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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

40 escritoras para ler antes de morrer

A literatura é um espaço predominantemente branco, masculino e hétero. As listas de leitura obrigatória das escolas e de livros premiados são uma amostra de como mulheres escritoras são desvalorizadas pelas editoras e às vezes pelos próprios leitores. Clarice Lispector e Cecília Meireles, por exemplo, são os poucos nomes femininos que aparecem listados. 

Como mulheres sequer são vistas como sujeito, a literatura escrita por elas é muitas vezes definida como "livros para mulheres", como se mulheres não fossem capazes de escrever livros tão bons e interessantes como homens e como se o que é escrito por mulher não fosse digno de atenção da ala masculina. J. K. Rowling, autora da saga Harry Potter e do livro "A morte súbita", recebeu o conselho da editora de usar suas iniciais para assinar seus livros para que assim eles também atraíssem a atenção masculina e vendessem mais.

Como os livros escritos por mulheres são vistos como componentes da chamada "chick list", até mesmo a arte das capas desses livros refletem estereótipos de gênero. Numa sociedade misógina como a nossa, capas delicadas, baseadas em normas de gênero, por exemplo, não atrairão um público tão amplo já que muitas pessoas querem se afastar ao máximo do que é considerado culturalmente como feminino. 

Quando falamos sobre a baixa representatividade de escritoras mulheres ou de escritores negros, sempre ouvimos que mulheres, sejam negras ou brancas, e homens negros são mais raros nesse mundo bem restrito por "incapacidade" e não pelos motivos reais, que são a falta de oportunidade e até mesmo o apagamento dado aos membros desses grupos nos livros de história e literatura. 

Diante desse cenário, projetos como a Alpaca Editora e Lendo Mulheres, que buscam incentivar a leitura de autoras, são essenciais. Se você é uma pessoa que está interessada em ler mais obras escritas por mulheres, quer valorizar "as minas", mas não sabe por onde começar, seus problemas acabaram! Fique com essa lista de nomes de escritoras e suas principais obras:
35 escritoras e suas principais obras

Clarice Lispector e Carolina Maria de Jesus
Carolina Maria de Jesus foi uma mulher negra e brasileira que teve um de seus livros traduzido para 13 idiomas. Sua obra mais conhecida é "O quarto de despejo", um livro que é um diário que conta o cotidiano e as reflexões dela como mulher pobre e negra vivendo nos anos 50 numa cidade grande. Outras obras: "Pedaços da Fome" e "Casa de Alvenaria". 

Anne Rice escreve séries de livros de terror e fantasia. Seu maior sucesso literário é "Entrevista com o vampiro" que foi adaptado posteriormente ao cinema. Outras obras: "A rainha dos condenados", "Tempo dos anjos", "Os lobos da invernia" e "A dádiva do lobo".

Alice Walker escreveu "A cor púrpura", livro premiado com o Pulitzer e que foi adaptado para o cinema. Outras obras: Vários livros de poesia, romance e não ficção em inglês, como por exemplo: Once, Meridian e outros, mas em português sei que foi publicado no Brasil: "O templo de meus familiares", "Vivendo pela palavra" e "Rompendo o silêncio".

Ana Cristina César foi uma poetisa brasileira. Conheci um pouco de sua obra no livro "26 poetas hoje", uma coletânea de vários poetas e poetisas de uma época. Obras: "Luvas de Pelica", "A teus pés", "Inéditos e dispersos" e outros. É possível adquirir o livro "Ana Cristina César - Poética" que contem toda sua obra reunida. 
Chimamanda Adichie

Alice Ruiz escreveu 21 livros, entre eles poesias, haikais, traduções e até uma história infantil. Recebeu o prêmio Jabuti pela obra "Dois em um". Também compõe letras de músicas. Obras: "Nuvem feliz", "Desorientais", "Dois haikais", "Estação dos bichos" e outros. Confira as outras obras nesse link. 

Chimamanda Adichie é uma escritora nigeriana e muito conhecida pela sua palestra no TED sobre "O perigo das histórias únicas" e "Todos nós deveríamos ser feministas". Ganhou ainda mais notoriedade quando seu discurso sobre feminismo foi incorporado na música Flawless da Beyoncé. Obras: "Americanah", "Hibisco roxo", "Meio sol amarelo"

Léonora Miano nasceu em Camarões e se naturalizou francesa. Foi a primeira autora de origem africana a ganhar o prêmio Femina. Obras traduzidas: Até então só achei "Contornos do dia que vem vindo". 

Louisa May Alcott escreveu obras infanto-juvenis. Obras: "As quatro irmãs", "As filhas do Dr. March" e "Mulherzinhas".

Marguerite Duras escreveu peças de teatro, novelas, filmes e narrativas curtas. Obras: "O amante", "O amante da China do norte" "Barragem contra o pacífico" e "Cadernos da Guerra e outros textos".

Xinran
Xinran é uma chinesa que publicou vários livros, o título "As boas mulheres da China" conta diversas histórias de mulheres que ela entrevistou e mostra as dificuldades das chinesas quanto ao machismo. Outras obras: "Enterro Celestial", "Mensagens de uma mãe chinesa desconhecida", "O que os chineses não comem", "As filhas sem nome" e "Testemunhas da China". 

Mary Shelley é autora do clássico da literatura Frankenstein e sua obra "O último homem" tem muita influência no mundo da ficção científica. Outras obras: "Mathilda" e "Lodore".

Regina Navarro Lins é autora de 11 livros e escreve sobre relacionamento amoroso/sexual. Obras: as mais conhecidas são "A cama na varanda" e "O livro do amor". 

Ava Dellaira publicou seu primeiro livro, nomeado no Brasil de "Cartas de amor aos mortos". No momento trabalha na indústria cinematográfica, enquanto escreve sua segunda obra. "Cartas de amor aos mortos" conta a história de uma menina que perdeu a irmã mais velha. Prestes a iniciar o ensino médio, ela resolveu mudar de escola para fugir das pessoas comentando o falecimento, mas no colégio novo, a professora propõe a tarefa de escrever uma carta para alguém que já morreu.

Adélia Prado é uma poetisa que nasceu e vive em minha cidade, Divinópolis. Obras: "O Pelicano", "O homem da mão seca", "Terra de Santa Cruz", "Manuscritos de Felipa" e outros.

Marjane Satrapi é uma romancista gráfica que nasceu em Teerã, no Irã. Obras em português: "Persepolis", "Frango com ameixas" e "Bordados". 

Suzane Collins escreveu a saga "Jogos Vorazes" e criou uma personagem feminina incrível que é a Katniss Everdeen. A saga é dividida em três livros e os dois primeiros já foram transformados em filmes. Obras: ela também escreveu "As crônicas do subterrâneo", que é composto por cinco livros.

Lionel Shriver é jornalista e escritora. Escreveu "Precisamos falar sobre Kevin", livro posteriormente adaptado para o cinema. Outras obras traduzidas para o português: "O mundo pós-aniversário" e "Tempo é dinheiro" (Título original: "So much for that").

Maya Angelou tem uma vasta obra, mas infelizmente parece não haver muitos livros dela traduzidos para o português. Só achei o "Carta a minha filha", mas para quem lê em inglês, cito "On the pulse of morning", "I know why the caged bird sings" e "The heart of a woman".

Marina Colasanti publicou 33 livros. Alguns contos, histórias infantis e poesia. Obras: "Hora de alimentar serpentes", "Uma idéia toda azul, "Minha guerra alheia", "Poesia em 4 tempos" e outros que você pode conferir nesse link aqui.

Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir foi escritora e filósofa. Muitas pessoas acham que a única obra de Simone foi "O Segundo Sexo" e só a conhecem como feminista e não sabem que ela também escreveu romances. Outras obras: "Os Mandarins", "A convidada", "A cerimônia do adeus", "A longa marcha", "A mulher desiludida" e "As belas imagens".

Anaïs Nin é um nome para quem gosta de literatura permeada de um certo erotismo. Obras: "Pequenos Pássaros", "Delta de vênus" e "Fogo".

Carola Saavedra é uma escritora e tradutora que nasceu no Chile, mas veio para o Brasil aos três anos de idade. Recebeu o prêmio APCA de melhor romance pelo livro "Flores azuis". Obras: "Flores azuis", "O inventário das coisas ausentes", "Toda terça", "Paisagem com dromedário" e "Do lado de fora". 

Charlaine Harris escreveu a série "The Southern Vampire Mysteries" que conta as aventuras de uma garçonete telepata que é amiga de vampiros, lobisomens e outras criaturas estranhas. A série True Blood é baseada nessa série de livros. Outras obras: série "Aurora Teagarden" e série "Shakespeare".

Cora Coralina foi uma poetisa e contista brasileira. Obras: "Meu livro de cordel", "Tesouro da Casa Velha", "A moeda de ouro que o pato engoliu", "Vintém de cobre - meias confissões de Aninha".

Virginia Woolf
Virginia Woolf foi uma das representantes do modernismo, escritora, editora e feminista. Pra mim a principal característica de sua escrita, é que cada linha diz mais do que aparenta dizer. Escreveu "Um teto todo seu", "As Ondas", "Noite e dia", "Mrs. Dalloway", "Orlando", "Quarto de Jacob" e outros. 

Elvira Vigna é uma escritora, ilustradora e jornalista brasileira. Já recebeu o Prêmio Jabuti como ilustradora e como escritora de livros infantis. Ela começou sua carreira escrevendo literatura infanto-juvenil, mas hoje tem romances e contos publicados fora desse nincho. Seu livro "Nada a dizer" recebeu o prêmio de ficção da Academia Brasileira de Letras. Outras obras: "Por Escrito" e "O assassinato de Bebê Martê". Conheça mais títulos no seu site pessoal. 

Jane Austen foi uma escritora inglesa que hoje é considerada autora de obras clássicas. Suas obras mais conhecidas são "Orgulho e Preconceito" e "Razão e Sensibilidade", visto que foram adaptadas para o cinema. Outras obras: "Persuasão", "Emma" e "Mansfield park".

Eliane Brum é jornalista, escritora e documentarista. Escreve em alguns portais jornalísticos brasileiros como colunista, mas já se enveredou também para o mundo dos romances ao escrever "Uma Duas". Obras: "A vida que ninguém vê", "A menina quebrada" e "Meus desacontecimentos".


Conceição Evaristo
Conceição Evaristo é uma escritora brasileira que conciliou os estudos com o trabalho de empregada doméstica. Suas obras abordam temas como discriminação racial, de gênero e de classe. O romance "Ponciá Vicêncio" foi traduzido para o inglês e publicado nos EUA. Outras obras: "Becos da Memória" e "Insubmissas lágrimas de mulheres".

Lygia Bojunga é uma escritora brasileira que escreve literatura infantil e infanto-juvenil. Sua obra já foi traduzida para 13 idiomas, entre eles japonês, sueco e espanhol. Obras: "Corda Bamba", "Retratos de Carolina", "O sofá estampado" e "Os colegas".

Toni Morrison recebeu o Nobel de Literatura em 1993. Seus romances retratam a vida de mulheres negras nos EUA. Seu livro "O olho mais azul" é um verdadeiro estudo de raça e gênero. Obras: "Paraíso", "Jazz", "Amada", "Amor" e "Tar Baby".

Paulina Chiziane
Paulina Chiziane nasceu em Moçambique e foi a primeira mulher de seu país a publicar um romance. Obras: "Balada de amor ao vento", "Niketche: uma história de poligamia", "O alegre canto da Perdiz" e "Ventos do apocalipse" 

Nadine Gordimer publicou mais de trinta livros e foi uma das vozes sul-africanas contra o apartheid. Seus livros ganharam notoriedade internacional e ela recebeu um Nobel de Literatura em 1991. Obras: "O melhor tempo é o presente", "O engate", "De volta à vida" e "Contando histórias".

Lygia Fagundes Telles é uma escritora brasileira que já ganhou o Prêmio Camões. Obras: "Ciranda de Pedra", "Verão no Aquário", "As horas nuas", "O cacto vermelho", "Seminário de ratos" e "Antes do baile verde".

Cristiana Sobral é atriz e escritora. Obras: "Cadernos Negros", "Não vou mais lavar os pratos" e "Espelhos, miradouros, dialéticas de percepção".

Mais cinco escritoras feministas brasileiras da atualidade

Aline Valek
Aline Valek é uma escritora feminista brasileira. Você pode acompanhar o trabalho dela através do seu site ou mesmo assinar a newsletter "Bobagens Imperdíveis". Um dos textos dela que eu faço questão de indicar se chama "Apoie a escritora" e fala sobre o livro "Um teto todo seu", escrito pela Virginia Woolf. Nesse texto, Aline mostras as dificuldades baseadas em machismo e misoginia enfrentadas pelas escritoras. Outras indicações: "Gatos são mulheres que não se dão ao respeito", "Quem me estuprou", "Corpo que", "Troca de mensagens", "A escola me ensinou", "Dentucismo" e "Descobri que meu gato é deus"

Lady Sybylla é uma entusiasta da ficção científica. Também é feminista, professora e geográfa, além de blogar no site "Momentum Saga". Junto com a Aline Valek organizou uma coletânea de contos chamada "Universo Desconstruído". Seu conto no livro se chama "Codinome Electra". Juntas também disponibilizaram "O sonho de Sultana", escrito pela Roquia Sakhawat Hussain, tal obra é considerada a primeira história de ficção científica feminista.

Jarid Arraes é uma feminista que escreve cordéis e textos de opinião no "Questões de gênero" da Revista Fórum. Alguns títulos de seus cordéis são "Chica gosta é de mulher", "Dandara dos Palmares", "Dora, a negra e feminista", e "A menina que não queria ser princesa". Você pode adquirir os cordéis através do site pessoal da autora.

Alliah é genderfluid, feminista, escritora e artista visual. Você pode conhecer o seu trabalho assinando a newsletter "Alliahverso".

Clara Averbuck é escritora e também feminista. Escreve no site "Lugar de Mulher" e já publicou alguns livros, como "Vida de gato", "Das coisas esquecidas atrás da estante", "Cidade Grande no Escuro" e está escrevendo "Toureando o Diabo". Conheça seu site pessoal.

Observação: coloquei na lista escritoras que tivessem ao menos uma obra traduzida para o português. Gabriela Mistral, Audre Lorde, bell hooks*, Emily Dickinson e outras ficaram de fora por isso. Tentei mesclar indicações de escritoras mais conhecidas com outras que não são tão famosas assim, por isso vocês vão sentir falta de nomes como Rachel de Queiroz, Hilda Hilst, Hannah Arendt e as irmãs Brontë. 


Alguns nomes históricos: Teresa Margarida da Silva e Orta, Pagu, Rosa Luxemburgo, Maria Firmina dos Reis e Maria Lacerda de Moura.

Literatura de/para/sobre mulher não é subgênero - texto de Gizelli Sousa

Fiquem à vontade para acrescentar mais e mais indicações na caixa de comentários. 

Nosso texto também foi republicado no site da Revista Fórum

* bell hooks tem a obra "Ensinando a transgredir" traduzida em português e Audre Lorde tem artigos científicos traduzidos. 

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Pelo fim da romantização do homem branco europeu

Euzinha de turbante :)
Quando eu era criança e sofria todo tipo de bullying na escola por conta do meu cabelo e da minha religião (naquele tempo, eu era uma espírita pobre em escola evangélica de classe média alta, imaginem o drama), uma das formas que encontrei de sublimar meu sofrimento foi o apego à figura do príncipe encantado europeu. 

Minhas leitoras queridas devem estar se perguntando como se deu tal afeição, e eu me explico: a primeira (e mais óbvia) parte tem a ver com os contos de fadas. Eu poderia sonhar, bem secretamente, que eu era a princesa que um dia seria resgatada por algum príncipe, que evidentemente teria feições caucasianas. Hoje em dia eu sinto um frio na espinha quando lembro que as únicas referências de beleza que eu tive em minha infância foram de pessoas brancas, e é por isso que eu luto tanto por representatividade. 

A segunda razão é a que eu considero mais perniciosa: na minha infância e grande parte da adolescência, o que eu mais ouvia era que ninguém ia me querer. Eu, negra, obviamente não iria me casar. Ao meu redor, tias 'solteironas' (elas eram pejorativamente denominadas dessa maneira) não me deixavam avistar outro horizonte que não a solteirice. Atualmente há pesquisas que demonstram o quanto a mulher negra é preterida pela sociedade, ocupando um espaço de invisibilidade e solidão. O meu medo tinha muito fundamento. 

A luz no fim do túnel, pra mim, era recorrer à figura do homem europeu como tábua de salvação. Não foi uma idéia que eu tirei do nada. Afinal, várias tias minhas se casaram com holandeses, e eu tinha diante de mim não apenas uma nova geração de primas e primos com dupla nacionalidade, mas também primas brasileiras viajando para a Europa e se casando com moçoilos de lá. O glamour de esperar parentes no aeroporto reforçava em mim a idéia de que o amor romântico, heteronormativo, monogâmico e gerador de status social poderia sim acontecer pra mim. Ele apenas não ocorreria no Brasil. 

Dessa forma, eu fui crescendo ouvindo que eu era feia na escola, e sempre rebatendo que eu era feia só no Brasil, pois na Europa eu era linda. Minha resposta era sempre recebida com risadas irônicas e piadinhas, mas eu me mantinha firme, com uma convicção baseada em fatos familiares que me faziam crer que na Europa eu seria sim "a tal". Engraçado que isso se firmou tanto em mim como um mecanismo de defesa, que até hoje eu me pego com esse argumento. Como da última vez em que estive no Brasil e fui cortar o cabelo. O cabelereiro queria alisar meu cabelo "ruim" por tudo, e quando eu dei por mim lá estava eu falando que na Irlanda meu cabelo é lindo. 

Mas por quê exatamente eu estou me expondo dessa forma, com mais um causo a meu respeito? Bom, hoje é Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, e este post é minha homenagem à data - tão urgente e necessária - que ainda permanece esquecida. Eu entendo que a minha história não é das piores, e que me apegar à figura salvadora do homem branco foi (em partes) até benéfico pra minha auto-estima. As histórias da minha família são bem felizes e o tio mais incrível que eu tive nessa vida foi um filósofo holandês que deu uma boa contribuição à formação do meu caráter, e eu serei sempre grata a ele por todas as nossas conversas e por ter sido uma pessoa tão humilde, legal, ousada e iluminada.

Entretanto, estar fora do país há 6 anos, sendo que o último deles tem sido na Europa, mudou bastante a minha visão dos fatos. Vou tentar enumerar os meus achados aqui, e convido outras mulheres negras a adicionar suas próprias conclusões: 

1. Essa visão de que na Europa as coisas são "diferentes" não passa de uma romantização, uma idealização que tem como pano de fundo a própria noção de superioridade do homem branco europeu. O gringo europeu é muito mais festejado que gringos de outras partes do mundo. Se o gringo em questão for de algum país subdesenvolvido então… a Copa do Mundo nos deu a medida disso: os alemães foram simpáticos conosco? Sim. Mas houve um endeusamento que chegou a produzir um grande boato nas redes sociais e isso é sintomático da nossa visão romantizada do gringo salvador;

2. O racismo no mundo é endêmico. Ser negra, ter amigas negras, ser casada com uma pessoa negra - nada disso significa ausência automática de racismo. Porque o sistema é racista e nos ensina, desde muito cedo e de forma bem sutil, que na hierarquia da vida o negro está em posição subalterna. Eu tenho frequentado rolês de cabelos naturais, e perdi as contas das vezes em que mulheres desabafaram nesses espaços que seus maridos europeus não querem deixá-las ter o cabelo crespo natural. Isso não é mera coincidência. 

3. Essa 'preferência' de gringos por mulheres negras brasileiras reflete, em muitos casos, uma intersecção entre racismo e machismo, que tem como resultado a objetificação e exotificação do corpo da mulher negra. Aqui na Irlanda eu recebo muitos cumprimentos sinceros, mas também me assusta a agressividade de certos "elogios". Inclusive escrevi um conto a respeito disso no meu blog pessoal (http://theafrolatina.blogspot.ie). A exotificação ocorre porque se coloca o outro em um patamar inferiorizado, de desumanização, e isso é racista e muito grave.

4. É o meu último ponto, e também o que eu considero mais importante: eu não fui a única mulher negra a ter a figura do salvador europeu como prêmio consolação por não ser querida e apreciada dentro do meu próprio país. Isso é uma violência. Eu "comprei" a idéia, me apeguei a ela pra sobreviver? Sim. Mas não deixa de ser violento o fato de que a solução para a solidão da mulher negra brasileira é ir embora. Essa desvalorização tem que acabar e é por isso que nessa data nós estamos aqui, dispostas a falar, dispostas a lutar.

Que esse 25 de julho reafirme em nós uma identidade que nos foi negada. Que a nossa pele escura revele uma ancestralidade digna de orgulho, e não de apagamento e conformismo. Que nossos cabelos tenham a forma que desejarmos, e não a forma do mimetismo compulsório. Que a nossa negritude seja cada vez mais visível e apreciada por aquilo que ela é: um símbolo de beleza e muita resistência. 


terça-feira, 27 de maio de 2014

Não somos todxs vadixs



Mulheres são constantemente xingadas de vadias. As situações em que a palavra "vadia" é utilizada para nos ofender são várias e não só quando nós exercemos nossa sexualidade e usam essa palavra para controlar o nosso corpo e nosso comportamento. Mas é uma palavra que mulheres ouvem também quando tem suas fotos e vídeos íntimos disponibilizados na internet sem o seu consentimento, enquanto o criminoso nem mesmo é lembrado e muitas vezes é aplaudido por ter exposto essas mulheres que, para alguns, não mereceriam respeito. 

Somos chamadas de vadias quando bebemos, fumamos, respondemos cantadas, engravidamos fora do casamento, quando andamos sozinhas de noite, quando dizemos não para algum cara e até mesmo quando a gente denuncia violência de gênero na delegacia, ouvimos que a culpa foi nossa porque vestimos ou nos comportamos como vadias.

Vadia, vagabunda e puta são palavras usadas para desqualificar e ofender mulheres. Homens cis não são ofendidos com a palavra vadia. Eles não são desqualificados com essa palavra, não são vítimas de revenge porn, visto que a sociedade não chama o cara que faz sexo de vadio. Homens quando respondem grosseiramente cantada de rua não ouvem "vadio", os corpos deles não são vistos como disponíveis. Homens cis não sofrem culpabilização da vítima com gente dizendo que eles tem culpa porque se comportaram como um vadio.

É necessário observar que mesmo entre as mulheres o xingamento vadia tem pesos diferentes. Por exemplo, a mulher negra, que é vítima da soma de duas opressões, o racismo e o machismo, sofre com a hipersexualização de sua imagem, fazendo com que a palavra vadia, para muitas seja considerada impossível de se ressignificar. É só a gente pensar que ainda é comum ouvir absurdos como "Mulher negra não é para casar, apenas se divertir", coisa que a mulher branca não está sujeita. Outro exemplo, é o caso das mulheres trans e travestis, que são tratadas como um fetiche por vários e essa especifidade também deve ser lembrada. 

Apesar disso, em eventos feministas, como a Marcha das Vadias, é comum encontrar homens cis se designando vadias ou vadixs, o que é bem problemático, porque é uma apropriação de uma opressão que não os atingem. No caso do vadix, ainda há um adendo a ser feito, o uso da linguagem neutra pode ser visto como uma apropriação da causa trans, visto que essa é mais uma opressão que homens cis não sentem na pele.

Sei que muitos homens usam a frase "somos todxs vadixs" com boas intenções, querendo deixar claro que não concordam com as ofensas direcionadas às mulheres, mas assim como  "somos todos macacos" é uma frase que invisibiliza o racismo, "somos todxs vadixs" invisibiliza a misoginia. 

terça-feira, 23 de abril de 2013

O véu, o feminismo e a questão da escolha


Primeiro, falemos de islamofobia. Meu conhecimento é parco sobre o assunto e eu já adianto que ainda não consigo ver muito daquilo que nomeiam dentro de tal escopo como sendo islamofobia de fato. Mas, seria injusto negar que ela existe. Seria injusto, por exemplo, quando pensamos na cobertura absurda que a mídia faz a cada ataque que acontece no império (aka EUA). Pensemos em Boston. Para além do racismo evidente - CNN e zárias outras emissoras amplamente divulgando os suspeitos como sendo "de pele escura", para só depois descobrirmos que os suspeitos são (um era) quase duas brancas de neve - o que salta aos olhos no tratamento que se dá ao caso é uma crassa e latente islamofobia. 





No dia seguinte ao ataque, uma mulher muçulmana foi socada na rua, aqui nos EUA. Simplesmente por ser muçulmana. O soco partiu de um homem que gritou "F**am-se, muçulmanos! Vocês estão envolvidos nas explosões de Boston!". Há ainda que se salientar o fato de que, para a mídia, "terrorismo"é só aquilo que parte de muçulmanos. Esse esforço em rotular todo crime cometido em nome da religião de Maomé como "terrorismo", ao passo que se rotula crimes cometidos por fundamentalistas cristãos como "doença mental", é sintomático de como a islamofobia vem agindo no imaginário ocidental. Já ouvi inclusive a frase "nem todo muçulmano é terrorista, mas todo terrorista é muçulmano" e demorei um tanto a perceber quão grosseiramente ela enseja um juízo de valor tendencioso: a religião muçulmana traria em si o gérmen da violência. Como se todas as outras religiões que existem no mundo estivessem a tocar harpa, bebendo vinho e sorrindo, dançando abraçadinhas, em plena comunhão. 

"Então agora podemos esperar uma busca massiva pelos reguladores, gerentes e CEOs responsáveis  pela (ainda maior) matança no Texas? "Oh, isso não é terrorismo, é só capitalismo"

Segundo, falemos brevemente do Femen. É a primeira vez que me manifesto abertamente acerca do assunto, e não tenho muito a dizer. Antes de mais nada, quero deixar claro que acho lamentável o slutshaming que tem sido direcionado à Sara Winter há tempos. É péssimo abrir páginas de discussão e ver as pessoas esculhambando a Sara unicamente por sua atitude de mostrar os seios. É insuportável ver o falso moralismo que permeia tais comentários. Entretanto, eu não posso me esquivar de reconhecer que o Femen vai totalmente de encontro a tudo aquilo que creio justo e genuinamente feminista. Esse "neo-feminismo", essa mcdonaldização de uma luta social que se transforma em mero produto que tem a mídia como aliada, pra mim não faz sentido. Trata-se de uma instituição que flerta aberta e diretamente com uma direita ultra-reacionária. As evidências são muitas e não há mais como negar que o Femen se pauta por uma agenda fundamentalista. E eu, que já sou bem avessa a instituições, não poderia deixar de fazer coro com todas aquelas que dizem em alto e bom tom: o Femen não me representa!  



Tratarei agora de um terceiro ponto, que é o que me motiva a mal traçar essas linhas: feminismo e islamofobia. Na verdade eu não vou me ater muito ao Femen, mas achei válido mencioná-lo, pois foi o que motivou toda uma discussão que vem acontecendo em torno do tema, ultimamente (ou nem tão ultimamente assim, mas timing nunca foi o meu forte). Foi grande a mobilização em torno do muslimah pride e eu achei muito bonito ver mulheres muçulmanas impondo sua voz ao mundo, rejeitando o rótulo de eternas vítimas que está incutido no discurso feminista ocidental. Sabemos que o feminismo é um movimento plural, que atende um extenso número de demandas. Entretanto, é notável que, mesmo dentro do feminismo, algumas causas ficam mais visíveis que as outras. Eu acho péssimo que a idéia de um feminismo pequeno-burguês, que trata exclusivamente de interesses de mulheres brancas e de classes privilegiadas, tenha tanto destaque. Enquanto as causas de mulheres negras, mulheres trans e não-ocidentais em geral são relegadas a um plano inferior. Tudo isso denuncia o quanto o feminismo, enquanto movimento, ainda carece de análises que englobem a diversidade de vozes e interesses. A intersecionalidade (ver além da mulher branca de classe média) precisa se firmar no cenário geral do feminismo, e o caso das muçulmanas veio como um lembrete dessa urgência. 



Porém, eu tenho algumas ponderações a fazer acerca da islamofobia presente no feminismo. Acredito que qualquer manifestação minha que se dedique exclusivamente a exaltar a atitude dessas mulheres que vieram a público declarar seu orgulho em usar o véu - e apresentar o uso do mesmo como uma questão puramente de escolha - seria um ato de oblíqua diplomacia, e eu prefiro deixar a rasgação de seda de lado. Porque é justamente essa questão da "escolha"que me deixa em estado de alarme - não apenas com relação ao uso do véu, mas a toda e qualquer construção de gênero, advenha ela de "instrução divina" ou não. 


Uma coisa que eu sempre faço questão de enfatizar em discussões online é: concordo que não devemos olhar para as muçulmanas como umas coitadas que merecem ser "libertas" por nós. Acho que respeitar a próxima envolve reconhecer nela a nossa própria humanidade, e isso requer, além de humildade, entender que a pessoa não é alguém que precisa ser "consertada". O sistema está quebrado, não as pessoas. Entender e respeitar é fundamental. 


Entretanto, eu não consigo ver o "feminismo de escolha" como a grande solução para todos os entraves da humanidade. Uma passada por diversos fóruns online me dá a medida do que vem acontecendo hoje em dia: tudo, absolutamente tudo está sendo aceito e justificado pelo viés da escolha. Outro dia eu questionei a "escolha” em um fórum feminista de língua inglesa e isso foi suficiente para que eu fosse hostilizada. Ao questionar a sagrada escolha, eu estaria sendo tão opressora quanto o patriarcado, disseram. Isso muito me entristece. Questionar a questão da escolha enquanto instrumento do patriarcado deixa muita gente na defensiva, e eu acho que é justamente o que vem acontecendo nesse caso em específico. 



Uma busca no google mostra mulheres muçulmanas protestando junto ao Femen. A Amina é muçulmana. Entretanto, a impressão que fica é que apenas as ucranianas loiras estão protestando contra o islamismo, e isso não é necessariamente verdade. Eu já falei que não sou representada, e acrescento que acho bizarro o fato de que elas elenquem apenas mulheres magras e dentro dos padrões de beleza para seus protestos. Mas, eu não posso deixar de achar estranho o fato de que uma grande mobilização tem sido erguida para protestar contra as "feministas etnocêntricas", à revelia do fato de que há sim muçulmanas protestando contra os dogmas islâmicos. Amina, Dana Bakdounis, Ayaan Hirsi, Mona Eltahawy são alguns nomes que eu consigo me lembrar agora, de mulheres muçulmanas que se opõem aos símbolos da religião. 




Desde que passei a me considerar feminista, eu tenho manifestado interesse em entender os símbolos que o patriarcado utiliza para se perpetuar. Sendo assim, eu entendo a indústria da beleza como um símbolo. Esse enfoque obsessivo na aparência das mulheres é um poderoso mecanismo de controle, como bem atesta Naomi Wolf. Também não consigo ver algumas tradições, como a adoção do nome do marido, por exemplo, como algo neutro e inofensivo, como um não-símbolo do patriarcado. Não importa o malabarismo intelectual que possamos fazer para tentar justificar nossas escolhas mainstream - nome do marido, maquiagem diária, depilação por "higiene", roupas austeras ou biquíni - a partir do momento em que nos adequamos a certos moldes, estamos dizendo sim ao patriarcado. E não, eu não estou isenta disso. Saber-se oprimida não implica em transcendência automática de tal condição. 


Entretanto, o questionar é fundamental para toda e qualquer mudança. É bem verdade que nada ocorre do dia para a noite. Porém, essa lógica de que é tudo "escolha"e não compensa esquentar a cabeça com algo que repousa exclusivamente no âmbito das decisões individuais é, pra dizer o mínimo, perversa. Enquanto não entendermos de uma vez por todas que nossas escolhas são permeadas por toda uma questão de aceitação social, sendo que algumas escolhas são deliberadamente mais celebradas que outras, nada muda. E ficaremos dando murro em ponta de faca, insistindo em isentar as escolhas de seu caráter excludente e, por que não, opressor.




Dessa forma, eu acredito que é sim imperativo que o feminismo pare de olhar para o próprio umbigo e dê voz a todas as mulheres. Eu acho ótimo que as muçulmanas tenham se erguido para falar por si próprias. Acho ótimo quando qualquer mulher fale por si própria, por mais que eu discorde daquilo que esteja sendo dito. E é basicamente este o caso aqui: discordo dessa celebração quase cega da escolha. Em se tratando de patriarcado, nós precisamos sim discutir a burca. Assim como precisamos discutir símbolos cristãos, hindus e de toda e qualquer religião que tacitamente dirigem o nosso viver. Que instituição nenhuma se sobreponha à autonomia de uma mulher: eis a minha bandeira. Nunca questionarei a fé de ninguém. Mas os dogmas, esses precisam discutidos. 

"Obrigado por citar o seu exemplo pessoal para enfatizar que você usa o hijab por escolha própria, ignorando o fato de que a esmagadora maioria das mulheres muçulmanas são coagidas a fazê-lo" - Kunwar Khuldune Shahid

quarta-feira, 6 de março de 2013

Oito de março é dia de luta.

Texto de Thaís e Flávia. 

Não é novidade para ninguém que o oito de março, uma data que deveria reforçar a necessidade da nossa luta para sermos vistas e respeitadas como ser humano, é visto pela mídia e pela sociedade como mais um dia para reafirmar ideais de feminilidade.

Campanha da Prefeitura de PoA.
A Prefeitura de Porto Alegre, por exemplo, em sua página no Facebook, postou uma série de afirmações que iniciavam com um "só uma mulher sabe". E as frases utilizadas para complementar a chamada são exemplos do estereótipo do que é "ser mulher". A nossa existência não pode ser resumida, em nenhum dia do ano, a apenas chegar em casa e enfim poder tirar o salto alto ou em ficar triste porque estragou o esmalte recém passado.
  
A problemática desse tipo de manifestação que resume as mulheres a enfeites, seres frágeis ou quase mágicos por aguentar tripla jornada e poder ter filhos não está só no fato de que o oito de março é um dia de luta, mas também se encontra na reafirmação do que é "ser mulher".

O dia oito de março é cheio de homenagens que nos colocam num pedestal. A mulher ideal para a sociedade patriarcal é aquela que se sacrifica diariamente e é vista como forte por isso, aquela que aguenta calada xingamentos, ofensas em forma de piada e a restrição de seus direitos. E é por isso que é tão comum vermos comentários como "parabéns mulheres por aguentarem tudo". Sacríficio é algo considerado bonito, principalmente para quem é mulher. Porque quem é mulher parece ter que ser punida diariamente por isso, com salários menores, com tripla jornada e etc.

Banner da programação da semana da mulher.
Quando a mídia e a sociedade nos parabeniza por ser mulher, foca todas as ações do oito de março em distribuir flores e chocolates, fazer promoções de itens de consumo voltados para a vaidade feminina, ela não só reforça os papéis de gênero, como também negligencia como a violência contra a mulher continua sendo um problema sério. É fácil distribuir cartõezinhos e se esquivar de discutir em profundidade a guerra contra as mulheres em que se encontra o mundo. Porque ao discutir com profundidade nota-se que o problema é a cultura de ódio em que vivemos. Uma cultura misógina, machista, homofóbica, transfóbica, lesbofóbica e racista. 

Os feminicídios ainda são chamados de "crimes passionais", as "cantadas" que ouvimos na rua desde cedo são chamadas de elogios, a objetificação das mulheres ainda é rotineira. Os salários das mulheres continuam sendo cerca de 30% mais baixos que o dos homens, sendo que a mulher negra ganha ainda menos que uma mulher branca. 
  
Campanha resposta.
Oito de março é um dia de luta contra esse ideal de feminilidade tão excludente e opressor. É o dia de falarmos que não precisamos "aguentar caladas", de jogar fora essa idéia de que é legal se sacrificar, de incentivar a solidariedade feminina e nos empoderar. Nos empoderar para lutarmos não só nesse dia, mas diariamente.

Oito de março é um dia para lembrarmos que a nossa luta é diária, que a cada passo que damos para melhorar a vida das mulheres, a sociedade se encarrega de "nos colocar em nosso lugar", em um backlash que coloca à prova a nossa força. Às vezes o desânimo toma conta de nós, pois parece que nada muda. É por isso que datas como o oito de março são tão importantes. Porque é através das "homenagens" que recebemos, que fazem questão de celebrar um sistema castrador e opressivo, que encontramos força para protestar. Oito de março é dia de dizer: o sistema tem que mudar.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Beyoncé Feminista. E poderosa.

O texto que vos apresento abaixo está longe de ser uma unanimidade. Eu mesma confesso que nunca pensei na Beyoncé como um "grande ícone feminista". Tenho mudado de idéia. Principalmente por ter visto a última apresentação da diva, e pela leitura do texto abaixo, que traduzi com o intuito de postar aqui. E também pela leitura desse outro texto aqui (em inglês). 

Para contextualizar: o artigo trata, basicamente, da apresentação bombástica que a Beyoncé fez durante o intervalo do jogo de abertura do Super Bowl. Uma explicação rápida acerca do que é o Super Bowl se encontra aqui.

O nosso intuito, ao trazer esse texto para vocês, é estimular um debate a respeito. Eu, Flávia, acredito ser muito importante que mais e mais pessoas famosas se assumam feministas. Mesmo que elas se contradigam volta e meia, ou frequentemente, eu acho crucial que tenhamos mais visibilidade. E mais irmandade, afinal, ninguém está livre de contradições. Eis:




Imagem retirada da page do Machismo Nosso de Cada Dia, no Facebok
"Se o que você viu foi uma cantora vendendo sexo às massas em um figurino minúsculo, deixe-me dizer que você viu o que você queria ver.

Se o que você viu foi uma exposição ofensiva, inapropriada e hipsersexualizada de pernas e outras partes mal-cobertas, deixe-me sugerir que você viu apenas o que você estava  encarando, não o que realmente aconteceu naquele palco.

Se o que você viu foi uma artista levando homens (e mulheres) por toda a América a cometer o pecado da luxúria em seus corações, você perdeu o ponto totalmente.

Porque a performance da Beyoncé domingo passado em Nova Orleans não foi sobre sexo. Foi sobre poder, que a Beyoncé teve em abundância. Na verdade, o show dela foi uma das mais constrangedoras, encorpadas e proféticas demonstrações de poder feminino que eu já vi na televisão mainstream.

O fato de uma mulher negra ter se afirmado e se apropriado do seu poder durante essa celebração misógina e consumista conhecida como o Super Bowl realçou a bravura e o brilhantismo da mesma. Não é de admirar que as pessoas tenham tentado retomar o controle dela e de seu corpo ao marginalizar e sexualizar a sua performance.

A Beyoncé estava atraente, sexy? Certamente. Mas, mais do que tudo, ela estava poderosa. Poucas coisas são mais ameaçadoras à audiência masculina do que uma mulher bonita e poderosa que não precisa de um homem, nem mesmo de um olhar masculino.


Talvez os amigos não notaram conscientemente que não havia sequer um homem no palco. Durante aqueles poucos minutos, não houve vozes masculinas e nem corpos masculinos no controle, apenas mulheres que se recusaram a ser apropriadas. E não se tratava apenas de muheres dançando lá em cima, apesar do foco das câmeras ter sido basicamente nisso. As mulheres no palco estavam criando, tudo. Elas se apropriaram de imagens tradicionais masculinas e as transformaram em femininas - não apenas imitaram os homens. Elas estavam reinvindicando papéis e instrumentos tradicionalmente ligados a homens: os chavelhos e os saxofones, o solo pirotécnico de guitarra.  


Elas foram ferozes, mas se negaram a se masculinizar ou a se objetificar.
Parte de meus amigos zombaram da Beyoncé, postando insultos como " pior intervalo de show de todos os tempos" ou "tirem essa porcaria desse projeto de música do meio do campo". Teve um que simplesmente rotulou toda a apresentação como "Peitos do Sul Selvagem", um sofisma decididamente racista e sexista.

A resposta das minhas amigas foi marcadamente diferente. Uma exclamou, "o corpo dela é maravilhoso! Eu adoro como ela é encorpada! Eu quero aquele corpo e aquela energia!" O corpo da Beyoncé é importante - não porque é hipersexualizado - mas porque se tratava apenas de um corpo de mulher, não de um corpo de mulher esculpido para um homem.  

Então aqui, no meio dos comerciais e de uma cultura que objetificava as mulheres e seus corpos e no meio de um espetáculo esportivo que constrói poder em termos de violência, a Beyoncé começou sua performance derrubando a narrativa. Ao caminhar pelo palco, Beyoncé demonstrou mais poder em um punhado de passos premeditados e desafiadores que ambos os times durante todo o primeiro tempo. Em resumo, durante aqueles poucos passos, andando como uma mulher, a Beyoncé declarou posse daquele palco - daquele estádio - e, mais importante, reinvidicou posse de seu próprio corpo durante as mais misóginas e objetificantes quatro horas de cultura de massa.

É preciso ser guerreira pra conseguir fazer algo assim. Não foi de surpeender que na metade do show, a deusa guerreira hindu Durga apareceu, encarnada pela Beyoncé. Numa tela de pop-up, mãos emergiram e rodearam a Beyoncé por trás. Não se tratavam de mãos masculinas. Não eram as mãos de Justin Timberlake ameaçando despi-la em um "guarda-roupas defeituoso". Tratam-se das mãos dela e elas tentam abraçá-la, não para possui-la mas sim para expandir seu poder.

A imagem de Durga é a mais apropriada para a performance da Beyoncé. Durga, cujo nome significa um forte que não pode ser invadido. Durga, a mãe, a guerreira, a que protege do mal. Durga, a guerreira que luta contra demônios, e os vence.

Durante as duas semanas passadas, críticas foram disparadas à Beyoncé por dublar o hino nacional nas festividades de posse do presidente Barack Obama. Ela foi satirizada e descartada. Mas, domingo passado, a Beyoncé riu por último.

Quando as ex-integrantes do Destiny's Child deixaram o palco, a Beyoncé irrompeu em um poderoso número de dança. Naquele momento, parecia que ela estava dançando sobre o túmulo fresco do sexismo, da supremacia masculina, de todos os trolls que tentaram reduzi-la a qualquer coisa que não fosse bonita, talentosa, poderosa, qualquer coisa que fosse menos que uma mulher.

Foi uma dança de desafio.

E todas as mulheres do palco se juntaram a ela.

Não houve vergonha.

Beyoncé presenteou o mundo com a sua performance. Por 14 minutos, as mulheres não foram posse de ninguém. Ao invés disso, durante aqueles minutos poderosos e proféticos, a Beyoncé e as mulheres do palco se apropriaram da noite.

Naquela noite, os homens, a misoginia, a objetificaçao ou sexismo não venceram, ainda que tenham contado com a maior parte do tempo no ar.

Ao invés disso, graças à Beyoncé, as mulheres se apropriaram do Super Bowl XLVII."

* Texto de David Henson. Original, em inglês, aqui.