Mostrando postagens com marcador Dia Internacional da Mulher. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dia Internacional da Mulher. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 13 de março de 2013

A voz das mulheres nas ruas

Acervo pessoal - foto tirada no Ato.

Sexta-feira, eu participei do ato do oito de março de Belo Horizonte. Não foi a primeira vez que fui às ruas pela luta feminista. Antes dessa sexta, eu já tinha participado de duas Marchas das Vadias, mas posso dizer que foi a primeira vez que estive numa manifestação tão plural. 

Cheguei atrasada, confesso que estava bem perdida sobre onde ir, o que gritar, o que fazer, mas logo me situei. Depois de passar rapidamente no bloco da luta contra a violência doméstica, fomos todxs para a frente do Palácio da Justiça. E lá esperamos os outros blocos chegarem cantando, batucando, dançando. Além do bloco que participei, havia o bloco da diversidade da mulher levantando a bandeira da luta contra a lesbofobia e transfobia, o bloco contra a mercantilização do corpo feminino, o contra a violência do Estado, o contra a violência do campo e o bloco das negras e nordestinas.
Acervo pessoal - foto tirada no ato. 

Ouvi mulheres quilombolas, sindicalistas, idosas, estudantes, do movimento sem terra e de vários coletivos falarem de seus problemas principais e me emocionei junto e inclusive vi quem chorasse ao sentir a coragem e a emoção na voz daquelas mulheres. Gritamos por diversas vítimas de violência, entre elas Eliza Samúdio. 

Andamos juntas pela Afonso Pena. Ouvíamos gritos e cantos diferentes em diversos pontos da marcha, havia batuque, havia alegria, havia o sonho de um mundo melhor, havia a vontade de lutar em todos aqueles cantos, que apesar de terem letras tão diferentes e serem tantos, acabavam por ficar uma voz uníssona de esperança. 

Deitei emocionada no chão da Afonso Pena para a minha amiga Carol me desenhar de giz. O objetivo do desenho era que na rua ficasse um lembrete para a sociedade das tantas mulheres que são violentadas diariamente. E o ato teve fim ali.

Acervo pessoal - foto tirada no ato.
Eu e outras mulheres saímos juntas para comer, beber e celebrar a sororidade. Estávamos todas anestesiadas de tanta emoção, cansadas de tanto andar, mas queríamos curtir aquela sensação de dever cumprido e cumplicidade. E meu oito de março acabou sendo o que deveria ser: um dia de luta, amor e esperança.

Participar de uma manifestação, apesar de ser cansativo, dar vergonha aos mais tímidos e etc, é mágico porque ali nós nos sentimos fortes o suficiente para lutar o quanto precisar. Ali me senti renovada, senti que vale a pena e acho que é essa a magia de ir às ruas gritar ao mundo "ME RESPEITE", essa é a magia da sororidade, de estender a mão para todas as mulheres.

No outro dia, ao andar pelas ruas de um bairro belo horizontino, ouvi uma mulher dizendo que nenhum marido trata a esposa bem e que o cara que estava sendo citado por outra mulher na conversa só podia ser uma exceção. E me relembrei que a luta é todo dia até que todas nós sejamos bem tratadas por todos.

Outras fotos do ato: Aqui e aqui.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Oito de março é dia de luta.

Texto de Thaís e Flávia. 

Não é novidade para ninguém que o oito de março, uma data que deveria reforçar a necessidade da nossa luta para sermos vistas e respeitadas como ser humano, é visto pela mídia e pela sociedade como mais um dia para reafirmar ideais de feminilidade.

Campanha da Prefeitura de PoA.
A Prefeitura de Porto Alegre, por exemplo, em sua página no Facebook, postou uma série de afirmações que iniciavam com um "só uma mulher sabe". E as frases utilizadas para complementar a chamada são exemplos do estereótipo do que é "ser mulher". A nossa existência não pode ser resumida, em nenhum dia do ano, a apenas chegar em casa e enfim poder tirar o salto alto ou em ficar triste porque estragou o esmalte recém passado.
  
A problemática desse tipo de manifestação que resume as mulheres a enfeites, seres frágeis ou quase mágicos por aguentar tripla jornada e poder ter filhos não está só no fato de que o oito de março é um dia de luta, mas também se encontra na reafirmação do que é "ser mulher".

O dia oito de março é cheio de homenagens que nos colocam num pedestal. A mulher ideal para a sociedade patriarcal é aquela que se sacrifica diariamente e é vista como forte por isso, aquela que aguenta calada xingamentos, ofensas em forma de piada e a restrição de seus direitos. E é por isso que é tão comum vermos comentários como "parabéns mulheres por aguentarem tudo". Sacríficio é algo considerado bonito, principalmente para quem é mulher. Porque quem é mulher parece ter que ser punida diariamente por isso, com salários menores, com tripla jornada e etc.

Banner da programação da semana da mulher.
Quando a mídia e a sociedade nos parabeniza por ser mulher, foca todas as ações do oito de março em distribuir flores e chocolates, fazer promoções de itens de consumo voltados para a vaidade feminina, ela não só reforça os papéis de gênero, como também negligencia como a violência contra a mulher continua sendo um problema sério. É fácil distribuir cartõezinhos e se esquivar de discutir em profundidade a guerra contra as mulheres em que se encontra o mundo. Porque ao discutir com profundidade nota-se que o problema é a cultura de ódio em que vivemos. Uma cultura misógina, machista, homofóbica, transfóbica, lesbofóbica e racista. 

Os feminicídios ainda são chamados de "crimes passionais", as "cantadas" que ouvimos na rua desde cedo são chamadas de elogios, a objetificação das mulheres ainda é rotineira. Os salários das mulheres continuam sendo cerca de 30% mais baixos que o dos homens, sendo que a mulher negra ganha ainda menos que uma mulher branca. 
  
Campanha resposta.
Oito de março é um dia de luta contra esse ideal de feminilidade tão excludente e opressor. É o dia de falarmos que não precisamos "aguentar caladas", de jogar fora essa idéia de que é legal se sacrificar, de incentivar a solidariedade feminina e nos empoderar. Nos empoderar para lutarmos não só nesse dia, mas diariamente.

Oito de março é um dia para lembrarmos que a nossa luta é diária, que a cada passo que damos para melhorar a vida das mulheres, a sociedade se encarrega de "nos colocar em nosso lugar", em um backlash que coloca à prova a nossa força. Às vezes o desânimo toma conta de nós, pois parece que nada muda. É por isso que datas como o oito de março são tão importantes. Porque é através das "homenagens" que recebemos, que fazem questão de celebrar um sistema castrador e opressivo, que encontramos força para protestar. Oito de março é dia de dizer: o sistema tem que mudar.

domingo, 11 de março de 2012

Mulher, sujeito verbal.


Para finalizar a semana da mulher, esse coletivo de imagens vem lembrar a todxs, que antes de mais nada, toda mulher é um ser humano único. Nós não somos todas iguais, não temos os mesmos desejos, as mesmas alegrias, somos diversas. E se nos unimos na singularidade do feminismo é justamente para lutar pelo direito de ter nossa pluralidade respeitada. Porque nós, mulheres, existimos e agimos por nós. Nós mulheres viajamos, fotografamos, desenhamos, bebemos, batemos papo, dançamos, bebemos café, cozinhamos, cantamos, protestamos, amamentamos, brincamos, atuamos, mimamos, estudamos, treinamos e estouramos plástico-bolha. Nós, mulheres, nos satisfazemos. Nos gostamos e somos felizes longe das regras do patriarcado e perto de nossas próprias vontades.


















Muito obrigada a todas que aceitaram participar dessa postagem, tornando assim possível sua realização. Imagens na ordem: Eu, Ananda Hassan, Beatris Astrath, Gizelli Sousa, Cely Couto, Caroline Jamhour, Laís Rangel, Renata Onofre, Elisa Prando, Julika Alguém, Aline Freitas, Marce Lee C, Thaís Campolina, Lívia Prando, Kel Campos, Andréia Kirch e Flávia Simas.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Dia Internacional da Mulher: Mulheres que negam o feminismo


Alô você, amiga feminista, me diga quantas vezes você já ouviu uma mulher dizer: "Não sou feminista nem machista". Não sabe? Perdeu as contas? Pois é, eu também não sei. Algumas mulheres negam por ignorância, por acreditar que o machismo é o oposto do feminismo. E não é sobre essas pessoas que eu escrevo hoje. O meu post é dirigido à quem acredita que o feminismo é desnecessário, chato, panfletário. Mulheres que se orgulham de não levantar bandeiras.
Vivemos em uma época de contradições. Dizem que essa geração está perdida, que é alienada, que não se envolve politicamente. Contudo, toda bandeira hasteada é alvo de crítica. O pensamento crítico é sempre acompanhado do estigma de tedioso, chato e autoritário. Me causa revolta (e um tanto de tristeza) quando uma mulher que se beneficia das conquistas do feminismo, normalmente da classe média, bem informada o suficiente para saber que o feminismo é a defesa da igualdade de gênero, nega que é feminista.
Veja bem, se essa mulher sai com os amigos para festas, bebe, tem liberdade sexual, independência financeira, paga as próprias contas, vive a sua vida de forma independente, ela deve tudo ao feminismo. Se um dia criassem uma máquina do tempo, eu gostaria de colocar uma dessas mulheres nela e fazer um passeio (breve, nem precisa ir muito longe) para que ela possa entender a importância do feminismo, talvez levando a presenciar momentos históricos importantes ou mesmo deixá-la no passado (recente) por um ou dois meses. E então veríamos se a opinião dela seria a mesma. Os direitos das mulheres não caíram do céu no colo delas (e nem cairão no futuro breve). As mulheres lutaram muito para adquirí-los.
Essa ingratidão acomete muita gente. E não é só ingratidão, é egoísmo também. Porque muitas conquistas do feminismo foram para a classe média. Mas o que dizer das mulheres que vivem em maior vulnerabilidade social? O movimento feminista conseguiu muitas vitórias que privilegiaram a classe burguesa, mas a classe pobre ainda sofre em grau muito maior a opressão de gênero. A mulher pobre precisa muito do feminismo.
Pensamento crítico é estigmatizado. Se você pensa, verbaliza, discute, é chato, é tedioso ou pior: é arrogante. Por isso acho também que uma boa parcela das mulheres que criticam o feminismo, mas usufruem das suas conquistas, tem medo da não-aceitação. Parece que muitas mulheres ainda não se acostumaram a ocupar o espaço público. É quase um pedido de desculpas: "Homem, estou aqui ocupando o lugar que antes era só seu, foi mal. Mas eu não sou feminista, não, viu?". Isso não ocorre apenas com mulheres, o medo na não-aceitação acomete todas as minorias.
A geração dos meus pais levantou as bandeiras que permitiram que hoje a gente tenha uma democracia no Brasil. É triste ver que essa atitude hoje seria descrita como coisa de gente chata, que não tem o que fazer. Isso invisibiliza a luta. Falar de política pode até ser chato, mas é importante. Nem todo mundo tá afim de entreter ou usa as redes sociais, os blogs e a vida para seguir a maré. Nem todo mundo acha que o mundo está maravilhoso e que os problemas que existem se resolverão sem a necessidade de mobilização e se conforma com o que existe à sua volta. Eu não levanto bandeiras porque isso me faz feliz, eu levanto porque acho necessário. E nem toda bandeira que levanto me beneficia diretamente. O feminismo panfletário incomoda? Ótimo, porque é o incômodo que faz as pessoas sairem do seu lugar antes confortável. Move o mundo.
Quem diz que não está em lado nenhum, que não é feminista e nem machista, acaba se tornando machista (no caso das mulheres compreendemos que existe machismo internalizado e que nem sempre isso é fácil de ser dissolvido e que obviamente o machismo feminino não é "pior" que o masculino, como alguns dizem). Porque a neutralidade favorece o lado opressor. Quem se cala contribui para o machismo, e no caso das mulheres, o machismo que muitas vezes elas reproduzem, é o mesmo que as oprimem. Como já diria o ministro Ayres Britto: "A mesma liberdade para cordeiros e lobos é excelente para os lobos".

Escrito por Gizelli Sousa, co-autoria de Elisa Prando, Flávia Simas, Thaís Campolina e Paula Mariá

Edit (08/10/2013): O feminismo é para todas, tanto para nós feministas, como também para as mulheres que negam o feminismo. Entendemos que o machismo feminino não é pior que o machismo masculino, porque as mulheres que o reproduzem são vítimas do mesmo machismo que oprime a todas e quem detém o poder de oprimir nesse sentido são os homens, porque são eles que coordenam as instituições, são eles que são os opressores, de fato.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia Internacional da Mulher: "Sem vocês, nada seríamos"


Acordei cedo hoje e ouvi ao noticiário matinal no rádio do carro. O dia começa mal. O Dia Internacional da Mulher começa muito mal. A cada crônica, a cada mulher que fazia parte do noticiário, começava a rasgação de seda. É um tal de "homens acham que são ciência, mulheres sabem que são arte" ( Jabor, Arnaldo PIG) - Marie Curie mandou beijos - OU então, elogios à essas mulheres inteligentes... Todas alinhadas com os pensamentos dos homens que as elogiavam. Inteligentes ou não, alinhadas ao pensamento deles. Enfim, elogiar, presentear com flores, tudo isso parece bom, mas não é.
Primeiro porque os elogios são direcionados às mulheres que estão dentro dos padrões pré-estabelecidos como certos pelo patriarcado: Reprodutoras, mulheres com jornada tripla, namoradas dedicadas, dependentes. A essas se atribui todos os adjetivos ditos femininos (e que são representados pela flor): docilidade, amabilidade, delicadeza, força de "caráter". Mas cadê os elogios às mulheres que subvertem a ordem? Mulheres trans, lésbicas, vadias, peludas, revoltadas, militantes, sindicalistas, abortistas, rebeldes com armas em punho? Essas se tornam invisíveis ao patriarcado, para essas não existem elogios.
Segundo porque ao final de todos esses elogios, muitas vezes vem a frase: "Sem vocês, nada seríamos". A mulher é tratada como a base para o homem, ele se suporta nela. Quem nunca ouviu aquele ditado (machista e heteronormativo) "Por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher"? Esse ditado, reafirma a divisão de público e privado. Sendo que o público é o espaço masculino, o "Grande Homem" é aquele que toma parte na vida pública, enquanto a "Grande mulher" é aquela que se mantém em domínio privado, gerenciando a vida doméstica (mesmo que esta trabalhe fora de casa, a obrigação sobre as tarefas domésticas, de forma geral, ainda recai sobre as mulheres) e a própria imagem, para que o homem seja capaz de ter sucesso em sua própria vida. É a maternidade estendida a todas as mulheres (todas as que não fazem parte do grupo subversivo).
O que esse ditado não diz é que à frente de uma grande mulher sempre tem muitos desafios a serem vencidos. Toda grande mulher da história lutou bravamente contra preconceito, intolerância, desrespeito. Ser um grande homem num mundo que te oferece tudo é fácil. Ser uma grande mulher é muito mais difícil. Grandes homens são sempre reconhecidos pela história e incentivados pela sociedade. Grandes mulheres são esquecidas, apagadas da história, desestimuladas. 
Repetir que "sem vocês, nada seríamos" é uma ofensa. Não nos parabenizam por aquilo que somos, conquistamos e fazemos por nós mesmas, mas por nossa função nas vidas dos homens e pelo que fazemos por eles. As mulheres não vieram ao mundo para dar a luz aos homens, ensiná-los, cuidar deles, ser a base firme para eles. O dia das mulheres é exatamente para lembrar que as mulheres querem existir e agir no mundo com autonomia. É dia de mostrar que as mulheres podem ser muito mais do que reprodutoras, do que cuidadoras e que não precisamos de rosas, nem de elogios vazios. Não precisamos disso. O 08 de março é um dia para incomodar, fazer barulho, buscar uma sociedade mais justa, com menos desigualdades sociais (E o dia da mulher é muito relacionado à questões sociais) e de gênero.

Post escrito por Gizelli Sousa, com co-autoria de Thaís Campolina e Paula Mariá.

terça-feira, 6 de março de 2012

Brainstorm do Dia Internacional da Mulher: O trabalho feminino na história e a luta pelos direitos humanos das mulheres.




A origem do Dia Internacional da Mulher remonta no início do século XX, nessa época, grande contingente de mulheres passaram a incorporar a mão-de-obra industrial. As más condições de trabalho eram notáveis, a duração da jornada de trabalho passava de 14 horas, as indústrias não ofereciam segurança e muito menos conforto para os trabalhadores e a diferença salarial e também de condições de trabalho entre homens e mulheres era imensa. 

Nessa época, as manifestações femininas em prol de melhores condições de trabalho, salários iguais e o sufrágio feminino pipocavam pelos Estados Unidos e pela Europa. As vozes femininas clamavam pelo fim das condições subumanas de trabalho, por salários iguais e também pelo próprio direito de reivindicar.

Mas além das péssimas condições de trabalho e os baixos salários, as discriminações sofridas pelas mulheres iam além. O ambiente do trabalho é um espaço público, domínio definido culturalmente e historicamente como masculino, sendo assim, as mulheres eram consideradas intrusas num mundo de homens.

O trabalho era inevitável para a mulher pobre, mas trabalhar era se adentrar ao espaço público e o estigma de uma mulher trabalhadora nessa época era pesado. Basta perceber a diferença de significados das expressões “mulher pública” e “homem público”.  Enquanto o homem público é aquele que participa ativamente da vida pública, é político e trabalhador, a mulher pública é a prostituta.

O trabalho feminino era repleto de desafios, trabalhar era desafiar a ordem moral da época. Além do estigma da prostituta, mulher fácil, mulher disponível, e as consequências disso, que era lidar com o assédio nas fábricas e nas ruas. As trabalhadoras da época carregavam também o fardo de estar afastadas dos seus filhos, logo do exercício da maternidade. E eram lembradas por toda a sociedade de que eram péssimas mulheres por não se dedicarem integralmente a maternidade. Para a sociedade da época, o trabalho, o afastamento da mulher do espaço privado, era uma ofensa aos bons costumes, a mídia pregava que a mulher deveria priorizar ficar em casa e cuidar dos filhos e também do marido e vinculava o trabalho ao adultério e à prostituição.

A história do Dia Internacional da Mulher começou com a incorporação da mão-de-obra feminina nas indústrias, a luta feminina para sair da pobreza, as manifestações por iguais condições de trabalho e de salários, a luta contra os desafios que a sociedade impôs às mulheres ao julgar a sua moral por causa do trabalho. Mas ainda hoje, a mulher que opta por uma carreira bem-sucedida é julgada por não dar vazão aos “seus instintos maternos” ou por propor uma real divisão de tarefas. Quando uma mulher é promovida, muitas vezes há comentários, mesmo que em tom de piada, que a promoção só aconteceu porque houve um teste de sofá. A idéia de que a mulher pertence ao espaço privado ainda sobrevive e é analisando esses comentários do dia-a-dia que percebemos que a mulher que trabalha ainda hoje enfrenta julgamentos sobre sua sexualidade e a maternidade. Enfim, apesar da equiparação legal de salários entre homens e mulheres, na prática há uma enorme disparidade nos salários, no tratamento e nas oportunidades dadas, principalmente nos casos de mulheres negras e pobres.


Quando penso no Dia Internacional da Mulher, na origem da data e na história das mulheres, eu não penso em comemorações, eu penso em luta! Penso em protestos, manifestações, greves, tudo em prol da busca por mudanças sociais e culturais que promovam de alguma forma a igualdade entre os gêneros e a igualdade social. Destaco essa questão do trabalho, porque apesar do discurso de que não há nada mais pra conquistar, que as coisas agora são como são, é fácil perceber como ainda hoje há muitas disparidades dentro do mercado de trabalho entre os gêneros. Além disso, ao analisar o quanto a visão da sociedade a respeito do trabalho feminino mudou, percebe-se que é possível mudar o pensamento dominante, mas pra isso acontecer é preciso de muita luta, resistência e coragem de todas nós.


As imagens do texto são do filme "Revolução em Dagenham", um filme que relata uma história real de luta das mulheres por direitos trabalhistas ocorrida em 1968 na Inglaterra.

Mulheres negras eram escravizadas e por isso trabalharam desde sempre. Após a abolição da escravatura, mulheres negras trabalhavam bastante para garantir o mínimo. A luta contra as disparidades salariais e contra a divisão sexual do trabalho deve sempre levar em conta a realidade da mulher negra, sem isso, as disparidades de salário e oportunidade continuarão existindo porque a mulher negra sofre uma dupla opressão, sendo assim, sem combater o racismo, as conquistas das mulheres brancas não atingem a mulher negra.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Dia Internacional da Mulher - Mulheres com a mão na massa



Obs.: Esse post dá início a uma série de posts voltados para o tema "Dia Internacional da Mulher". Pretendemos compreender, refletir sobre as conquistas já alcançadas pelas mulheres e pelos desafios que ainda precisam ser vencidos. Uma ótima semana das mulheres a todas, que nessa data nos ofereçam mais do que flores, nos ofereçam empatia, diálogo e mudança.

Ser mulher é um desafio para quem resolve adentrar em um campo de conhecimento predominantemente masculino. Sou arquiteta, formada a seis anos. Pouco, segundo a regra que diz que um jovem arquiteto, despontando na carreira, normalmente está na marca dos 40 anos. Eu ainda tenho 28 anos. Por isso, vale dizer que esse post é anedótico, trata apenas da pouca experiência, alegrias e frustrações dessa hiper jovem arquiteta na construção civil. Que provavelmente se inicia no momento em que comecei a ler. Meu pai tinha assinatura da revista "Arquitetura e Construção" e antes mesmo de ler uma revistinha da turma da mônica eu folheava revistas de arquitetura. Cresci e me interessei em desenho, em artes. E o tempo e a vida me levaram à uma sala de aula na universidade de Arquitetura e Urbanismo, essa profissão que tanto amo.
Na universidade, percebi que havia um grande número de mulheres, diria que 75% da turma, além de boa parte dos professores (em contrapartida, as faculdades de engenharia ainda são predominantemente masculinas). O que dá a entender que boa parte dos profissionais do ramo são mulheres. Porém ao me formar, vi que a porcentagem reduziu-se a 50%. Praticamente todos os homens continuaram até o fim da faculdade, as mulheres, não. Os motivos são os mais variados, há quem engravidou, desistiu, quem acabou ficando para trás.
Após a faculdade não foi diferente. As pessoas que eu soube que desistiram da profissão eram mulheres. Talvez esse nem seja o motivo, mas é curioso que o mercado pareça mais aberto aos homens que às mulheres. Comprovando essa teoria, lembro-me que, ainda estudante, um ex-chefe de quem gosto muito e que me atribuiu a tarefa de selecionar estagiários, me disse claramente: "Prefiro trabalhar com homens". E em outro momento, procurei um estágio em uma obra de uma fábrica de frangos e fui rejeitada com a seguinte frase: "Como o estágio é em obra, prefirimos contratar homens".
Aliás há discriminação na associação de mulher e obra. Eu explico. Há quem diga que a mulher não deve estar presente na obra para a sua própria proteção. Ou ainda que uma mulher não conseguirá impor respeito aos trabalhadores (Nos dois casos há preconceito contra a mulher e contra o trabalhador, visto como alguém incapaz de se controlar com uma mulher por perto). Curiosamente, nunca tive esses problemas em nenhuma obra que já executei. A capacidade de um profissional não se mede pelo gênero.
Se essa situação já é flagrante com quem tem diploma superior de arquitetura e a mesma preparação que um profissional do sexo masculino para exercer a profissão, imagine como é nos cargos de execução da construção civil, em que a formação profissional é incipiente e quase sempre aprendida unicamente na prática: pedreiras, gesseiras, eletricistas, assentadoras de revestimento. Quem aí já reformou a casa e contratou uma dessas profissionais? O campo da construção civil, especialmente o trabalho braçal ainda é masculino.
O aquecimento do setor vem ofertando cada vez mais vagas e, com isso, a situação vem mudando gradativamente. Há cursos de formação para mulheres que se interessam por essas profissões, alguns até realizados em parceria com a Secretaria de Políticas para as Mulheres, do governo federal. A prioridade é garantir a profissionalização de mulheres pobres, com baixa renda, pouca escolaridade, em situação de risco social e vulneráveis à violência doméstica. Em outras palavras, o objetivo é empoderar essas mulheres, garantir-lhes independência. Mas ainda é insuficiente e os cargos normalmente são oferecidos por grandes construtoras. 
Enquanto o cidadão comum não quiser contratar uma profissional para reformar a sua casa, não se pode dizer que a igualdade de gênero foi alcançada setor da construção civil.
Eu me recordo quando as mulheres começaram a trabalhar como frentista e cobradoras/motoristas (Que são profissões que remetem à outro assunto que ainda é tido como masculino: Carros). Era pauta para Jornal Nacional. E hoje é tão comum, vejo frentistas em praticamente todos os postos. Espero sinceramente que a construção civil caminhe para isso, para maior igualdade de gênero e sem discriminação de salários. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Mulheres notáveis


O evento de facebook "Mulheres Notáveis" tem objetivo de homenagear as mulheres que foram invisibilizadas pelo dominação masculina, divulgar seus trabalhos e suas vidas e assim, contestar os papéis pré-definidos culturalmente e historicamente do que é ser mulher.

A maneira escolhida para homenagem é a troca do avatar do perfil para a foto de alguma mulher notável. Para quem não gosta de trocar de foto de avatar, também há outras sugestões de como participar, por exemplo, quem utiliza o facebook novo, pode trocar a foto de capa e também há a possibilidade de apenas postar a foto da homenageada no mural do evento. A troca de fotos começou no dia 08/02 e vai acabar no Dia Internacional da Mulher (08/03).

O evento até agora (23/02) tem quase 800 participantes. Devido o sucesso e a ativa participação dos interessados, foi dada a idéia de montar um blog para aproveitar o material que está sendo divulgado no evento.
Confira a postagem introdutória do blog: Mulheres Notáveis, escrita por mim.

A presença feminina na história é escassa, mas não exatamente por ausência de mulheres importantes, mas sim por causa da invisibilidade do sexo feminino num mundo onde a dominação é masculina. A presença das mulheres na ciência, nas artes, na filosofia e na participação política é ainda muito desvalorizada e pouco reconhecida.

A ciência, a filosofia, as artes, os esportes e a política são territórios e assuntos considerados masculinos devido aos papéis de gênero e seus destinos. O gênero masculino tem o papel de tratar dos assuntos públicos, enquanto o feminino tem o papel de tratar dos assuntos privados. A diferenciação entre o público e o privado parte da histórica divisão dos papéis sociais que posicionam as mulheres como cuidadoras da casa e dos filhos e os homens como os responsáveis por assuntos externos, como a carreira, o dinheiro e a política. Insistir na diferenciação dos gêneros em público e privado também nutre uma idéia de que é simples separar as duas esferas, que o pessoal pode ser separado do político e que ambos funcionam baseando em princípios diferentes, porém é possível visualizar que eles funcionam baseando na mesma lógica, tanto que a divisão sexual do trabalho acontece tanto no âmbito privado, quanto no público. Além disso, a divisão dos papéis sociais baseia-se na divisão dos papéis de gênero, o gênero feminino é visto como o cuidador, devida a possibilidade das mulheres de engravidarem e amamentarem e por isso é ligado ao âmbito privado, onde as relações domésticas acontecem.

As características valorizadas na sociedade patriarcal são as definidas como masculinas pelos papéis de gênero, como ser corajoso, leal, ativo e racional. Mesmo atualmente, numa época onde a maioria das mulheres também trabalha fora, ou seja, se arrisca na esfera pública, o feminino ainda é considerado subalterno dentro da política, das empresas, das ciências, dos esportes e da filosofia, porque a idéia de inferioridade feminina persiste, a divisão sexual do trabalho persiste e a esfera pública ainda é considerada império masculino. O feminino, ainda hoje, fica sempre em segundo plano por ser considerado frágil, passivo, maternal e até mesmo irracional.

Os papéis femininos pré-definidos culturalmente de mãe (reprodutora/cuidadora) e também objeto sexual aprisionam as mulheres nessas duas categorias e também na eterna dicotomia de santas e putas. O não reconhecimento dos trabalhos femininos e a pouca valorização das mulheres que vão além desses papéis alimenta a dominação masculina, visto que a suposta inferioridade feminina se manifesta na definição desses papéis. A invisibilidade das mulheres notáveis que tanto fizeram e fazem contribui para manutenção dos papéis de gênero culturalmente definidos.

O evento “Mulheres Notáveis” visa homenagear as mulheres notáveis da história, que tem os seus nomes muitas vezes apagados nas apostilas escolares e nos livros de história, filosofia e também de ciências. E contestar os papéis pré-definidos culturalmente pelo patriarcado do que é ser mulher, mostrar que as mulheres não são enfeite, ou apenas corpos femininos e mães. Enfim, mostrar que ser mulher é muito mais do que os papéis de gênero definem. Mulheres são plurais. E também demonstrar que a não divulgação das muitas mulheres cientistas, políticas, ativistas, militantes, artistas e atletas contribui para a idéia de que a dominação masculina é natural e certa.

O blog propõe ser um acervo das mulheres que estão sendo homenageadas no evento e de outras mulheres notáveis. Além das mulheres notáveis, também postaremos personagens e mitos que chamaram atenção pela ousadia, coragem e significados. Haverá diversas colaboradorxs e pelo menos semanalmente haverá uma ou mais postagens.