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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Eu tenho voz e digo: cantada não é elogio!

"Não te conheço, então não me chame de meu bem"

A campanha "Chega de Fiu fiu", organizada pelo site "Olga", recentemente publicou os resultados de uma pesquisa que o site promoveu sobre o assédio sexual no espaço público. Junto com várias pessoas que se sentiram contempladas ao ver esse problema social sendo tão falado e denunciado, surgiram também muitas pessoas, principalmente homens cis e héteros, revoltados com a indignação das mulheres com as cantadas.

Um dos principais argumentos utilizados por esses defensores do que eles chamam de "cantada inofensiva" é que ela tem a finalidade de elogiar, é apenas "parte da paquera". Eles se dizem preocupados com o fato de que essa "perseguição às cantadas" poderia impedir que a paquera acontecesse.

Mesmo com uma pesquisa que mostra que 83% das mulheres não gosta dessa abordagem, mesmo depois de vários relatos que mostram que mulheres se sentem incomodadas, ofendidas e até aterrorizadas com esse assédio, como podem essas pessoas insistirem nessa ideia de que as "cantadas" são inofensivas?

E como podem dizer que o terror que a maioria das mulheres vivem é uma paquera, quando vários relatos mostram que se você se mantem em silêncio constrangida com o assédio, o agressor profere ofensas e ameças? Como pode ser paquera sendo que uma das partes está claramente desconfortável, constrangida, incomodada e com medo da possibilidade daquela pessoa que "mexeu com ela" agredi-la? Como tamanha misoginia pode ser considerada uma forma de aproximação amorosa/sexual?
"Sua cantada me dá nojo" - Page Revolução com Fofura

O principal ponto para desmistificar o assédio como uma forma de abordagem para aproximação é que se uma das partes não demonstrou interesse em participar daquilo, não há como se falar em flerte ou paquera, porque não há mútuo interesse, não houve consentimento de uma das partes. A violação da liberdade da mulher é tamanha que as pessoas acreditam que existe um direito exclusivo para os homens de dizer para a passante o que pensa sobre o corpo dela, como se a gente andasse na rua segurando uma plaquinha dizendo "como estou hoje?". Nossos corpos não estão disponíveis para ser avaliados, nós não estamos interessadas em ouvir o que esses caras acham de nós. Somente a ideia de que é aceitável que homens desconhecidos avaliem nosso corpo e se sintam no direito de dizer o que acharam já demonstra como o espaço público ainda não é um espaço seguro para as mulheres.

Pensar que a "cantada de rua" é uma forma de elogio é ignorar a voz das mulheres que se manifestam contra essa conduta, é ignorar que mulheres tem o direito de ir e vir no espaço público sem ter seus corpos avaliados e também é ignorar que nós não precisamos da aprovação masculina.

Outra coisa que ronda o argumento do "e como fica a paquera?" é que ela se baseia numa heteronormatividade absurda. A "cantada de rua" será incômoda não só para as mulheres héteros que, pasmem, não precisam de aprovação masculina 24 horas por dia, mas principalmente para as lésbicas que sequer tem interesse em paquerar homens.

A sociedade vê a paquera como algo que deve partir do homem,  o suposto jogo da conquista que alegam que será prejudicado com essa revolta contra a "cantada" parte de uma fala masculina, que tem sido considerada incômoda pelas mulheres. Sendo assim, se vê que a ideia de conquista não está atrelada ao consentimento de ambas as partes. E deixa claro ainda que nestas situações a mulher é vista como um troféu, um objeto de enfeite e deleite. A mulher mais uma vez é desconsiderada como sujeito, ignora-se que ela tem sexualidade própria, desejos e sentimentos. É difícil para essas pessoas entender que só é paquera se há reciprocidade e consentimento. Gritar "gostosa" para uma mulher na rua não é paquera, assim como quando um colega de trabalho ou de sala de aula insiste durante seis meses em chamar a colega para sair, elogiá-la o tempo todo sem intimidade, num constante assédio que ignora que já foi dito não um milhão de vezes também não é.

O foco do que chamam de cantada, mas que na verdade é uma violência, é a manutenção e demonstração de poder. Não é paquera; se fosse, os desejos, a voz, e os sentimentos das mulheres teriam relevância e não veríamos tantas pessoas dizendo que o resultado dessa pesquisa é exagerado e tanta gente justificando essas agressões em nome de uma paquera que ignora os desejos de uma das partes.

É sintomático que diante de tantos relatos do terror que várias mulheres passam diariamente, tantas reclamações sobre essa conduta, tantas mulheres confessando o medo que sentem, ainda haja tanta gente afirmando que falar e combater o assédio no espaço público é uma bobagem. Os vários relatos de assédio não são a única uma amostra da misoginia de todo dia, a negligência com o que mulheres tem a dizer e essa insistência em nos tratar como objeto também o é.

Bons links: "Cultura do estupro no espaço público: nosso direito de ir e vir ameaçado"
"Mulheres e cantadas: uma relação de medo" 

"Quando eu ando na rua, eu não o faço para que você avalie meu corpo.Cantada não é elogio, é uma violência! E um sintoma de como a sociedade ainda não vê a mulher como gente."



sábado, 8 de junho de 2013

Marcha das vadias: rara oportunidade de liberdade da mulher no espaço público

Aproveitando que hoje aconteceu a Marcha das Vadias em Londrina (PR), aproveito para trazer meu relato atrasado sobre o que vivenciei na MdV de São Paulo.

A polêmica Caitlin Moran faz um apelo em seu livro “Como ser Mulher”: a assumir sua adesão ao movimento subindo numa cadeira berrando “Sou feminista”.


Para muitas de nós, esse momento de subir numa cadeira e gritar seus ideais feministas para o mundo tem uma data certa: A marcha das Vadias. Por mais que cada uma de nós declare seu ativismo no dia a dia, em ciberativismo, nas conversas de bar, nas atitudes, nos estudos, na universidade, no trabalho, em família, é nesse instante que um coro lindo se forma para mostrar o quanto o patriarcado nos oprime e dizer que não toleramos mais a violência contra o gênero feminino.

Arquivo pessoal
Aguardei ansiosamente pela data. Não só pelo protesto em si, mas por saber que ali eu encontraria meus pares. Mas, como nossas rotinas nem sempre colaboram, meu dia 25 de maio estava abarrotado de atividades inadiáveis.

Foi por esse motivo que eu me atrasei, iniciei minha marcha uma hora depois daquela definida pela organização. Perdi a oficina de cartazes, estando há duas quadras da praça do ciclista. E perdi a saída da marcha por responsabilidades escolares há menos de dois quilômetros da esquina da Paulista com a Augusta. Frustração define.

Dadas as adversidades, eu fiz, acompanhada de uma amiga, uma marcha um pouco mais silenciosa. Ambas vestidas de “vadias” atravessamos a rua Augusta, saímos dos Jardins até a Praça Roosevelt. E foi nessa nossa caminhada que a cada esquina, fosse um boteco, ambulantes, transeuntes ou motoristas, notávamos que as roupas curtas, ainda que com as pernas protegidas por meias opacas e casacos cobrindo nossos colos e abdome,  davam margem a olhares libidinosos, comentários grosseiros, convites inoportunos.

Será que é necessária muita empatia para que um assediador entenda que isso é agressão? Que um "psiu", "ê, lá em casa" e outros comentário análogos não são elogios? Em que momento nossas roupas autorizaram o assédio? Onde há previsão legal de que machistas detêm o direito de rotular pela vida sexual que eles imaginam que temos? 

Não, não há respeito à individualidade, à tranquilidade e à dignidade de uma mulher na rua. E está enganado que isso depende do quanto a vestimenta feminina revela o corpo.

Comportamento machista revisitado minutos depois de mil e quinhentas pessoas passarem por ali, celebrando o direito de se vestir como quiser. Homens se impondo, validando a masculinidade por meio de cantadas. Não te parece um abuso ainda maior? 

Num dia normal esse tipo de assédio me ocasionaria acuada, enojada, desprotegida, com aquela sensação de desprezo que toda mulher conhece e que tanto tememos demonstrar. Mas, naquele dia, e só naquele dia, a cada quadra que eu ultrapassava, a sensação de empoderamento aumentava. A rua era nossa.

Nós também sentimos calor
Ao final da caminhada quase que solitária (Geisa, obrigada pela companhia), encontrar uma bateria entoando cânticos feministas me marcou. Foi ali, que eu encontrei amigos, pude, aliviada, despir meu casaco, refrescar meu corpo e me rotular “vadia”. 

A cada grupo que eu via, meninas, mulheres, algumas crianças, homens, cartazes, sons e sensações, eu alimentava mais meu feminismo, reforçando todo o orgulho que eu tenho de berrar, sussurrar ou argumentar minha posição de feminista.


Importante mencionar que, cumprido o papel de ativistas, um grupo, cuja amizade se materializou na marcha, se reuniu para uma confraternização. 

Amigxs do grupo "Machismo Chato de Cada Dia"

domingo, 2 de junho de 2013

O que está acontecendo em Istambul

O texto a seguir é uma tradução de "What is happening in Istanbul", publicado pela escritora Defne Suman em seu blog. O texto é um relato dos conflitos em Istanbul, de como eles começaram e do que os "motivou". Como diz a própria autora, a internet é basicamente o único meio que restou para se disseminar informação, pois a mídia do país vem ignorando os acontecimentos. A tradução também pode ser encontrada aqui.



O que está acontecendo em Istambul

Para meus amigos que moram fora da Turquia: Estou escrevendo para que vocês saibam o que tem acontecido em Istambul nos últimos cinco dias. Eu preciso escrever porque a maioria das fontes de mídia foram desligadas pelo governo e o boca a boca e a internet são as únicas formas que restaram para nos explicarmos e pedirmos ajuda e apoio.

Há quatro dias um grupo de pessoas que não pertencem a nenhuma organização ou ideologia específica se reuniram em Gezi Park, em Istambul. Entre eles, muitos dos meus amigos e alunos. A razão era simples: para evitar e protestar contra a iminente demolição do parque para a construção de mais um shopping no centro da cidade. Existem inúmeros shoppings centers em Istambul, pelo menos um em cada bairro! 

A demolição das árvores deveria começar no início da manhã de quinta-feira. As pessoas foram para o parque com seus cobertores, livros e crianças. Elas montaram suas tendas e passaram a noite sob as árvores. No início da manhã, quando os tratores começaram a puxar as árvores de cem anos de idade, os manifestantes se levantaram contra eles para interromper a operação.Eles não fizeram nada além de se colocar diante das máquinas. Nenhum jornal, nenhum canal de televisão estava lá para cobrir o protesto. Foi um blackout total da mídia.
Foto da página Occupy Gezi no Facebook

Mas a polícia chegou com os veículos com canhões de água e spray de pimenta. Eles expulsaram as multidões para fora do parque.À noite, o número de manifestantes se multiplicou, assim como o número de forças policiais ao redor do parque. Enquanto isso, o governo local de Istambul fechou todos os caminhos que levam à Praça Taksim, onde o Gezi Park está localizado. O metrô foi fechado, as balsas foram canceladas, estradas foram bloqueadas.

No entanto, mais e mais pessoas fizeram o caminho até o centro da cidade a pé. Elas vieram de toda Istambul. São pessoas de todas as origens, diferentes ideologias, diferentes religiões. Todas elas se reuniram para impedir a demolição de algo maior do que o parque: O direito de viver como cidadãos honrados neste país.

Elas se reuniram e marcharam. A polícia perseguiu-as com spray de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo e jogou seus tanques sobre as pessoas, que devolviam o ataque com porções de comida. Dois jovens foram atropelados pelos tanques e foram mortos. Outra jovem, uma amiga minha, foi atingida na cabeça por uma das bombas de gás lacrimogêneo. A polícia estava atirando diretamente contra a multidão. Após uma operação de três horas ela ainda está na UTI em estado muito crítico. Enquanto escrevo isto, não sabemos se ela vai ficar bem. Este blog é dedicado a ela.
Essas pessoas são meus amigos. São meus alunos, meus parentes. Elas não têm nenhuma “agenda escondida” como o Estado gosta de dizer. Sua agenda está lá fora. É muito claro. O país inteiro está sendo vendido para as empresas pelo governo para a construção de shoppings, condomínios de luxo, estradas, barragens e usinas nucleares. O governo está procurando (e criando, quando necessário) qualquer desculpa para atacar a Síria contra a vontade de seu povo.

Acima de tudo, o controle governamental sobre a vida pessoal de seu povo tornou-se insuportável nos últimos tempos. O Estado, sob sua agenda conservadora, passou muitas leis relativas ao aborto, à cesariana, à venda e uso de álcool e até mesmo em relação à cor do batom usado pelas aeromoças.

As pessoas que estão marchando para o centro de Istambul estão exigindo seu direito de viver livremente e ter justiça, proteção e respeito do Estado. Elas exigem participar dos processos de tomada de decisão em relação à cidade em que vivem.

O que elas receberam, pelo contrário, é força excessiva e enormes quantidades de gás lacrimogêneo disparado diretamente em seus rostos. Três pessoas perderam a visão.No entanto, elas ainda marcham. Centenas de milhares se juntam a elas. Milhares atravessaram a Ponte Bósforo a pé para apoiar as pessoas em Taksim.

Nenhum jornal ou canal de TV estava lá para relatar os acontecimentos. Eles estavam ocupados com a transmissão de notícias sobre Miss Turquia e "o gato mais estranho do mundo".A polícia continuou perseguindo as pessoas e pulverizando spray de pimenta a ponto de cães e gatos de rua morrerem envenenados. 

Escolas, hospitais e até hotéis cinco estrelas em toda a Praça Taksim abriram suas portas para os feridos. Os médicos encheram salas de aula e quartos de hotel para prestar os primeiros socorros. Alguns policiais se recusaram a pulverizar pessoas inocentes com gás lacrimogêneo e abandonaram seus postos. Ao redor da praça foram instalados aparelhos para evitar o acesso à internet e as redes 3G foram bloqueadas, então moradores e empresas da região cederam suas redes wi-fi para as pessoas nas ruas. Restaurantes ofereceram água e comida de graça.

Pessoas em Ankara e Izmir foram para as ruas para apoiar a resistência em Istambul.A grande mídia continuou mostrando a Miss Turquia e "o gato mais estranho do mundo".
***
Estou escrevendo esta carta para que vocês saibam o que está acontecendo em Istambul. Meios de comunicação não lhe dirão nada sobre isso. Não no meu país, pelo menos. Por favor, postem tantos artigos quanto puderem, espalhem as notícias.
Eu estava postando artigos que explicam o que está acontecendo no Facebook na noite passada e alguém me perguntou o seguinte:
“O que você espera conseguir reclamando do nosso país para estrangeiros?”
Este blog é a minha resposta a essa pessoa.Pelo chamado “reclamar” sobre o meu país, espero ganhar:
Liberdade de expressão e discurso,
Respeito dos direitos humanos,
Controle sobre as decisões que tomo em relação ao meu próprio corpo,
O direito de me reunir legalmente em qualquer parte da cidade sem ser considerada uma terrorista.
Mas, acima de tudo, por espalhar os acontecimentos aos meus amigos que vivem em outras partes do mundo, eu espero obter o seu conhecimento, apoio e ajuda!
Por favor, espalhem as notícias e compartilhem este blog.
Obrigada!

Defne Suman."

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A rua também é minha - a misoginia no trânsito

Olá! Inicio a postagem, e minha participação nesse blog, me apresentando. Sou Kelly, de apelido Kel (use esse meu codinome, por favor), tenho a sensação eterna de inadequação e insatisfação, sou feminista, acredito que a dignidade só é plena quando somos livres e iguais. E agora sou uma ativista de sofá.

Ah, me esqueci de uma característica. Sou boa motorista. Apesar do pavor de dirigir em engarrafamentos. E fazer balizas. E de não ter senso direção sem o uso de GPS. Talvez eu não seja assim tão boa, apesar de cautelosa. Mas, por favor, eu não represento todo o gênero feminino no trânsito. Então, não queira ofender todas as mulheres, se eu cometer algum deslize, gritando para mim algo como “tinha que ser mulher”.

O trânsito é um ambiente selvagem. Essa mesma abordagem já foi realizada, com maestria, aqui. Motoristas, de todos os gêneros, agindo de modo egocêntrico, desrespeitando regras e cometendo falhas. Conhece o icônico desenho em que Pateta se transforma em "Motorista Diabólico" ao administrar o volante? 

É fácil notar que, apesar de ser o trânsito um ambiente público, o interior do veículo é o espaço privado dxs indivíduos. Quem nunca lidou com a raiva de algumx motorista que decidiu compartilhar seu gosto musical nas ruas? Ou umx motorista asseadx que não tira o dedo do nariz? Fácil lembrar de alguns tipos caricatos de motoristas. Certamente você me apontaria muitos. A psicóloga especialista em trânsito Neuza Corassa elaborou um rol de tipos de principais motorista. Tente se reconhecer.



A solução para o caos no trânsito parece cada dia mais inalcançável, com o aumento do número de carros circulando nas ruas (e a diminuição do IPI), a conservação inadequada das vias e incapacidade da turma que gerencia o tráfego. Um fato. Mas, e na parte que cabe à civilidade dxs motoristas? Comportamento adequado dos usuários não amenizaria o problema? Ver o trânsito como um ambiente de compartilhamento e não de competição?

Sim, competição! De quem tem maior poder financeiro, ou de quem é mais másculo, ou de quem é mais independente, ou de quem é mais impetuoso, ou de quem tem o espírito mais jovem, ou de quem não leva desaforo para casa. Uma rinha. É ambiente público, logo de dominação masculina. Com muitos aspectos que caracterizam a presença feminina como uma intrusão.

O elemento não humano essencial ao trânsito é o veículo. Ele não é mero objeto funcional que cuida do deslocamento das pessoas, é o ícone máximo do consumismo. A materialização do poder alcançado, do espírito indomável, do desempenho, indicativo de posição social. A combinação ideal para o másculo motorista, proativo, racional e invencível. 

Soma-se a isso a ideia de exclusividade, mesmo que a maior parte da população só tenha acesso a carros produzidos em série. A sensação de que se é especial pode ser suprida pela presença de belas mulheres, como troféu. O que importa é causar competição e provar masculinidade. Já ouviu a saga do rapaz que teve seus problemas afetivos resolvidos com a aquisição de um Camaro Amarelo? Foi essa a resposta de Gabriel Gava. Na humildade. 

"De Land Rover é fácil, é mole, é lindo
Quero ver jogar a gata no fundo da Fiorino"

Quando direcionado ao público o feminino, as características são outras. Um carro para pequenas distância, algo entre fazer compras e buscar as crianças na escola. Com linhas arrendondadas, de preferência  pequeno, fácil de estacionar. A publicidade da Ferrari, é muito elucidativa. Enquanto ele se aventura velozmente por pistas arborizadas ou rochosas, ela cautelosamente guia pelo trânsito urbano, em busca de objetos de luxo.


"Mulheres dirigem, essa é uma realidade, o que mais vocês querem?" - dirão alguns tentando nos silenciar. Mas, o papel de motorista ou passageira pode estar condicionado à presença masculina. Já observou que, dentre casais heterossexuais que saem juntos, raramente é a mulher que guia? E que às mulheres não costumam ser ensinadas, no processo de instrução pré habilitação, a parte mecânica além daquelas enfadonhas aulas teóricas do Centro de Formação do Condutor? Ou mesmo que em muitas famílias a única tarefa doméstica que é declinada ao homem é a de lavar o carro? 

A cobrança, interna e de toda a sociedade, é imensa. As estatísticas apontam a mulher como motorista que menos causa acidente. Ah, e claro, há até aquela compensação de um preço menor no seguro por ser uma "boa menina". 

Extreme de dúvidas que a mulher é socialmente considerada incapaz de dirigir com a mesma destreza dos homens. A cada mulher que apresenta dificuldade de dirigir há uma consequência: todo o gênero feminino é diminuído, ridicularizado.

Consequência disso é que dxs motoristas fóbicxs, lá daquele quadro elaborado pela especialista em trânsito, a maioria são mulheres. Uma segurança alimentada constantemente, pelos brinquedos, pela tevê, pelas convenções sociais e por piadas. Que, espero, você, leitorx desse blog, não reproduza nunca mais.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Por que espaços políticos exclusivamente femininos são tão necessários?


De Anna Grrrl.
Quando se fala em "espaços políticos exclusivamente femininos", a polêmica se instala. Mas os motivos dessa polêmica existir e sempre dar grandes debates em grupos e coletivos feministas é só mais um sinal de como essa espécie de grupo é necessária para a nossa militância.

Por que apoiar a existência de espaços exclusivamente femininos? Bom, quando a gente pensa nos espaços que compõem a nossa sociedade, a gente percebe que nós mulheres não sentimos a sensação de "pertencimento" e liberdade em nenhum dos espaços conhecidos. A rua "é" dos homens e eles sempre fazem questão de nos lembrar disso quando alguns deles nos assediam e nos fazem temer pela nossa integridade física/sexual. A escola/faculdade/trabalho são espaços públicos, assim como a rua, logo, de pertencimento dos homens. A casa costuma seguir os moldes da sociedade patriarcal e ter como líder dela um homem, mesmo que sejam as mulheres que limpem e a mantenham. Nossa voz tem menos valor em todos esses lugares. Espera-se nesses locais que a gente se comporte como nos foi ensinado: submissas, frágeis e quietas.
  
Se todos os espaços que conhecemos, mesmo que pareçam mistos, nos sentimos como intrusas, há algo bem errado, não? E é a partir dessa reflexão é que a gente deve começar a pensar na necessidade dos espaços políticos exclusivamente femininos.

Se homens e mulheres não têm espaços iguais na sociedade, pegar um espaço e fazê-lo unicamente feminino não fere a igualdade que o feminismo busca, porque se todos os outros espaços são masculinos e esse espaço feminino servirá pra fortalecer os laços entre as mulheres e construir um movimento de emancipação e libertação, não há ofensa. A existência de um espaço que """""exclui""""" a parcela dominante da sociedade é simplesmente um mecanismo das mulheres de saírem da situação de marginalização que a dominação masculina as colocou. 

Retirado daqui: Anna Grrrl - 
Tradução: Eu luto como uma garota.
O espaço político exclusivamente feminino não fere os homens e nem tem a intenção de fazê-lo. É simplesmente uma forma de auto-organização que é extremamente necessária para o movimento feminista. Vivemos em um mundo onde a voz da mulher não tem valor, onde não acreditam em amizade feminina verdadeira, onde tentam nos calar fazendo piadinhas sobre nossos papéis de gênero a cada momento que temos coragem de levantar a voz contra as opressões sofridas, onde o termo "mulherzinha" é considerado uma ofensa. E onde a presença masculina é opressora para as mulheres, por mais que o cara seja igualitário e nos respeite, nós fomos condicionadas a temer os homens e a nos calar frente a eles. 

Nós precisamos de espaços políticos exclusivamente femininos para que possamos juntas nos organizar para combater as opressões, para fortificar nossos laços com outras mulheres, aprendermos a ouvir as outras mulheres e digo até que a existência deles é importante para que a gente combata nossos machismos internalizados. Por que a gente precisa tanto pedir para que os homens participem de mais um espaço? Será que é porque a gente foi condicionada a sempre pedir "aprovação" para o que pensamos?  Esses espaços nos ajudam a nos emancipar, a construir uma autoestima independente de aprovação masculina, a aprender a amar outras mulheres e a bater de frente com todo nosso machismo e misoginia internalizados. 

Apoiar espaços políticos exclusivamente femininos não é ser excludente. Não é oprimir homens. Não é buscar privilégios. É simplesmente fortalecer nossa luta. E multiplicá-la. Afinal, apoiar esses espaços não é ser contra espaços mistos. É simplesmente querer somar aos espaços mistos outros espaços.

E termino esse texto dizendo que muitos dos argumentos utilizados a favor da defesa dos espaços femininos se aplicam também na defesa de espaços políticos exclusivamente para mulheres negras e/ou lésbicas. E a mesma lógica se aplica também quando trabalhadores e operários buscam um espaço para discutir suas idéias sem a participação dos patrões.

Recomendamos MUITO: "Separatistas são os homens", de Cely Couto. 

E também: "Guestpost: Feministas chatas e lugares de fala" de Lídia Freitas
 "Cultura do estupro no espaço público: Nosso direito de ir e vir ameaçado." da Gizelli Sousa. 
"Por que precisamos de espaços exclusivos?" - Blogueiras Negras, sobre espaços exclusivos para pessoas negras. 
E "Não pediremos: "por favor parem de nos oprimir"" de Thaís e Flávia. 

Imagens do tumblr Anna Grrrl.
Página do facebook: Anna Grrrl.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

De mulher para mulher, Machista


Essa semana mais uma propaganda da Marisa foi veiculada e pela terceira vez seguida, estamos diante de uma bela demonstração de preconceito. Só para variar, afinal isso quase nem acontece na publicidade, não é? O que realmente causa algum espanto é que uma empresa cujo slogan é "de mulher para mulher" seja machista. Aliás, já li algumas pessoas na rede satirizarem o slogan da Marisa: "De mulher para mulher, Machista". De fato, eu não poderia concordar mais. Vamos relembrar as campanhas que nos fizeram repudiar a marca, mas antes do almoço que é para não acabar botando tudo para fora, beleza?

Primeiro rolou aquela propaganda de lingerie super bacana (só que jamais), mostrando "estatísticas" sobre como está difícil conseguir homem na praça. 





A premissa é: Mulheres (hetero, claro, porque para a Marisa, lésbicas não existem) passem a competir entre si por um belíssimo exemplar de macho viril. Para a Marisa, homem só vale à pena se seguir à risca aqueles velhos estereótipos de gênero. Homem não pode gostar de bichinhos, morar com os pais, ter medo de barata... enfim. O horror, o horror. Vê se pode, homem que é homem não faz esse tipo de coisa, não é? Ai, Marisa... Que belo desserviço você faz à todas as mulheres e aos homens sugerindo esses padrões de comportamento, que só oprimem à todxs. Aqui podemos ver uma ótima palestra de Tony Porter sobre como a sociedade cria os meninos para odiar mulheres e sobre como colocamos em todos, inclusive nos homens, as algemas do patriarcado.

Antes fosse só isso... mas não foi! Começaram as críticas a essa propaganda nas redes e a agência que cometeu essa atrocidade resolveu ATACAR as consumidoras. Sim, queridos. Veja o print com seus próprios olhinhos nesse post. A rede Marisa, em sua página no Facebook, dizia ouvir as reclamações e agradecia as críticas, mas nada foi feito, a propaganda continuou sendo exibida e a agência seguiu cometendo erros inacreditáveis nas campanhas da Marisa. Porém, não vou crucificar a agência, uma vez que é o cliente que tem a palavra final. 

Pouco tempo depois, tivemos outra ótima surpresa. A Marisa achou que seria uma excelente idéia inverter os papéis de gênero, botando mulheres para assediar homens. OPA, assediar, não! Elogiar! 





Para a Marisa, assédio de rua é elogio. Veja, sabe quando um homem desconhecido aborda você na rua te chamando de gostosa, dizendo o que faria com você na cama, objetificando, desrespeitando? Pois bem, isso tudo é um grande elogio, aparentemente deveríamos ser submissas e agradecer. Mano, que ano é hoje? Marisa, acho que está faltando uma informação: os anos 50 já se foram há uns 60 anos! 

Agora, na campanha mais recente, que tal uma boa dose de gordofobia? Propaganda meramente machista é coisa do passado, a onda agora é estimular um transtorno alimentar. Sim, porque no verão só as magras são felizes. Não venham usar o argumento "saúde" por favor, porque NADA nesse comercial indica que o motivo da dieta da moça seja esse. Especialmente pelo final da propaganda quando a macharada toda olha para a mulher como se ela fosse um pedaço de carne. 



Me desculpe se não elogio a grande criatividade dessa propaganda, mas é que o R7 já fez coisa bem similar há pouquíssimo tempo, com a manchete "elas não estão preparadas para o verão". Essa idéia não é exatamente original, entende? Todo mundo já se cansou de ouvir essa babaquice. Inclusive recomendo fortemente a página de humor do Facebook que satiriza essa notícia, a "Projeto Verão 2013". 

Imagem da página "Projeto Verão" no Facebook

São tantos os problemas dessa propaganda que fica difícil começar a listar. Primeiro, a perpetuação de um padrão de beleza gordofóbico. Magreza não é sinônimo de saúde, assim como obesidade não é sinônimo de doença. Algumas pesquisas bem recentes apontam que o obeso ativo é uma pessoa saudável. Pior ainda, atrelar a felicidade à manutenção da magreza. GENTE.

Depois, a própria idéia de que comer alimentos saudáveis é um sacrifício é contraproducente no sentido de garantir qualidade de alimentação, pois somos sempre estimulados a comer fora de hora, alimentos industrializados, altamente calóricos, fast food e etc.

E por fim, aquilo que me parece ser o mais grave de tudo: Retirar de nós o direito de ir e vir livremente. Como se o fato de não estar perfeitamente dentro de um padrão de beleza racista e gordofóbico fosse determinante para que não exista o direito de utilizar o espaço público. E sabe porque isso é tão ruim? Porque tem muita gente por aí que realmente pensa assim, a Carol Marques pontuou muito bem:



Lugar onde eram preparadas as
refeições para funcionários de oficina
de confecção da Marisa
Já comprei roupas na Marisa e acho que a qualidade é bem abaixo da média. Além disso, não sei se todos estão a par, mas a empresa já foi denunciada por ligação com o trabalho análogo ao trabalho escravo (com indícios de tráfico de pessoas) em algumas de suas oficinas de produção. Ao menos é o que informa essa notícia aqui. Foi realizado um acordo em 2007, chamado TAC, Termo de Ajustamento de Conduta. Contudo, recentemente, doída pelo dano que fez à própria imagem, a Marisa recebeu uma punição pela contestação que fez sobre a legalidade da Lista suja do Ministério do Trabalho . Falando muito claramente: A "lista suja" só prejudica o empregador. E é claro que no caso da Marisa, o empregador é uma grande rede de confecção. É quase uma carteirada, sabe? "Quem é o Ministério do Trabalho para decidir proceder de forma a prejudicar grandes empresas em prol de condições de trabalho justas para os funcionários?". Eu é que nunca mais vou de Marisa. Não quero nem de graça.

Então, recapitulando, machista, heteronormativa, gordofóbica e exploradora. O que mais está faltando, Marisa?

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Guestpost: O Tatu Bola e o espaço público em Porto Alegre

Augusto Salla é publicitário, tem um blog e tem ataques histéricos no Twitter.
Foto: Ramiro Furquim/Sul21



Nesta altura do campeonato, já deve ter ficado claro que o grande legado da Copa do Mundo de 2014 (e das Olimpíadas de 2016) estará dentro do bolso de grandes empreiteiras. Da promessa de uma nova infra-estrutura para toda a população, a única coisa que vemos são estádios financiados pelo dinheiro público e violência contra a população mais carente.

Assim como ocorreu no Pan em 2007, na Cidade do Rio de Janeiro, a especulação imobiliária entra forte para lucrar o máximo possível independentemente dos custos sociais, enquanto o Estado usa de todo o seu aparato para “maquiar” a cidade. Isso é de praxe em grandes eventos esportivos no Terceiro Mundo: na África do Sul, o Estado também removeu a população carente dos centros das cidades para que os turistas não os encontrassem:




Na Vila Chocolatão, no Pinheirinho, no Vidigal ou em tantos outros lugares Brasil afora, é certo que há muita precariedade, falta de saneamento básico e por vezes, a ausência completa do Estado que deixa de cumprir obrigações básicas para com o povo. Assim, o que o Estado faz é usar as suas próprias falhas como justificativa para arrancar as pessoas das suas casas quando está apenas atendendo a interesses privados.

O que vemos é que as pessoas são jogadas para cada vez mais longe da cidade perdendo não apenas as suas casas, mas também (e especialmente) as suas comunidades. E o pior é que muitas famílias só possuem promessas do Poder Público de novas moradias: as pessoas estão sendo expulsas das suas casas sem o Governo garantir um teto - por vezes, se obrigam a receber um auxílio-aluguel que dificilmente cobre as despesas de uma moradia digna e acessível.

Neste jogo, quem apanha é o pobre e quem faz o papel de agente do especulador é a polícia. É ela que reprime manifestações, que agride e que obriga as pessoas a saírem das suas casas.

O que vem acontecendo em Porto Alegre

A especulação imobiliária está firme e forte em Porto Alegre assim como a higienização da Cidade Baixa, bairro bohêmio da cidade. Ainda no primeiro semestre, a Prefeitura fechou o cerco aos bares com a justificativa de que a maioria não era regulada e que incentivavam a baderna durante a madrugada.

Esse cercamento ao bairro acabou por afetar não apenas quem curtia a vida noturna, mas diversos profissionais que faziam a sua vida ali resultando em desemprego para garçons, cozinheiros e músicos, conforme lembrou na época o advogado Marcelo Almeida. Inclusive, os músicos da cidade realizaram uma manifestação de protesto.

É importante salientar que a questão gira em torno da falta de alvarás dos bares, mas que as secretarias da Prefeitura têm dificultado há anos a entrega de alvarás aos empresários.

Pois bem, por mais que possamos encontrar razões (justas!) para uma maior fiscalização nos bares da região, a verdade é que o objetivo é higienização, é tirar o povo da rua, transformar o bairro para que a especulação imobiliária faça o que gosta de fazer: inflacionar valores e lucrar.

Aliás, mesmo aqui, numa fiscalização a estabelecimentos privados, a Brigada Militar se comportou de forma agressiva buscando intimidar os presentes nos bares ao entrar com armas em punho quando acompanhavam os fiscais. E aí pergunto, pra quê?

O Araújo Viana

O Auditório Araújo Viana era patrimônio público e se localiza em um dos maiores parques de Porto Alegre, tendo sido palco de atrações para o povo há muito tempo. Infelizmente, ele se encontrava em péssimas condições por descaso do Poder Público.

A solução: privatizar! Parceria do poder público com o setor privado para reformar (e lucrar muito). Não importa que agora é caro, do ingresso à latinha de refrigerante, o local está ótimo, então a classe média está muito feliz.

O Largo Glênio Peres

No Centro de Porto Alegre, ao lado do Mercado Público, existe o chamado Largo Glênio Peres. Este local sempre foi reservado para pedestres, manifestações e feiras, inclusive, uma Feira de Economia Solidária que ocorria periodicamente no local.

Com o absurdo do trânsito de Porto Alegre, a Prefeitura notou que havia um espaço no Centro que AINDA não havia sido colonizado por carros: o Largo Glênio Peres. Tchau feiras, tchau manifestações culturais, tchau espaço público para o cidadão, agora, durante todo o final de semana, o espaço é estacionamento.

Não contente com isso, a Prefeitura deixou a Coca-Cola “adotar” o Largo. Adotar, claro, é eufemismo para transformá-lo em espaço privado de publicidade para a marca.


O povo então foi se manifestar numa Defesa Pública da Alegria: parem com as privatizações do espaço público e devolvam a alegria e a democracia que tornou Porto Alegre referência em políticas republicanas para o resto do país (não é mais, mas já foi).

Dançamos, cantamos, beijamos, nos abraçamos, sorrimos e nos divertimos pra caramba. Sem violência, sem baderna, apenas alegria.

Entretanto, lá estavam cerca de 20 policiais da Brigada Militar guardando um BONECO INFLÁVEL, propaganda de uma empresa privada em um espaço PÚBLICO. Está certo, o policiamento em Porto Alegre está perfeito que pode deixar 20 brigadianos guardando um boneco inflável.

Danillo Ferreira, Tenente da Polícia Militar da Bahia, foi muito lúcido ao escrever que

Dentre todos os elementos que podem ser discutidos em momentos assim, o que agora nos chama a atenção é a natureza dos bens jurídicos que são postos como centrais nos esforços e dedicações das polícias. Como instituições com justificativa existencial pública, não é demais indagar sobre como se deve interpretar a designação de tal aparato policial para a defesa de um boneco de plástico. Mais: expor policiais ao confronto com manifestantes, e expor manifestantes ao confronto com policiais, em um jogo de interesses que não haveria de ter outro resultado.

Um dos manifestantes entrou no cercado ao redor do boneco e ficou por lá. Tocou pandeiro, fumou um cigarro. Mais nada, sem tentar furar o boneco, sem tentar derrubá-lo. Apenas ocupou um espaço PÚBLICO.

Então a Brigada Militar agiu como sempre age ao encontrar manifestações populares: partiu para a violência contando com o reforço de mais QUARENTA policiais, totalizando 60 brigadianos para defender um boneco inflável. Com truculência, foram para cima do manifestante e foi aí que o Largo Glênio Peres e arredores se tornaram um campo de batalha, pois os manifestantes reagiram - alguns atacando a Brigada, outros se defendendo, derrubando as grades do tatu e outros ainda defendendo pessoas que estavam sendo agredidas de forma bárbara pela polícia.

Pois, ora, não é barbárie agredir uma pessoa já jogada no chão e dominada? Não é barbárie correr atrás de manifestantes por mais de 100m com a única intenção de agredir? Não é barbárie bater na cabeça, quebrar braços, dar tiros de borracha à queima-roupa em pessoas desarmadas? Não é barbárie arrancar o celular de uma pessoa que não estava atacando a polícia e ainda agredi-la? Não é barbárie espancar pessoas que nem na manifestação estavam, mas tiveram o azar de estarem nos arredores naquele momento?

A justificativa da Brigada Militar era de que os manifestantes haviam danificado o boneco. MENTIRA! Conforme Hilton Muller, delegado da Polícia Civil, o boneco NÃO FOI danificado.

O boneco teve o seu aparelho de ventilação desligado após a Brigada Militar e a Guarda Municipal começarem as agressões. Quem foi? Tanto faz!

Mesmo que o boneco houvesse sido danificado por algum manifestante, isso não justificaria a truculência e violência desmedidas da Brigada Militar. Ora, o que vale mais, a vida e integridade física do ser humano ou a porcaria dum boneco inflável? Pra lembrar: bonecos infláveis não sangram.

Marcelli Cipriani relata que

Câmeras fotográficas e celulares dos que tentavam registrar as cenas mais violentas foram arrancadas e quebradas. Nenhuma policial possuía identificação na farda, e todos negavam-se peremptoriamente em conceder seu nome. Perguntou mais de uma vez? Vai apanhar também.

Amigas minhas, favoráveis e contrárias à derrubada do boneco, mas que não se encontravam nem ao menos perto dele, tiveram cortes na cabeça e o braço luxado. Uma, porque foi juntar os pertences de um menino que apanhava. Outra, porque – longe do tumulto – pediu, ingenuamente, para conversar. Ambas, já no chão, continuaram sendo brutalmente agredidas, física e verbalmente, sendo chamadas de vagabundas, putas, vadias, e todo o arsenal de armas verbais que jamais serão capazes de vencer uma luta.

Mas você pode achar que não foi nada demais. Buenas, olha aqui:



Esta violência da Brigada Militar NÃO É ISOLADA. É institucional! Não é por acaso que o Impedimento mandou uma carta aberta ao Governador do Estado do Rio Grande Sul pedindo o fim da presença da BM nos estádios.

O modus operandi das polícias ao encontrar manifestações populares é sempre o mesmo: repressão através da violência para defender os interesses de grandes empresas. Confira o documentário "Domínio Público". 

Assim, a discussão não deve se limitar a se os manifestantes destruíram um boneco inflável (e não o fizeram), mas 1) por que os espaços públicos das cidades estão sendo privatizados? 2) até quando a polícia irá agir de forma ignorante, bárbara, violenta e truculenta quando encontra manifestações públicas? 3) até quando teremos essa anomalia inconstitucional que são as polícias militares?