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terça-feira, 27 de maio de 2014

Não somos todxs vadixs



Mulheres são constantemente xingadas de vadias. As situações em que a palavra "vadia" é utilizada para nos ofender são várias e não só quando nós exercemos nossa sexualidade e usam essa palavra para controlar o nosso corpo e nosso comportamento. Mas é uma palavra que mulheres ouvem também quando tem suas fotos e vídeos íntimos disponibilizados na internet sem o seu consentimento, enquanto o criminoso nem mesmo é lembrado e muitas vezes é aplaudido por ter exposto essas mulheres que, para alguns, não mereceriam respeito. 

Somos chamadas de vadias quando bebemos, fumamos, respondemos cantadas, engravidamos fora do casamento, quando andamos sozinhas de noite, quando dizemos não para algum cara e até mesmo quando a gente denuncia violência de gênero na delegacia, ouvimos que a culpa foi nossa porque vestimos ou nos comportamos como vadias.

Vadia, vagabunda e puta são palavras usadas para desqualificar e ofender mulheres. Homens cis não são ofendidos com a palavra vadia. Eles não são desqualificados com essa palavra, não são vítimas de revenge porn, visto que a sociedade não chama o cara que faz sexo de vadio. Homens quando respondem grosseiramente cantada de rua não ouvem "vadio", os corpos deles não são vistos como disponíveis. Homens cis não sofrem culpabilização da vítima com gente dizendo que eles tem culpa porque se comportaram como um vadio.

É necessário observar que mesmo entre as mulheres o xingamento vadia tem pesos diferentes. Por exemplo, a mulher negra, que é vítima da soma de duas opressões, o racismo e o machismo, sofre com a hipersexualização de sua imagem, fazendo com que a palavra vadia, para muitas seja considerada impossível de se ressignificar. É só a gente pensar que ainda é comum ouvir absurdos como "Mulher negra não é para casar, apenas se divertir", coisa que a mulher branca não está sujeita. Outro exemplo, é o caso das mulheres trans e travestis, que são tratadas como um fetiche por vários e essa especifidade também deve ser lembrada. 

Apesar disso, em eventos feministas, como a Marcha das Vadias, é comum encontrar homens cis se designando vadias ou vadixs, o que é bem problemático, porque é uma apropriação de uma opressão que não os atingem. No caso do vadix, ainda há um adendo a ser feito, o uso da linguagem neutra pode ser visto como uma apropriação da causa trans, visto que essa é mais uma opressão que homens cis não sentem na pele.

Sei que muitos homens usam a frase "somos todxs vadixs" com boas intenções, querendo deixar claro que não concordam com as ofensas direcionadas às mulheres, mas assim como  "somos todos macacos" é uma frase que invisibiliza o racismo, "somos todxs vadixs" invisibiliza a misoginia. 

sábado, 8 de junho de 2013

Marcha das vadias: rara oportunidade de liberdade da mulher no espaço público

Aproveitando que hoje aconteceu a Marcha das Vadias em Londrina (PR), aproveito para trazer meu relato atrasado sobre o que vivenciei na MdV de São Paulo.

A polêmica Caitlin Moran faz um apelo em seu livro “Como ser Mulher”: a assumir sua adesão ao movimento subindo numa cadeira berrando “Sou feminista”.


Para muitas de nós, esse momento de subir numa cadeira e gritar seus ideais feministas para o mundo tem uma data certa: A marcha das Vadias. Por mais que cada uma de nós declare seu ativismo no dia a dia, em ciberativismo, nas conversas de bar, nas atitudes, nos estudos, na universidade, no trabalho, em família, é nesse instante que um coro lindo se forma para mostrar o quanto o patriarcado nos oprime e dizer que não toleramos mais a violência contra o gênero feminino.

Arquivo pessoal
Aguardei ansiosamente pela data. Não só pelo protesto em si, mas por saber que ali eu encontraria meus pares. Mas, como nossas rotinas nem sempre colaboram, meu dia 25 de maio estava abarrotado de atividades inadiáveis.

Foi por esse motivo que eu me atrasei, iniciei minha marcha uma hora depois daquela definida pela organização. Perdi a oficina de cartazes, estando há duas quadras da praça do ciclista. E perdi a saída da marcha por responsabilidades escolares há menos de dois quilômetros da esquina da Paulista com a Augusta. Frustração define.

Dadas as adversidades, eu fiz, acompanhada de uma amiga, uma marcha um pouco mais silenciosa. Ambas vestidas de “vadias” atravessamos a rua Augusta, saímos dos Jardins até a Praça Roosevelt. E foi nessa nossa caminhada que a cada esquina, fosse um boteco, ambulantes, transeuntes ou motoristas, notávamos que as roupas curtas, ainda que com as pernas protegidas por meias opacas e casacos cobrindo nossos colos e abdome,  davam margem a olhares libidinosos, comentários grosseiros, convites inoportunos.

Será que é necessária muita empatia para que um assediador entenda que isso é agressão? Que um "psiu", "ê, lá em casa" e outros comentário análogos não são elogios? Em que momento nossas roupas autorizaram o assédio? Onde há previsão legal de que machistas detêm o direito de rotular pela vida sexual que eles imaginam que temos? 

Não, não há respeito à individualidade, à tranquilidade e à dignidade de uma mulher na rua. E está enganado que isso depende do quanto a vestimenta feminina revela o corpo.

Comportamento machista revisitado minutos depois de mil e quinhentas pessoas passarem por ali, celebrando o direito de se vestir como quiser. Homens se impondo, validando a masculinidade por meio de cantadas. Não te parece um abuso ainda maior? 

Num dia normal esse tipo de assédio me ocasionaria acuada, enojada, desprotegida, com aquela sensação de desprezo que toda mulher conhece e que tanto tememos demonstrar. Mas, naquele dia, e só naquele dia, a cada quadra que eu ultrapassava, a sensação de empoderamento aumentava. A rua era nossa.

Nós também sentimos calor
Ao final da caminhada quase que solitária (Geisa, obrigada pela companhia), encontrar uma bateria entoando cânticos feministas me marcou. Foi ali, que eu encontrei amigos, pude, aliviada, despir meu casaco, refrescar meu corpo e me rotular “vadia”. 

A cada grupo que eu via, meninas, mulheres, algumas crianças, homens, cartazes, sons e sensações, eu alimentava mais meu feminismo, reforçando todo o orgulho que eu tenho de berrar, sussurrar ou argumentar minha posição de feminista.


Importante mencionar que, cumprido o papel de ativistas, um grupo, cuja amizade se materializou na marcha, se reuniu para uma confraternização. 

Amigxs do grupo "Machismo Chato de Cada Dia"

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Beleza circunstancial e a Marcha das Barangas


Não é de hoje que o padrão de beleza vigente oprime as mulheres. E digo especificamente as mulheres porque embora ele esteja aí para todos é no corpo feminino que ele é cobrado com mais força e veemência. Homens aparecem são retratados e congratulados por sua formação, inteligência e tudo o mais. Já nós somos o tempo todo questionadas pela nossa beleza (ou a falta dela) e só isso (vide Dilma Rousseff, que tem mais matéria criticando seus cabelos e suas roupas do que falando sobre qualquer outra coisa).

A Marcha das Vadias, que aconteceu em diversas cidades do Brasil no último sábado tem como seus maiores inimigos os machistas. Estes que odeiam ver mulheres organizadas, unidas. E obviamente esses mesmos machistas são os que curtem julgar uma mulher por nada mais nada menos do que: a aparência delas, com base nos padrões de beleza vigentes. Para eles, a palavra “feia” é a maior ofensa que se pode proferir a uma mulher (e gorda também né, porque gordofóbicos que são, acreditam que feia e gorda são praticamente sinônimos).
Pois então o que mais choveu de “críticas” as ativistas chamando-as de barangas, não é brincadeira. Basta procurar as imagens para concluir que a aparência das manifestantes é o maior foco dos haters. Além é claro de outros clássicos como “mal-amadas”, “mal-comidas”, mas obviamente tudo isso tem origem no fato de serem feias, dizem eles.

 A famosa organização ucraniana Femen, que protesta a respeito de diversos temas, tem o foco da mídia voltado para apenas algumas das manifestantes, as que tiram a blusa e estão perfeitamente encaixadas no padrão de beleza vigentes: Altas, loiras, magras. Entretanto mesmo elas quando olham para as câmeras em momento de fúria, aos berros em seus protestos, são imediatamente desvalorizadas (tanto é que essas imagens não são geralmente publicadas por aí, estão em maior número no site/facebook/etc da própria organização). Toda beleza é desconsiderada quando nela não está presente um rosto sereno e pacífico ansioso para agradar seu opressor, mas sim um grito transgressor.

E aí está a maior prova de que a beleza é circunstancial. Ou seja, uma pessoa é considerada bonita ou feia dependendo do contexto em que se encontra. Uma mulher que está indo contra o status-quo, questionando os valores que lhes foram impostos e o privilégio masculino será, com certeza, chamada de feia.

Coloque as mulheres da marcha de vestidinho e salto alto. Coloque-as sorrindo para uma câmera, bebendo um champagne (porque mulher que se dá ao respeito não bebe cerveja, todo mundo sabe), piscando para um homem. Coloque-as em um filme pornô, em um programa de TV num domingo a tarde, coloque-as  de biquíni buscando entreter os homens e pronto. Automaticamente muitas delas serão imediatamente colocadas na categoria de gostosas.

E se é esse o critério que querem nos colocar, eu peço a licença para falar em nome das vadias que marcham em todo o nosso país: Seremos feias. Se ao nos ver andando por aí, questionando seus valores, gritando nossas reivindicações, exigindo transformações sociais, tudo o que você consegue pensar é que somos um bando de barangas, então ótimo. É isso que queremos ser: Um bando de barangas.

Não queremos servir para o entretenimento masculino, não queremos seguir caladas para que vocês possam simplesmente nos achar bonitas. Sinto muito informar, mas seu julgamento a respeito da nossa estética não é mais tão importante assim. Somos mulheres organizadas e com voz. Voz essa que usaremos sempre. E sempre para nós, não para concordar em te manter nessa confortável posição que o patriarcado te colocou.

Com muito orgulho somos vadias, somos barangas. Somos a favor da igualdade e contra o seu privilégio.

terça-feira, 29 de maio de 2012

O corpo é meu! O Facebook não é nosso!


A marcha das vadias lavou minha alma. Lavou a alma de muita gente. Eu não sei muito bem o quanto eu precisava daquele momento na minha vida, eu sei que ele foi muito importante para mim. Desde que eu conheci o feminismo e fui lentamente tomando consciência de todas as pequenas violências que sofria, que tolhiam a minha liberdade em muitos aspectos diferentes, muita coisa foi embora de mim. Mas principalmente muitas pessoas foram embora. Só que ao mesmo tempo, eu não me sentia só. E nesse sábado eu não estive só mesmo. Cerca de três mil pessoas em Brasília estiveram comigo, botando para fora em alto e bom som muito daquilo que dizemos todos os dias discretamente: queremos ser respeitadas e isso independe da forma como falamos, nos vestimos (ou não nos vestimos), nos relacionamos. Só que muita gente por aí nem sabe o que o verbo respeitar significa. 

Foto da fan page da Marcha das Vadias DF
Aquela velha história de que mulher tem que se dar ao respeito carrega uma carga de machismo e moralismo tão grandes, que eu juro que não entendo como eu não consegui enxergar isso até alguns anos atrás. "Se dar ao respeito" não é respeitar suas escolhas, suas preferências, sua liberdade de ir e vir, de agir como quiser... Via de regra, "se dar ao respeito" é repetido por aí como sinônimo de privação de liberdade individual. Se você usa roupa curta, não se dá ao respeito. Se tem vida sexual ativa, goza e gosta muito, não se dá ao respeito. Se não tá afim de um relacionamento afetivo monogâmico, não se dá ao respeito. Se anda ficando com quem tá afim sem pensar em namoro, não se dá ao respeito. Respeito é uma palavra que precisa ser ressignificada. Respeito, como é repetido por aí, está diretamente ligado à invisibilidade da sexualidade feminina. Eu sou vadia e me dou ao respeito. 

Respeito não se pede, se conquista. Exigimos que nos tratem com respeito, e fazemos isso sem implorar de pernas e bocas fechadas, mas mostrando para a sociedade o quanto a sua noção de respeito é falha. Para isso é preciso união. É como nós gritamos na marcha: "Ah! que é isso! Elas estão organizadas!". E estamos mesmo, cada vez mais. E estamos conseguindo visibilidade também. Um movimento nacional que só em um final de semana reuniu cerca de 10 mil pessoas? Isso não passa despercebido. E com certeza aumentaremos em número e em consciência. Feminismo é um aprendizado constante. 

Foto da fan page da Marcha das Vadias DF 
Entretanto, a luta ainda é necessária. Prova disso é a forma reacionária e moralista como o facebook tem encarado as fotos das mulheres que estavam na marcha com os seios de fora. Que fique claro: não são fotos pornográficas. Seios não servem apenas para entreter os homens, mostrar os seios na marcha é uma atitude política, porque o nosso corpo não é apenas sexual, ele é político. Ele é tão político, que em alguns países as mulheres precisam escondê-lo inteiramente ou podem morrer caso não façam. O facebook parece ignorar essa característica e tem apagado sistematicamente as fotos das moças de topless. Infelizmente, a mesma rede social que apaga fotos não pornográficas de mulheres exigindo uma sociedade mais justa, não apaga imagens racistas, homofóbicas ou misóginas. Ultimamente nem tenho mais usado a opção "denunciar" do Facebook, tenho ido direto ao safernet e à PF denunciar esses conteúdos. Isso posto, é de se perguntar porque a nudez choca mais que a violência cotidiana. 

Foto da jornalista Luka Franca
censurada pelo Facebook
Não é a primeira vez que isso acontece no facebook, em outro momento fotos de mães amamentando foram retiradas arbitrariamente da rede social. MÃES. AMAMENTANDO. O corpo feminino é sempre sexualizado ainda que ele não seja usado para fins sexuais. Me diga, você se alimenta cobrindo o rosto? Porque um bebê precisa se cobrir para se alimentar? Foi necessário protestar com mamaços virtuais para o Facebook permitir fotos de mães amamentando seus filhos. Se você acha que o Brasil é um país libertário em que tudo pode, pense de novo. Não é bem assim, a onda conservadora que assola o país também esbarra nos nossos corpos. por isso é preciso gritar: "Meu corpo, minhas regras!" Fazer ouvir a voz de quem nem sempre, no dia-a-dia pode externar esse sentimento sem receber toda sorte de julgamentos morais. 

Ao contrário dos homens, que ao sentir calor não pensam duas vezes em tirar a camiseta, mulheres não tem esse privilégio. Guess what? Mulher também sente calor. Mas toda a nudez feminina será censurada. Toda nudez será objetificada, será rotulada, será retirada dos perfis do Facebook como se fosse ofensa. E ofende também o fato de que nem sempre os seios exibidos são durinhos, apontem para cima, caibam na mão. Com certeza o peitaço no fim da marcha das vadias de Brasília foi o final perfeito para a marcha de um movimento libertário como o feminista, porque contradiz essa idéia de que a mulher é um pedaço de carne. O nosso corpo não é inerte, não é produto, não é objeto, ele também fala por nós.  Lamentamos profundamente que a maior rede social do mundo tenha uma visão tão tacanha do corpo feminino.

Foto por Leiliane Rebouças