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terça-feira, 22 de abril de 2014

Vivência não monogâmica para mulheres

Alerta: esse não é um texto heteronormativo. Mas, a situação relatada ocorre, predominantemente, em relacionamentos entre homens e mulheres. 


Eu sei que existem pessoas que desconhecem a não monogamia como um modo de se relacionar afetiva/sexualmente. Não há unanimidade nem mesmo nos moldes de relacionamentos entre quem pensa que a monogamia não é uma opção. E sei que há um grande grupos de pessoas que rechaça a ideia que a ausência de exclusividade pode trazer em uma relação. Essa postagem não trata dessa situação como escolha ou compulsoriedade. Ela fala de violência.

Se você é mulher não monogâmica, já deve ter sentido o peso dessa subversão. O julgamento inicial que o patriarcado proporciona é de que você compõe o grupo de mulheres vadias que não merece nenhum respeito. Um carimbo de que não é mulher séria, que não merece casar (mesmo que muitas de nós não esteja interessada), de libertina.

Entenda, eu não tenho absolutamente nada contra a liberdade sexual das pessoas. Liberdade de fazer sexo por sexo. De querer sexo descomplicado (o tal “sexo fácil”). De desvincular romantismo desse assunto. Não falo do medo moralista da expressão “libertinagem”. Sem higienismo. Liberdade engloba tudo isso aí.

Eu presumo que desses julgamentos você já saiba se proteger. É da sua natureza livre.

O problema é quando aquele homem, que se afirma seu aliado na contestação da monogamia, que está ali pra caminhar do seu lado, te impõe uma série de regras de comportamentos para que você seja alocada na casinha das libertárias. Ele vai te julgar por não querer alguma prática. Ou vai te condenar por dizer não. Te chamar de frígida talvez, pode até questionar sua autenticidade no movimento. Ele vai tentar te diminuir até que você diga sim. 

Deveria ser obrigatório, antes de adentrar em meios não monogâmicos, que o homem tivesse noções de feminismo. Que soubesse que a monogamia foi uma imposição para controlar a sexualidade da mulher com o intuito de assegurar a transmissão da propriedade aos seus. Eu acredito que amenizaria as reclamações, recorrentes, de companheiras assediadas sob essa alegação. Mulheres que tiveram seus corpos e sua integridade desrespeitada.

Mulher, se empodere! Use as armas que o feminismo lhe trouxe. Não permita que te imponham conceitos equivocados sobre liberdade, que ditem o que você deve ou não fazer, que te empurrem uma validação dispensável.

Sexualidade compulsória é violência, sabia? Das bravas. Boicote os assimilacionistas.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Cultura do estupro no espaço público: Nosso direito de ir e vir ameaçado.


"Las leyes son como las mujeres, están para violarlas".
 As leis são comos as mulheres, existem para serem violadas.

A frase, incrivelmente misógina, foi cometida há algumas semanas atrás pelo então presidente do Conselho Geral da Cidadania Espanhola no Exterior, o senhor José Manuel Castelao Bragaño. Felizmente, a repercussão negativa fez com que ele renunciasse ao cargo poucas horas após ter verbalizado tamanha imbecilidade (cargos de poder nas mãos de machistas é uma coisa que tira a tranquilidade do meu sono). Então, se ele foi afastado, qual o problema? O problema, queridxs, é que embora a sociedade rejeite de pronto uma frase que explicita o estupro, não rejeita uma série de outras frases e atitudes que acabam por tornar banal para o cidadão comum aquilo parece chocante quando colocado com tanta clareza.

Há uma relação óbvia entre a frase e a cultura do estupro. Já tocamos no assunto algumas vezes, mas não custa relembrar: quando usamos a expressão "cultura do estupro", nos referimos a como a sociedade coloca as mulheres em posição objetificante e vulnerável, através de pequenas violências e de um discurso agressor (porém velado) que acabam por fomentar o estupro. Aqui no blog falamos do assunto na época dos protestos contra a Nova Schin e contra a Prudence.

Imagem da Página Transexualismo
da Depressão, no Facebook
Dessa vez, entretanto, quero focar no espaço público, que é palco constante dessas demonstrações de desrespeito com as mulheres. Por vezes ressaltando aquilo que temos em comum (ou seja meramente por sermos mulheres), e outras vezes desrespeitando aspectos singulares de cada mulher. Por exemplo: mulheres trans são consideradas aberrações, transformam sua identidade num mero fetiche; mulheres negras são hipersexualizadas, uma lembrança do nosso passado escravagista; Funkeiras são as novas Genis; Gordas são humilhadas por estarem fora do padrão estético eurocêntrico e racista vigente (Alô, Marisa!); mulheres que se prostituem são desvinculadas de sua humanidade, tornando-se mero objeto, de forma que estão à disposição de qualquer abuso, num grau de vulnerabilidade muito grande e assim por diante. E é claro, tudo isso pode vir a desencadear um quadro de violência física também. No fim, em maior ou menor escala, o espaço público é hostil com as mulheres.

Essa hostilidade não encontra respaldo em lei escrita, pois as calçadas de toda e qualquer cidade não vêm marcadas para um gênero específico, tampouco o transporte público. A rua não tem dono, de forma que todxs possuem o direito de ir e vir. Contudo, para as mulheres esse direito está sempre ameaçado. 

Mulheres no mundo todo sofrem com o
assédio, independente da roupa que usam.
Não faltam exemplos: Há poucos dias, fiquei sabendo de um fórum dentro do Imgur em que um professor postava fotos que tirava de suas alunas menores de idade (sem a sua permissão, claro). Ele simplesmente as fotografava em espaços públicos e colocava a foto no fórum. Seguindo o tenebroso exemplo, criaram uma página no facebook em que postavam fotos de mulheres no metrô de São Paulo. ~~Daora a vida, néaum?~~ E sabe o que é pior? alguns dirão que elas já tinham se exposto no espaço público ao sair de casa vestindo roupa justa, colada, curta ou o que for. Mas elas nunca autorizaram ninguém a fotografá-las e usar sua imagem para fins punhetísticos. Simples assim, o corpo de uma pessoa é uma exclusividade dela, a roupa que ela usa não diminui esse direito. Aliás, roupa não previne o estupro em lugar nenhum do mundo. A forma como fala, anda ou se comporta, nada disso é determinante.

Imagem de documentário de
Sofia Peeters sobre o assédio nas ruas européias
São muitas as pequenas manifestações abusivas no tocante ao corpo da mulher. Outro dia, uma amiga relatou que estava dentro do táxi, no semáforo, quando um motociclista parou ao lado do veículo e ficou olhando as pernas dela. Ela fechou o vidro, indicando que estava incomodada e o sujeito continuou a observá-la. Outro exemplo é um depoimento que recebemos nos primórdios desse blog de alguém que sofreu abuso num espaço público. E o que as pessoas que estavam perto fizeram? Riram dela. 

Quadro BIZARRO do  Programa Zorra Total
Está tudo muito errado quando a maior emissora de TV aberta do Brasil coloca um quadro humorístico em que mulheres são bolinadas no metrô e se sentem agradecidas por isso. Sabe aquela piadinha super ~~politicamente incorreta~~ que afirma que mulher feia tem que agradecer se for estuprada? Pois é, continua fazendo muita gente rir, mas faz com que algumas pessoas lamentem também. É claro que nas cabeças conservadoras o lamento de alguns é menos importante que a diversão de outros. Só que o problema é tão sério que em muitos metrôs do mundo existem vagões exclusivamente femininos. A incorreção da piada não evoca nada de novo, de transgressor, apenas legitima o estupro, que é prática opressiva mais velha que o mundo. 

Giovana contando sobre
o assédio que sofreu
Mesmo com todos esses argumentos, os defensores do assédio de rua alegam que se estivessem em situação oposta, se em vez de assediar, fossem assediados, eles gostariam muito. E é aí que entra o privilégio: Mulheres são assediadas nas ruas desde muito jovens. Ao entrar na adolescência se torna comum ouvir todo tipo de cantadas. Acredite ou não, isso nos causa medo. Desde cedo passamos a temer pela nossa integridade física, pelo nosso corpo. Não precisa sequer adentrar qualquer tipo de padrão de beleza para isso, mulheres que não se enquadram nas características racistas e gordofóbicas do padrão eurocêntrico de beleza que rege a sociedade ocidental também são vítimas de assédio e de estupro. Assediar alguém na rua não é uma forma de abordar, de conhecer, é meramente uma forma de intimidar e mostrar poder. Quando reclamamos do desrespeito, entra em ação a eterna galerinha do "deixa disso" que acredita que a paz só reina no não enfrentamento, que é a forma como toda mulher deveria agir: de forma passiva. Afinal cantada de rua não é assédio, é elogio, eles dizem. Quando fugimos à passividade de considerar que assédio é um afago no ego, nos dizem para andar em outras calçadas.

Marcha em BH
Além dos espaços de transição, dos meios de transporte, há espaços que são considerados determinantes para definir o caráter de uma mulher, acredite você ou não, o ano é 2012, mas ainda tem gente achando que mulher que frequenta baile funk não se dá ao valor ou que bar que tem sinuca não é lugar de mulher. Enfim, aquela velha história de tentar determinar o que é "lugar de mulher". Terrível, mas esse pensamento ainda existe e se propaga na medida em que o direito de ir e vir de uma mulher é cerceado pelo assédio, pelas ofensas ou pelo medo. 

E assim seguimos, alimentando uma cultura que acredita que é normal um cara passar a mão na bunda de alguém na balada, puxar o cabelo da garota, tomar vantagem da bebedeira para conseguir ficar com ela, que é banal ser encoxada num ônibus ou num vagão de metrô. E nada disso é diferente de dizer que mulheres existem para serem violadas.

Se você acha que a culpa de ser assediada, ou desrespeitada de inúmeras maneiras é da mulher, saiba: Culpar mulheres pela violência sofrida é sempre a primeira defesa de quem é mantenedor da cultura do estupro. Então, se nos dizem que a culpa é nossa, que roupa devemos vestir? Que peso devemos ter? em que táxi devemos andar? Em qual estação de metrô? Em qual vagão? Em qual cidade? Qual calçada? A que horas? A verdade é que não há roupa ou comportamento que nos liberte dessa opressão sobre o nosso direito de ir e vir. Outras calçadas, no fim, não nos protegem quando o verdadeiro problema é todo um modo de viver, toda uma compreensão distorcida de nossa identidade e de nossa humanidade.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Cultura do estupro II: Nova Schin violenta mulheres "sem intenção"

Apenas dois dias se passaram desde que as pessoas se mobilizaram nas redes sociais em repúdio à propaganda da prudence, chamada "Dieta do Sexo", que banalizava o estupro e já se iniciou uma nova polêmica, dessa vez em torno de uma propaganda que vem sendo veiculada na tv há alguns meses. O nome da propaganda é "Homens invisíveis". Pelo nome já dá para tirar algumas conclusões.

Alguém já assistiu o filme "O homem sem sombra" (Hollow man), estrelado por Kevin Bacon? A Lola menciona o filme neste post aqui, e nós do Ativismo também não poderíamos deixar a referência de lado. A premissa é bastante simples: Um cientista resolve testar em si mesmo a sua descoberta, a fórmula da invisibilidade. Dentre as situações decorrentes da nova condição, houve uma especialmente sombria. O personagem costumava observar a sua vizinha em situações íntimas, e dada a nova condição, resolveu estuprá-la, pois jamais seria reconhecido. A cena nos causa horror.
Ter o poder da invisibilidade significa uma liberdade irrestrita, soltar-se de todas as amarras sociais. Não é à toa que a propaganda da Nova Schin escolheu, dentre tantos super poderes, exatamente aquele que dá ao homem o poder de fazer qualquer coisa, sem que isso seja punido, reprovado. O anonimato é a garantia da impunidade. Com isso em mente, os homens da propaganda animam-se a abusar das mulheres. Exatamente como no filme "O homem sem sombra". Enquanto lá o estupro é mais explícito, aqui ele é relativizado.
As pessoas ainda não se acostumaram com o fato de que a chave para entender o que é um estupro está em duas palavras: "não consensual". O Estupro não se resume àquele crime em que um psicopata desconhecido aborda uma mulher em um beco escuro e a penetra. Há estupro sem penetração, há estupro dentro de casa, com parentes, pais, conhecidos, amantes. Há estupro de vulnerável, que ocorre quando a parte violada não tem condições de reagir, ou por estar bêbada, doente, drogada e até mesmo por ser menor de idade. Há várias modalidades diferentes de estupro. Tirar o biquíni de uma mulher sem a permissão dela é estupro. Vamos recapitular então, recorrendo ao código penal:
Art.213 - "Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso"

Art. 217-A - "Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (quatorze) anos"


§ 1º "Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência."

Agora veja a
propaganda.


É preciso lembrarmos que a propaganda veiculada pela Nova Schin e legitimada pelo CONAR (que indeferiu as denúncias), dá margem à interpretação de que realmente há o estupro. Não o estupro em que há penetração, mas o ato de bolinar contra a vontade da vítima está explícito. A gente fica imaginando a reunião para decidir como seria a propaganda: "Ah, seria maneiríssimo os caras invadindo o vestiário feminino e elas saindo de lá apavoradas". GENTE.


Tópico criado pela Jarid (clique para visualizar) 
Uma vez que a campanha foi feita (Como assim, ninguém se tocou o quão ofensiva ela é?), aprovada pelo cliente (Como assim, você vai vincular sua marca ao crime de estupro?), veiculada no horário nobre (milhões de famílias assistindo), algumas pessoas, como nós, se ofenderam. Entramos em contato pelo Facebook da Nova Schin para pedir uma retratação e retirar a peça publicitária do ar. O que recebemos? A seguinte nota no tópico criado pela blogueira e ativista Jarid Arraes:
"Prezada Sra. Jarid Arraes,
Agradecemos o contato e esclarecemos que o Grupo Schincariol preza pelo respeito à dignidade de cada indivíduo.
Assim sendo, ressaltamos que não houve intenção de ofender qualquer pessoa no filme publicitário mencionado. Cordialmente, Grupo Schincariol".

Infelizmente, a nota em nada se retrata pelo absurdo conteúdo do vídeo, apenas afirma que a intenção não foi a de ofender. Oras, mas ofendeu. Depois dessa resposta, a atitude da empresa foi ainda mais violenta com as mulheres: desce um selinho Sandra Annenberg pra eles PFVR? Porque né, só fazendo brincadeiras pra tentar entender o grau do desrespeito a que fomos sujeitadas ontem o dia inteiro. Os administradores da página apagaram nossas mensagens sistematicamente, inclusive a mensagem da Jarid Arraes, que contava com mais de quinhentos compartilhamentos. Tolinhos. Ao tentar nos calar, inclusive bloqueando várias usuárias (do face, porque vamos combinar, ninguém em sã consciência vai se declarar ‘usuária’ duma cerveja chinfrin dessas), a Schin conseguiu aumentar mais ainda o nosso ódio. Sim, meus caros, escrevemos essas linhas com sangue nos zóio. E temos certeza que a Jarid, e todas as pessoas que compartilharam sua postagem ontem, estão, também, mais do que chateadas com essa reação opressora da cerveja. É basicamente por isso que estamos aqui, em blogagem coletiva, para dizer em alto e bom tom: vocês não vão nos calar!


O que é realmente invisível para a empresa e para tantas pessoas que defendem a propaganda, a galera do team "deixa disso", "era só brincadeirinha" e "não tem nada demais", é a situação calamitosa das mulheres. Vivemos em uma sociedade que adora chamar estuprador de monstro, de psicopata, de demônio, mas que incentiva o estupro de diversas maneiras. Se você é uma dessas pessoas, parabéns, você já sucumbiu à
cultura do estupro e já naturalizou a violência. Veja bem, não estamos dizendo que você é um estuprador, estamos dizendo que você relativiza, suaviza o abuso.

Alguns ainda dirão: "mas a propaganda é velha!" Ao que perguntamos: E o Kiko? E DAÍ? Acaso agora existe prazo de validade pra reclamar das coisas? Amigx, se o machismo fosse tão fácil assim de identificar, nós simplesmente não precisávamos estar aqui. Não ia precisar de ninguém fazendo blog pra tentar desconstruir preconceitos que cimentam sim uma cultura altamente opressora e prejudicial às mulheres. Ou você realmente acha que nos falta o que fazer? Que nossas contas são pagas milagrosamente? Que o tempo que gastamos aqui tentando fazer desse mundo uma merda um pouco melhor pra se viver não poderia muito bem estar sendo gasto em algo mais produtivo mas, OLHA SÓ, pessoas preconceituosas como você estão a todo tempo passando piadinhas de mal gosto e disseminando uma cultura asquerosa que, além de colocar a culpa do estupro na mulher, ainda incita a violência por meio das tais piadinhas?

Por fim, cerveja ruim, propaganda ruim. Sim, a cerveja é péssima. Como dissemos acima, ninguém se declara “fã” duma cerveja marromeno dessas. Mas, peraí. Não sabemos quem fabrica, mas dinheiro ali tá rolando, viu. Galera tá comprando, nem que seja pra guardar no freezer pra servir por último nas festas. Sem contar que estão com grana pra veicular a propaganda até em horário nobre na tevê. E a propaganda é ruim? Sim, é péssima. Mas isso não exime a Nova Schin. Se fôssemos protestar contra coisas de pretensa qualidade apenas, sobraria muito pouco a ser falado, não? Então, amigx, na boa, bora dar um tempo no elitismo e encarar o problema de frente? Propaganda mequetrefe nenhuma nos define, mas se nos desrespeita nós iremos sim levantar a voz e reclamar!

* Texto colaborativo de Flávia Simas e Gizelli Sousa.

Mais textos sobre o assunto:

Biacentrismo - Cerveja é bebida masculina, certo? - Por Maria Beatriz

Escreva, Lola, Escreva - A repercussão do protesto contra Nova Schin - Por Lola Aronovich
Popnoid - Nova Schin incentiva o estupro e você pode fazer a diferença - Por Mariana
Mulher Dialética - Desconstruindo a cultura do estupro - Por Jarid Arraes
SubJudice- E se você fosse invisível, o que você faria? - Por Fátima
Escreva, Lola, Escreva - Situações Absurdas - Por Lola Aronovich
Blogueiras Feministas - A Nova Schin quer nos calar, mas vamos fazer barulho! - Jarid Arraes

1+1-1 - Qual o seu preço - Por Geísa Mueller
Contravento - Machismo: Preservativo, cerveja e Alexandre Frota - Por Charô
Partido das Causas Perdidas - Cultura do estupro e publicidade - Por Lou Sevla
Tumblr Uma Feminista Cansada - Resumindo propagandas 
Tumblr Machismo Chato de Cada Dia - Nova Schin e seus desrespeitosos "Homens Invisíveis" 
Tumblr Machismo Chato de Cada Dia - Nova Schin, Leo Burnett e Conar
Kaleydoscopeeyes - A Nova Schin, as propagandas, o machismo e os publicitários moderninhos - Por Bete


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Imaginação e não Apelação, chega de propagandas machistas - Grupo criado para debater (e combater) a publicidade machista.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Manual da Abusada – 1a Edição

Depois das revelações da muito conhecida Xuxa, sobre ter sido abusada até os 13 anos de idade, muita polêmica surgiu. A clássica culpabilização da vítima foi, claro, um dos grandes focos. Mas houve também outros argumentos mais “alternativos”, como o de que ela teria sido pedófila também, por conta do filme que fez com um menino de 13 anos (sendo que na época ela tinha 16), ou aparecendo com roupas curtas nos programas infantis (ah, essas vadias que ficam por aí exibindo seus corpos). Mas principalmente houve quem questionasse a legitimidade do discurso dela, afinal, foi um sensacionalismo tremendo e ela podia estar querendo ibope (porque mulher sempre quer fama, né? Já repararam como ninguém fala que um homem dando uma “declaração x” é por ibope?) e se foi falar, por que só agora? Por que tantos anos depois? Ah, nesse mato tem cachorro!

Diante das milhares de discussões das quais participamos nos últimos dias, ficou clara a existência de um “manual do abusado” cujas regras todo mundo determina e as utiliza como forma de julgar quem se declara vítima de uma determinada situação. São basicamente normas que você, amiga que já teve seu corpo violado, precisa saber e agir de acordo, caso o contrário o abuso que você sofreu não tem valor, nem importância alguma, ok? Se você não seguir ao pé da letra, imediatamente você deixa de ser vítima e passa a ser a culpada da história – afinal, você está infringindo as leis do Manual do Abusado – portanto, não venha choramingar.

Como percebemos que ainda não há uma versão escrita desse manual, resolvemos publicá-lo aqui para vocês, dessa forma tudo fica bem explicadinho e você não corre o risco de sair cometendo gafe por aí, né? Aqui vai então o Manual da Abusada, contendo as principais regras expostas pelos nossos queridos questionadores da legitimidade do discurso de uma mulher estuprada:
  • Se você foi abusada, é proibido seguir a sua vida e ser feliz em qualquer instância.
  • É proibido também ser bem sucedida, especialmente de uma forma que te traga visibilidade midiática.
  • É estritamente proibido utilizar shorts e saias acima do joelho, blusas decotadas, justas, ou qualquer coisa que possa incitar tesão em um homem.
  • É proibido apresentar-se nua.
  • É absolutamente proibido usar essa nudez de forma lucrativa, tal como posar para uma revista masculina.
  • No mesmo tópico das duas últimas regras, é proibido gravar filmes com cenas de nudez.
  • Confira na distribuidora do Manual do Abuso mais próxima a você qual o prazo de validade para a sua denúncia, caso o contrário ele pode expirar e você acabar falando sobre o assunto muito tempo depois do que as outras pessoas acham apropriado.
  • Ao tocar no tema, lembre-se de estar em um ambiente privado e com a atenção do mínimo de pessoas possível.
  • Nunca, jamais, sob hipótese alguma faça sua denúncia em um meio de comunicação midiático, muito menos em horário nobre.
  • Ao falar sobre o abuso, é proibido chorar.
  • E, por fim, é proibido ser envolvida em outros contextos de abuso ao longo da sua vida.
    Fique atenta ao Manual da Abusada, cara amiga que teve seu direito a decidir sobre próprio corpo brutalmente desrespeitado. O não cumprimento de suas regras leva a gravíssimas demonstrações de intolerância dos preconceituosos de plantão.


Ps. Para os que não conseguiram interpretar ou não estão familiarizados com a linha ideológica do blog, deixamos claro que o texto é inteiramente irônico. Toda o nosso apoio e solidariedade à Xuxa e às milhares de anônimas abusadas, silenciadas diariamente pelo grito do desmerecimento alheio.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Relato de uma amiga a respeito de uma violência diária à coletividade

 Relato verídico de uma amiga e de uma cidadã brasileira, um relato que podia ser assinado por várias mulheres.

Escrevo para contar o que aconteceu hoje. Pensei que aconteceu tantas vezes, mas hoje foi mais forte e me indignei mais. Pensei que isso acontece todos os dias e que ao invés de educação, nos dão dois vagões no metrô/trem por cerca de 5 horas por dia. Contra a violação diária do direito aos nossos corpos ganhamos dois vagões nos horários de pico. Não tem educação. Não tem nada. Tem cartaz no metrô falando pr'a gente não colocar o pé na parede, tem cartaz no metrô falando pra não jogar lixo no chão, mas não tem cartaz no metrô falando pra não mexer na genitália das moças.

Hoje peguei o metrô para ir a faculdade. Peguei como pego todo dia. Quem é do Rio sabe o que é pegar a linha 2 (Pavuna) às 19h. Na verdade, quem é do Brasil sabe o que é pegar transporte público àas 19h.

Hoje um cara achou que seria bacana enfiar a mão na minha genitália. Não aquela roçada que vez ou outra a gente leva. Foi a mão. Quase embaixo da minha saia. E eu gritei. E esperneei. E sabe o que aconteceu? Nada. Ele saiu sorrindo numa estação depois da que eu comecei a gritar e eu fiquei lá. Talvez devesse ter descido e chamado a segurança.

Eu segui minha viagem (não sei se deveria ter descido, se deveria ter descido a mão na cara dele...) e ouvi, até descer no Maracanã que "Aposto que é baranga que está reclamando". E ver ou as pessoas rindo do que aconteceu ou completamente indiferentes. Nenhum olhar de indignação, nenhum olhar de compreensão com o que aconteceu.

E é isso aí. Ser mulher é isso aí. A qualquer momento alguém que você não conhece, não deseja, em uma situação que você não conhece e não deseja pode enfiar a mão na sua genitália e é tudo normal. Pq, né, foi só uma mão, não é como se o cara tivesse me violado ou algo assim, né?

Não. Ele me violou. Violou meu direito de dizer "não". Violou meu direito de escolher quem toca a minha genitália. Quem toca EM MIM.

E ele sorriu. Os companheiros homens riram, as outras mulheres, talvez tão acostumadas e preocupadas em não terem tocadas as suas próprias genitálias, sequer fazem coro com o meu grito de indignação.

E é isso.

Ainda hoje a mulher e seu corpo são tratados como propriedade pública. No Rio de Janeiro, neste centro urbano, nesse turbilhão de ideias, eu sou tratada como objeto.

Escrevi essa nota de maneira anônima pq tenho medo da reação das pessoas. Na internet as coisas tomam proporções gigantescas e isso vira faroeste, terra sem lei onde você é conhecido, ameaçado, ridicularizado. Sou feminista, universitária, independente, fui a vítima e ainda assim tenho medo.

Mas denuncio. Denuncio a violência que eu e todas as mulheres sofremos diariamente quando nosso único crime é estar lá, disponível com um corpo feminino.

Shame on us.