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quinta-feira, 12 de junho de 2014

"O valente não é violento": prós e contras da campanha.


A campanha "O Valente não é violento" é uma iniciativa que faz parte da campanha "UNA-SE - Pelo fim da violência contra as mulheres" que é coordenada pela Organização das Nações Unidas (ONU). Uma iniciativa louvável que tem o objetivo de questionar os papéis de gênero e assim estimular uma mudança de atitudes que busca dar fim ao machismo. 

De cara, o uso da palavra "Valente" utilizado em todas as frases da campanha me incomodou. Ser valente é ser audacioso, destemido, um elogio. Por isso, inicialmente entendi que a utilização da palavra na campanha era uma forma de parabenizar o homem que respeita as mulheres e as trata como gente, o que apesar de bem intencionado, me parece bem negativo. Afinal, por que chamar de "valente",  o homem que faz o mínimo, que é tratar mulheres com respeito, sendo que isso deveria ser tratado como uma obrigação? 

Ao assistir um dos vídeos da campanha e ler a mensagem "Um homem que chora é um valente. Um homem que faz uma mulher chorar é um covarde" entendi que a palavra foi utilizada pra fazer um contraste com "Covarde".

A masculinidade é construída de forma que padroniza-se que os homens devem ser corajosos, audazes e ativos. Nessa construção, também enaltece-se a agressividade. Covarde é uma palavra oposta ao papel de gênero masculino e por isso, vista como tão ofensiva. 

A cultura em que estamos inseridos é patriarcal, logo valoriza mais as características colocadas como masculinas na construção dos papéis de gênero. Vincula-se a palavra valente à agressividade cobrada de um herói de guerra. E a palavra covarde, à passividade, ao medo. Vejo que a campanha quer desvincular a agressividade e a violência como algo masculino, ao tentar desvinculá-la de uma palavra que tem tanto clamor para a masculinidade e vinculá-la ao que considera-se ruim, que é a covardia.

Inegável que a campanha é bem intencionada, ela quer desconstruir o vínculo da valentia com a agressividade, afastando assim, a ideia de que homens devem ser grossos, agressivos, insensíveis. Mas me questiono: Como desconstruir os papéis de gêneros e modificar a cultura partindo de uma dualidade que só reforça a masculinidade?

A campanha afirma:
A iniciativa convida as pessoas a repensar e transformar os estereótipos, ou seja, as ideias pré-concebidas dos papéis sociais denominados femininos ou masculinos e das crenças sobre o que as mulheres e os homens devem ser ou fazer. Afinal, essas ideias profundamente arraigadas em nossas culturas são a base da desigualdade de gênero, da discriminação das mulheres e, consequentemente, da violência exercida contra elas. “O Valente não é Violento” quer contribuir para a erradicação das práticas culturais danosas e dos comportamentos prejudiciais às mulheres e meninas gerados por pressões de grupos sociais machistas.
Apesar da campanha ter a finalidade de repensar os estereótipos de gênero, ela parte de um. A campanha sabe o quanto essa padronização de gênero é nociva e origina discriminações e violências contra a mulher, mas ao mesmo tempo utiliza-se dela. 

Numa sociedade onde o homem que não chama mulheres de vadias e vagabundas é visto como "menos homem", em que o cara que acha que assediar mulheres na rua é algo errado é visto como um "maricas" e que para ofender um homem basta questionar sua sexualidade de forma bem homofóbica, essa campanha é um passo para a transformação ao tentar desconstruir uma série de comportamentos vistos como normais e másculos.

Excelente vídeo que chama os homens para questionar a cultura do estupro.

A questão é: continuar reforçando a masculinidade utilizando da dualidade covarde/valente tem poder transformador? Fazer uma campanha que enaltece uma característica considerada masculina não seria uma forma de continuar perpetuando ideias machistas que são tão danosas na busca de uma sociedade igualitária de fato? Sabendo que em nossa cultura valentia é algo visto como masculino e covardia, como feminino, utilizar essa dualidade não seria uma forma de reforçar a ideia de que tudo que se relaciona ao feminino é ofensa para a sociedade?

Apesar da crítica, não tiro o valor da campanha, já que o público-alvo é o típico machão que tem orgulho de ser grosseiro, assediar mulheres, ser machista e que acha que lugar de mulher é na cozinha. As frases principais da campanha são bem pensadas e tentam desconstruir comportamentos considerados normais dentro de relacionamentos, por exemplo, "O Valente não intimida, confia", "O Valente não discute, dialoga" e  "O Valente compartilha as responsabilidades do lar". Só questiono o porquê das campanhas contra a violência contra a mulher insistirem nessa fórmula de enaltecer a masculinidade para desconstruí-la. 

"O valente não é violento" perde pontos na má escolha da palavra, mas é uma campanha bem articulada que propõe que cada um faça sua parte no combate ao machismo cotidiano e que reconhece a importância de transformar a cultura. No site da campanha, é possível encontrar dados da violência contra mulheres e meninas, textos que reconhecem essa luta como uma bandeira dos direitos humanos e imagens da campanha. Um pouco melhor que o velho "homem que é homem não bate e mulher", mas ainda falha.

Questionando a campanha "Homem de verdade não bate em mulher"

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A violência de gênero e o amor romântico

Esse texto foi retirado do site Pikara Magazine, a versão original é de Coral Herrera Gómez. Abaixo a tradução, feita por mim (o texto é longo, mas vale muito a pena).


O amor romântico é a ferramenta mais potente para controlar e submeter as mulheres, especialmente nos países em que são cidadãs de plenos direitos e onde, legalmente, não são propriedade de ninguém. 

São muitos os que sabem que combinar o carinho com os maus-tratos serve para destruir a autoestima de uma mulher e provocar sua dependência, por isso utilizam o binômio maus/bons tratos para deixá-las perdidamente apaixonadas e assim poderem dominá-las. 

Um exemplo disso é Káliman, cafetão mexicano que explica como prostituir as mulheres: Escolhe-se as mais pobres e necessitadas, preferencialmente aquelas que estão desejando sair do inferno caseiro em que vivem ou aquelas que precisam urgentemente de carinho porque se encontram isoladas socialmente.  Os cafetões seguem um roteiro para a perfeição: Primeiro as enchem de amor, atenção e presentes durante dois meses, fazendo com que elas acreditem que são as mulheres da vida deles e que sempre terão dinheiro disponível, tanto para as necessidades quanto para os caprichos. Depois jogam-nas cerca de dois dias em um prostíbulo para que as moças “façam terapia”: se resistem, brigam, se enfezam é melhor deixar que passem esse tempo sozinhas. Jamais se pede perdão. É necessário que sofram até que seu orgulho desmorone e se coloquem de joelhos, aceitando a derrota. 

O macho deve se manter firme, mostrar seu desprezo, deixá-la nos momentos de raiva e nunca ter piedade das lágrimas da esposa. Essa técnica lhes assegura que ela atenda seus desejos e trabalhe para ele nas ruas ou em prostíbulos; a maioria delas não tem para onde ir e, segundo eles, uma vez que provam do luxo não querem voltar para a pobreza. 

Esse relato de horror é muito comum no mundo inteiro. Não somente cafetões, mas também muitos namorados e maridos tratam as mulheres como éguas selvagens que precisam ser domesticadas para que sejam fiéis, submissas e obedientes. Muitos seguem acreditando que as mulheres nasceram para servir e amar aos homens. E muitas de nós, mulheres, seguimos acreditando nisso também. 

“Por amor” nos apegamos a situações de maus-tratos, abusos e explorações. “Por amor” nos unimos a homens horrendos, que a princípio parecem príncipes encantados, porém que logo nos enganam, se aproveitam de nós ou vivem às nossas custas. “Por amor” aguentamos insultos, violência, desprezo. Somos capazes de nos humilhar “por amor” e ainda nos gabarmos por nossa intensa capacidade de amar. “Por amor” nos sacrificamos, nos anulamos, perdemos nossa liberdade, perdemos nossas redes sociais e afetivas. “Por amor” abandonamos nossos sonhos e metas, “por amor” competimos com outras mulheres e nos tornamos eternamente inimigas, “por amor” deixamos tudo... 

Este “amor” quando chega, faz de nós mulheres de verdade, nos dignifica, nos deixa puras, dá sentido a nossa vida, nos dá status, nos coloca acima do resto dos mortais. Este “amor” não é somente amor: É também uma salvação. As princesas dos contos de fadas não trabalham: são mantidas pelo príncipe. Em nossa sociedade, alguém que te ame é sinônimo de êxito social, ser escolhida por um homem te dá valor, te faz especial, te faz mãe, senhora. 

Esse “amor” nos prende em contradições absurdas “deveria deixá-lo, porém não posso porque o amo/porque com o tempo ele irá mudar/porque ele me quer/porque é o que tenho”. É um “amor” baseado na conquista e na sedução e em uma série de mitos que nos escravizam, como o de que “no amor tudo pode”, ou o de que “uma vez que se encontra a sua metade da laranja é para sempre”. Esse “amor” nos promete muito, porém nos enche de frustração, nos aprisiona a seres para quem damos todo o poder sobre nós, nos sujeita a papéis tradicionais e nos pune quando não nos ajustamos ao que foi estabelecido para nós. 

Esse “amor” nos transforma também em seres dependentes e egoístas, porque utilizamos estratégias para conseguir  o que queremos, porque nos ensinam que é preciso dar para receber e porque esperamos que o outro “abandone o mundo” do mesmo modo que nós fazemos. Tanto que o “amor” que sentimos nos transforma em seres amargurados que vomitam diariamente censuras e reclamações. Se alguém não nos ama como nós amamos, esse “amor” nos faz vitimistas e chantagistas (“eu que daria tudo por você”). 

Esse “amor” nos leva ao inferno quando não somos correspondidas, ou quando somos traídas, ou quando nos abandonam: porque quando nos damos conta estamos sozinhas no mundo, sem amigas e amigos, familiares ou vizinhos, dependentes de um homem que acredita ter o direito de poder decidir por nós.
Por isso esse “amor” não é amor. É dependência, é necessidade, é medo da solidão, é masoquismo, é uma utopia coletiva, porém não é amor. 

Amamos patriarcalmente: O romantismo patriarcal é um mecanismo cultural para perpetuar o patriarcado muito mais potente que as leis: A desigualdade está aninhada em nossos corações. Amamos desde o conceito de propriedade privada e desde a base da desigualdade entre homens e mulheres. Nossa cultura idealiza o amor feminino como um amor incondicional, abnegado, entregue, submisso e subjugado. As mulheres são ensinadas a esperar e amar um homem com a mesma devoção que se ama a deus e se espera Jesus Cristo. 

A nós mulheres nos foi ensinado a amar a liberdade do homem e não a nossa própria. As grandes figuras da política, da economia, da ciência e da arte tem sido sempre os homens. Admiramos os homens e os amamos a medida em que são poderosos; as mulheres privadas de recursos econômicos e propriedades precisam dos homens para sobreviver. 

A desigualdade econômica por razões de gênero leva a dependência econômica e sentimental das mulheres. Os homens ricos nos parecem atraentes porque tem dinheiro e oportunidades. E porque somos ensinadas desde pequenas que a salvação está em encontrar um marido. Não nos foi ensinado a lutar para que tenhamos os mesmos direitos, mas sim a estar bonita e conseguir alguém que te mantenha, te queira e te proteja, ainda que para isso tenha que ficar sem amigas, ainda que tenha que se unir a um homem violento, desagradável, egoísta ou sanguinário. 

O exemplo mais claro que temos são os chefes do narcotráfico: Tem todas as mulheres que quiserem, tem todos os carros, drogas, tecnologias que quiserem, tem todo o poder para atrais as moças solitárias, sem recursos nem oportunidades. 

A desigualdade estrutural que existe entre mulheres e homens se perpetua por meio da cultura e da economia. Se gozássemos dos mesmos recursos econômicos e pudéssemos criar nossos bebês em comunidade, não teríamos relações baseadas na necessidade, acredito que amaríamos com muito mais liberdade, sem interesses econômicos por medo. E diminuiria drasticamente o número de adolescentes pobres que acreditam que engravidando vão garantir o amor do macho ou ao menos uma pensão alimentícia durante anos de sua vida. 

Os homens também são ensinados a amar a desigualdade. A primeira coisa que aprende é que quando uma mulher se casa com ele é “sua mulher”, algo parecido com “meu marido”, porém pior. Os homens tem duas opções:  ou se deixam amar desde acima (machos alfa), ou se ajoelham ante à amada em sinal de rendição (escravo). Os homens parecem manter-se tranquilos enquanto são amados, já que a tradição os ensina que não devem dar muita importância para o amor em suas vidas, nem deixar que as mulheres invadam todos os espaços, nem expressar em público seu afeto. 

Toda essa convenção é rompida quando a esposa decide se separar e dar início, sozinha, ao seu próprio caminho. Como em nossa cultura vivemos o divórcio como um trauma total, as ferramentas das quais os homens dispõem são poucas: podem se resignar, deprimir, se autodestruir (alguns se suicidam, outros se envolvem em uma luta até a morte, outros dirigem em alta velocidade na contramão) ou reagir com violência contra a mulher que diz amar. 

Aqui é quando entra em jogo a maldita questão da “honra”. A maior exposição do padrão duplo: Os homens perseguem as mulheres de maneira natural, as mulheres devem morrer assassinadas se cedem aos seus desejos. Para os homens tradicionais, a virilidade é um orgulho e está acima de qualquer meta: Pode-se viver sem amor, porém não sem honra. 

Milhões de mulheres morrem diariamente por “crimes de honra” a mando de seus maridos, pais, irmãos, amantes ou por suicídio (obrigadas por suas próprias famílias). Os motivos: Falar com um homem que não seja seu marido, ser estuprada ou querer se divorciar. Um único rumor pode matar qualquer mulher. E essas mulheres não podem construir uma vida própria fora da comunidade: Não tem dinheiro, não tem direitos, não são livres, não podem trabalhar fora de casa, não há forma de escapar. 

Contudo, as mulheres que gozam de direitos também se veem presas em suas relações matrimoniais ou sentimentais. Mulheres pobres e analfabetas, mulheres ricas e cultas: A dependência emocional feminina não distingue classes sociais, etnias, religiões, idades ou orientações sexuais. São muitas em todo planeta as mulheres que se submetem a tirania do “aguente por amor”. 

O amor romântico é, nesse sentido, uma ferramenta de controle social e também um anestesiador. Nos vendem-no como uma utopia possível, porém a medida que vamos caminhando em direção a ele, buscando a relação perfeita que nos faça felizes, achamos que a melhor forma de se relacionar é perdendo a própria liberdade, e renunciando tudo com o objetivo de assegurar a harmonia matrimonial. 

Nessa suposta harmonia, os homens tradicionais desejam esposas tranquilas que os amem sem pedir nada (ou muito pouco) em troca. Quanto mais deteriorada está a autoestima das mulheres, mais elas se vitimizam e mais dependentes são. Por isso mais dificuldade tem em entender que o amor de verdade não tem nada a ver com a submissão, nem com o sacrifício, nem com resistência. 

O casal é o pilar fundamental de nossa sociedade. Por isso a Igreja, os bancos penalizam as solteiras e promovem o matrimônio heterossexual; quando o amor acaba ou se rompe vivemos como um fracasso, como um trauma. Nos desesperamos completamente: Não sabemos separar nossos caminhos, não sabemos tratar com carinho alguém que quer se afastar de nós ou que encontrou uma nova parceira. Não sabemos como administrar as emoções: Por isso é tão frequente a troca de ameaças, insultos, vinganças entre os cônjuges. 

E por isso também tantas mulheres são castigadas, maltratadas e assassinadas quando decidem se separar e reiniciar suas vidas. A quantidade de homens que não possui ferramentas para enfrentar uma separação é muito maior: Desde pequenos aprendem que devem ser os reis e que os problemas são solucionados com violência, impondo sua autoridade. Seus heróis não choram, a não ser que alcancem seus objetivos (como ganhar uma copa de futebol ou exterminar os androides). 

O que nos ensinam nos filmes, contos, novelas, séries de televisão é que as mocinhas dos heróis os esperam com paciência, os adoram, cuidam e estão sempre dispostas para se entregar ao amor quando eles tiverem tempo. As moças da publicidade oferecem seus corpos como mercadoria, as boas moças dos filmes oferecem seu amor como prêmio pela valentia masculina. As boas moças não abandonam seus maridos. As moças más que acreditam ser donas de seus corpos e sua sexualidade, que acreditam ser donas de suas próprias vidas, que se rebelam, sempre acabam tendo seu castigo merecido (a prisão, doença, ostracismo social ou a morte). 

As moças más não são somente odiadas pelos homens, mas pelas boas moças também, porque desestabilizam toda a ordem “harmônica” das coisas quando tomam decisões e rompem com as amarras. Os meios de comunicação de massa nos apresentam os casos de violência contra a mulher como crimes passionais, e justificam os assassinatos e a tortura com expressões como “ela não era uma pessoa muito normal”, “ele havia bebido”, “ela estava com outra pessoa”, “ele, quando descobriu, enlouqueceu”. E se a matou foi porque “algo ela havia feito”. A culpa então recai sobre ela e a vítima é ele. Ela pisou na bola e merece um castigo. Ele merece se vingar para acalmar sua dor e reconstruir seu orgulho. 

A violência é um componente estrutural de nossa sociedade desigual, por isso é necessário que o amor não se confunda com possessão, da mesma forma que não devemos confundir a guerra com “ajuda humanitária”. Em um mundo onde utilizamos a força para impor ordens e controlar as pessoas, onde exaltamos a vingança como mecanismo para administrar a dor, onde utilizamos o castigo para corrigir desvios e pena de morte para reconfortar os lesados, é necessário mais do que nunca aprendermos a nos querer bem. 

É vital que entendamos que o amor deve estar baseado no bom trato e na igualdade. Porém não somente ao cônjuge, mas a sociedade inteira. É fundamental estabelecer relações igualitárias, nas quais as diferenças sirvam para nos enriquecer mutuamente, não para submetermos uns aos outros. É também essencial empoderar as mulheres para que não vivamos sujeitas ao amor e também ensinar aos homens a administrar suas emoções, para que possam controlar sua ira, sua impotência, sua raiva e seu medo, e para que entendam que as mulheres não são objetos pessoais, mas sim companheiras de vida. 

Além disso, devemos proteger os meninos e as meninas que sofrem em casa a violência machista, porque terão que suportar a humilhação e as lágrimas de sua heroína, sua mãe, porque terão de aguentar os gritos, os tapas e o medo, porque terão de viver aterrorizados, porque são órfãos, porque o mundo deles é um inferno. 

É urgente acabar com o terrorismo machista: Na Espanha o machismo já matou mais pessoas que o terrorismo nos Estados Unidos. No entanto, as pessoas se indignam mais ante ao segundo, saem para as ruas para protestar contra a violência, cuidam de suas vítimas. O terrorismo machista é considerado uma questão pessoal que afeta determinadas mulheres, por isso muita gente que ouve gritos de socorro não reage, não denuncia, não intervém. 

Dando uma olhada nos números, podemos perceber que o pessoal é político e também econômico: A crise acentua o terror, pois muitas não podem considerar se separar, e o divórcio se dá para os casais que podem se permitir isso economicamente. Uma prova disso é que agora se denunciam menos casos e em algumas ocasiões as mulheres são deixadas para trás; com os custos judiciais aprovados na Espanha, as mulheres mais humildes nem se dispõem a ir denunciar: apelar para a justiça é coisa de rica. 

É urgente trabalhar com homens (prevenção e tratamento) e proteger as mulheres e seus filhos e filhas. Devemos empoderar as mulheres, porém devemos trabalhar também com os homens, se não toda luta será em vão. É necessário promover as políticas públicas para que tenham um enfoque de gênero integral e é necessário que os meios ajudem a gerar uma rejeição generalizada a essa forma de terror instalado em tantos lugares do mundo. 

É necessária uma mudança social, cultural, econômica e sentimental. O amor não pode estar baseado na propriedade privada, e a violência não pode ser uma ferramenta para solucionar problemas. As leis contra a violência de gênero são muito importantes, porém precisam vir acompanhadas de uma mudança em nossas estruturas emocionais e sentimentais. Para que isso seja possível temos que transformar nossa cultura e promover outros modelos de relacionamentos amorosos que não estejam embasados em lutas de poder para dominarmos ou nos submetermos. Outros modelos de femininos e masculinos que não estejam embasados na fragilidade de umas e na brutalidade de outros. 

Temos que aprender a romper com os mitos, a nos livrar da imposições de gênero, a dialogar, a desfrutar das pessoas que nos acompanham pelo caminho, a nos unir e nos separar com liberdade, a tratarmos com respeito e ternura, a assimilar as perdas, a construir relações bonitas. Temos que romper com os ciclos de dor que herdamos e reproduzimos inconscientemente, e temos que libertar as mulheres, os homens e os que não são nem uma coisa nem outra, do peso das hierarquias, da tirania dos papéis e da violência. 

Temos que trabalhar muito para que o amor se expanda e a igualdade seja uma realidade para além dos discursos. Por isso esse texto é dedicado a todas as mulheres e homens que lutam contra a violência de gênero em todos os pontos do planeta: Grupos de mulheres contra a violência, grupos de autorreflexão masculina, autores e autoras que investigam e escrevem sobre esse fenômeno, artistas que trabalham para dar visibilidade a esse mal social, políticos e políticas que trabalham para promover a igualdade, ativistas que saem às ruas para condenar a violência, professores e mestres que fazem seu trabalho de sensibilização nas aulas, ciberfeministas que recolhem assinaturas para dar visibilidade a assassinatos e impulsionar leis, líderes e lideranças que trabalham nas comunidades para erradicar o maltrato e a discriminação das mulheres. A melhor forma de lutar contra a violência é acabar com a desigualdade e o machismo: analisando, tornando visível, desconstruindo, denunciando e reaprendendo junt@s.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O eterno mito das mulheres incompletas

Uma mulher sem um homem é como um peixe sem uma bicicleta.

A mídia e toda a sociedade trata as mulheres como se fôssemos completamente dependentes da opinião masculina e do desejo masculino. O pensamento vigente é que uma mulher só pode ser genuinamente feliz se acompanhada de um homem que a deseja.

As expressões "mal amada" e "mal comida" são bons exemplos de como a sociedade insiste em colocar como o desejo principal da mulher o relacionamento com um homem. Mulheres que desafiam a norma e fazem parte de movimentos sociais, como o feminismo, são constantemente atacadas por essas ofensas. Ofender uma mulher com essas expressões é afirmar que toda reclamação, revolta, luta dela só existe porque ela não tá ocupada sendo feliz com um homem bom, sabe? Como se qualquer revolta feminina fosse fruto da falta de despertar desejos masculinos, na falta de amor e não no fato de que nosso gênero é constantemente diminuído, oprimido, desrespeitado e violentado.

E ainda tem o fator de que condicionar a felicidade feminina aos homens dessa forma, colocar essa preocupação de atrair o desejo masculino, de buscar a qualquer custo um namorado, como algo feminino é mais uma vez reafirmar a suposta inferioridade feminina. Afinal, numa sociedade que separa as pessoas entre racionais e emocionais, como se apenas as racionais tivessem o seu valor, dizer que mulheres precisam de homens para serem felizes é dizer que mulheres são fúteis, são irracionais e etc. Tanto a Paula, quanto a Gizelli, já trataram sobre o assunto.

Se você é mulher e está fora dos padrões de beleza (ou seja, praticamente todo mundo), você já deve ter ouvido algum "elogio" como: "Ah, tem homens que gostam de *insira aqui a característica sua que difere do padrão de beleza*", como se noticiar que você pode ser atraente para um homem fosse fazer sua autoestima se reerguer das cinzas. Como se a remota esperança de que algum dia você pode despertar o desejo masculino fosse uma dádiva. Como se somente a possibilidade de atrair os olhares masculinos fosse capaz de fazer uma mulher se sentir bem. E ainda tem o fator de que toda decisão feminina, seja mudar de emprego, seja cortar o cabelo ou vestir uma roupa diferente, conforme a sociedade, é condicionada ao que o homem vai acha daquilo, como se mulheres não fossem donas de seus corpos e de suas vidas e precisassem sempre de alguém pra guiá-las ou mesmo como se a gente precisasse sempre pensar em agradar o parceiro acima de agradar a si.

Não posso ser a mulher da sua vida
porque sou a mulher da minha.
A cultura de que somente acompanhada de um homem uma mulher pode ser feliz e tem valor fomenta uma série de coisas: A mulher é considerada a responsável por fazer o relacionamento dar certo, porque para o status quo é ela que precisa de manter aquela relação e isso enseja dependências emocionais, uma certa obrigação de se submeter ao que o parceiro deseja e etc.
A sociedade trata a mulher como a maior interessada, às vezes até mesmo como a única interessada em manter um relacionamento, afinal, o modelo tradicional de relacionamento coloca o homem  como provedor (atualmente, o principal provedor, né?) e a mulher como a pessoa que depende do outro, a pessoa que consome e quer sempre consumir. Além disso, há também o fato de que os homens são positivamente vistos se tem várias mulheres, se fazem muito sexo, e as mulheres se fazem muito sexo, são consideradas vadias, que é um termo ofensivo se não ressignificado. O homem continuar solteiro é algo positivo, até porque se ele adiar o casamento, mesmo ao envelhecer será visto como mais sábio e charmoso, enquanto a mulher solteira é vista como mal amada, "ninguém aguentou" e que só tem valor se é jovem e dentro dos padrões estéticos. Todos esses pontos relacionados ocasionam naquela camisa famosa e muito vendida onde o casamento para o cara é o game over e para a mulher é sinônimo de felicidade e naquela famosa piadinha que diz que o cara casa de terno preto porque tá de luto pela vida de solteiro, pelas mulheres que não são mais "dele" e etc.

Outra coisa é que tratam tudo que uma mulher faz como se fosse algo para chamar atenção dos homens: a roupa que ela usa, o corte de cabelo, se usa salto ou não. Tratar nossa vida como se o objetivo dela fosse despertar o desejo masculino faz com que cantadas de rua sejam consideradas algo "simpático, um elogio", sendo que elas são invasivas e não desejadas; Gizelli aprofundou muito nesse ponto aqui. O vínculo desse comportamento de assédio nas ruas é fácil de se perceber quando a gente pega nossas experiências e vê que se a gente tá acompanhada de um homem, as "cantadas" acontecem com menos frequência; o que mostra que  se a gente tá acompanhada de um homem, a gente tem "dono", nosso corpo não está mais disponível.

Sou alérgica ao patriarcado
E por fim, destaco o quão heteronormativo é fazer essa vinculação. Tratar as mulheres dessa forma é ignorar que lésbicas existem e que lésbicas são mulheres. É compactuar para a invisibilidade lésbica e para que as mulheres que se relacionam com mulheres sejam tratadas como fetiches masculinos e não como donas de sua sexualidade.

E ainda vejo uma possibilidade de questionamento, para o meio feminista, sobre o assunto: Aquela famosa frase "homem feminista é sexy" talvez carregue um pouco desse mito e seus desdobramentos. Eu já usei essa frase, muita gente que eu admiro já usou a frase, mas nem por isso a gente não deva questioná-la, né? Afinal, o uso dessa frase coloca o homem feminista como um cara que merece mais atenção que os outros, ser considerado sexy, atraente seria um prêmio para a pessoa, sabe o confete que alguns caras acham que merecem por serem legais com mulher? Então, o homem feminista ser visto como sexy é uma forma de jogar confete, sendo que respeitar mulheres como pessoas é uma obrigação. 

Sei que essa frase também é uma forma de combater pensamentos como que o homem deve ser rude, grosso e sistemático, que tem que "mandar na mulher" e todos os desdobramentos desse pensamento, mas acho que vale a pena a gente refletir.

Por que atrair atenção dos homens para o feminismo falando de sensualidade e não em direitos de fato, sabe? Por que valorizar tanto o apoio dos homens ao movimento? Será que usar essa frase não fortifica o mito de que homens estão sempre interessados em sexo e mulheres em outras coisas, como se o sexo para as mulheres dependesse sempre de outros fatores mais "teóricos"? Será que essa frase não reafirma a dependência feminina? Será que essa frase não supervaloriza a participação masculina num movimento que deveria se focar principalmente nas mulheres?

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O patriarcado e a manutenção da cultura do ódio

Hoje eu quero falar de dois acontecimentos dessa última semana que me deixaram bem entristecida. Em ambos os episódios, eu senti o amargo sabor da constatação: a misoginia encontra-se tão profundamente arraigada em nossa sociedade que eu sinto, infelizmente, que o nosso ativismo está longe, bem longe de acabar.

O fato é que eu lembrei de um texto que li outro dia, que você pode encontrar aqui (em inglês), cujo título é “5 razões pelas quais a humanidade deseja desesperadamente que monstros existam”. Eu confesso que comecei a ler o texto e achei-o bem bobinho. Não sou muito afeita a fatalismos biológicos e o artigo se baseia neles para dizer que os seres humanos precisam criar monstros para fazer valer a sua própria existência. Em outras palavras, para que você se sinta melhor com as decisões altruístas que fez em sua vida, é preciso opô-las a decisões moralmente condenáveis tomadas por outras pessoas. E é preciso, também, odiar profundamente essas pessoas.

O autor segue adiante dizendo que seres humanos sentem a necessidade de acreditar que as pessoas são deliberadamente más. Que qualquer ação que o senso comum considere ruim é feita com uma risada maligna nos lábios, como quem diz “hoje, por pura maldade, eu vou fazer algo que todos reprovam”. Afinal de contas, se acreditarmos que o outro pode estar agindo de forma “errada” sem saber, estamos abrindo o precedente para o fato de que nós, também, erramos inconscientemente. Precisamos acreditar, por exemplo, que somos exímios cidadãos e cidadãs incorruptíveis, ainda que furemos fila, xinguemos muito no trânsito e bem... tem os produtos oriundos de trabalho escravo que consumimos, né?

E por quê exatamente eu estou falando desse artigo aqui? Ora, para argumentar que, embora eu não acredite que estejamos biologicamente preparados para agir pelo ódio, eu creio sim que a humanidade realmente se deixa levar pelo ódio. E vejo o patriarcado como a grande origem disso.  Afinal de contas, é a cultura patriarcal que ensina, repete e reafirma à exaustão que qualquer desvio de uma suposta conduta moralmente aceitável deve ser achincalhado, apedrejado, tratado como uma abominação e queimado em praça pública. É aí que vemos pessoas “de bem” recorrendo à barbárie total para defender o seu código de honra. É o ódio sendo pago com ódio em um ciclo que acaba por desumanizar não apenas quem agiu “errado”, mas também quem defende, a unhas e dentes, aquilo que é “certo”. A Paula já falou disso aqui .

E sim, um dos episódios é a surra que a Carminha levou do Tufão, na novela da Globo. O fato é que a Carminha é uma vilã. Seguindo a lógica exposta acima, a sociedade simplesmente vibrou com a surra que ela levou do marido. O que me deixa com a pulga atrás da orelha, afinal, o episódio em questão revela o quanto a nossa sociedade valoriza o ódio. E comportamentos de vingança. E ver a violência tomando lugar como um ato de justiça. O Tufão teria sido justo. Milhares e milhares de brasileiros fazem essa mesma “justiça”, esbofeteando esposas, surrando namoradas que traíram, ou fizeram algum “mal”. Os índices estão aí. Indianas são mortas aos montes por conta de uma única palavrinha: honra. É preciso dizer ou vocês já sacaram que a dinâmica do ódio é muito mais cruel para com as mulheres, dado o caráter misógino com que se apresenta? E que as novelas, enquanto moldura e representação da cultura brasileira, acabam por perpetuar essa dinâmica de crueldade?

Mas peraí, Flávia, você está dizendo que a Carminha, tendo enganado meio mundo e traído seu marido, estava certa? Não. O que eu estou dizendo, ou pelo menos tentando dizer, é que a sociedade acha certo o linchamento público de mulheres. A sociedade, por considerar algum comportamento errado, reage com total barbárie, dando espaço a seus instintos mais violentos, no sentido de fazer valer o seu código de honra. É disso que estou falando. É dessa naturalização da violência com altos requintes de misoginia. Afinal, as pessoas não se juntam para linchar moralmente um cara que trai a esposa. Trata-se de dois pesos e duas medidas. E nem adianta argumentar que não é assim, a traição vinda de ambos os lados é ruim e errada. Porque essa é uma visão minoritária. E não são as minorias que aumentam os índices de violência doméstica contra a mulher. Porém, as minorias podem levantar a voz, e tentar mudar um cenário que está muito, muito errado.

O outro exemplo que eu quero apresentar a vocês também me embrulha o estômago. Tava lá eu no facebook quando me deparo com uma página comemorando a atitude da Skol em retirar o patrocínio do festival em que o New Hit participaria. Como eu achei o post engajado, fui lá e curti a página. Minutos depois, para o meu horror, a página posta um slut-shaming aberto e declarado contra a mulher Pêra, que você pode conferir aqui.  A página em questão possui 314 mil seguidores. Trata-se, claramente, de um meio formador de opiniões. Eu fico apreensiva com essa onda de backlash e barbárie que recai sobre as mulheres. Sim, as mulheres-frutas, as piriguetes, as prostitutas, as trans e todas as outras mulheres que habitam esse mundo e que ousam agir diferente daquilo que se considera “correto”, não são uma categoria à parte. São mulheres. Porém, a sociedade insiste em alçá-las à categoria de monstros, abominações. Só para resguardar seu direito de apedrejar quem pensa e age diferente.

Em uma sociedade que divide as mulheres em boas x ruins, unicamente de acordo com aquilo que elas fazem com o próprio corpo, não é de se assustar que comentários como os que vos apresento abaixo tenham surgido, em consequência do simples fato de que ela se atreveu a se candidatar a alguma coisa. Como que uma vadia dessas ousa adentrar o imaculado cenário político brasileiro? Eu dividi os comentários em 3 categorias:

1. Slut-shaming:

“É só mais uma cadela querendo se eleger, mas enfim pra combinar com ladrões em brasilia agora teremos uma vadia.”

“Nossa! depois dessa eu abandonaria a política, mulherzinhas iguais a esta aí só servem pra ficar num puteiro servindo os porcos...que nojo!”

“"VOTEM NAS PUTAS , POIS VOTAR NOS FILHOS DELAS NÃO DEU CERTO...." Parece que ela levou essa frase bem a sério”

“mesmo se ela me desse o rabbo dia 6 no dia 7 eu nao votava nela kkk”

“VIROU É PUTARIA ISSO SIM. CÂMARA DE VEREADORES NÃO TEM ND A VER COM CAMERA DE TV OU D FILME PORNÔ OU DA PLAYBOY. SUA IMBECIL. VÁ VESTIR UMA ROUPA E PROCURAR UM JEITO DE ESTUDAR PRA SER ÚTIL À SOCIEDADE.”

2. Recalque misógino:

“Por favor nao votem no partido que aceitou esse tipo de pessoa. Imagina o nível dessa gente que aceita - servem pra representar quem?”

“Mulheres q não se valorizam e só lhes resta apelar para serxo a fim de conseguir algo na vida. Totalmente sem conteudo de trabalho e de v ida.”

"Uma vergonha ver que minhas avos lutaram pelo voto da mulher, e meus pais pela democracia para uma politica mais justa, e pensar que existem pessoas que sao capazes de jogar essa historia e seu voto em uma bunda! tem que ser um bando de bundao mesmo, pírcing intimo chove no brasil soque quando vierem reclamar que nada muda, que precisam de hospitais, creches, etc... diremos temos vaginas com pírcing!"

3. Manutenção da cultura do estupro:

“Ela sabe bem o que é democracia, ali naquela rabeta todo mundo tem direito de botar, ops, votar kkkkkkkkkk”

“VOU DEPOSITAR UM VOTO DE 25CM NA BUNDA DELA!!!”

Por fim, eu deixo aqui as perguntas: por que a sociedade insiste em agir assim? Por que as pessoas lançam mão de uma selvageria maior que os alvos de suas críticas, só para fazer valer a manutenção de seus valores? Por que uma mulher que resolve exercer a sua sexualidade abertamente tem que ter a sua humanidade extirpada por pessoas que se acham acima do bem e do mal? Por que as pessoas insistem em não entender que porrada não resolve nada, apenas colabora para a manutenção de um estado bruto de incivilidade? Até quando teremos que viver nessa cultura do ódio, que encontra todo apoio e respaldo no patriarcado?

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A mulher inteligente, segundo o patriarcado


Peço desculpas antecipadas pelo tema escolhido, já que a querida Paula Mariá já falou nesse post sobre a dualidade entre estética e sabedoria. Por isso, talvez eu caia no erro de me repetir um pouco. 

Dia desses, me vi num debate via twitter com algumas amigas sobre a questão "beleza versus inteligência". Uma relação antagônica e opressora que no fim das contas deseja nos calar, nos silenciar (como sempre). A questão é que desde crianças somos treinados para reconhecer apenas esses dois signos: A beleza e a inteligência, pois é comum os pais (e as pessoas em volta da criança) elogiarem a inteligência e a beleza delas, deixando de observar que existem outras características notáveis.

As mulheres, em especial, são cobradas pela beleza - e por "beleza", entenda "padrão de beleza" - desde cedo. Falo por mim e por outras, pois tenho certeza que não sou a única: minha primeira dieta foi por volta dos 10 anos de idade, assim que entrei na puberdade e ganhei algum peso. Fiz alisamento nos cabelos aos 12 anos. Me depilei pela primeira vez também com essa idade. Contudo, a beleza é uma via de mão dupla, pois ao mesmo tempo em que nos cobram beleza para participar minimamente de um sistema de sociedade castrador e machista, nos dizem que beleza não é o suficiente para que sejamos compreendidas como seres humanos, agentes de nossas vidas. A beleza nos põe ocupando a função que o patriarcado exige das mulheres: meramente decorativa. Não estou com isso tentando desvalorizar aquelas mulheres que são vaidosas, longe de mim, apenas estou explicando como se dá a cobrança por um padrão inatingível para muitas pessoas.

Exemplo de imagem que separa
mulheres em para pegar e para casar
No momento que nos damos conta de que ao mesmo tempo em que somos cobradas pela beleza, somos chamadas de fúteis, de vazias, nos exigimos o outro signo, o da inteligência. Só que a inteligência que nos requisitam e que é premiada nas mulheres não deveria ser chamada dessa forma. Quem por aí não se deparou com relatos sobre a figura mitológica da mulher para casar? A mulher para pegar é aquela cuja beleza é preponderante e a mulher para casar é aquela cuja ~~inteligência~~ , acompanhada de beleza ÓBEVEO, é essencial. Não faltam memezinhos na internet demonizando mulheres e que expressam essa diferença de tratamento. Contudo, a mítica mulher inteligente, da qual tratam as imagens, só é chamada assim quando o seu pensamento se alinha ao pensamento masculino, ao pensamento daquele homem que se interessou por ela. Mulher inteligente, aos olhos de muitos homens, é aquela que não o questiona. E isso não pode ser chamado de inteligência.

Antes dos haters aparecerem perguntando "E é errado que ela concorde com ele em alguma coisa?", vou logo esclarecer: Não significa que as mulheres não devam concordar com os homens, não é disso que esse texto trata, mas da forma como costumam categorizar uma mulher como possuidora de inteligência. 

Essa polarização de beleza e inteligência é extremamente frustrante, porque faz com que esqueçamos que as pessoas não se reduzem a uma característica única. As pessoas podem ter outras características ou talentos dignos de admiração, como coragem, ousadia, determinação, bondade, solidariedade, saber dançar, pintar, tocar um instrumento e etc. Muitas coisas podem tornar uma pessoa interessante para alguém. Essa idealização da mulher dentro de certas características é muito engessadora, pois tolhe a diversidade, a pluralidade. Exaltar outras características é garantir liberdade para que sejamos quem de fato somos.

Além disso, e principalmente,  esse esforço em reduzir o conceito de inteligência às afinidades de uma mulher ao pensamento de um homem é também uma espécie de Backlash. Pois, a mulher que é valorizada é aquela cujo pensamento se alinha ao status quo e é moldada por, e para, homens.  A liberdade da mulher é uma ameaça ao patriarcado, e ao mesmo passo ele reage, imputando-lhe a idéia de que não questionar é que é ser inteligente.

Para ilustrar, eu vejo muitas amigas postando por aí a seguinte imagem:


Sério, gente? sofrer calada? Sofrimento silencioso é muito conveniente para a manutenção de relacionamentos abusivos, por exemplo. Essa é uma idéia muito torta. Internalizar o sofrimento para não parecer emocional, não parecer que se importa e etc. Por que sofrer calada? Simples: Porque se não fizermos isso, seremos desqualificadas. Porque mulheres inteligentes não reclamam de homens. Alguém dirá que a imagem fala em sofrer com dignidade. Mas que dignidade é essa que nos silencia assim? Isso para mim tem outro nome: opressão.

No dia internacional das mulheres desse ano eu me perguntei: "Mas cadê os elogios às mulheres que subvertem a ordem? Mulheres trans, lésbicas, vadias, peludas, revoltadas, militantes, sindicalistas, abortistas, rebeldes com armas em punho? Essas se tornam invisíveis ao patriarcado, para essas não existem elogios."

E é exatamente disso que se trata essa manutenção da dualidade beleza versus suposta inteligência, se trata de não dar à mulher o direito à sua própria opinião, o direito de questionar e subverter. E rejeitar sistematicamente aquelas mulheres cuja forma de pensar, agir e viver se distancia de um ideal patriarcal de mulher.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Machismo virou esporte olímpico?


Veterana, medalhista de ouro,
em sua QUARTA olimpíada

Mal começaram as Olimpíadas de Londres e o machismo que envolve a participação de mulheres em jogos já começa a dar sinais de presença. Algumas notícias nos chamaram atenção. Uma dessas notícias diz respeito à atleta Liesel Jones, nadadora australiana, que acusaram de estar fora de forma. A cobrança pelo corpo saradíssimo da nadadora revela machismo da imprensa e da sociedade, pois se o treinador dela afirma que ela cumpre uma rotina exaustiva de treinos, se estamos falando em uma profissional classificada para o maior evento de esporte do mundo (as fucking Olimpíadas!), quem somos nós para desmerecê-la por uma barriguinha? Será que as pessoas estão procurando barriguinhas nos atletas do sexo masculino? duvido muito.

Outra notícia é sobre a pressão do uso de biquínis nos jogos de vôlei de praia para chamar os espectadores. SIM, é isso mesmo que você leu. A FIBV, Federação Internacional de Vôlei, retirou a exigência do uso de biquínis no vôlei de praia. Mas teve até jornal fazendo campanha contra. Nem se preocuparam em dar uma desculpa para objetificar as mulheres. 

Essa objetificação passa pela desvalorização do esporte feminino. Não foram poucas as vezes em que ouvi, por exemplo, que o vôlei masculino é melhor que o feminino. Ou que o futebol masculino é superior ao feminino e etc. Então se o esporte feminino não tem tantos atrativos quanto o masculino, o que o torna viável, inclusive financeiramente? O corpo da atleta. Ao menos é isso que parece pensar uma parte da mídia esportiva, quando o esporte e a superação deveriam ser as estrelas dos Jogos.

E não são apenas as mulheres do vôlei de praia que sofrem com a objetificação de seus corpos, não. Em quase todos os esportes os uniformes femininos são menores e mais justos  que os uniformes masculinos (excetuando a natação). Aqui você pode ver o tom da matéria sobre Hóquei na grama, por exemplo.

Exemplificando melhor a desqualificação do esporte feminino, o jornalista Flávio Gomes da ESPN achou-se no direito de expressar a seguinte opinião em seu twitter:

É isso aí galera. E quando foi questionado por um amigo e leitor do Ativismo de Sofá, sua resposta foi essa:


Aparentemente, para gostar de futebol feminino é preciso ser mulher. E mais, ser mulher deve ser uma grande ofensa, né? A nossa colaboradora Thaís Campolina também se manifestou. A resposta do sujeito para todas as mulheres que se revoltaram com tamanho desrespeito?


Se você não concorda com ele e é homem, então você é "mulherzinha", se é mulher, é "feia". Cadê meu bingo das discussões com machistas?

Eu ainda não consigo acreditar que um jornalista possa demonstrar tamanho desrespeito por mulheres que estão cortando um dobrado para se manter num esporte que não dá espaço para mulheres (ao menos no Brasil), que é símbolo de masculinidade. Será que ele não vê o mérito das conquistas e do esforço diário dessas mulheres incríveis que apesar de terem ouvido a vida inteira que "futebol não é coisa de mulher", resolveram que amam esse esporte e que desejam quebrar esse paradigma machista? Como alguém pode não enxergar o grande mérito disso? Como alguém que vive de esporte consegue emitir opiniões como essa?

Infelizmente, essa é a mídia que cobre eventos esportivos. Aí alguém virá me dizer "mas nem todo mundo é assim, tem muita gente séria que não tem esse tipo de atitude..." . De fato. O problema é que tem muito mais gente machista no mundo, no jornalismo e em qualquer profissão. O que faz por exemplo o globo esporte, que é o programa esportivo mais popular do Brasil, criar uma eleição chamada "spice girls", onde diariamente são postadas fotos das atletas mais "bonitas" (dentro do padrão de beleza)? Machismo. Eleger musas é só mais uma forma de dizer para as mulheres que essa é a sua função é decorativa. É como dizer: "fica quietinha aí, flw? Você não é atleta, você só serve para o deleite masculino." Não acredita em mim? Preciso lembrar também daquela matéria para o globo esporte, há algum tempo atrás em que o repórter ASSEDIOU uma bandeirinha? Você não viu? Então assista nesse link, se conseguir.

Natalia Partyka, atleta polonesa de
tênis de mesa que competiu nas Olimpíadas
de Londres e competirá também nas  PáraOlimpíadas
Preciso desenhar o absurdo e o desrespeito que esse tipo de jornalismo é? É muito exigir um pouco de respeito pelas atletas que dedicam suas vidas ao ESPORTE? Cadê as notícias sobre os feitos dessas atletas, suas biografias, suas histórias de superação? Por que não podemos conhecê-las por aquilo que elas conquistaram?

Eu termino esse texto com uma imagem que ficou para sempre gravada na minha memória. O ouro olímpico da seleção feminina de vôlei em 2008. Seleção que chegou desacreditada, axincalhada e com fama de amarelar em grandes competições (obviamente uma fama criada e divulgada pela mídia que adora desqualificar o esporte feminino). O pedido de silêncio da Seleção, o cala-boca aos críticos está lá, registrado para sempre.

Update: A Natália Mendonça, colaboradora do Ativismo de Sofá, acaba de me informar que essa é a primeira vez na história das Olimpíadas que todas as delegações, inclusive as islâmicas, contam com mulheres. Está aí uma ótima notícia pouco abordada pela imprensa sedenta por musas.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Teu privilégio não é minha prisão


Tantas vezes falamos aqui no blog sobre "privilégio" e percebemos que nem sempre essa noção foi plenamente compreendida. Por isso tentarei jogar alguma luz sobre a questão.

O privilégio é uma vantagem. Não é algo para se envergonhar, é apenas fruto de certas características. Um exemplo: eu sou uma pessoa que fala, escuta, possui todos os movimentos e dispõe de uma boa visão (na verdade tenho um probleminha de vista que é corrigido com lentes). Possuo portanto, a vantagem de jamais me preocupar em tatear o piso antes de dar o próximo passo, pois posso enxergar o caminho adiante. Não me preocupo em frequentar espaços públicos em que uma cadeira de rodas possa circular livremente, pois posso andar. E nunca aprendi a linguagem de libras, pois posso falar e ouvir, portanto, me comunicar sem o uso de sinais.

Muitos privilégios (a maioria, acredito eu) são construídos culturalmente. Ser branco traz uma série de privilégios em relação à ser negro. O que fica evidenciado a cada vez que colocamos a raça diante do elogio, por exemplo. Já parou para pensar porque quando se elogia uma mulher branca dizemos apenas que é uma mulher bonita, mas quando o elogio é direcionado à uma mulher negra, ela se torna uma "negra bonita"? Ou ainda, já tentou imaginar o motivo pelo qual se um homem branco dirigir um carrão muita gente achará que ele é rico, mas que se o mesmo carro for dirigido por um negro, muita gente achará que ele é apenas o motorista? É a expressão do privilégio do branco, não ser discriminado por sua cor (Sobre o privilégio branco, por favor ler esse link, esse e esse).

O privilégio masculino também é cultural. Numa sociedade tão marcada pela cultura do estupro, é uma vantagem dos homens, sair à noite e temer crimes patrimoniais. Traduzindo, temer ser roubado. Uma mulher quando sai à noite teme ser estuprada. Aliás o medo do estupro que uma mulher sente é tão grande que isso rege as nossas vidas desde muito jovens e não nos abandona nem na velhice.

E aí você me diz, "MAS CALMAÍ GIZA, se não é para se envergonhar do privilégio, porque tantas vezes vocês, aqui do Ativismo de Sofá, o criticam?" Por três motivos, o primeiro é a construção de cenários que se formam em torno de um privilégio e que pode ser muito díspar. E isso revira meu sensível estômago. Uma situação que se forma em torno do privilégio masculino: recentemente, li que a escritora de romances Margaret Atwood perguntou a um grupo de homens (na minha leitura não estava especificado se eram apenas homens cis) porque os homens se sentem ameaçados pelas mulheres, eles responderam que tinham medo que elas rissem deles. Quando perguntou a um grupo de mulheres porque elas se sentem ameaçadas por homens, elas responderam que têm medo de serem assassinadas. A polaridade das respostas gera insatisfação e revolta em quem é mulher.

O segundo motivo é que os privilégios citados acima são abstratos. No sentido que não estão escritos, codificados. Mas há privilégios escritos. Ilustrando melhor, a nossa Constituição Federal, ainda não permite o casamento igualitário. Dando a um grupo, os heterossexuais, um enorme privilégio em relação a outro, os LGBTs. Um outro exemplo é o sufrágio feminino, no Brasil conquistado há apenas 80 anos.

O terceiro motivo é porque em muitos casos, na visão da pessoa que é detentora das vantagens acima citadas (e outras tantas), o privilégio se torna a sua noção de "normalidade". Ou seja, a pessoa não consegue sentir empatia por grupos não privilegiados em questões tocantes apenas a eles, gerando uma perspectiva distorcida e parcial. Pessoalmente esse motivo é o que mais me incomoda, e também é o que mais gera discussões improfícuas. Alguns exemplos de manifestações privilegiadas nesse sentido:

Quando um homem afirma que as mulheres não possuem espaço na política porque preferem seguir outras carreiras, ele se esquece que participação política muitas vezes depende de investimento. E que nem sempre os investidores estão interessados em dar crédito às mulheres. Porque a sociedade costuma incentivar mulheres à dedicar-se ao âmbito privado, relegando ao homem o âmbito público. 

Toda vez que um branco diz que as cotas raciais nas universidades são um privilégio dos negros, ele ignora a indiscutível participação ínfima dos negros em espaços acadêmicos (ainda mais se considerarmos que a maioria da população brasileira é negra), um resquício de uma sociedade que vergonhosamente aboliu a escravatura por meio formal há 124 anos.

Quando um heterossexual alega que não se incomoda com LGBTs desde que eles não andem de mãos dadas, não beijem em público, não cheguem junto, eles se esquecem que é socialmente aceitável que um heterossexual faça todas essas coisas. 

E é claro, há os privilégios que o dinheiro proporciona. Uma casa própria, um carro, um computador, um bom celular, boa educação, viagens e etc. Nenhum problema em possuir bens materiais, o problema é esquecer ou desvalorizar quem não possui ou está em situação de classe social abaixo da sua. Daí podemos extrair por exemplo as questões trabalhistas. Quando o(a) patrão(patroa) exige que a empregada durma no serviço, será que ele(a) pensa no absurdo que seria ele(a) próprio(a), dormir no escritório em que trabalha, voltando para casa apenas no final de semana? Possivelmente, não.


Os exemplos acima tratam de privilégios sobre minorias, mas mesmo entre minorias há privilégios. Não é porque fazemos parte de um grupo em desvantagem que temos a autoridade de falar sobre o sofrimento alheio. Aqui há um texto excelente falando dos privilégios da mulher branca em relação à mulher negra.

Por Arnaldo Branco
É preciso entender que embora possuir um privilégio não seja motivo de vergonha, tampouco é motivo de orgulho. Quando uma pessoa branca anda por aí com uma camiseta "100% branco" ele está exaltando algo que não gera motivo para orgulho. É muito diferente de alguém que exalta sua raça negra, pois ser negro significa um histórico de opressão e normalmente de luta e conquistas condicionadas pela raça. Se orgulhar de ser heterossexual (uma modinha que tá rolando aí nas redes sociais) é o equivalente a se orgulhar de uma facilidade, de uma condição que não impõe desafios. Eu acho até engraçado (apesar de triste), que eu tenha que escrever sobre isso, porque me parece realmente muito óbvio. 

O privilégio é cumulativo e quanto mais privilégios uma pessoa possui maior a possibilidade dela possuir a visão distorcida da qual falei antes. Tente visualizar um muro cuja altura aumenta à medida que os privilégios se acumulam. E para algumas pessoas o muro é tão alto que é impossível enxergar o que está do outro lado. 

Retomando um pouco a idéia do título desse texto, o privilégio do grupo não é prisão de outra pessoa pois não regula a vida, os pensamentos, as atitudes dos outros. Rever seus próprios privilégios, nem sempre buscando exterminá-los, pois muitas vezes isso nem é possível, mas entendê-los faz parte do processo de compreender o outro. Enquanto você não conseguir determinar onde residem os seus privilégios, você será incapaz de aceitar que as pessoas que não detêm as mesmas vantagens que você têm outra perspectiva sobre as suas próprias vidas e que é importante demais que você as ouça mais do que questione. Não são os seus privilégios que definem e norteiam a vida dessas pessoas. Como eu disse no meu post "não me ensine a militar" somente o oprimido sabe onde e como o calo aperta. 

Obs.: Se eu não me fiz entender como eu gostaria e você ainda tem interesse no assunto, eu sugiro muito esse texto aqui.