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| Lugar onde eram preparadas as refeições para funcionários de oficina de confecção da Marisa |
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Pois é, não gosto. E a parte triste da história é que estou sempre depilada. Não faço por mim, faço em nome do patriarcado, faço por não ter coragem de ir contra essa imposição. Mas não gosto.
Muitas mulheres dizem que se sentem bem, se sentem “limpas” (péssima essa associação de depilação com higiene, já totalmente furada pela medicina) e, por isso, acham que faz bem para a autoestima. Pois eu discordo. Apesar de também me sentir dessa forma, não acho que isso tenha algo a ver com autoestima. Se sentir bem por estar dentro do padrão não é necessariamente gostar de fazer algo.
Quando eu saio depilada me sinto bem, me sinto bonita. E não tenho a menor dúvida de que todos estão admirando minhas belas pernas depiladas (na minha cabeça, claro). Nem considero a possibilidade de alguém sentir desgosto ou aversão por eu estar depilada, o que não é apenas usual, mas senso-comum acontecer quando a mulher ousa sair sem se depilar. O que não há de programas de “fofocas” apontando as que deixaram escapar um pelinho na entrega do Oscar, hein.

Percebo que é muito diferente de me tatuar ou de pintar o cabelo, por exemplo. Nessas duas outras manifestações de vaidade – porque sim, por mais que a tatuagem tenha o significado mais transcendental da história, ela ainda é estética, então, sim, é vaidade – eu mal considero a possibilidade de alguém reparar. Me sinto tão bem, tão bonita, tão “para mim” que se alguém de fora vai olhar ou não, não faz a menor diferença. Se vai gostar então, menos ainda.
O momento em si também é diferente. Tatuar também dói, mas é uma dor que me agrada, pintar o cabelo demora, mas não me incomoda. Nos dois casos o resultado final é tão prazeroso quanto o resto do caminho. Já a depilação dizem que “dói, mas compensa” (?). Eu suporto a dor do processo em busca do resultado final, o momento da depilação não é, de maneira alguma algo que eu goste de fazer.
Acontece então que ao me depilar me sinto bem por conta da “aprovação social” que recebo, e coloco essa aprovação entre aspas, pois ninguém vai me dar parabéns ou me elogiar pela depilação, afinal, como mulher, "não é mais que minha obrigação" fazê-la. A aprovação em questão é meramente não receber olhares de repúdio, asco – e, claro, comentários maldosos – a pernas não depiladas. E eu preciso dessa aprovação social na depilação, justamente por não gostar dela. O “sentir-se bem” neste caso está diretamente ligado ao consenso do que é belo e não a minha imagem e satisfação pessoal e particular.
É necessário saber diferenciar o que nos faz intimamente bem do que é socialmente esperado de nós, pelo nosso próprio autoconhecimento. Autoestima é diferente de satisfação por se encaixar na estima alheia. A libertação é processo gradual e, de uma forma ou de outra, todas contribuímos com a escravidão de nosso corpo, quando nos mutilamos desgostosamente em função do outro. Reconhecer como nos sentimos e porque nos sentimos assim diante de cada detalhe do nosso corpo é libertar a consciência e visualizar o que há de mais íntimo em nós. É necessário.
Particularmente, eu me tatuo por mim. Mas me depilo pelo patriarcado. Ainda e infelizmente.