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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

40 escritoras para ler antes de morrer

A literatura é um espaço predominantemente branco, masculino e hétero. As listas de leitura obrigatória das escolas e de livros premiados são uma amostra de como mulheres escritoras são desvalorizadas pelas editoras e às vezes pelos próprios leitores. Clarice Lispector e Cecília Meireles, por exemplo, são os poucos nomes femininos que aparecem listados. 

Como mulheres sequer são vistas como sujeito, a literatura escrita por elas é muitas vezes definida como "livros para mulheres", como se mulheres não fossem capazes de escrever livros tão bons e interessantes como homens e como se o que é escrito por mulher não fosse digno de atenção da ala masculina. J. K. Rowling, autora da saga Harry Potter e do livro "A morte súbita", recebeu o conselho da editora de usar suas iniciais para assinar seus livros para que assim eles também atraíssem a atenção masculina e vendessem mais.

Como os livros escritos por mulheres são vistos como componentes da chamada "chick list", até mesmo a arte das capas desses livros refletem estereótipos de gênero. Numa sociedade misógina como a nossa, capas delicadas, baseadas em normas de gênero, por exemplo, não atrairão um público tão amplo já que muitas pessoas querem se afastar ao máximo do que é considerado culturalmente como feminino. 

Quando falamos sobre a baixa representatividade de escritoras mulheres ou de escritores negros, sempre ouvimos que mulheres, sejam negras ou brancas, e homens negros são mais raros nesse mundo bem restrito por "incapacidade" e não pelos motivos reais, que são a falta de oportunidade e até mesmo o apagamento dado aos membros desses grupos nos livros de história e literatura. 

Diante desse cenário, projetos como a Alpaca Editora e Lendo Mulheres, que buscam incentivar a leitura de autoras, são essenciais. Se você é uma pessoa que está interessada em ler mais obras escritas por mulheres, quer valorizar "as minas", mas não sabe por onde começar, seus problemas acabaram! Fique com essa lista de nomes de escritoras e suas principais obras:
35 escritoras e suas principais obras

Clarice Lispector e Carolina Maria de Jesus
Carolina Maria de Jesus foi uma mulher negra e brasileira que teve um de seus livros traduzido para 13 idiomas. Sua obra mais conhecida é "O quarto de despejo", um livro que é um diário que conta o cotidiano e as reflexões dela como mulher pobre e negra vivendo nos anos 50 numa cidade grande. Outras obras: "Pedaços da Fome" e "Casa de Alvenaria". 

Anne Rice escreve séries de livros de terror e fantasia. Seu maior sucesso literário é "Entrevista com o vampiro" que foi adaptado posteriormente ao cinema. Outras obras: "A rainha dos condenados", "Tempo dos anjos", "Os lobos da invernia" e "A dádiva do lobo".

Alice Walker escreveu "A cor púrpura", livro premiado com o Pulitzer e que foi adaptado para o cinema. Outras obras: Vários livros de poesia, romance e não ficção em inglês, como por exemplo: Once, Meridian e outros, mas em português sei que foi publicado no Brasil: "O templo de meus familiares", "Vivendo pela palavra" e "Rompendo o silêncio".

Ana Cristina César foi uma poetisa brasileira. Conheci um pouco de sua obra no livro "26 poetas hoje", uma coletânea de vários poetas e poetisas de uma época. Obras: "Luvas de Pelica", "A teus pés", "Inéditos e dispersos" e outros. É possível adquirir o livro "Ana Cristina César - Poética" que contem toda sua obra reunida. 
Chimamanda Adichie

Alice Ruiz escreveu 21 livros, entre eles poesias, haikais, traduções e até uma história infantil. Recebeu o prêmio Jabuti pela obra "Dois em um". Também compõe letras de músicas. Obras: "Nuvem feliz", "Desorientais", "Dois haikais", "Estação dos bichos" e outros. Confira as outras obras nesse link. 

Chimamanda Adichie é uma escritora nigeriana e muito conhecida pela sua palestra no TED sobre "O perigo das histórias únicas" e "Todos nós deveríamos ser feministas". Ganhou ainda mais notoriedade quando seu discurso sobre feminismo foi incorporado na música Flawless da Beyoncé. Obras: "Americanah", "Hibisco roxo", "Meio sol amarelo"

Léonora Miano nasceu em Camarões e se naturalizou francesa. Foi a primeira autora de origem africana a ganhar o prêmio Femina. Obras traduzidas: Até então só achei "Contornos do dia que vem vindo". 

Louisa May Alcott escreveu obras infanto-juvenis. Obras: "As quatro irmãs", "As filhas do Dr. March" e "Mulherzinhas".

Marguerite Duras escreveu peças de teatro, novelas, filmes e narrativas curtas. Obras: "O amante", "O amante da China do norte" "Barragem contra o pacífico" e "Cadernos da Guerra e outros textos".

Xinran
Xinran é uma chinesa que publicou vários livros, o título "As boas mulheres da China" conta diversas histórias de mulheres que ela entrevistou e mostra as dificuldades das chinesas quanto ao machismo. Outras obras: "Enterro Celestial", "Mensagens de uma mãe chinesa desconhecida", "O que os chineses não comem", "As filhas sem nome" e "Testemunhas da China". 

Mary Shelley é autora do clássico da literatura Frankenstein e sua obra "O último homem" tem muita influência no mundo da ficção científica. Outras obras: "Mathilda" e "Lodore".

Regina Navarro Lins é autora de 11 livros e escreve sobre relacionamento amoroso/sexual. Obras: as mais conhecidas são "A cama na varanda" e "O livro do amor". 

Ava Dellaira publicou seu primeiro livro, nomeado no Brasil de "Cartas de amor aos mortos". No momento trabalha na indústria cinematográfica, enquanto escreve sua segunda obra. "Cartas de amor aos mortos" conta a história de uma menina que perdeu a irmã mais velha. Prestes a iniciar o ensino médio, ela resolveu mudar de escola para fugir das pessoas comentando o falecimento, mas no colégio novo, a professora propõe a tarefa de escrever uma carta para alguém que já morreu.

Adélia Prado é uma poetisa que nasceu e vive em minha cidade, Divinópolis. Obras: "O Pelicano", "O homem da mão seca", "Terra de Santa Cruz", "Manuscritos de Felipa" e outros.

Marjane Satrapi é uma romancista gráfica que nasceu em Teerã, no Irã. Obras em português: "Persepolis", "Frango com ameixas" e "Bordados". 

Suzane Collins escreveu a saga "Jogos Vorazes" e criou uma personagem feminina incrível que é a Katniss Everdeen. A saga é dividida em três livros e os dois primeiros já foram transformados em filmes. Obras: ela também escreveu "As crônicas do subterrâneo", que é composto por cinco livros.

Lionel Shriver é jornalista e escritora. Escreveu "Precisamos falar sobre Kevin", livro posteriormente adaptado para o cinema. Outras obras traduzidas para o português: "O mundo pós-aniversário" e "Tempo é dinheiro" (Título original: "So much for that").

Maya Angelou tem uma vasta obra, mas infelizmente parece não haver muitos livros dela traduzidos para o português. Só achei o "Carta a minha filha", mas para quem lê em inglês, cito "On the pulse of morning", "I know why the caged bird sings" e "The heart of a woman".

Marina Colasanti publicou 33 livros. Alguns contos, histórias infantis e poesia. Obras: "Hora de alimentar serpentes", "Uma idéia toda azul, "Minha guerra alheia", "Poesia em 4 tempos" e outros que você pode conferir nesse link aqui.

Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir foi escritora e filósofa. Muitas pessoas acham que a única obra de Simone foi "O Segundo Sexo" e só a conhecem como feminista e não sabem que ela também escreveu romances. Outras obras: "Os Mandarins", "A convidada", "A cerimônia do adeus", "A longa marcha", "A mulher desiludida" e "As belas imagens".

Anaïs Nin é um nome para quem gosta de literatura permeada de um certo erotismo. Obras: "Pequenos Pássaros", "Delta de vênus" e "Fogo".

Carola Saavedra é uma escritora e tradutora que nasceu no Chile, mas veio para o Brasil aos três anos de idade. Recebeu o prêmio APCA de melhor romance pelo livro "Flores azuis". Obras: "Flores azuis", "O inventário das coisas ausentes", "Toda terça", "Paisagem com dromedário" e "Do lado de fora". 

Charlaine Harris escreveu a série "The Southern Vampire Mysteries" que conta as aventuras de uma garçonete telepata que é amiga de vampiros, lobisomens e outras criaturas estranhas. A série True Blood é baseada nessa série de livros. Outras obras: série "Aurora Teagarden" e série "Shakespeare".

Cora Coralina foi uma poetisa e contista brasileira. Obras: "Meu livro de cordel", "Tesouro da Casa Velha", "A moeda de ouro que o pato engoliu", "Vintém de cobre - meias confissões de Aninha".

Virginia Woolf
Virginia Woolf foi uma das representantes do modernismo, escritora, editora e feminista. Pra mim a principal característica de sua escrita, é que cada linha diz mais do que aparenta dizer. Escreveu "Um teto todo seu", "As Ondas", "Noite e dia", "Mrs. Dalloway", "Orlando", "Quarto de Jacob" e outros. 

Elvira Vigna é uma escritora, ilustradora e jornalista brasileira. Já recebeu o Prêmio Jabuti como ilustradora e como escritora de livros infantis. Ela começou sua carreira escrevendo literatura infanto-juvenil, mas hoje tem romances e contos publicados fora desse nincho. Seu livro "Nada a dizer" recebeu o prêmio de ficção da Academia Brasileira de Letras. Outras obras: "Por Escrito" e "O assassinato de Bebê Martê". Conheça mais títulos no seu site pessoal. 

Jane Austen foi uma escritora inglesa que hoje é considerada autora de obras clássicas. Suas obras mais conhecidas são "Orgulho e Preconceito" e "Razão e Sensibilidade", visto que foram adaptadas para o cinema. Outras obras: "Persuasão", "Emma" e "Mansfield park".

Eliane Brum é jornalista, escritora e documentarista. Escreve em alguns portais jornalísticos brasileiros como colunista, mas já se enveredou também para o mundo dos romances ao escrever "Uma Duas". Obras: "A vida que ninguém vê", "A menina quebrada" e "Meus desacontecimentos".


Conceição Evaristo
Conceição Evaristo é uma escritora brasileira que conciliou os estudos com o trabalho de empregada doméstica. Suas obras abordam temas como discriminação racial, de gênero e de classe. O romance "Ponciá Vicêncio" foi traduzido para o inglês e publicado nos EUA. Outras obras: "Becos da Memória" e "Insubmissas lágrimas de mulheres".

Lygia Bojunga é uma escritora brasileira que escreve literatura infantil e infanto-juvenil. Sua obra já foi traduzida para 13 idiomas, entre eles japonês, sueco e espanhol. Obras: "Corda Bamba", "Retratos de Carolina", "O sofá estampado" e "Os colegas".

Toni Morrison recebeu o Nobel de Literatura em 1993. Seus romances retratam a vida de mulheres negras nos EUA. Seu livro "O olho mais azul" é um verdadeiro estudo de raça e gênero. Obras: "Paraíso", "Jazz", "Amada", "Amor" e "Tar Baby".

Paulina Chiziane
Paulina Chiziane nasceu em Moçambique e foi a primeira mulher de seu país a publicar um romance. Obras: "Balada de amor ao vento", "Niketche: uma história de poligamia", "O alegre canto da Perdiz" e "Ventos do apocalipse" 

Nadine Gordimer publicou mais de trinta livros e foi uma das vozes sul-africanas contra o apartheid. Seus livros ganharam notoriedade internacional e ela recebeu um Nobel de Literatura em 1991. Obras: "O melhor tempo é o presente", "O engate", "De volta à vida" e "Contando histórias".

Lygia Fagundes Telles é uma escritora brasileira que já ganhou o Prêmio Camões. Obras: "Ciranda de Pedra", "Verão no Aquário", "As horas nuas", "O cacto vermelho", "Seminário de ratos" e "Antes do baile verde".

Cristiana Sobral é atriz e escritora. Obras: "Cadernos Negros", "Não vou mais lavar os pratos" e "Espelhos, miradouros, dialéticas de percepção".

Mais cinco escritoras feministas brasileiras da atualidade

Aline Valek
Aline Valek é uma escritora feminista brasileira. Você pode acompanhar o trabalho dela através do seu site ou mesmo assinar a newsletter "Bobagens Imperdíveis". Um dos textos dela que eu faço questão de indicar se chama "Apoie a escritora" e fala sobre o livro "Um teto todo seu", escrito pela Virginia Woolf. Nesse texto, Aline mostras as dificuldades baseadas em machismo e misoginia enfrentadas pelas escritoras. Outras indicações: "Gatos são mulheres que não se dão ao respeito", "Quem me estuprou", "Corpo que", "Troca de mensagens", "A escola me ensinou", "Dentucismo" e "Descobri que meu gato é deus"

Lady Sybylla é uma entusiasta da ficção científica. Também é feminista, professora e geográfa, além de blogar no site "Momentum Saga". Junto com a Aline Valek organizou uma coletânea de contos chamada "Universo Desconstruído". Seu conto no livro se chama "Codinome Electra". Juntas também disponibilizaram "O sonho de Sultana", escrito pela Roquia Sakhawat Hussain, tal obra é considerada a primeira história de ficção científica feminista.

Jarid Arraes é uma feminista que escreve cordéis e textos de opinião no "Questões de gênero" da Revista Fórum. Alguns títulos de seus cordéis são "Chica gosta é de mulher", "Dandara dos Palmares", "Dora, a negra e feminista", e "A menina que não queria ser princesa". Você pode adquirir os cordéis através do site pessoal da autora.

Alliah é genderfluid, feminista, escritora e artista visual. Você pode conhecer o seu trabalho assinando a newsletter "Alliahverso".

Clara Averbuck é escritora e também feminista. Escreve no site "Lugar de Mulher" e já publicou alguns livros, como "Vida de gato", "Das coisas esquecidas atrás da estante", "Cidade Grande no Escuro" e está escrevendo "Toureando o Diabo". Conheça seu site pessoal.

Observação: coloquei na lista escritoras que tivessem ao menos uma obra traduzida para o português. Gabriela Mistral, Audre Lorde, bell hooks*, Emily Dickinson e outras ficaram de fora por isso. Tentei mesclar indicações de escritoras mais conhecidas com outras que não são tão famosas assim, por isso vocês vão sentir falta de nomes como Rachel de Queiroz, Hilda Hilst, Hannah Arendt e as irmãs Brontë. 


Alguns nomes históricos: Teresa Margarida da Silva e Orta, Pagu, Rosa Luxemburgo, Maria Firmina dos Reis e Maria Lacerda de Moura.

Literatura de/para/sobre mulher não é subgênero - texto de Gizelli Sousa

Fiquem à vontade para acrescentar mais e mais indicações na caixa de comentários. 

Nosso texto também foi republicado no site da Revista Fórum

* bell hooks tem a obra "Ensinando a transgredir" traduzida em português e Audre Lorde tem artigos científicos traduzidos. 

domingo, 10 de novembro de 2013

A pessoa errada, no lugar errado?

Inicio o texto de hoje narrando um caso que aconteceu comigo, quando eu morava nos EUA. Ainda hoje, confesso, eu me lembro do medo que senti, e isso me causa um mal-estar danado, principalmente porque eu sempre tentava me convencer de que eu estava exagerando. 


Pois bem. Eu fui fazer compras em um hipermercado, não muito distante da minha casa. Usei o GPS para chegar ao local. Acabei demorando, entretida que estava com tantos ítens de decoração lindíssimos que vi por lá. Depois de um tempo, volto ao meu carro, e tenho a brilhante idéia de não usar o GPS, pois pra mim, o caminho estava fresco na memória. 




Acontece que eu me perdi. Escureceu mais rápido do que eu imaginava e, de repente, as ruas eram todas iguais. Eu estava perdida em uma área residencial próxima ao supermercado, e não conseguia: a. retornar à loja, b. encontrar o caminho de casa. Fui ficando aflita, e ao perceber que estava girando em círculos, eu parei o carro. Enquanto eu abria o porta-luvas para pegar meu gps e ligá-lo, as luzes das casas começaram a acender. Eu estava parada em frente a uma casa, e enquanto digitava meu endereço no gps, eu percebi uma cabecinha me espiando pela cortina. Era uma mulher branca. 


A sensação de medo é indescritível até hoje, quase dois anos depois do ocorrido. O gps demorou uns trinta segundos para reaver o mapa, e eu confesso que foram trinta segundos bem demorados. Eu tremia, meu coração parecia que ia sair pela boca, e tudo que eu conseguia pensar era: vou levar um tiro. Na cabeça. 


Até hoje eu não sei explicar direito de onde me veio esse pensamento. Talvez de tanto escutar a velha frase "a pessoa errada, na hora errada, no lugar errado", eu fiquei com aquela sensação de que tava tudo errado naquele momento que eu estava vivendo. Cheguei em casa ainda trêmula, contei o ocorrido ao meu marido, que ficou bem preocupado. Depois de conversarmos sobre o assunto e eu prometer que nunca mais deixaria de ligar o gps, mesmo que eu tivesse certeza do caminho, eu meio que o convenci, e convenci a mim mesma, que eu estava sendo exagerada. Afinal de contas, eu fiquei ali parada por menos de um minuto. 


Mas, a pulga nunca saiu detrás da minha orelha. Eu sabia que o meu maior desconforto se dava ao fato de que (me disseram) o Texas tem mais armas do que gente e que a lei do 'stand your ground' (algo como 'defenda seu território') é uma realidade por lá. Mas, eu estava parada na rua, não havia motivo para me preocupar. Pelo menos é o que eu repetia pra mim mesma sempre que a história martelava na minha cabeça. Lembro ainda que no outro dia eu contei o caso pra minha professora de inglês, que me pediu, com voz de assombro: "nunca mais faça isso, eu sei que você realmente pensou que sabia o caminho, mas nunca mais faça isso, por favor". 




Essa semana, eu me deparei com o seguinte título de uma notícia (em inglês): "Mulher negra é morta por pedir ajuda em uma vizinhança branca". Renisha McBride bateu o carro em uma região habitada majoritariamente por brancos, em Detroit. A bateria de seu celular tinha acabado, e ela resolveu então pedir ajuda em uma casa próxima. Acabou sendo morta. É a tal lei do 'stand your ground' em ação. Renisha morreu por ser negra. Porque pessoas negras são sempre suspeitas. Porque a Renisha, assim como eu, provavelmente cresceu ouvindo a história da "pessoa errada no lugar errado". É um eufemismo que nós ouvimos, ao invés de "pessoa negra em vizinhança branca" ou, ainda "mulher no espaço público". Ouvimos esse tipo de coisa porque é mais fácil culpabilizar a vítima. Aposto que se algo tivesse acontecido comigo, teriam jogado toda a culpa no fato de eu não ter usado o gps aquela noite. Assim como certamente devem estar especulando que a Renisha, na verdade, errou em tocar a campainha de uma casa desconhecida. Mesmo que ela não tivesse outra escolha. 


O dia da Consciência Negra (20 de Novembro) está se aproximando. Uma data para lembrar toda a trajetória de sofrimento e exploração sofrida por escravas e escravos no Brasil. Mas não só isso. Pra mim, trata-se de um momento para reflexão, introspecção, ação. Em um mundo globalizado, os problemas também encontram-se interconectados. E eles são muitos, e bem complexos. O medo que eu senti nos EUA é o medo que praticamente todas as pessoas negras sentem no Brasil. Em um mundo realmente justo, a negritude não é confundida com criminalidade. Em um mundo realmente justo, pessoas negras, mulheres e demais minorias não são "pessoas erradas" porque esse conceito, simplesmente, não faz sentido.


terça-feira, 29 de maio de 2012

O corpo é meu! O Facebook não é nosso!


A marcha das vadias lavou minha alma. Lavou a alma de muita gente. Eu não sei muito bem o quanto eu precisava daquele momento na minha vida, eu sei que ele foi muito importante para mim. Desde que eu conheci o feminismo e fui lentamente tomando consciência de todas as pequenas violências que sofria, que tolhiam a minha liberdade em muitos aspectos diferentes, muita coisa foi embora de mim. Mas principalmente muitas pessoas foram embora. Só que ao mesmo tempo, eu não me sentia só. E nesse sábado eu não estive só mesmo. Cerca de três mil pessoas em Brasília estiveram comigo, botando para fora em alto e bom som muito daquilo que dizemos todos os dias discretamente: queremos ser respeitadas e isso independe da forma como falamos, nos vestimos (ou não nos vestimos), nos relacionamos. Só que muita gente por aí nem sabe o que o verbo respeitar significa. 

Foto da fan page da Marcha das Vadias DF
Aquela velha história de que mulher tem que se dar ao respeito carrega uma carga de machismo e moralismo tão grandes, que eu juro que não entendo como eu não consegui enxergar isso até alguns anos atrás. "Se dar ao respeito" não é respeitar suas escolhas, suas preferências, sua liberdade de ir e vir, de agir como quiser... Via de regra, "se dar ao respeito" é repetido por aí como sinônimo de privação de liberdade individual. Se você usa roupa curta, não se dá ao respeito. Se tem vida sexual ativa, goza e gosta muito, não se dá ao respeito. Se não tá afim de um relacionamento afetivo monogâmico, não se dá ao respeito. Se anda ficando com quem tá afim sem pensar em namoro, não se dá ao respeito. Respeito é uma palavra que precisa ser ressignificada. Respeito, como é repetido por aí, está diretamente ligado à invisibilidade da sexualidade feminina. Eu sou vadia e me dou ao respeito. 

Respeito não se pede, se conquista. Exigimos que nos tratem com respeito, e fazemos isso sem implorar de pernas e bocas fechadas, mas mostrando para a sociedade o quanto a sua noção de respeito é falha. Para isso é preciso união. É como nós gritamos na marcha: "Ah! que é isso! Elas estão organizadas!". E estamos mesmo, cada vez mais. E estamos conseguindo visibilidade também. Um movimento nacional que só em um final de semana reuniu cerca de 10 mil pessoas? Isso não passa despercebido. E com certeza aumentaremos em número e em consciência. Feminismo é um aprendizado constante. 

Foto da fan page da Marcha das Vadias DF 
Entretanto, a luta ainda é necessária. Prova disso é a forma reacionária e moralista como o facebook tem encarado as fotos das mulheres que estavam na marcha com os seios de fora. Que fique claro: não são fotos pornográficas. Seios não servem apenas para entreter os homens, mostrar os seios na marcha é uma atitude política, porque o nosso corpo não é apenas sexual, ele é político. Ele é tão político, que em alguns países as mulheres precisam escondê-lo inteiramente ou podem morrer caso não façam. O facebook parece ignorar essa característica e tem apagado sistematicamente as fotos das moças de topless. Infelizmente, a mesma rede social que apaga fotos não pornográficas de mulheres exigindo uma sociedade mais justa, não apaga imagens racistas, homofóbicas ou misóginas. Ultimamente nem tenho mais usado a opção "denunciar" do Facebook, tenho ido direto ao safernet e à PF denunciar esses conteúdos. Isso posto, é de se perguntar porque a nudez choca mais que a violência cotidiana. 

Foto da jornalista Luka Franca
censurada pelo Facebook
Não é a primeira vez que isso acontece no facebook, em outro momento fotos de mães amamentando foram retiradas arbitrariamente da rede social. MÃES. AMAMENTANDO. O corpo feminino é sempre sexualizado ainda que ele não seja usado para fins sexuais. Me diga, você se alimenta cobrindo o rosto? Porque um bebê precisa se cobrir para se alimentar? Foi necessário protestar com mamaços virtuais para o Facebook permitir fotos de mães amamentando seus filhos. Se você acha que o Brasil é um país libertário em que tudo pode, pense de novo. Não é bem assim, a onda conservadora que assola o país também esbarra nos nossos corpos. por isso é preciso gritar: "Meu corpo, minhas regras!" Fazer ouvir a voz de quem nem sempre, no dia-a-dia pode externar esse sentimento sem receber toda sorte de julgamentos morais. 

Ao contrário dos homens, que ao sentir calor não pensam duas vezes em tirar a camiseta, mulheres não tem esse privilégio. Guess what? Mulher também sente calor. Mas toda a nudez feminina será censurada. Toda nudez será objetificada, será rotulada, será retirada dos perfis do Facebook como se fosse ofensa. E ofende também o fato de que nem sempre os seios exibidos são durinhos, apontem para cima, caibam na mão. Com certeza o peitaço no fim da marcha das vadias de Brasília foi o final perfeito para a marcha de um movimento libertário como o feminista, porque contradiz essa idéia de que a mulher é um pedaço de carne. O nosso corpo não é inerte, não é produto, não é objeto, ele também fala por nós.  Lamentamos profundamente que a maior rede social do mundo tenha uma visão tão tacanha do corpo feminino.

Foto por Leiliane Rebouças

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Guestpost: Coletor menstrual: prós e contras

Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva 2@ Vermelha, um evento que surgiu com o objetivo de nos colocar para falar sobre menstruação, esse tema que pode ser símbolo, tabu, orgulho, vergonha, dor, alegria e muitas outras coisas dependendo da forma como é vivido por cada uma de nós. A leitora Natália Schmidt preparou um guestpost super bacana para nós contando a sua experiência com o coletor menstrual. Afinal, falar de menstruação é também questionar tudo o que está ligado a ela, desde a TPM até os nossos absorventes.

Coletor menstrual, para quem não conhece, é um recipiente (um “copinho”) reutilizável de material maleável (geralmente silicone) que serve para colher a menstruação. Funciona assim: você coloca no canal vaginal e ele se prende por meio de pressão nas paredes vaginais. Depois, é só retirar, esvaziar no vaso sanitário ou na pia (ou ainda, se quiser, diluir o sangue na água e regar as plantas !) e colocar de novo! Depois do ciclo menstrual, deve ser esterilizado e ele estará pronto para ser usado novamente. Hoje, existem várias marcas que comercializam (destaque para MissCup, que é a única marca brasileira), mas até um tempo atrás não era assim, e além de tudo, era difícil de se achar.

 Há 2 anos, fiquei sabendo do coletor menstrual pela minha irmã, li sobre e achei super interessante o fato de ser reutilizável e portanto ecológico (sempre me incomodei pela quantidade de absorventes que vai para o lixo). Além disso, é livre de pesticidas e outros produtos químicos dos absorventes tradicionais. Decidi experimentar. Na primeira menstruação, achei um pouco desconfortável na hora de inserir. Para colocar: a gente dobra o “copinho” e coloca, chegando na posição correta, é só soltar que ele desdobra e fica preso por pressão na parede vaginal. Por causa da pressão, senti um pouco de dor. Para tirar, mesma coisa. E vazava, bastante. Além disso, me incomodava com o “cabinho” do coletor em alguns movimentos. Fui reclamar com a minha irmã e me surpreendi quando ela me disse que para ela, tinha sido ótimo, e ela amou.
            Pesquisando, descobri que só vaza quando colocado da maneira errada. E que é preciso praticar até não vazar. Além disso, lendo no manual de instruções, foi muito alívio quando descobri que pode (e deve, se te incomoda) cortar o “cabinho” do coletor. O “cabinho” está lá para facilitar o manuseio, para dar mais segurança para quem ainda está insegura, mas se incomoda, deve ser cortado. Decidi então dar uma segunda chance.
            Na segunda vez, acertei o pé. Consegui colocar direito, nos primeiro dias, vazou um pouquinho, e depois não vazou mais. E o corte do “cabinho” foi realmente um alívio.
            Depois disso, foi “amor a segunda vista”! Sou assumidamente apaixonada pelo meu coletor menstrual, porque conforme o passar do tempo, eu fui me adaptando melhor, e percebi que ele foi uma das melhores invenções dos últimos tempos... rs
            Entre os pontos positivos, o fato dele ser muito mais ecológico que os absorventes tradicionais ganha destaque. Mas se fosse só por esse ponto, nós poderíamos adotar os absorventes de pano, não é mesmo ? Acontece que o coletor menstrual é também muitíssimo confortável. Depois do período de adaptação – e salvo raras exceções -, você não vai nem sentir mais, garanto  (as vezes, eu esqueço que estou menstruada). Pode ser praticado qualquer atividade física durante o uso, inclusive nadar. Você pode ficar, teoricamente, de 4 a 8 horas sem esvaziar, mas eu já cheguei a ficar 12 (!) horas tranquilamente (depende do fluxo). Além disso, é mais econômico. O custo de um coletor menstrual da marca Misscup, segundo o site, é de R$ 75,00, e pode durar de 2 a 10 anos (depende de alguns fatores, como a frequência de uso). Podemos gastar em torno de R$ 200,00 em absorventes descartáveis por ano!
            Os outros pontos positivos menos óbvios, mas não menos importantes: nessa cultura de desvalorização de tudo que diz respeito ao corpo das mulheres, e inclusive – e especialmente - a menstruação, utilizar o coletor menstrual é uma ótima maneira de quebrar mitos e conhecer melhor o seu ciclo. Eu, pessoalmente, amo menstruar, acho lindo, e o coletor menstrual me permitiu um contato muito mais profundo com meu ciclo. É muito legal ver a quantidade do fluxo – e perceber que não é uma hemorragia descontrolada, afinal -, perceber que aquele odor desagradável e forte da menstruação nada mais é que o absorvente comum abafando o local, entre outras coisas. Aliás, o coletor menstrual é também mais higiênico, menos propenso a desenvolvimento de alergias e de algumas pragas, como a candidíase. Além do contato com o próprio ciclo, o manuseio do coletor estimula o conhecimento do próprio corpo – o que infelizmente, é tão negligenciado na nossa sociedade.
            O único ponto negativo de acordo com a minha experiência é que esvaziar em banheiros públicos pode ser uma experiência não muito bacana. Eu sou desastrada por natureza, e dependendo da situação do banheiro público, eu não consigo retirar, esvaziar e colocar novamente sem me sujar. Para tirar e colocar, ainda sinto cólica por causa da pressão, mas não é nada que me incomode tanto.
            Enfim, sou uma mulher assumidamente apaixonada pelo meu coletor!
            Eu uso da marca Mooncup. No site das marcas Mooncup e Misscup tem mais informações e depoimentos. E no site do MissCup também tem uma pesquisa legal sobre a opinião das consumidoras. Vale a pena pesquisar e experimentar! :-)

Observação: nem toda mulher menstrua e nem toda pessoa que menstrua é mulher.

sábado, 14 de abril de 2012

Uma vitória de todas as mulheres.



Em 12 de abril de 2012, o STF tomou a decisão histórica de descriminalizar o aborto de fetos anencéfalos (interrupção terapêutica da gravidez). Não entraremos nos pormenores da decisão, já que tais detalhes estão mais do que espalhados pela internet. Deixaremos, ao final deste texto,  alguns links que consideramos de suma importância pelo caráter informativo que encerram.

Não há dúvidas que tal evento representa uma vitória das mulheres. Mesmo daquelas que se posicionam frontalmente contra o aborto. Mesmo daquelas que nunca tiveram ou terão que se preocupar com tal infortúnio em suas vidas. Porque, de agora em diante, todas nós poderemos falar efetivamente em escolha, pelo menos com respeito aos casos de anencefalia.  

Por outro lado, existe sempre o outro “lado”, não é mesmo? Não, não era preciso ter uma bola de cristal para prever que reações negativas à decisão do STF inundariam blogs e redes sociais. A grande maioria oriunda de pessoas ditas religiosas. Repetiu-se ad nauseam aqueles velhos argumentos reacionários de sempre, em cartazes tão agressivos que em algum momento tivemos a impressão de que foi criada uma trincheira. Colocou-se aquele que deveria ser um pilar da cristandade numa berlinda bizarra: o livre-arbítrio.

Liberdade de escolha. Um valor tão caro ao mundo ocidental, e ao mesmo tempo tão mal-interpretado. É muito triste ver que as pessoas não fazem cerimônia ao bradar “argumentos” essencialmente religiosos para embasar o inexplicável. Porque não há explicação plausível para um Estado que se diz laico se basear em questões religiosas para aplicar a lei a suas cidadãs. Nem que tal religião represente a maioria. Porque, sendo laico, o Estado é neutro. E isso significa que o Estado deveria garantir direitos a pessoas oriundas dos mais diversos credos, ou credo nenhum, de forma igualitária. O nome disso, carxs leitorxs, não é capetice, satanismo nem anti-cristianismo. O nome disso é democracia.

Ademais, como foi bem lembrado pelo ministro Celso de Mello, não dá nem pra clamar que a decisão do STF tenha sido anticonstitucional. Sim, porque se aos religiosos não foi dada a oportunidade de argumentar com a bíblia em punho (oh, coitadinhos), caberia a eles argumentar à luz da Constituição brasileira. Como o fez, muito verborragicamente e em um discurso tão floreado quanto vazio, o ministro Ricardo Lewandowski. Porque, voltando a Mello (e Ayres Britto também falou disso), a Constituição não delimita onde se inicia a vida. Mas delineia o que é a morte. E como a morte é ausência de atividade cerebral, o feto anencéfalo seria praticamente um natimorto cerebral, dada a limitação da atividade cerebral apresentada. E, conforme podemos verificar aqui , para o Conselho Federal de Medicina,  os sinais de reatividade infraespinal, ou seja, respiração e batimento cardíaco, não excluem o diagnóstico de morte cerebral.

Nesse debate todo (que deveria ter acontecido no Brasil há no mínimo 30 anos atrás), fica sobressaltada não apenas a questão da intolerância que a maioria religiosa do país tem para com aqueles que divirjam de suas crenças. Porque a questão do anencéfalo é isso: uma questão de crença. Pulularam relatos, dos mais emocionantes, de mães que resolveram levar a gravidez adiante e enterrar suas crias. Relatos belíssimos, cuja validade ninguém está tentando contestar. O que se está em pauta, e o ministro Ayres Britto colocou brilhantemente, é que ninguém é obrigado, por convicção de outrém, a se martirizar.

Pois bem. Além dessa intolerância que salta aos olhos, ficou mais do que clara uma outra triste particularidade de uma sociedade patriarcal como a nossa: a misoginia. Um ódio irracional e injustificado às mulheres. As pessoas reagiram como se, de agora em diante, o aborto de anencéfalos fosse uma obrigação. Oh, essas feministas maldosas. Insultos diversos, que nem tinham relação direta com o caso da anencefalia (na hora de abrir as pernas você quis, né minha filha?) forneceram o esteio necessário a um sistema brutalizante que, por suas raízes culturais, ainda permanecerá por um bom tempo entre nós. E contará com a nossa resistência. Sempre.

Links interessantes:

ADPF-54 O julgamento do STF e a anencefalia

Especialistas comentam julgamento de aborto de fetos anencéfalos 

Médico pode se negar a interromper a gravidez de feto anencéfalo mas deve orientar paciente

Depoimentos sobre anencefalia e bebês malformados 

Pela morte da tristeza clandestina

Lei é eficaz para matar mulheres, diz especialista. 


domingo, 11 de março de 2012

Mulher, sujeito verbal.


Para finalizar a semana da mulher, esse coletivo de imagens vem lembrar a todxs, que antes de mais nada, toda mulher é um ser humano único. Nós não somos todas iguais, não temos os mesmos desejos, as mesmas alegrias, somos diversas. E se nos unimos na singularidade do feminismo é justamente para lutar pelo direito de ter nossa pluralidade respeitada. Porque nós, mulheres, existimos e agimos por nós. Nós mulheres viajamos, fotografamos, desenhamos, bebemos, batemos papo, dançamos, bebemos café, cozinhamos, cantamos, protestamos, amamentamos, brincamos, atuamos, mimamos, estudamos, treinamos e estouramos plástico-bolha. Nós, mulheres, nos satisfazemos. Nos gostamos e somos felizes longe das regras do patriarcado e perto de nossas próprias vontades.


















Muito obrigada a todas que aceitaram participar dessa postagem, tornando assim possível sua realização. Imagens na ordem: Eu, Ananda Hassan, Beatris Astrath, Gizelli Sousa, Cely Couto, Caroline Jamhour, Laís Rangel, Renata Onofre, Elisa Prando, Julika Alguém, Aline Freitas, Marce Lee C, Thaís Campolina, Lívia Prando, Kel Campos, Andréia Kirch e Flávia Simas.