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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Mulher: sujeita de si e de sua sexualidade

Indiretas feministas 


Em uma sociedade que a sexualidade feminina é colocada sempre como acessória da masculina, em mais uma afirmação da heteronormatividade vigente e também do machismo, é de se esperar que mulheres que amam/desejam/se sentem atraídas por mulheres sejam vistas como aberrações.

O fato dessas mulheres não se sentirem atraídas por homens ou apenas por homens, as coloca como indesejáveis dentro do patriarcado. A sexualidade feminina ser colocada como algo que só existe para agradar homens se desdobra em dois fenômenos muito conhecidos pelas bissexuais e lésbicas que é a transformação da sexualidade delas num fetiche para homens héteros e a negação da sexualidade delas como existentes. Como, dentro do patriarcado, a mulher não é vista como sujeita de si e nem de sua sexualidade, ao fetichizar as relações entre mulheres, coloca-se o desejo que existe entre elas como algo inexistente, como se elas estivessem relacionando entre si apenas para agradar a sexualidade masculina. Numa mesma tacada invisibiliza-se lésbicas e as bissexuais e coloca como inexistente o desejo entre mulheres ao reduzir a sexualidade delas ao fetiche masculino.

Marcha das Vadias de Curitiba
"Sou uma mulher bissexual e só passei a reconhecer minha sexualidade dessa forma com o feminismo, porque deixei de encarar o "gostar de mulher" como algo anormal e perceber o meu desejo como parte de quem eu sou. Há algum tempo atrás, estava entre algumas amigas e comentei sobre minha sexualidade e elas a desqualificaram. Foi dito, entre várias coisas absurdas, que eu não era bissexual porque eu namoro um homem e que minhas experiências com mulheres eram apenas uma fase. E não foi só isso: começaram a me interrogar sobre quantas mulheres eu já tinha ficado e quem eram elas, como se houvesse uma quantidade certa de mulheres pra eu poder me reconhecer como bissexual, porque elas só sabiam de uma das minhas vivências. Não tenho palavras pra definir o quanto me senti mal, porque além de duvidarem da minha voz e autonomia pra afirmar "sou bissexual", o interrogatório que fizeram foi num tom tão inquisidor, num tom de que duvidavam das minhas experiências e por isso queriam saber nomes. Isso me revoltou não só como mulher bissexual, mas também como "amiga". Percebi que a bifobia é presente até mesmo em grupos de pessoas que se consideram progressistas, porque o tempo todo a minha bissexualidade foi ligada ao fato de eu estar solteira, como se fosse uma fase de carência e rebeldia. Foi colocado até que provavelmente eu ficava com mulheres pra "chamar atenção". O que me surpreende é quando beijei uma mulher pela primeira vez, contei para minha mãe que eu era bissexual e ela aceitou tranquilamente e a mesma afirmação num grupo de amigas distantes nos levou para uma polêmica desrespeitosa. Vejo que a minha afirmação de que eu também gostava de mulheres incomodou tanto justamente pelo fato de atualmente eu namorar um homem. Parecia impossível para essas pessoas que mesmo num relacionamento hétero e monogâmico eu continuasse a afirmar que eu também gostava de mulher. Percebi que por mais que todas ali soubessem das minhas experiências com mulheres, isso não importava, porque elas consideravam o relacionamento com um homem como uma espécie de cura, uma prova de que "a fase passou"." - Patrícia*, nome fictício.
Via Feminista Cansada

O relato acima mostra um dos aspectos da bifobia que é a tentativa frequente de afirmar que a bissexualidade é só uma fase. No caso das mulheres bissexuais, isso se desdobra em falas como "você se relacionava com mulheres para chamar atenção", no caso, a ideia presente nessa frase é de que aquelas relações só aconteciam com finalidade de atrair a atenção masculina, justamente por causa da fetichização da relações entre mulheres.

"Eu sempre fui reservada. Associei por anos a vida afetiva e sexual ao privado, não gosto de me expor, não gosto de chamar atenção. Simplesmente é meu modo de conduzir minha vida. Então, essa ausência de companhia me alocou sempre em categorias. Ou eu era a amiga feia encalhada, ou a garota cubo de gelo, ou a estudiosa sem tempo, ou a promíscua velada, ou a sapatão, ou a má influência para as amigas comprometidas. Tantos rótulos. O que eu demorei a notar é que o pior dos rótulos era meu. Eu tinha medo de demonstrar publicamente qualquer modo de afeto por preconceito contra quem eu sou. E eu sou bisexual. Minha introversão tinha a função de blindar meus sentimentos. Não queria ser apontada como a indecisa, ou aquela que tem medo de enfrentar a sua sexualidade e, por segurança permanece em cima do muro. Sim, eu gosto de meninas. Sim, eu gosto de meninos. E não vejo o motivo pelo qual essa minha flexibilidade de gostar de pessoas incomodar outras pessoas. Num domingo desses, enquanto eu cozinhava com minha mãe, ela fez um comentário sobre o posicionamento de um primo meu. Ele deixou de usar a expressão "amigo" para convidar familiares para o casamento com seu "companheiro". No comentário ela falava em coragem. Não como algo valente, como orgulho, foi com o toque de que finalmente ele havia saído do armário.  Foi com esse tom que eu senti que não poderia me manter silente. E falei que eu gosto de meninas. Também. Bem assim, que eu somo afetos, que eu não excluo gêneros. A reação dela foi de choque seguido de imediato questionamento "você pratica isso?". A cara de nojo que ela fez me reduziu a uma afrontadora. Que eu poderia ser quem eu sou, escondido, sem que ela saiba de qualquer detalhe que lhe cause ojeriza. Desde então não falamos sobre, mas a cada saída minha, quando eu durmo fora, ela procura reforçar que não confia em mim, nas pessoas com as quais eu me relaciono e meus amigos. Ela reverteu isso tudo para um ataque pessoal. A filha rebelde que não nasceu para dar a ela os netos desejados. A filha dela que não nasceu para casar no altar vestida de branco. A filha dela que a envergonharia caso aparecesse com uma outra moça.Parece que é impossível para ela aceitar que a filha que a ama, e que espera pelo amor de volta, possa também amar outras mulheres. Que essas duas formas de amor não podem coexistir em mim." - Bárbara*, nome fictício. 
Mais um relato e mais uma faceta de como age a discriminação. O caso acima relatado expõe como qualquer orientação sexual diversa da hétero é vista em nossa sociedade, como uma mancha na honra da família, uma vergonha. É comum ouvir pessoas falando que até aceitam pessoas não héteros, desde que elas vivam sua sexualidade só entre quatro paredes e afins. A frase tem a intenção de passar uma ideia de aceitação do outro, mas na verdade só passa a mensagem de que a sexualidade não hétero deve ser escondida, pode até existir, desde que não seja exposta, desde que os envolvidos não andem de mãos dadas na rua, beijem em público, se definam como companheirxs.

"São Paulo, Praça Roosevelt, 21 de junho de 2013. Estava com um grupo de pessoas próximas que protestavam contra o projeto de lei que propunha a autorização da Cura Gay por psicólogos. Vi a alegria das pessoas se esvaziar em minutos. Nossos celulares alertavam de um perigo: supostamente um grupo de neo nazistas estava se dirigindo ao ato para causar confusão. A comoção, ao menos no grupo que eu compunha, foi geral. Eu vi amiga chorando. Eu vi pessoas criando estratégias para não sofrer qualquer tipo de violência física. Conversas e gargalhadas, que estavam prometidas para o pós ato, foram trocadas por um esquema de abandonar o local em grandes blocos. Tentando não transparecer nessa atitude nossos medos e nossa orientação sexual.Um ato que era para celebrar nossa diversidade, demonstrar o absurdo que é a tentativa de cura para pessoas que só sofrem pelo preconceito alheio. Um ato derrotado pelo medo. Até quando teremos que ocultar nossa existência em prol do preconceito alheio? Não quero mais sentir medo." - outro relato de Bárbara*, nome fictício. 
O medo também ronda a realidade das mulheres que se relacionam com mulheres. Ele existe em casa, na hora de dizer para a família sua sexualidade, no medo dos pais descobrirem e ser expulsa de casa. Existe na rua, na hora de voltar para casa, na hora de sair com a companheira. Existe dentro de estabelecimentos, quando todo mundo ao seu redor pode se beijar, dar as mãos e se você o faz recebe olhares tortos de muitos e às vezes até "convites" para se retirar do lugar. Existe quando dizem "você precisa de um homem pra te consertar", como se a orientação sexual que difere da hétero fosse algo a ser consertado e curado, e ainda usando uma frase que é um dos pensamentos base do estupro corretivo.



O medo existe, mas a luta continua e é necessário dar a ela visibilidade para fortalecê-la. Cada relato é uma forma de expor as nossas vivências, denunciar as discriminações sofridas e argumentar contra a lesbofobia, bifobia, homofobia e transfobia. Relatos são uma forma de quebrar a invisibilidade que cerca as relações entre mulheres, é dizer que não concorda com Felicianos e Malafaias da vida. 

Esse texto faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo True Love.


terça-feira, 16 de julho de 2013

Isso não é "dote", "isso" sou eu.


Anita Sarkeesian é uma feminista famosa na internet por causa de seus vídeos que apontam a misoginia dos games. E nessa imagem, que inspirou esse texto, ela é resumida a um troféu e seu interesse por games deixou de ser algo dela e se tornou algo para os homens. E mais uma vez a gente se depara com mulheres que gostam de futebol, de games, de filmes, de rock ou qualquer coisa que é definido como um "gosto masculino" sendo vistas como prêmios, como raras e seus gostos se tornando um "dote".

A mulher que demonstra gostar de determinados assuntos considerados masculinos vive sendo acusada de "attention whore" e outros termos babacas, afinal, numa sociedade tão presa aos padrões de gênero e tão misógina, se você é mulher e gosta de algo fora do que é dito como feminino, você só pode estar fingindo, querendo atrair atenção masculina.

É tão problemático que a personalidade da mulher, seu comportamento e suas preferências sejam sempre vistas como parte de uma tentativa desesperada de impressionar homens. Isso é só mais um exemplo de como as mulheres são resumidas a um mero acessório masculino; um objeto. Afinal, se você é humano, você tem sua individualidade, sua personalidade, seus gostos e sentimentos, e quando uma pessoa é considerada um troféu e seus gostos um dote, claramente há uma desumanização. 

A valorização da mulher é claramente ligada a função que ela cumpre na vida do homem, a existência dela só é válida se estiver vinculada a vida dele, de forma que fora de um relacionamento, a mulher que gosta do mesmo do que ele sequer existe. Ela só pode ser um mito, uma poser.

Ser mulher e ter um hobbie, mesmo que dentro dos padrões de gênero, choca simplesmente porque demonstra que não somos incompletas. Se somos resumidas a acessórios e tudo que fazemos é visto como uma forma de despertar desejo masculino, quando a gente mostra ao mundo que somos indivíduos e temos personalidade própria, a primeira reação é a de choque e num sistema que quer manter as mulheres e sua individualidade invisibilizados, a melhor forma de responder a isso, é pegar aquele hobbie e colocá-lo como uma forma de chamar a atenção.

E mais uma vez as lésbicas e também as mulheres bissexuais são invisibilizadas, uma mulher que gosta de mulher nega toda essa teoria de mulheres são acessórios, mostra que somos donas de nossa sexualidade e não só dela, mostra que somos indivíduos, completos e que não precisam de homens para existir. E aqui, a heteronorma chega e diz que essas mulheres são anormais, diz que elas não existem e assim continua o apagamento feminino. 

A busca pela mulher "diferente" e "sem frescuras" é motivada principalmente pela misoginia da sociedade, afinal, o desvio ao padrão de gênero feminino é o que torna aquela mulher objeto de desejo de muitos homens. É perceptível o quanto tudo que é considerado feminino é desvalorizado, mas essa misoginia é mais ampla do que aparenta ser: porque ao mesmo tempo que a mulher diferente é desejada, ela também é punida, porque ela vira um troféu, um mito, um dote, ela é resumida a um acessório masculino e caso ela não tenha interesse no cara que a deseja, ela se torna a "attention whore" citada acima. E não é todo "desvio" ao papel de gênero feminino que é aceito, por exemplo, ser "atraente" e ser submissa continuam fazendo parte da "mulher diferente" tão desejada. 

Nós somos humanas e essa busca pela "mulher diferente" se pauta também na ideia de que a mulher é apenas o esteriótipo não humano, não indivíduo, e isso não é um exemplo de misoginia? Enquanto a busca pela uma mulher diferente acontece, fica claro que eles estão cegos pra ver que toda mulher é diferente, tem personalidade, gostos, individualidade.


Textos relacionados:
Guestpost: Feminismo e cultura pop: Parte 1 – As Representações Femininas - Taís Fantoni
Guestpost: Feminismo e cultura pop: Parte 2 – Mulheres como jogadoras - Taís Fantoni
e o excelente blog da autora dos guestposts "Colchões do pântano"