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terça-feira, 23 de outubro de 2012

Cultura do estupro no espaço público: Nosso direito de ir e vir ameaçado.


"Las leyes son como las mujeres, están para violarlas".
 As leis são comos as mulheres, existem para serem violadas.

A frase, incrivelmente misógina, foi cometida há algumas semanas atrás pelo então presidente do Conselho Geral da Cidadania Espanhola no Exterior, o senhor José Manuel Castelao Bragaño. Felizmente, a repercussão negativa fez com que ele renunciasse ao cargo poucas horas após ter verbalizado tamanha imbecilidade (cargos de poder nas mãos de machistas é uma coisa que tira a tranquilidade do meu sono). Então, se ele foi afastado, qual o problema? O problema, queridxs, é que embora a sociedade rejeite de pronto uma frase que explicita o estupro, não rejeita uma série de outras frases e atitudes que acabam por tornar banal para o cidadão comum aquilo parece chocante quando colocado com tanta clareza.

Há uma relação óbvia entre a frase e a cultura do estupro. Já tocamos no assunto algumas vezes, mas não custa relembrar: quando usamos a expressão "cultura do estupro", nos referimos a como a sociedade coloca as mulheres em posição objetificante e vulnerável, através de pequenas violências e de um discurso agressor (porém velado) que acabam por fomentar o estupro. Aqui no blog falamos do assunto na época dos protestos contra a Nova Schin e contra a Prudence.

Imagem da Página Transexualismo
da Depressão, no Facebook
Dessa vez, entretanto, quero focar no espaço público, que é palco constante dessas demonstrações de desrespeito com as mulheres. Por vezes ressaltando aquilo que temos em comum (ou seja meramente por sermos mulheres), e outras vezes desrespeitando aspectos singulares de cada mulher. Por exemplo: mulheres trans são consideradas aberrações, transformam sua identidade num mero fetiche; mulheres negras são hipersexualizadas, uma lembrança do nosso passado escravagista; Funkeiras são as novas Genis; Gordas são humilhadas por estarem fora do padrão estético eurocêntrico e racista vigente (Alô, Marisa!); mulheres que se prostituem são desvinculadas de sua humanidade, tornando-se mero objeto, de forma que estão à disposição de qualquer abuso, num grau de vulnerabilidade muito grande e assim por diante. E é claro, tudo isso pode vir a desencadear um quadro de violência física também. No fim, em maior ou menor escala, o espaço público é hostil com as mulheres.

Essa hostilidade não encontra respaldo em lei escrita, pois as calçadas de toda e qualquer cidade não vêm marcadas para um gênero específico, tampouco o transporte público. A rua não tem dono, de forma que todxs possuem o direito de ir e vir. Contudo, para as mulheres esse direito está sempre ameaçado. 

Mulheres no mundo todo sofrem com o
assédio, independente da roupa que usam.
Não faltam exemplos: Há poucos dias, fiquei sabendo de um fórum dentro do Imgur em que um professor postava fotos que tirava de suas alunas menores de idade (sem a sua permissão, claro). Ele simplesmente as fotografava em espaços públicos e colocava a foto no fórum. Seguindo o tenebroso exemplo, criaram uma página no facebook em que postavam fotos de mulheres no metrô de São Paulo. ~~Daora a vida, néaum?~~ E sabe o que é pior? alguns dirão que elas já tinham se exposto no espaço público ao sair de casa vestindo roupa justa, colada, curta ou o que for. Mas elas nunca autorizaram ninguém a fotografá-las e usar sua imagem para fins punhetísticos. Simples assim, o corpo de uma pessoa é uma exclusividade dela, a roupa que ela usa não diminui esse direito. Aliás, roupa não previne o estupro em lugar nenhum do mundo. A forma como fala, anda ou se comporta, nada disso é determinante.

Imagem de documentário de
Sofia Peeters sobre o assédio nas ruas européias
São muitas as pequenas manifestações abusivas no tocante ao corpo da mulher. Outro dia, uma amiga relatou que estava dentro do táxi, no semáforo, quando um motociclista parou ao lado do veículo e ficou olhando as pernas dela. Ela fechou o vidro, indicando que estava incomodada e o sujeito continuou a observá-la. Outro exemplo é um depoimento que recebemos nos primórdios desse blog de alguém que sofreu abuso num espaço público. E o que as pessoas que estavam perto fizeram? Riram dela. 

Quadro BIZARRO do  Programa Zorra Total
Está tudo muito errado quando a maior emissora de TV aberta do Brasil coloca um quadro humorístico em que mulheres são bolinadas no metrô e se sentem agradecidas por isso. Sabe aquela piadinha super ~~politicamente incorreta~~ que afirma que mulher feia tem que agradecer se for estuprada? Pois é, continua fazendo muita gente rir, mas faz com que algumas pessoas lamentem também. É claro que nas cabeças conservadoras o lamento de alguns é menos importante que a diversão de outros. Só que o problema é tão sério que em muitos metrôs do mundo existem vagões exclusivamente femininos. A incorreção da piada não evoca nada de novo, de transgressor, apenas legitima o estupro, que é prática opressiva mais velha que o mundo. 

Giovana contando sobre
o assédio que sofreu
Mesmo com todos esses argumentos, os defensores do assédio de rua alegam que se estivessem em situação oposta, se em vez de assediar, fossem assediados, eles gostariam muito. E é aí que entra o privilégio: Mulheres são assediadas nas ruas desde muito jovens. Ao entrar na adolescência se torna comum ouvir todo tipo de cantadas. Acredite ou não, isso nos causa medo. Desde cedo passamos a temer pela nossa integridade física, pelo nosso corpo. Não precisa sequer adentrar qualquer tipo de padrão de beleza para isso, mulheres que não se enquadram nas características racistas e gordofóbicas do padrão eurocêntrico de beleza que rege a sociedade ocidental também são vítimas de assédio e de estupro. Assediar alguém na rua não é uma forma de abordar, de conhecer, é meramente uma forma de intimidar e mostrar poder. Quando reclamamos do desrespeito, entra em ação a eterna galerinha do "deixa disso" que acredita que a paz só reina no não enfrentamento, que é a forma como toda mulher deveria agir: de forma passiva. Afinal cantada de rua não é assédio, é elogio, eles dizem. Quando fugimos à passividade de considerar que assédio é um afago no ego, nos dizem para andar em outras calçadas.

Marcha em BH
Além dos espaços de transição, dos meios de transporte, há espaços que são considerados determinantes para definir o caráter de uma mulher, acredite você ou não, o ano é 2012, mas ainda tem gente achando que mulher que frequenta baile funk não se dá ao valor ou que bar que tem sinuca não é lugar de mulher. Enfim, aquela velha história de tentar determinar o que é "lugar de mulher". Terrível, mas esse pensamento ainda existe e se propaga na medida em que o direito de ir e vir de uma mulher é cerceado pelo assédio, pelas ofensas ou pelo medo. 

E assim seguimos, alimentando uma cultura que acredita que é normal um cara passar a mão na bunda de alguém na balada, puxar o cabelo da garota, tomar vantagem da bebedeira para conseguir ficar com ela, que é banal ser encoxada num ônibus ou num vagão de metrô. E nada disso é diferente de dizer que mulheres existem para serem violadas.

Se você acha que a culpa de ser assediada, ou desrespeitada de inúmeras maneiras é da mulher, saiba: Culpar mulheres pela violência sofrida é sempre a primeira defesa de quem é mantenedor da cultura do estupro. Então, se nos dizem que a culpa é nossa, que roupa devemos vestir? Que peso devemos ter? em que táxi devemos andar? Em qual estação de metrô? Em qual vagão? Em qual cidade? Qual calçada? A que horas? A verdade é que não há roupa ou comportamento que nos liberte dessa opressão sobre o nosso direito de ir e vir. Outras calçadas, no fim, não nos protegem quando o verdadeiro problema é todo um modo de viver, toda uma compreensão distorcida de nossa identidade e de nossa humanidade.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Empresas: Menos ego e mais responsabilidade!

Foto por Raphael Araújo

Esse mês de agosto foi marcado pela crítica à publicidade machista em vários coletivos e blogs feministas e acabou por gerar a "Marcha nacional contra a mídia machista", que aconteceu no último sábado, dia 25 de agosto. O estopim dos protestos foi a imagem publicada na página da prudence, marca de preservativos, que fazia apologia ao estupro. Assim, como quem não quer nada, estava escrito lá: "tirar a roupa sem o consentimento dela". Amigos, entendam, sem consentimento é estupro. Seguido à isso, houve o caso da Nova Schin, que nos jogou na cara uma propaganda em que homens se tornam invisíveis e resolvem bolinar mulheres, o que para nossa legislação, configura estupro. 40 segundos de puro horror.

Por que estou novamente falando no assunto? Porque na segunda-feira passada, a DKT que é detentora dos preservativos Prudence, Sutra e Prudence l'amour lançou uma página no Facebook com a intenção de minimizar os danos que a propaganda equivocada causou na sua imagem. 

Vamos ser pragmáticos, não podemos esperar das empresas que elas sejam caridosas e altruístas, o que podemos esperar e exigir é responsabilidade, como forma de agregar valor à marca. Capitalismo é isso aí, onde há lucro o altruísmo praticamente inexiste. Mas isso não tira o valor das iniciativas das empresas para a construção de um mundo melhor. Então, essa é mais uma conquista que conseguimos através do ativismo nas redes sociais, pressionamos uma empresa a mudar sua postura e se responsabilizar pelo seu erro. O resultado está aqui. 

Achei que a proposta da DKT foi tímida, no sentido de sua efetividade, pois levar propostas à secretaria de políticas públicas para as mulheres não é algo difícil de realizar e já vem sendo feito. Mas o espaço que a DKT criou está aberto à sugestões e quem tiver uma idéia de como ampliar a ação em prol do fim da violência contra a mulher pode se manifestar. Entretanto, ao mesmo tempo que é tímida quanto à efetividade é ousada em atrelar a marca à um tema difícil, doloroso, invisibilizado. Acho que a DKT e a prudence ganham pontos com o público feminino, que também é consumidor, que usa camisinha, que faz sexo.


Foto por ADphotos
Gostaria que tudo isso servisse de exemplo para empresas como a Nova Schin, que tripudiam em cima das consumidoras, ao não admitir seus erros conosco, ao nos bloquear quando deveria nos ouvir. Vale lembrar que a propaganda "Homens invisíveis" saiu do ar, para evitar maiores danos, claro. Mas o estrago está feito e parece irremediável. Não dá para confiar numa empresa que reage às críticas da maneira como a Nova Schin reagiu. Exigimos menos ego e mais responsabilidade.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Cultura do estupro, da propaganda da Prudence às piadinhas de estupro.


Um exemplo de como a cultura desvaloriza a mulher que faz sexo.
Via Slut Shaming Detected.
Numa cultura onde homens são valorizados por fazer muito sexo e com várias mulheres  e mulheres são desvalorizadas se fazem sexo, não é surpreendente que surjam muitas imagens no Facebook "ensinando" homens a "conseguir sexo". Nessas imagens, a vontade da mulher é completamente ignorada; afinal, na nossa sociedade, mulher não tem desejo sexual - ela faz sexo ou deixa de fazer por "interesses". A maneira mais mostrada de "levar uma mulher para a cama" é o pagamento de jantares e presentes, e tudo isso do mais caro e do melhor. O consentimento feminino é tratado como comprável, pois só em troca de algo valeria a pena para a mulher fazer sexo - já que fazer sexo é "se desvalorizar". Nesse ponto, muitos homens se revoltam, porque ao receber um "não" depois de todo "esse trabalho e dinheiro gasto", eles se sentem enganados. Se o jantar foi pago, pronto: na cabeça de tais homens, a mulher é obrigada a consentir.

Outro ponto, até mais assustador, é o incentivo ao uso de substâncias como o álcool (e, às vezes, outras drogas) para "dopar" a mulher e assim "conseguir sexo". Nesse caso, o consentimento da mulher é completamente ignorado e nem se faz questão de "conquistá-lo" - afinal, se ela bebe em companhia de um homem, "ela tá pedindo", ela quer.

Na cultura do estupro, o que a mulher pensa e deseja não importa: o que importa é o desejo masculino. As manifestações que reiteram essa cultura são várias e vão de "piadinhas", cenas de novelas e filmes até a publicidade. Recentemente a empresa de preservativos Prudence veiculou em sua página no Facebook uma imagem que banaliza a violência sexual. O texto da imagem rola na internet há anos, mas nunca antes tinha sido veiculado como propaganda de uma empresa. Na imagem relaciona-se o termo "sem o consentimento dela" a tirar a roupa, e também há o seguinte texto: "tirando o sutiã com uma mão e apanhando dela". Os dois itens são os que mais gastam calorias, ou seja, coloca-se a falta de consentimento feminino como algo positivo pra tal da "dieta do sexo".
Campanha do Bule Voador contra a propaganda.

O pensamento que mulheres gostam de fazer "charminho" para aceitar investidas masculinas é nocivo porque generaliza um comportamento, muitas vezes relativiza o consentimento feminino, supõe que todo "não" ou "talvez" dito por uma mulher é um sinal de que é só insistir mais que ela vai ceder e coloca toda a manifestação feminina negativa como parte de uma brincadeira. É necessário destacar que o consentimento é necessário mesmo para jogos eróticos - se não houver consentimento não há sexo: há violação do corpo. Há estupro.

O pensamento reiterado na propaganda da Prudence banaliza a violência contra a mulher, porque tira dela a condição de sujeito, de ser dona de suas próprias vontades e retira sua voz, porque a coloca  numa situação em que seu não ou sim é ignorado completamente. Ao falar "sem o consentimento dela", a violência sexual fica mais naturalizada ainda. Como se haver ou não consentimento não fosse algo que importasse. E essa naturalização da violência contribui para que o estupro seja visto como uma modalidade de sexo e não como o crime cruel e violento que é. Quando a propaganda fala sobre "tirar o sutiã apanhando dela", além de mostrar que realmente pouco importa se a mulher quer ou não fazer sexo, coloca os jogos eróticos BDSM como se eles não fossem algo de pleno acordo, baseado em confiança e em consentimento.

A Prudence, depois de muita pressão, postou uma nota se desculpando pela veiculação da propaganda e deixando claro para seus clientes que tirar a roupa da parceira sem seu consentimento é crime. Triste é ver que várias pessoas vêem essa propaganda como uma piada inocente e acham que as denúncias feitas são baseadas num "moralismo exagerado".

E um adendo: é necessário que as campanhas publicitárias de artigos sexuais, incluindo preservativos, façam propagandas levando em conta que mulheres também são ativas sexualmente. E que são donas de seus corpos e que são possíveis consumidoras de seus produtos. Colocá-las apenas como um prêmio para os homens héteros é nocivo porque contribui para a idéia de que mulheres não gostam de sexo e são apenas troféus. Homens não são predadores e mulheres não são suas presas. E é claro: seria interessante que fossem campanhas que não supõem que apenas casais heterossexuais fazem sexo.

O conceito de propaganda afirma que ela deve persuadir opiniões, sentimentos e atitudes do público-alvo. Se as campanhas publicitárias atuais levam em conta que apenas um grupo compra camisinhas e ignora outro: ela reitera a doença social do machismo. E também da homofobia e lesbofobia.

Demais textos em repúdio ao caso:
"Prudence e a fetichização do estupro", Blogueiras Feministas, Luka.
"Guestpost: Propaganda acima do bem e do mal", Escreva Lola Escreva, Vivian.
"Cultura de estupro? Não, imagine", Escreva Lola Escreva, Lola. 
"A propaganda da Prudence e a heteronormatividade", Minoria é a mãe, Kamila.
"O Estupro da Prudence e o que nós aprendemos com ele", Não precisa gritar, Lucy
"Desconstruindo a cultura do estupro", Mulher Dialética, Jarid. 
"A violência é fácil de se entender", Feminerds, Julia.
"dear Prudence", Meu palanque, Fran Carneiro.
"Nota de repúdio da Marcha Mundial das Mulheres à publicidade sexista da Preservativos Prudence", Marcha Mundial das Mulheres.
"Lira Alli: Camisinha Prudence faz apologia ao estupro", Viomundo.
"A absurda propaganda da Prudence", Machismo chato de cada dia. 
Notícia sobre o caso:
"Conar deve abrir, até amanhã, processo contra marca de preservativos Prudence"
"Marca de preservativos retira publicidade da internet após críticas"
"Fabricante de camisinha tira anúncio polêmico do ar"
"Propaganda de camisinha que incentiva violência contra mulher causa polêmica no Facebook" 
Outros textos:
"A graça de um estupro", Feminerds, Julia. 
"E onde está o meu consentimento?", Ativismo de Sofá, Thaís.