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terça-feira, 2 de outubro de 2012

A mulher inteligente, segundo o patriarcado


Peço desculpas antecipadas pelo tema escolhido, já que a querida Paula Mariá já falou nesse post sobre a dualidade entre estética e sabedoria. Por isso, talvez eu caia no erro de me repetir um pouco. 

Dia desses, me vi num debate via twitter com algumas amigas sobre a questão "beleza versus inteligência". Uma relação antagônica e opressora que no fim das contas deseja nos calar, nos silenciar (como sempre). A questão é que desde crianças somos treinados para reconhecer apenas esses dois signos: A beleza e a inteligência, pois é comum os pais (e as pessoas em volta da criança) elogiarem a inteligência e a beleza delas, deixando de observar que existem outras características notáveis.

As mulheres, em especial, são cobradas pela beleza - e por "beleza", entenda "padrão de beleza" - desde cedo. Falo por mim e por outras, pois tenho certeza que não sou a única: minha primeira dieta foi por volta dos 10 anos de idade, assim que entrei na puberdade e ganhei algum peso. Fiz alisamento nos cabelos aos 12 anos. Me depilei pela primeira vez também com essa idade. Contudo, a beleza é uma via de mão dupla, pois ao mesmo tempo em que nos cobram beleza para participar minimamente de um sistema de sociedade castrador e machista, nos dizem que beleza não é o suficiente para que sejamos compreendidas como seres humanos, agentes de nossas vidas. A beleza nos põe ocupando a função que o patriarcado exige das mulheres: meramente decorativa. Não estou com isso tentando desvalorizar aquelas mulheres que são vaidosas, longe de mim, apenas estou explicando como se dá a cobrança por um padrão inatingível para muitas pessoas.

Exemplo de imagem que separa
mulheres em para pegar e para casar
No momento que nos damos conta de que ao mesmo tempo em que somos cobradas pela beleza, somos chamadas de fúteis, de vazias, nos exigimos o outro signo, o da inteligência. Só que a inteligência que nos requisitam e que é premiada nas mulheres não deveria ser chamada dessa forma. Quem por aí não se deparou com relatos sobre a figura mitológica da mulher para casar? A mulher para pegar é aquela cuja beleza é preponderante e a mulher para casar é aquela cuja ~~inteligência~~ , acompanhada de beleza ÓBEVEO, é essencial. Não faltam memezinhos na internet demonizando mulheres e que expressam essa diferença de tratamento. Contudo, a mítica mulher inteligente, da qual tratam as imagens, só é chamada assim quando o seu pensamento se alinha ao pensamento masculino, ao pensamento daquele homem que se interessou por ela. Mulher inteligente, aos olhos de muitos homens, é aquela que não o questiona. E isso não pode ser chamado de inteligência.

Antes dos haters aparecerem perguntando "E é errado que ela concorde com ele em alguma coisa?", vou logo esclarecer: Não significa que as mulheres não devam concordar com os homens, não é disso que esse texto trata, mas da forma como costumam categorizar uma mulher como possuidora de inteligência. 

Essa polarização de beleza e inteligência é extremamente frustrante, porque faz com que esqueçamos que as pessoas não se reduzem a uma característica única. As pessoas podem ter outras características ou talentos dignos de admiração, como coragem, ousadia, determinação, bondade, solidariedade, saber dançar, pintar, tocar um instrumento e etc. Muitas coisas podem tornar uma pessoa interessante para alguém. Essa idealização da mulher dentro de certas características é muito engessadora, pois tolhe a diversidade, a pluralidade. Exaltar outras características é garantir liberdade para que sejamos quem de fato somos.

Além disso, e principalmente,  esse esforço em reduzir o conceito de inteligência às afinidades de uma mulher ao pensamento de um homem é também uma espécie de Backlash. Pois, a mulher que é valorizada é aquela cujo pensamento se alinha ao status quo e é moldada por, e para, homens.  A liberdade da mulher é uma ameaça ao patriarcado, e ao mesmo passo ele reage, imputando-lhe a idéia de que não questionar é que é ser inteligente.

Para ilustrar, eu vejo muitas amigas postando por aí a seguinte imagem:


Sério, gente? sofrer calada? Sofrimento silencioso é muito conveniente para a manutenção de relacionamentos abusivos, por exemplo. Essa é uma idéia muito torta. Internalizar o sofrimento para não parecer emocional, não parecer que se importa e etc. Por que sofrer calada? Simples: Porque se não fizermos isso, seremos desqualificadas. Porque mulheres inteligentes não reclamam de homens. Alguém dirá que a imagem fala em sofrer com dignidade. Mas que dignidade é essa que nos silencia assim? Isso para mim tem outro nome: opressão.

No dia internacional das mulheres desse ano eu me perguntei: "Mas cadê os elogios às mulheres que subvertem a ordem? Mulheres trans, lésbicas, vadias, peludas, revoltadas, militantes, sindicalistas, abortistas, rebeldes com armas em punho? Essas se tornam invisíveis ao patriarcado, para essas não existem elogios."

E é exatamente disso que se trata essa manutenção da dualidade beleza versus suposta inteligência, se trata de não dar à mulher o direito à sua própria opinião, o direito de questionar e subverter. E rejeitar sistematicamente aquelas mulheres cuja forma de pensar, agir e viver se distancia de um ideal patriarcal de mulher.

sábado, 14 de julho de 2012

Disney-Pixar Valente: essa princesa aqui tem mãe!

*CONTÉM SPOILERS*

De um lado, temos o estúdio de animações Pixar e seu histórico: nenhuma protagonista do sexo feminino. De outro, temos a Disney: nenhuma princesa que tenha, de fato, uma mãe. Uma mãe com presença, que realmente se relacione com a filha. A boa notícia? A Disney-Pixar lança seu mais novo filme, Valente, que conta com uma personagem principal feminina, cuja história é praticamente toda centrada na relação mãe e filha. Foi emoção demais para o meu coraçãozinho feminista. 

Eu gostaria muito de escrever um texto sem spoilers, mesmo porque este não tem a menor pretensão de ser uma resenha (e porque eu sou péssima nisso, beijos). Porém, findado o processo de escrita, eu percebi que botei a história mais a perder do que o esperado. Peço sinceras desculpas. Creio que ultrapassei limites por conta do encantamento gerado por essa bela animação. O motivo do fascínio passa, obviamente, pelo fato de eu tê-la achado feminista.

A princípio, vou tentar focar na parte simbólica do filme: achei acertada a escolha do urso para firmar o enredo. Eu acho que o urso fornece um escopo muito forte para ilustrar o grau de profundidade de uma relação mãe e filha.

Porque é justamente o urso, animal temido e ao mesmo tempo admirado ao ponto de virar brinquedo de pelúcia, que possui a simbologia da introspecção, do despertar de consciência. Em culturas como a indígena norte-americana, o urso é o símbolo da sabedoria. O urso é visto como aquele que sabe discernir se o ato de continuar a insistir em algo vale ou não a pena. E, tomada a decisão, o urso não pestaneja em mudar, seguir adiante.

Como fiquei satisfeita de ver a simbologia do urso aparecendo na animação, fui ler mais a respeito e acabei encontrando um pouquinho acerca do urso na simbologia céltica: trata-se de animal cujos poderes são igualitários entre macho e fêmea. A mitologia celta conta com duas deusas que se transmutaram em urso, a Andarta e a Artio. O urso-macho é associado ao Rei Arthur. Além do mais, o urso aparece, na tradição celta, como o arquétipo materno: mãe por excelência, a figura do urso estaria diretamente vinculada à maternidade e proteção de crianças. 

É justamente essa bela simbologia, de um animal que cuida, protege suas crias, ao mesmo tempo em que não hesita em ponderar suas crenças e portanto mudar, que aparece na tela de Valente. Aliado a paisagens belíssimas, muito bem arquitetadas graficamente, o filme conseguiu me prender do início ao fim. Eu li algumas resenhas bem negativas, dizendo que a animação tinha tudo pra ser uma grande aventura e não foi. O problema é que esses críticos não conseguem enxergar que os desenhos animados (pelo menos os mainstream) nunca se aventuraram a aprofundar o assunto <relação mãe e filha>. Isso pra mim foi A aventura. 

Mas os críticos ainda estão muito preocupados em ver ações de acordo com aquilo que o olhar “masculino” deles considera uma aventura. Desconfio que tais críticos, cujos links não acho dignos de compartilhar com vocês, esperavam que a “valentia” da Merida (o nome da protagonista é Merida, eu falei que não sei escrever resenha, certo?) se fizesse ao decepar monstros ou derramar muito sangue. Só que não. A Merida é valente justamente por defender a mãe. Com o bônus de não precisar de nenhum príncipe encantado para ajudá-la. Aliás, a ausência de um príncipe encantado salvador é também digna de nota, já que a Disney é conhecida por reforçar o mito de que mulheres não sabem se virar sozinhas, colaborando, assim, com a manutenção do patriarcado nosso de cada dia. 

E o ápice da valentia se dá numa das cenas mais fortes do filme. Aquela cena em que me foi impossível não chorar. A cena em que, simbolicamente, ocorre uma violência doméstica. A cena em que ficou claro pra mim que a Disney finalmente entendeu que não precisa matar a mãe da princesa pra fazer uma história tocante, que valha a pena. Trata-se do momento em que a Merida se coloca entre o pai e a mãe e, muito corajosamente, desafia o pai e o impede de matar a própria esposa. Achei a metáfora perfeita, tanto para ilustrar a real de uma violência contra a mulher (ilustrar é diferente de justificar, pfvr), como para mostrar que somente após a morte de mães como a da Branca de Neve,  da Cinderella, da Ariel, da Bela, da Pocahontas, além do fato de Rapunzel e Bela Adormecida terem retornado à convivência materna somente após os 16 anos, que a Disney admitiu que, oh céus, dá pra retratar mãe e filha juntas, vencendo obstáculos, aprendendo uma com a outra, sendo amigas! Lavei minh’alma.

Preciso abrir dois parênteses. Primeiro, pra falar que sim, eu entendo que muitas das obras mencionadas acima são adaptações de contos de fada que já existiam. Aliás, tem um texto ótimo que eu gostaria de linkar aqui, além desse outro texto, um guestpost publicado pela Lola, que fala sobre a evolução das princesas Disney. Por outro lado, se formos analisar os desenhos Disney como um todo, e não só aqueles baseados em contos de fada, veremos que a maioria absoluta retrata crianças/adolescentes sem mãe. O segundo parêntese é pra dizer que esse fato talvez corrobore o que uma amiga me disse outro dia: talvez a Disney nem tenha nada contra a figura materna em si, mas apenas queira demonstrar que a vida sem uma mãe se torna, literalmente, um inferno. O que acabaria por cimentar em nós a noção de que homens não são bons cuidadores. E que madrastas são todas carrascas. O que é igualmente problemático, a meu ver. 



Pra terminar, não posso deixar de mencionar o cabelo da Valente. Fez justiça a todas as meninas crespas. Saber que as garotas de hoje terão um arquétipo com um cabelo natural, não-domado, é muito gratificante pra mim. Eu sei que sou Pollyanna demais, mas entendam: eu não me recordo de UMA princesa ou boneca que tivesse um cabelo não-domado. Até a Tiana, que eu me lembre, teve seu cabelo penteado “certinho”. Lembremos que Valente conta com a assinatura da Pixar, o que faz muita diferença em termos de qualidade gráfica. Portanto, celebremos a cabeleira natural da Merida, com seus cachos heterogêneos que, mesmo molhados, dão a impressão de algo real, não-fabricado. Em tempos de plastificação de corpos, cabelos e mentes, isso já é um grande avanço. 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A birra da “exceção”


Dia desses uma imagem estava circulando no facebook, não consegui mais encontrá-la, mas lembro que se tratava de uma denúncia sobre o número de mulheres mortas na Paraíba, que é altíssimo. Uma moça revoltada comentou que os caras lá estavam sendo machos, machos de machista. Pronto, bastou para que alguém viesse dizer: peraí, cuidado com as generalizações. Mulheres sendo assassinadas brutalmente pelos seus companheiros... e o que mais incomoda essa pessoa é a generalização a respeito dos homens. Esse é um clássico quando a gente questiona questões culturais e sociais. Palavras como homens, brancos, heterossexuais, cisgêneros e classe média quando associadas a toda a opressão que, como grupos privilegiados, representam causa revolta naqueles que se consideram diferentes. Não há nada mais comum do que um discurso contra as generalizações, é como se os “bonzinhos” se sentissem oprimidos por nós que nos revoltamos com a cultura vigente e seus efeitos em nossas vidas. O que me parece é que essa “exceção” está tão preocupada em defender seu posto de diferente do outro que isso lhe soa mais importante do que os apontamentos que fazemos a respeito do mundo em geral. Ninguém está dizendo que não existem homens bons que de fato respeitam as mulheres e suas vontades. Mas o fato de existirem esses homens não impede que a cada 20 segundos uma mulher seja espancada no Brasil. Não impede que sejamos estupradas, violadas, humilhadas todos os dias pelos homens em geral. Não impede que continuemos a ser julgadas, reprimidas e destratadas pela roupa que usamos. Ser um homem “bom” é ótimo,mas o fato de você se preocupar apenas em ser reconhecido por isso não faz os homens ao seu redor bons também, ou seja, não transforma a nossa sociedade e não altera a nossa vida de maneira geral. Me parece muito mais um gosto por ser diferente do que uma consciência de fato. Quando alguém grita “mas peraí, eu não sou assim” está se orgulhando por não ser como os demais. O orgulho aqui então é justamente de ser a exceção, como uma birra adolescente de quem quer se destacar pelo que quer que seja. A ponto de me fazer pensar se a pessoa realmente deseja generalizar o comportamento positivo ou se perderia o tesão caso isso acontecesse. Eu realmente não sei.
Femstagram
O fato é que nós não vamos ficar falando das exceções porque elas simplesmente não nos interessam: Ainda temos o geral inteiro para mudar. Entenda, caro diferente, estamos aqui porque não queremos mais que você seja o diferente. Queremos que homens, brancos, héteros, cisgêneros que respeitam mulheres, negros, homossexuais, transgêneros sejam a regra.Queremos chegar no dia em que o cara dizer “ah, mas eu sou diferente dos outros homens” significa que ele é um crápula, desrespeitoso que ofende a mulher. Queremos que essa exceção da qual você tanto se orgulha não seja mais um diferencial e sim tão comum quanto andar para frente.E é isso que você deveria querer também. Se você não estupra, que tal se incomodar menos com as mulheres que falam “os homens estupram” e mais com os homens que de fato estupram. O que parece pior para você? Se você é realmente bom, por favor, foque na necessidade de transformação social geral e não na quantidade de confete que você quer ganhar por ser “bonzinho”.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Misoginia e linguagem cotidiana


No meu texto sobre piadas politicamente incorretas, eu falo um pouco sobre a importância do discurso. E quando eu falo em discurso, por favor, entendam toda forma de expressão, de linguagem que atinge a nossa sociedade. Esse tipo de análise é importante porque a nossa linguagem está permeada por seu contexto sócio-histórico, é esse contexto que determina o que é um elogio e o que é pejorativo, por exemplo. A palavra quando dissociada dele perde seu valor.

Além disso a linguagem nunca é neutra. Ela sempre é executada com algum objetivo, a comunicação em si é persuasiva. O objetivo pode ser informar, entreter, alterar a ordem vigente, ou transformá-la, mas de qualquer forma ele existe. Por isso a forma de expressão não altera a importância de seu conteúdo, não torna sua reflexão menos necessária. Piadas, xingamentos, brincadeiras, informalidades, tudo isso não deixa de ser discurso, ou seja, também está dotado de efeito persuasivo e também está envolto em contexto, portanto, reflete a sociedade que o utiliza.

A nossa linguagem cotidiana, de maneira geral, reflete em especial um termo que usamos muito por aqui: misoginia. Ou seja, o ódio, aversão, desprezo pelas mulheres e por tudo o que, em geral, é associado ao feminino.  Pensar o formato dos elogios e das críticas mais informais que estão presentes no nosso dia-a-dia é visualizar o quão enraizado está o machismo em nós.

Pense bem: Quais são os termos que utilizamos para xingar uma mulher? Vadia, puta, piranha, vagabunda, biscate e variantes são os mais comuns. Por que? Repare que todos os termos estão associados a sexualidade da mulher. Essa ainda é nossa maior ofensa. A associação da mulher como ser sexual com os possíveis erros que ela venha a cometer deixa claro que uma mulher sexualmente ativa e dona do próprio corpo representa socialmente algo negativo.

Em compensação, para xingar os homens, temos: Filho da puta, corno e, é claro, viado. Note que os dois primeiros termos não se referem ao homem em si, são na verdade críticas as possíveis mulheres que estão na vida dele. Ao cometer um erro ou demonstrar algum desvio de caráter o homem não é criticado, é como se as únicas responsáveis por fazer um homem “dar errado” fossem as mulheres. E de que forma? Bem, novamente, pela sua sexualidade. O problema é a mãe que trepou com vários ou a mulher que trepou com outro. O sexo é então usado como arma contra as mulheres, ele é o nosso erro.

O termo “viado” merece um parágrafo especial para uma explicação rápida sobre o seguinte fenômeno: Misoginia, a mãe da homofobia. Por que qual é exatamente o erro em ser viado? É se colocar na posição de mulher, é aceitar essa condição degradante de não ser mais um macho alfa. Tanto é que o que ouvimos de homofobia velada no maior estilo “pode ser gay, só não pode ficar por aí dando pinta” não está no papel. Esse “dando pinta” é basicamente ter qualquer tipo de comportamento que historicamente esteja associado ao feminino. Essa é a parte considerada degradante.

Delicadeza, sensibilidade, entre outras características que socialmente foram encrustradas no comportamento feminino são sinônimo de fraqueza e vexame. Em compensação, boas atitudes como coragem, valentia, ousadia, força são sempre: Coisa de macho. Mesmo quando é uma mulher que possui essas características, o elogio a ela é: Essa é macho hein. A palavra macho - que está associada a figura do homem, branco, heterossexual, magro (e, claro, com um pau de 25cm) - é a maior simbologia de admiração da nossa sociedade. O que isso nos diz? Tais características não são usadas como ofensa ou brincadeira pois esse é o ser humano ideal. Esse é o desejo de todos.

Nesse sentido, temos urgentemente a necessidade de nos reapropriar e ressignificar esses termos. A própria Marcha das Vadias, por exemplo, vem em função de desmitificar os termos associados a nossa sexualidade e retirar deles seu peso negativo. Afinal, não somente a linguagem representa uma estrutura social já colocada, ela também forma as posteriores, educa as próximas gerações. Quando dizemos para um garoto que ele está agindo como “uma menininha” em tom pejorativo, o que exatamente estamos dizendo a ele sobre meninas?

A linguagem adquire significado para nós conforme nos é apresentada ao longo da vida. Dessa forma é responsável pela perpetuação de preconceitos ou criação de ideologias de uma forma extremamente profunda. Atualmente toda essa nossa linguagem cotidiana grita o desprezo pelas mulheres e o mostra extremamente enraizado para nós e para as futuras gerações.

terça-feira, 24 de abril de 2012

E onde está o meu consentimento?

"Quanto tempo os homens querem que o sexo dure?", "10 coisas que ele nunca quer ouvir você dizer" e outras frases afins. A frase no meio é "Por que uma revista que é feita pra mim fala tudo sobre ele?"
Me preocupa a forma que as revistas destinadas ao público feminino falam sobre sexo. As principais chamadas são “Como agradar o seu parceiro?”, “Descubra o que os homens gostam na hora H” e coisas do tipo.

O prazer feminino é sempre deixado de lado e quando é falado se resume ao orgasmo. E pra ilustrar o quanto a qualidade essas reportagens anda ruim, já vi numa dessas revistas até um manual para mulher aprender a fingir orgasmo. (Afinal, o orgasmo feminino muitas vezes assume o significado de uma prova da virilidade masculina, uma amostra do poder dele. Ou seja, até mesmo o orgasmo feminino é visto como algo pra agradar o homem).
Coerção/coação não é consentimento
Lembro de um episódio de The Big Bang Theory que ilustra bem como o prazer feminino é visto pela sociedade. A cena é a seguinte: Leonard e Penny fizeram sexo. Ao comentar sobre a experiência, Leonard falou que foi “just nice”, que seria algo meio que “foi bonzinho”. E o personagem Howard disse algo como “Foi bonzinho pra você ou só pra ela? Porque se foi só pra ela tá tudo bem”.

 A invisibilidade do desejo sexual feminino e o tratamento dele como algo sem importância é rotineiro e revoltante, mas além dele me preocupa também esse discurso que o sexo é um instrumento para a mulher conseguir o que quer e manter um relacionamento. Parece que nenhuma mulher pode realmente gostar de sexo. Mais uma vez nos deparamos com a questão de “feminilidade” e da “masculinidade”. O sexo para a mulher seria algo íntimo, afetivo, enquanto que para o homem seria uma forma de se provar másculo e viril. As revistas femininas colocam o sexo como uma obrigação numa relação heterossexual, a obrigação parte da ideia de que a mulher precisa daquele relacionamento, precisa do afeto, do carinho, enquanto o homem precisa do sexo em si. E todo o relacionamento heterossexual parte (supostamente) dessas “diferentes necessidades”. A mulher oferece sexo para ter carinho e afeto, enquanto o homem oferece o carinho e o afeto para ter sexo.

O consentimento feminino é tão manipulado que até a hora de dizer sim ou não para o sexo é ditada pelas revistas. Sexo no primeiro encontro é repudiado, muitas vezes a mulher adia o sexo com medo de ser mal vista, conforme as dicas das revistas afirma que vai acontecer. A sociedade diz  "a mulher não deve se entregar aos seus desejos sexuais" porque isso mancharia a reputação dela. E a "hora do sim" que deveria ser quando os dois querem, sentem desejo e tesão é transformado pela sociedade patriarcal em o homem quer e a a sociedade acha que tá tudo bem, ou seja, quando a mulher já tem "o respeito" dele. Por exemplo, dentro de um relacionamento sério considera-se que a mulher deve fazer sexo quando o cara manifestar vontade ou será trocada.

O desejo sexual feminino é considerado como um apêndice do desejo sexual masculino. E toda mídia coloca a boa namorada/boa esposa como uma mulher que não nega fogo, que entende os desejos sexuais do marido e cede. E eu me pergunto onde está o nosso consentimento quando essas revistas tratam o sexo hétero como uma obrigação num relacionamento. Se uma mulher faz sexo com o parceiro porque teme ser largada, trocada, traída, tem algo muito errado ai, se uma mulher se depila de uma forma que ela não gosta porque o parceiro pede, tem algo errado ai. Se a mulher cede e faz posições que não gosta pra agradar o parceiro, tem algo errado ai.
Não é consentimento se você me faz ter medo de dizer não.
Em relação ao próprio prazer, o homem é hipersexualizado, enquanto a mulher é educada pra ser pouco sexualizada e sempre agir de forma passiva a respeito. As revistas exploram esses estereótipos dos papéis de gênero e lotam suas páginas com depoimentos onde homens falam que num relacionamento monogâmico buscam sexo fora do casamento porque a esposa não faz tanto sexo quanto eles querem, colocam o sexo deles como uma necessidade fisiológica. 

Numa sociedade que explora, produz e intensifica as inseguranças femininas, principalmente em torno do corpo e do padrão de beleza e é heteronormativa e monogâmica, esses depoimentos tem um poder de coação enormes. Se nós mulheres sentimos que seremos trocadas ao recusar sexo e fazemos sexo sem vontade, não há consentimento.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Relato de uma amiga a respeito de uma violência diária à coletividade

 Relato verídico de uma amiga e de uma cidadã brasileira, um relato que podia ser assinado por várias mulheres.

Escrevo para contar o que aconteceu hoje. Pensei que aconteceu tantas vezes, mas hoje foi mais forte e me indignei mais. Pensei que isso acontece todos os dias e que ao invés de educação, nos dão dois vagões no metrô/trem por cerca de 5 horas por dia. Contra a violação diária do direito aos nossos corpos ganhamos dois vagões nos horários de pico. Não tem educação. Não tem nada. Tem cartaz no metrô falando pr'a gente não colocar o pé na parede, tem cartaz no metrô falando pra não jogar lixo no chão, mas não tem cartaz no metrô falando pra não mexer na genitália das moças.

Hoje peguei o metrô para ir a faculdade. Peguei como pego todo dia. Quem é do Rio sabe o que é pegar a linha 2 (Pavuna) às 19h. Na verdade, quem é do Brasil sabe o que é pegar transporte público àas 19h.

Hoje um cara achou que seria bacana enfiar a mão na minha genitália. Não aquela roçada que vez ou outra a gente leva. Foi a mão. Quase embaixo da minha saia. E eu gritei. E esperneei. E sabe o que aconteceu? Nada. Ele saiu sorrindo numa estação depois da que eu comecei a gritar e eu fiquei lá. Talvez devesse ter descido e chamado a segurança.

Eu segui minha viagem (não sei se deveria ter descido, se deveria ter descido a mão na cara dele...) e ouvi, até descer no Maracanã que "Aposto que é baranga que está reclamando". E ver ou as pessoas rindo do que aconteceu ou completamente indiferentes. Nenhum olhar de indignação, nenhum olhar de compreensão com o que aconteceu.

E é isso aí. Ser mulher é isso aí. A qualquer momento alguém que você não conhece, não deseja, em uma situação que você não conhece e não deseja pode enfiar a mão na sua genitália e é tudo normal. Pq, né, foi só uma mão, não é como se o cara tivesse me violado ou algo assim, né?

Não. Ele me violou. Violou meu direito de dizer "não". Violou meu direito de escolher quem toca a minha genitália. Quem toca EM MIM.

E ele sorriu. Os companheiros homens riram, as outras mulheres, talvez tão acostumadas e preocupadas em não terem tocadas as suas próprias genitálias, sequer fazem coro com o meu grito de indignação.

E é isso.

Ainda hoje a mulher e seu corpo são tratados como propriedade pública. No Rio de Janeiro, neste centro urbano, nesse turbilhão de ideias, eu sou tratada como objeto.

Escrevi essa nota de maneira anônima pq tenho medo da reação das pessoas. Na internet as coisas tomam proporções gigantescas e isso vira faroeste, terra sem lei onde você é conhecido, ameaçado, ridicularizado. Sou feminista, universitária, independente, fui a vítima e ainda assim tenho medo.

Mas denuncio. Denuncio a violência que eu e todas as mulheres sofremos diariamente quando nosso único crime é estar lá, disponível com um corpo feminino.

Shame on us.