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domingo, 22 de setembro de 2013

Garnier, a nossa receita é uma resistência a você


Eu ainda vivia na Índia quando percebi, meio que pela primeira vez, a agressividade da marca Garnier. Fiquei a matutar sobre os aspectos imperialistas que permeavam a propaganda que eu tinha diante de meus olhos. No comercial em questão, uma modelo aparecia se recordando da sua infância, de um tempo em que sua mãe lhe dizia algo como "uma boa garota faz umectação antes de cada lavagem". 


Cabe aqui um breve parêntese: quem sabe um pouquinho de Índia tem noção da importância dada ao uso de óleos nos cabelos. Há uma variedade de óleos para os mais diversos problemas, sendo que o óleo de coco é considerado por lá o mais básico e essencial para cuidados de rotina. O uso do óleo de coco como um pré-shampoo é uma tradição da qual as indianas se orgulham muito. 


Pois bem, voltando ao comercial. Após se lembrar da tal infância, a modelo fala algo como "mas cadê o tempo?", e o que se desenrola é uma explicação de como a maravilhosa marca garnier, que unira shampoo e óleo no mesmo produto, seria a saída para todos os problemas do universo. Seguem algumas tomadas, com modelos curtindo a vida e seus cabelos esvoaçantes (e bem photoshopados), dando a entender que elas só teriam a ganhar com a praticidade do produto. Até que chega o momento que eu achei particularmente tenso e agressivo: a modelo principal (do início do vídeo) destrói os vidros de óleo com um estilingue. O link do vídeo pode ser encontrado aqui. 


Iniciei meu texto com essa historinha porque foi exatamente dela que eu me lembrei quando, dois anos depois (ou seja, ontem), me deparei com um comercial brasileiro da marca garnier, estrelado por Dani Calabresa (o comercial em questão já conta com mais de 1 milhão de visualizações no youtube). E o que ficou claro pra mim, ao assistir o tal comercial? Exatamente, a agressividade da marca. Vou tentar expor o que eu penso a respeito disso. 


Uma coisa que todas as pessoas sabem acerca do capitalismo é que ele age movido pelo lucro. Única e exclusivamente, lucro. Acho que todo mundo tá ciente disso, inclusive comentários do tipo "ahh, isso é marketing! Marketing é assim mesmo!" denunciam que a galera sabe que é assim que o capitalismo, representado com maestria pelo seu amigo e braço direito - o marketing - consegue sobreviver. O que fica menos claro, dada a sua sutileza, é a forma que o capitalismo encontra de se fixar e soar natural e até útil, na vida das pessoas. Se o marketing é seu braço direito, o utilitarismo é seu mascote. Através do utilitarismo, o capitalismo consegue reforçar e, porque não, cimentar o discurso da praticidade na vida das pessoas. 


E de onde vem, necessariamente, esse discurso da praticidade? Pensemos na marca, especificamente.
Não podemos nos esquecer que se trata de uma multinacional, subsidiária da L'oreal. É uma gigante da indústria de cosméticos, cujas cifras (mi? bi?) lionárias eu nem consigo imaginar direito. Uma coisa, entretanto, é certeira: como uma empresa que atua em escala global, a marca precisa entender a dinâmica dos mercados locais para conseguir sobreviver. É óleo que as indianas querem? Daremos óleo a elas! Mas… como fazer frente a uma prática milenar já consolidada, com marcas que antecedem a Garnier e possuem um apelo local e familiar que a Garnier não tem? Ora, é simples: com uma postura imperialista. Nós, dessa multinacional que se instala em todos os lugares para obter lucros desmedidos, estamos aqui para salvá-las de práticas retrógradas e primitivas. Nós representamos a modernidade eurocêntrica que prega a primazia da praticidade na vida das pessoas. Nós somos a modernidade que destrói a cultura local. Com um estilingue. 


E o que o discurso da praticidade faz? Bom, ele estabelece o binário bom x ruim. E o ruim, gente, é sempre a prática 'retrógrada' e 'tribal' de quem não tem a pele branca. Por exemplo, é ruim ter cabelo crespo, pois cabelo crespo não seria prático. Ao que fica a pergunta: por que precisamos tanto assim de praticidade? Porque simplesmente não passa na cabeça desses imperialistas que alguém possa curtir passar um tempo se cuidando. Porque tempo é precioso demais, pois você precisa ser produtiva (ou seja, gerar dinheiro pro sistema), ou então, como no caso das propagandas, ter mais tempo para se divertir - e cuidar dos cabelos não seria uma diversão. 


Na propaganda da Garnier brasileira, essa dinâmica da praticidade fica muito clara. A Garnier precisa passar por cima de toda uma prática que é consolidada no Brasil, ou seja, as famosas receitas caseiras para cuidados capilares, para se reafirmar enquanto marca. A Garnier precisa se utilizar de blogueiras famosas que, em toda a sua ingenuidade, aceitaram de bom grado fazer um comercial que vai contra tudo aquilo que elas construiram (eu acompanho a Rayza Nicácio e ela sempre enfatizou cuidados em casa para os cabelos). E as fãs seguidoras da Ray e demais blogueiras que se indignaram com a tal propaganda (meu caso) foram acusadas de inveja. "Vocês queriam estar exatamente onde ela está, ou seja, ganhando dinheiro!" Porque, vejam bem, no mundo de hoje, o mercado suplanta princípios. E reclamar de alguém que se converte à lógica do lucro a todo custo te coloca, automaticamente, na posição de herege. 


Imagem tirada da page do Blog Cantinho da Nanda - Vejam como a Garnier faz chacota com a receita dela, em um tom bem agressivo. 
O cenário é desolador. Mas, há esperança. Há vozes, ainda que escassas, que se opõem a essa lógica mercadológica e utilitarista. Há um movimento que diz em alto e bom tom que as nossas receitas caseiras NÃO serão trocadas por um produto industrializado de qualidade duvidosa. Nós estamos aqui, na Índia, em todos os lugares em que essas práticas imperialistas esdrúxulas acontecem. Oferecemos resistência a essas práticas. Estamos aqui lutando para que os cabelos crespos não sejam sinônimos de ressecados, como a Dani Calabresa quis enfatizar (e o cabelo da Ray é hidratado e muito bem cuidado, diga-se de passagem). Estamos aqui para dizer que a nossa identidade não está à venda, tampouco é negociável. Se uma, duas, ou várias blogueiras não perceberam isso, é porque está na hora de lutarmos ainda com mais empenho. 

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Beijaço lésbico: a resistência choca o conservadorismo


Texto de Thaís Campolina com colaboração de Kelly Campos.

No dia que o Papa chegou, em meio aos cristãos em êxtase, houve também um beijaço lésbico motivado pelos discursos de ódio proferidos contra não héteros, transgêneros e aos direitos reprodutivos e sexuais das mulheres com a desculpa da religião.

Duas fotos desse protesto chocaram a sociedade brasileira, afinal, duas mulheres se beijando semi nuas despertam a lesbofobia e a misoginia infelizmente tão comuns e ainda vistas como aceitáveis em nossa sociedade. O teor dos comentários das fotos nos chocaram, pelo moralismo e preconceito e a gente resolveu rebater os mais repetidos.

Fotografia de Ide Gomes

"Querem respeito, mas não se respeitam e nem respeitam os outros" 

Respeito não tem que "ser ganho", ele é inerente da pessoa humana. Então falar em "se quer respeito, tem que se respeitar", "vocês jamais conseguirão conquistar respeito dessa forma" e afins não é válido porque coloca como se alguns grupos de pessoas não merecessem respeito, a não ser que se comportem de acordo com o que alguns dizem que é certo. Me lembra aquele famoso discurso "tudo bem ser gay, mas precisa mostrar pra todo mundo?" que é bastante problemático porque deixa claro o que a sociedade só "aceita" o diferente se ele estiver não visível. Coloca como regra que a pessoa deve esconder quem ela é e suas preferências para que ela mereça respeito, que para alguns é inerente. Enquanto o "merecer respeito" for seletivo e pautado em preconceitos e moralismo, haverá protestos e eles serão legítimos.

Sua variação "se você não respeita, não pode exigir respeito" é cruel porque compara a agressão de uma sociedade homofóbica, moralista, transfóbica e misógina com a reação de quem luta para sobreviver. Ignora que o beijaço e que a semi nudez são atos políticos, formas de contestar esse senso comum preconceituoso. E pra mim o pior é: ignora que quem não respeita primeiramente são as pessoas que proferem esses discursos de ódio e que o combate a essas ideias que eles proferem é uma tentativa de fazer valer a máxima de que todos devem ser respeitados.
Gabriella Mendes em seu perfil - clicar na imagem facilita a leitura.

"mas a Igreja não vai na Parada LGBT interferir"

Essa frase não faz sentido porque diariamente os dogmas da Igreja que são contra mulheres cis, os não héteros e as pessoas trans interferem bastante na vida dessas pessoas. Interferem colocando-os como aberrações e lutando para que eles não tenham os mesmos direitos e qualidade de vida que todos. Muito do preconceito sofrido diariamente por essas pessoas tem como base discursos de ódio que são proferidos com a desculpa da religião.

"Desnecessário"

Não há nada de desnecessário num beijaço lésbico, com ou sem semi nudez, porque todos os dias muita gente usa a desculpa da religião cristã para pregar ódio contra homossexuais, transgêneros, bissexuais e mulheres. Não há nada de desnecessário nisso, porque a Igreja insiste em colocar obstáculos para que essas pessoas tenham acesso aos seus direitos. Não há nada de desnecessário porque muitas pessoas religiosas são eleitas com a influência de sua religião e tentam impor a todos o que acreditam, impedindo muitas pessoas terem acesso a seus direitos humanos. Como tudo isso acontece, é legítimo que os oprimidos se manifestem contra isso.

Lembrando aqui da famosa frase do Malcom X: "Não confunda a violência do opressor com a resistência do oprimido". Com tanta opressão baseada num fanatismo religioso que cria tabus como o da nudez, do sexo, da homossexualidade e do aborto. É inacreditável que as pessoas insistam em colocar um beijaço lésbico com semi nudez, que tem finalidade de protestar contra esses preconceitos, como algo tão agressivo quanto a busca incessante para marginalizar certas pessoas.

Imagem de Indiretas Feministas
O que é desnecessário e agressivo é o discurso de ódio de vários comentaristas dessas imagens que deixaram claro seus preconceitos ao dizerem coisas como "que nojo" e também as diversas declarações do Pastor Feliciano e não só dele, mas de vários padres e pastores que pregam contra a homossexuais, contra a liberdade para a mulher, etc. Ataque não é quando pessoas protestam para que sejam vistas como pessoas normais, é quando tentam impedir que algumas pessoas tenham direitos, quando se incentiva preconceito e até mesmo violência física contra casais homoafetivos, pessoas trans* e contra as "vadias". E tudo isso ainda acontece e é fomentado por discursos de ódio que são proferidos por várias pessoas, e algumas dessas usam a religião pra justificar seus preconceitos.

"Mas precisava ficar sem roupa?"

As imagens mostram que a nudez das manifestantes não era completa, era uma semi nudez. Apenas os seios estavam a mostra. Homens podem ficar sem camisa à vontade, não é? Não são chamados de "vadias" quando fazem isso e se participam de um protesto sem camisa não são vistos como "eles só querem chamar atenção". A nudez dos seios é uma forma de contestar a construção social de que os seios ditos femininos são sexuais e devem ser escondidos, enquanto o peito masculino pode ser mostrado sem problemas. Inclusive, essa sexualização do seio atinge várias mulheres que se sentem inibidas de amamentarem seus filhos em público, porque a sociedade vê a mama como algo imoral.

O nu é visto como atitude rebelde, subversiva, um rompante de liberdade que afronta o moralismo. E de fato o é, numa sociedade que mistifica e endeusa o nu. Mas o nu é natural. A polêmica do nu não só atingiu essa manifestação, como também a foto da ocupação da Câmara de Porto Alegre.

Além disso, o beijaço entre mulheres é considerado algo político e ameaçador para os fanáticos, mas não traz a mesma visibilidade midiática do corpo despido. Fazer uso do corpo feminino para algo que não seja acalantar os desejos masculinos sempre soará subversivo. O corpo, como instrumento de prazer para as mulheres se torna uma importante arma de protesto ativista. É a afirmação de que o corpo é da mulher e não de quem o quer.

Foto de Pedro Teixeira - O Globo.
A pergunta que não quer calar é "por que nos cobram tanto de respeitar os tabus de quem nos desrespeita e buscam incessantemente nos manter marginalizados?", enquanto querem que a gente proteste de uma forma que não incomode, quietos e invisibilizados, cartilhas como o Manual da Bioética para Jovens que está sendo distribuída na Jornada Mundial da Juventude deixam claro que a Igreja Católica se mantem firme em seu posicionamento conservador e em seus discursos preconceituosos. E sim, isso justifica os protestos barulhentos, com beijos e nudez, porque isso é ato político de resistência. É estar na luta para ser livre até que todos sejam respeitados, independente de agirem de acordo com a moral cristã.

JMJ: manual de bioética e os catolicismos possíveis - Blogueiras Feministas 
"Para a Católicas pelo Direito de Decidir, vinda do papa pode significar um momento preocupante para o debate em torno de políticas públicas sobre aborto e direitos de homossexuais"  - Revista Fórum

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A resistência do oprimido, a barbárie e o racismo.


Tenho um pouco de receio de que falar sobre esse assunto seja chover no molhado.Porém no finalzinho da semana passada dois vídeos (que nem sei se são antigos ou atuais) pularam na minha timeline e eu vi a necessidade de fazer um paralelo entre eles. O tema é violência e é polêmico. Há os que dizem que jamais é aceitável, que não deve nunca ser relativizada e que gera apenas mais violência. Há um outro grupo que diz “direitos humanos para humanos direitos”. Eu não faço parte de nenhum dos dois. 
“Não confunda a violência do opressor com a resistência do oprimido”, a frase do Malcom X ilustra perfeitamente os momentos nos quais eu acho que a violência não é condenável. E aqui não estou dizendo que é eficaz, que deve ser estimulada nem nada do tipo. Estou apenas dizendo que, se a violência só por ser violência fosse igual em todos os contextos não existiria na nossa lei algo chamado “atenuantes”. 
Aqui entra entra o primeiro vídeo. Uma garota ao ser humilhada pelo professor em sala de aula o chuta no meio das pernas e corre. Para mim está bem claro como esse revanchismo não se dá de maneira bárbara, racionalizada, mas sim passional. Nessa história alguém se sentiu humilhada a tal ponto que não aguentou mais permanecer inerte e reagiu ali de forma rápida e emocional com as armas que tinha. Desespero, resistência, legítima defesa, entre outros nomes expressam como a violência da menina é diferente da violência do professor. 
Inclusive, a expressão “legítima defesa” já deixa claro o que estou querendo dizer: Existem casos em que a agressão é simplesmente legítima. Ninguém está usando as palavras “correta”, “exata”, apenas que o ser humano tem o direito sim de, ao ser colocado em uma situação de violência e opressão, responder ao agressor para defender a si mesmo. Lembram do caso de Severina Maria da Silva? Uma mulher que era abusada pelo pai desde os nove anos de idade, criou cinco filhos dele e (vocês vão me desculpar, mas vou dizer: finalmente) ao ver uma de suas filhas ameaçadas encomendou a morte do homem. E foi absolvida. E com toda razão. 
Agora vamos ao próximo vídeo, esse eu não recomendo que assistam, de verdade. Se você tem um pingo de racionalidade (pois é, não estou falando de emoção, estou falando de racionalidade mesmo) consegue ver o quanto ele é absurdo. Trata-se de um menino amarrado em um poste sendo açoitado. Assim, levando pauladas, garrafadas, sangrando e um monte de gente em volta vendo. Inclusive esse vídeo não é o único, se você tem tanto azar quanto eu já deve ter pulado na sua TL alguma imagem de um homem todo esfaqueado, capado, dentre outras cenas no estilo, seguido de pessoas aplaudindo e dizendo “é, tem que fazer isso mesmo, a nossa justiça não funciona, a justiça tem que ser feita com as próprias mãos”. 
No vídeo e nas imagens em questão existe um padrão muito curioso: Ninguém sabe exatamente o que os acusados fizeram, mas de qualquer forma, eles merecem. Por via das dúvidas, né? Uma das poucas palavras que dá para se ouvir no vídeo é “roubar” -  e aqui nem vou entrar no mérito de comparar um dano material causado por ele com o dano físico com requintes de crueldade cometido pelos outros – mas de qualquer forma, imaginem o vídeo sem som algum, assim como as imagens não costumam ter som algum. As reações seriam diferentes? As pessoas que dizem “direitos humanos para humanos direitos” deixariam de fazê-lo? Eu acredito piamente que não. 
Agora imagine o mesmo vídeo, também sem som algum, com a única diferença de que o rapaz que está sendo agredido fosse branco. Sim, eu disse branco. E aí eu boto minha mão no fogo de que a história mudaria. Porque o menino negro todo mundo parte do pressuposto de que é ladrão, é assaltante, é bandido e merece ser açoitado, humilhado, morto. Agora se o menino fosse branco com certeza estaria sendo agredido gratuitamente, deveria estar sendo assaltado seguido de uma mutilação dessas alguém chame a polícia, salve-o, socorro! 
É sim, todo esse papo vingador de gente que acha bonito ver essas imagens brutais e acreditar, mesmo sem prova nenhuma, que se tratam de pessoas que estão ali porque merecem está permeado por muito racismo. É preto? Então deve ser bandido, estuprador, pedófilo, não sei, sei que alguma coisa deve ter feito para merecer isso. 
E esses casos de barbárie não são nada incomuns na nossa sociedade. Especialmente em casos de pedofilia, estupro, assassinato e outros crimes que chocam a população, logo aparecem os justiceiros. Aqueles que juram que não são cruéis como os que cometem tais crimes, mas de repente se veem dispostos a vingar a vítima de qualquer forma, aliás, qualquer não, tem que ter muito sofrimento, muito sangue, se não não vale. 
Dentre os milhares de erros que eu vejo nesse tipo de atitude, existe um ridículo de óbvio: Alguém perguntou para a vítima? Essas pessoas tão preocupadas com o que aconteceu a vítima perguntaram se ela se sentiria melhor caso seu agressor fosse linchado, açoitado, assassinado em “homenagem” a ela? 
Existe um filme chamado Confiar, se você ainda não assistiu, eu recomendo que o faça e peço desculpas antecipadas pelo spoiler que estou prestes a fazer: O filme conta a história de uma adolescente (13 ou 14 anos, não me lembro bem agora) que é abusada sexualmente. Ciente disso o pai dela se joga na busca para defender sua filha. Quer entrar na internet, investigar, comprar uma arma, encontrar o agressor, matar todos os pedófilos do mundo, só não quer... ouvir a filha. Tão obcecado com essa ideia da vingança ele esquece de ajudar quem realmente precisa dele naquele momento, a própria filha. 
Plínio comenta
Dia desses ouvi falar sobre um caso famoso da cidade para qual acabei de me mudar. Homens que, depois de estuprar uma garota e matar seu namorado, foram espancados, assassinados e por fim queimados em praça pública. Tenho também a certeza de que ninguém perguntou para a moça se ela se sentiria melhor caso fizessem isso (particularmente eu me sentiria ainda pior, muito pior). Mas de qualquer forma, ao imaginar tamanho absurdo minha mente começou a viajar (sempre fértil) e pensei que se eu estivesse presente quando isso aconteceu, me jogaria na frente deles. Sim, eu “defenderia” os estupradores. Imediatamente imaginei também a reação das pessoas caso eu fizesse isso: “vadia, vagabunda, merece ser estuprada!” e por que não aproveitar para me agredir também? E por que não fazer comigo o mesmo? 
Quão melhor do que o próprio estuprador é a pessoa que diz que o estupraria “para aprender”? Quão melhores seriam essas pessoas na minha cena imaginária que julgariam, linchariam, agrediriam uma pessoa inocente apenas para fazer valer sua própria “justiça”? E que, com certeza, não perceberiam que em suas próprias palavras estaria reproduzida a cultura do estupro que colabora para que esse tipo de crime continue acontecendo? 
A resistência, a defesa de si mesmx, do próprio corpo e da própria dignidade são sim legítimas. Ninguém pode julgar alguém sendo que ninguém sabe como reagirá em determinadas situações de opressão, pode ser que você aguente caladx, mas pode ser que imediatamente seja tomadx por uma emoção muito forte que te faça agredir com a mesma força (ou mais) aquele que antes te violentou. 
Entretanto isso é muito, muito diferente do sentimento vingador que envolve a nossa sociedade e a faz mostrar a primeira oportunidade toda sua barbárie. É como se estivessem todos parados, não lutando contra nada, não buscando compreender nada, não defendendo causa alguma, apenas esperando o primeiro negro pobre cometer o que quer que seja (mesmo que não saibam o que é) e pronto: Essa é a hora, o lugar e a pessoa para descontar todas as suas frustrações pessoais, para ver o sangue que você quer, para ser o quão cruel você sempre quis, tendo uma desculpa, se sentindo o justiceiro, o herói da história.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Diversas resistências; um mesmo feminismo.


O feminismo é, em sua essência, um movimento pela igualdade de gêneros. Acreditamos que vivemos em uma sociedade organizada de forma patriarcal que determina nossas vidas a partir do momento em que nascemos e somos “diagnosticados” como meninos ou meninas. O objetivo então é a desconstrução dessas determinações prévias e a valorização do ser humano enquanto ser único e livre independente de seu sexo.

Acontece que para atingir a igualdade precisamos passar por cima do machismo: A teoria que estrutura a nossa sociedade, na qual homens são tidos como superiores e as mulheres são oprimidas. E é por isso que falamos tanto de resistência, luta e empoderamento feminino, por exemplo. Então dentro de uma mesma teoria, com os mesmos pressupostos e partindo em direção ao mesmo objetivo, essas questões deveria se apresentar de forma igualitária, certo? Errado.

Antes de mais nada o que determina uma atitude como libertária, retrógrada ou qualquer outra definição é o contexto que a envolve. Não existem atitudes que possam ser colocadas em caixas de “conservadora” ou “transgressora” justamente porque para conservar ou transgredir algo em um determinado meio é preciso ter consciência de qual é aquele meio. A cultura vigente é o fator base para análise da possível resistência. Por isso o movimento feminista é um movimento heterogêneo, que tem por objetivo se opor as mais diversas formas de opressão contra a mulher.

Entretanto, é sempre complicado para quem está inserido em um contexto analisar outro distante e, muitas vezes, oposto a sua realidade. E, falando multiculturalmente, o que é extremamente imposto a um grupo,  pode ser muitas vezes o que é vetado a outro. E se a luta feminista é justamente pela libertação, nenhuma imposição pode ser considerada justa, dentro disso a resistência é justamente ir contra a ditadura, seja ela qual for. E aí obviamente, ditaduras diferentes, pedem libertações diferentes.

Recentemente assisti a um filme chamado A Fonte das Mulheres que me esclareceu muito essa questão. A história é fictícia e retrata uma vila na qual as mulheres, por terem que subir uma montanha perigosa para buscar água todos os dias, estão cansadas e perdendo seus bebês por conta das quedas. Para protestar contra isso elas então resolvem fazer o que chamam de “uma greve de amor”: sem abraços, sem sexo, até que os homens resolvam buscar a água.

Essa situação retrata duas coisas contra as quais lutamos aqui no ocidente: A visão da mulher como um ser frágil e do sexo como uma moeda de troca. Porém, alguém ousa dizer que essas mulheres não estavam resistindo? Não lutaram pelos seus direitos? Não foram feministas? Há até um momento – logo no começo do filme (e da greve) – no qual elas cantam uma música para os homens, exigindo, entre outras coisas, máquinas de lavar roupa.

Valesca Popuzuda em ensaio ativista.
E para nós tudo isso é muito opressor, essa visão da mulher como a dona de casa. É estranho pensar dentro da sociedade que vivemos em algumas dessas atitudes como libertadoras. Bem como é estranho pensar, quando estamos em um contexto de mulher objetificada, no funk feminino como uma forma de empoderamento.

Porém lutamos com as armas que temos. Para as mulheres do filme, o único poder que tinham sobre os homens foi utilizado como forma de lutar pela própria vida, de buscar formas melhores de ser mulher, transgredindo o meio que estava ao redor delas. Isso é resistência. Bem como para as mulheres que se sentem castradas, sem a possibilidade de dizer que gozam, com o medo constante do estigma da puta, o funk pode ser libertador.


Neste vídeo (maravilhoso, por favor, assistam), Kavita Ramdas fala sobre as mulheres que questionam por meios extremamente tradicionais. Como uma professora que, alegando que uma comunidade precisava de fé, utilizou-se do Corão para alfabetizar meninas, em um ambiente onde a educação feminina é tão desprezada.  Ou um grupo de mulheres que se dedica a interpretar canções tradicionais, mesmo religiosas e... são lésbicas.

Como então seria possível determinar quem é mais ou menos feminista? Como nos enquadrar em resistentes ou não? Nos encontramos em uma luta por todas e consequentemente no meio do nosso caminho encontraremos todas: Desde a visibilidade lésbica, passando pelo direito ao aborto até a maternagem consciente.

 Particularmente muito me agrada essa ideia de o feminismo ser um movimento tão plural quanto são as mulheres. E tão capaz de aparecer nas mais diversas formas, mesmo que timidamente, mesmo que não funcionando de forma universal, mas validando os pensamentos e desejos de algumas de nós. Vamos emergir todas juntas, no mesmo sentido, mas de maneiras diferentes. Andando com nossos próprios pés de acordo com o chão ao nosso redor.

Gizelli Sousa falando sobre o mesmo assunto aqui. 

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Orgulho lgbt*: a dor de quem ousa ser diferente.


Arte de Maika Pires Milezzi.
 Ontem, 28 de junho, fez 43 anos desde a "rebelião de Stonewall". Esse dia foi um marco por ter sido a primeira vez que um grande grupo lgbt* resistiu à ação violenta da polícia. O fato desencadeou dois dias de protestos, e em 1º de julho de 1970, houve uma Marcha que hoje é considerada a precursora da "Parada do Orgulho LGBT".

Ontem seria o dia perfeito pra se discutir a criminalização da homofobia (e da transfobia), seria um dia pra se falar sobre a necessidade de educar a sociedade para a tolerância, poderia até ser um dia de se discutir o casamento civil homoafetivo. Mas a pauta da Câmera dos Deputados foi a "cura gay". Um retrocesso. 

Na madrugada do dia 24 de junho, dois irmãos foram confundidos com um casal homossexual e foram espancados por oito homens. Um deles morreu, o outro foi para o hospital com ferimentos sérios no rosto. Um crime chocante motivado pela homofobia. Porém, a homofobia não se expressa apenas nos assassinatos, mas no dia-a-dia, existem muitas outras violências que criam um ambiente favorável para haver a violência final, que são essas agressões e homicídios. Uma delas é colocar a homossexualidade (e também a transexualidade** e a bissexualidade) como doença, um pecado, uma subversão de valores. 

A Rússia proibiu as "Paradas de Orgulho lgbt*" pelos próximos 100 anos. Motivo que levou os ativistas lgbt* a buscarem o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos para reverter essa proibição. O grupo lgbt* na Rússia não tem o direito de se manifestar nas ruas de sua capital. Direito, teoricamente, consagrado para a população heterossexual. Quem é gay, lésbica, bissexual e transexual é considerado cidadão de segunda categoria, seus direitos reconhecidos são ignorados e são desrespeitados, como se essas pessoas não fossem "dignas" o suficiente de serem parte da universalidade dos Direitos Humanos.

Talvez um dos mais importantes pontos a ser tocado é o uso do "orgulho gay" no lugar do "orgulho LGBT*". Ao falar em "gay", há uma exclusão de uma grande parcela de pessoas que também sofre preconceito pela sua orientação sexual e/ou pela sua identidade de gênero. Lésbicas, bissexuais e transexuais, ao não serem incluídos, têm seus direitos ainda mais marginalizados. Se gays são considerados um grupo de cidadãos de segunda categoria, imagine só as lésbicas, bissexuais e transexuais que nem sequer são citados em muitas notícias e na própria luta pelo reconhecimento de seus direitos.

A marginalização do grupo LGBT* invisibiliza as discriminações sofridas pelo grupo como um todo. É necessário falar que gays, lésbicas, bissexuais e transexuais não são doentes, não são loucos, nem depravados e imorais. São seres humanos que buscam uma vida plena, com acesso aos seus direitos, sem medo de morrerem por serem quem são e por amarem e/ou desejarem que quiserem.
Foto de  Gabriela Gasparotto. 

Campanha das Mulheres de Viçosa em movimento na Marcha das Vadias

Restringir os direitos desses cidadãos é impedir a plena participação deles na sociedade, é um atentado contra o próprio Estado Democrático de Direito. Afinal, a pluralidade é um componente da Democracia. O Estado, ao negligenciar a violência sofrida por esse grupo de pessoas, atenta contra seus próprios princípios e também contra os Direitos Humanos.
Não é normal impedir que um grupo de pessoas tenha acesso aos seus direitos civis, não é normal fechar os olhos a uma violência sistêmica contra esse grupo específico.

**A transexualidade ainda é considerada uma patologia. Já a homossexualidade, desde 1990, deixou de ser considerada assim pela Organização Mundial de Saúde. A discussão da Câmara foi sobre permitir tratamento para curar a homossexualidade, ou seja, "patologizar" novamente a homossexualidade.