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quinta-feira, 31 de maio de 2012

Beleza circunstancial e a Marcha das Barangas


Não é de hoje que o padrão de beleza vigente oprime as mulheres. E digo especificamente as mulheres porque embora ele esteja aí para todos é no corpo feminino que ele é cobrado com mais força e veemência. Homens aparecem são retratados e congratulados por sua formação, inteligência e tudo o mais. Já nós somos o tempo todo questionadas pela nossa beleza (ou a falta dela) e só isso (vide Dilma Rousseff, que tem mais matéria criticando seus cabelos e suas roupas do que falando sobre qualquer outra coisa).

A Marcha das Vadias, que aconteceu em diversas cidades do Brasil no último sábado tem como seus maiores inimigos os machistas. Estes que odeiam ver mulheres organizadas, unidas. E obviamente esses mesmos machistas são os que curtem julgar uma mulher por nada mais nada menos do que: a aparência delas, com base nos padrões de beleza vigentes. Para eles, a palavra “feia” é a maior ofensa que se pode proferir a uma mulher (e gorda também né, porque gordofóbicos que são, acreditam que feia e gorda são praticamente sinônimos).
Pois então o que mais choveu de “críticas” as ativistas chamando-as de barangas, não é brincadeira. Basta procurar as imagens para concluir que a aparência das manifestantes é o maior foco dos haters. Além é claro de outros clássicos como “mal-amadas”, “mal-comidas”, mas obviamente tudo isso tem origem no fato de serem feias, dizem eles.

 A famosa organização ucraniana Femen, que protesta a respeito de diversos temas, tem o foco da mídia voltado para apenas algumas das manifestantes, as que tiram a blusa e estão perfeitamente encaixadas no padrão de beleza vigentes: Altas, loiras, magras. Entretanto mesmo elas quando olham para as câmeras em momento de fúria, aos berros em seus protestos, são imediatamente desvalorizadas (tanto é que essas imagens não são geralmente publicadas por aí, estão em maior número no site/facebook/etc da própria organização). Toda beleza é desconsiderada quando nela não está presente um rosto sereno e pacífico ansioso para agradar seu opressor, mas sim um grito transgressor.

E aí está a maior prova de que a beleza é circunstancial. Ou seja, uma pessoa é considerada bonita ou feia dependendo do contexto em que se encontra. Uma mulher que está indo contra o status-quo, questionando os valores que lhes foram impostos e o privilégio masculino será, com certeza, chamada de feia.

Coloque as mulheres da marcha de vestidinho e salto alto. Coloque-as sorrindo para uma câmera, bebendo um champagne (porque mulher que se dá ao respeito não bebe cerveja, todo mundo sabe), piscando para um homem. Coloque-as em um filme pornô, em um programa de TV num domingo a tarde, coloque-as  de biquíni buscando entreter os homens e pronto. Automaticamente muitas delas serão imediatamente colocadas na categoria de gostosas.

E se é esse o critério que querem nos colocar, eu peço a licença para falar em nome das vadias que marcham em todo o nosso país: Seremos feias. Se ao nos ver andando por aí, questionando seus valores, gritando nossas reivindicações, exigindo transformações sociais, tudo o que você consegue pensar é que somos um bando de barangas, então ótimo. É isso que queremos ser: Um bando de barangas.

Não queremos servir para o entretenimento masculino, não queremos seguir caladas para que vocês possam simplesmente nos achar bonitas. Sinto muito informar, mas seu julgamento a respeito da nossa estética não é mais tão importante assim. Somos mulheres organizadas e com voz. Voz essa que usaremos sempre. E sempre para nós, não para concordar em te manter nessa confortável posição que o patriarcado te colocou.

Com muito orgulho somos vadias, somos barangas. Somos a favor da igualdade e contra o seu privilégio.

terça-feira, 29 de maio de 2012

O corpo é meu! O Facebook não é nosso!


A marcha das vadias lavou minha alma. Lavou a alma de muita gente. Eu não sei muito bem o quanto eu precisava daquele momento na minha vida, eu sei que ele foi muito importante para mim. Desde que eu conheci o feminismo e fui lentamente tomando consciência de todas as pequenas violências que sofria, que tolhiam a minha liberdade em muitos aspectos diferentes, muita coisa foi embora de mim. Mas principalmente muitas pessoas foram embora. Só que ao mesmo tempo, eu não me sentia só. E nesse sábado eu não estive só mesmo. Cerca de três mil pessoas em Brasília estiveram comigo, botando para fora em alto e bom som muito daquilo que dizemos todos os dias discretamente: queremos ser respeitadas e isso independe da forma como falamos, nos vestimos (ou não nos vestimos), nos relacionamos. Só que muita gente por aí nem sabe o que o verbo respeitar significa. 

Foto da fan page da Marcha das Vadias DF
Aquela velha história de que mulher tem que se dar ao respeito carrega uma carga de machismo e moralismo tão grandes, que eu juro que não entendo como eu não consegui enxergar isso até alguns anos atrás. "Se dar ao respeito" não é respeitar suas escolhas, suas preferências, sua liberdade de ir e vir, de agir como quiser... Via de regra, "se dar ao respeito" é repetido por aí como sinônimo de privação de liberdade individual. Se você usa roupa curta, não se dá ao respeito. Se tem vida sexual ativa, goza e gosta muito, não se dá ao respeito. Se não tá afim de um relacionamento afetivo monogâmico, não se dá ao respeito. Se anda ficando com quem tá afim sem pensar em namoro, não se dá ao respeito. Respeito é uma palavra que precisa ser ressignificada. Respeito, como é repetido por aí, está diretamente ligado à invisibilidade da sexualidade feminina. Eu sou vadia e me dou ao respeito. 

Respeito não se pede, se conquista. Exigimos que nos tratem com respeito, e fazemos isso sem implorar de pernas e bocas fechadas, mas mostrando para a sociedade o quanto a sua noção de respeito é falha. Para isso é preciso união. É como nós gritamos na marcha: "Ah! que é isso! Elas estão organizadas!". E estamos mesmo, cada vez mais. E estamos conseguindo visibilidade também. Um movimento nacional que só em um final de semana reuniu cerca de 10 mil pessoas? Isso não passa despercebido. E com certeza aumentaremos em número e em consciência. Feminismo é um aprendizado constante. 

Foto da fan page da Marcha das Vadias DF 
Entretanto, a luta ainda é necessária. Prova disso é a forma reacionária e moralista como o facebook tem encarado as fotos das mulheres que estavam na marcha com os seios de fora. Que fique claro: não são fotos pornográficas. Seios não servem apenas para entreter os homens, mostrar os seios na marcha é uma atitude política, porque o nosso corpo não é apenas sexual, ele é político. Ele é tão político, que em alguns países as mulheres precisam escondê-lo inteiramente ou podem morrer caso não façam. O facebook parece ignorar essa característica e tem apagado sistematicamente as fotos das moças de topless. Infelizmente, a mesma rede social que apaga fotos não pornográficas de mulheres exigindo uma sociedade mais justa, não apaga imagens racistas, homofóbicas ou misóginas. Ultimamente nem tenho mais usado a opção "denunciar" do Facebook, tenho ido direto ao safernet e à PF denunciar esses conteúdos. Isso posto, é de se perguntar porque a nudez choca mais que a violência cotidiana. 

Foto da jornalista Luka Franca
censurada pelo Facebook
Não é a primeira vez que isso acontece no facebook, em outro momento fotos de mães amamentando foram retiradas arbitrariamente da rede social. MÃES. AMAMENTANDO. O corpo feminino é sempre sexualizado ainda que ele não seja usado para fins sexuais. Me diga, você se alimenta cobrindo o rosto? Porque um bebê precisa se cobrir para se alimentar? Foi necessário protestar com mamaços virtuais para o Facebook permitir fotos de mães amamentando seus filhos. Se você acha que o Brasil é um país libertário em que tudo pode, pense de novo. Não é bem assim, a onda conservadora que assola o país também esbarra nos nossos corpos. por isso é preciso gritar: "Meu corpo, minhas regras!" Fazer ouvir a voz de quem nem sempre, no dia-a-dia pode externar esse sentimento sem receber toda sorte de julgamentos morais. 

Ao contrário dos homens, que ao sentir calor não pensam duas vezes em tirar a camiseta, mulheres não tem esse privilégio. Guess what? Mulher também sente calor. Mas toda a nudez feminina será censurada. Toda nudez será objetificada, será rotulada, será retirada dos perfis do Facebook como se fosse ofensa. E ofende também o fato de que nem sempre os seios exibidos são durinhos, apontem para cima, caibam na mão. Com certeza o peitaço no fim da marcha das vadias de Brasília foi o final perfeito para a marcha de um movimento libertário como o feminista, porque contradiz essa idéia de que a mulher é um pedaço de carne. O nosso corpo não é inerte, não é produto, não é objeto, ele também fala por nós.  Lamentamos profundamente que a maior rede social do mundo tenha uma visão tão tacanha do corpo feminino.

Foto por Leiliane Rebouças

terça-feira, 13 de março de 2012

Nudez e Ofensa

Ontem aconteceu um protesto contra a política de censura do facebook. As imagens que, ao entender de Mark Zuckenberg e Cia LTDA, são pornográficas, logo, agridem a moral e os bons costumes, são retiradas da rede. Essa negação da nudez não é exclusividade da rede social, a reação conservadora contra os corpos nus está nas emissoras de televisão e até mesmo nas críticas de arte.


E todo mundo sabe que, desde que os Europeus aqui adentraram, nudez é um tema polêmico. Então para não causar surpresa em ninguém, deixo claro meu posicionamento desde o início do texto: Sou uma defensora. Acho que a nudez é natural e o fato das pessoas não lidarem bem com ela só demonstra que nosso corpo é propriedade alheia, não nossa. Meu sonho é viver em uma sociedade em que a nudez não choque mais ninguém (principalmente nesse país tropical, convenhamos!).


Mas independente disso, acredito que todos concordamos que nudez, pornografia e agressão visual são conceitos diferentes. O facebook resolveu censurar imagens de nu artístico e mães amamentando. Como se a nudez fosse sempre ofensiva e como se uma imagem coberta não pudesse ser. Enquanto o facebook está infestado de imagens preconceituosas e das mais diversas agressões aos nossos olhos, seios não podem aparecer porque ferem as regras da rede.


Dizem que uma imagem diz mais que mil palavras, porém a imagem só diz o que seu contexto determina. A imagem por si não fala, ela é apenas um signo, representante de algo (e Charles Peirce explica isso bem melhor do que eu). A mesma imagem em diferentes ambientes possui diferentes representações. Ela é associada a seu contexto, sua história e a cultura que se cria em torno dela, portanto não é possível estipular conceitos definitivos como o de que toda nudez é pornográfica, isso ignora o contexto da imagem e suas possibilidades.

Pois bem, pensando a partir de alguns valores básicos,o contexto e o significado dessas imagens, por favor me expliquem: De que forma uma mãe amamentando pode ser mais agressivo do que as diversas imagens de acidentes e violência, cheias de sangue, que infestam nosso facebook?


Há algum tempo a Campanha Vou de Bike resolveu fazer uma brincadeirinha (adoro só que ao contrário) publicando esta imagem que, vejam vocês ainda está aí. Ela não mostra seios, não é completamente desnuda, entretanto, colabora para a propagação de uma ideia preconceituosa e misândrica de objetificação da mulher, que mesmo em uma campanha pelo meio ambiente, precisa aparecer sexy para entretenimento masculino.


Corpos não deveriam chocar ninguém. Violência, opressão, agressão, sim. Imagens não podem ser censuradas pelo seu conteúdo imagético, mas analisadas por sua simbologia e representação, a ofensa não está na nudez em si, está no possível significado social por trás de uma imagem com ou sem roupa.

Seguimos tendo vergonha da nossa pele, enquanto valores deturpados e, sim, agressivos, não são questionados por fazerem parte do nosso histórico e de nossa cultura bárbara. A nudez é ofensiva não só porque é natural, mas também política. Nosso corpo é político e a utilização dele de maneira não objetificante, especialmente por mulheres, é contestadora demais, é rebeldia, é subversão.



Escrito por Paula Mariá, co-autoria de Gizelli Sousa e Thaís Campolina.