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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Guestpost: O Tatu Bola e o espaço público em Porto Alegre

Augusto Salla é publicitário, tem um blog e tem ataques histéricos no Twitter.
Foto: Ramiro Furquim/Sul21



Nesta altura do campeonato, já deve ter ficado claro que o grande legado da Copa do Mundo de 2014 (e das Olimpíadas de 2016) estará dentro do bolso de grandes empreiteiras. Da promessa de uma nova infra-estrutura para toda a população, a única coisa que vemos são estádios financiados pelo dinheiro público e violência contra a população mais carente.

Assim como ocorreu no Pan em 2007, na Cidade do Rio de Janeiro, a especulação imobiliária entra forte para lucrar o máximo possível independentemente dos custos sociais, enquanto o Estado usa de todo o seu aparato para “maquiar” a cidade. Isso é de praxe em grandes eventos esportivos no Terceiro Mundo: na África do Sul, o Estado também removeu a população carente dos centros das cidades para que os turistas não os encontrassem:




Na Vila Chocolatão, no Pinheirinho, no Vidigal ou em tantos outros lugares Brasil afora, é certo que há muita precariedade, falta de saneamento básico e por vezes, a ausência completa do Estado que deixa de cumprir obrigações básicas para com o povo. Assim, o que o Estado faz é usar as suas próprias falhas como justificativa para arrancar as pessoas das suas casas quando está apenas atendendo a interesses privados.

O que vemos é que as pessoas são jogadas para cada vez mais longe da cidade perdendo não apenas as suas casas, mas também (e especialmente) as suas comunidades. E o pior é que muitas famílias só possuem promessas do Poder Público de novas moradias: as pessoas estão sendo expulsas das suas casas sem o Governo garantir um teto - por vezes, se obrigam a receber um auxílio-aluguel que dificilmente cobre as despesas de uma moradia digna e acessível.

Neste jogo, quem apanha é o pobre e quem faz o papel de agente do especulador é a polícia. É ela que reprime manifestações, que agride e que obriga as pessoas a saírem das suas casas.

O que vem acontecendo em Porto Alegre

A especulação imobiliária está firme e forte em Porto Alegre assim como a higienização da Cidade Baixa, bairro bohêmio da cidade. Ainda no primeiro semestre, a Prefeitura fechou o cerco aos bares com a justificativa de que a maioria não era regulada e que incentivavam a baderna durante a madrugada.

Esse cercamento ao bairro acabou por afetar não apenas quem curtia a vida noturna, mas diversos profissionais que faziam a sua vida ali resultando em desemprego para garçons, cozinheiros e músicos, conforme lembrou na época o advogado Marcelo Almeida. Inclusive, os músicos da cidade realizaram uma manifestação de protesto.

É importante salientar que a questão gira em torno da falta de alvarás dos bares, mas que as secretarias da Prefeitura têm dificultado há anos a entrega de alvarás aos empresários.

Pois bem, por mais que possamos encontrar razões (justas!) para uma maior fiscalização nos bares da região, a verdade é que o objetivo é higienização, é tirar o povo da rua, transformar o bairro para que a especulação imobiliária faça o que gosta de fazer: inflacionar valores e lucrar.

Aliás, mesmo aqui, numa fiscalização a estabelecimentos privados, a Brigada Militar se comportou de forma agressiva buscando intimidar os presentes nos bares ao entrar com armas em punho quando acompanhavam os fiscais. E aí pergunto, pra quê?

O Araújo Viana

O Auditório Araújo Viana era patrimônio público e se localiza em um dos maiores parques de Porto Alegre, tendo sido palco de atrações para o povo há muito tempo. Infelizmente, ele se encontrava em péssimas condições por descaso do Poder Público.

A solução: privatizar! Parceria do poder público com o setor privado para reformar (e lucrar muito). Não importa que agora é caro, do ingresso à latinha de refrigerante, o local está ótimo, então a classe média está muito feliz.

O Largo Glênio Peres

No Centro de Porto Alegre, ao lado do Mercado Público, existe o chamado Largo Glênio Peres. Este local sempre foi reservado para pedestres, manifestações e feiras, inclusive, uma Feira de Economia Solidária que ocorria periodicamente no local.

Com o absurdo do trânsito de Porto Alegre, a Prefeitura notou que havia um espaço no Centro que AINDA não havia sido colonizado por carros: o Largo Glênio Peres. Tchau feiras, tchau manifestações culturais, tchau espaço público para o cidadão, agora, durante todo o final de semana, o espaço é estacionamento.

Não contente com isso, a Prefeitura deixou a Coca-Cola “adotar” o Largo. Adotar, claro, é eufemismo para transformá-lo em espaço privado de publicidade para a marca.


O povo então foi se manifestar numa Defesa Pública da Alegria: parem com as privatizações do espaço público e devolvam a alegria e a democracia que tornou Porto Alegre referência em políticas republicanas para o resto do país (não é mais, mas já foi).

Dançamos, cantamos, beijamos, nos abraçamos, sorrimos e nos divertimos pra caramba. Sem violência, sem baderna, apenas alegria.

Entretanto, lá estavam cerca de 20 policiais da Brigada Militar guardando um BONECO INFLÁVEL, propaganda de uma empresa privada em um espaço PÚBLICO. Está certo, o policiamento em Porto Alegre está perfeito que pode deixar 20 brigadianos guardando um boneco inflável.

Danillo Ferreira, Tenente da Polícia Militar da Bahia, foi muito lúcido ao escrever que

Dentre todos os elementos que podem ser discutidos em momentos assim, o que agora nos chama a atenção é a natureza dos bens jurídicos que são postos como centrais nos esforços e dedicações das polícias. Como instituições com justificativa existencial pública, não é demais indagar sobre como se deve interpretar a designação de tal aparato policial para a defesa de um boneco de plástico. Mais: expor policiais ao confronto com manifestantes, e expor manifestantes ao confronto com policiais, em um jogo de interesses que não haveria de ter outro resultado.

Um dos manifestantes entrou no cercado ao redor do boneco e ficou por lá. Tocou pandeiro, fumou um cigarro. Mais nada, sem tentar furar o boneco, sem tentar derrubá-lo. Apenas ocupou um espaço PÚBLICO.

Então a Brigada Militar agiu como sempre age ao encontrar manifestações populares: partiu para a violência contando com o reforço de mais QUARENTA policiais, totalizando 60 brigadianos para defender um boneco inflável. Com truculência, foram para cima do manifestante e foi aí que o Largo Glênio Peres e arredores se tornaram um campo de batalha, pois os manifestantes reagiram - alguns atacando a Brigada, outros se defendendo, derrubando as grades do tatu e outros ainda defendendo pessoas que estavam sendo agredidas de forma bárbara pela polícia.

Pois, ora, não é barbárie agredir uma pessoa já jogada no chão e dominada? Não é barbárie correr atrás de manifestantes por mais de 100m com a única intenção de agredir? Não é barbárie bater na cabeça, quebrar braços, dar tiros de borracha à queima-roupa em pessoas desarmadas? Não é barbárie arrancar o celular de uma pessoa que não estava atacando a polícia e ainda agredi-la? Não é barbárie espancar pessoas que nem na manifestação estavam, mas tiveram o azar de estarem nos arredores naquele momento?

A justificativa da Brigada Militar era de que os manifestantes haviam danificado o boneco. MENTIRA! Conforme Hilton Muller, delegado da Polícia Civil, o boneco NÃO FOI danificado.

O boneco teve o seu aparelho de ventilação desligado após a Brigada Militar e a Guarda Municipal começarem as agressões. Quem foi? Tanto faz!

Mesmo que o boneco houvesse sido danificado por algum manifestante, isso não justificaria a truculência e violência desmedidas da Brigada Militar. Ora, o que vale mais, a vida e integridade física do ser humano ou a porcaria dum boneco inflável? Pra lembrar: bonecos infláveis não sangram.

Marcelli Cipriani relata que

Câmeras fotográficas e celulares dos que tentavam registrar as cenas mais violentas foram arrancadas e quebradas. Nenhuma policial possuía identificação na farda, e todos negavam-se peremptoriamente em conceder seu nome. Perguntou mais de uma vez? Vai apanhar também.

Amigas minhas, favoráveis e contrárias à derrubada do boneco, mas que não se encontravam nem ao menos perto dele, tiveram cortes na cabeça e o braço luxado. Uma, porque foi juntar os pertences de um menino que apanhava. Outra, porque – longe do tumulto – pediu, ingenuamente, para conversar. Ambas, já no chão, continuaram sendo brutalmente agredidas, física e verbalmente, sendo chamadas de vagabundas, putas, vadias, e todo o arsenal de armas verbais que jamais serão capazes de vencer uma luta.

Mas você pode achar que não foi nada demais. Buenas, olha aqui:



Esta violência da Brigada Militar NÃO É ISOLADA. É institucional! Não é por acaso que o Impedimento mandou uma carta aberta ao Governador do Estado do Rio Grande Sul pedindo o fim da presença da BM nos estádios.

O modus operandi das polícias ao encontrar manifestações populares é sempre o mesmo: repressão através da violência para defender os interesses de grandes empresas. Confira o documentário "Domínio Público". 

Assim, a discussão não deve se limitar a se os manifestantes destruíram um boneco inflável (e não o fizeram), mas 1) por que os espaços públicos das cidades estão sendo privatizados? 2) até quando a polícia irá agir de forma ignorante, bárbara, violenta e truculenta quando encontra manifestações públicas? 3) até quando teremos essa anomalia inconstitucional que são as polícias militares?  


segunda-feira, 23 de julho de 2012

Teu privilégio não é minha prisão


Tantas vezes falamos aqui no blog sobre "privilégio" e percebemos que nem sempre essa noção foi plenamente compreendida. Por isso tentarei jogar alguma luz sobre a questão.

O privilégio é uma vantagem. Não é algo para se envergonhar, é apenas fruto de certas características. Um exemplo: eu sou uma pessoa que fala, escuta, possui todos os movimentos e dispõe de uma boa visão (na verdade tenho um probleminha de vista que é corrigido com lentes). Possuo portanto, a vantagem de jamais me preocupar em tatear o piso antes de dar o próximo passo, pois posso enxergar o caminho adiante. Não me preocupo em frequentar espaços públicos em que uma cadeira de rodas possa circular livremente, pois posso andar. E nunca aprendi a linguagem de libras, pois posso falar e ouvir, portanto, me comunicar sem o uso de sinais.

Muitos privilégios (a maioria, acredito eu) são construídos culturalmente. Ser branco traz uma série de privilégios em relação à ser negro. O que fica evidenciado a cada vez que colocamos a raça diante do elogio, por exemplo. Já parou para pensar porque quando se elogia uma mulher branca dizemos apenas que é uma mulher bonita, mas quando o elogio é direcionado à uma mulher negra, ela se torna uma "negra bonita"? Ou ainda, já tentou imaginar o motivo pelo qual se um homem branco dirigir um carrão muita gente achará que ele é rico, mas que se o mesmo carro for dirigido por um negro, muita gente achará que ele é apenas o motorista? É a expressão do privilégio do branco, não ser discriminado por sua cor (Sobre o privilégio branco, por favor ler esse link, esse e esse).

O privilégio masculino também é cultural. Numa sociedade tão marcada pela cultura do estupro, é uma vantagem dos homens, sair à noite e temer crimes patrimoniais. Traduzindo, temer ser roubado. Uma mulher quando sai à noite teme ser estuprada. Aliás o medo do estupro que uma mulher sente é tão grande que isso rege as nossas vidas desde muito jovens e não nos abandona nem na velhice.

E aí você me diz, "MAS CALMAÍ GIZA, se não é para se envergonhar do privilégio, porque tantas vezes vocês, aqui do Ativismo de Sofá, o criticam?" Por três motivos, o primeiro é a construção de cenários que se formam em torno de um privilégio e que pode ser muito díspar. E isso revira meu sensível estômago. Uma situação que se forma em torno do privilégio masculino: recentemente, li que a escritora de romances Margaret Atwood perguntou a um grupo de homens (na minha leitura não estava especificado se eram apenas homens cis) porque os homens se sentem ameaçados pelas mulheres, eles responderam que tinham medo que elas rissem deles. Quando perguntou a um grupo de mulheres porque elas se sentem ameaçadas por homens, elas responderam que têm medo de serem assassinadas. A polaridade das respostas gera insatisfação e revolta em quem é mulher.

O segundo motivo é que os privilégios citados acima são abstratos. No sentido que não estão escritos, codificados. Mas há privilégios escritos. Ilustrando melhor, a nossa Constituição Federal, ainda não permite o casamento igualitário. Dando a um grupo, os heterossexuais, um enorme privilégio em relação a outro, os LGBTs. Um outro exemplo é o sufrágio feminino, no Brasil conquistado há apenas 80 anos.

O terceiro motivo é porque em muitos casos, na visão da pessoa que é detentora das vantagens acima citadas (e outras tantas), o privilégio se torna a sua noção de "normalidade". Ou seja, a pessoa não consegue sentir empatia por grupos não privilegiados em questões tocantes apenas a eles, gerando uma perspectiva distorcida e parcial. Pessoalmente esse motivo é o que mais me incomoda, e também é o que mais gera discussões improfícuas. Alguns exemplos de manifestações privilegiadas nesse sentido:

Quando um homem afirma que as mulheres não possuem espaço na política porque preferem seguir outras carreiras, ele se esquece que participação política muitas vezes depende de investimento. E que nem sempre os investidores estão interessados em dar crédito às mulheres. Porque a sociedade costuma incentivar mulheres à dedicar-se ao âmbito privado, relegando ao homem o âmbito público. 

Toda vez que um branco diz que as cotas raciais nas universidades são um privilégio dos negros, ele ignora a indiscutível participação ínfima dos negros em espaços acadêmicos (ainda mais se considerarmos que a maioria da população brasileira é negra), um resquício de uma sociedade que vergonhosamente aboliu a escravatura por meio formal há 124 anos.

Quando um heterossexual alega que não se incomoda com LGBTs desde que eles não andem de mãos dadas, não beijem em público, não cheguem junto, eles se esquecem que é socialmente aceitável que um heterossexual faça todas essas coisas. 

E é claro, há os privilégios que o dinheiro proporciona. Uma casa própria, um carro, um computador, um bom celular, boa educação, viagens e etc. Nenhum problema em possuir bens materiais, o problema é esquecer ou desvalorizar quem não possui ou está em situação de classe social abaixo da sua. Daí podemos extrair por exemplo as questões trabalhistas. Quando o(a) patrão(patroa) exige que a empregada durma no serviço, será que ele(a) pensa no absurdo que seria ele(a) próprio(a), dormir no escritório em que trabalha, voltando para casa apenas no final de semana? Possivelmente, não.


Os exemplos acima tratam de privilégios sobre minorias, mas mesmo entre minorias há privilégios. Não é porque fazemos parte de um grupo em desvantagem que temos a autoridade de falar sobre o sofrimento alheio. Aqui há um texto excelente falando dos privilégios da mulher branca em relação à mulher negra.

Por Arnaldo Branco
É preciso entender que embora possuir um privilégio não seja motivo de vergonha, tampouco é motivo de orgulho. Quando uma pessoa branca anda por aí com uma camiseta "100% branco" ele está exaltando algo que não gera motivo para orgulho. É muito diferente de alguém que exalta sua raça negra, pois ser negro significa um histórico de opressão e normalmente de luta e conquistas condicionadas pela raça. Se orgulhar de ser heterossexual (uma modinha que tá rolando aí nas redes sociais) é o equivalente a se orgulhar de uma facilidade, de uma condição que não impõe desafios. Eu acho até engraçado (apesar de triste), que eu tenha que escrever sobre isso, porque me parece realmente muito óbvio. 

O privilégio é cumulativo e quanto mais privilégios uma pessoa possui maior a possibilidade dela possuir a visão distorcida da qual falei antes. Tente visualizar um muro cuja altura aumenta à medida que os privilégios se acumulam. E para algumas pessoas o muro é tão alto que é impossível enxergar o que está do outro lado. 

Retomando um pouco a idéia do título desse texto, o privilégio do grupo não é prisão de outra pessoa pois não regula a vida, os pensamentos, as atitudes dos outros. Rever seus próprios privilégios, nem sempre buscando exterminá-los, pois muitas vezes isso nem é possível, mas entendê-los faz parte do processo de compreender o outro. Enquanto você não conseguir determinar onde residem os seus privilégios, você será incapaz de aceitar que as pessoas que não detêm as mesmas vantagens que você têm outra perspectiva sobre as suas próprias vidas e que é importante demais que você as ouça mais do que questione. Não são os seus privilégios que definem e norteiam a vida dessas pessoas. Como eu disse no meu post "não me ensine a militar" somente o oprimido sabe onde e como o calo aperta. 

Obs.: Se eu não me fiz entender como eu gostaria e você ainda tem interesse no assunto, eu sugiro muito esse texto aqui.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Menstruação: autoestima e ódio ao feminino.


There will be blood - Foto de Emma Arvida Bystrom
            O ensaio fotográfico publicado originalmente na revista canadense Vice, nomeado de "There will be blood" foi republicado no Brasil no portal da yahoo e em outras mídias. A aceitação das fotos foi péssima.     
             Nojento, desnecessário, nada sexy e horrível foram palavras utilizadas pelo maioria do público para descrever as fotos. Tanto homens, quanto mulheres manifestaram toda essa ojeriza pela menstruação. Os comentários inclusive ofendiam as modelos fotografadas, chamando-as de vadias nojentas e falando até que elas envergonhavam a espécie. O choque foi grande, afinal, a misoginia no ódio ao sangue de menstruação não é tão clara, mas ela se mostra sem disfarces nesse comentário. Para a comentarista, uma mulher que exibe sua menstruação é menos mulher, é uma mulher sem valor, é nojenta e não esconde envergonhada o "seu feminino" e por isso merece ser xingada dessa forma.

         O "nada sexy" merece um parágrafo especial porque mostra como a mulher é vista como enfeite, ela só é bem aceita pela mídia e pela sociedade se estiver magra, maquiada, photoshopada, enfim, não natural. A mulher como ela é, menstruada, com dias bons e dias ruins, sem photoshop é criticada justamente por sair dessa função que o patriarcado a colocou, que é a de objeto, enfeite, troféu. Passiva e bela, sendo admirada e servindo ao deleite masculino heterossexual. A mulher menstruada não enfeita, ela choca. Ela não está ai pra ser admirada, afinal, ela é natural, ela é humana. A mulher vista como sujeito, a mulher vista como ser humano ainda choca. E isso assusta.

Menstrala - Pintura de Vanessa Tiegs
       A depreciação pela menstruação é correlata ao ódio pelo que é designado como corpo feminino e também a diversos problemas de autoestima, afinal, como haver aceitação do corpo se as mulheres ainda vêem a menstruação como algo sujo, feio e nojento? Ver seu organismo dessa forma faz mal, é odiar uma parte de si. Odiar a menstruação, escondê-la, evitar falar nela contribui para a repressão sexual feminina e para a falta de conhecimento do próprio corpo. Esconder e silenciar contribui também para retirar das mãos das mulheres a própria sexualidade e o direito ao próprio corpo, porque o medo do que o outro vai achar, o medo de ser nojenta, suja e feia coloca a mulher numa posição de objeto do patriarcado. 

A misoginia em relação à menstruação coloca o corpo designado ao nascer como feminino pra servir aos outros e não a si mesma e prejudica a autoestima, por criar inseguranças que impedem que a pessoa exerça sua sexualidade e conheça o próprio corpo. Ver a menstruação como nojenta, é ver também a vagina, o útero, o ovário e todo o sistema reprodutor definido como feminino como algo a ser "limpado" ou escondido. A insegurança feminina a respeito do cheiro da vagina, bem como da depilação íntima como parte da higiene e até mesmo da "feiura" da vagina são componentes do ódio ao feminino e do ódio à menstruação. E chegamos ao "nada sexy" porque se mostrar natural, se mostrar humana, não tem aceitação, porque é sair do papel que o patriarcado nos colocou, que é de passiva, submissa e objeto.

Observação: nem toda mulher menstrua e nem toda pessoa que menstrua é mulher. Entenda melhor lendo textos no "Transfeminismo". 

terça-feira, 29 de maio de 2012

O corpo é meu! O Facebook não é nosso!


A marcha das vadias lavou minha alma. Lavou a alma de muita gente. Eu não sei muito bem o quanto eu precisava daquele momento na minha vida, eu sei que ele foi muito importante para mim. Desde que eu conheci o feminismo e fui lentamente tomando consciência de todas as pequenas violências que sofria, que tolhiam a minha liberdade em muitos aspectos diferentes, muita coisa foi embora de mim. Mas principalmente muitas pessoas foram embora. Só que ao mesmo tempo, eu não me sentia só. E nesse sábado eu não estive só mesmo. Cerca de três mil pessoas em Brasília estiveram comigo, botando para fora em alto e bom som muito daquilo que dizemos todos os dias discretamente: queremos ser respeitadas e isso independe da forma como falamos, nos vestimos (ou não nos vestimos), nos relacionamos. Só que muita gente por aí nem sabe o que o verbo respeitar significa. 

Foto da fan page da Marcha das Vadias DF
Aquela velha história de que mulher tem que se dar ao respeito carrega uma carga de machismo e moralismo tão grandes, que eu juro que não entendo como eu não consegui enxergar isso até alguns anos atrás. "Se dar ao respeito" não é respeitar suas escolhas, suas preferências, sua liberdade de ir e vir, de agir como quiser... Via de regra, "se dar ao respeito" é repetido por aí como sinônimo de privação de liberdade individual. Se você usa roupa curta, não se dá ao respeito. Se tem vida sexual ativa, goza e gosta muito, não se dá ao respeito. Se não tá afim de um relacionamento afetivo monogâmico, não se dá ao respeito. Se anda ficando com quem tá afim sem pensar em namoro, não se dá ao respeito. Respeito é uma palavra que precisa ser ressignificada. Respeito, como é repetido por aí, está diretamente ligado à invisibilidade da sexualidade feminina. Eu sou vadia e me dou ao respeito. 

Respeito não se pede, se conquista. Exigimos que nos tratem com respeito, e fazemos isso sem implorar de pernas e bocas fechadas, mas mostrando para a sociedade o quanto a sua noção de respeito é falha. Para isso é preciso união. É como nós gritamos na marcha: "Ah! que é isso! Elas estão organizadas!". E estamos mesmo, cada vez mais. E estamos conseguindo visibilidade também. Um movimento nacional que só em um final de semana reuniu cerca de 10 mil pessoas? Isso não passa despercebido. E com certeza aumentaremos em número e em consciência. Feminismo é um aprendizado constante. 

Foto da fan page da Marcha das Vadias DF 
Entretanto, a luta ainda é necessária. Prova disso é a forma reacionária e moralista como o facebook tem encarado as fotos das mulheres que estavam na marcha com os seios de fora. Que fique claro: não são fotos pornográficas. Seios não servem apenas para entreter os homens, mostrar os seios na marcha é uma atitude política, porque o nosso corpo não é apenas sexual, ele é político. Ele é tão político, que em alguns países as mulheres precisam escondê-lo inteiramente ou podem morrer caso não façam. O facebook parece ignorar essa característica e tem apagado sistematicamente as fotos das moças de topless. Infelizmente, a mesma rede social que apaga fotos não pornográficas de mulheres exigindo uma sociedade mais justa, não apaga imagens racistas, homofóbicas ou misóginas. Ultimamente nem tenho mais usado a opção "denunciar" do Facebook, tenho ido direto ao safernet e à PF denunciar esses conteúdos. Isso posto, é de se perguntar porque a nudez choca mais que a violência cotidiana. 

Foto da jornalista Luka Franca
censurada pelo Facebook
Não é a primeira vez que isso acontece no facebook, em outro momento fotos de mães amamentando foram retiradas arbitrariamente da rede social. MÃES. AMAMENTANDO. O corpo feminino é sempre sexualizado ainda que ele não seja usado para fins sexuais. Me diga, você se alimenta cobrindo o rosto? Porque um bebê precisa se cobrir para se alimentar? Foi necessário protestar com mamaços virtuais para o Facebook permitir fotos de mães amamentando seus filhos. Se você acha que o Brasil é um país libertário em que tudo pode, pense de novo. Não é bem assim, a onda conservadora que assola o país também esbarra nos nossos corpos. por isso é preciso gritar: "Meu corpo, minhas regras!" Fazer ouvir a voz de quem nem sempre, no dia-a-dia pode externar esse sentimento sem receber toda sorte de julgamentos morais. 

Ao contrário dos homens, que ao sentir calor não pensam duas vezes em tirar a camiseta, mulheres não tem esse privilégio. Guess what? Mulher também sente calor. Mas toda a nudez feminina será censurada. Toda nudez será objetificada, será rotulada, será retirada dos perfis do Facebook como se fosse ofensa. E ofende também o fato de que nem sempre os seios exibidos são durinhos, apontem para cima, caibam na mão. Com certeza o peitaço no fim da marcha das vadias de Brasília foi o final perfeito para a marcha de um movimento libertário como o feminista, porque contradiz essa idéia de que a mulher é um pedaço de carne. O nosso corpo não é inerte, não é produto, não é objeto, ele também fala por nós.  Lamentamos profundamente que a maior rede social do mundo tenha uma visão tão tacanha do corpo feminino.

Foto por Leiliane Rebouças

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Sufocamento materno e sexual

A princípio quero deixar claro que falo de maternidade por ponto de vista particular. Mas acredito que esse texto se encaixa na questão da parentagem em geral: pais, mães, parturientes ou não, enfim, todo tipo de família, nas relações que criam ao longo da convivência com xs filhxs.

Ser mãe é um tesão. Começo com essa frase porque é exatamente como tenho me sentido diante da maternidade. Com aquela excitação de quem está conhecendo partes de si mesmx até então, sabe? Enfim, um tesão.

Diante de uma etapa complicada, não planejada e revolucionária da minha vida tenho procurado muita coisa para me informar. Artigos, livros, isso e aquilo que me ajudem a compreender o assunto. Dentro disso descobri uma corrente muito forte de “ensinamento” e disciplina da maternidade e da criação dos filhos. Tolerância ao choro do bebê, necessidade de “independência” (sim, independência de um bebê, pasmem!), desapego e castigo são alguns dos pontos fortemente estimulados por esse segmento.

Nossa sociedade, apesar de apontar a maternidade como algo praticamente obrigatório, não nos permite o exercício pleno desta. A “civilização” não permite que nos vejamos como mamíferas, não podemos agir como os animais que verdadeiramente somos e, por consequência, não aproveitamos a maternidade da forma que desejamos. Afinal, prega o grupo dos civilizados que tal fase deve vir de maneira planejada, racional, e serve para nos “criar juízo”, não nos deixar mais loucas.

A repressão ao sentimento materno é muito parecida com o controle da sexualidade feminina. Querem nos dizer exatamente o que fazer e como fazer. Afinal, ninguém nega que se deva fazer sexo, mas só depois do terceiro encontro, só entre duas pessoas, só dentro do quarto, só em tais posições, só com pessoas do “sexo oposto” (e ai de quem não se enquadrar nas categorias de sexo predefinidas)... Enfim, o exercício da nossa sexualidade é lotado de regras e comportamentos considerados adequados. Não podemos dar ouvidos aos nossos desejos mais secretos, nossos instintos, às vontades particulares de nosso paladar e tato ou somos consideradas imorais. Ouvir mais nosso corpo e mente do que aos outros é um ato pecaminoso e socialmente inaceitável.

Por conta disso nem nós mesmos conhecemos e desenvolvemos nossas reais vontades. A sexualidade é sufocada a tal nível que não naturalizamos nossos desejos. Por mais que existam, sempre serão vistos por nós como errados. O mesmo acontece no exercício da maternidade. A forma de ser mãe está cercada de regras, de maneira que não nos permitimos no contato com a cria desenvolver nossa sensitividade e o retorno ao nosso estado mais primitivo que nos colocaria em um constante estado de comunicação não-verbal com nossxs filhxs.

Somos ensinadas a não aceitar o choro dx nossx bebê, a focar em sua disciplina. Uma mãe não deve pegar a cria ao colo toda vez que esta chora, também não deve dormir na mesma cama, deve desmamar porque afinal “criança andando que ainda mama é muito feio” (por mais que a Organização Mundial da Saúde diga o contrário), deve voltar a trabalhar após quatro meses e deixar a criança na creche... Milhares de regras que nos dizem o que devemos ou não sentir frente à situação de ser mãe.

É claro que não nos perguntaram se preferimos deixar que nossxs filhxs chorem no berço a pegar-los no colo e fazer carinho, também não interessa se gostamos de dormir e tomar banho com elxs. E se a maioria das mães se sente culpada por voltar a trabalhar tão cedo (por favor, que licença-maternidade é essa?) já dizem que é por estar apegada demais. Não considera pensar que simplesmente a mulher em questão pode preferir estar com x bebê?

A maternidade selvagem é reprimida tanto quanto a sexualidade feminina. Vivemos uma sociedade que acredita ser civilizada demais para praticar orgias e amamentar xs filhxs até a idade que elxs quiserem. A pressão social nos sufoca e quer nos ensinar a sentir, de forma que não ouvimos nosso corpo e intuição não podendo aproveitar assim o melhor de nós mesmxs.

Bem como o sexo é pessoal, cada mãe deve se permitir desenvolver, ao longo da convivência com sua cria, um jeito singular de comunicação e compreensão das necessidades e desejo de ambos. Para que cada mulher possa aproveitar a maternidade da maneira que desejar. Com apego, com carinho, com amor.