*CONTÉM SPOILERS*
De
um lado, temos o estúdio de animações Pixar e seu histórico: nenhuma
protagonista do sexo feminino. De outro, temos a Disney: nenhuma princesa
que tenha, de fato,
uma mãe. Uma mãe com presença, que realmente se relacione com a filha. A
boa notícia? A Disney-Pixar lança seu mais novo filme, Valente, que
conta com uma personagem principal feminina, cuja história é
praticamente toda centrada na relação mãe e filha. Foi emoção demais
para o meu coraçãozinho feminista.
Eu gostaria muito de escrever um texto sem spoilers, mesmo porque este não tem
a menor pretensão de ser uma resenha (e porque eu sou péssima nisso,
beijos). Porém, findado o processo de escrita, eu percebi que botei a história mais a perder do que o esperado. Peço sinceras desculpas. Creio que ultrapassei limites por conta do encantamento gerado por essa bela animação. O motivo do fascínio
passa, obviamente, pelo fato de eu tê-la achado feminista. A princípio, vou tentar focar na parte simbólica do filme: achei acertada a escolha do urso para firmar o enredo. Eu acho que o urso fornece um escopo muito forte para ilustrar o grau de profundidade de uma relação mãe e filha.
Porque é justamente o urso, animal temido e ao mesmo tempo admirado ao ponto de virar brinquedo de pelúcia, que possui a simbologia da introspecção, do despertar de consciência. Em culturas como a indígena norte-americana, o urso é o símbolo da sabedoria. O urso é visto como aquele que sabe discernir se o ato de continuar a insistir em algo vale ou não a pena. E, tomada a decisão, o urso não pestaneja em mudar, seguir adiante.
Como fiquei satisfeita de ver a simbologia do urso aparecendo na animação, fui ler mais a respeito e acabei encontrando um pouquinho acerca do urso na simbologia céltica: trata-se de animal cujos poderes são igualitários entre macho e fêmea. A mitologia celta conta com duas deusas que se transmutaram em urso, a Andarta e a Artio. O urso-macho é associado ao Rei Arthur. Além do mais, o urso aparece, na tradição celta, como o arquétipo materno: mãe por excelência, a figura do urso estaria diretamente vinculada à maternidade e proteção de crianças.
É
justamente essa bela simbologia, de um animal que cuida, protege suas
crias, ao mesmo tempo em que não hesita em ponderar suas crenças e
portanto mudar, que aparece na tela de Valente. Aliado a paisagens
belíssimas, muito bem arquitetadas graficamente, o filme conseguiu me
prender do início ao fim. Eu li algumas resenhas bem negativas, dizendo
que a animação tinha tudo pra ser uma grande aventura e não foi. O
problema é que esses críticos não conseguem enxergar que os desenhos
animados (pelo menos os mainstream) nunca se aventuraram a aprofundar o
assunto <relação mãe e filha>. Isso pra mim foi A aventura.
Mas
os críticos ainda estão muito preocupados em ver ações de acordo com
aquilo que o olhar “masculino” deles considera uma aventura. Desconfio
que tais críticos, cujos links não acho dignos de compartilhar com
vocês, esperavam que a “valentia” da Merida (o nome da protagonista é
Merida, eu falei que não sei escrever resenha, certo?) se fizesse ao
decepar monstros ou derramar muito sangue. Só que não. A Merida é
valente justamente por defender a mãe. Com o bônus de não precisar de
nenhum príncipe encantado para ajudá-la. Aliás, a ausência de um
príncipe encantado salvador é também digna de nota, já que a Disney é
conhecida por reforçar o mito de que mulheres não sabem se virar
sozinhas, colaborando, assim, com a manutenção do patriarcado nosso de
cada dia.
E
o ápice da valentia se dá numa das cenas mais fortes do filme. Aquela
cena em que me foi impossível não chorar. A cena em que, simbolicamente,
ocorre uma violência doméstica. A cena em que ficou claro pra mim que a
Disney finalmente entendeu que não precisa matar a mãe da princesa pra
fazer uma história tocante, que valha a pena. Trata-se do momento em que
a Merida se coloca entre o pai e a mãe e, muito corajosamente, desafia o
pai e o impede de matar a própria esposa. Achei a metáfora perfeita,
tanto para ilustrar a real de uma violência contra a mulher (ilustrar é
diferente de justificar, pfvr), como para mostrar que somente após a
morte de mães como a da Branca de Neve, da Cinderella, da Ariel, da
Bela, da Pocahontas, além do fato de Rapunzel e Bela Adormecida terem
retornado à convivência materna somente após os 16 anos, que a Disney
admitiu que, oh céus, dá pra retratar mãe e filha juntas, vencendo
obstáculos, aprendendo uma com a outra, sendo amigas! Lavei minh’alma.
Preciso abrir dois parênteses. Primeiro, pra falar que sim, eu entendo que muitas das obras mencionadas acima são adaptações de contos de fada que já existiam. Aliás, tem um texto ótimo que eu gostaria de linkar aqui, além desse outro texto, um guestpost publicado pela Lola, que fala sobre a evolução das princesas Disney. Por outro lado, se formos analisar os desenhos Disney como um todo, e não só aqueles baseados em contos de fada, veremos que a maioria absoluta retrata crianças/adolescentes sem mãe. O segundo parêntese é pra dizer que esse fato talvez corrobore o que uma amiga me disse outro dia: talvez a Disney nem tenha nada contra a figura materna em si, mas apenas queira demonstrar que a vida sem uma mãe se torna, literalmente, um inferno. O que acabaria por cimentar em nós a noção de que homens não são bons cuidadores. E que madrastas são todas carrascas. O que é igualmente problemático, a meu ver.
Pra terminar, não posso deixar de mencionar o cabelo da Valente. Fez justiça a todas as meninas crespas. Saber que as garotas de hoje terão um arquétipo com um cabelo natural, não-domado, é muito gratificante pra mim. Eu sei que sou Pollyanna demais, mas entendam: eu não me recordo de UMA princesa ou boneca que tivesse um cabelo não-domado. Até a Tiana, que eu me lembre, teve seu cabelo penteado “certinho”. Lembremos que Valente conta com a assinatura da Pixar, o que faz muita diferença em termos de qualidade gráfica. Portanto, celebremos a cabeleira natural da Merida, com seus cachos heterogêneos que, mesmo molhados, dão a impressão de algo real, não-fabricado. Em tempos de plastificação de corpos, cabelos e mentes, isso já é um grande avanço.






