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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Mulher, jovem, grávida e solteira


"Eu estava grávida. E aí meu mundo caiu. Me escorei em um prédio e me agachei no chão de uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Chorando em soluços desesperadamente. Ali senti minha vida acabar, pensei em todo o horror que uma gravidez inesperada representa, pensei em todos os meus sonhos sendo destruídos, na minha vida sendo esmagada. Tudo o que eu era foi quebrado de repente com o resultado de um exame." (Paula Mariá, no texto "O terrorismo da gravidez")

É dessa forma que a Paula Mariá descreve o momento em que abriu o exame de Bhcg e descobriu-se diante de uma gravidez inesperada. 

Antes de mais nada, das quatro características do título, posso dizer apenas que sou mulher. Estou a poucos passos de adentrar os 30 anos, uma idade fatídica para uma mulher em nossa sociedade, a idade que dizem fazer tocar o tal do relógio biológico (essa babaquice). Passei incólume pela adolescência e pelos 20 anos sem engravidar e tenho um relacionamento bem estável na minha vida, embora não seja casada. Por isso, desde já eu peço desculpas por escrever sobre algo que não é minha alçada, mas me sensibiliza demais: O terrorismo, os julgamentos, a infantilização da mulher jovem, grávida e solteira.  

É muito possível que boa parte de vocês, leitores, tenha passado/esteja passando por essa situação ou conheça alguém que esteve nessas condições, pode ser alguém na família, uma amiga, uma conhecida. Porque por mais que as pessoas gostem de pensar que família é aquela coisa engessada: pai, mãe, irmãs, irmãos, a coisa nunca foi exatamente assim. Sempre existiram famílias que não se enquadram na tradicionalidade desse modelo. As famílias estão cada vez mais diversificadas e o modelo monoparental é muito comum, especialmente nas classes menos abastadas. Então porque estamos sempre tecendo julgamentos sobre uma família que é formada por uma jovem sem marido? Eu mesma já me peguei em pensamentos como: "coitada, tão nova, tanta coisa para viver antes de ter um filho..." e como eu me arrependo de já ter pensado dessa forma um dia. 

Então vamos por partes, um adjetivo de cada vez: mulher, jovem, grávida e solteira.  

A mulher que está aí nesse mundão patriarcal de meldels ainda está escrevendo uma história de luta por igualdade e isso não é novidade para ninguém. Esse blog está recheado de textos sobre a questão do preconceito de gênero, da violência, enfim, dos inúmeros desafios que a condição de se identificar como mulher significa. E desconfio que todos os outros adjetivos do título signifiquem em nossa sociedade uma condição desqualificadora, principalmente, porque designam a situação de uma mulher.  

Juno, um filme sobre
gravidez na adolescência
Ser jovem acrescenta à condição de ser mulher uma característica: A inexperiência. Para muitas pessoas inexperiência é sinônimo de incompetência ou imprudência, e não é bem assim... Atribui-se à juventude a capacidade de quebrar regras, destruir tabus, contudo também vemos por aí uma juventude que "decidiu esperar", que reforça algumas regras. Então, essa característica não é plena, não é universal. Acho que o que deveríamos realmente esperar da juventude é que ela seja livre para fazer escolhas. É muito importante compreender que a adolescência e, porque não dizer, o começo da vida adulta é um período um tanto confuso em que ainda estamos tentando nos entender. E talvez ninguém falará melhor sobre esse assunto do que uma pessoa jovem. Por isso recomendo muito o vídeo da Tavi Gevinson para o TEDTeen, que não fala de gravidez, mas de juventude (é preciso habilitar as legendas que infelizmente estão disponíveis apenas em inglês).



Eu não entendo como temos simultaneamente visões tão opostas da juventude, por um lado, acreditamos piamente que eles são o futuro, que eles são os detentores da mudança. E por outro, estamos sempre falando que eles são estúpidos, incapazes, imprudentes. Porque só reconhecemos os dois signos, os extremos, jamais observando o que está no meio.   

As duas últimas características, grávida e solteira, são melhor entendidas juntas, já que são vistas de forma antagônica. Isso porque a gravidez é celebrada, desde que dentro de um casamento. É assim que a nossa sociedade gosta de definir a felicidade para uma mulher: Através do casamento e da maternidade subsequente. Se a mulher engravida mas recusa o casamento, ela não pode ser feliz. Ou até pior, se ela engravida e está solteira ela não apenas é uma pessoa infeliz, como é uma vadia (mulher que faz sexo: esse tabu!). 

Está todo mundo aí botando na cabeça das mulheres que elas nasceram para o propósito da maternidade, mas se ela for muito jovem, ou não estiver casada, não será capaz de criar o próprio filho, de prover todas as necessidades afetivas e financeiras que uma criança demanda e tampouco será capaz de viver a sua própria vida. Como se a partir do momento em que se descobre grávida, a mulher fosse obrigada a deixar toda a sua identidade de lado, para ser apenas mãe. Essa visão chapada da mulher esconde que, dentro dela, existe lugar para uma pessoa multifacetada, complexa e até contraditória. Não por ser mulher, mas por ser uma pessoa. Pessoas são assim, são mais do que uma única característica a ser reforçada.  

O que não se fala em alto e bom som, é que a mulher solteira tem um significado que deve arrepiar até os pentelhos de uma sociedade machista como a nossa: Ela não depende de um homem.  Antes que alguém grite "pensão", aviso logo que não estou falando meramente da questão financeira. Me refiro à sua independência de forma mais ampla, da sua capacidade de gerenciar uma família, de criar os filhos e principalmente de continuar vivendo. 


Slut-shaming e culpar a mãe:
Duas formas de expressar machismo
Apesar disso, a mulher que passa pela gravidez nessas condições sofre todo tipo de julgamento, a maioria das mães solteiras são questionadas e cobradas de muitas maneiras, especialmente no tocante à paternidade da criança, o tal do "quem é o pai?","vocês vão morar juntos?" ou "vocês pretendem se casar?". Até tem pessoas que perguntam isso na melhor da intenções, no sentido de "o que ele está fazendo para te ajudar a criar o seu filho?". Mas de forma bem geral (óbvio que existirão casos diferentes), parece que existe a cobrança por uma família tradicional ("Toda criança precisa de um pai!"). 

Se a mulher está solteira, existe um motivo, ou ela quer estar solteira e não cabe cobrar a presença do pai, ou ela não quer, mas foi abandonada, e nesse caso a pergunta se torna bem dolorosa. Ademais, duvido que exista a cobrança do outro lado, que exista sempre alguém buzinando no ouvido do pai da criança para ele assumir suas responsabilidades, ou olhando torto porque ele tem um filho e não é casado. Não parece haver simetria nessa relação, como normalmente não há quando o assunto é o que a nossa sociedade espera de um homem e o que espera de uma mulher.

Não pára por aí! Os ataques à mulher podem ser muito mais agressivos. Existem aquelas pessoas que suspeitam das intenções da mulher, chamando-a de interesseira ("só quer a pensão" e "golpe da barriga"), pessoas que tentam puní-la por engravidar ("Na hora de fazer foi bom, agora não reclama"), e ainda outras que a condenam por sua vida sexual pregressa, ou simplesmente por ter uma vida sexual ("dava para todo mundo" ou "De santinha só tinha a cara") e etc. 

Entretanto, talvez a mais dura de todas as críticas venha da família: "Envergonhou a família". Ouvir esse tipo de agressão de quem mais se ama dói profundamente. Me emociona demais pensar nas muitas moças que são expulsas de casa por uma família que preza pela tradição. E são muitas mesmo. Eu me pergunto porque alguns pais jogam sobre a filha as suas frustrações de tal maneira, que se uma coisa sai diferente do que eles imaginaram para sua vida, ela não merece mais viver debaixo do mesmo teto que eles, tampouco ser chamada de filha. Não consigo chegar numa resposta. O que há de tão horrível em entender que aquela não é a vida deles? E nesse momento de rejeição o que já é suficientemente confuso e desconcertante até numa família que dá apoio, se torna um monstro engolindo os sonhos, as pessoas amadas, o futuro, tudo.


Uma gravidez não estraga uma vida, ela só a transforma, muda a sua direção. A vida me parece ser mais do que um ideal de felicidade que te entregaram pronto e embalado para consumo. As coisas seriam muito melhores para a mulher jovem, grávida e solteira se pudéssemos olhar para ela sem achar que por ser mulher, ela é frágil, que por ser jovem, ela é imatura ou incompetente, que por estar grávida, ela é burra ou piranha, e que por ser solteira, ela é infeliz. Talvez isso impedisse que tantas mulheres se sentissem diante de um abismo, do fim da sua vida, no momento em que recebem a notícia de uma gravidez inesperada. Antes de repetir esses julgamentos deveríamos pensar que tudo o que dizemos individualmente, ou coletivamente, e que à cada imagem fazendo troça da mulher que engravidou sem planejamento, geramos o sentimento de culpa, desespero, medo e aflição. Estamos constantemente abalando sua autoestima a cada vez que reforçamos esses estereótipos, a cada mulher para quem dizemos (ou mesmo pensamos): "Que pena, tão novinha..." 


terça-feira, 29 de maio de 2012

O corpo é meu! O Facebook não é nosso!


A marcha das vadias lavou minha alma. Lavou a alma de muita gente. Eu não sei muito bem o quanto eu precisava daquele momento na minha vida, eu sei que ele foi muito importante para mim. Desde que eu conheci o feminismo e fui lentamente tomando consciência de todas as pequenas violências que sofria, que tolhiam a minha liberdade em muitos aspectos diferentes, muita coisa foi embora de mim. Mas principalmente muitas pessoas foram embora. Só que ao mesmo tempo, eu não me sentia só. E nesse sábado eu não estive só mesmo. Cerca de três mil pessoas em Brasília estiveram comigo, botando para fora em alto e bom som muito daquilo que dizemos todos os dias discretamente: queremos ser respeitadas e isso independe da forma como falamos, nos vestimos (ou não nos vestimos), nos relacionamos. Só que muita gente por aí nem sabe o que o verbo respeitar significa. 

Foto da fan page da Marcha das Vadias DF
Aquela velha história de que mulher tem que se dar ao respeito carrega uma carga de machismo e moralismo tão grandes, que eu juro que não entendo como eu não consegui enxergar isso até alguns anos atrás. "Se dar ao respeito" não é respeitar suas escolhas, suas preferências, sua liberdade de ir e vir, de agir como quiser... Via de regra, "se dar ao respeito" é repetido por aí como sinônimo de privação de liberdade individual. Se você usa roupa curta, não se dá ao respeito. Se tem vida sexual ativa, goza e gosta muito, não se dá ao respeito. Se não tá afim de um relacionamento afetivo monogâmico, não se dá ao respeito. Se anda ficando com quem tá afim sem pensar em namoro, não se dá ao respeito. Respeito é uma palavra que precisa ser ressignificada. Respeito, como é repetido por aí, está diretamente ligado à invisibilidade da sexualidade feminina. Eu sou vadia e me dou ao respeito. 

Respeito não se pede, se conquista. Exigimos que nos tratem com respeito, e fazemos isso sem implorar de pernas e bocas fechadas, mas mostrando para a sociedade o quanto a sua noção de respeito é falha. Para isso é preciso união. É como nós gritamos na marcha: "Ah! que é isso! Elas estão organizadas!". E estamos mesmo, cada vez mais. E estamos conseguindo visibilidade também. Um movimento nacional que só em um final de semana reuniu cerca de 10 mil pessoas? Isso não passa despercebido. E com certeza aumentaremos em número e em consciência. Feminismo é um aprendizado constante. 

Foto da fan page da Marcha das Vadias DF 
Entretanto, a luta ainda é necessária. Prova disso é a forma reacionária e moralista como o facebook tem encarado as fotos das mulheres que estavam na marcha com os seios de fora. Que fique claro: não são fotos pornográficas. Seios não servem apenas para entreter os homens, mostrar os seios na marcha é uma atitude política, porque o nosso corpo não é apenas sexual, ele é político. Ele é tão político, que em alguns países as mulheres precisam escondê-lo inteiramente ou podem morrer caso não façam. O facebook parece ignorar essa característica e tem apagado sistematicamente as fotos das moças de topless. Infelizmente, a mesma rede social que apaga fotos não pornográficas de mulheres exigindo uma sociedade mais justa, não apaga imagens racistas, homofóbicas ou misóginas. Ultimamente nem tenho mais usado a opção "denunciar" do Facebook, tenho ido direto ao safernet e à PF denunciar esses conteúdos. Isso posto, é de se perguntar porque a nudez choca mais que a violência cotidiana. 

Foto da jornalista Luka Franca
censurada pelo Facebook
Não é a primeira vez que isso acontece no facebook, em outro momento fotos de mães amamentando foram retiradas arbitrariamente da rede social. MÃES. AMAMENTANDO. O corpo feminino é sempre sexualizado ainda que ele não seja usado para fins sexuais. Me diga, você se alimenta cobrindo o rosto? Porque um bebê precisa se cobrir para se alimentar? Foi necessário protestar com mamaços virtuais para o Facebook permitir fotos de mães amamentando seus filhos. Se você acha que o Brasil é um país libertário em que tudo pode, pense de novo. Não é bem assim, a onda conservadora que assola o país também esbarra nos nossos corpos. por isso é preciso gritar: "Meu corpo, minhas regras!" Fazer ouvir a voz de quem nem sempre, no dia-a-dia pode externar esse sentimento sem receber toda sorte de julgamentos morais. 

Ao contrário dos homens, que ao sentir calor não pensam duas vezes em tirar a camiseta, mulheres não tem esse privilégio. Guess what? Mulher também sente calor. Mas toda a nudez feminina será censurada. Toda nudez será objetificada, será rotulada, será retirada dos perfis do Facebook como se fosse ofensa. E ofende também o fato de que nem sempre os seios exibidos são durinhos, apontem para cima, caibam na mão. Com certeza o peitaço no fim da marcha das vadias de Brasília foi o final perfeito para a marcha de um movimento libertário como o feminista, porque contradiz essa idéia de que a mulher é um pedaço de carne. O nosso corpo não é inerte, não é produto, não é objeto, ele também fala por nós.  Lamentamos profundamente que a maior rede social do mundo tenha uma visão tão tacanha do corpo feminino.

Foto por Leiliane Rebouças

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Dialética da Popozuda: Linguagem, Poder, Sexualidade


"Então mama, pega no meu grelo e mama
Me chama de piranha na cama
Minha xota quer gozar, quero dar, quero te dar"


Aviso axs navegantes: este é um post pró-Valesca Popozuda. Se você é do tipo que não suporta a moça porque _______ (insira aqui algum juízo de valor), eu desaconselho fortemente a leitura deste texto. Ou não, já que o debate saudável é sempre bem-vindo :-)


Já perdi a conta das vezes que li e ouvi coisas do tipo: “as mulheres lutaram tanto pela liberdade e agora vem um lixo humano desses e faz uma COISA assim” (tudo sic, com grifos apavorados meus). E a polêmica da vez ficou por conta do novo hit da Valesca, Mama, que conta com mais de 1 milhão de visualizações no iutúbi (trata-se de um pagode “proibidão” feito em parceria com Mr. Catra). 


Pois bem. Não demorou muito e vimos o fatídico comentário circulando nas redes sociais, todo envergonhadinho da “liberdade” concedida às mulheres. E sinceramente? Esse comentário e suas variantes só evidenciam o quanto a luta ainda é necessária. Dá muita preguiça de explicar, mas não tem outro jeito: em uma sociedade patriarcal como a nossa, a noção de moralidade também se dá em termos de opressão. E não é preciso uma bola de cristal para adivinhar que, ainda que a sociedade esteja em pleno avanço e as mulheres tenham conquistado um espaço público cada vez maior, ainda falta muito para que a sexualidade feminina não assuste.

Pensemos um pouco na sexualidade humana como socialmente construída. Por muito tempo, o silêncio a respeito era a palavra de ordem. Foi assim até que um dia os cientistas, do alto de seus aventais, resolveram dar caráter acadêmico a tudo o que uma outra galera, a de batinas, dizia que era “normal”. Estava posta a Scientia Sexualis que, segundo Foucault, foi a maneira ocidental de discursivizar (e por que não controlar?) o sexo. Falar de sexo passou a ser necessário e até desejável. Porém, a sexualidade feminina continuou a ser paulatinamente ignorada, tratada sempre como mera coadjuvante no processo de dar prazer ao homem. 

E por que eu tô fazendo toda essa digressão? Pra explicar que não, você não é obrigadx a gostar da Valesca. Você não precisa adicionar o funk à sua playlist. Mas não custa parar para refletir que, para além da dicotomia liberdade x libertinagem, é preciso pensar nos processos de poder que normatizam a gente, inclusive sexualmente. E isso inclui uma séria análise de quais discursos estamos defendendo. Porque, a partir do momento em que a nós, meros mortais, foi dado o direito de colocar o sexo em palavras, algum poder nos foi sim conferido. E uma Valesca falando abertamente de sexo, de forma crua e não-floreada, está se utilizando desse poder e mostrando à sociedade que uma mulher também pode sentir prazer.

Com tudo isso, chegamos noutro ponto que precisa ser discutido aqui: a questão social que envolve as músicas da Valesca, incluindo a música Mama. Há um incômodo com o fato de a Valesca se colocar como uma mulher que tem vida sexual ativa e diz isso abertamente? Sim. Porém, a bronca toda não se restringe a isso. O que incomodou e ultrajou até a galere de bom nível intelectual foi mesmo a linguagem utilizada. Porque a linguagem é popular. E a elite tem pavor de tudo que considera “vulgar”, especialmente em se tratando de sexo.

Dessa forma, se considerarmos todo o processo que levou o ocidentinho a transitar de uma situação de total proibição de verbalizar o sexo, para a total transformação deste em discurso - primeiramente através das confissões dadas aos padres e mais adiante em forma de “receitas” dadas por especialistas para “melhorar” e, porque não, regular o ato sexual - veremos que ainda estamos muito presos e guess what? A prisão se dá, essencialmente, pela linguagem. Em outras palavras, o que ficou muito evidente nessa discussão toda é que a elite ainda sente a necessidade de sutileza, de trejeitos para falar de sexo, se negando a aceitar que tem cu, buceta e pau tanto quanto a classe popular. O sexo explícito dessa forma dá a impressão de algo sujo, bem distante da realidade de uma elite que quer fazer sexo com álcool gel. 


Portanto, Valesca e suas variantes são uma afronta à lógica vigente, que determina o que tem ou não valor artístico, segundo sua própria visão do que seria adequado a cada gênero. Lembremos que os Mamonas Assassinas falaram coisas como “sabão crucru, não deixa os cabelos do saco enrolar com o do cu” e não foram julgados. A Valesca fala da própria sexualidade utilizando palavras similares e é julgada. Assim como uma Rihanna que toca a própria vagina em seus clipes e, ao contrário do que ocorria com um Michael Jackson ou Axl Rose, é execrada pelos moralistas de plantão. A própria Letícia (cem homens) tem um exército de trolls prontos a odiá-la pelo simples fato de ter o controle da própria sexualidade e verbalizar isso. 

E o debate não se esgota aqui. Ainda há muito o que ser falado. Há, inclusive, que se pensar no fato de a Valesca ser ou não feminista (já adiantamos que sim, ela é feminista, e isso independe dela se auto-intitular, ter consciência ou não disso). Porém, como o post está assaz extenso, deixemos o debate feminista para outra feita. Beijos Valescanos! 

* Post escrito por Flávia Simas com colaboração de Paula Mariá, Gizelli, Elisa e Thaís Campolina. 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Guestpost: Coletor menstrual: prós e contras

Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva 2@ Vermelha, um evento que surgiu com o objetivo de nos colocar para falar sobre menstruação, esse tema que pode ser símbolo, tabu, orgulho, vergonha, dor, alegria e muitas outras coisas dependendo da forma como é vivido por cada uma de nós. A leitora Natália Schmidt preparou um guestpost super bacana para nós contando a sua experiência com o coletor menstrual. Afinal, falar de menstruação é também questionar tudo o que está ligado a ela, desde a TPM até os nossos absorventes.

Coletor menstrual, para quem não conhece, é um recipiente (um “copinho”) reutilizável de material maleável (geralmente silicone) que serve para colher a menstruação. Funciona assim: você coloca no canal vaginal e ele se prende por meio de pressão nas paredes vaginais. Depois, é só retirar, esvaziar no vaso sanitário ou na pia (ou ainda, se quiser, diluir o sangue na água e regar as plantas !) e colocar de novo! Depois do ciclo menstrual, deve ser esterilizado e ele estará pronto para ser usado novamente. Hoje, existem várias marcas que comercializam (destaque para MissCup, que é a única marca brasileira), mas até um tempo atrás não era assim, e além de tudo, era difícil de se achar.

 Há 2 anos, fiquei sabendo do coletor menstrual pela minha irmã, li sobre e achei super interessante o fato de ser reutilizável e portanto ecológico (sempre me incomodei pela quantidade de absorventes que vai para o lixo). Além disso, é livre de pesticidas e outros produtos químicos dos absorventes tradicionais. Decidi experimentar. Na primeira menstruação, achei um pouco desconfortável na hora de inserir. Para colocar: a gente dobra o “copinho” e coloca, chegando na posição correta, é só soltar que ele desdobra e fica preso por pressão na parede vaginal. Por causa da pressão, senti um pouco de dor. Para tirar, mesma coisa. E vazava, bastante. Além disso, me incomodava com o “cabinho” do coletor em alguns movimentos. Fui reclamar com a minha irmã e me surpreendi quando ela me disse que para ela, tinha sido ótimo, e ela amou.
            Pesquisando, descobri que só vaza quando colocado da maneira errada. E que é preciso praticar até não vazar. Além disso, lendo no manual de instruções, foi muito alívio quando descobri que pode (e deve, se te incomoda) cortar o “cabinho” do coletor. O “cabinho” está lá para facilitar o manuseio, para dar mais segurança para quem ainda está insegura, mas se incomoda, deve ser cortado. Decidi então dar uma segunda chance.
            Na segunda vez, acertei o pé. Consegui colocar direito, nos primeiro dias, vazou um pouquinho, e depois não vazou mais. E o corte do “cabinho” foi realmente um alívio.
            Depois disso, foi “amor a segunda vista”! Sou assumidamente apaixonada pelo meu coletor menstrual, porque conforme o passar do tempo, eu fui me adaptando melhor, e percebi que ele foi uma das melhores invenções dos últimos tempos... rs
            Entre os pontos positivos, o fato dele ser muito mais ecológico que os absorventes tradicionais ganha destaque. Mas se fosse só por esse ponto, nós poderíamos adotar os absorventes de pano, não é mesmo ? Acontece que o coletor menstrual é também muitíssimo confortável. Depois do período de adaptação – e salvo raras exceções -, você não vai nem sentir mais, garanto  (as vezes, eu esqueço que estou menstruada). Pode ser praticado qualquer atividade física durante o uso, inclusive nadar. Você pode ficar, teoricamente, de 4 a 8 horas sem esvaziar, mas eu já cheguei a ficar 12 (!) horas tranquilamente (depende do fluxo). Além disso, é mais econômico. O custo de um coletor menstrual da marca Misscup, segundo o site, é de R$ 75,00, e pode durar de 2 a 10 anos (depende de alguns fatores, como a frequência de uso). Podemos gastar em torno de R$ 200,00 em absorventes descartáveis por ano!
            Os outros pontos positivos menos óbvios, mas não menos importantes: nessa cultura de desvalorização de tudo que diz respeito ao corpo das mulheres, e inclusive – e especialmente - a menstruação, utilizar o coletor menstrual é uma ótima maneira de quebrar mitos e conhecer melhor o seu ciclo. Eu, pessoalmente, amo menstruar, acho lindo, e o coletor menstrual me permitiu um contato muito mais profundo com meu ciclo. É muito legal ver a quantidade do fluxo – e perceber que não é uma hemorragia descontrolada, afinal -, perceber que aquele odor desagradável e forte da menstruação nada mais é que o absorvente comum abafando o local, entre outras coisas. Aliás, o coletor menstrual é também mais higiênico, menos propenso a desenvolvimento de alergias e de algumas pragas, como a candidíase. Além do contato com o próprio ciclo, o manuseio do coletor estimula o conhecimento do próprio corpo – o que infelizmente, é tão negligenciado na nossa sociedade.
            O único ponto negativo de acordo com a minha experiência é que esvaziar em banheiros públicos pode ser uma experiência não muito bacana. Eu sou desastrada por natureza, e dependendo da situação do banheiro público, eu não consigo retirar, esvaziar e colocar novamente sem me sujar. Para tirar e colocar, ainda sinto cólica por causa da pressão, mas não é nada que me incomode tanto.
            Enfim, sou uma mulher assumidamente apaixonada pelo meu coletor!
            Eu uso da marca Mooncup. No site das marcas Mooncup e Misscup tem mais informações e depoimentos. E no site do MissCup também tem uma pesquisa legal sobre a opinião das consumidoras. Vale a pena pesquisar e experimentar! :-)

Observação: nem toda mulher menstrua e nem toda pessoa que menstrua é mulher.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Menstruação é tabu?

'Menstruate with pride', oil on canvas, 215 x 275 cm - Sarah Maple

           Quem nunca ouviu a frase "Fala mais baixo, ninguém precisa saber que você está naqueles dias" ao pedir um absorvente pra colega de sala? Durante meu ensino fundamental, depois de passar muito pelo "Shiiiiiiiiu, não fale isso alto, você não tem vergonha?", eu descobri uma série de apelidos que o período menstrual tinha, por exemplo, "Tô de papai noel", "Tô de chico", "Tô naqueles dias", "Estou com visitas" e "Sinal vermelho", entre outros, todos eles com o fim de esconder a menstruação ou colocá-la com um nome "menos nojento". Os mitos que envolvem a menstruação são vários, quem nunca ouviu que mulher menstruada não pode arrumar a cama porque quem deitará naquela cama ficará doente? E não podemos esquecer dos famosos "mulher menstruada não pode fazer bolo, porque impede que ele cresça" e do "nesses dias não pode lavar o cabelo não, porque o sangue vai pra cabeça". Além desses mitos, há também o mito de que a mulher menstruada tem que ficar de repouso durante o período, e também que a mulher deve evitar de sair de casa "nesses dias". É fácil perceber como o corpo designado como feminino e a menstruação são cercados de mitos de toda espécie. Os últimos dois mitos citados tem um caráter de esconder ainda mais a mulher, além disso é possível refletir que durante o período menstrual as regras para as mulheres ficam ainda mais rígidas, como se a menstruação fosse um castigo.

  O período menstrual, na sociedade patriarcal, é considerado um período de purificação da mulher, a menstruação é vista como algum impuro, sujo, assim como a mulher, que ao mesmo tempo em que é glorificada pela maternidade, é odiada em todas as outras formas. As mulheres são consideradas desde a Antiguidade perigosas, misteriosas, frias e o tabu da menstruação cresce baseando-se num suposto lado obscuro feminino, que supostamente é expelido durante a menstruação, e essa ideia é que fomenta a Bíblia condenar o contato da mulher menstruada com os demais familiares, lugares e coisas consideradas santas, por considerar o sangue impuro. 

            E a sociedade contemporânea compactua com esse pensamento de diversas formas, a menstruação é vista como algo a ser escondido, algo sujo, imundo e que não deve ser falado, principalmente com homens cis, porque “eles não precisam saber dessas nojeiras”. O nojo da menstruação é o nojo do que é considerado feminino, tudo que faz parte do ciclo menstrual, como o sangue, a vagina, o útero e os ovários são considerados imundos. E a mesma lógica do nojo da menstruação se aplica ao nojo da vagina, o constante estímulo comercial de venda de absorventes diários que teriam a função de despistar o cheiro da vagina, os sabonetes íntimos, a vinculação da depilação com a higiene são formas de esconder e despistar o feminino. E o ódio ao nosso corpo está muito vinculado a esse tabu, afinal, a vagina é considerada feia, incompleta, com cheiros desagradáveis e tem contato com o sangue de menstruação, com tantos julgamentos a respeito do que é bonito, feio, bom e mau, conhecer nosso corpo não é nem cogitado.

            O tabu da menstruação, a misoginia e o tabu de sexo estão interligados. A menstruação na nossa sociedade simboliza que o que vem das mulheres é impuro, a misoginia está na vinculação do que é feminino ao que cheira mal, é feio, nojento, impuro e por fim, o tabu do sexo. O sexo com uma mulher menstruada é considerado um "pecado" em diversas culturas, na maioria delas, os homens que tivessem contato com o sangue de menstruação também seriam considerados impuros, como as mulheres. Há diversos mitos sobre o tema, um deles diz que as mulheres que engravidassem durante o período menstrual teriam filhos-monstros. Em outras culturas simplesmente é dito que a gravidez ocasionada pelo sexo com contato com sangue de menstruação originaria apenas filhas mulheres e por isso deveria ser evitado. O tabu do sexo vai além do sexo com menstruação. O estímulo de esconder tudo que é vinculado ao sistema reprodutor feminino faz parte da própria repressão sexual feminina, visto que esconder o ciclo menstrual seria reforçar que o desejo sexual deve ser escondido. O sexo e o desejo são considerados pertencentes ao homem cis, enquanto a mulher deve esconder seu desejo até aparentar não ter nenhum.

            Colocar o tema “menstruação” como algo exclusivamente pertencente ao feminino, evitar tocar no assunto perto de homens, é sintomático. O corpo da mulher não é dela, o corpo pertence ao que o homem pensa sobre ele e para haver a libertação é necessário falar sobre, parar de esconder e se envergonhar do próprio corpo. Falar sobre menstruação, é tomar para si o desejo, o tesão e sua autonomia. 

Observação: nem todas mulheres menstruam e não somente mulheres menstruam, entenda melhor lendo textos no "Transfeminismo". Os mitos sobre a menstruação além de misóginos e machistas, são também cissexistas.