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segunda-feira, 6 de maio de 2013

Comer é necessário, Vogue.

"Uma cultura obcecada por magreza feminina não é obcecada pela beleza da mulher, mas sim pela obediência feminina. A dieta é o sedativo político mais potente na história da mulher, uma população levemente louca é uma população dócil". - Naomi Wolf


O Dia Internacional Sem Dieta acontece todo seis de maio e simboliza um pouco da luta das vítimas de transtornos alimentares para se curarem. Esse dia propõe celebrar a aceitação de todos os tipos de corpos e questionar o padrão de beleza e as discriminações decorrentes dele, como a gordofobia.

Enquanto a existência dessa data especial demonstra uma preocupação com os transtornos alimentares e suas vítimas, a sociedade continua a alimentar justamente o contrário que essa data prega: uma exaltação ao corpo magro, um incentivo às dietas e obsessões com o corpo inatingíveis. E é por isso que repudiamos a publicação da Revista Vogue intitulada "Comer pra quê? Fazer jejum está na moda. Saiba mais sobre a dieta da vez".

Irresponsável, prejudicial, lamentável é o mínimo que se pode dizer sobre essa reportagem que já no título tenta vender uma dieta que questiona a necessidade de comer. Dizer que ficar sem comer está na moda é glamourizar um sintoma frequente de anorexia e banalizar essa doença que atinge diversas pessoas, principalmente mulheres jovens. A nova tendência da moda é a de sempre: incentivar a busca por um ideal de corpo inalcançável, a qualquer custo. E a Vogue aprova e publica, mas sem esquecer de adicionar um "Só faça se tiver acompanhamento médico", como se adicionar essas palavras fizesse desaparecer a irresponsabilidade da publicação. Dizer que ficar sem comer dez dias do mês é válido é fazer uma campanha contra a saúde das mulheres.

O uso da palavra jejum para designar a dieta é fácil de relacionar com a ideia de penitência. A mulher é sempre condicionada a sofrer em nome de diversas coisas: por amor e pela beleza são as principais. Incentivar dietas altamente restritivas em nome de um ideal de beleza é colaborar com a ideia de que o sacrifício, por ambos, está ligado ao que é desejável para a mulher no patriarcado. A mulher que não se sacrifica é vista como desleixada e preguiçosa, coloca-se a dor e o sofrimento como uma motivação para a buscar ainda mais o ideal. E esse estigma não atinge só mulheres necessariamente, já que a sociedade vê todos que estão acima do peso como preguiçosos e trata de culpá-los e dizer que o sacrifício deles não é suficiente, alimentando ainda mais essa cultura de ódio a diversidade de corpos e sua consequência: oito milhões de estadunidenses (sete milhões mulheres) tem algum distúrbio alimentar. Um número incerto, visto que a maior parte das vítimas desses distúrbios não buscam tratamento e assim não fazem parte das estatísticas.

Garotas veem mais de 400 propagandas por dia
que dizem como elas devem aparentar.

O corpo designado feminino é alvo de muito ódio: ele é objetificado, só valorizado se considerado bonito, o cheiro que advem dele é considerado ruim e os pêlos que o cobrem vistos como anti higiênicos. A sociedade aponta defeitos em nossos corpos o tempo todo. E esse incentivo insano à dietas é mais uma face dessa misoginia.

E a Vogue, junto com outros veículos midiáticos, diz que é necessário ser magra a qualquer custo o tempo todo. Dizem isso através de fotos e matérias que dizem que só a magra pode vestir as roupas daqueles editoriais, que apenas a magra é bonita e feliz, reportagens que incentivam dietas, propagandas "vendendo" remédios de emagrecimento como se fossem inofensivos ou dizendo "comer pra quê?". Enquanto isso mais e mais mulheres aprendem e continuam a se odiar e a pensar que o "qualquer custo" é um preço justo a se pagar. 

E o Ativismo de Sofá repudia não só essa publicação, mas todas as que concordam com essa cultura de ódio.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Eu, balzaca e feminista


Eu nem sei com qual rapidez os anos deslizaram por entre os meus dedos, mas sei que parece ter durado menos do que durou. Eu tenho 29 anos. Portanto, doente terminal. Apenas um ano de vida me resta. Ao menos é assim que o senso comum desenha mais um estereótipo sobre mim. Aos 30 anos, eu já devia ter uma família (monogâmica e heteronormativa) formada, estar casada, até poderia ter uma carreira, se também fosse mãe e esposa. A tal jornada tripla, o destino certo da mulher de 30 anos. Minha beleza, já deteriorada pelas primeiras marcas do tempo (uma ruguinha aqui, cabelo branco ali, seio caído acolá), não é mais admirada. A juventude é parte inseparável daquele padrão de beleza do qual sempre falamos aqui no blog. Aos olhos da nossa sociedade machista, a beleza é o bem mais precioso que uma mulher carrega, sem ela, não existimos. Com ela, existimos apenas para deleite masculino.

Enquanto mascus bradam por aí que a vida deles começa aos 30, a minha deveria estar no fim. Sambando na cara da sociedade, nunca me senti tão bem comigo mesma quanto agora. Ok, há problemas aqui e ali, mas somente agora começo (sim, COMEÇO) a me entender mais claramente e a amar a pessoa que sou, ou ao menos a pessoa que me tornei. Importa bem pouco para mim a tal da ruguinha. A verdadeira mudança que vejo na pessoa que sou e naquela que fui veio de dentro. E é incrível como aconteceu em pouco tempo.

Balzac, em seu famoso livro, dizia:

"Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis. A mulher jovem tem muitas ilusões, muita inexperiência. Uma nos instrui, a outra quer tudo aprender e acredita ter dito tudo despindo o vestido. (...) Entre elas duas há a distância incomensurável que vai do previsto ao imprevisto, da força à fraqueza. A mulher de trinta anos satisfaz tudo, e a jovem, sob pena de não sê-lo, nada pode satisfazer". 

Sobre essa citação, como diria Raul Seixas, eu acho tudo isso um saco. Uma mulher de 30 anos não é diferente de nenhuma mulher. Ficar categorizando quem é melhor e quem é pior não faz bem a nenhuma de nós. O que nos difere não é a nossa idade, são experiências pessoais que podem ou não interferir na nossa vida individualmente e não coletivamente. E é nesse ponto que o feminismo fez a diferença na minha vida: 
Eu preciso do feminismo para que a sociedade entenda que minha vida não acaba aos 30 anos.

Aos quase 30 anos, eu olho para trás e vejo como fui tola em ter sido calma, quieta, submissa, calada, opressora comigo mesma e com outras mulheres. E nem tem tanto tempo assim. Eu costumava dizer todas aquelas coisas absurdas contra as quais eu luto atualmente. Por exemplo: Eu dizia que as mulheres deveriam se dar ao respeito, que é muito feio mulher que bebe, e, o pior de tudo, havia momentos em que eu dizia até mesmo que se a mulher apanhou, fez por merecer. A minha falta de empatia por outras mulheres resvalava num pedido de aceitação dentro dos grupos em que eu andava. Grupos predominantemente masculinos. Não é que esses assuntos fossem exaustivamente discutidos em nossos encontros, mas há um machismo que paira sobre algumas cabeças e que acaba contaminando a todos, de formas e intensidades diferentes. A objetificação é só uma das facetas desse machismo que se revela em um ou outro comentário. Aqui e ali, meio encoberto por uma conversa casual sobre qualquer coisa, não necessariamente sobre a questão de gênero. E assim, lentamente, eu me deixei levar.

Aliás, eu demorei demais para me dar conta do quanto eu fui colonizada. Eu realmente sou uma pessoa tímida, mas o meu silêncio quando estava com eles não era timidez, era só silêncio. Lembro-me que uma amiga, que a eras me conhecia, me disse naquele momento da minha vida que a minha luz tinha apagado, que eu estava sempre calada. Na época eu compreendia a verdade naquelas palavras mas não conseguia identificar quais processos me levaram à esse comportamento. E posso dizer sem sombra de dúvidas, observando o meu passado, que foi a minha aproximação com homens. Não todos, vale frisar. Há no meio desse grupo grandes amigos, mas mesmo entre as pessoas que mais amamos existe uma coisa chamada "comportamento de grupo", que por vezes se manifesta. E dentro desse comportamento de grupo masculino a opressão às mulheres (e ao feminino de forma geral) existe. 

Caminhando rumo aos 30 anos posso me congratular, sem pedantismo, de ter sido capaz de mudar minhas opiniões. Tive ajuda nisso. Mesmo assim, não é fácil conseguir soltar as amarras culturais que nos são impostas, especialmente quando sabemos que o preço a ser pago é alto. Perdi grande parte dos meus amigos, tenho medo de fazer uma entrevista de emprego e alguém consultar as redes sociais, espaço que uso para entretenimento mas também para uma militância contínua, e é claro que existem os haters.

Algumas coisas aconteceram na minha vida para que eu pudesse sair do meu estado vegetativo. Eu conheci um grupo de mulheres que embora não se definisse ainda abertamente como feministas, foram de grande importância para a construção não só do meu feminismo como também o delas. Construimos uma identidade coletivamente. Somado a isso, uma tragédia também aconteceu dentro da minha família, com uma prima minha, um caso extremo de violência que resultou na sua morte. Todas aquelas mulheres que apanharam do marido ficaram para sempre ligadas à mim por meio dessa história. Eu entendo a dor de seus familiares, eu entendo. Eu entendo agora que nada poderia justificar o que aconteceu com elas. Eu vejo a Carminha apanhar na novela e sinto um nó se formar em minha garganta. Eu queria poder dizer que mudei unicamente com a minha força de vontade, com o meu próprio discernimento, mas isso não é possível, fatores externos à mim me esbofetearam na cara até que eu entendesse o quanto era prejudicial o discurso que eu sustentava até então. 

E é por isso que eu não consigo simplesmente culpar as mulheres machistas pelas barbaridades que falam, talvez nem elas entendam o quanto aquelas palavras recaem sobre si. Às vezes não acho a paciência necessária para lidar com elas, mas não as culpo. Alguém, em algum momento, me estendeu a mão para me fazer entender o que acontecia comigo. E por diversas vezes eu rechacei as palavras que me foram ditas. Ainda urgia em mim a necessidade de aceitação de uma sociedade que, eu ainda não sabia, nunca iria me aceitar de maneira plena, unicamente porque sou mulher. Mas um dia, eu entendi e estou aqui construindo e desconstruindo o que eu fui e o que eu sou. A cada dia, a todo momento. 

Eu não sei o que será de mim após a marca dos 30, mas aos 29 eu estou muito melhor do que estava antes. Se não estou livre por completo, estou lentamente me dirigindo à minha liberdade. E estou gostando muito. Que venham os 30.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

De mulher para mulher, Machista


Essa semana mais uma propaganda da Marisa foi veiculada e pela terceira vez seguida, estamos diante de uma bela demonstração de preconceito. Só para variar, afinal isso quase nem acontece na publicidade, não é? O que realmente causa algum espanto é que uma empresa cujo slogan é "de mulher para mulher" seja machista. Aliás, já li algumas pessoas na rede satirizarem o slogan da Marisa: "De mulher para mulher, Machista". De fato, eu não poderia concordar mais. Vamos relembrar as campanhas que nos fizeram repudiar a marca, mas antes do almoço que é para não acabar botando tudo para fora, beleza?

Primeiro rolou aquela propaganda de lingerie super bacana (só que jamais), mostrando "estatísticas" sobre como está difícil conseguir homem na praça. 





A premissa é: Mulheres (hetero, claro, porque para a Marisa, lésbicas não existem) passem a competir entre si por um belíssimo exemplar de macho viril. Para a Marisa, homem só vale à pena se seguir à risca aqueles velhos estereótipos de gênero. Homem não pode gostar de bichinhos, morar com os pais, ter medo de barata... enfim. O horror, o horror. Vê se pode, homem que é homem não faz esse tipo de coisa, não é? Ai, Marisa... Que belo desserviço você faz à todas as mulheres e aos homens sugerindo esses padrões de comportamento, que só oprimem à todxs. Aqui podemos ver uma ótima palestra de Tony Porter sobre como a sociedade cria os meninos para odiar mulheres e sobre como colocamos em todos, inclusive nos homens, as algemas do patriarcado.

Antes fosse só isso... mas não foi! Começaram as críticas a essa propaganda nas redes e a agência que cometeu essa atrocidade resolveu ATACAR as consumidoras. Sim, queridos. Veja o print com seus próprios olhinhos nesse post. A rede Marisa, em sua página no Facebook, dizia ouvir as reclamações e agradecia as críticas, mas nada foi feito, a propaganda continuou sendo exibida e a agência seguiu cometendo erros inacreditáveis nas campanhas da Marisa. Porém, não vou crucificar a agência, uma vez que é o cliente que tem a palavra final. 

Pouco tempo depois, tivemos outra ótima surpresa. A Marisa achou que seria uma excelente idéia inverter os papéis de gênero, botando mulheres para assediar homens. OPA, assediar, não! Elogiar! 





Para a Marisa, assédio de rua é elogio. Veja, sabe quando um homem desconhecido aborda você na rua te chamando de gostosa, dizendo o que faria com você na cama, objetificando, desrespeitando? Pois bem, isso tudo é um grande elogio, aparentemente deveríamos ser submissas e agradecer. Mano, que ano é hoje? Marisa, acho que está faltando uma informação: os anos 50 já se foram há uns 60 anos! 

Agora, na campanha mais recente, que tal uma boa dose de gordofobia? Propaganda meramente machista é coisa do passado, a onda agora é estimular um transtorno alimentar. Sim, porque no verão só as magras são felizes. Não venham usar o argumento "saúde" por favor, porque NADA nesse comercial indica que o motivo da dieta da moça seja esse. Especialmente pelo final da propaganda quando a macharada toda olha para a mulher como se ela fosse um pedaço de carne. 



Me desculpe se não elogio a grande criatividade dessa propaganda, mas é que o R7 já fez coisa bem similar há pouquíssimo tempo, com a manchete "elas não estão preparadas para o verão". Essa idéia não é exatamente original, entende? Todo mundo já se cansou de ouvir essa babaquice. Inclusive recomendo fortemente a página de humor do Facebook que satiriza essa notícia, a "Projeto Verão 2013". 

Imagem da página "Projeto Verão" no Facebook

São tantos os problemas dessa propaganda que fica difícil começar a listar. Primeiro, a perpetuação de um padrão de beleza gordofóbico. Magreza não é sinônimo de saúde, assim como obesidade não é sinônimo de doença. Algumas pesquisas bem recentes apontam que o obeso ativo é uma pessoa saudável. Pior ainda, atrelar a felicidade à manutenção da magreza. GENTE.

Depois, a própria idéia de que comer alimentos saudáveis é um sacrifício é contraproducente no sentido de garantir qualidade de alimentação, pois somos sempre estimulados a comer fora de hora, alimentos industrializados, altamente calóricos, fast food e etc.

E por fim, aquilo que me parece ser o mais grave de tudo: Retirar de nós o direito de ir e vir livremente. Como se o fato de não estar perfeitamente dentro de um padrão de beleza racista e gordofóbico fosse determinante para que não exista o direito de utilizar o espaço público. E sabe porque isso é tão ruim? Porque tem muita gente por aí que realmente pensa assim, a Carol Marques pontuou muito bem:



Lugar onde eram preparadas as
refeições para funcionários de oficina
de confecção da Marisa
Já comprei roupas na Marisa e acho que a qualidade é bem abaixo da média. Além disso, não sei se todos estão a par, mas a empresa já foi denunciada por ligação com o trabalho análogo ao trabalho escravo (com indícios de tráfico de pessoas) em algumas de suas oficinas de produção. Ao menos é o que informa essa notícia aqui. Foi realizado um acordo em 2007, chamado TAC, Termo de Ajustamento de Conduta. Contudo, recentemente, doída pelo dano que fez à própria imagem, a Marisa recebeu uma punição pela contestação que fez sobre a legalidade da Lista suja do Ministério do Trabalho . Falando muito claramente: A "lista suja" só prejudica o empregador. E é claro que no caso da Marisa, o empregador é uma grande rede de confecção. É quase uma carteirada, sabe? "Quem é o Ministério do Trabalho para decidir proceder de forma a prejudicar grandes empresas em prol de condições de trabalho justas para os funcionários?". Eu é que nunca mais vou de Marisa. Não quero nem de graça.

Então, recapitulando, machista, heteronormativa, gordofóbica e exploradora. O que mais está faltando, Marisa?

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

As linhas da nossa história


Ontem foi um daqueles dias que a gente acorda com a autoestima quebradinha, sabem?  Acontece que eu percebi algumas novas marcas que estão aparecendo no meu corpo: Estrias nos seios. Tentei pensar que era só procurar tratamento e elas melhorariam, mas isso não melhorou meu dia. Tentei pensar que sou mais do que uma estria, que ela não representa meu todo, mas também não foi muito eficaz.
Até que uma linda, linda amiga me mandou este site. Um site sobre mulheres, sobre vidassobre a maternidade, sobre corpos e sobre... estrias. Ao ler as histórias e ver as fotos do site eu comecei a me sentir diferente. É engraçado, porque a gente sempre é estimulada a olhar para o outro corpo com um certo distanciamento, a vê-lo com rivalidade, os corpos são uma competição. Mas não foi assim que eu me senti, eu me senti... normal.

Claro que não é igual para todas, mas uma gestação altera sim nossos corpos. E vendo as histórias dessas mulheres, junto com as fotos de seus corpos percebi como as coisas se ligam. Uma marca não é apenas uma marca, ela mostra que temos um passado, uma história, mostra que estamos vivas.

E aí eu percebi porque buscar tratamentos ou pensar que eu sou mais que uma estria podia até parecer solucionar meu problema, mas não fazia eu me sentir melhor. Porque eu sou sim uma estria. Cerca de quatro dias após o nascimento da minha filha o meu leite desceu, os meus peitos incharam e desde estão ela costuma mamar me arranhando, segurando o peito, sabem? Adora dormir assim. E isso me deu estrias.

Quando dizemos que o padrão de beleza comercial é desumano, não é uma forma de sensibilizar, sensacionalizar o assunto. É apenas porque ele é, bem... desumano. Quando falamos em retoques, photoshop, iluminação e os mil e um truques (dos quais não entendo nem um pouco, vocês devem ter notado) utilizados estamos falando em formas de deixar a nossa pele apenas cada vez menos parecida com uma pele.
A imagem vendida do corpo por si só não representa sua totalidade. O nosso corpo é todo especial porque traz a gente dentro dele. É como se fosse uma casa na qual a gente mora a vida toda. E tanto tempo em um lugar deixa marcas. Nós não somos apenas as nossas estrias, mas sim, somos as nossas estrias. As nossas rugas, cicatrizes, manchas, olheiras... tudo isso é um pedaço da nossa história que ficou marcado em nós.
Entrar em contato com o nosso corpo é (re)conhecer nossa história. Se existe de fato uma “linguagem corporal” eu diria que é essa: A do corpo contando sobre nós. Sobre a nossa genética, nossos hábitos, nossos tombos, nossas dores, nossas noites em claro, nossas filhas arranhando os nossos seios.
Ora, se eu não quero ser hoje menos do que sou, então não quero menos de tudo o que vivi. Por que então vou querer menos marcas? Deixe que a vida siga acontecendo e que fique estampada em nós.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Start a revolution, stop hating your body!


Comece uma revolução, pare de odiar seu corpo.
I am beautiful no matter what they say
Words can't bring me down
I am beautiful in every single way 
Yes, words can't bring me down 
So don't you bring me down today”

O senso comum diz que toda mulher é carente, insegura e que precisa ouvir elogios durante todo o tempo. O mesmo senso comum diz que amizades femininas são cheias de traição, competição e falsidade. Ele também brada que mulheres são fúteis e só se importam com aparência, status e moda. E o senso comum não se esquece de generalizar também os homens, todos traem, todos mentem, todos sacaneam, todos se interessam apenas pela beleza, pelo corpo da mulher, enquanto toda mulher se interessa em tudo que o homem tem a oferecer, seja dinheiro, poder, e contrariando alguns,até mesmo carinho
O senso comum trata os relacionamentos amorosos heterossexuais como um eterno jogo de trocas, poder, sedução e interesse, onde a mulher se torna objeto sexual do homem em busca de segurança, carinho e completude. Como ter autoestima vivendo em uma sociedade onde a mulher sempre acaba por ser reduzida apenas a um corpo sem autonomia? Um corpo pronto para servir? Onde a mulher precisa de alguém pra enfim se sentir completa?
 Somos todxs bombardeadxs com imagens de um padrão de beleza só atingível através de programas de modificação de imagens, cirurgias plásticas e dietas quase humanamente impossíveis de serem seguidas. O padrão de beleza é a origem de diversas insatisfações e inseguranças, especialmente femininas.

Feminist Ryan Gosling
A veiculação de imagens femininas na mídia sempre observa o fator da beleza, ou melhor, da adequação, mesmo que mínima, ao padrão de beleza vigente. As demais características da mulher ficam em segundo plano ou são ignoradas. Tanto reducionismo faz a mulher comum se sentir inferior a cada propaganda, a cada comentário elogioso masculino e heterossexual a respeito das mulheres dentro do padrão de beleza. O machismo nos reduz a eternas insatisfeitas. O nosso corpo não é nosso, é de toda uma sociedade que aponta defeitos e o que tá até bom, mas pode mudar, de forma, que nunca estamos livres de possíveis intervenções, opiniões e ofensas.
A incessante busca pela beleza, pela jovialidade é estimulada desde a infância, meninas brincam de maquiagem, de usar salto alto e os adultos aplaudem, pois essas meninas já tão novas valorizam tanto a “feminilidade”. Um dos brinquedos mais famosos para meninas é a boneca Barbie, que reforça ainda mais o padrão de beleza: loira, magra, pernas longas, peituda, cintura fina, traços delicados. A opressão estética surge pras meninas assim que nascem, por exemplo, a perfuração da orelha para usar brinquinhos e os lacinhos de cabelo, e continuam através da constante observação da imagem "feminina" na mídia e na sociedade. Concursos de beleza, com destaque, os infantis, ajudam a alimentar ainda mais as frustrações e sonhos que se relacionam apenas a conquista do corpo perfeito e a valorização da beleza. A importância dada à imagem feminina, desde muito cedo, faz parte do triste processo da adultização das meninas. Meninas usam maquiagem, salto alto e se vestem como adultas, importam discursos de competição feminina e inveja da beleza e já tão cedo se aprisionam na busca ao padrão de beleza e também nos papéis de gênero impostos pelo patriarcado e deixam de lado a liberdade de correr, de brincar, de serem autênticas e, consequentemente, perdem a autoestima ao fracassarem na busca da perfeição.

Brincar de maquiagem, com roupas e penteados não é necessariamente a fonte dessa adultização e da "escravidão" pelo padrão de beleza, essas brincadeiras são lúdicas, pura fantasia e proibi-las fere a autonomia da criança. Enfeitar não é sempre negativo, o que é negativo é vincular a vaidade e os enfeites ao "feminino" e excluir os demais da possibilidade brincar com as cores, se pintar, a liberdade de ser e criar não é necessariamente afirmar que há uma obrigatoriedade ou necessidade de usar a maquiagem para corrigir defeitos, esconder características, aparentar mais jovem. O discurso da obrigatoriedade do ser sempre linda e da maquiagem como acessório essencial para a mulher é da sociedade, se reflete na mídia, no comportamento das pessoas, ele não se origina nas brincadeiras infantis.
A vaidade é considerada uma característica essencialmente "feminina", e o excesso de cuidados e preocupações com a beleza nunca é visto como uma desordem. E é visível como essa busca em se enquadrar no padrão de beleza pode causar problemas sérios, como depressão, o desenvolvimento de compulsões alimentares, o excesso de intervenções cirúrgicas, entre outros.

Beth Ditto
Essa cobrança da mulher sempre ser bonita, "feminina" distorce a imagem que a mulher tem de si mesma. O bonito, segundo o padrão de beleza, é inatingível e frustrante. Mesmo as mulheres que trabalham com a beleza, como modelos e atrizes, que são tão desejadas e admiradas pela beleza, se tornam escravas do espelho, da insegurança, das dietas e até mesmo de intervenções cirúrgicas.
O feminismo ao questionar a imposição social que a mulher deve sempre ser bela (a.k.a dentro dos padrões de beleza) e o que é belo, ao questionar a idéia da mulher como objeto, ao questionar a vida da mulher girar em torno de agradar os homens, me fez perceber o quanto o padrão de beleza e as minhas preocupações com ele me reduziam a um mero enfeite. Todas as minhas insatisfações com meu corpo, minha altura, meu cabelo e meu rosto que tanto me impediam de gostar de mim como eu sou e me fizeram sofrer, me sentir mal, através da minha aproximação com o feminismo, diminuíram.
Eu me senti por anos, um monstro, feia, horrorosa, pequena demais, com o nariz pouco delicado, o cabelo desgrenhado... Hoje, apesar das ainda existentes dificuldades de gostar de mim, me sinto, a maior parte do tempo, bonita em minha completude, com minhas experiências, minhas cicatrizes, meus pêlos, meus traços. É um exercício diário tentar não me importar em ser mais magra, mais alta, mais peituda, com a pele sempre bonita, uniforme e corada e em ter o cabelo liso, sedoso e bem cuidado. Mas eu tento e às vezes consigo, porque já não me importa tanto ser "feminina", ser valorizada por ser bonita pra alguém, eu não vejo ser bonita como uma prioridade. Amar a si mesma é revolucionar, é se sentir bem com a sua imagem refletida pelo espelho, é negar as insatisfações com a nossa imagem que são impostas pelo padrão estético e reforçadas pela sociedade e a mídia, é dizer "não" para o que a mídia acha bom ou não no seu corpo, enfim, é ser realmente dona do seu corpo, dona o suficiente para ser dona da sua autoestima.

Todo corpo é bonito.
Através de diversos questionamentos feministas, começou a desconstrução do que é "feminino", belo e importante dentro de mim e minha autoestima vai se refazendo, se recuperando de julgamentos, zoações a respeito da minha altura, dos meus traços, do meu corpo e do meu comportamento e assim eu tomo de volta pra mim a minha autonomia. O feminismo me fez ver que a liberdade está em questionar o que é ser belo e a necessidade disso e assim me permite ser livre para ser, desejar, sentir, revolucionar, me pintar, subverter e assim me amar.