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segunda-feira, 14 de abril de 2014

Representatividade importa

Fonte

Quando o assunto é representação midiática, vários grupos militam para que essa representação seja mais plural, enquanto uma parcela de pessoas despreza a importância dessa pluralidade e afirma que os programas de televisão e os filmes ao não representarem pessoas negras e gordas, lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans não mudam nada na vida dessas pessoas. Faço parte do grupo que luta por uma melhor representação midiática e que reconhece a importância dela como ferramenta para empoderamento de pessoas. 

O problema da representação não se restringe a criticar a ausência de pessoas de grupos diferentes na mídia, mas também trata de criticar as representações problemáticas que são baseadas em estereótipos de gênero, de raça e que são flagrantes discriminações. Nesse aspecto, se luta, por exemplo, por uma representação feminina que não seja simplesmente a versão "feminina" de personagens masculinos. Ou seja, que as personagens femininas tenham aspectos de personalidade como personagens masculinos tem, que elas não sejam simplesmente resumidas a estereótipos de gênero. 

Numa sociedade heteronormativa, representações de casais não héteros na ficção são importantes em vários aspectos, entre eles, naturalizar as relações não hétero para a sociedade em si. Fazer com que as pessoas encarem dois homens andando de mãos dadas e namorando, assim como encaram o casal formado por um homem e mulher. A novela "Em família", ao colocar duas mulheres como um possível casal e tratar da relação delas de amor, descobrimento e de amizade, de certa forma faz isso. Já vi críticas e elogios sobre as personagens da novela, mas vale a pena ler esse relato, que é, por sinal, o motivo que escrevo esse texto, porque através dele fica fácil perceber a importância da representatividade:

"Minha vó é uma senhora de 87 anos que todo dia assiste novela e gosta bastante de conversar sobre o que aconteceu no capítulo do dia. Esses dias, vi um trecho da atual novela "Em família" com ela. Nessa novela, tem duas personagens chamadas Clara e Marina. Clara é casada com um homem e Marina é uma fotógrafa super talentosa e que é lésbica e as duas ficaram amicíssimas. Marina se interessa por Clara e Clara começa a se descobrir apaixonada por Marina também. Nesse contexto, minha avó me contou que quando era novinha, ela tinha uma amizade muito grande com uma moça, ambas faziam tudo juntas, se acompanhavam e se apoiavam, como as moças da novela. E essa amiga, quando começou a namorar, se afastou dela e ela contou que ficou arrasada por isso, muito triste mesmo. E disse, de forma muito leve, que ela talvez tenha sido apaixonada por essa amiga dela, como as moças da novela e que só não sabia disso porque na época ela sequer sabia que existia casais de mulheres. Fiquei emocionadíssima, assim como minha mãe, ao ouvir aquilo." - Relato adaptado a pedido da enviante. 


Bons links:

Podcast do We Can Cast it!:
Documentário:
Vídeos:
Feminist Frequency (Há vários vídeos sobre o assunto nesse canal, mas selecionei esse específico. É possível habilitar legendas.) 
Textos:


terça-feira, 17 de julho de 2012

Guestpost: Feminismo e cultura pop: Parte 1 – As Representações Femininas


Olá, pessoal do Ativismo! Me chamo Taís e sou a blogueira do Colchões do Pântano. No blog, um dos meus objetivos é analisar mídias de entretenimento como games, quadrinhos e séries sob a ótica feminista. Nesta série de guest-post, farei uma (não tão) pequena compilação de problemas e fatos que pude perceber e aprender com o tempo.
Quem já está familiarizado o suficiente com feminismo conhece vários estereótipos, falácias e preconceitos quando o assunto é sobre mulheres. Tudo isso também aparece no meio nerd/geek/gamer com suas peculiaridades e semelhanças.

De acordo com a ESA (Entertainment Software Association), as mulheres representam 47% dos jogadores americanos. Mesmo assim, a carga de machismo e misoginia que existe tanto nos jogos quanto entre os próprios jogadores é assustadora. O problema começa com as representações femininas criadas por desenvolvedores predominantemente masculinos. Um dos estereótipos mais frequentes é:

A Fighting Fuck Toy – Protagonista feminina que é hiper-sexualizada e ao mesmo tempo é forte, independente e chuta a bunda dos inimigos. Esse tipo de personagem me irrita bastante porque muitos a tratam como símbolo de empoderamento feminino, quando ela nada mais é do que um produto criado para satisfazer o público masculino heterossexual (ao mesmo tempo que é usado para invalidar o argumento de que elas não são objetificadas porque, afinal, olha como elas são fortes e incríveis! Como ousa não gostar delas?).

Exemplos: Ivy de Soul Calibur (que a cada jogo lançado, seus peitos tornaram-se cada vez maiores), Bayonetta (com o diferencial de usar literalmente sua “sexualidade” como fonte de poder), Lara Croft de Tomb Raider (que passou a ter um corpo ligeiramente mais realista a partir de Angel of Darkness e passou por mudanças bem mais significativas com um reboot ainda não lançado), Juliet de Lolipop Chainsaw (incluindo o bônus fetichista com uma líder de torcida), Mai Shiranui de Fatal Fury e The King of Fighters (que passou por um processo similar ao de Ivy) e as mulheres de Mortal Kombat em geral.
Fighting fuck toys, representações femininas positivas? HAHAHAHAHAHA CONTA OUTRA.

Talvez por objetificação e força estarem tão atrelados para mulheres, é possível ver um “padrão inverso”: quando a personagem não é visualmente apelativa, muitas vezes ela é como a princesa Peach: passiva, fraca e indefesa. Cheguei a fazer uma listinha com exemplos. Esse padrão também aparece na página doTV Tropes.

Outro exemplo constante de objetificação aparece nas armaduras femininas. Em muitos MMORPG’s* (principalmente os orientais), você pode comparar os gêneros da mesma raça, classe e nível que a mulher provavelmente vai ter muito menos proteção que o homem. Existe até um nome próprio para couraças femininas: boopblate (ou seja, a armadura tem o formato dos peitos definido).
Exemplos: Tera Online, Fiesta Online, World of Warcraft, Perfect World e Dragon Nest**.
Comparação de armaduras de níveis diferentes e a lógica “menos é mais e melhor”. Imagem de Tera Online.
Como homens de armadura ficariam se tivessem o mesmo nível de proteção das mulheres.

Por último, temos uma situação que não chega a aparecer tanto nos jogos, mas MUITO em HQ’s: a “boob-and-butt pose”, em que as mulheres são desenhadas em uma posição que é possível ver os peitos e bunda ao mesmo tempo. O problema é que além de ser desconfortável, a contorção é tão grande que a coluna vertebral quebraria se fosse de verdade (além de outras poses ridículas consideradas “sexy”). Tal fato deu origem ao tumblr Escher Girls, publicando, parodiando e consertando inúmeros exemplos.
Sexy ou ridículo? Depende, é claro.
Aí aparecem alguns com a falácia da falsa simetria afirmando que homens fortes e musculosos também são objetificados! Tá reclamando do quê? Homens também sofrem, tadinhos!

Tal afirmação é falaciosa por uma razão muito simples: Homens musculosos e mulheres gostosas são produtos para um público dominante masculino heterossexual.  Enquanto heróis musculosos representam o que eles gostariam de ser, heroínas gostosas são o eles querem que elas sejam para satisfazerem seus desejos e fetiches (além de mulheres halterofilistas não serem consideradas atraentes por motivos óbvios). Em suma: não confunda idealismo com objetificação.

Cara, como você é uma feminazi chata, credo! Só tá reclamando neste post! Não tem nada de positivo pra mostrar não?

Tem sim. Apesar de poucas, existem personagens que não só são mais realistas na aparência, como também podem ter uma personalidade mais interessante e humana.
Exemplos: Faith de Mirror’s Edge, April de The Longest Journey, Zoë de Dreamfall, Jade de Beyond Good & Evil, Alyx de Half-life 2 e Episodes, Zoey de Left4Dead, Rochelle de Left4Dead 2 e Chell de Portal e Portal 2.

Quanto a jogos em que mulheres usam armaduras convincentes, temos Skyrim, Mass Effect e The Lord of the Rings Online como exemplos.
Representações femininas legais (e mais diversas) existem, apesar de serem escassas.
Ah, mas você tá levando os jogos a sério demais! Eles foram feitos pra nos divertirem!
Primeiro, se divertir com alguma coisa é bastante subjetivo depende dos gostos de cada um (ou você conseguiria se divertir jogando Dear Esther ou Amnesia: The Dark Descent?). E segundo, esse tipo de desculpa para fugir do problema não é muito diferente de dizer “é só uma piada!” para gracinhas preconceituosas.

Então você está sugerindo que os desenvolvedores sentam e pensam de como vão criar uma personagem feminina ofensiva.

Sim, eu já tive a oportunidade de ouvir essa pérola e alguém acreditar que esse problema é exclusivo E intencional da indústria de jogos é ser bastante ingênuo e não ver o preconceito como fruto de uma sociedade machista.

No próximo post, o tema será sobre o tratamento que mulheres como jogadoras recebem (ou dão) nesse meio, principalmente quando é para protestar contra o preconceito que elas sofrem.

*Massive Multiplayer Online Role-Playing Game. Jogos com vários jogadores simultâneos conectados que criam personagens com um determinado nível de customização na aparência, roupas e funções, e que precisam realizar tarefas para subirem de nível e consequentemente adquirindo armas, armaduras e poderes melhores.
**Esse jogo tem gender lock, ou seja, o gênero do personagem que você vai jogar é pré-determinado pela classe. Warrior e Cleric são garotos enquanto Archer e Sorceress são garotas.


Para ler a parte dois da série de guestposts sobre Feminismo e Cultura Pop escrita pela Taís Fantoni clique aqui.