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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Uma luta que soma e o comentário sobre a Valente.

Uma das coisas mais recompensantes de se ter um blog, na minha opinião, são as discussões que podem ser geradas a partir de um post. Trata-se de um processo enriquecedor, disso não há dúvidas. Não há nada melhor que receber links e até mesmo sugestões que adicionem e ampliem os nossos horizontes.

Dias atrás eu tratei da galera do “me convence”, que faz questão de levar suas discordâncias a extremos, de forma a não engendrar crescimento em absolutamente nenhuma das partes envolvidas. Hoje, porém, eu gostaria de celebrar e reconhecer o valor de alguns comentários que somam. Acreditem, em tempos nebulosos em que diversas vozes minoritárias são silenciadas pelo mundo, são comentários assim que nos deixam a certeza de que nossos esforços não têm sido em vão.

Queria portanto agradecer a cada pessoa que dispôs de algum tempo para acrescentar algo às discussões. Seja através de relatos pessoais, através de exemplos que amplifiquem o nosso campo de visão acerca de determinado assunto, seja simplesmente nos dando força e dizendo “é isso aí, adorei o blog!”. Fica de minha parte e da parte de todas nós do Ativismo, os mais sinceros agradecimentos.

E gostaria de dar visibilidade a um comentário que me tocou muito. Trata-se do comentário da Ana, sobre o meu post acerca do filme Valente. Ana, muito, muito obrigada!  Eu assisti "Como treinar seu Dragão" esse fim de semana e não poderia concordar mais com tudo que você escreveu.

Então é isso, amgs. Fiquem com o comentário da Ana e, se possível, discutam, sugiram, nos ajudem nessa construção de um ativismo que é muito maior que qualquer uma de nós.



 Atenção: Contém Spoilers :)

"(I)
Muuuito atrasada, mas vamos lá.

FINALMENTE UMA CRÍTICA POSITIVA DE VALENTE.
E gostei muito das informações sobre a simbologia do urso :D

Eu sei que fui burra, mas caí em tentação e li alguns textos na internet antes de ver o filme. Fui pro cinema com a minha mãe bem desanimada por isso, mas depois de assistir, saí indignada com quem falou mal da história >:|

É perfeita? Não, não é. Mas é um ótimo primeiro passo.
Sou filha de mãe solteira e sinceramente, eu estou de saco cheio de ir pro cinema e passar o maior climão porque a história toda gira em torno da figura paterna. Podem me xingar de paranóica whatsoever, mas eu preciso desabafar.

Sei que ninguém tem nada haver com isso, mas meu pai era uma pessoa horrível, e Valente é o primeiro filme que não me deixa desconfortável em momento nenhum; não me faz lembrar do rombo que ele deixou. Nada contra a figura paterna, mas puxa, nunca antes na história desse país eu tinha saído tão leve de um filme.
Se a conta fosse 50%/50%, tudo bem. Mas a maioria esmagadora não trabalha a relação com a mãe - e mesmo os que tem mãe presente no roteiro não chegam aos pés de Valente. O foco nunca tinha sido esse. É difícil de explicar, e sei que não é um argumento plausível para crítica por ser muito pessoal, mas pra mim é muito importante. Esse foco na relação mãe-e-filha teve um impacto muito forte em mim, muito tangível. Mais do que perceber ou analisar, eu senti a diferença. Senti.
Me sinto obrigada a dizer, pensando nas tantas outras que são como eu: esse filme me trouxe um alívio tremendo. Pela primeira vez saí do cinema sabendo que aquele entretenimento era meu E da minha mãe, nosso, sobre a nossa relação. Até hoje, tudo o que eu via precisava entortar pra fazer caber na minha realidade, ainda que me identificasse com o drama.

Eu tinha, TINHA que dizer isso. Podem me chamar de egoísta, mas eu não me sentia representada por outras histórias onde a relação com a mãe não era tão importante. Eu estava, sim, esperando avidamente por algo que falasse um pouquinho do que eu vivo.

Pra mim, Valente dialoga muito com 'Como Treinar o Seu Dragão', da DreamWorks (maravilhoso, estupendo, recomendo muito, muito mesmo). O cenário, a coisa viking/celta, gente ruiva por todo o lado, rs... Em CTSD, Stoico, Chefe de Tribo Viking, tem altas expectativas para seu filho, Soluço; do mesmo jeito que a Rainha Elinor tem expectativas para Merida.

A diferença gritante - Stoico quer um filho Guerreiro, Matador de Dragões; Elinor quer uma filha princesa, casada por convenção (Depois desigualdade entre gêneros é tudo invenção da cabeça de feminista doida...)

Eu ficaria muito, muito feliz se a DW sentisse uma pressãozinha básica pra ter uma protagonista mulher. Eu gosto muito do jeito que eles zombam dos contos de fada em Shrek, e CTSD é uma obra prima, acho que podia sair coisa muito boa do estúdio.





(II)
O filme tem cenas maravilhosas e muito emocionantes. Eu cito:

- a competição de arqueiros: ato de rebeldia e independência sem igual, Merida atirando aquelas flechas pra mim foi ÉPICO

- a briga de Elinor e Merida, o corte na tapeçaria e o arco no fogo: a tapeçaria me lembrou muito as fotos de família que mães tanto amam, cortá-la foi algo muito simbólico. Vi gente chamando Merida de mimada, mas eu discordo. Veja, “Eu prefiro morrer a ser como você” É um exagero, mas É a cara de uma adolescente. Já vi isso na vida real, e por coisas muito menores que um casamento.

Aliás, acho bom ressaltar o peso do casamento. Dá pra ser pior que se sentir sozinha, desamparada, e forçada a tomar uma decisão que vai mudar sua vida drasticamente? Merida está DESESPERADA, e por motivos fortes. É um casamento, caramba. É mais que passar o final de semana sem vídeo game, é mais que um capricho, é uma razão muito forte pra se rebelar. Ela é princesa, querem pautar sua vida toda nisso, a mãe que é tecnicamente a pessoa mais próxima dela é justamente quem não a apóia. Ela é vítima de uma injustiça descarada e não tem pra onde correr. Acaba passando dos limites. Não é justificável, mas pra mim é plausível. 

A mãe, por outro lado, tem suas razões e está tão angustiada quanto a filha. Resultado: reage com uma agressão igualmente violenta – joga o precioso arco no fogo.
Merida cortou a relação entre ela e sua mãe; Elinor queimou a independência da filha. É uma batalha, elas machucam uma à outra de maneira feroz porque estão ambas desesperadas; é um cabo de guerra. Obviamente, em guerra ninguém ganha nada. Ambas saem sangrando, ambas são vítima e algoz ao mesmo tempo. Elinor entra em pânico logo depois de jogar o arco no fogo porque ela sabe, ela tem perfeita noção do quão tremendamente importante ele é para a filha e quão devastada Merida fica sem sua liberdade, que é sua marca maior. Merida se embrenha na mata chorando. É traumático.

- o momento em que Merida fica trancada no quarto, assistindo um pelotão de homens saindo à caça de sua mãe: além de rebelde, Merida me parece uma otimista incorrigível. A verdade é que, não importa o quão ruim a situação pareça, ela continua crendo que tudo vai dar certo e que ‘não é tão grave assim’. Ela só reconhece o perigo quando é deixada no castelo. Só aí ela percebe que as coisas perderam o rumo, que o ‘acidente bobinho’ com a poção pode acabar custando a vida da mãe. Merida chora, lamenta, e pra mim é nesse momento que ela se arrepende verdadeiramente, é o momento da redenção.

- a breve luta com o pai, já quando a mãe ursa está subjugada: Gostei de ver Merida lutando, literalmente, pra defender a mãe. Sei que a cena no castelo impressionou também, mas do lado de fora eu vi a força à serviço da proteção. Quantas vezes vimos homens lutando para salvar donzelas indefesas? Merida lutou, na base do muque, para proteger a mãe. Foi mais do que apaziguar, mais que se jogar na frente, foi ativo.



- a luta entre a mãe ursa e o herdeiro amaldiçoado: Elinor tinha muitos defeitos, era cheia de não-me-toques, mas quando Merida estava em perigo, ela se transformou. Foi para o ringue, no final é isso que todas as mães acabam fazendo. Pra mim foi muito significativo ver a mamãe rainha da elegância rolando na grama com o maldito que tentou machucar sua filha. Eu não pude deixar de imaginar como seria a cena com seres humanos. Pra mim foi o momento mais épico da história. ‘Ninguém mexe com meus filhos!’ – e de repente o mundo desaparece, a coroa e todas as obrigações sociais se vão pelo ar, porque não há nada que uma mãe não faça pra salvar uma filha.

(III)
Finalizando, e eu me desculpo sinceramente pelo comentário exagerado, Valente é um bom filme, com emoção e profundidade. Talvez não seja tão bem humorado quanto muitos queriam, mas tem cenas lindas, épicas, cheias de significado. Não é perfeito nem de perto mas é o pontapé inicial que precisávamos.

Vi críticas à figura apática do pai, mas como vejo casais assim na vida real, tenho que dar o braço a torcer e dizer que aquele pai nada mais é que um retrato do que pode existir por aí.


A parte que mais me decepcionou foi o discursinho de Merida ‘conquistem meu coração primeiro’ e blablabla. Tudo bem, quebramos a tradição, ela não vai ter que casar, yay. Mas eu ainda acho que a autonomia de Merida sobre seu destino devia ficar mais clara como um direito, e não apenas uma concessão.

Por hoje é “só” isso, porque não me lembro de mais nada que queira comentar XD"

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Cientifique-se humana

No último domingo mulheres de diversos lugares do país foram as ruas na Marcha pela Humanização do Parto. A Marcha é uma resposta a diversas atitudes dos Conselhos de Medicina do nosso país e posturas do sistema de saúde em geral que violentam os direitos das mulheres diariamente ao negá-las, entre outras coisas, o protagonismo da parturiente.

A violência obstétrica se dá por meio do desrespeito, tortura psicológica, realização de procedimentos não autorizados pela gestante, alertas desnecessários, informações falaciosas e muitas outras formas. Há uma tendência (baseada exclusivamente na falta de informação sobre o assunto) de se pensar que o movimento pela humanização do parto quer torná-lo "obrigatório". Não é isso. Nossas queixas com relação a violência sofrida se estendem as mulheres que precisavam de uma cesárea e tiveram essa negada, que pediram por medicamentos e foram negligenciadas. Todo e qualquer atento contra o direito de escolha, autonomia e necessidade de uma mulher com relação ao seu próprio corpo é uma violência brutal.


Eu já relatei aqui minha história para vocês. E basta ler os comentários para compreender a problemática desse assunto. O que não falta é gente dizendo que isso é pouco, que desejar ser bem informada, apoiada e escolher arbitrariamente a melhor forma de parir é “mimo”, que o médico sempre sabe o que é o melhor para a gestante e para o bebê e, por fim, que ao invés de eu estar reclamando deveria era estar curtindo a minha filha (!).

Essa reação é típica de quem está envolvido ou adaptado a um sistema de saúde tecnocrático. As questões emocionais e psicológicas são consideradas secundárias e desimportantes, o nascimento enquanto trabalho é envolvido em um fordismo racionalizado que desconsidera qualquer outro tipo de conhecimento que não o masculino técnico-científico. A gestação é um festival de misoginia. Uma mulher gestante tem constantemente sua voz calada em nome dessa suposta ciência (que na realidade, nada se baseia em evidências).

Enquanto a Organização Mundial da Saúde recomenda que a porcentagem de cesáreas seja de 15%, no Brasil essa taxa chega a 85%. Embora os riscos de tal cirurgia sejam muito maiores do que os apresentados no parto, tanto para mãe quanto para o bebê. O parto não é compreendido como um evento natural fisiológico e a gestante é comumente tratada como “uma louca cheia de hormônios que não sabe o que está dizendo”, um clássico do diagnóstico da histeria que associa o corpo e a mente da mulher a um ambiente hostil e irracional.

Pense: É coincidência que as profissões ligadas ao parto humano e domiciliar sejam majoritariamente femininas? Quando se unem gestantes, parteiras e doulas está ali formado um ambiente de protagonismo da mulher. Um ambiente de força e união que não se baseia em mitos e não permite que se instale ali a opressão machista que insiste no controle do corpo da mulher em todos os aspectos: Desde a determinação do que é correto em nossa sexualidade até a invasão ao nosso físico.

Não é exagerado comparar essa resistência moderna ao conhecimento feminino com a caça as bruxas medieval. As áreas de conhecimento dominadas pelas mulheres estão sendo desconsideradas e marginalizadas, jogadas para fora do que determinaram que seria chamado de “ciência”. A proibição parto em casa e da ocupação de Doula demonstram como a medicina moderna está assustada com a possibilidade desse processo de humanização da ciência, no qual se preza por uma visão mais universal do corpo (considerando aspectos psicológicos, a possibilidade de somatização, entre outros pontos).

A resistência a essa medicina controladora continuará sendo demonstrado por nós diariamente. Nós não queremos ser dominadas por esse Conselho que age incutindo medo e falta de autoconfiança em nós. Cada mulher conhece o seu corpo e, com a ajuda dos que acreditam em sua capacidade, é capaz de exercer sua autonomia com segurança e de forma plenamente saudável.

sábado, 14 de julho de 2012

Disney-Pixar Valente: essa princesa aqui tem mãe!

*CONTÉM SPOILERS*

De um lado, temos o estúdio de animações Pixar e seu histórico: nenhuma protagonista do sexo feminino. De outro, temos a Disney: nenhuma princesa que tenha, de fato, uma mãe. Uma mãe com presença, que realmente se relacione com a filha. A boa notícia? A Disney-Pixar lança seu mais novo filme, Valente, que conta com uma personagem principal feminina, cuja história é praticamente toda centrada na relação mãe e filha. Foi emoção demais para o meu coraçãozinho feminista. 

Eu gostaria muito de escrever um texto sem spoilers, mesmo porque este não tem a menor pretensão de ser uma resenha (e porque eu sou péssima nisso, beijos). Porém, findado o processo de escrita, eu percebi que botei a história mais a perder do que o esperado. Peço sinceras desculpas. Creio que ultrapassei limites por conta do encantamento gerado por essa bela animação. O motivo do fascínio passa, obviamente, pelo fato de eu tê-la achado feminista.

A princípio, vou tentar focar na parte simbólica do filme: achei acertada a escolha do urso para firmar o enredo. Eu acho que o urso fornece um escopo muito forte para ilustrar o grau de profundidade de uma relação mãe e filha.

Porque é justamente o urso, animal temido e ao mesmo tempo admirado ao ponto de virar brinquedo de pelúcia, que possui a simbologia da introspecção, do despertar de consciência. Em culturas como a indígena norte-americana, o urso é o símbolo da sabedoria. O urso é visto como aquele que sabe discernir se o ato de continuar a insistir em algo vale ou não a pena. E, tomada a decisão, o urso não pestaneja em mudar, seguir adiante.

Como fiquei satisfeita de ver a simbologia do urso aparecendo na animação, fui ler mais a respeito e acabei encontrando um pouquinho acerca do urso na simbologia céltica: trata-se de animal cujos poderes são igualitários entre macho e fêmea. A mitologia celta conta com duas deusas que se transmutaram em urso, a Andarta e a Artio. O urso-macho é associado ao Rei Arthur. Além do mais, o urso aparece, na tradição celta, como o arquétipo materno: mãe por excelência, a figura do urso estaria diretamente vinculada à maternidade e proteção de crianças. 

É justamente essa bela simbologia, de um animal que cuida, protege suas crias, ao mesmo tempo em que não hesita em ponderar suas crenças e portanto mudar, que aparece na tela de Valente. Aliado a paisagens belíssimas, muito bem arquitetadas graficamente, o filme conseguiu me prender do início ao fim. Eu li algumas resenhas bem negativas, dizendo que a animação tinha tudo pra ser uma grande aventura e não foi. O problema é que esses críticos não conseguem enxergar que os desenhos animados (pelo menos os mainstream) nunca se aventuraram a aprofundar o assunto <relação mãe e filha>. Isso pra mim foi A aventura. 

Mas os críticos ainda estão muito preocupados em ver ações de acordo com aquilo que o olhar “masculino” deles considera uma aventura. Desconfio que tais críticos, cujos links não acho dignos de compartilhar com vocês, esperavam que a “valentia” da Merida (o nome da protagonista é Merida, eu falei que não sei escrever resenha, certo?) se fizesse ao decepar monstros ou derramar muito sangue. Só que não. A Merida é valente justamente por defender a mãe. Com o bônus de não precisar de nenhum príncipe encantado para ajudá-la. Aliás, a ausência de um príncipe encantado salvador é também digna de nota, já que a Disney é conhecida por reforçar o mito de que mulheres não sabem se virar sozinhas, colaborando, assim, com a manutenção do patriarcado nosso de cada dia. 

E o ápice da valentia se dá numa das cenas mais fortes do filme. Aquela cena em que me foi impossível não chorar. A cena em que, simbolicamente, ocorre uma violência doméstica. A cena em que ficou claro pra mim que a Disney finalmente entendeu que não precisa matar a mãe da princesa pra fazer uma história tocante, que valha a pena. Trata-se do momento em que a Merida se coloca entre o pai e a mãe e, muito corajosamente, desafia o pai e o impede de matar a própria esposa. Achei a metáfora perfeita, tanto para ilustrar a real de uma violência contra a mulher (ilustrar é diferente de justificar, pfvr), como para mostrar que somente após a morte de mães como a da Branca de Neve,  da Cinderella, da Ariel, da Bela, da Pocahontas, além do fato de Rapunzel e Bela Adormecida terem retornado à convivência materna somente após os 16 anos, que a Disney admitiu que, oh céus, dá pra retratar mãe e filha juntas, vencendo obstáculos, aprendendo uma com a outra, sendo amigas! Lavei minh’alma.

Preciso abrir dois parênteses. Primeiro, pra falar que sim, eu entendo que muitas das obras mencionadas acima são adaptações de contos de fada que já existiam. Aliás, tem um texto ótimo que eu gostaria de linkar aqui, além desse outro texto, um guestpost publicado pela Lola, que fala sobre a evolução das princesas Disney. Por outro lado, se formos analisar os desenhos Disney como um todo, e não só aqueles baseados em contos de fada, veremos que a maioria absoluta retrata crianças/adolescentes sem mãe. O segundo parêntese é pra dizer que esse fato talvez corrobore o que uma amiga me disse outro dia: talvez a Disney nem tenha nada contra a figura materna em si, mas apenas queira demonstrar que a vida sem uma mãe se torna, literalmente, um inferno. O que acabaria por cimentar em nós a noção de que homens não são bons cuidadores. E que madrastas são todas carrascas. O que é igualmente problemático, a meu ver. 



Pra terminar, não posso deixar de mencionar o cabelo da Valente. Fez justiça a todas as meninas crespas. Saber que as garotas de hoje terão um arquétipo com um cabelo natural, não-domado, é muito gratificante pra mim. Eu sei que sou Pollyanna demais, mas entendam: eu não me recordo de UMA princesa ou boneca que tivesse um cabelo não-domado. Até a Tiana, que eu me lembre, teve seu cabelo penteado “certinho”. Lembremos que Valente conta com a assinatura da Pixar, o que faz muita diferença em termos de qualidade gráfica. Portanto, celebremos a cabeleira natural da Merida, com seus cachos heterogêneos que, mesmo molhados, dão a impressão de algo real, não-fabricado. Em tempos de plastificação de corpos, cabelos e mentes, isso já é um grande avanço. 

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Quanta dor cabe em um corte de cesárea?

O primeiro título que havia pensado para esse texto era “eu, que fiz cesárea”, mas refletindo melhor percebi que eu não fiz uma cesárea, fui cesareada.

O pouco do contato que eu tive com informações a respeito de parto normal se deve ao movimento feminista. Confesso que não fui atrás de muita informação, hoje penso que devia ter entrado em grupos de apoio ao parto natural, ido atrás de gente que tinha feito, procurado uma doula, saber sobre a burocracia do plano de saúde e tudo o mais. Mas não fiz isso e essas informações não chegaram sozinhas até mim. Por que? Por que não bastou ficar parada para que um parto natural me fosse oferecido?

A cesárea em compensação enfiou o pé na minha porta. Desde o começo ouvia que ela era o melhor, mais garantida, menos preocupante, trabalhosa, dolorida, “uma benção” alguns disseram. Toda vez que eu dizia que ia tentar parto normal ouvia um “o que?” em resposta, geralmente acompanhado de “nossa, que coragem” ou mesmo “para, você é louca” e chegaram ao absurdo de me responder com todas as letras: “Não faça isso!”.

E foi assim com toda essa falta de informação e de apoio que eu com quase 41 semanas de gestação fui parar em uma mesa de cirurgia para a retirada da minha filha do meu útero. E foi horrível. É até difícil de explicar como me senti, mas vamos tentar:

Depois de anestesiada eu comecei a passar mal, minha pressão caiu, tive ânsia de vômito... e aí passou. Os médicos chegaram, se sentaram e começaram o serviço, enquanto eu deitada, inerte, me mantive pacífica e de mãos atadas (quase que literalmente, com aquele monte de fios, agulhas, máquinas me prendendo) no meu próprio “parto”. Depois que me cortaram foi médico puxando de baixo, anestesista empurrando de cima, todo mundo com suas máscaras de cirurgia se esforçando no propósito de tirar meu bebê do lugar de onde ela não queria sair.

Quando a pediatra a pegou e me mostrou, eu não via a minha filha ali. Eu via um pedaço de mim. E quando digo um pedaço é como um pulmão, uma perna, algo que me foi arrancado e que eu queria de volta. Eu me senti completamente mutilada, invadida, violada. E eu chorei. E não, não foi choro de alegria ou de emoção. Eu chorei de tristeza. Chorei a dor de quem acabou de ser violentada e sabe que agora nada mais pode ser feito, nada vai trazer de volta o momento em que aquilo não tinha acontecido.

Depois a pediatra segurou meu neném no meu peito por algum tempo. E eu sinto que esse deveria ser o momento mais espetacular e indescritível da minha vida. Essa deveria ser a hora da sensação mais arrebatadora que já tive, da transformação, da grandiosidade do meu ser, eu simplesmente não deveria ter palavras para descrever esse momento. Mas eu tenho: A anestesia voltou a me dar uma náusea muito, muito forte e aí eu olhei para a minha filha e disse exatamente “tira ela daqui que eu tô passando mal”.

Depois disso a Rita foi levada e eu sedada e fiquei lá por horas sendo costurada. Quando fui para o quarto ainda não sentia minhas pernas, não podia falar, não podia beber água, não podia levantar a cabeça, qualquer coisa que eu fizesse poderia me causar efeitos colaterais fortíssimos e então eu prossegui inerte durante boa parte do dia.

A lembrança desse dia me dói muito. Sinto uma inveja tremenda quando vejo as imagens de mães com seus filhos sangrando em suas mãos, louquíssimas de hormônios, com uma mistura de choro (esse sim de emoção) e riso, sentindo algo absolutamente indescritível, chega a apertar meu coração.

Ontem a Marcha do Parto em Casa ocorreu em diversas cidades do país. Mas não se enganem pelo nome, não lutamos apenas pelo direito de termos nossos filhos em casa se quisermos, lutamos pelo direito de escolha e, partindo da perspectiva de Gramsci, só há uma forma de alcançarmos esse direito: Com informação. Não há liberdade sem conhecimento.

Não podemos falar em cesárea por opção enquanto vivermos nessa nação cesarista que omite tanto fatos, dados e estatísticas a respeito do parto, quanto suporte e apoio. Não temos condições emocionais ou materiais de escolher um parto normal.

Queremos ser empoderadas novamente, que parem de nos dizer que a dor do parto é como a morte, que não temos força para ela, que não vamos aguentar. Queremos ser lembradas de que o nosso corpo está pronto para o parto, que nós estamos preparadas para isso, nós temos exatamente a força da qual precisamos. Queremos parar de ouvir mitos como “só pode esperar até 40 semanas”, “não dá para fazer parto se o cordão estiver no pescoço”, “ o bebê nasce roxinho porque falta oxigênio” ou mesmo “com parto normal a mulher fica larga” (!!!).

Queremos ser devidamente informadas sobre os maiores riscos de mortalidade materna com a cesárea,  sobre a sensação de prazer do parto, sobre nossas reais necessidades. Queremos a possibilidade de ter nosso bebê mamando na primeira hora de vida, do corte tardio do cordão umbilical e do vínculo direto. Queremos ter autonomia para decidir sobre o nosso próprio corpo e o direito de sermos protagonistas na nossa própria vida, inclusive (e especialmente) no momento em que geramos outra vida.

Queremos a informação e o apoio ao parto natural e ativo vindo bater a nossa porta ao invés desse cesarismo que invade a nossa casa. 

Ps. E para quem ainda não viu, aqui está o famoso vídeo que fez o Brasil morrer de amor.

domingo, 13 de maio de 2012

O terrorismo da gravidez


O dia mais assustador da minha vida foi assim: Era uma tarde de verão, eu havia faltado no meu novo – e maravilhoso – emprego por ter passado mal, algo que parecia ser meio enxaqueca, meio crise de labirintite, meio mal estar, fraqueza, falta de ferro, enfim, estava tudo meio esquisito no meu corpo. Eu fui pegar os exames que havia feito no começo do dia. Era bem pertinho, fui então a pé, já pensando em depois de conferi-los passar na doceria para comer um pedaço de bolo. Eu fui andando na rua, passando exame por exame eu cheguei a causa de meu mal-estar: Beta HCG quantitativo.

Eu estava grávida. E aí meu mundo caiu. Me escorei em um prédio e me agachei no chão de uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Chorando em soluços desesperadamente. Ali senti minha vida acabar, pensei em todo o horror que uma gravidez inesperada representa, pensei em todos os meus sonhos sendo destruídos, na minha vida sendo esmagada. Tudo o que eu era foi quebrado de repente com o resultado de um exame.

Mas o estranho nessa história é a verdade é que eu sempre quis ser mãe. Pensava em adotar, sozinha, depois dos 30, mas de qualquer forma, queria ser mãe e nunca escondi isso de ninguém. Minha imagem de um futuro maravilhoso sempre teve uma criança que eu iria buscar na escola de bicicleta e que me ajudaria a pintar uma parede da casa enquanto ouvíamos Ceumar. Mas não aconteceu assim. Aconteceu que eu engravidei aos 20 anos e então tudo parecia perdido.

Eu me descobri grávida na sexta-feira que antecedia o dia das mães. No domingo saímos para jantar eu, meu irmão e minha mãe, como forma de comemoração, claro. O garçom veio perguntar o que iríamos beber e eu me lembro exatamente da resposta que pensei: “Eu ia pedir vinho, mas não to podendo beber, por causa da gravidez”. Era assim, desse jeito leve e repentino que eu queria contar para eles. Esse foi o exato momento em que eu senti qual era meu verdadeiro desejo, foi minha epifania, na qual eu simplesmente soube que queria aquela criança. Mas eu me calei.

Imaginei mentalmente toda a cena: Eles com cara de surpresa, meu irmão tirando sarro da minha cara e dizendo “bem-vinda ao clube” (ele teve filho aos 19), minha mãe me abraçando e dizendo “parabéns”, tudo tão bonito. Mas então travei. Não era aquilo que ia acontecer, não podia ser. Eles iam na real me detestar e dizer que eu estraguei a minha vida. Não é isso mesmo que uma gravidez-surpresa representa?

Nós, mulheres jovens e solteiras somos aterrorizadas constantemente pelo fantasma da gravidez. A carga de negatividade colocada sobre ela é muito grande. Parece que uma gestação repentina é simplesmente o pior que pode acontecer a uma família. Sentimos que dessa forma seremos uma vergonha, é quase que uma culpa por estar “desonrando” nossos pais (quão ultrapassado é esse conceito se o colocarmos dessa forma hein?).

A imagem que rondava a minha cabeça era terrível. A de uma adolescente, irresponsável, desinformada, descuidada e sem juízo que engravidou antes da hora. Eu não podia ser essa adolescente. Qual é, eu fazia faculdade, era inteligente, ativista, trabalhava e... engravidei de repente. Essa imagem da gravidez repentina tão negativa está introjetada em nós de tal forma que nos esquecemos que, bem, métodos anticoncepcionais falham, deslizes acontecem e guess what? Pode acontecer com qualquer uma a qualquer momento.

Passei então semanas chorando dentro de casa, quieta, sem explicar para ninguém o que estava acontecendo. Sentindo que a minha vida havia acabado e que eu nunca voltaria a ser quem eu era – tendo ou não o bebê – estava tudo perdido. Eu, que antes disso nunca havia escondido nada da minha mãe, depois de acabar com todas as desculpas possíveis de serem contadas quando ela me perguntava qual era o problema, em algum momento, a beira da explosão, precisava desabafar.

Nós sentamos e eu disse: “Tá preparada?”, ela me respondeu que sim. Quase sem conseguir falar no meio de tanto choro contei que estava grávida, que havia sido uma burra (pois é! Eu achava que a culpa era só minha e que só mulher burra e desatenta engravidava), mas que daria um jeito nisso, que não ia ter o bebê, que não ia estragar a minha vida, nem a vida dela, falei, falei, falei. Ao final de todo o meu desabafo, traçamos o seguinte diálogo:

- Mas você já não tinha vontade de ser mãe?
- Tinha, mas não agora. Queria depois dos trinta, com tudo diferente.
- Eu entendo, mas ué se esse já está aí, por que a gente não aproveita fica com ele?

Calei.

- Minha filha, eu vou te apoiar integralmente.

Segui calada.

E foi assim, num passe de mágica que o meu drama acabou. Toda a tristeza, a angústia o desespero foi repentinamente tirado de mim com a mão. O apoio da minha mãe em duas frases de repente simplificou a situação e transformou aquele monstro que o meu imaginário tinha criado em um gatinho. Tá, eu teria um bebê mais cedo do que esperava. E daí? As coisas quase nunca acontecem do jeito que a gente espera mesmo.

Nós não somos nossa capacidade reprodutiva, muito menos o que escolhemos fazer com ela. Esse é um assunto que cabe apenas a nós. Ter filho aos 15, 30, 50 ou nunca é apenas uma das várias decisões de nossa vida e não deve jamais ser algo usado contra nós. Eu achava que engravidar de repente fazia de mim menos. Menos responsável, menos digna, menos capaz, menos notável. Mas isso tudo é mentira.

Hoje eu tenho a minha filha e tudo foi do jeitinho que eu esperava. Eu não tenho 30 anos, não temos nossa casinha, não pintamos as paredes, mas a sensação! A sensação de liberdade, felicidade, vida que eu imaginava que teria... é exatamente como eu pensava. De fato, o meu futuro ideal chegou, menos planejado e muito mais cedo, mas chegou.

A minha gravidez não diminuiu em nada quem eu era antes dela, tampouco transformou minha vida, quem eu sou ou qualquer coisa. Somou. Sempre fui inteira, sempre fui completa. Realizar meu desejo íntimo - e totalmente particular - de ser mãe não me completa, me transborda. 

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Fratura exposta, sentimento oculto.

Quando minha filha chora muito em outro colo e se acalma no momento em que eu a pego, dizem que está de “manha”. “Isso não é choro, isso é manha”. Para essas pessoas só devem ser atendidas as necessidades básicas: Fome, frio e dores físicas. As dores emocionais, como a saudade da mãe, a necessidade do colo são tidas como desimportantes e devem ser ignoradas gradualmente de forma que a criança se acostume com elas.


Esse desprezo pelo lado sentimental humano se inicia na infância e perdura por toda a vida. O nome “manha” passa a ser “drama” e continua não devendo ser atendido. Muito disso se dá pelo fato de que por muito tempo relacionamos os sentimentos a um conceito abstrato. As dores emocionais foram sempre vistas como “dores da alma”, quando na verdade, o responsável por estas é exatamente o mesmo que causa as dores físicas: o cérebro. São muito recentes os estudos que se dedicam a compreender a área do cérebro associada ao nosso lado emocional.

É uma forma, também, de desde o começo nos fazer engolir a “civilização” e sair de nosso estado primitivo. A emoção é inerte e quase que animalesca, dar vazão ao que se sente significa admitir nosso lado primário e por isso é algo tão desestimulado. Os sentimentos são sempre vistos de forma vergonhosa, demonstrar tristeza, angústia, frustração ou mesmo amor é sinal de fraqueza.

Além disso, é improdutivo que tenhamos emoções. Em um sistema de produção que compreende que tempo é dinheiro, é muito mais funcional que nos mostremos maquinários. Dessa forma robotizada não temos falha alguma aceitável que não nossas “peças”.

É um absurdo, por exemplo, que tenhamos direito a quantos dias de atestado a medicina julgar necessários, porém legalmente só nos dão direito a dois dias (!) de luto diante da morte de parentes em primeiro grau. Como estipular um prazo – e tão pequeno – para a superação de uma perda? Por que não podemos trabalhar com uma perna machucada, mas está ok ignorar a dor causada por algo como a morte de uma pessoa próxima e querida?

Ignorar esse tipo de dor é prejudicial a saúde. A depressão já é hoje considerada a doença do século e continuará a aumentar quanto mais considerarmos vergonhosa a expressão do que sentimos e, por consequência, quem verdadeiramente somos.

Não se trata de estimular a vivencia empírica e irracional de nossas experiências. Pelo contrário, os recentes estudos na área da inteligência emocional demonstram que a valorização dos sentimentos humanos desde a primeira infância estimula o aprendizado e permite que as outras partes do nosso cérebro se desenvolvam melhor. Trabalhando o ser humano por completo conseguimos um crescimento pessoal plural nos mais diversos campos do nosso ser.

A criança que tem suas necessidades emocionais atendidas e supridas cresce um adulto com autoestima, mais independente, feliz e capaz de lidar com o que sente. Tanto os sentimentos positivos quanto negativos devem ser escutados, jamais ignorados e abafados. Dando a devida atenção às emoções conseguimos canalizá-las de maneira benéfica e produtiva para nós mesmxs e para o mundo ao nosso redor.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Sufocamento materno e sexual

A princípio quero deixar claro que falo de maternidade por ponto de vista particular. Mas acredito que esse texto se encaixa na questão da parentagem em geral: pais, mães, parturientes ou não, enfim, todo tipo de família, nas relações que criam ao longo da convivência com xs filhxs.

Ser mãe é um tesão. Começo com essa frase porque é exatamente como tenho me sentido diante da maternidade. Com aquela excitação de quem está conhecendo partes de si mesmx até então, sabe? Enfim, um tesão.

Diante de uma etapa complicada, não planejada e revolucionária da minha vida tenho procurado muita coisa para me informar. Artigos, livros, isso e aquilo que me ajudem a compreender o assunto. Dentro disso descobri uma corrente muito forte de “ensinamento” e disciplina da maternidade e da criação dos filhos. Tolerância ao choro do bebê, necessidade de “independência” (sim, independência de um bebê, pasmem!), desapego e castigo são alguns dos pontos fortemente estimulados por esse segmento.

Nossa sociedade, apesar de apontar a maternidade como algo praticamente obrigatório, não nos permite o exercício pleno desta. A “civilização” não permite que nos vejamos como mamíferas, não podemos agir como os animais que verdadeiramente somos e, por consequência, não aproveitamos a maternidade da forma que desejamos. Afinal, prega o grupo dos civilizados que tal fase deve vir de maneira planejada, racional, e serve para nos “criar juízo”, não nos deixar mais loucas.

A repressão ao sentimento materno é muito parecida com o controle da sexualidade feminina. Querem nos dizer exatamente o que fazer e como fazer. Afinal, ninguém nega que se deva fazer sexo, mas só depois do terceiro encontro, só entre duas pessoas, só dentro do quarto, só em tais posições, só com pessoas do “sexo oposto” (e ai de quem não se enquadrar nas categorias de sexo predefinidas)... Enfim, o exercício da nossa sexualidade é lotado de regras e comportamentos considerados adequados. Não podemos dar ouvidos aos nossos desejos mais secretos, nossos instintos, às vontades particulares de nosso paladar e tato ou somos consideradas imorais. Ouvir mais nosso corpo e mente do que aos outros é um ato pecaminoso e socialmente inaceitável.

Por conta disso nem nós mesmos conhecemos e desenvolvemos nossas reais vontades. A sexualidade é sufocada a tal nível que não naturalizamos nossos desejos. Por mais que existam, sempre serão vistos por nós como errados. O mesmo acontece no exercício da maternidade. A forma de ser mãe está cercada de regras, de maneira que não nos permitimos no contato com a cria desenvolver nossa sensitividade e o retorno ao nosso estado mais primitivo que nos colocaria em um constante estado de comunicação não-verbal com nossxs filhxs.

Somos ensinadas a não aceitar o choro dx nossx bebê, a focar em sua disciplina. Uma mãe não deve pegar a cria ao colo toda vez que esta chora, também não deve dormir na mesma cama, deve desmamar porque afinal “criança andando que ainda mama é muito feio” (por mais que a Organização Mundial da Saúde diga o contrário), deve voltar a trabalhar após quatro meses e deixar a criança na creche... Milhares de regras que nos dizem o que devemos ou não sentir frente à situação de ser mãe.

É claro que não nos perguntaram se preferimos deixar que nossxs filhxs chorem no berço a pegar-los no colo e fazer carinho, também não interessa se gostamos de dormir e tomar banho com elxs. E se a maioria das mães se sente culpada por voltar a trabalhar tão cedo (por favor, que licença-maternidade é essa?) já dizem que é por estar apegada demais. Não considera pensar que simplesmente a mulher em questão pode preferir estar com x bebê?

A maternidade selvagem é reprimida tanto quanto a sexualidade feminina. Vivemos uma sociedade que acredita ser civilizada demais para praticar orgias e amamentar xs filhxs até a idade que elxs quiserem. A pressão social nos sufoca e quer nos ensinar a sentir, de forma que não ouvimos nosso corpo e intuição não podendo aproveitar assim o melhor de nós mesmxs.

Bem como o sexo é pessoal, cada mãe deve se permitir desenvolver, ao longo da convivência com sua cria, um jeito singular de comunicação e compreensão das necessidades e desejo de ambos. Para que cada mulher possa aproveitar a maternidade da maneira que desejar. Com apego, com carinho, com amor.