Mostrando postagens com marcador Manifestação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Manifestação. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 13 de março de 2013

A voz das mulheres nas ruas

Acervo pessoal - foto tirada no Ato.

Sexta-feira, eu participei do ato do oito de março de Belo Horizonte. Não foi a primeira vez que fui às ruas pela luta feminista. Antes dessa sexta, eu já tinha participado de duas Marchas das Vadias, mas posso dizer que foi a primeira vez que estive numa manifestação tão plural. 

Cheguei atrasada, confesso que estava bem perdida sobre onde ir, o que gritar, o que fazer, mas logo me situei. Depois de passar rapidamente no bloco da luta contra a violência doméstica, fomos todxs para a frente do Palácio da Justiça. E lá esperamos os outros blocos chegarem cantando, batucando, dançando. Além do bloco que participei, havia o bloco da diversidade da mulher levantando a bandeira da luta contra a lesbofobia e transfobia, o bloco contra a mercantilização do corpo feminino, o contra a violência do Estado, o contra a violência do campo e o bloco das negras e nordestinas.
Acervo pessoal - foto tirada no ato. 

Ouvi mulheres quilombolas, sindicalistas, idosas, estudantes, do movimento sem terra e de vários coletivos falarem de seus problemas principais e me emocionei junto e inclusive vi quem chorasse ao sentir a coragem e a emoção na voz daquelas mulheres. Gritamos por diversas vítimas de violência, entre elas Eliza Samúdio. 

Andamos juntas pela Afonso Pena. Ouvíamos gritos e cantos diferentes em diversos pontos da marcha, havia batuque, havia alegria, havia o sonho de um mundo melhor, havia a vontade de lutar em todos aqueles cantos, que apesar de terem letras tão diferentes e serem tantos, acabavam por ficar uma voz uníssona de esperança. 

Deitei emocionada no chão da Afonso Pena para a minha amiga Carol me desenhar de giz. O objetivo do desenho era que na rua ficasse um lembrete para a sociedade das tantas mulheres que são violentadas diariamente. E o ato teve fim ali.

Acervo pessoal - foto tirada no ato.
Eu e outras mulheres saímos juntas para comer, beber e celebrar a sororidade. Estávamos todas anestesiadas de tanta emoção, cansadas de tanto andar, mas queríamos curtir aquela sensação de dever cumprido e cumplicidade. E meu oito de março acabou sendo o que deveria ser: um dia de luta, amor e esperança.

Participar de uma manifestação, apesar de ser cansativo, dar vergonha aos mais tímidos e etc, é mágico porque ali nós nos sentimos fortes o suficiente para lutar o quanto precisar. Ali me senti renovada, senti que vale a pena e acho que é essa a magia de ir às ruas gritar ao mundo "ME RESPEITE", essa é a magia da sororidade, de estender a mão para todas as mulheres.

No outro dia, ao andar pelas ruas de um bairro belo horizontino, ouvi uma mulher dizendo que nenhum marido trata a esposa bem e que o cara que estava sendo citado por outra mulher na conversa só podia ser uma exceção. E me relembrei que a luta é todo dia até que todas nós sejamos bem tratadas por todos.

Outras fotos do ato: Aqui e aqui.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Oito de março é dia de luta.

Texto de Thaís e Flávia. 

Não é novidade para ninguém que o oito de março, uma data que deveria reforçar a necessidade da nossa luta para sermos vistas e respeitadas como ser humano, é visto pela mídia e pela sociedade como mais um dia para reafirmar ideais de feminilidade.

Campanha da Prefeitura de PoA.
A Prefeitura de Porto Alegre, por exemplo, em sua página no Facebook, postou uma série de afirmações que iniciavam com um "só uma mulher sabe". E as frases utilizadas para complementar a chamada são exemplos do estereótipo do que é "ser mulher". A nossa existência não pode ser resumida, em nenhum dia do ano, a apenas chegar em casa e enfim poder tirar o salto alto ou em ficar triste porque estragou o esmalte recém passado.
  
A problemática desse tipo de manifestação que resume as mulheres a enfeites, seres frágeis ou quase mágicos por aguentar tripla jornada e poder ter filhos não está só no fato de que o oito de março é um dia de luta, mas também se encontra na reafirmação do que é "ser mulher".

O dia oito de março é cheio de homenagens que nos colocam num pedestal. A mulher ideal para a sociedade patriarcal é aquela que se sacrifica diariamente e é vista como forte por isso, aquela que aguenta calada xingamentos, ofensas em forma de piada e a restrição de seus direitos. E é por isso que é tão comum vermos comentários como "parabéns mulheres por aguentarem tudo". Sacríficio é algo considerado bonito, principalmente para quem é mulher. Porque quem é mulher parece ter que ser punida diariamente por isso, com salários menores, com tripla jornada e etc.

Banner da programação da semana da mulher.
Quando a mídia e a sociedade nos parabeniza por ser mulher, foca todas as ações do oito de março em distribuir flores e chocolates, fazer promoções de itens de consumo voltados para a vaidade feminina, ela não só reforça os papéis de gênero, como também negligencia como a violência contra a mulher continua sendo um problema sério. É fácil distribuir cartõezinhos e se esquivar de discutir em profundidade a guerra contra as mulheres em que se encontra o mundo. Porque ao discutir com profundidade nota-se que o problema é a cultura de ódio em que vivemos. Uma cultura misógina, machista, homofóbica, transfóbica, lesbofóbica e racista. 

Os feminicídios ainda são chamados de "crimes passionais", as "cantadas" que ouvimos na rua desde cedo são chamadas de elogios, a objetificação das mulheres ainda é rotineira. Os salários das mulheres continuam sendo cerca de 30% mais baixos que o dos homens, sendo que a mulher negra ganha ainda menos que uma mulher branca. 
  
Campanha resposta.
Oito de março é um dia de luta contra esse ideal de feminilidade tão excludente e opressor. É o dia de falarmos que não precisamos "aguentar caladas", de jogar fora essa idéia de que é legal se sacrificar, de incentivar a solidariedade feminina e nos empoderar. Nos empoderar para lutarmos não só nesse dia, mas diariamente.

Oito de março é um dia para lembrarmos que a nossa luta é diária, que a cada passo que damos para melhorar a vida das mulheres, a sociedade se encarrega de "nos colocar em nosso lugar", em um backlash que coloca à prova a nossa força. Às vezes o desânimo toma conta de nós, pois parece que nada muda. É por isso que datas como o oito de março são tão importantes. Porque é através das "homenagens" que recebemos, que fazem questão de celebrar um sistema castrador e opressivo, que encontramos força para protestar. Oito de março é dia de dizer: o sistema tem que mudar.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Guestpost: O Tatu Bola e o espaço público em Porto Alegre

Augusto Salla é publicitário, tem um blog e tem ataques histéricos no Twitter.
Foto: Ramiro Furquim/Sul21



Nesta altura do campeonato, já deve ter ficado claro que o grande legado da Copa do Mundo de 2014 (e das Olimpíadas de 2016) estará dentro do bolso de grandes empreiteiras. Da promessa de uma nova infra-estrutura para toda a população, a única coisa que vemos são estádios financiados pelo dinheiro público e violência contra a população mais carente.

Assim como ocorreu no Pan em 2007, na Cidade do Rio de Janeiro, a especulação imobiliária entra forte para lucrar o máximo possível independentemente dos custos sociais, enquanto o Estado usa de todo o seu aparato para “maquiar” a cidade. Isso é de praxe em grandes eventos esportivos no Terceiro Mundo: na África do Sul, o Estado também removeu a população carente dos centros das cidades para que os turistas não os encontrassem:




Na Vila Chocolatão, no Pinheirinho, no Vidigal ou em tantos outros lugares Brasil afora, é certo que há muita precariedade, falta de saneamento básico e por vezes, a ausência completa do Estado que deixa de cumprir obrigações básicas para com o povo. Assim, o que o Estado faz é usar as suas próprias falhas como justificativa para arrancar as pessoas das suas casas quando está apenas atendendo a interesses privados.

O que vemos é que as pessoas são jogadas para cada vez mais longe da cidade perdendo não apenas as suas casas, mas também (e especialmente) as suas comunidades. E o pior é que muitas famílias só possuem promessas do Poder Público de novas moradias: as pessoas estão sendo expulsas das suas casas sem o Governo garantir um teto - por vezes, se obrigam a receber um auxílio-aluguel que dificilmente cobre as despesas de uma moradia digna e acessível.

Neste jogo, quem apanha é o pobre e quem faz o papel de agente do especulador é a polícia. É ela que reprime manifestações, que agride e que obriga as pessoas a saírem das suas casas.

O que vem acontecendo em Porto Alegre

A especulação imobiliária está firme e forte em Porto Alegre assim como a higienização da Cidade Baixa, bairro bohêmio da cidade. Ainda no primeiro semestre, a Prefeitura fechou o cerco aos bares com a justificativa de que a maioria não era regulada e que incentivavam a baderna durante a madrugada.

Esse cercamento ao bairro acabou por afetar não apenas quem curtia a vida noturna, mas diversos profissionais que faziam a sua vida ali resultando em desemprego para garçons, cozinheiros e músicos, conforme lembrou na época o advogado Marcelo Almeida. Inclusive, os músicos da cidade realizaram uma manifestação de protesto.

É importante salientar que a questão gira em torno da falta de alvarás dos bares, mas que as secretarias da Prefeitura têm dificultado há anos a entrega de alvarás aos empresários.

Pois bem, por mais que possamos encontrar razões (justas!) para uma maior fiscalização nos bares da região, a verdade é que o objetivo é higienização, é tirar o povo da rua, transformar o bairro para que a especulação imobiliária faça o que gosta de fazer: inflacionar valores e lucrar.

Aliás, mesmo aqui, numa fiscalização a estabelecimentos privados, a Brigada Militar se comportou de forma agressiva buscando intimidar os presentes nos bares ao entrar com armas em punho quando acompanhavam os fiscais. E aí pergunto, pra quê?

O Araújo Viana

O Auditório Araújo Viana era patrimônio público e se localiza em um dos maiores parques de Porto Alegre, tendo sido palco de atrações para o povo há muito tempo. Infelizmente, ele se encontrava em péssimas condições por descaso do Poder Público.

A solução: privatizar! Parceria do poder público com o setor privado para reformar (e lucrar muito). Não importa que agora é caro, do ingresso à latinha de refrigerante, o local está ótimo, então a classe média está muito feliz.

O Largo Glênio Peres

No Centro de Porto Alegre, ao lado do Mercado Público, existe o chamado Largo Glênio Peres. Este local sempre foi reservado para pedestres, manifestações e feiras, inclusive, uma Feira de Economia Solidária que ocorria periodicamente no local.

Com o absurdo do trânsito de Porto Alegre, a Prefeitura notou que havia um espaço no Centro que AINDA não havia sido colonizado por carros: o Largo Glênio Peres. Tchau feiras, tchau manifestações culturais, tchau espaço público para o cidadão, agora, durante todo o final de semana, o espaço é estacionamento.

Não contente com isso, a Prefeitura deixou a Coca-Cola “adotar” o Largo. Adotar, claro, é eufemismo para transformá-lo em espaço privado de publicidade para a marca.


O povo então foi se manifestar numa Defesa Pública da Alegria: parem com as privatizações do espaço público e devolvam a alegria e a democracia que tornou Porto Alegre referência em políticas republicanas para o resto do país (não é mais, mas já foi).

Dançamos, cantamos, beijamos, nos abraçamos, sorrimos e nos divertimos pra caramba. Sem violência, sem baderna, apenas alegria.

Entretanto, lá estavam cerca de 20 policiais da Brigada Militar guardando um BONECO INFLÁVEL, propaganda de uma empresa privada em um espaço PÚBLICO. Está certo, o policiamento em Porto Alegre está perfeito que pode deixar 20 brigadianos guardando um boneco inflável.

Danillo Ferreira, Tenente da Polícia Militar da Bahia, foi muito lúcido ao escrever que

Dentre todos os elementos que podem ser discutidos em momentos assim, o que agora nos chama a atenção é a natureza dos bens jurídicos que são postos como centrais nos esforços e dedicações das polícias. Como instituições com justificativa existencial pública, não é demais indagar sobre como se deve interpretar a designação de tal aparato policial para a defesa de um boneco de plástico. Mais: expor policiais ao confronto com manifestantes, e expor manifestantes ao confronto com policiais, em um jogo de interesses que não haveria de ter outro resultado.

Um dos manifestantes entrou no cercado ao redor do boneco e ficou por lá. Tocou pandeiro, fumou um cigarro. Mais nada, sem tentar furar o boneco, sem tentar derrubá-lo. Apenas ocupou um espaço PÚBLICO.

Então a Brigada Militar agiu como sempre age ao encontrar manifestações populares: partiu para a violência contando com o reforço de mais QUARENTA policiais, totalizando 60 brigadianos para defender um boneco inflável. Com truculência, foram para cima do manifestante e foi aí que o Largo Glênio Peres e arredores se tornaram um campo de batalha, pois os manifestantes reagiram - alguns atacando a Brigada, outros se defendendo, derrubando as grades do tatu e outros ainda defendendo pessoas que estavam sendo agredidas de forma bárbara pela polícia.

Pois, ora, não é barbárie agredir uma pessoa já jogada no chão e dominada? Não é barbárie correr atrás de manifestantes por mais de 100m com a única intenção de agredir? Não é barbárie bater na cabeça, quebrar braços, dar tiros de borracha à queima-roupa em pessoas desarmadas? Não é barbárie arrancar o celular de uma pessoa que não estava atacando a polícia e ainda agredi-la? Não é barbárie espancar pessoas que nem na manifestação estavam, mas tiveram o azar de estarem nos arredores naquele momento?

A justificativa da Brigada Militar era de que os manifestantes haviam danificado o boneco. MENTIRA! Conforme Hilton Muller, delegado da Polícia Civil, o boneco NÃO FOI danificado.

O boneco teve o seu aparelho de ventilação desligado após a Brigada Militar e a Guarda Municipal começarem as agressões. Quem foi? Tanto faz!

Mesmo que o boneco houvesse sido danificado por algum manifestante, isso não justificaria a truculência e violência desmedidas da Brigada Militar. Ora, o que vale mais, a vida e integridade física do ser humano ou a porcaria dum boneco inflável? Pra lembrar: bonecos infláveis não sangram.

Marcelli Cipriani relata que

Câmeras fotográficas e celulares dos que tentavam registrar as cenas mais violentas foram arrancadas e quebradas. Nenhuma policial possuía identificação na farda, e todos negavam-se peremptoriamente em conceder seu nome. Perguntou mais de uma vez? Vai apanhar também.

Amigas minhas, favoráveis e contrárias à derrubada do boneco, mas que não se encontravam nem ao menos perto dele, tiveram cortes na cabeça e o braço luxado. Uma, porque foi juntar os pertences de um menino que apanhava. Outra, porque – longe do tumulto – pediu, ingenuamente, para conversar. Ambas, já no chão, continuaram sendo brutalmente agredidas, física e verbalmente, sendo chamadas de vagabundas, putas, vadias, e todo o arsenal de armas verbais que jamais serão capazes de vencer uma luta.

Mas você pode achar que não foi nada demais. Buenas, olha aqui:



Esta violência da Brigada Militar NÃO É ISOLADA. É institucional! Não é por acaso que o Impedimento mandou uma carta aberta ao Governador do Estado do Rio Grande Sul pedindo o fim da presença da BM nos estádios.

O modus operandi das polícias ao encontrar manifestações populares é sempre o mesmo: repressão através da violência para defender os interesses de grandes empresas. Confira o documentário "Domínio Público". 

Assim, a discussão não deve se limitar a se os manifestantes destruíram um boneco inflável (e não o fizeram), mas 1) por que os espaços públicos das cidades estão sendo privatizados? 2) até quando a polícia irá agir de forma ignorante, bárbara, violenta e truculenta quando encontra manifestações públicas? 3) até quando teremos essa anomalia inconstitucional que são as polícias militares?  


quarta-feira, 4 de julho de 2012

Diversas resistências; um mesmo feminismo.


O feminismo é, em sua essência, um movimento pela igualdade de gêneros. Acreditamos que vivemos em uma sociedade organizada de forma patriarcal que determina nossas vidas a partir do momento em que nascemos e somos “diagnosticados” como meninos ou meninas. O objetivo então é a desconstrução dessas determinações prévias e a valorização do ser humano enquanto ser único e livre independente de seu sexo.

Acontece que para atingir a igualdade precisamos passar por cima do machismo: A teoria que estrutura a nossa sociedade, na qual homens são tidos como superiores e as mulheres são oprimidas. E é por isso que falamos tanto de resistência, luta e empoderamento feminino, por exemplo. Então dentro de uma mesma teoria, com os mesmos pressupostos e partindo em direção ao mesmo objetivo, essas questões deveria se apresentar de forma igualitária, certo? Errado.

Antes de mais nada o que determina uma atitude como libertária, retrógrada ou qualquer outra definição é o contexto que a envolve. Não existem atitudes que possam ser colocadas em caixas de “conservadora” ou “transgressora” justamente porque para conservar ou transgredir algo em um determinado meio é preciso ter consciência de qual é aquele meio. A cultura vigente é o fator base para análise da possível resistência. Por isso o movimento feminista é um movimento heterogêneo, que tem por objetivo se opor as mais diversas formas de opressão contra a mulher.

Entretanto, é sempre complicado para quem está inserido em um contexto analisar outro distante e, muitas vezes, oposto a sua realidade. E, falando multiculturalmente, o que é extremamente imposto a um grupo,  pode ser muitas vezes o que é vetado a outro. E se a luta feminista é justamente pela libertação, nenhuma imposição pode ser considerada justa, dentro disso a resistência é justamente ir contra a ditadura, seja ela qual for. E aí obviamente, ditaduras diferentes, pedem libertações diferentes.

Recentemente assisti a um filme chamado A Fonte das Mulheres que me esclareceu muito essa questão. A história é fictícia e retrata uma vila na qual as mulheres, por terem que subir uma montanha perigosa para buscar água todos os dias, estão cansadas e perdendo seus bebês por conta das quedas. Para protestar contra isso elas então resolvem fazer o que chamam de “uma greve de amor”: sem abraços, sem sexo, até que os homens resolvam buscar a água.

Essa situação retrata duas coisas contra as quais lutamos aqui no ocidente: A visão da mulher como um ser frágil e do sexo como uma moeda de troca. Porém, alguém ousa dizer que essas mulheres não estavam resistindo? Não lutaram pelos seus direitos? Não foram feministas? Há até um momento – logo no começo do filme (e da greve) – no qual elas cantam uma música para os homens, exigindo, entre outras coisas, máquinas de lavar roupa.

Valesca Popuzuda em ensaio ativista.
E para nós tudo isso é muito opressor, essa visão da mulher como a dona de casa. É estranho pensar dentro da sociedade que vivemos em algumas dessas atitudes como libertadoras. Bem como é estranho pensar, quando estamos em um contexto de mulher objetificada, no funk feminino como uma forma de empoderamento.

Porém lutamos com as armas que temos. Para as mulheres do filme, o único poder que tinham sobre os homens foi utilizado como forma de lutar pela própria vida, de buscar formas melhores de ser mulher, transgredindo o meio que estava ao redor delas. Isso é resistência. Bem como para as mulheres que se sentem castradas, sem a possibilidade de dizer que gozam, com o medo constante do estigma da puta, o funk pode ser libertador.


Neste vídeo (maravilhoso, por favor, assistam), Kavita Ramdas fala sobre as mulheres que questionam por meios extremamente tradicionais. Como uma professora que, alegando que uma comunidade precisava de fé, utilizou-se do Corão para alfabetizar meninas, em um ambiente onde a educação feminina é tão desprezada.  Ou um grupo de mulheres que se dedica a interpretar canções tradicionais, mesmo religiosas e... são lésbicas.

Como então seria possível determinar quem é mais ou menos feminista? Como nos enquadrar em resistentes ou não? Nos encontramos em uma luta por todas e consequentemente no meio do nosso caminho encontraremos todas: Desde a visibilidade lésbica, passando pelo direito ao aborto até a maternagem consciente.

 Particularmente muito me agrada essa ideia de o feminismo ser um movimento tão plural quanto são as mulheres. E tão capaz de aparecer nas mais diversas formas, mesmo que timidamente, mesmo que não funcionando de forma universal, mas validando os pensamentos e desejos de algumas de nós. Vamos emergir todas juntas, no mesmo sentido, mas de maneiras diferentes. Andando com nossos próprios pés de acordo com o chão ao nosso redor.

Gizelli Sousa falando sobre o mesmo assunto aqui. 

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Beleza circunstancial e a Marcha das Barangas


Não é de hoje que o padrão de beleza vigente oprime as mulheres. E digo especificamente as mulheres porque embora ele esteja aí para todos é no corpo feminino que ele é cobrado com mais força e veemência. Homens aparecem são retratados e congratulados por sua formação, inteligência e tudo o mais. Já nós somos o tempo todo questionadas pela nossa beleza (ou a falta dela) e só isso (vide Dilma Rousseff, que tem mais matéria criticando seus cabelos e suas roupas do que falando sobre qualquer outra coisa).

A Marcha das Vadias, que aconteceu em diversas cidades do Brasil no último sábado tem como seus maiores inimigos os machistas. Estes que odeiam ver mulheres organizadas, unidas. E obviamente esses mesmos machistas são os que curtem julgar uma mulher por nada mais nada menos do que: a aparência delas, com base nos padrões de beleza vigentes. Para eles, a palavra “feia” é a maior ofensa que se pode proferir a uma mulher (e gorda também né, porque gordofóbicos que são, acreditam que feia e gorda são praticamente sinônimos).
Pois então o que mais choveu de “críticas” as ativistas chamando-as de barangas, não é brincadeira. Basta procurar as imagens para concluir que a aparência das manifestantes é o maior foco dos haters. Além é claro de outros clássicos como “mal-amadas”, “mal-comidas”, mas obviamente tudo isso tem origem no fato de serem feias, dizem eles.

 A famosa organização ucraniana Femen, que protesta a respeito de diversos temas, tem o foco da mídia voltado para apenas algumas das manifestantes, as que tiram a blusa e estão perfeitamente encaixadas no padrão de beleza vigentes: Altas, loiras, magras. Entretanto mesmo elas quando olham para as câmeras em momento de fúria, aos berros em seus protestos, são imediatamente desvalorizadas (tanto é que essas imagens não são geralmente publicadas por aí, estão em maior número no site/facebook/etc da própria organização). Toda beleza é desconsiderada quando nela não está presente um rosto sereno e pacífico ansioso para agradar seu opressor, mas sim um grito transgressor.

E aí está a maior prova de que a beleza é circunstancial. Ou seja, uma pessoa é considerada bonita ou feia dependendo do contexto em que se encontra. Uma mulher que está indo contra o status-quo, questionando os valores que lhes foram impostos e o privilégio masculino será, com certeza, chamada de feia.

Coloque as mulheres da marcha de vestidinho e salto alto. Coloque-as sorrindo para uma câmera, bebendo um champagne (porque mulher que se dá ao respeito não bebe cerveja, todo mundo sabe), piscando para um homem. Coloque-as em um filme pornô, em um programa de TV num domingo a tarde, coloque-as  de biquíni buscando entreter os homens e pronto. Automaticamente muitas delas serão imediatamente colocadas na categoria de gostosas.

E se é esse o critério que querem nos colocar, eu peço a licença para falar em nome das vadias que marcham em todo o nosso país: Seremos feias. Se ao nos ver andando por aí, questionando seus valores, gritando nossas reivindicações, exigindo transformações sociais, tudo o que você consegue pensar é que somos um bando de barangas, então ótimo. É isso que queremos ser: Um bando de barangas.

Não queremos servir para o entretenimento masculino, não queremos seguir caladas para que vocês possam simplesmente nos achar bonitas. Sinto muito informar, mas seu julgamento a respeito da nossa estética não é mais tão importante assim. Somos mulheres organizadas e com voz. Voz essa que usaremos sempre. E sempre para nós, não para concordar em te manter nessa confortável posição que o patriarcado te colocou.

Com muito orgulho somos vadias, somos barangas. Somos a favor da igualdade e contra o seu privilégio.