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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

De mulher para mulher, Machista


Essa semana mais uma propaganda da Marisa foi veiculada e pela terceira vez seguida, estamos diante de uma bela demonstração de preconceito. Só para variar, afinal isso quase nem acontece na publicidade, não é? O que realmente causa algum espanto é que uma empresa cujo slogan é "de mulher para mulher" seja machista. Aliás, já li algumas pessoas na rede satirizarem o slogan da Marisa: "De mulher para mulher, Machista". De fato, eu não poderia concordar mais. Vamos relembrar as campanhas que nos fizeram repudiar a marca, mas antes do almoço que é para não acabar botando tudo para fora, beleza?

Primeiro rolou aquela propaganda de lingerie super bacana (só que jamais), mostrando "estatísticas" sobre como está difícil conseguir homem na praça. 





A premissa é: Mulheres (hetero, claro, porque para a Marisa, lésbicas não existem) passem a competir entre si por um belíssimo exemplar de macho viril. Para a Marisa, homem só vale à pena se seguir à risca aqueles velhos estereótipos de gênero. Homem não pode gostar de bichinhos, morar com os pais, ter medo de barata... enfim. O horror, o horror. Vê se pode, homem que é homem não faz esse tipo de coisa, não é? Ai, Marisa... Que belo desserviço você faz à todas as mulheres e aos homens sugerindo esses padrões de comportamento, que só oprimem à todxs. Aqui podemos ver uma ótima palestra de Tony Porter sobre como a sociedade cria os meninos para odiar mulheres e sobre como colocamos em todos, inclusive nos homens, as algemas do patriarcado.

Antes fosse só isso... mas não foi! Começaram as críticas a essa propaganda nas redes e a agência que cometeu essa atrocidade resolveu ATACAR as consumidoras. Sim, queridos. Veja o print com seus próprios olhinhos nesse post. A rede Marisa, em sua página no Facebook, dizia ouvir as reclamações e agradecia as críticas, mas nada foi feito, a propaganda continuou sendo exibida e a agência seguiu cometendo erros inacreditáveis nas campanhas da Marisa. Porém, não vou crucificar a agência, uma vez que é o cliente que tem a palavra final. 

Pouco tempo depois, tivemos outra ótima surpresa. A Marisa achou que seria uma excelente idéia inverter os papéis de gênero, botando mulheres para assediar homens. OPA, assediar, não! Elogiar! 





Para a Marisa, assédio de rua é elogio. Veja, sabe quando um homem desconhecido aborda você na rua te chamando de gostosa, dizendo o que faria com você na cama, objetificando, desrespeitando? Pois bem, isso tudo é um grande elogio, aparentemente deveríamos ser submissas e agradecer. Mano, que ano é hoje? Marisa, acho que está faltando uma informação: os anos 50 já se foram há uns 60 anos! 

Agora, na campanha mais recente, que tal uma boa dose de gordofobia? Propaganda meramente machista é coisa do passado, a onda agora é estimular um transtorno alimentar. Sim, porque no verão só as magras são felizes. Não venham usar o argumento "saúde" por favor, porque NADA nesse comercial indica que o motivo da dieta da moça seja esse. Especialmente pelo final da propaganda quando a macharada toda olha para a mulher como se ela fosse um pedaço de carne. 



Me desculpe se não elogio a grande criatividade dessa propaganda, mas é que o R7 já fez coisa bem similar há pouquíssimo tempo, com a manchete "elas não estão preparadas para o verão". Essa idéia não é exatamente original, entende? Todo mundo já se cansou de ouvir essa babaquice. Inclusive recomendo fortemente a página de humor do Facebook que satiriza essa notícia, a "Projeto Verão 2013". 

Imagem da página "Projeto Verão" no Facebook

São tantos os problemas dessa propaganda que fica difícil começar a listar. Primeiro, a perpetuação de um padrão de beleza gordofóbico. Magreza não é sinônimo de saúde, assim como obesidade não é sinônimo de doença. Algumas pesquisas bem recentes apontam que o obeso ativo é uma pessoa saudável. Pior ainda, atrelar a felicidade à manutenção da magreza. GENTE.

Depois, a própria idéia de que comer alimentos saudáveis é um sacrifício é contraproducente no sentido de garantir qualidade de alimentação, pois somos sempre estimulados a comer fora de hora, alimentos industrializados, altamente calóricos, fast food e etc.

E por fim, aquilo que me parece ser o mais grave de tudo: Retirar de nós o direito de ir e vir livremente. Como se o fato de não estar perfeitamente dentro de um padrão de beleza racista e gordofóbico fosse determinante para que não exista o direito de utilizar o espaço público. E sabe porque isso é tão ruim? Porque tem muita gente por aí que realmente pensa assim, a Carol Marques pontuou muito bem:



Lugar onde eram preparadas as
refeições para funcionários de oficina
de confecção da Marisa
Já comprei roupas na Marisa e acho que a qualidade é bem abaixo da média. Além disso, não sei se todos estão a par, mas a empresa já foi denunciada por ligação com o trabalho análogo ao trabalho escravo (com indícios de tráfico de pessoas) em algumas de suas oficinas de produção. Ao menos é o que informa essa notícia aqui. Foi realizado um acordo em 2007, chamado TAC, Termo de Ajustamento de Conduta. Contudo, recentemente, doída pelo dano que fez à própria imagem, a Marisa recebeu uma punição pela contestação que fez sobre a legalidade da Lista suja do Ministério do Trabalho . Falando muito claramente: A "lista suja" só prejudica o empregador. E é claro que no caso da Marisa, o empregador é uma grande rede de confecção. É quase uma carteirada, sabe? "Quem é o Ministério do Trabalho para decidir proceder de forma a prejudicar grandes empresas em prol de condições de trabalho justas para os funcionários?". Eu é que nunca mais vou de Marisa. Não quero nem de graça.

Então, recapitulando, machista, heteronormativa, gordofóbica e exploradora. O que mais está faltando, Marisa?

sexta-feira, 30 de março de 2012

Eu não gosto de me depilar

Pois é, não gosto. E a parte triste da história é que estou sempre depilada. Não faço por mim, faço em nome do patriarcado, faço por não ter coragem de ir contra essa imposição. Mas não gosto.


Muitas mulheres dizem que se sentem bem, se sentem “limpas” (péssima essa associação de depilação com higiene, já totalmente furada pela medicina) e, por isso, acham que faz bem para a autoestima. Pois eu discordo. Apesar de também me sentir dessa forma, não acho que isso tenha algo a ver com autoestima. Se sentir bem por estar dentro do padrão não é necessariamente gostar de fazer algo.


Quando eu saio depilada me sinto bem, me sinto bonita. E não tenho a menor dúvida de que todos estão admirando minhas belas pernas depiladas (na minha cabeça, claro). Nem considero a possibilidade de alguém sentir desgosto ou aversão por eu estar depilada, o que não é apenas usual, mas senso-comum acontecer quando a mulher ousa sair sem se depilar. O que não há de programas de “fofocas” apontando as que deixaram escapar um pelinho na entrega do Oscar, hein.


Percebo que é muito diferente de me tatuar ou de pintar o cabelo, por exemplo. Nessas duas outras manifestações de vaidade – porque sim, por mais que a tatuagem tenha o significado mais transcendental da história, ela ainda é estética, então, sim, é vaidade – eu mal considero a possibilidade de alguém reparar. Me sinto tão bem, tão bonita, tão “para mim” que se alguém de fora vai olhar ou não, não faz a menor diferença. Se vai gostar então, menos ainda.

O momento em si também é diferente. Tatuar também dói, mas é uma dor que me agrada, pintar o cabelo demora, mas não me incomoda. Nos dois casos o resultado final é tão prazeroso quanto o resto do caminho. Já a depilação dizem que “dói, mas compensa” (?). Eu suporto a dor do processo em busca do resultado final, o momento da depilação não é, de maneira alguma algo que eu goste de fazer.

Acontece então que ao me depilar me sinto bem por conta da “aprovação social” que recebo, e coloco essa aprovação entre aspas, pois ninguém vai me dar parabéns ou me elogiar pela depilação, afinal, como mulher, "não é mais que minha obrigação" fazê-la. A aprovação em questão é meramente não receber olhares de repúdio, asco – e, claro, comentários maldosos – a pernas não depiladas. E eu preciso dessa aprovação social na depilação, justamente por não gostar dela. O “sentir-se bem” neste caso está diretamente ligado ao consenso do que é belo e não a minha imagem e satisfação pessoal e particular.

É necessário saber diferenciar o que nos faz intimamente bem do que é socialmente esperado de nós, pelo nosso próprio autoconhecimento. Autoestima é diferente de satisfação por se encaixar na estima alheia. A libertação é processo gradual e, de uma forma ou de outra, todas contribuímos com a escravidão de nosso corpo, quando nos mutilamos desgostosamente em função do outro. Reconhecer como nos sentimos e porque nos sentimos assim diante de cada detalhe do nosso corpo é libertar a consciência e visualizar o que há de mais íntimo em nós. É necessário.

Particularmente, eu me tatuo por mim. Mas me depilo pelo patriarcado. Ainda e infelizmente.