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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Exposição de fotos sem autorização das vítimas, até quando?

Várias famosas tiveram sua privacidade violada ontem (31/08/2014) quando hackers invadiram suas contas no iCloud e disponibilizaram, sem o consentimento delas, fotos em que elas estavam nuas.

Assim como ocorrem com desconhecidas ao serem expostas, a caça às bruxas logo começou: condenavam as famosas por terem se fotografado nuas, culpando-as pelo ocorrido e assim afastando a culpa de quem roubou as fotos e as divulgou. E ao mesmo tempo, as pessoas buscavam as fotos incessantemente, pediam links e divulgavam entre si. Comentários jocosos ou mesmo elogiosos surgiam sobre os corpos das vítimas.

Sendo elas famosas, a culpabilização da vítima também teve o viés de "elas queriam a exposição para aumentar a fama" e a busca pelas fotos para muitos se justificava no simples fato delas serem pessoas públicas. Para alguns, se elas são famosas, elas devem ter seu direito à privacidade mitigado para que assim todos possam julgá-las e avaliá-las, acompanhar cada pedaço de suas vidas e alimentar ainda mais a sociedade do espetáculo. Achar as vítimas bonitas não é justificativa para alimentar a exposição. A beleza delas não serve à você e à sua sexualidade.
"O termo "caiu na net", cunhado no orkut e muito utilizado hoje, banaliza o que a exposição dessas imagens íntimas de fato é. Um crime, uma crueldade, uma forma de vingança e de humilhação. Viola-se o consentimento da mulher, coloca-se o corpo daquela mulher como um corpo disponível para ser visto por todos que queiram. A imagem não surge do nada, ela é postada por alguém."

O corpo das mulheres é visto como público em nossa sociedade, sendo elas celebridades, a banalização da exposição da privacidade delas aconteceu com ainda mais naturalidade. Até mesmos alguns que diziam #JenniferLawrenceWeSupportYou buscavam as fotos, comentavam o corpo dela, ignorando que esse clique da busca pela imagem é uma forma de compactuar com a continuidade desse tipo de crime. Mesmo que as fotos já estejam circulando na internet, ao buscá-las e compartilhá-las você contribui para que essas exposições continuem acontecendo dando o click e age de forma insensível com as vítimas, visto que elas não consentiram que você tivesse acesso ao arquivo.

Vazar fotos íntimas de pessoas sem a autorização delas é um crime que atinge principalmente mulheres por causa do machismo e da misoginia. A constante objetificação dos corpos designados como femininos, a visão de que eles são públicos e a condenação da sexualidade feminina são os porquês dessas imagens causarem tanto furor, julgamento e culpabilização. Anônimas, ao terem sua intimidade exposta, são atacadas de xingamentos carregados de misoginia, como "vadia" e tem seus corpos avaliados de forma cruel.  Muitas vezes perdem seus empregos, o apoio da família e dos amigos e algumas até suicidam, após tamanha perseguição e por causa das consequências da exposição em suas vidas.

Privacidade é um direito humano e mulheres, sendo anônimas ou não, devem ter seus direitos respeitados. Os corpos das artistas não pertencem ao fandom, nem aos sites de notícias e nem a quem as expôs. Os corpos das mulheres não pertencem aos namorados, companheiros, ficantes ou aos antigos relacionamentos delas. O corpo é delas e elas tiram fotos nuas se curtirem isso e compartilham apenas com quem elas quiserem e nós, internautas, que não somos os reais destinatários dessas imagens não devemos alimentar ainda mais essa exposição. 
"Para aqueles que estão olhando as fotos que eu tirei com meu marido há anos atrás na privacidade da nossa casa, espero que vocês se sintam ótimos com vocês mesmos."


Bons links: 

"This is why you shouldn't click on thenaked photos of Jennifer Lawrence"
"Tua intimidade nos pertence" - Lugar de Mulher

Sobre fotos nuas, Jennifer Lawrence, eu e você




quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Bullying machista: Somos todas Karina, Amanda, Denise...


Com o crescimento do uso das redes sociais e da internet, aumentou consideravelmente os casos de divulgação de imagens íntimas de mulheres. E as mulheres vítimas dessa exposição costumam sofrer uma verdadeira caça às bruxas. As bruxas do século XXI são as mulheres que fazem sexo.
A mulher que "cai na net" é massacrada por julgamentos, ofensas e culpabilizações. Mesmo muito dos "defensores" as chamam de tolas por terem confiado em alguém. As mulheres são proibidas de confiar em qualquer pessoa e devem estar sempre atentas, sob pena de serem consideradas culpadas. Quem divulgou as fotos ou os vídeos não foram elas, pode ter sido um ex-namorado, um vizinho chantagista, um hacker, mas a culpa é da mulher. Elas deveriam ser castas, não fazerem sexo e se fizerem, jamais se deixarem fotografar ou serem filmadas. Os nomes que são lembrados não são os dos caras que divulgaram as imagens dessas mulheres sem o consentimento delas. Os nomes marcados, as vidas que são destruídas, são as dessas mulheres. Sendo que fazer sexo não é crime, mas expor pessoas na internet sem autorização o é.
  
Um caso que chocou o mundo foi o da Amanda Todd, canadense de 15 anos que suicidou-se por não aguentar mas as perseguições machistas e misóginas que ultrapassaram os muros da escola. Essas perseguições foram causadas pela divulgação de imagens dela mostrando os seios. Ela sofreu ameaças, chantagens, entrou em depressão, foi ofendida e ameaçada pelos próprios colegas, acabou se envolvendo com drogas e no fim, suicidou. Uma história triste, onde se vê claramente o poder do machismo e da misoginia e como a caça às bruxas às mulheres consideradas "vadias" é cruel.
Via Não aguento quando.
A internet vira um tribunal para essas mulheres expostas. Expor essas imagens são uma forma de vingança específica contra mulheres. Afinal, enquanto fazer sexo é considerado um horror para as mulheres, uma forma de "desvalorização", para os homens a lógica que se aplica é contrária. Por que as mulheres não expõem imagens íntimas de homens? Simplesmente porque expor essas imagens não funcionaria como vingança, os papéis não se inverteriam. Ela continuaria a "vadia". A mulher que fizesse isso, seria chamada de louca, ciumenta, histérica. Afinal, a loucura e o ciúme são relacionados à irracionalidade, característica constantemente atribuída às mulheres. E o homem seria considerado vítima, ele não seria considerado culpado, ninguém diria que "ele mereceu". Afinal, o machismo diz que o sexo é humilhante e degradante pra mulher, enquanto para o homem não.

O termo "caiu na net", cunhado no orkut e muito utilizado hoje, banaliza o que a exposição dessas imagens íntimas de fato é. Um crime, uma crueldade, uma forma de vingança e de humilhação. Viola-se o consentimento da mulher, coloca-se o corpo daquela mulher como um corpo disponível para ser visto por todos que queiram. A imagem não surge do nada, ela é postada por alguém. Atrás dessa "postagem", há ameaças como "se você me pagar tal valor, eu não divulgo suas fotos", ou até mesmo "se você me abandonar, nosso vídeo vai para internet". Há a espera pela reação de julgamento da sociedade, há a intenção é humilhar.

Muitas vezes muitos dos que utilizaram essas fotos e vídeos para o próprio prazer, são os primeiros a julgar aquela mulher e montar seu tribunal. A pessoa é vista apenas como entretenimento para os julgadores. Afinal, o bullying se sustenta nessa cultura de ódio que diz que certos tipos de pessoas devem provar o seu valor para conquistarem respeito. O respeito para as mulheres não é considerado algo inerente, ele deve ser provado. E exercer sua sexualidade é considerado uma afronta ao comportamento ideal da mulher. E qualquer mulher que foge desse ideal conservador e machista, é considerada merecedora de exposição, humilhação e até mesmo violência.