. E poser, naturalmente.

Ainda assim, reconheço que nem tudo são flores: Muitas mulheres internalizaram concepções machistas; não apenas em fazer slut-shaming com as outras, como também em “se objetificar” porque aprendeu que deve ter uma aparência agradável pros homens héteros a aceitarem e a valorizarem. Mesmo se ela jogar bem ou tiver um amplo conhecimento do que gosta – sua aparência sempre será colocada em primeiro lugar. Existem até mesmo sites enfatizando isso ao fazerem compilações de imagens com mulheres nerds sexy.

Peraí, agora você está sendo hipócrita! Por que elas podem ser gostosas sem problema algum, mas as personagens femininas de jogos e/ou HQ’s não?

Vamos fazer uma analogia. Pense numa mulher com os peitos à mostra na Playboy, depois pense em outra na mesma situação na Marcha das Vadias. O contexto e objetivos são iguais? Absolutamente não. Essas gostosas mostradas na mídia de entretenimento não seriam realmente um problema se:

- Elas não fossem o padrão como representação feminina;
- Elas não tivessem seus corpos distorcidos para parecerem mais atraentes (leia-se: hiperlordose lombar, coluna vertebral elástica, ausência de órgãos internos);
- Elas não fossem criadas para serem objetos e realizarem fetiches dos seus criadores;
- Elas não fossem tratadas como peitos e bundas ambulantes.

Assim, não é nenhuma novidade você se deparar com textos que soltem pérolas como essa: "Ok, agora mãos à obra. Vamos ajudar os quadrinhos, tentando trazer mais mulheres até eles. O pior que pode acontecer é deixarmos o mercado mais bonito”. Porque é isso que realmente importa, sabe? Sermos enfeites. Ou produtos, como as booth babes são tratadas.

Agora vamos falar sobre algumas mulheres em específico que têm ou tiveram destaque na mídia. Ano passado, um grupo de garotas publicaram o vídeo Game Girl Manifesto. Em dois minutos, elas passam uma mensagem perfeitamente clara: julgá-las pelas suas habilidades, não por serem mulheres. Elas estão aí pra jogarem. E no final dizem “Don't be racist. Don't be homophobic. Don't be sexist”. Se você tiver estômago pra ler comentários, verá que muitos odiaram o vídeo e, lógico, aproveitaram pra vomitar preconceito.

Já outro caso mais recente é sobre Anita Sarkeesian. Ela é dona do blog Feminist Frequency que criou a web série Tropes VS Women (com legendas em português), em que ela discute a qualidade das representações femininas na cultura pop. Anita se tornou extremamente popular quando começou um projeto no Kickstarter chamado Tropes VS Women in Videogames. Como você pode ver, sua intenção inicial era juntar 6 mil dólares, mas conseguiu 158 mil! Como já esperado, ela recebeu inúmeros ataques de trolls, inclusivemensagens e montagens misóginas. Fizeram até mesmo um jogo em que você a espanca e seu rosto vai se deformando a cada batida. Depois disso, não há desculpa pra disfarçar o tamanho da nojeira que existe nessa cultura.  Maiores detalhes estão neste post do Arena.

Além disso, uma mulher chamada Katie Williams contou neste post do Kotaku Austrália o que aconteceu quando ela foi à E3[3] deste ano. Ao reservar uma hora e meia para experimentar a continuação de um shooter militar conhecido, um cara das Relações Públicas que deveria estar ali pra auxiliar não acreditou que ela saberia jogá-lo por si e, pasmem, pegou o teclado sem pedir nem nada e disse que iria jogar no lugar dela! E não acabou por aí: em outras situações durante o evento, ela foi bastante subestimada, afinal de contas, garotas não entendem muito desse material, sabe? Ela também aponta uma questão interessante quando diz:

“É inacreditável que isso esteja acontecendo. Se esta é a forma que as pessoas de Relações Públicas se sentem sobre a capacidade das mulheres, não é à toa que a parte promocional dos jogos seja tão sexista. Não é à toa que as pessoas de marketing achem que está tudo bem até certo ponto ter um trailer em que um homem ataca um bando de freiras sexies, não é à toa que estamos vendo isso se espalhar entre desenvolvedores, que colocam achievements[4] no jogo pra olhar debaixo da saia de uma mulher com 19 anos vestida feito colegial[5]. Não é à toa que estamos vendo isso acontecer com os jogadores, que falam às mulheres entre nós que elas provavelmente não podem saber sobre os jogos online que jogam”.

Finalmente, deixo um convite pra vocês participarem do grupo que criei no Facebook cujo objetivo é justamente analisar elementos da cultura pop sob o ponto de vista feminista. Textos em inglês sobre a questão são suficientemente fáceis de achar, tanto que alguns blogs que conheço e têm essa abordagem em menor ou maior grau são: The Mary Sue, Go Make me a Sandwich, Gaming as Woman, The Border House e Geek Feminism. Infelizmente, eles são raros em português.
Obrigada por lerem até aqui e espero que as informações tenham sido úteis!

[1] Fogo amigável. É quando você pode ferir seus aliados e, dessa forma, torna o jogo mais difícil. O problema desse recurso é quando aparecem babacas que gostam de prejudicar os outros puramente por prazer.
[2] Game of the Year. Título dado por várias publicações especializadas (como revistas e sites) para um jogo que se destacou em seu ano de lançamento. Skyrim, por exemplo, foi um dos mais votados. Além disso, os indicados ao prêmio são divididos em várias categorias, tais como Melhor Jogo de PC, Melhor Multiplayer, Melhor RPG etc etc.
[3] Electronic Entertainment Expo. É um importante evento internacional em que empresas de jogos mostram novidades como prévias de futuros lançamentos de games e informações detalhadas de consoles e portáteis da nova geração.
[4] Um “prêmio” simbólico de quando você realiza um objetivo específico, geralmente com o intuito de ser difícil de completar. Por exemplo, resolver um puzzle em 1 minuto, ou matar 50 inimigos sem morrer.
[5] Ela provavelmente está se referindo à Juliet de Lollipop Chainsaw, que na verdade estaria especificamente vestida de cheerleader.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Guestpost: Feminismo e cultura pop: Parte 1 – As Representações Femininas


Olá, pessoal do Ativismo! Me chamo Taís e sou a blogueira do Colchões do Pântano. No blog, um dos meus objetivos é analisar mídias de entretenimento como games, quadrinhos e séries sob a ótica feminista. Nesta série de guest-post, farei uma (não tão) pequena compilação de problemas e fatos que pude perceber e aprender com o tempo.
Quem já está familiarizado o suficiente com feminismo conhece vários estereótipos, falácias e preconceitos quando o assunto é sobre mulheres. Tudo isso também aparece no meio nerd/geek/gamer com suas peculiaridades e semelhanças.

De acordo com a ESA (Entertainment Software Association), as mulheres representam 47% dos jogadores americanos. Mesmo assim, a carga de machismo e misoginia que existe tanto nos jogos quanto entre os próprios jogadores é assustadora. O problema começa com as representações femininas criadas por desenvolvedores predominantemente masculinos. Um dos estereótipos mais frequentes é:

A Fighting Fuck Toy – Protagonista feminina que é hiper-sexualizada e ao mesmo tempo é forte, independente e chuta a bunda dos inimigos. Esse tipo de personagem me irrita bastante porque muitos a tratam como símbolo de empoderamento feminino, quando ela nada mais é do que um produto criado para satisfazer o público masculino heterossexual (ao mesmo tempo que é usado para invalidar o argumento de que elas não são objetificadas porque, afinal, olha como elas são fortes e incríveis! Como ousa não gostar delas?).

Exemplos: Ivy de Soul Calibur (que a cada jogo lançado, seus peitos tornaram-se cada vez maiores), Bayonetta (com o diferencial de usar literalmente sua “sexualidade” como fonte de poder), Lara Croft de Tomb Raider (que passou a ter um corpo ligeiramente mais realista a partir de Angel of Darkness e passou por mudanças bem mais significativas com um reboot ainda não lançado), Juliet de Lolipop Chainsaw (incluindo o bônus fetichista com uma líder de torcida), Mai Shiranui de Fatal Fury e The King of Fighters (que passou por um processo similar ao de Ivy) e as mulheres de Mortal Kombat em geral.
Fighting fuck toys, representações femininas positivas? HAHAHAHAHAHA CONTA OUTRA.

Talvez por objetificação e força estarem tão atrelados para mulheres, é possível ver um “padrão inverso”: quando a personagem não é visualmente apelativa, muitas vezes ela é como a princesa Peach: passiva, fraca e indefesa. Cheguei a fazer uma listinha com exemplos. Esse padrão também aparece na página doTV Tropes.

Outro exemplo constante de objetificação aparece nas armaduras femininas. Em muitos MMORPG’s* (principalmente os orientais), você pode comparar os gêneros da mesma raça, classe e nível que a mulher provavelmente vai ter muito menos proteção que o homem. Existe até um nome próprio para couraças femininas: boopblate (ou seja, a armadura tem o formato dos peitos definido).
Exemplos: Tera Online, Fiesta Online, World of Warcraft, Perfect World e Dragon Nest**.
Comparação de armaduras de níveis diferentes e a lógica “menos é mais e melhor”. Imagem de Tera Online.
Como homens de armadura ficariam se tivessem o mesmo nível de proteção das mulheres.

Por último, temos uma situação que não chega a aparecer tanto nos jogos, mas MUITO em HQ’s: a “boob-and-butt pose”, em que as mulheres são desenhadas em uma posição que é possível ver os peitos e bunda ao mesmo tempo. O problema é que além de ser desconfortável, a contorção é tão grande que a coluna vertebral quebraria se fosse de verdade (além de outras poses ridículas consideradas “sexy”). Tal fato deu origem ao tumblr Escher Girls, publicando, parodiando e consertando inúmeros exemplos.
Sexy ou ridículo? Depende, é claro.
Aí aparecem alguns com a falácia da falsa simetria afirmando que homens fortes e musculosos também são objetificados! Tá reclamando do quê? Homens também sofrem, tadinhos!

Tal afirmação é falaciosa por uma razão muito simples: Homens musculosos e mulheres gostosas são produtos para um público dominante masculino heterossexual.  Enquanto heróis musculosos representam o que eles gostariam de ser, heroínas gostosas são o eles querem que elas sejam para satisfazerem seus desejos e fetiches (além de mulheres halterofilistas não serem consideradas atraentes por motivos óbvios). Em suma: não confunda idealismo com objetificação.

Cara, como você é uma feminazi chata, credo! Só tá reclamando neste post! Não tem nada de positivo pra mostrar não?

Tem sim. Apesar de poucas, existem personagens que não só são mais realistas na aparência, como também podem ter uma personalidade mais interessante e humana.
Exemplos: Faith de Mirror’s Edge, April de The Longest Journey, Zoë de Dreamfall, Jade de Beyond Good & Evil, Alyx de Half-life 2 e Episodes, Zoey de Left4Dead, Rochelle de Left4Dead 2 e Chell de Portal e Portal 2.

Quanto a jogos em que mulheres usam armaduras convincentes, temos Skyrim, Mass Effect e The Lord of the Rings Online como exemplos.
Representações femininas legais (e mais diversas) existem, apesar de serem escassas.
Ah, mas você tá levando os jogos a sério demais! Eles foram feitos pra nos divertirem!
Primeiro, se divertir com alguma coisa é bastante subjetivo depende dos gostos de cada um (ou você conseguiria se divertir jogando Dear Esther ou Amnesia: The Dark Descent?). E segundo, esse tipo de desculpa para fugir do problema não é muito diferente de dizer “é só uma piada!” para gracinhas preconceituosas.

Então você está sugerindo que os desenvolvedores sentam e pensam de como vão criar uma personagem feminina ofensiva.

Sim, eu já tive a oportunidade de ouvir essa pérola e alguém acreditar que esse problema é exclusivo E intencional da indústria de jogos é ser bastante ingênuo e não ver o preconceito como fruto de uma sociedade machista.

No próximo post, o tema será sobre o tratamento que mulheres como jogadoras recebem (ou dão) nesse meio, principalmente quando é para protestar contra o preconceito que elas sofrem.

*Massive Multiplayer Online Role-Playing Game. Jogos com vários jogadores simultâneos conectados que criam personagens com um determinado nível de customização na aparência, roupas e funções, e que precisam realizar tarefas para subirem de nível e consequentemente adquirindo armas, armaduras e poderes melhores.
**Esse jogo tem gender lock, ou seja, o gênero do personagem que você vai jogar é pré-determinado pela classe. Warrior e Cleric são garotos enquanto Archer e Sorceress são garotas.


Para ler a parte dois da série de guestposts sobre Feminismo e Cultura Pop escrita pela Taís Fantoni clique aqui. 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Guestpost: Desmontando um falso argumento: "Só quem já nasceu é a favor do aborto"


Em tempos onde os direitos humanos das mulheres são considerados moeda de troca na construção de um documento internacional, Henrique Marques-Samyn escreveu um excelente texto que toca num dos componentes do "direitos reprodutivos e sexuais", o direito da mulher de decidir quando e quantos filhos quer ter e ao direito a opção do aborto seguro.

"Obrigada mãe, eu nasci", uma variação do falso argumento.
Qualquer um pode ser contra o direito ao aborto (com uma ressalva: ninguém é "a favor do aborto"; as pessoas são a favor, ou contra, o direito de a mulher receber auxílio médico para interromper a gravidez). Mas uma discussão razoável exige bons argumentos. Dizer que "só quem já nasceu é a favor do aborto" não é apresentar um argumento, e sim uma frase de efeito falaciosa.

Em primeiro lugar, analisemos o "argumento" como está formulado. O que quer dizer? Que só quem já nasceu pode ter uma posição favorável à descriminalização do aborto (a propósito, faria mais sentido substituir o "só quem já nasceu" por "só quem está vivo", mas isso acabaria com o jogo de palavras presente no "argumento"). Ora, isso quer dizer algo óbvio: que só quem nasceu (= está vivo) pode ter opiniões. Nada mais evidente: quem não nasceu pode ser contra ou a favor de alguma coisa? Quem não tivesse nascido poderia ter algum tipo de opinião? E quem não está vivo, um morto, pode ter opinião? Isso já basta para demonstrar que não estamos tratado de um argumento consistente.

Por outro lado, há quem use aquele "argumento" para sugerir que apenas quem teve o "direito de nascer" é contra esse mesmo direito, quando se trata de outras pessoas. Nesse caso, o pressuposto é que os pró-escolha agem hipocritamente, interrompendo a vida de outros, cerceando o seu direito. Mas as coisas não são bem assim. Aqui, cabe um esclarecimento prévio, e bastante simples, acerca da posição de quem defende o direito à interrupção da gravidez com auxílio médico: assim como se considera cientificamente que a morte cerebral indica o fim da vida, entende-se que a vida humana surge quando se forma o cérebro; isso só ocorre após as primeiras doze semanas, quando se desenvolve o sistema nervoso do feto. Na maior parte dos países nos quais o aborto é legalizado, a interrupção é permitida nessas primeiras doze semanas, antes que seja possível a formação do cérebro − logo, antes que seja cientificamente possível falar em vida humana. Não há, portanto, nenhuma vida sendo interrompida.

"As mulheres decidem, a sociedade respeita, o Estado garante, as Igrejas não intervem.
Educação Sexual para decidir, anticoncepcionais para não abortar, aborto legal para não morrer."
Vale dizer que, na verdade, quem é pró-escolha é, sim, a favor da vida: a favor da vida das mães e das mulheres, em primeiro lugar. Aqui, passamos a tratar de fatos: a criminalização do aborto não evita o aborto; apenas obriga a mulher a realizá-lo na clandestinidade. Sabe-se que o aborto ilegal é a terceira causa de morte materna no Brasil. São essas pessoas que os pró-escolha buscam defender, assegurando-lhes meios seguros e adequados para a realização de práticas que já fazem parte da realidade brasileira, independentemente da proibição do aborto. Com a criminalização do aborto, a situação em nosso país é a seguinte: mulheres ricas têm meios financeiros para interromper uma gravidez indesejada em maternidades de luxo (por um altíssimo custo, devido à ilegalidade); mulheres pobres recorrem a clínicas clandestinas, que realizam o aborto em condições inadequadas. A Pesquisa Nacional de Aborto, realizada em 2010 pela Universidade de Brasília (UnB) com o apoio da Agência Ibope Inteligência e do Ministério da Saúde, revelou que uma em cada sete brasileiras entre 18 e 39 anos já realizou ao menos um aborto na vida. São 5 milhões de mulheres. Seu perfil? Essas mulheres já são mães (81%), são casadas (64%) e são religiosas (pouco menos de dois terços são católicas; um quarto, protestantes ou evangélicas).

Por fim, cabe ressaltar que o principal pressuposto de quem defende o direito à escolha é que a mulher tem o direito de lidar com a própria gravidez de acordo com suas crenças e convicções. Se o aborto for descriminalizado no Brasil, uma mulher religiosa pode jamais sequer considerá-lo como uma opção para si, caso esse lhe pareça o modo correto de agir, conforme suas crenças; esse direito lhe será assegurado. Mas, numa sociedade democrática, não se pode obrigar uma mulher que não é religiosa a agir segundo os dogmas de qualquer religião − e esta é a situação na qual nos encontramos atualmente. Em outras palavras: a descriminalização do aborto só tenciona permitir à mulher que exerça sua autonomia, conforme seus próprios princípios. Seu corpo, suas regras!

Henrique Marques-Samyn, (@marques_samyn), escritor e professor da UERJ.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Guestpost: "A arma mais poderosa na mão do opressor é a mente dos oprimidos." (Steve Biko)


Nesse mês em que comemoramos os 124 anos da tardia abolição da escravatura, publicamos com imensa alegria mais um texto tratando da questão racial. Dessa vez escrito pela Cíntia Farias, uma querida amiga e leitora do Ativismo de Sofá. O assunto são as cotas raciais, aprovadas em recente julgamento do STF. A quem interessar, o julgamento pode ser visto na íntegra aqui.

"A arma mais poderosa na mão do opressor é a mente dos oprimidos." (Steve Biko)

Dia desses eu estava almoçando na casa de familiares quando alguém comentou ter visto uma pesquisa sobre a maioria da população carcerária no Brasil ser formada de negros. Logo destaquei que aquela maioria não se repetia nas universidades. E todos concordaram que aquela era uma constatação escandalosa. Muito segura, eu ironizei: "E depois dizem que as cotas raciais nas universidades  são um absurdo!", e, para o meu espanto, ouvi a seguinte resposta: "Mas de fato é! Isso é atestar que o negro não tem capacidade de passar no vestibular por seus próprios méritos... Esse é o verdadeiro racismo!", disse minha tia, indignada. E ela prosseguiu: "Quando eu fiz faculdade eu passei sem precisar de nada disso.". "E quantos negros tinham por lá?" eu perguntei. "Só eu." foi a resposta, que, por mais esperada que fosse, não deixava de me causar perplexidade.
  
Ministro Fux, durante o julgamento da ADPF 186
Confrontar o dado de que apenas 1% do alunado de uma universidade é formado por negros, como era o caso da UnB até pouco tempo atrás, e não ser conduzido à imediata conclusão de que algo está muito errado mostra que a exclusão produzida pelo racismo no Brasil atua tanto objetiva quanto subjetivamente. Se por um lado somos alijados das salas de aula do ensino superior, dos cargos públicos de destaque, das grandes corporações, dos anúncios de TV e assim por diante, de outro, somos levados a uma grave falha de percepção da estrutura excludente em que estamos inseridos. É como se nos dissessem o tempo inteiro "tudo está em seu devido lugar".

Sempre que se fala em cotas raciais, somos expostos aos inacreditáveis argumentos de cunho genético - vejam que, geneticamente falando, Neguinho da Beija-Flor é 70% eurodescendente Devíamos chamá-lo de "Europeuzinho da Beija-Flor", por mais adequado, não acham? Também não se pode ignorar a clássica afirmação de que "somos todos mestiços" afinal esta é a terra da miscigenação. Portanto, se todos temos a mesma origem, não há lugar para um sistema que promova um grupo em detrimento de outros, certo?  Errado.
Atriz na novela "Duas Caras" da Rede
Globo submetendo-se à tortura ideológica
Se biologicamente o conceito de raça não encontra respaldo, é socialmente que ele mostra toda a sua força.  A política de cotas não cria uma situação de segregação racial, porque esta já está cansada de existir.

Também muito comum é condenar a reserva de vagas nas universidades pelo critério racial ao fundamento de que ela apenas mascara "o problema real", qual seja, a falta de investimento na educação básica. O que os defensores deste pensamento talvez ignorem é que 1) não há apenas um "problema real";  2) ações afirmativas são apenas uma das diversas políticas que podem (e devem) ser implementadas pelo Estado. Elas são, por definição, medidas temporárias direcionadas a grupos específicos de indivíduos, com o fito de eliminar situações de desigualdade construídas historicamente. Portanto, as cotas raciais em nada prejudicam ou afastam o dever do Estado com a educação, ao contrário, prestigiam-no.

Assim é que o discurso acerca de um mundo meritocrático em que raças não existem ou não fazem diferença serve somente ao fortalecimento da estrutura de desigualdade. Fazer coro com essas afirmações significa, na prática, aliar-se à hegemonia racista.

*Escrito por Cintia Farias, 25 anos, mulher, negra, nordestina e atenta.


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Guestpost: Coletor menstrual: prós e contras

Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva 2@ Vermelha, um evento que surgiu com o objetivo de nos colocar para falar sobre menstruação, esse tema que pode ser símbolo, tabu, orgulho, vergonha, dor, alegria e muitas outras coisas dependendo da forma como é vivido por cada uma de nós. A leitora Natália Schmidt preparou um guestpost super bacana para nós contando a sua experiência com o coletor menstrual. Afinal, falar de menstruação é também questionar tudo o que está ligado a ela, desde a TPM até os nossos absorventes.

Coletor menstrual, para quem não conhece, é um recipiente (um “copinho”) reutilizável de material maleável (geralmente silicone) que serve para colher a menstruação. Funciona assim: você coloca no canal vaginal e ele se prende por meio de pressão nas paredes vaginais. Depois, é só retirar, esvaziar no vaso sanitário ou na pia (ou ainda, se quiser, diluir o sangue na água e regar as plantas !) e colocar de novo! Depois do ciclo menstrual, deve ser esterilizado e ele estará pronto para ser usado novamente. Hoje, existem várias marcas que comercializam (destaque para MissCup, que é a única marca brasileira), mas até um tempo atrás não era assim, e além de tudo, era difícil de se achar.

 Há 2 anos, fiquei sabendo do coletor menstrual pela minha irmã, li sobre e achei super interessante o fato de ser reutilizável e portanto ecológico (sempre me incomodei pela quantidade de absorventes que vai para o lixo). Além disso, é livre de pesticidas e outros produtos químicos dos absorventes tradicionais. Decidi experimentar. Na primeira menstruação, achei um pouco desconfortável na hora de inserir. Para colocar: a gente dobra o “copinho” e coloca, chegando na posição correta, é só soltar que ele desdobra e fica preso por pressão na parede vaginal. Por causa da pressão, senti um pouco de dor. Para tirar, mesma coisa. E vazava, bastante. Além disso, me incomodava com o “cabinho” do coletor em alguns movimentos. Fui reclamar com a minha irmã e me surpreendi quando ela me disse que para ela, tinha sido ótimo, e ela amou.
            Pesquisando, descobri que só vaza quando colocado da maneira errada. E que é preciso praticar até não vazar. Além disso, lendo no manual de instruções, foi muito alívio quando descobri que pode (e deve, se te incomoda) cortar o “cabinho” do coletor. O “cabinho” está lá para facilitar o manuseio, para dar mais segurança para quem ainda está insegura, mas se incomoda, deve ser cortado. Decidi então dar uma segunda chance.
            Na segunda vez, acertei o pé. Consegui colocar direito, nos primeiro dias, vazou um pouquinho, e depois não vazou mais. E o corte do “cabinho” foi realmente um alívio.
            Depois disso, foi “amor a segunda vista”! Sou assumidamente apaixonada pelo meu coletor menstrual, porque conforme o passar do tempo, eu fui me adaptando melhor, e percebi que ele foi uma das melhores invenções dos últimos tempos... rs
            Entre os pontos positivos, o fato dele ser muito mais ecológico que os absorventes tradicionais ganha destaque. Mas se fosse só por esse ponto, nós poderíamos adotar os absorventes de pano, não é mesmo ? Acontece que o coletor menstrual é também muitíssimo confortável. Depois do período de adaptação – e salvo raras exceções -, você não vai nem sentir mais, garanto  (as vezes, eu esqueço que estou menstruada). Pode ser praticado qualquer atividade física durante o uso, inclusive nadar. Você pode ficar, teoricamente, de 4 a 8 horas sem esvaziar, mas eu já cheguei a ficar 12 (!) horas tranquilamente (depende do fluxo). Além disso, é mais econômico. O custo de um coletor menstrual da marca Misscup, segundo o site, é de R$ 75,00, e pode durar de 2 a 10 anos (depende de alguns fatores, como a frequência de uso). Podemos gastar em torno de R$ 200,00 em absorventes descartáveis por ano!
            Os outros pontos positivos menos óbvios, mas não menos importantes: nessa cultura de desvalorização de tudo que diz respeito ao corpo das mulheres, e inclusive – e especialmente - a menstruação, utilizar o coletor menstrual é uma ótima maneira de quebrar mitos e conhecer melhor o seu ciclo. Eu, pessoalmente, amo menstruar, acho lindo, e o coletor menstrual me permitiu um contato muito mais profundo com meu ciclo. É muito legal ver a quantidade do fluxo – e perceber que não é uma hemorragia descontrolada, afinal -, perceber que aquele odor desagradável e forte da menstruação nada mais é que o absorvente comum abafando o local, entre outras coisas. Aliás, o coletor menstrual é também mais higiênico, menos propenso a desenvolvimento de alergias e de algumas pragas, como a candidíase. Além do contato com o próprio ciclo, o manuseio do coletor estimula o conhecimento do próprio corpo – o que infelizmente, é tão negligenciado na nossa sociedade.
            O único ponto negativo de acordo com a minha experiência é que esvaziar em banheiros públicos pode ser uma experiência não muito bacana. Eu sou desastrada por natureza, e dependendo da situação do banheiro público, eu não consigo retirar, esvaziar e colocar novamente sem me sujar. Para tirar e colocar, ainda sinto cólica por causa da pressão, mas não é nada que me incomode tanto.
            Enfim, sou uma mulher assumidamente apaixonada pelo meu coletor!
            Eu uso da marca Mooncup. No site das marcas Mooncup e Misscup tem mais informações e depoimentos. E no site do MissCup também tem uma pesquisa legal sobre a opinião das consumidoras. Vale a pena pesquisar e experimentar! :-)

Observação: nem toda mulher menstrua e nem toda pessoa que menstrua é mulher.