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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Exposição de fotos sem autorização das vítimas, até quando?

Várias famosas tiveram sua privacidade violada ontem (31/08/2014) quando hackers invadiram suas contas no iCloud e disponibilizaram, sem o consentimento delas, fotos em que elas estavam nuas.

Assim como ocorrem com desconhecidas ao serem expostas, a caça às bruxas logo começou: condenavam as famosas por terem se fotografado nuas, culpando-as pelo ocorrido e assim afastando a culpa de quem roubou as fotos e as divulgou. E ao mesmo tempo, as pessoas buscavam as fotos incessantemente, pediam links e divulgavam entre si. Comentários jocosos ou mesmo elogiosos surgiam sobre os corpos das vítimas.

Sendo elas famosas, a culpabilização da vítima também teve o viés de "elas queriam a exposição para aumentar a fama" e a busca pelas fotos para muitos se justificava no simples fato delas serem pessoas públicas. Para alguns, se elas são famosas, elas devem ter seu direito à privacidade mitigado para que assim todos possam julgá-las e avaliá-las, acompanhar cada pedaço de suas vidas e alimentar ainda mais a sociedade do espetáculo. Achar as vítimas bonitas não é justificativa para alimentar a exposição. A beleza delas não serve à você e à sua sexualidade.
"O termo "caiu na net", cunhado no orkut e muito utilizado hoje, banaliza o que a exposição dessas imagens íntimas de fato é. Um crime, uma crueldade, uma forma de vingança e de humilhação. Viola-se o consentimento da mulher, coloca-se o corpo daquela mulher como um corpo disponível para ser visto por todos que queiram. A imagem não surge do nada, ela é postada por alguém."

O corpo das mulheres é visto como público em nossa sociedade, sendo elas celebridades, a banalização da exposição da privacidade delas aconteceu com ainda mais naturalidade. Até mesmos alguns que diziam #JenniferLawrenceWeSupportYou buscavam as fotos, comentavam o corpo dela, ignorando que esse clique da busca pela imagem é uma forma de compactuar com a continuidade desse tipo de crime. Mesmo que as fotos já estejam circulando na internet, ao buscá-las e compartilhá-las você contribui para que essas exposições continuem acontecendo dando o click e age de forma insensível com as vítimas, visto que elas não consentiram que você tivesse acesso ao arquivo.

Vazar fotos íntimas de pessoas sem a autorização delas é um crime que atinge principalmente mulheres por causa do machismo e da misoginia. A constante objetificação dos corpos designados como femininos, a visão de que eles são públicos e a condenação da sexualidade feminina são os porquês dessas imagens causarem tanto furor, julgamento e culpabilização. Anônimas, ao terem sua intimidade exposta, são atacadas de xingamentos carregados de misoginia, como "vadia" e tem seus corpos avaliados de forma cruel.  Muitas vezes perdem seus empregos, o apoio da família e dos amigos e algumas até suicidam, após tamanha perseguição e por causa das consequências da exposição em suas vidas.

Privacidade é um direito humano e mulheres, sendo anônimas ou não, devem ter seus direitos respeitados. Os corpos das artistas não pertencem ao fandom, nem aos sites de notícias e nem a quem as expôs. Os corpos das mulheres não pertencem aos namorados, companheiros, ficantes ou aos antigos relacionamentos delas. O corpo é delas e elas tiram fotos nuas se curtirem isso e compartilham apenas com quem elas quiserem e nós, internautas, que não somos os reais destinatários dessas imagens não devemos alimentar ainda mais essa exposição. 
"Para aqueles que estão olhando as fotos que eu tirei com meu marido há anos atrás na privacidade da nossa casa, espero que vocês se sintam ótimos com vocês mesmos."


Bons links: 

"This is why you shouldn't click on thenaked photos of Jennifer Lawrence"
"Tua intimidade nos pertence" - Lugar de Mulher

Sobre fotos nuas, Jennifer Lawrence, eu e você




terça-feira, 27 de maio de 2014

Não somos todxs vadixs



Mulheres são constantemente xingadas de vadias. As situações em que a palavra "vadia" é utilizada para nos ofender são várias e não só quando nós exercemos nossa sexualidade e usam essa palavra para controlar o nosso corpo e nosso comportamento. Mas é uma palavra que mulheres ouvem também quando tem suas fotos e vídeos íntimos disponibilizados na internet sem o seu consentimento, enquanto o criminoso nem mesmo é lembrado e muitas vezes é aplaudido por ter exposto essas mulheres que, para alguns, não mereceriam respeito. 

Somos chamadas de vadias quando bebemos, fumamos, respondemos cantadas, engravidamos fora do casamento, quando andamos sozinhas de noite, quando dizemos não para algum cara e até mesmo quando a gente denuncia violência de gênero na delegacia, ouvimos que a culpa foi nossa porque vestimos ou nos comportamos como vadias.

Vadia, vagabunda e puta são palavras usadas para desqualificar e ofender mulheres. Homens cis não são ofendidos com a palavra vadia. Eles não são desqualificados com essa palavra, não são vítimas de revenge porn, visto que a sociedade não chama o cara que faz sexo de vadio. Homens quando respondem grosseiramente cantada de rua não ouvem "vadio", os corpos deles não são vistos como disponíveis. Homens cis não sofrem culpabilização da vítima com gente dizendo que eles tem culpa porque se comportaram como um vadio.

É necessário observar que mesmo entre as mulheres o xingamento vadia tem pesos diferentes. Por exemplo, a mulher negra, que é vítima da soma de duas opressões, o racismo e o machismo, sofre com a hipersexualização de sua imagem, fazendo com que a palavra vadia, para muitas seja considerada impossível de se ressignificar. É só a gente pensar que ainda é comum ouvir absurdos como "Mulher negra não é para casar, apenas se divertir", coisa que a mulher branca não está sujeita. Outro exemplo, é o caso das mulheres trans e travestis, que são tratadas como um fetiche por vários e essa especifidade também deve ser lembrada. 

Apesar disso, em eventos feministas, como a Marcha das Vadias, é comum encontrar homens cis se designando vadias ou vadixs, o que é bem problemático, porque é uma apropriação de uma opressão que não os atingem. No caso do vadix, ainda há um adendo a ser feito, o uso da linguagem neutra pode ser visto como uma apropriação da causa trans, visto que essa é mais uma opressão que homens cis não sentem na pele.

Sei que muitos homens usam a frase "somos todxs vadixs" com boas intenções, querendo deixar claro que não concordam com as ofensas direcionadas às mulheres, mas assim como  "somos todos macacos" é uma frase que invisibiliza o racismo, "somos todxs vadixs" invisibiliza a misoginia. 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Moça, a culpa não é sua.

*Trigger warning. Texto de conteúdo potencialmente incômodo.



Moça, hoje eu escrevo para você. Sei que muitas vezes você ouviu que a culpa foi sua, que você poderia ter evitado, mas esse texto quer passar uma mensagem muito diferente dessa que todas nós estamos cansadas de ouvir (ou ler). Sei que talvez você ouviu culpabilizações de alguém bem próximo em que você confia/confiava e que você contou o que aconteceu esperando uma palavra de apoio e um abraço e quando esse apoio não veio, você sentiu o peso dessa culpabilização recair em você e acreditou que foi culpa sua. Sei que talvez você não tenha acreditado por completo, mas ainda assim, se sente culpada.

Moça, acredite em mim, acredite em nós, você não tem culpa alguma. Ao contrário do que te disseram, seu short curto, sua calça justa, o fato de você ter bebido, o caminho que você percorreu, nada disso faz com que a culpa seja sua. A culpa é do agressor. A culpa é do estuprador. 

Moça, o corpo é seu e seus sentimentos, suas vontades e suas escolhas importam. A culpa é de quem ignora seu não e passa em cima do seu consentimento. Moça, lembre-se, a culpa não foi sua.

Moça, eu não me esqueci de você que sofreu violência do seu parceiro e esteve em um relacionamento abusivo e ouviu que a violência que você sofria foi causada por você. Você não tem culpa, moça. E eu sei que talvez você pode ter ouvido isso de policiais, mas o fato deles serem policiais não transforma o que eles disseram em verdade.

Moça, não tem nada de errado em tirar fotos nuas e filmar momentos íntimos. O que é errado e criminoso é divulgar essas fotos e o vídeo sem o seu consentimento. A culpa não é sua. Sei que estão te ofendendo e te culpando, mas a culpa é de quem violou seu direito à intimidade. 

Moça, talvez você tenha ouvido ou lido que o seu sofrimento é um exagero e eu sinto muito por isso, mas além de culpar a vítima, o machismo e a misoginia também faz questão de desmerecer a voz das mulheres que sofreram violência ou estão sofrendo para silenciá-las. E a forma que eles tem de desmerecer é banalizar diversas agressões e duvidar dos relatos de violência.

Moça, a culpa não foi sua, quando você foi encoxada no metrô. Você tem direito à cidade, você tem direito a utilizar o transporte coletivo sem sofrer violência sexual. A roupa que você usava no momento não importa, você não teve culpa disso ter acontecido.

Moça, a culpa não é sua. E nós estamos aqui para te lembrar disso quantas vezes você precisar. Estamos aqui para ouvir você, estender a mão para você e oferecer nossa solidariedade para que você se empodere.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

A famigerada mini blusa

Cropped é para todxs! Fonte da foto aqui. 

Às vezes nosso receio de usar determinadas roupas que achamos bonitas, assumir certas preferências, se comportar diferente do esperado são apenas sintomas de certas prisões que a gente se encontra. Para ilustrar, compartilho uma história boba da minha trajetória para finalmente usar um modelo de blusa chamado "cropped", que é um estilo de mini blusa.

Eu desejei usar uma dessas blusinhas por muito tempo. Via outras pessoas usando e achava lindo, mas sempre arrumava uma desculpa para eu não procurar uma para usar. Sempre afastava a blusinha do pensamento alegando que "esse estilo de roupa é para outras, não combina muito comigo". Por mais que eu afirmasse que não combinava comigo, eu continuava a achar bonito e a querer usar, mas faltava algo. Faltava coragem.

E de repente constatei que a falta de coragem inexplicável era um medo das pessoas constatarem que eu não era uma "moça tradicional", a famosa "moça de família". Eu percebi que dentro de mim ainda há diversos fragmentos da tradicional família mineira e um deles era esse medo inconsciente de ser "confundida" com uma vadia. E eu que já há muito tempo digo que roupa não define caráter, que um vestido curto é só um vestido curto e eu que sempre usei shortinhos e vestidinhos pra sair me vi numa prisão que já imaginava ter me livrado a tempos.

A história é sempre a mesma: a gente deixa de passar um batom vermelho que achamos lindo com medo das pessoas acharem que somos vulgares, a gente abandona o shortinho, a blusinha, o vestidinho, as cores fortes. A gente segura as estribeiras na hora de dançar, rir, chorar. E devagarinho, quase sem a gente ver, a gente tá abandonando uma vida inteira de pequenas coisas. Tudo que a gente gostaria de fazer, mas teme, vai ficando para trás.

Há também aquela vontade enorme de deixar de fazer algo que encontra muitas vezes até mais resistência da nossa parte e da sociedade. Um exemplo é a depilação: muita gente não gosta de se depilar, sente dor, tem alergia, se coça toda, mas continua fazendo por receio. Por medo de ser julgada, ser ofendida e por sentir que se achará feia sem se depilar e etc. Enfrentar ou não esses nossos receios é uma decisão que devemos tomar conhecendo bem as origens desse medo e também o tamanho da vontade de dizer sim ao que você quer fazer.

Enquanto isso, se você procura "cropped" no google, há dezenas de textos explicando "como usar". E eles criam regras e mais regras, "proíbem" certos corpos de usarem, zombam de quem é diferente do padrão de beleza e usa peças proibidas mesmo assim, colocam limites do quanto você pode mostrar e repetem a exaustão a famosa frase "assim você fica sexy, sem ser vulgar".

E onde quer que você vá, você vai encontrar regras e mais regras de como usar determinadas roupas, quem pode usar, o que é bonito, o que é feio, o que é anti-higiênico, o que é vulgar, e por ai vai. E de tanto ouvir essas estúpidas regras, a gente se abandona.

Bons links: Documentário "My body, my hair" (Meu corpo, meu pêlo) sobre mulheres que decidiram manter seus pêlos corporais filmado em Londres, Inglaterra. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Os "Bons costumes" e o slut-shaming.




Texto colaborativo escrito por Flávia e Thaís.
Por Débora Vaz - Postada na página "Homem Feminista de Verdade".
Sérgio Cabral, governador do estado do Rio de Janeiro, aprovou a lei "da moral e dos bons costumes" proposta pela deputada Myrian Rios. Segundo a deputada, essa lei é um “Programa de resgate de valores morais, sociais, éticos e espirituais”, mas segundo os críticos, ela é um programa que limitará a liberdade individual com o fim de promover valores cristãos, o que feriria o estado laico.

Myrian Rios é um nome que os militantes de direitos humanos não simpatizam, porque ela já fez declarações vinculando homossexualidade com pedofilia, disse também que não contrataria uma babá lésbica e se manifestou contra a PL122. Enfim, ela é uma das paladinas a favor da "família cristã" e contra os direitos de parcela da sociedade. 


O histórico da deputada nos mostra que seus ideais, por mais que em sua superfície possam ser interpretados como "universais", não passam de uma tentativa descarada de normatizar a sociedade brasileira através de valores "cristãos" que seguem uma pauta discriminatória machista e homofóbica.

Sabemos que o estado é laico, ou seja, não é ateu e nem religioso. A aprovação de uma lei que se propõe a resgatar valores "espirituais" é, pra dizer o mínimo, um deboche direcionado às minorias - religiosas e atéias. Não é preciso muito esforço para perceber que a deputada não está se referindo a espiritualidades candomblé, umbandista, muçulmana, hare-krishna ou qualquer outra vertente não-cristã. 

Com tudo isso, vieram à tona os debates acalorados. Não vamos nos ater aos defensores de tal projeto de lei porque só sendo reacionário-master para não perceber o quão prejudicial e inconstitucional ela é. Falemos da reação de quem é, aparentemente, contra o projeto da deputada Myrian Rios. Pipocaram cartazes ridicularizando a deputada. Ficou claro que, pra muita gente, o que desabona o projeto de lei não é o seu caráter discriminatório e claramente inconstitucional. O que gerou a reação acalorada foi o fato de a deputada ter...posado nua no passado. 

Imagem do Zine Estridente - frase de Paula Mariá
Pronto. Desvendado o mistério. Pra uma parcela da população brasileira, o problema nem é a lei em si, mas sim o fato de que a deputada Myrian Rios, por ter um passado que ~a condena~ (sério, gente, sério), não teria "cacife" pra falar em moral e bons costumes. Nós aqui do ativismo ficamos ainda com mais vontade de correr pras montanhas.

Condenar a deputada por um dia ter posado nua e usar esse fato pra desvalorizar o que ela fala/pensa não é só "apontar a hipocrisia dela". É julgar seu comportamento com base no moralismo sexual que permeia nossa sociedade. Não há como afastar o fato de que posar nua é considerada uma forma de desqualificação do "valor" feminino e por mais que se afirme que a intenção é boa porque o que se quer é apenas "apontar uma hipocrisia", a divulgação da imagem dela nua, perante o contexto social que nos encontramos, acaba por dar forças aos "bons costumes". A mensagem não é recebida conforme o esperado, por causa do significado social que posar nua tem. Dizer "dePUTAda" e "uma vez vadia, sempre vadia" não é apenas "apontar uma hipocrisia", é fazer "slut-shaming".

Buscar no passado da deputada "um histórico imoral" como forma de desqualificá-la, no lugar de criticar as atitudes machistas, homofóbicas e anti estado laico dela é colaborar com a perpetuação da perseguição de todas as mulheres que fogem, alguma vez na vida, da suposta moralidade feminina. 



quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Bullying machista: Somos todas Karina, Amanda, Denise...


Com o crescimento do uso das redes sociais e da internet, aumentou consideravelmente os casos de divulgação de imagens íntimas de mulheres. E as mulheres vítimas dessa exposição costumam sofrer uma verdadeira caça às bruxas. As bruxas do século XXI são as mulheres que fazem sexo.
A mulher que "cai na net" é massacrada por julgamentos, ofensas e culpabilizações. Mesmo muito dos "defensores" as chamam de tolas por terem confiado em alguém. As mulheres são proibidas de confiar em qualquer pessoa e devem estar sempre atentas, sob pena de serem consideradas culpadas. Quem divulgou as fotos ou os vídeos não foram elas, pode ter sido um ex-namorado, um vizinho chantagista, um hacker, mas a culpa é da mulher. Elas deveriam ser castas, não fazerem sexo e se fizerem, jamais se deixarem fotografar ou serem filmadas. Os nomes que são lembrados não são os dos caras que divulgaram as imagens dessas mulheres sem o consentimento delas. Os nomes marcados, as vidas que são destruídas, são as dessas mulheres. Sendo que fazer sexo não é crime, mas expor pessoas na internet sem autorização o é.
  
Um caso que chocou o mundo foi o da Amanda Todd, canadense de 15 anos que suicidou-se por não aguentar mas as perseguições machistas e misóginas que ultrapassaram os muros da escola. Essas perseguições foram causadas pela divulgação de imagens dela mostrando os seios. Ela sofreu ameaças, chantagens, entrou em depressão, foi ofendida e ameaçada pelos próprios colegas, acabou se envolvendo com drogas e no fim, suicidou. Uma história triste, onde se vê claramente o poder do machismo e da misoginia e como a caça às bruxas às mulheres consideradas "vadias" é cruel.
Via Não aguento quando.
A internet vira um tribunal para essas mulheres expostas. Expor essas imagens são uma forma de vingança específica contra mulheres. Afinal, enquanto fazer sexo é considerado um horror para as mulheres, uma forma de "desvalorização", para os homens a lógica que se aplica é contrária. Por que as mulheres não expõem imagens íntimas de homens? Simplesmente porque expor essas imagens não funcionaria como vingança, os papéis não se inverteriam. Ela continuaria a "vadia". A mulher que fizesse isso, seria chamada de louca, ciumenta, histérica. Afinal, a loucura e o ciúme são relacionados à irracionalidade, característica constantemente atribuída às mulheres. E o homem seria considerado vítima, ele não seria considerado culpado, ninguém diria que "ele mereceu". Afinal, o machismo diz que o sexo é humilhante e degradante pra mulher, enquanto para o homem não.

O termo "caiu na net", cunhado no orkut e muito utilizado hoje, banaliza o que a exposição dessas imagens íntimas de fato é. Um crime, uma crueldade, uma forma de vingança e de humilhação. Viola-se o consentimento da mulher, coloca-se o corpo daquela mulher como um corpo disponível para ser visto por todos que queiram. A imagem não surge do nada, ela é postada por alguém. Atrás dessa "postagem", há ameaças como "se você me pagar tal valor, eu não divulgo suas fotos", ou até mesmo "se você me abandonar, nosso vídeo vai para internet". Há a espera pela reação de julgamento da sociedade, há a intenção é humilhar.

Muitas vezes muitos dos que utilizaram essas fotos e vídeos para o próprio prazer, são os primeiros a julgar aquela mulher e montar seu tribunal. A pessoa é vista apenas como entretenimento para os julgadores. Afinal, o bullying se sustenta nessa cultura de ódio que diz que certos tipos de pessoas devem provar o seu valor para conquistarem respeito. O respeito para as mulheres não é considerado algo inerente, ele deve ser provado. E exercer sua sexualidade é considerado uma afronta ao comportamento ideal da mulher. E qualquer mulher que foge desse ideal conservador e machista, é considerada merecedora de exposição, humilhação e até mesmo violência.



terça-feira, 23 de outubro de 2012

Cultura do estupro no espaço público: Nosso direito de ir e vir ameaçado.


"Las leyes son como las mujeres, están para violarlas".
 As leis são comos as mulheres, existem para serem violadas.

A frase, incrivelmente misógina, foi cometida há algumas semanas atrás pelo então presidente do Conselho Geral da Cidadania Espanhola no Exterior, o senhor José Manuel Castelao Bragaño. Felizmente, a repercussão negativa fez com que ele renunciasse ao cargo poucas horas após ter verbalizado tamanha imbecilidade (cargos de poder nas mãos de machistas é uma coisa que tira a tranquilidade do meu sono). Então, se ele foi afastado, qual o problema? O problema, queridxs, é que embora a sociedade rejeite de pronto uma frase que explicita o estupro, não rejeita uma série de outras frases e atitudes que acabam por tornar banal para o cidadão comum aquilo parece chocante quando colocado com tanta clareza.

Há uma relação óbvia entre a frase e a cultura do estupro. Já tocamos no assunto algumas vezes, mas não custa relembrar: quando usamos a expressão "cultura do estupro", nos referimos a como a sociedade coloca as mulheres em posição objetificante e vulnerável, através de pequenas violências e de um discurso agressor (porém velado) que acabam por fomentar o estupro. Aqui no blog falamos do assunto na época dos protestos contra a Nova Schin e contra a Prudence.

Imagem da Página Transexualismo
da Depressão, no Facebook
Dessa vez, entretanto, quero focar no espaço público, que é palco constante dessas demonstrações de desrespeito com as mulheres. Por vezes ressaltando aquilo que temos em comum (ou seja meramente por sermos mulheres), e outras vezes desrespeitando aspectos singulares de cada mulher. Por exemplo: mulheres trans são consideradas aberrações, transformam sua identidade num mero fetiche; mulheres negras são hipersexualizadas, uma lembrança do nosso passado escravagista; Funkeiras são as novas Genis; Gordas são humilhadas por estarem fora do padrão estético eurocêntrico e racista vigente (Alô, Marisa!); mulheres que se prostituem são desvinculadas de sua humanidade, tornando-se mero objeto, de forma que estão à disposição de qualquer abuso, num grau de vulnerabilidade muito grande e assim por diante. E é claro, tudo isso pode vir a desencadear um quadro de violência física também. No fim, em maior ou menor escala, o espaço público é hostil com as mulheres.

Essa hostilidade não encontra respaldo em lei escrita, pois as calçadas de toda e qualquer cidade não vêm marcadas para um gênero específico, tampouco o transporte público. A rua não tem dono, de forma que todxs possuem o direito de ir e vir. Contudo, para as mulheres esse direito está sempre ameaçado. 

Mulheres no mundo todo sofrem com o
assédio, independente da roupa que usam.
Não faltam exemplos: Há poucos dias, fiquei sabendo de um fórum dentro do Imgur em que um professor postava fotos que tirava de suas alunas menores de idade (sem a sua permissão, claro). Ele simplesmente as fotografava em espaços públicos e colocava a foto no fórum. Seguindo o tenebroso exemplo, criaram uma página no facebook em que postavam fotos de mulheres no metrô de São Paulo. ~~Daora a vida, néaum?~~ E sabe o que é pior? alguns dirão que elas já tinham se exposto no espaço público ao sair de casa vestindo roupa justa, colada, curta ou o que for. Mas elas nunca autorizaram ninguém a fotografá-las e usar sua imagem para fins punhetísticos. Simples assim, o corpo de uma pessoa é uma exclusividade dela, a roupa que ela usa não diminui esse direito. Aliás, roupa não previne o estupro em lugar nenhum do mundo. A forma como fala, anda ou se comporta, nada disso é determinante.

Imagem de documentário de
Sofia Peeters sobre o assédio nas ruas européias
São muitas as pequenas manifestações abusivas no tocante ao corpo da mulher. Outro dia, uma amiga relatou que estava dentro do táxi, no semáforo, quando um motociclista parou ao lado do veículo e ficou olhando as pernas dela. Ela fechou o vidro, indicando que estava incomodada e o sujeito continuou a observá-la. Outro exemplo é um depoimento que recebemos nos primórdios desse blog de alguém que sofreu abuso num espaço público. E o que as pessoas que estavam perto fizeram? Riram dela. 

Quadro BIZARRO do  Programa Zorra Total
Está tudo muito errado quando a maior emissora de TV aberta do Brasil coloca um quadro humorístico em que mulheres são bolinadas no metrô e se sentem agradecidas por isso. Sabe aquela piadinha super ~~politicamente incorreta~~ que afirma que mulher feia tem que agradecer se for estuprada? Pois é, continua fazendo muita gente rir, mas faz com que algumas pessoas lamentem também. É claro que nas cabeças conservadoras o lamento de alguns é menos importante que a diversão de outros. Só que o problema é tão sério que em muitos metrôs do mundo existem vagões exclusivamente femininos. A incorreção da piada não evoca nada de novo, de transgressor, apenas legitima o estupro, que é prática opressiva mais velha que o mundo. 

Giovana contando sobre
o assédio que sofreu
Mesmo com todos esses argumentos, os defensores do assédio de rua alegam que se estivessem em situação oposta, se em vez de assediar, fossem assediados, eles gostariam muito. E é aí que entra o privilégio: Mulheres são assediadas nas ruas desde muito jovens. Ao entrar na adolescência se torna comum ouvir todo tipo de cantadas. Acredite ou não, isso nos causa medo. Desde cedo passamos a temer pela nossa integridade física, pelo nosso corpo. Não precisa sequer adentrar qualquer tipo de padrão de beleza para isso, mulheres que não se enquadram nas características racistas e gordofóbicas do padrão eurocêntrico de beleza que rege a sociedade ocidental também são vítimas de assédio e de estupro. Assediar alguém na rua não é uma forma de abordar, de conhecer, é meramente uma forma de intimidar e mostrar poder. Quando reclamamos do desrespeito, entra em ação a eterna galerinha do "deixa disso" que acredita que a paz só reina no não enfrentamento, que é a forma como toda mulher deveria agir: de forma passiva. Afinal cantada de rua não é assédio, é elogio, eles dizem. Quando fugimos à passividade de considerar que assédio é um afago no ego, nos dizem para andar em outras calçadas.

Marcha em BH
Além dos espaços de transição, dos meios de transporte, há espaços que são considerados determinantes para definir o caráter de uma mulher, acredite você ou não, o ano é 2012, mas ainda tem gente achando que mulher que frequenta baile funk não se dá ao valor ou que bar que tem sinuca não é lugar de mulher. Enfim, aquela velha história de tentar determinar o que é "lugar de mulher". Terrível, mas esse pensamento ainda existe e se propaga na medida em que o direito de ir e vir de uma mulher é cerceado pelo assédio, pelas ofensas ou pelo medo. 

E assim seguimos, alimentando uma cultura que acredita que é normal um cara passar a mão na bunda de alguém na balada, puxar o cabelo da garota, tomar vantagem da bebedeira para conseguir ficar com ela, que é banal ser encoxada num ônibus ou num vagão de metrô. E nada disso é diferente de dizer que mulheres existem para serem violadas.

Se você acha que a culpa de ser assediada, ou desrespeitada de inúmeras maneiras é da mulher, saiba: Culpar mulheres pela violência sofrida é sempre a primeira defesa de quem é mantenedor da cultura do estupro. Então, se nos dizem que a culpa é nossa, que roupa devemos vestir? Que peso devemos ter? em que táxi devemos andar? Em qual estação de metrô? Em qual vagão? Em qual cidade? Qual calçada? A que horas? A verdade é que não há roupa ou comportamento que nos liberte dessa opressão sobre o nosso direito de ir e vir. Outras calçadas, no fim, não nos protegem quando o verdadeiro problema é todo um modo de viver, toda uma compreensão distorcida de nossa identidade e de nossa humanidade.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Parem de culpar a vítima!

Estupro é causado por misoginia, estupradores, tolerância institucional e violência estrutural.
E NÃO pelas roupas, por estar no lugar "errado", bebendo ou não "tomando cuidado suficiente".

Integrantes da banda de pagode New Hit são os acusados de estuprar duas adolescentes fãs da banda após um show na cidade de Ruy Barbosa na Bahia. O exame de corpo de delito foi feito e através dele foi constatada a existência de hematomas internos vaginais em ambas as vítimas, o que é um indício grave de que sim, elas foram vítimas de estupro.

Os detalhes do caso são terríveis: as duas jovens foram estupradas por dez homens e a sociedade, em geral, se comporta de forma machista e misógina culpando, as vítimas pelo acontecido e também ameaçando suas famílias por terem denunciado o caso. Os apoiadores dos acusados alegam que a mera ida ao show já é considerado um indício que elas estavam "pedindo"; afinal, para essas pessoas, mulheres que saem de casa à noite não são dignas de respeito. Outros dizem que elas entraram no ônibus porque quiseram e isso seria mais um indício que elas estavam "provocando, pedindo, buscando" o que veio acontecer.

Há quem diga que elas forjaram o estupro, mas como então elas forjaram os hematomas que constaram no exame de corpo de delito? Há quem diga que elas são "umas vadias", deram muito e agora denunciaram o estupro porque a banda teria dinheiro. Para essas pessoas, eu informo: quando uma pessoa é condenada por estupro, ela não fica obrigada a pagar "muito dinheiro" pra vítima; por mais que vocês achem que estupro é um "problema menor" ou até mesmo uma forma de ganhar direito em cima dos outros; saiba que se ele está previsto na lei penal, quer dizer que essa conduta criminosa é relevante para o Direito e que essas pessoas devem ser punidas, pelo bem da coletividade. Há quem diga que eles não precisam estuprar ninguém, afinal, eles poderiam ficar com quem quiserem naquele show. Para essas pessoas, eu digo, estupro não é sexo. 
Marcha das Vadias de BH - 2011 - Acervo Pessoal

Mais uma vez a sociedade nos mostra sua cara misógina e machista e a gente destaca, novamente, que a culpa de um estupro é do estuprador, jamais da vítima. Não se evita estupros não permitindo que mulheres saiam de casa; não se evita estupros cobrindo o corpo das mulheres com determinadas vestimentas; não se evita estupros culpando as vítimas pela violência sexual sofrida.

É necessário deixar claro mais uma vez que se uma mulher estiver nua e desmaiada de bêbada numa cama, NINGUÉM TEM PERMISSÃO de tocá-la; afinal, ela não tem possibilidade de consentir com o ato. Se uma mulher beija um homem, ele não tem direito de tocá-la onde ela não permitir, ele não tem direito de supor que um beijo é consentimento para qualquer ato sexual que seja. Há diversos exemplos a serem dados mas, neste caso, é bom deixar claro que uma mulher de noite num show não "tá pedindo", uma mulher que entra num carro, na casa, ou num ônibus de um cara não "tá pedindo". Não existe "estar pedindo" por um estupro, porque o que determina se um estupro aconteceu é a ausência de consentimento. Se não há consentimento é estupro. Simples, né?

Roupa, comportamento sexual, a hora e o lugar onde a vítima do estupro se encontrava não a faz menos vítima. Dizer que essas garotas são vadias e mereceram é endossar ainda mais a cultura do estupro, é contribuir para que vários criminosos continuem impunes. Organizar uma marcha em defesa dos acusados não é possibilitar o acesso ao contraditório e ampla defesa numa ação penal, é simplesmente ignorar que essas pessoas podem ter cometido crimes, é banalizar todas as formas de violência contra mulher. Duvidar, dessa forma, de uma acusação de estupro, é dizer que o corpo das mulheres é disponível, pode ser violado se ela não se comportar conforme parcela da sociedade diz que é certo. A marcha que está sendo organizada pelos fãs da banda zomba da Marcha das Vadias, zomba das diversas vítimas de crimes que violam a dignidade sexual das pessoas, zomba também da própria ideia de um mundo menos violento e menos machista.

O caso deixa claro como denunciar um estupro não é uma decisão fácil e como a vítima daquela violência e todos que estão próximos sofrem com os julgamentos machistas que são destinados pra quem tem coragem de não se calar.

Ato em apoio às vítimas, aqui. 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Mulher, jovem, grávida e solteira


"Eu estava grávida. E aí meu mundo caiu. Me escorei em um prédio e me agachei no chão de uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Chorando em soluços desesperadamente. Ali senti minha vida acabar, pensei em todo o horror que uma gravidez inesperada representa, pensei em todos os meus sonhos sendo destruídos, na minha vida sendo esmagada. Tudo o que eu era foi quebrado de repente com o resultado de um exame." (Paula Mariá, no texto "O terrorismo da gravidez")

É dessa forma que a Paula Mariá descreve o momento em que abriu o exame de Bhcg e descobriu-se diante de uma gravidez inesperada. 

Antes de mais nada, das quatro características do título, posso dizer apenas que sou mulher. Estou a poucos passos de adentrar os 30 anos, uma idade fatídica para uma mulher em nossa sociedade, a idade que dizem fazer tocar o tal do relógio biológico (essa babaquice). Passei incólume pela adolescência e pelos 20 anos sem engravidar e tenho um relacionamento bem estável na minha vida, embora não seja casada. Por isso, desde já eu peço desculpas por escrever sobre algo que não é minha alçada, mas me sensibiliza demais: O terrorismo, os julgamentos, a infantilização da mulher jovem, grávida e solteira.  

É muito possível que boa parte de vocês, leitores, tenha passado/esteja passando por essa situação ou conheça alguém que esteve nessas condições, pode ser alguém na família, uma amiga, uma conhecida. Porque por mais que as pessoas gostem de pensar que família é aquela coisa engessada: pai, mãe, irmãs, irmãos, a coisa nunca foi exatamente assim. Sempre existiram famílias que não se enquadram na tradicionalidade desse modelo. As famílias estão cada vez mais diversificadas e o modelo monoparental é muito comum, especialmente nas classes menos abastadas. Então porque estamos sempre tecendo julgamentos sobre uma família que é formada por uma jovem sem marido? Eu mesma já me peguei em pensamentos como: "coitada, tão nova, tanta coisa para viver antes de ter um filho..." e como eu me arrependo de já ter pensado dessa forma um dia. 

Então vamos por partes, um adjetivo de cada vez: mulher, jovem, grávida e solteira.  

A mulher que está aí nesse mundão patriarcal de meldels ainda está escrevendo uma história de luta por igualdade e isso não é novidade para ninguém. Esse blog está recheado de textos sobre a questão do preconceito de gênero, da violência, enfim, dos inúmeros desafios que a condição de se identificar como mulher significa. E desconfio que todos os outros adjetivos do título signifiquem em nossa sociedade uma condição desqualificadora, principalmente, porque designam a situação de uma mulher.  

Juno, um filme sobre
gravidez na adolescência
Ser jovem acrescenta à condição de ser mulher uma característica: A inexperiência. Para muitas pessoas inexperiência é sinônimo de incompetência ou imprudência, e não é bem assim... Atribui-se à juventude a capacidade de quebrar regras, destruir tabus, contudo também vemos por aí uma juventude que "decidiu esperar", que reforça algumas regras. Então, essa característica não é plena, não é universal. Acho que o que deveríamos realmente esperar da juventude é que ela seja livre para fazer escolhas. É muito importante compreender que a adolescência e, porque não dizer, o começo da vida adulta é um período um tanto confuso em que ainda estamos tentando nos entender. E talvez ninguém falará melhor sobre esse assunto do que uma pessoa jovem. Por isso recomendo muito o vídeo da Tavi Gevinson para o TEDTeen, que não fala de gravidez, mas de juventude (é preciso habilitar as legendas que infelizmente estão disponíveis apenas em inglês).



Eu não entendo como temos simultaneamente visões tão opostas da juventude, por um lado, acreditamos piamente que eles são o futuro, que eles são os detentores da mudança. E por outro, estamos sempre falando que eles são estúpidos, incapazes, imprudentes. Porque só reconhecemos os dois signos, os extremos, jamais observando o que está no meio.   

As duas últimas características, grávida e solteira, são melhor entendidas juntas, já que são vistas de forma antagônica. Isso porque a gravidez é celebrada, desde que dentro de um casamento. É assim que a nossa sociedade gosta de definir a felicidade para uma mulher: Através do casamento e da maternidade subsequente. Se a mulher engravida mas recusa o casamento, ela não pode ser feliz. Ou até pior, se ela engravida e está solteira ela não apenas é uma pessoa infeliz, como é uma vadia (mulher que faz sexo: esse tabu!). 

Está todo mundo aí botando na cabeça das mulheres que elas nasceram para o propósito da maternidade, mas se ela for muito jovem, ou não estiver casada, não será capaz de criar o próprio filho, de prover todas as necessidades afetivas e financeiras que uma criança demanda e tampouco será capaz de viver a sua própria vida. Como se a partir do momento em que se descobre grávida, a mulher fosse obrigada a deixar toda a sua identidade de lado, para ser apenas mãe. Essa visão chapada da mulher esconde que, dentro dela, existe lugar para uma pessoa multifacetada, complexa e até contraditória. Não por ser mulher, mas por ser uma pessoa. Pessoas são assim, são mais do que uma única característica a ser reforçada.  

O que não se fala em alto e bom som, é que a mulher solteira tem um significado que deve arrepiar até os pentelhos de uma sociedade machista como a nossa: Ela não depende de um homem.  Antes que alguém grite "pensão", aviso logo que não estou falando meramente da questão financeira. Me refiro à sua independência de forma mais ampla, da sua capacidade de gerenciar uma família, de criar os filhos e principalmente de continuar vivendo. 


Slut-shaming e culpar a mãe:
Duas formas de expressar machismo
Apesar disso, a mulher que passa pela gravidez nessas condições sofre todo tipo de julgamento, a maioria das mães solteiras são questionadas e cobradas de muitas maneiras, especialmente no tocante à paternidade da criança, o tal do "quem é o pai?","vocês vão morar juntos?" ou "vocês pretendem se casar?". Até tem pessoas que perguntam isso na melhor da intenções, no sentido de "o que ele está fazendo para te ajudar a criar o seu filho?". Mas de forma bem geral (óbvio que existirão casos diferentes), parece que existe a cobrança por uma família tradicional ("Toda criança precisa de um pai!"). 

Se a mulher está solteira, existe um motivo, ou ela quer estar solteira e não cabe cobrar a presença do pai, ou ela não quer, mas foi abandonada, e nesse caso a pergunta se torna bem dolorosa. Ademais, duvido que exista a cobrança do outro lado, que exista sempre alguém buzinando no ouvido do pai da criança para ele assumir suas responsabilidades, ou olhando torto porque ele tem um filho e não é casado. Não parece haver simetria nessa relação, como normalmente não há quando o assunto é o que a nossa sociedade espera de um homem e o que espera de uma mulher.

Não pára por aí! Os ataques à mulher podem ser muito mais agressivos. Existem aquelas pessoas que suspeitam das intenções da mulher, chamando-a de interesseira ("só quer a pensão" e "golpe da barriga"), pessoas que tentam puní-la por engravidar ("Na hora de fazer foi bom, agora não reclama"), e ainda outras que a condenam por sua vida sexual pregressa, ou simplesmente por ter uma vida sexual ("dava para todo mundo" ou "De santinha só tinha a cara") e etc. 

Entretanto, talvez a mais dura de todas as críticas venha da família: "Envergonhou a família". Ouvir esse tipo de agressão de quem mais se ama dói profundamente. Me emociona demais pensar nas muitas moças que são expulsas de casa por uma família que preza pela tradição. E são muitas mesmo. Eu me pergunto porque alguns pais jogam sobre a filha as suas frustrações de tal maneira, que se uma coisa sai diferente do que eles imaginaram para sua vida, ela não merece mais viver debaixo do mesmo teto que eles, tampouco ser chamada de filha. Não consigo chegar numa resposta. O que há de tão horrível em entender que aquela não é a vida deles? E nesse momento de rejeição o que já é suficientemente confuso e desconcertante até numa família que dá apoio, se torna um monstro engolindo os sonhos, as pessoas amadas, o futuro, tudo.


Uma gravidez não estraga uma vida, ela só a transforma, muda a sua direção. A vida me parece ser mais do que um ideal de felicidade que te entregaram pronto e embalado para consumo. As coisas seriam muito melhores para a mulher jovem, grávida e solteira se pudéssemos olhar para ela sem achar que por ser mulher, ela é frágil, que por ser jovem, ela é imatura ou incompetente, que por estar grávida, ela é burra ou piranha, e que por ser solteira, ela é infeliz. Talvez isso impedisse que tantas mulheres se sentissem diante de um abismo, do fim da sua vida, no momento em que recebem a notícia de uma gravidez inesperada. Antes de repetir esses julgamentos deveríamos pensar que tudo o que dizemos individualmente, ou coletivamente, e que à cada imagem fazendo troça da mulher que engravidou sem planejamento, geramos o sentimento de culpa, desespero, medo e aflição. Estamos constantemente abalando sua autoestima a cada vez que reforçamos esses estereótipos, a cada mulher para quem dizemos (ou mesmo pensamos): "Que pena, tão novinha..." 


segunda-feira, 30 de julho de 2012

Cultura do estupro, da propaganda da Prudence às piadinhas de estupro.


Um exemplo de como a cultura desvaloriza a mulher que faz sexo.
Via Slut Shaming Detected.
Numa cultura onde homens são valorizados por fazer muito sexo e com várias mulheres  e mulheres são desvalorizadas se fazem sexo, não é surpreendente que surjam muitas imagens no Facebook "ensinando" homens a "conseguir sexo". Nessas imagens, a vontade da mulher é completamente ignorada; afinal, na nossa sociedade, mulher não tem desejo sexual - ela faz sexo ou deixa de fazer por "interesses". A maneira mais mostrada de "levar uma mulher para a cama" é o pagamento de jantares e presentes, e tudo isso do mais caro e do melhor. O consentimento feminino é tratado como comprável, pois só em troca de algo valeria a pena para a mulher fazer sexo - já que fazer sexo é "se desvalorizar". Nesse ponto, muitos homens se revoltam, porque ao receber um "não" depois de todo "esse trabalho e dinheiro gasto", eles se sentem enganados. Se o jantar foi pago, pronto: na cabeça de tais homens, a mulher é obrigada a consentir.

Outro ponto, até mais assustador, é o incentivo ao uso de substâncias como o álcool (e, às vezes, outras drogas) para "dopar" a mulher e assim "conseguir sexo". Nesse caso, o consentimento da mulher é completamente ignorado e nem se faz questão de "conquistá-lo" - afinal, se ela bebe em companhia de um homem, "ela tá pedindo", ela quer.

Na cultura do estupro, o que a mulher pensa e deseja não importa: o que importa é o desejo masculino. As manifestações que reiteram essa cultura são várias e vão de "piadinhas", cenas de novelas e filmes até a publicidade. Recentemente a empresa de preservativos Prudence veiculou em sua página no Facebook uma imagem que banaliza a violência sexual. O texto da imagem rola na internet há anos, mas nunca antes tinha sido veiculado como propaganda de uma empresa. Na imagem relaciona-se o termo "sem o consentimento dela" a tirar a roupa, e também há o seguinte texto: "tirando o sutiã com uma mão e apanhando dela". Os dois itens são os que mais gastam calorias, ou seja, coloca-se a falta de consentimento feminino como algo positivo pra tal da "dieta do sexo".
Campanha do Bule Voador contra a propaganda.

O pensamento que mulheres gostam de fazer "charminho" para aceitar investidas masculinas é nocivo porque generaliza um comportamento, muitas vezes relativiza o consentimento feminino, supõe que todo "não" ou "talvez" dito por uma mulher é um sinal de que é só insistir mais que ela vai ceder e coloca toda a manifestação feminina negativa como parte de uma brincadeira. É necessário destacar que o consentimento é necessário mesmo para jogos eróticos - se não houver consentimento não há sexo: há violação do corpo. Há estupro.

O pensamento reiterado na propaganda da Prudence banaliza a violência contra a mulher, porque tira dela a condição de sujeito, de ser dona de suas próprias vontades e retira sua voz, porque a coloca  numa situação em que seu não ou sim é ignorado completamente. Ao falar "sem o consentimento dela", a violência sexual fica mais naturalizada ainda. Como se haver ou não consentimento não fosse algo que importasse. E essa naturalização da violência contribui para que o estupro seja visto como uma modalidade de sexo e não como o crime cruel e violento que é. Quando a propaganda fala sobre "tirar o sutiã apanhando dela", além de mostrar que realmente pouco importa se a mulher quer ou não fazer sexo, coloca os jogos eróticos BDSM como se eles não fossem algo de pleno acordo, baseado em confiança e em consentimento.

A Prudence, depois de muita pressão, postou uma nota se desculpando pela veiculação da propaganda e deixando claro para seus clientes que tirar a roupa da parceira sem seu consentimento é crime. Triste é ver que várias pessoas vêem essa propaganda como uma piada inocente e acham que as denúncias feitas são baseadas num "moralismo exagerado".

E um adendo: é necessário que as campanhas publicitárias de artigos sexuais, incluindo preservativos, façam propagandas levando em conta que mulheres também são ativas sexualmente. E que são donas de seus corpos e que são possíveis consumidoras de seus produtos. Colocá-las apenas como um prêmio para os homens héteros é nocivo porque contribui para a idéia de que mulheres não gostam de sexo e são apenas troféus. Homens não são predadores e mulheres não são suas presas. E é claro: seria interessante que fossem campanhas que não supõem que apenas casais heterossexuais fazem sexo.

O conceito de propaganda afirma que ela deve persuadir opiniões, sentimentos e atitudes do público-alvo. Se as campanhas publicitárias atuais levam em conta que apenas um grupo compra camisinhas e ignora outro: ela reitera a doença social do machismo. E também da homofobia e lesbofobia.

Demais textos em repúdio ao caso:
"Prudence e a fetichização do estupro", Blogueiras Feministas, Luka.
"Guestpost: Propaganda acima do bem e do mal", Escreva Lola Escreva, Vivian.
"Cultura de estupro? Não, imagine", Escreva Lola Escreva, Lola. 
"A propaganda da Prudence e a heteronormatividade", Minoria é a mãe, Kamila.
"O Estupro da Prudence e o que nós aprendemos com ele", Não precisa gritar, Lucy
"Desconstruindo a cultura do estupro", Mulher Dialética, Jarid. 
"A violência é fácil de se entender", Feminerds, Julia.
"dear Prudence", Meu palanque, Fran Carneiro.
"Nota de repúdio da Marcha Mundial das Mulheres à publicidade sexista da Preservativos Prudence", Marcha Mundial das Mulheres.
"Lira Alli: Camisinha Prudence faz apologia ao estupro", Viomundo.
"A absurda propaganda da Prudence", Machismo chato de cada dia. 
Notícia sobre o caso:
"Conar deve abrir, até amanhã, processo contra marca de preservativos Prudence"
"Marca de preservativos retira publicidade da internet após críticas"
"Fabricante de camisinha tira anúncio polêmico do ar"
"Propaganda de camisinha que incentiva violência contra mulher causa polêmica no Facebook" 
Outros textos:
"A graça de um estupro", Feminerds, Julia. 
"E onde está o meu consentimento?", Ativismo de Sofá, Thaís.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O gay e a piriguete nas novelas da Globo


Helena sofredora moradora da Zona Sul
Eu é que não vou mentir, curto a novela Avenida Brasil. A Zona Sul do Rio de Janeiro tirou férias do horário nobre, a bola da vez é a Zona Norte. Lá fica o fictício bairro "Divino" que é muito mais interessante. Os personagens da novela refletem a ascensão das classes sociais no Brasil. De forma totalmente realista? Não. Quando eu digo que "reflete", quero dizer que o telespectador começa a querer se sentir representado. Quando o Manoel Carlos colocava uma Helena branca e rica na tela da TV, indiretamente o que se pode compreender é que apenas ricos escrevem a história, o dinheiro é o que torna possível ser agente do seu próprio destino, os pobres seguem conforme a maré, sendo, na maioria das vezes o núcleo engraçado da novela. 

Vilã e mocinha são
pessoas cheias de defeitos
Ainda que Avenida Brasil continue tendo protagonistas ricos, integram o grupo denominado "novo rico", que um dia foi pobre, e agora possui grana e disposição para gastar, mas sem o refinamento típico dos personagens do Manoel Carlos. Os personagens são moradores do Divino, jogadores de futebol, a mocinha é a (rica) empregada doméstica. E num arroubo dramático, a mãe adotiva da personagem principal mora no lixão. E ninguém é perfeito, todos tem pequenos deslizes morais em sua história, incluindo a mocinha sofredora e vingativa. Dentro desse contexto, cada personagem dá um texto, quiçá uma tese. Hoje, entretanto, vou focar em dois personagens que conquistaram o carinho do público. A piriguete Suellen e o gay Roni.


Vejamos o que diz o site da novela sobre Suelen:

"Musa mau-caráter do Divino. Trabalha na loja de Diógenes, mas vive faltando ao serviço para ficar assediando os jogadores de futebol. Maria-chuteira clássica, sua meta é se casar com um craque e se mudar para o exterior. Esconde um passado misterioso."

Se quem deu esse resumo ao site foi o autor, nem ele deve compreender o monstro que criou. Quando digo monstro, não falo de forma pejorativa, me refiro ao tamanho e densidade que a personagem hoje possui. Suelen é demais. Os mais apressados dirão que Suelen é uma mulher sem caráter, que não se dá ao respeito. Pois bem, se você pensa dessa forma, amigo, volte para os anos 50. "Se dê ao respeito" é uma das coisas mais machistas constantemente repetidas nos ouvidos das mulheres, pois significa "comporte-se". Pedir que uma mulher se dê ao respeito é o mesmo que dizer que ela abra mão da sua liberdade sexual, pela qual tantas mulheres lutaram. E Suelen é a liberdade sexual personificada, por isso incomoda. Ela deu pra todo mundo porque, quando e como quis. E também deixou de dar quando não quis. 

Outros ainda chamarão Suellen de interesseira, de mulher que não sabe amar (como a própria atriz Isis Valverde falou para o Faustão no programa do dia 08/07). Mas a Suellen é mais, muito mais do que isso. O "passado misterioso" a que se refere a descrição de Suelen é que ela já foi garota de programa e o seu ex-cafetão é obviamente um explorador, que já chegou a ameaçá-la e a bater nela em alguns episódios. Suelen é interesseira? Sim. Mas o que dizer dos homens que desejam dela apenas o corpo, um momento de diversão, que a objetificam, a usaram, humilharam e até bateram nela? Ninguém está por aí falando mal dos caras com quem ela fez sexo na novela. À piriguete couberam todos os julgamentos morais, por ser mulher, por ser ex-prostituta, por gostar de sexo, por não se envolver e por gostar mais de dinheiro que de homem (e olha que ela gosta muito de homem!). Entre uma cena e outra, ela diz "Já passei por muita coisa dura nessa vida. Mas nunca matei, nunca roubei, nunca fiz mal a ninguém. Só a mim mesma". A conduta sexual da Suelen não é atestado de seu caráter. Suelen é interesseira, mas no quesito dinheiro é sincera. Fala claramente para quem quiser ouvir que está interessada principalmente (e não apenas) no dinheiro. Acho que a cena que melhor mostra as diversas facetas de Suelen e como ela possui valores morais é uma em que ela repreende Lúcio pela forma como trata a mãe. Você pode ver aqui.

Se Suelen é a mulher julgada por todos pela sua conduta sexual, Roni é julgado pela sua orientação sexual. Duas faces do machismo, duas vítimas do mesmo ódio. Roniquito é o filho querido de um pai machão e de uma mãe evangélica. Jogador de futebol, mesmo que esse não seja o grande sonho de sua vida (e sim de seu pai), Roni é craque. E não consegue fechar com um grande time por causa da homofobia. Nossa sociedade machista e homofóbica botou o futebol como o esporte que reflete a virilidade e todo um ideal de masculinidade. Tanto é que ainda tem muita gente por aí que repete igual vitrola quebrada que "mulher não entende de futebol" e nunca ouviu falar de Marta ou de Formiga.

Entendidos os personagens, vamos aos fatos que inspiraram esse texto: Suelen foi presa e seria deportada para a Bolívia, seu país de origem. E Roni quer muito entrar para um grande time de futebol. A mãe, evangélica, convence o filho a pedir Suelen em casamento com a desculpa de que um casamento de fachada irá dissipar os rumores sobre a sua orientação sexual, mas na verdade o que ela realmente quer é "curar" o filho da doença que ela pensa existir. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

No princípio, eu comemorei o casamento de fachada de Suelen e Roni. Pois achei que essa era a forma dos dois de lutar contra a opressão que os acometia. Ele deixou claro que o casamento evitaria a deportação e que seria um relacionamento aberto e portanto ela poderia manter a sua liberdade sexual e ele poderia finalmente ser um jogador de um grande time. Eu imaginava que esse casamento não duraria muito porque é novela e todos os segredos são revelados no final e o segredo dos dois é grande demais para permanecer nas sombras.  Um casamento de fachada vai contra o final feliz que normalmente é adotado pela globo, que quase sempre reafirma que a felicidade só pode vir da família tradicional, do casamento, dos filhos e da monogamia.

Porém, o meu maior temor é outro. A união da piriguete e do gay não é novidade numa novela do João Emanuel Carneiro. Em "a Favorita", Orlandinho casou-se com Maria do Céu. O resultado no passado foi uma ex-piriguete e um ex-gay. O tratamento dispensado aos gays e às piriguetes não é a liberdade de ser, de existir, de agir, de amar quem quiser. Em vez de admirar a beleza do ponto fora da curva, a tendência é a de voltar todo mundo para o seu lugar heteronormativo, machista e castrador. 

Quem dera esses fossem os únicos exemplos de ex-gays em uma novela ou série da Globo. Recentemente também tivemos uma série toda em volta dessa temática: "Macho-man", onde o personagem principal sofre um pequeno acidente e SE TORNA heterossexual (Socorro, gente, não dou conta dessa série...).

Na novela Caras & Bocas, do Walcyr Carrasco, teve o casal queridíssimo do público Cássio e Léa. Um gay jovem e uma mulher mais velha e heterossexual. 

Beijo gay que é bom, cadê? LGBTs* não se relacionam seriamente com ninguém nas tramas da globo. Até existiram alguns exemplos, mas nunca vimos um só beijo. No máximo troca de olhares, insinuações. Ou mesmo amor sem carícias. Tudo fica implícito. Não são a piriguete e o gay que não sabem amar, é a Globo que não sabe diversificar. Mulheres piriguetes em geral acabam por se apaixonar por um homem para se redimir da sua conduta sexual pregressa. E gays em novela são em sua maioria tipos engraçados, pois só assim o homossexual é aceito, fazendo um papel risível, gerando situações cômicas. O drama de ser homossexual é invisibilizado (não vou nem falar de trans e lésbicas, que o buraco é muito mais embaixo e dá todo um outro texto). A Globo, como maior produtora de novelas da TV aberta, não pensa fora da caixa: até bota os holofotes sobre o personagem polêmico, mas tem feito aquilo que toda a bancada evangélica tenta fazer a tanto tempo: calar mulheres, exterminar/curar homossexuais. 

A heteronormatividade da Globo me leva a crer que o futuro de Roni e Suelen está traçado, que haverá um casamento mais padrão do que eles esperam. Só me resta torcer para que minhas suspeitas sejam infundadas, que João Emanuel Carneiro continue demonstrando a sensibilidade com que tratou os dois personagens até aqui, sem fazer de Roni uma piada e nem de Suelen um estereótipo. Esperamos que o autor não faça de "Roni e Suelen" outro "Orlandinho e Maria do Céu" e eles possam ser simplesmente livres. Um gay e uma piriguete até o último episódio dessa novela, que até aqui tem sido tão boa.