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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Exposição de fotos sem autorização das vítimas, até quando?

Várias famosas tiveram sua privacidade violada ontem (31/08/2014) quando hackers invadiram suas contas no iCloud e disponibilizaram, sem o consentimento delas, fotos em que elas estavam nuas.

Assim como ocorrem com desconhecidas ao serem expostas, a caça às bruxas logo começou: condenavam as famosas por terem se fotografado nuas, culpando-as pelo ocorrido e assim afastando a culpa de quem roubou as fotos e as divulgou. E ao mesmo tempo, as pessoas buscavam as fotos incessantemente, pediam links e divulgavam entre si. Comentários jocosos ou mesmo elogiosos surgiam sobre os corpos das vítimas.

Sendo elas famosas, a culpabilização da vítima também teve o viés de "elas queriam a exposição para aumentar a fama" e a busca pelas fotos para muitos se justificava no simples fato delas serem pessoas públicas. Para alguns, se elas são famosas, elas devem ter seu direito à privacidade mitigado para que assim todos possam julgá-las e avaliá-las, acompanhar cada pedaço de suas vidas e alimentar ainda mais a sociedade do espetáculo. Achar as vítimas bonitas não é justificativa para alimentar a exposição. A beleza delas não serve à você e à sua sexualidade.
"O termo "caiu na net", cunhado no orkut e muito utilizado hoje, banaliza o que a exposição dessas imagens íntimas de fato é. Um crime, uma crueldade, uma forma de vingança e de humilhação. Viola-se o consentimento da mulher, coloca-se o corpo daquela mulher como um corpo disponível para ser visto por todos que queiram. A imagem não surge do nada, ela é postada por alguém."

O corpo das mulheres é visto como público em nossa sociedade, sendo elas celebridades, a banalização da exposição da privacidade delas aconteceu com ainda mais naturalidade. Até mesmos alguns que diziam #JenniferLawrenceWeSupportYou buscavam as fotos, comentavam o corpo dela, ignorando que esse clique da busca pela imagem é uma forma de compactuar com a continuidade desse tipo de crime. Mesmo que as fotos já estejam circulando na internet, ao buscá-las e compartilhá-las você contribui para que essas exposições continuem acontecendo dando o click e age de forma insensível com as vítimas, visto que elas não consentiram que você tivesse acesso ao arquivo.

Vazar fotos íntimas de pessoas sem a autorização delas é um crime que atinge principalmente mulheres por causa do machismo e da misoginia. A constante objetificação dos corpos designados como femininos, a visão de que eles são públicos e a condenação da sexualidade feminina são os porquês dessas imagens causarem tanto furor, julgamento e culpabilização. Anônimas, ao terem sua intimidade exposta, são atacadas de xingamentos carregados de misoginia, como "vadia" e tem seus corpos avaliados de forma cruel.  Muitas vezes perdem seus empregos, o apoio da família e dos amigos e algumas até suicidam, após tamanha perseguição e por causa das consequências da exposição em suas vidas.

Privacidade é um direito humano e mulheres, sendo anônimas ou não, devem ter seus direitos respeitados. Os corpos das artistas não pertencem ao fandom, nem aos sites de notícias e nem a quem as expôs. Os corpos das mulheres não pertencem aos namorados, companheiros, ficantes ou aos antigos relacionamentos delas. O corpo é delas e elas tiram fotos nuas se curtirem isso e compartilham apenas com quem elas quiserem e nós, internautas, que não somos os reais destinatários dessas imagens não devemos alimentar ainda mais essa exposição. 
"Para aqueles que estão olhando as fotos que eu tirei com meu marido há anos atrás na privacidade da nossa casa, espero que vocês se sintam ótimos com vocês mesmos."


Bons links: 

"This is why you shouldn't click on thenaked photos of Jennifer Lawrence"
"Tua intimidade nos pertence" - Lugar de Mulher

Sobre fotos nuas, Jennifer Lawrence, eu e você




sexta-feira, 25 de abril de 2014

Moça, a culpa não é sua.

*Trigger warning. Texto de conteúdo potencialmente incômodo.



Moça, hoje eu escrevo para você. Sei que muitas vezes você ouviu que a culpa foi sua, que você poderia ter evitado, mas esse texto quer passar uma mensagem muito diferente dessa que todas nós estamos cansadas de ouvir (ou ler). Sei que talvez você ouviu culpabilizações de alguém bem próximo em que você confia/confiava e que você contou o que aconteceu esperando uma palavra de apoio e um abraço e quando esse apoio não veio, você sentiu o peso dessa culpabilização recair em você e acreditou que foi culpa sua. Sei que talvez você não tenha acreditado por completo, mas ainda assim, se sente culpada.

Moça, acredite em mim, acredite em nós, você não tem culpa alguma. Ao contrário do que te disseram, seu short curto, sua calça justa, o fato de você ter bebido, o caminho que você percorreu, nada disso faz com que a culpa seja sua. A culpa é do agressor. A culpa é do estuprador. 

Moça, o corpo é seu e seus sentimentos, suas vontades e suas escolhas importam. A culpa é de quem ignora seu não e passa em cima do seu consentimento. Moça, lembre-se, a culpa não foi sua.

Moça, eu não me esqueci de você que sofreu violência do seu parceiro e esteve em um relacionamento abusivo e ouviu que a violência que você sofria foi causada por você. Você não tem culpa, moça. E eu sei que talvez você pode ter ouvido isso de policiais, mas o fato deles serem policiais não transforma o que eles disseram em verdade.

Moça, não tem nada de errado em tirar fotos nuas e filmar momentos íntimos. O que é errado e criminoso é divulgar essas fotos e o vídeo sem o seu consentimento. A culpa não é sua. Sei que estão te ofendendo e te culpando, mas a culpa é de quem violou seu direito à intimidade. 

Moça, talvez você tenha ouvido ou lido que o seu sofrimento é um exagero e eu sinto muito por isso, mas além de culpar a vítima, o machismo e a misoginia também faz questão de desmerecer a voz das mulheres que sofreram violência ou estão sofrendo para silenciá-las. E a forma que eles tem de desmerecer é banalizar diversas agressões e duvidar dos relatos de violência.

Moça, a culpa não foi sua, quando você foi encoxada no metrô. Você tem direito à cidade, você tem direito a utilizar o transporte coletivo sem sofrer violência sexual. A roupa que você usava no momento não importa, você não teve culpa disso ter acontecido.

Moça, a culpa não é sua. E nós estamos aqui para te lembrar disso quantas vezes você precisar. Estamos aqui para ouvir você, estender a mão para você e oferecer nossa solidariedade para que você se empodere.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Bullying machista: Somos todas Karina, Amanda, Denise...


Com o crescimento do uso das redes sociais e da internet, aumentou consideravelmente os casos de divulgação de imagens íntimas de mulheres. E as mulheres vítimas dessa exposição costumam sofrer uma verdadeira caça às bruxas. As bruxas do século XXI são as mulheres que fazem sexo.
A mulher que "cai na net" é massacrada por julgamentos, ofensas e culpabilizações. Mesmo muito dos "defensores" as chamam de tolas por terem confiado em alguém. As mulheres são proibidas de confiar em qualquer pessoa e devem estar sempre atentas, sob pena de serem consideradas culpadas. Quem divulgou as fotos ou os vídeos não foram elas, pode ter sido um ex-namorado, um vizinho chantagista, um hacker, mas a culpa é da mulher. Elas deveriam ser castas, não fazerem sexo e se fizerem, jamais se deixarem fotografar ou serem filmadas. Os nomes que são lembrados não são os dos caras que divulgaram as imagens dessas mulheres sem o consentimento delas. Os nomes marcados, as vidas que são destruídas, são as dessas mulheres. Sendo que fazer sexo não é crime, mas expor pessoas na internet sem autorização o é.
  
Um caso que chocou o mundo foi o da Amanda Todd, canadense de 15 anos que suicidou-se por não aguentar mas as perseguições machistas e misóginas que ultrapassaram os muros da escola. Essas perseguições foram causadas pela divulgação de imagens dela mostrando os seios. Ela sofreu ameaças, chantagens, entrou em depressão, foi ofendida e ameaçada pelos próprios colegas, acabou se envolvendo com drogas e no fim, suicidou. Uma história triste, onde se vê claramente o poder do machismo e da misoginia e como a caça às bruxas às mulheres consideradas "vadias" é cruel.
Via Não aguento quando.
A internet vira um tribunal para essas mulheres expostas. Expor essas imagens são uma forma de vingança específica contra mulheres. Afinal, enquanto fazer sexo é considerado um horror para as mulheres, uma forma de "desvalorização", para os homens a lógica que se aplica é contrária. Por que as mulheres não expõem imagens íntimas de homens? Simplesmente porque expor essas imagens não funcionaria como vingança, os papéis não se inverteriam. Ela continuaria a "vadia". A mulher que fizesse isso, seria chamada de louca, ciumenta, histérica. Afinal, a loucura e o ciúme são relacionados à irracionalidade, característica constantemente atribuída às mulheres. E o homem seria considerado vítima, ele não seria considerado culpado, ninguém diria que "ele mereceu". Afinal, o machismo diz que o sexo é humilhante e degradante pra mulher, enquanto para o homem não.

O termo "caiu na net", cunhado no orkut e muito utilizado hoje, banaliza o que a exposição dessas imagens íntimas de fato é. Um crime, uma crueldade, uma forma de vingança e de humilhação. Viola-se o consentimento da mulher, coloca-se o corpo daquela mulher como um corpo disponível para ser visto por todos que queiram. A imagem não surge do nada, ela é postada por alguém. Atrás dessa "postagem", há ameaças como "se você me pagar tal valor, eu não divulgo suas fotos", ou até mesmo "se você me abandonar, nosso vídeo vai para internet". Há a espera pela reação de julgamento da sociedade, há a intenção é humilhar.

Muitas vezes muitos dos que utilizaram essas fotos e vídeos para o próprio prazer, são os primeiros a julgar aquela mulher e montar seu tribunal. A pessoa é vista apenas como entretenimento para os julgadores. Afinal, o bullying se sustenta nessa cultura de ódio que diz que certos tipos de pessoas devem provar o seu valor para conquistarem respeito. O respeito para as mulheres não é considerado algo inerente, ele deve ser provado. E exercer sua sexualidade é considerado uma afronta ao comportamento ideal da mulher. E qualquer mulher que foge desse ideal conservador e machista, é considerada merecedora de exposição, humilhação e até mesmo violência.



terça-feira, 27 de novembro de 2012

Violência simbólica e agressores em potencial


Quando se fala em violência contra a mulher, a indignação é consenso. Por sorte, já chegamos em um nível de repugnância social imediata ao imaginar um marido espancando a sua esposa. Particularmente, eu nunca ouvi ninguém dizer em público “se o jantar não está quente tem que bater mesmo!”. E isso é bom. É bom que já tenhamos evoluído a ponto de que a violência doméstica não seja praticada no meio da rua em plena luz do dia e nem motivo de orgulho (converse com suas avós, pergunte como era a vida das mães delas, das vizinhas e se prepare para as histórias que irá ouvir).

Entretanto, esse mesmo tema é extremamente complexo quando a cena em questão não se enquadra no imaginário das pessoas. A indignação que falei só se dá a um nível básico. Como falar de homens que agridem as companheiras é algo muito generalizante, quem escuta se sente à vontade para formar a estrutura que quiser em sua cabeça. E na maioria dos casos, a cena visualizada pelas pessoas é extremamente pré-moldada, existem nela papéis que devem estar sendo cumpridos, caso contrário, não se enquadra. Isso fica muito claro quando ao invés de falarmos de violência de gênero, falamos de exemplos práticos do dia-a-dia. Falamos das mulheres de verdade que foram agredidas e esperamos as reações.

A mulher que não deve ser agredida pelo marido tem um papel muito claro: ela é uma trabalhadora, boa esposa, boa mãe. Ela é casta, mas cumpre sua função sexual para agradar ao marido. Ela faz de tudo para deixar a casa sempre limpa e arrumada, a comida sempre na mesa e de vez em quando, até pede uma ajudinha com a louça, mas deixa passar se estiver na hora da corrida ou do futebol. Nessa mulher não se bate nem com uma flor.

Entretanto, na mesma proporção que não ouço as pessoas dizendo que “mulher tem mais é que apanhar mesmo”, ouço os aplausos às clássicas surras das novelas da Globo. Vez ou outra, uma mulher é agredida, ofendida e humilhada pelos mais variados motivos. A última vilã, Carminha, apanhou de seu marido ao ser “desmascarada”. Essas mulheres, por não se enquadrarem na caixa da “mulher ideal” incutida no imaginário popular pelos mais diversos motivos (desde falta de afeto à raiva incontrolável mesmo), imediatamente perdem o direito à defesa.

Foto tirada pela Lari Schip no Ato pelo Fim da Violência Contra a Mulher em Curitiba.
Eliza Samúdio, que não foi só agredida, mas morta pelo seu companheiro, então, cometeu o terrível crime de: ser vadia. Ela não era casada com o jogador, nem uma “namorada séria”, o que já a deixa fora da caixa da mulher ideal. Não obstante, também já havia se envolvido com pornografia e, bem, era linda de uma forma bem padrão. Me arrisco sim a dizer que se Eliza não fosse uma mulher tão padrão de beleza, não estaria sendo tão julgada por esse aspecto, estaria sim sendo rechaçada publicamente por outro crime: o de ser feia; mas não estaria respondendo tanto por sua sexualidade.

É preciso olhar mais a fundo. Tirar a violência doméstica do campo isolado em que ele se encontra e ver que ela nada mais é do que fruto da violência simbólica. Nessa entrevista, o diretor do filme Amor? fala sobre as relações representadas no documentário. Ele diz que embora todas as histórias de fato tenham a agressão física, ela acaba sendo apenas um ponto, um detalhe. A agressão é o ponto material, fruto de toda uma violência simbólica.
Esse linchamento moral constante que é feito das mulheres divide-as entre as “mulheres de verdade” e as que são qualquer outra coisa (e tenho certeza que se você usa o facebook, já deve ter visto algo do tipo). E aqui é importante falar do chamado “perfil de agressor”, entre muitos outros fatores, um homem que agride jamais bateria em uma mulher... de verdade. Uma mulher que não merecesse, uma mulher que estivesse sempre dentro da caixa da mulher de verdade, que apanha do marido cruel que ele colocou em sua mente. Ele não é um marido cruel. Ele apenas quer as coisas certas.
Do Machismo Chato de cada dia.

Julgar vítimas como possíveis causadoras, merecedoras de sua própria morte é uma demonstração clara de alguém que não acha que o respeito é algo inerente que todos nós merecemos, independente da nossa beleza ou sexualidade, independente de estarmos dentro ou não do padrão moral que o outro julga como correto. “Mulher de verdade” somos todas nós, e quando falamos de “violência contra a mulher”, estamos falando também de todas. Estamos falando, inclusive, dessa violência velada, verbal, psicológica, que constantemente nos julga, destruindo-nos como pessoa e não permitindo que entremos em contato com quem nós verdadeiramente somos por medo. Medo de, de repente, não se sentir mais incluída no grupo das mulheres de verdade, e aí toda e qualquer agressão contra nós será legitimada.

Violência não se justifica, se elimina. E se elimina cortando o mal pela raiz, tirando da nossa cultura toda essa normatização de ódio às mulheres.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Cultura do estupro no espaço público: Nosso direito de ir e vir ameaçado.


"Las leyes son como las mujeres, están para violarlas".
 As leis são comos as mulheres, existem para serem violadas.

A frase, incrivelmente misógina, foi cometida há algumas semanas atrás pelo então presidente do Conselho Geral da Cidadania Espanhola no Exterior, o senhor José Manuel Castelao Bragaño. Felizmente, a repercussão negativa fez com que ele renunciasse ao cargo poucas horas após ter verbalizado tamanha imbecilidade (cargos de poder nas mãos de machistas é uma coisa que tira a tranquilidade do meu sono). Então, se ele foi afastado, qual o problema? O problema, queridxs, é que embora a sociedade rejeite de pronto uma frase que explicita o estupro, não rejeita uma série de outras frases e atitudes que acabam por tornar banal para o cidadão comum aquilo parece chocante quando colocado com tanta clareza.

Há uma relação óbvia entre a frase e a cultura do estupro. Já tocamos no assunto algumas vezes, mas não custa relembrar: quando usamos a expressão "cultura do estupro", nos referimos a como a sociedade coloca as mulheres em posição objetificante e vulnerável, através de pequenas violências e de um discurso agressor (porém velado) que acabam por fomentar o estupro. Aqui no blog falamos do assunto na época dos protestos contra a Nova Schin e contra a Prudence.

Imagem da Página Transexualismo
da Depressão, no Facebook
Dessa vez, entretanto, quero focar no espaço público, que é palco constante dessas demonstrações de desrespeito com as mulheres. Por vezes ressaltando aquilo que temos em comum (ou seja meramente por sermos mulheres), e outras vezes desrespeitando aspectos singulares de cada mulher. Por exemplo: mulheres trans são consideradas aberrações, transformam sua identidade num mero fetiche; mulheres negras são hipersexualizadas, uma lembrança do nosso passado escravagista; Funkeiras são as novas Genis; Gordas são humilhadas por estarem fora do padrão estético eurocêntrico e racista vigente (Alô, Marisa!); mulheres que se prostituem são desvinculadas de sua humanidade, tornando-se mero objeto, de forma que estão à disposição de qualquer abuso, num grau de vulnerabilidade muito grande e assim por diante. E é claro, tudo isso pode vir a desencadear um quadro de violência física também. No fim, em maior ou menor escala, o espaço público é hostil com as mulheres.

Essa hostilidade não encontra respaldo em lei escrita, pois as calçadas de toda e qualquer cidade não vêm marcadas para um gênero específico, tampouco o transporte público. A rua não tem dono, de forma que todxs possuem o direito de ir e vir. Contudo, para as mulheres esse direito está sempre ameaçado. 

Mulheres no mundo todo sofrem com o
assédio, independente da roupa que usam.
Não faltam exemplos: Há poucos dias, fiquei sabendo de um fórum dentro do Imgur em que um professor postava fotos que tirava de suas alunas menores de idade (sem a sua permissão, claro). Ele simplesmente as fotografava em espaços públicos e colocava a foto no fórum. Seguindo o tenebroso exemplo, criaram uma página no facebook em que postavam fotos de mulheres no metrô de São Paulo. ~~Daora a vida, néaum?~~ E sabe o que é pior? alguns dirão que elas já tinham se exposto no espaço público ao sair de casa vestindo roupa justa, colada, curta ou o que for. Mas elas nunca autorizaram ninguém a fotografá-las e usar sua imagem para fins punhetísticos. Simples assim, o corpo de uma pessoa é uma exclusividade dela, a roupa que ela usa não diminui esse direito. Aliás, roupa não previne o estupro em lugar nenhum do mundo. A forma como fala, anda ou se comporta, nada disso é determinante.

Imagem de documentário de
Sofia Peeters sobre o assédio nas ruas européias
São muitas as pequenas manifestações abusivas no tocante ao corpo da mulher. Outro dia, uma amiga relatou que estava dentro do táxi, no semáforo, quando um motociclista parou ao lado do veículo e ficou olhando as pernas dela. Ela fechou o vidro, indicando que estava incomodada e o sujeito continuou a observá-la. Outro exemplo é um depoimento que recebemos nos primórdios desse blog de alguém que sofreu abuso num espaço público. E o que as pessoas que estavam perto fizeram? Riram dela. 

Quadro BIZARRO do  Programa Zorra Total
Está tudo muito errado quando a maior emissora de TV aberta do Brasil coloca um quadro humorístico em que mulheres são bolinadas no metrô e se sentem agradecidas por isso. Sabe aquela piadinha super ~~politicamente incorreta~~ que afirma que mulher feia tem que agradecer se for estuprada? Pois é, continua fazendo muita gente rir, mas faz com que algumas pessoas lamentem também. É claro que nas cabeças conservadoras o lamento de alguns é menos importante que a diversão de outros. Só que o problema é tão sério que em muitos metrôs do mundo existem vagões exclusivamente femininos. A incorreção da piada não evoca nada de novo, de transgressor, apenas legitima o estupro, que é prática opressiva mais velha que o mundo. 

Giovana contando sobre
o assédio que sofreu
Mesmo com todos esses argumentos, os defensores do assédio de rua alegam que se estivessem em situação oposta, se em vez de assediar, fossem assediados, eles gostariam muito. E é aí que entra o privilégio: Mulheres são assediadas nas ruas desde muito jovens. Ao entrar na adolescência se torna comum ouvir todo tipo de cantadas. Acredite ou não, isso nos causa medo. Desde cedo passamos a temer pela nossa integridade física, pelo nosso corpo. Não precisa sequer adentrar qualquer tipo de padrão de beleza para isso, mulheres que não se enquadram nas características racistas e gordofóbicas do padrão eurocêntrico de beleza que rege a sociedade ocidental também são vítimas de assédio e de estupro. Assediar alguém na rua não é uma forma de abordar, de conhecer, é meramente uma forma de intimidar e mostrar poder. Quando reclamamos do desrespeito, entra em ação a eterna galerinha do "deixa disso" que acredita que a paz só reina no não enfrentamento, que é a forma como toda mulher deveria agir: de forma passiva. Afinal cantada de rua não é assédio, é elogio, eles dizem. Quando fugimos à passividade de considerar que assédio é um afago no ego, nos dizem para andar em outras calçadas.

Marcha em BH
Além dos espaços de transição, dos meios de transporte, há espaços que são considerados determinantes para definir o caráter de uma mulher, acredite você ou não, o ano é 2012, mas ainda tem gente achando que mulher que frequenta baile funk não se dá ao valor ou que bar que tem sinuca não é lugar de mulher. Enfim, aquela velha história de tentar determinar o que é "lugar de mulher". Terrível, mas esse pensamento ainda existe e se propaga na medida em que o direito de ir e vir de uma mulher é cerceado pelo assédio, pelas ofensas ou pelo medo. 

E assim seguimos, alimentando uma cultura que acredita que é normal um cara passar a mão na bunda de alguém na balada, puxar o cabelo da garota, tomar vantagem da bebedeira para conseguir ficar com ela, que é banal ser encoxada num ônibus ou num vagão de metrô. E nada disso é diferente de dizer que mulheres existem para serem violadas.

Se você acha que a culpa de ser assediada, ou desrespeitada de inúmeras maneiras é da mulher, saiba: Culpar mulheres pela violência sofrida é sempre a primeira defesa de quem é mantenedor da cultura do estupro. Então, se nos dizem que a culpa é nossa, que roupa devemos vestir? Que peso devemos ter? em que táxi devemos andar? Em qual estação de metrô? Em qual vagão? Em qual cidade? Qual calçada? A que horas? A verdade é que não há roupa ou comportamento que nos liberte dessa opressão sobre o nosso direito de ir e vir. Outras calçadas, no fim, não nos protegem quando o verdadeiro problema é todo um modo de viver, toda uma compreensão distorcida de nossa identidade e de nossa humanidade.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Parem de culpar a vítima!

Estupro é causado por misoginia, estupradores, tolerância institucional e violência estrutural.
E NÃO pelas roupas, por estar no lugar "errado", bebendo ou não "tomando cuidado suficiente".

Integrantes da banda de pagode New Hit são os acusados de estuprar duas adolescentes fãs da banda após um show na cidade de Ruy Barbosa na Bahia. O exame de corpo de delito foi feito e através dele foi constatada a existência de hematomas internos vaginais em ambas as vítimas, o que é um indício grave de que sim, elas foram vítimas de estupro.

Os detalhes do caso são terríveis: as duas jovens foram estupradas por dez homens e a sociedade, em geral, se comporta de forma machista e misógina culpando, as vítimas pelo acontecido e também ameaçando suas famílias por terem denunciado o caso. Os apoiadores dos acusados alegam que a mera ida ao show já é considerado um indício que elas estavam "pedindo"; afinal, para essas pessoas, mulheres que saem de casa à noite não são dignas de respeito. Outros dizem que elas entraram no ônibus porque quiseram e isso seria mais um indício que elas estavam "provocando, pedindo, buscando" o que veio acontecer.

Há quem diga que elas forjaram o estupro, mas como então elas forjaram os hematomas que constaram no exame de corpo de delito? Há quem diga que elas são "umas vadias", deram muito e agora denunciaram o estupro porque a banda teria dinheiro. Para essas pessoas, eu informo: quando uma pessoa é condenada por estupro, ela não fica obrigada a pagar "muito dinheiro" pra vítima; por mais que vocês achem que estupro é um "problema menor" ou até mesmo uma forma de ganhar direito em cima dos outros; saiba que se ele está previsto na lei penal, quer dizer que essa conduta criminosa é relevante para o Direito e que essas pessoas devem ser punidas, pelo bem da coletividade. Há quem diga que eles não precisam estuprar ninguém, afinal, eles poderiam ficar com quem quiserem naquele show. Para essas pessoas, eu digo, estupro não é sexo. 
Marcha das Vadias de BH - 2011 - Acervo Pessoal

Mais uma vez a sociedade nos mostra sua cara misógina e machista e a gente destaca, novamente, que a culpa de um estupro é do estuprador, jamais da vítima. Não se evita estupros não permitindo que mulheres saiam de casa; não se evita estupros cobrindo o corpo das mulheres com determinadas vestimentas; não se evita estupros culpando as vítimas pela violência sexual sofrida.

É necessário deixar claro mais uma vez que se uma mulher estiver nua e desmaiada de bêbada numa cama, NINGUÉM TEM PERMISSÃO de tocá-la; afinal, ela não tem possibilidade de consentir com o ato. Se uma mulher beija um homem, ele não tem direito de tocá-la onde ela não permitir, ele não tem direito de supor que um beijo é consentimento para qualquer ato sexual que seja. Há diversos exemplos a serem dados mas, neste caso, é bom deixar claro que uma mulher de noite num show não "tá pedindo", uma mulher que entra num carro, na casa, ou num ônibus de um cara não "tá pedindo". Não existe "estar pedindo" por um estupro, porque o que determina se um estupro aconteceu é a ausência de consentimento. Se não há consentimento é estupro. Simples, né?

Roupa, comportamento sexual, a hora e o lugar onde a vítima do estupro se encontrava não a faz menos vítima. Dizer que essas garotas são vadias e mereceram é endossar ainda mais a cultura do estupro, é contribuir para que vários criminosos continuem impunes. Organizar uma marcha em defesa dos acusados não é possibilitar o acesso ao contraditório e ampla defesa numa ação penal, é simplesmente ignorar que essas pessoas podem ter cometido crimes, é banalizar todas as formas de violência contra mulher. Duvidar, dessa forma, de uma acusação de estupro, é dizer que o corpo das mulheres é disponível, pode ser violado se ela não se comportar conforme parcela da sociedade diz que é certo. A marcha que está sendo organizada pelos fãs da banda zomba da Marcha das Vadias, zomba das diversas vítimas de crimes que violam a dignidade sexual das pessoas, zomba também da própria ideia de um mundo menos violento e menos machista.

O caso deixa claro como denunciar um estupro não é uma decisão fácil e como a vítima daquela violência e todos que estão próximos sofrem com os julgamentos machistas que são destinados pra quem tem coragem de não se calar.

Ato em apoio às vítimas, aqui. 

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Manual da Abusada – 1a Edição

Depois das revelações da muito conhecida Xuxa, sobre ter sido abusada até os 13 anos de idade, muita polêmica surgiu. A clássica culpabilização da vítima foi, claro, um dos grandes focos. Mas houve também outros argumentos mais “alternativos”, como o de que ela teria sido pedófila também, por conta do filme que fez com um menino de 13 anos (sendo que na época ela tinha 16), ou aparecendo com roupas curtas nos programas infantis (ah, essas vadias que ficam por aí exibindo seus corpos). Mas principalmente houve quem questionasse a legitimidade do discurso dela, afinal, foi um sensacionalismo tremendo e ela podia estar querendo ibope (porque mulher sempre quer fama, né? Já repararam como ninguém fala que um homem dando uma “declaração x” é por ibope?) e se foi falar, por que só agora? Por que tantos anos depois? Ah, nesse mato tem cachorro!

Diante das milhares de discussões das quais participamos nos últimos dias, ficou clara a existência de um “manual do abusado” cujas regras todo mundo determina e as utiliza como forma de julgar quem se declara vítima de uma determinada situação. São basicamente normas que você, amiga que já teve seu corpo violado, precisa saber e agir de acordo, caso o contrário o abuso que você sofreu não tem valor, nem importância alguma, ok? Se você não seguir ao pé da letra, imediatamente você deixa de ser vítima e passa a ser a culpada da história – afinal, você está infringindo as leis do Manual do Abusado – portanto, não venha choramingar.

Como percebemos que ainda não há uma versão escrita desse manual, resolvemos publicá-lo aqui para vocês, dessa forma tudo fica bem explicadinho e você não corre o risco de sair cometendo gafe por aí, né? Aqui vai então o Manual da Abusada, contendo as principais regras expostas pelos nossos queridos questionadores da legitimidade do discurso de uma mulher estuprada:
  • Se você foi abusada, é proibido seguir a sua vida e ser feliz em qualquer instância.
  • É proibido também ser bem sucedida, especialmente de uma forma que te traga visibilidade midiática.
  • É estritamente proibido utilizar shorts e saias acima do joelho, blusas decotadas, justas, ou qualquer coisa que possa incitar tesão em um homem.
  • É proibido apresentar-se nua.
  • É absolutamente proibido usar essa nudez de forma lucrativa, tal como posar para uma revista masculina.
  • No mesmo tópico das duas últimas regras, é proibido gravar filmes com cenas de nudez.
  • Confira na distribuidora do Manual do Abuso mais próxima a você qual o prazo de validade para a sua denúncia, caso o contrário ele pode expirar e você acabar falando sobre o assunto muito tempo depois do que as outras pessoas acham apropriado.
  • Ao tocar no tema, lembre-se de estar em um ambiente privado e com a atenção do mínimo de pessoas possível.
  • Nunca, jamais, sob hipótese alguma faça sua denúncia em um meio de comunicação midiático, muito menos em horário nobre.
  • Ao falar sobre o abuso, é proibido chorar.
  • E, por fim, é proibido ser envolvida em outros contextos de abuso ao longo da sua vida.
    Fique atenta ao Manual da Abusada, cara amiga que teve seu direito a decidir sobre próprio corpo brutalmente desrespeitado. O não cumprimento de suas regras leva a gravíssimas demonstrações de intolerância dos preconceituosos de plantão.


Ps. Para os que não conseguiram interpretar ou não estão familiarizados com a linha ideológica do blog, deixamos claro que o texto é inteiramente irônico. Toda o nosso apoio e solidariedade à Xuxa e às milhares de anônimas abusadas, silenciadas diariamente pelo grito do desmerecimento alheio.