"É meu corpo e deveria ser minha escolha. O fato de não ser minha escolha é absolutamente nojento"
No final de agosto, várias famosas tiveram sua privacidade violada, entre elas Jennifer Lawrence. Várias fotos íntimas dela e de outras mulheres conhecidas no mundo do entretenimento foram roubadas e posteriormente colocadas na internet. Não preciso dizer que as fotos foram disponibilizadas sem o consentimento das vítimas, né?
Após o vazamento criminoso das fotos, as vítimas foram ofendidas e culpabilizadas, afinal, dentro do patriarcado, a sexualidade feminina é sempre atacada. As fotos das artistas rodaram o mundo, a internet em peso compartilhou as imagens ou pelo menos as visualizou.
A Atriz Mary E. Winstead, uma das vítimas dessa exposição em massa, publicou em seu twitter uma crítica a quem buscou as fotos dela com uma mensagem que poderia ser traduzida como "Para aqueles que estão olhando as fotos que eu tirei com meu marido há anos atrás na privacidade da nossa casa, espero que vocês se sintam ótimos com vocês mesmos."
Jennifer Lawrence demorou para se pronunciar sobre o acontecido, até que na entrevista para a revista Vanity Fair, a atriz falou sobre e como tamanha exposição mexeu com ela. Na matéria, ela deixou claro que o que ocorreu não foi um escândalo ou uma polêmica e sim um crime sexual.
Ela afirma que temeu como a repercussão do caso poderia atrapalhar sua carreira e que tentou escrever diversas vezes sobre o acontecido, mas que sempre acaba ou com raiva ou chorando. Ela afirma também que chegou a começar a escrever um pedido de desculpas, mas que viu que não tinha motivo para se desculpar. A atriz falou várias vezes sobre o corpo ser dela e sobre escolha, deixando claro que visualizar as fotos vazadas é uma violação da escolha dela de não divulgá-las. Uma violação de consentimento.
Ao conceder essa entrevista, ela deu voz para várias mulheres que foram vítimas de revenge porn e que nunca tiveram onde se manifestar para serem ouvidas, mulheres que sofreram as consequências da exposição de imagens íntimas numa sociedade machista. Ela deixou claro que o vazamento criminoso de fotos é um crime sexual e que não deve ser relativizado por causa da existência das fotos e vídeos íntimos.
Jennifer
Lawrence fez um favor para todos nós que combatemos o revenge porn, a objetificação do corpo designado feminino, a culpabilização da vítima e a demonização da sexualidade feminina ao dar um chega pra lá em todo mundo que diz "mas as fotos já
vazaram mesmo" e buscam as fotos vazadas e as compartilham.
Se as imagens estão na internet porque foram disponibilizadas sem o consentimento das fotografadas e filmadas, você ao buscar uma forma de visualizar as fotos viola a escolha dela de não ter essas fotos vistas por mais ninguém além do real destinatário.
Jennifer Lawrence disse "Até pessoas que conheço e amo me disseram que viram as fotos. Não quero ficar com raiva, mas ao mesmo tempo penso que não disse a elas que elas podiam olhar para meu corpo nu". Vale a pena lembrar toda vez que ocorrer casos de revenge porn que não temos autorização para ver esses corpos, já que não somos destinatários desses nudes.
Em uma sociedade que a sexualidade feminina é colocada sempre como acessória da masculina, em mais uma afirmação da heteronormatividade vigente e também do machismo, é de se esperar que mulheres que amam/desejam/se sentem atraídas por mulheres sejam vistas como aberrações.
O fato dessas mulheres não se sentirem atraídas por homens ou apenas por homens, as coloca como indesejáveis dentro do patriarcado. A sexualidade feminina ser colocada como algo que só existe para agradar homens se desdobra em dois fenômenos muito conhecidos pelas bissexuais e lésbicas que é a transformação da sexualidade delas num fetiche para homens héteros e a negação da sexualidade delas como existentes. Como, dentro do patriarcado, a mulher não é vista como sujeita de si e nem de sua sexualidade, ao fetichizar as relações entre mulheres, coloca-se o desejo que existe entre elas como algo inexistente, como se elas estivessem relacionando entre si apenas para agradar a sexualidade masculina. Numa mesma tacada invisibiliza-se lésbicas e as bissexuais e coloca como inexistente o desejo entre mulheres ao reduzir a sexualidade delas ao fetiche masculino.
Marcha das Vadias de Curitiba
"Sou uma mulher bissexual e só passei a reconhecer minha sexualidade dessa forma com o feminismo, porque deixei de encarar o "gostar de mulher" como algo anormal e perceber o meu desejo como parte de quem eu sou. Há algum tempo atrás, estava entre algumas amigas e comentei sobre minha sexualidade e elas a desqualificaram. Foi dito, entre várias coisas absurdas, que eu não era bissexual porque eu namoro um homem e que minhas experiências com mulheres eram apenas uma fase. E não foi só isso: começaram a me interrogar sobre quantas mulheres eu já tinha ficado e quem eram elas, como se houvesse uma quantidade certa de mulheres pra eu poder me reconhecer como bissexual, porque elas só sabiam de uma das minhas vivências. Não tenho palavras pra definir o quanto me senti mal, porque além de duvidarem da minha voz e autonomia pra afirmar "sou bissexual", o interrogatório que fizeram foi num tom tão inquisidor, num tom de que duvidavam das minhas experiências e por isso queriam saber nomes. Isso me revoltou não só como mulher bissexual, mas também como "amiga". Percebi que a bifobia é presente até mesmo em grupos de pessoas que se consideram progressistas, porque o tempo todo a minha bissexualidade foi ligada ao fato de eu estar solteira, como se fosse uma fase de carência e rebeldia. Foi colocado até que provavelmente eu ficava com mulheres pra "chamar atenção". O que me surpreende é quando beijei uma mulher pela primeira vez, contei para minha mãe que eu era bissexual e ela aceitou tranquilamente e a mesma afirmação num grupo de amigas distantes nos levou para uma polêmica desrespeitosa. Vejo que a minha afirmação de que eu também gostava de mulheres incomodou tanto justamente pelo fato de atualmente eu namorar um homem. Parecia impossível para essas pessoas que mesmo num relacionamento hétero e monogâmico eu continuasse a afirmar que eu também gostava de mulher. Percebi que por mais que todas ali soubessem das minhas experiências com mulheres, isso não importava, porque elas consideravam o relacionamento com um homem como uma espécie de cura, uma prova de que "a fase passou"." - Patrícia*, nome fictício.
O relato acima mostra um dos aspectos da bifobia que é a tentativa frequente de afirmar que a bissexualidade é só uma fase. No caso das mulheres bissexuais, isso se desdobra em falas como "você se relacionava com mulheres para chamar atenção", no caso, a ideia presente nessa frase é de que aquelas relações só aconteciam com finalidade de atrair a atenção masculina, justamente por causa da fetichização da relações entre mulheres.
"Eu sempre fui reservada. Associei por anos a vida afetiva e sexual ao privado, não gosto de me expor, não gosto de chamar atenção. Simplesmente é meu modo de conduzir minha vida. Então, essa ausência de companhia me alocou sempre em categorias. Ou eu era a amiga feia encalhada, ou a garota cubo de gelo, ou a estudiosa sem tempo, ou a promíscua velada, ou a sapatão, ou a má influência para as amigas comprometidas. Tantos rótulos. O que eu demorei a notar é que o pior dos rótulos era meu. Eu tinha medo de demonstrar publicamente qualquer modo de afeto por preconceito contra quem eu sou. E eu sou bisexual. Minha introversão tinha a função de blindar meus sentimentos. Não queria ser apontada como a indecisa, ou aquela que tem medo de enfrentar a sua sexualidade e, por segurança permanece em cima do muro. Sim, eu gosto de meninas. Sim, eu gosto de meninos. E não vejo o motivo pelo qual essa minha flexibilidade de gostar de pessoas incomodar outras pessoas. Num domingo desses, enquanto eu cozinhava com minha mãe, ela fez um comentário sobre o posicionamento de um primo meu. Ele deixou de usar a expressão "amigo" para convidar familiares para o casamento com seu "companheiro". No comentário ela falava em coragem. Não como algo valente, como orgulho, foi com o toque de que finalmente ele havia saído do armário. Foi com esse tom que eu senti que não poderia me manter silente. E falei que eu gosto de meninas. Também. Bem assim, que eu somo afetos, que eu não excluo gêneros. A reação dela foi de choque seguido de imediato questionamento "você pratica isso?". A cara de nojo que ela fez me reduziu a uma afrontadora. Que eu poderia ser quem eu sou, escondido, sem que ela saiba de qualquer detalhe que lhe cause ojeriza. Desde então não falamos sobre, mas a cada saída minha, quando eu durmo fora, ela procura reforçar que não confia em mim, nas pessoas com as quais eu me relaciono e meus amigos. Ela reverteu isso tudo para um ataque pessoal. A filha rebelde que não nasceu para dar a ela os netos desejados. A filha dela que não nasceu para casar no altar vestida de branco. A filha dela que a envergonharia caso aparecesse com uma outra moça.Parece que é impossível para ela aceitar que a filha que a ama, e que espera pelo amor de volta, possa também amar outras mulheres. Que essas duas formas de amor não podem coexistir em mim." - Bárbara*, nome fictício.
Mais um relato e mais uma faceta de como age a discriminação. O caso acima relatado expõe como qualquer orientação sexual diversa da hétero é vista em nossa sociedade, como uma mancha na honra da família, uma vergonha. É comum ouvir pessoas falando que até aceitam pessoas não héteros, desde que elas vivam sua sexualidade só entre quatro paredes e afins. A frase tem a intenção de passar uma ideia de aceitação do outro, mas na verdade só passa a mensagem de que a sexualidade não hétero deve ser escondida, pode até existir, desde que não seja exposta, desde que os envolvidos não andem de mãos dadas na rua, beijem em público, se definam como companheirxs.
"São Paulo, Praça Roosevelt, 21 de junho de 2013. Estava com um grupo de pessoas próximas que protestavam contra o projeto de lei que propunha a autorização da Cura Gay por psicólogos. Vi a alegria das pessoas se esvaziar em minutos. Nossos celulares alertavam de um perigo: supostamente um grupo de neo nazistas estava se dirigindo ao ato para causar confusão. A comoção, ao menos no grupo que eu compunha, foi geral. Eu vi amiga chorando. Eu vi pessoas criando estratégias para não sofrer qualquer tipo de violência física. Conversas e gargalhadas, que estavam prometidas para o pós ato, foram trocadas por um esquema de abandonar o local em grandes blocos. Tentando não transparecer nessa atitude nossos medos e nossa orientação sexual.Um ato que era para celebrar nossa diversidade, demonstrar o absurdo que é a tentativa de cura para pessoas que só sofrem pelo preconceito alheio. Um ato derrotado pelo medo. Até quando teremos que ocultar nossa existência em prol do preconceito alheio? Não quero mais sentir medo." - outro relato de Bárbara*, nome fictício.
O medo também ronda a realidade das mulheres que se relacionam com mulheres. Ele existe em casa, na hora de dizer para a família sua sexualidade, no medo dos pais descobrirem e ser expulsa de casa. Existe na rua, na hora de voltar para casa, na hora de sair com a companheira. Existe dentro de estabelecimentos, quando todo mundo ao seu redor pode se beijar, dar as mãos e se você o faz recebe olhares tortos de muitos e às vezes até "convites" para se retirar do lugar. Existe quando dizem "você precisa de um homem pra te consertar", como se a orientação sexual que difere da hétero fosse algo a ser consertado e curado, e ainda usando uma frase que é um dos pensamentos base do estupro corretivo.
O medo existe, mas a luta continua e é necessário dar a ela visibilidade para fortalecê-la. Cada relato é uma forma de expor as nossas vivências, denunciar as discriminações sofridas e argumentar contra a lesbofobia, bifobia, homofobia e transfobia. Relatos são uma forma de quebrar a invisibilidade que cerca as relações entre mulheres, é dizer que não concorda com Felicianos e Malafaias da vida.
Esse texto faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo True Love.
Eu é que não vou mentir, curto a novela Avenida Brasil. A Zona Sul do Rio de Janeiro tirou férias do horário nobre, a bola da vez é a Zona Norte. Lá fica o fictício bairro "Divino" que é muito mais interessante. Os personagens da novela refletem a ascensão das classes sociais no Brasil. De forma totalmente realista? Não. Quando eu digo que "reflete", quero dizer que o telespectador começa a querer se sentir representado. Quando o Manoel Carlos colocava uma Helena branca e rica na tela da TV, indiretamente o que se pode compreender é que apenas ricos escrevem a história, o dinheiro é o que torna possível ser agente do seu próprio destino, os pobres seguem conforme a maré, sendo, na maioria das vezes o núcleo engraçado da novela.
Vilã e mocinha são
pessoas cheias de defeitos
Ainda que Avenida Brasil continue tendo protagonistas ricos, integram o grupo denominado "novo rico", que um dia foi pobre, e agora possui grana e disposição para gastar, mas sem o refinamento típico dos personagens do Manoel Carlos. Os personagens são moradores do Divino, jogadores de futebol, a mocinha é a (rica) empregada doméstica. E num arroubo dramático, a mãe adotiva da personagem principal mora no lixão. E ninguém é perfeito, todos tem pequenos deslizes morais em sua história, incluindo a mocinha sofredora e vingativa. Dentro desse contexto, cada personagem dá um texto, quiçá uma tese. Hoje, entretanto, vou focar em dois personagens que conquistaram o carinho do público. A piriguete Suellen e o gay Roni.
Vejamos o que diz o site da novela sobre Suelen:
"Musa mau-caráter do Divino. Trabalha na loja de Diógenes, mas vive faltando ao serviço para ficar assediando os jogadores de futebol. Maria-chuteira clássica, sua meta é se casar com um craque e se mudar para o exterior. Esconde um passado misterioso."
Se quem deu esse resumo ao site foi o autor, nem ele deve compreender o monstro que criou. Quando digo monstro, não falo de forma pejorativa, me refiro ao tamanho e densidade que a personagem hoje possui. Suelen é demais. Os mais apressados dirão que Suelen é uma mulher sem caráter, que não se dá ao respeito. Pois bem, se você pensa dessa forma, amigo, volte para os anos 50. "Se dê ao respeito" é uma das coisas mais machistas constantemente repetidas nos ouvidos das mulheres, pois significa "comporte-se". Pedir que uma mulher se dê ao respeito é o mesmo que dizer que ela abra mão da sua liberdade sexual, pela qual tantas mulheres lutaram. E Suelen é a liberdade sexual personificada, por isso incomoda. Ela deu pra todo mundo porque, quando e como quis. E também deixou de dar quando não quis.
Outros ainda chamarão Suellen de interesseira, de mulher que não sabe amar (como a própria atriz Isis Valverde falou para o Faustão no programa do dia 08/07). Mas a Suellen é mais, muito mais do que isso. O "passado misterioso" a que se refere a descrição de Suelen é que ela já foi garota de programa e o seu ex-cafetão é obviamente um explorador, que já chegou a ameaçá-la e a bater nela em alguns episódios. Suelen é interesseira? Sim. Mas o que dizer dos homens que desejam dela apenas o corpo, um momento de diversão, que a objetificam, a usaram, humilharam e até bateram nela? Ninguém está por aí falando mal dos caras com quem ela fez sexo na novela. À piriguete couberam todos os julgamentos morais, por ser mulher, por ser ex-prostituta, por gostar de sexo, por não se envolver e por gostar mais de dinheiro que de homem (e olha que ela gosta muito de homem!). Entre uma cena e outra, ela diz "Já passei por muita coisa dura nessa vida. Mas nunca matei, nunca roubei, nunca fiz mal a ninguém. Só a mim mesma".A conduta sexual da Suelen não é atestado de seu caráter. Suelen é interesseira, mas no quesito dinheiro é sincera. Fala claramente para quem quiser ouvir que está interessada principalmente (e não apenas) no dinheiro. Acho que a cena que melhor mostra as diversas facetas de Suelen e como ela possui valores morais é uma em que ela repreende Lúcio pela forma como trata a mãe. Você pode ver aqui.
Se Suelen é a mulher julgada por todos pela sua conduta sexual, Roni é julgado pela sua orientação sexual. Duas faces do machismo, duas vítimas do mesmo ódio. Roniquito é o filho querido de um pai machão e de uma mãe evangélica. Jogador de futebol, mesmo que esse não seja o grande sonho de sua vida (e sim de seu pai), Roni é craque. E não consegue fechar com um grande time por causa da homofobia. Nossa sociedade machista e homofóbica botou o futebol como o esporte que reflete a virilidade e todo um ideal de masculinidade. Tanto é que ainda tem muita gente por aí que repete igual vitrola quebrada que "mulher não entende de futebol" e nunca ouviu falar de Marta ou de Formiga.
Entendidos os personagens, vamos aos fatos que inspiraram esse texto: Suelen foi presa e seria deportada para a Bolívia, seu país de origem. E Roni quer muito entrar para um grande time de futebol. A mãe, evangélica, convence o filho a pedir Suelen em casamento com a desculpa de que um casamento de fachada irá dissipar os rumores sobre a sua orientação sexual, mas na verdade o que ela realmente quer é "curar" o filho da doença que ela pensa existir. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.
No princípio, eu comemorei o casamento de fachada de Suelen e Roni. Pois achei que essa era a forma dos dois de lutar contra a opressão que os acometia. Ele deixou claro que o casamento evitaria a deportação e que seria um relacionamento aberto e portanto ela poderia manter a sua liberdade sexual e ele poderia finalmente ser um jogador de um grande time. Eu imaginava que esse casamento não duraria muito porque é novela e todos os segredos são revelados no final e o segredo dos dois é grande demais para permanecer nas sombras. Um casamento de fachada vai contra o final feliz que normalmente é adotado pela globo, que quase sempre reafirma que a felicidade só pode vir da família tradicional, do casamento, dos filhos e da monogamia.
Porém, o meu maior temor é outro. A união da piriguete e do gay não é novidade numa novela do João Emanuel Carneiro. Em "a Favorita", Orlandinho casou-se com Maria do Céu. O resultado no passado foi uma ex-piriguete e um ex-gay. O tratamento dispensado aos gays e às piriguetes não é a liberdade de ser, de existir, de agir, de amar quem quiser. Em vez de admirar a beleza do ponto fora da curva, a tendência é a de voltar todo mundo para o seu lugar heteronormativo, machista e castrador.
Quem dera esses fossem os únicos exemplos de ex-gays em uma novela ou série da Globo. Recentemente também tivemos uma série toda em volta dessa temática: "Macho-man", onde o personagem principal sofre um pequeno acidente e SE TORNA heterossexual (Socorro, gente, não dou conta dessa série...).
Na novela Caras & Bocas, do Walcyr Carrasco, teve o casal queridíssimo do público Cássio e Léa. Um gay jovem e uma mulher mais velha e heterossexual.
Beijo gay que é bom, cadê? LGBTs* não se relacionam seriamente com ninguém nas tramas da globo. Até existiram alguns exemplos, mas nunca vimos um só beijo. No máximo troca de olhares, insinuações. Ou mesmo amor sem carícias. Tudo fica implícito. Não são a piriguete e o gay que não sabem amar, é a Globo que não sabe diversificar. Mulheres piriguetes em geral acabam por se apaixonar por um homem para se redimir da sua conduta sexual pregressa. E gays em novela são em sua maioria tipos engraçados, pois só assim o homossexual é aceito, fazendo um papel risível, gerando situações cômicas. O drama de ser homossexual é invisibilizado (não vou nem falar de trans e lésbicas, que o buraco é muito mais embaixo e dá todo um outro texto). A Globo, como maior produtora de novelas da TV aberta, não pensa fora da caixa: até bota os holofotes sobre o personagem polêmico, mas tem feito aquilo que toda a bancada evangélica tenta fazer a tanto tempo: calar mulheres, exterminar/curar homossexuais.
A heteronormatividade da Globo me leva a crer que o futuro de Roni e Suelen está traçado, que haverá um casamento mais padrão do que eles esperam. Só me resta torcer para que minhas suspeitas sejam infundadas, que João Emanuel Carneiro continue demonstrando a sensibilidade com que tratou os dois personagens até aqui, sem fazer de Roni uma piada e nem de Suelen um estereótipo. Esperamos que o autor não faça de "Roni e Suelen" outro "Orlandinho e Maria do Céu" e eles possam ser simplesmente livres. Um gay e uma piriguete até o último episódio dessa novela, que até aqui tem sido tão boa.
"Então mama, pega no meu grelo e mama Me chama de piranha na cama Minha xota quer gozar, quero dar, quero te dar"
Aviso
axs navegantes: este é um post pró-Valesca Popozuda. Se você é do tipo
que não suporta a moça porque _______ (insira aqui algum juízo de
valor), eu desaconselho fortemente a leitura deste texto. Ou não, já que
o debate saudável é sempre bem-vindo :-)
Já perdi a conta das vezes que li e ouvi coisas do tipo: “as mulheres lutaram tanto pela liberdade e agora vem um lixo humano desses e faz uma COISA assim” (tudo sic, com grifos apavorados meus). E a polêmica da vez ficou por conta do novo hit da Valesca, Mama,
que conta com mais de 1 milhão de visualizações no iutúbi (trata-se de
um pagode “proibidão” feito em parceria com Mr. Catra).
Pois
bem. Não demorou muito e vimos o fatídico comentário circulando nas
redes sociais, todo envergonhadinho da “liberdade” concedida às
mulheres. E sinceramente? Esse comentário e suas variantes só evidenciam
o quanto a luta ainda é necessária. Dá muita preguiça de explicar, mas
não tem outro jeito: em uma sociedade patriarcal como a nossa, a noção
de moralidade também se dá em termos de opressão. E não é preciso uma
bola de cristal para adivinhar que, ainda que a sociedade esteja em
pleno avanço e as mulheres tenham conquistado um espaço público cada vez
maior, ainda falta muito para que a sexualidade feminina não assuste.
Pensemos
um pouco na sexualidade humana como socialmente construída. Por muito
tempo, o silêncio a respeito era a palavra de ordem. Foi assim até que
um dia os cientistas, do alto de seus aventais, resolveram dar caráter
acadêmico a tudo o que uma outra galera, a de batinas, dizia que era
“normal”. Estava posta a Scientia Sexualis que,
segundo Foucault, foi a maneira ocidental de discursivizar (e por que
não controlar?) o sexo. Falar de sexo passou a ser necessário e até
desejável. Porém, a sexualidade feminina continuou a ser paulatinamente
ignorada, tratada sempre como mera coadjuvante no processo de dar prazer
ao homem.
E
por que eu tô fazendo toda essa digressão? Pra explicar que não, você
não é obrigadx a gostar da Valesca. Você não precisa adicionar o funk à
sua playlist. Mas não custa parar para refletir que, para além da
dicotomia liberdade x libertinagem, é preciso pensar nos processos de
poder que normatizam a gente, inclusive sexualmente. E isso inclui uma
séria análise de quais discursos estamos defendendo. Porque, a partir do
momento em que a nós, meros mortais, foi dado o direito de colocar o
sexo em palavras, algum poder nos foi sim conferido. E uma Valesca
falando abertamente de sexo, de forma crua e não-floreada, está se
utilizando desse poder e mostrando à sociedade que uma mulher também
pode sentir prazer.
Com
tudo isso, chegamos noutro ponto que precisa ser discutido aqui: a
questão social que envolve as músicas da Valesca, incluindo a música
Mama. Há um incômodo com o fato de a Valesca se colocar como uma mulher
que tem vida sexual ativa e diz isso abertamente? Sim. Porém, a bronca
toda não se restringe a isso. O que incomodou e ultrajou até a galere de
bom nível intelectual foi mesmo a linguagem utilizada. Porque a
linguagem é popular. E a elite tem pavor de tudo que considera “vulgar”,
especialmente em se tratando de sexo.
Dessa
forma, se considerarmos todo o processo que levou o ocidentinho a
transitar de uma situação de total proibição de verbalizar o sexo, para a
total transformação deste em discurso - primeiramente através das
confissões dadas aos padres e mais adiante em forma de “receitas” dadas
por especialistas para “melhorar” e, porque não, regular o ato sexual -
veremos que ainda estamos muito presos e guess what? A prisão se dá,
essencialmente, pela linguagem. Em outras palavras, o que ficou muito
evidente nessa discussão toda é que a elite ainda sente a necessidade de
sutileza, de trejeitos para falar de sexo, se negando a aceitar que tem
cu, buceta e pau tanto quanto a classe popular. O sexo explícito dessa
forma dá a impressão de algo sujo, bem distante da realidade de uma
elite que quer fazer sexo com álcool gel.
Portanto, Valesca e suas variantes são
uma afronta à lógica vigente, que determina o que tem ou não valor
artístico, segundo sua própria visão do que seria adequado a cada
gênero. Lembremos que os Mamonas Assassinas falaram coisas como “sabão
crucru, não deixa os cabelos do saco enrolar com o do cu” e não foram
julgados. A Valesca fala da própria sexualidade utilizando palavras
similares e é julgada. Assim como uma Rihanna que toca a própria vagina
em seus clipes e, ao contrário do que ocorria com um Michael Jackson ou
Axl Rose, é execrada pelos moralistas de plantão. A própria Letícia (cem homens) tem um exército de trolls prontos a odiá-la pelo simples fato
de ter o controle da própria sexualidade e verbalizar isso.
E
o debate não se esgota aqui. Ainda há muito o que ser falado. Há,
inclusive, que se pensar no fato de a Valesca ser ou não feminista (já
adiantamos que sim, ela é feminista, e isso independe dela se
auto-intitular, ter consciência ou não disso). Porém, como o post está
assaz extenso, deixemos o debate feminista para outra feita. Beijos
Valescanos!
* Post escrito por Flávia Simas com colaboração de Paula Mariá, Gizelli, Elisa e Thaís Campolina.
"Quanto tempo os homens querem que o sexo dure?", "10 coisas que ele nunca quer ouvir você dizer" e outras frases afins. A frase no meio é "Por que uma revista que é feita pra mim fala tudo sobre ele?"
Me preocupa a forma que as revistas destinadas ao público feminino falam sobre sexo. As principais chamadas são “Como agradar o seu parceiro?”, “Descubra o que os homens gostam na hora H” e coisas do tipo.
O prazer feminino é sempre deixado de lado e quando é falado se resume ao orgasmo. E pra ilustrar o quanto a qualidade essas reportagens anda ruim, já vi numa dessas revistas até um manual para mulher aprender a fingir orgasmo. (Afinal, o orgasmo feminino muitas vezes assume o significado de uma prova da virilidade masculina, uma amostra do poder dele. Ou seja, até mesmo o orgasmo feminino é visto como algo pra agradar o homem).
Coerção/coação não é consentimento
Lembro de um episódio de The Big Bang Theory que ilustra bem como o prazer feminino é visto pela sociedade. A cena é a seguinte: Leonard e Penny fizeram sexo. Ao comentar sobre a experiência, Leonard falou que foi “just nice”, que seria algo meio que “foi bonzinho”. E o personagem Howard disse algo como “Foi bonzinho pra você ou só pra ela? Porque se foi só pra ela tá tudo bem”.
A invisibilidade do desejo sexual feminino e o tratamento dele como algo sem importância é rotineiro e revoltante, mas além dele me preocupa também esse discurso que o sexo é um instrumento para a mulher conseguir o que quer e manter um relacionamento. Parece que nenhuma mulher pode realmente gostar de sexo. Mais uma vez nos deparamos com a questão de “feminilidade” e da “masculinidade”. O sexo para a mulher seria algo íntimo, afetivo, enquanto que para o homem seria uma forma de se provar másculo e viril. As revistas femininas colocam o sexo como uma obrigação numa relação heterossexual, a obrigação parte da ideia de que a mulher precisa daquele relacionamento, precisa do afeto, do carinho, enquanto o homem precisa do sexo em si. E todo o relacionamento heterossexual parte (supostamente) dessas “diferentes necessidades”. A mulher oferece sexo para ter carinho e afeto, enquanto o homem oferece o carinho e o afeto para ter sexo.
O consentimento feminino é tão manipulado que até a hora de dizer sim ou não para o sexo é ditada pelas revistas. Sexo no primeiro encontro é repudiado, muitas vezes a mulher adia o sexo com medo de ser mal vista, conforme as dicas das revistas afirma que vai acontecer. A sociedade diz "a mulher não deve se entregar aos seus desejos sexuais" porque isso mancharia a reputação dela. E a "hora do sim" que deveria ser quando os dois querem, sentem desejo e tesão é transformado pela sociedade patriarcal em o homem quer e a a sociedade acha que tá tudo bem, ou seja, quando a mulher já tem "o respeito" dele. Por exemplo, dentro de um relacionamento sério considera-se que a mulher deve fazer sexo quando o cara manifestar vontade ou será trocada.
O desejo sexual feminino é considerado como um apêndice do desejo sexual masculino. E toda mídia coloca a boa namorada/boa esposa como uma mulher que não nega fogo, que entende os desejos sexuais do marido e cede. E eu me pergunto onde está o nosso consentimento quando essas revistas tratam o sexo hétero como uma obrigação num relacionamento. Se uma mulher faz sexo com o parceiro porque teme ser largada, trocada, traída, tem algo muito errado ai, se uma mulher se depila de uma forma que ela não gosta porque o parceiro pede, tem algo errado ai. Se a mulher cede e faz posições que não gosta pra agradar o parceiro, tem algo errado ai.
Não é consentimento se você me faz ter medo de dizer não.
Em relação ao próprio prazer, o homem é hipersexualizado, enquanto a mulher é educada pra ser pouco sexualizada e sempre agir de forma passiva a respeito. As revistas exploram esses estereótipos dos papéis de gênero e lotam suas páginas com depoimentos onde homens falam que num relacionamento monogâmico buscam sexo fora do casamento porque a esposa não faz tanto sexo quanto eles querem, colocam o sexo deles como uma necessidade fisiológica. Numa sociedade que explora, produz e intensifica as inseguranças femininas, principalmente em torno do corpo e do padrão de beleza e é heteronormativa e monogâmica, esses depoimentos tem um poder de coação enormes. Se nós mulheres sentimos que seremos trocadas ao recusar sexo e fazemos sexo sem vontade, não há consentimento.
A princípio quero deixar claro que falo de maternidade por ponto de vista particular. Mas acredito que esse texto se encaixa na questão da parentagem em geral: pais, mães, parturientes ou não, enfim, todo tipo de família, nas relações que criam ao longo da convivência com xs filhxs.
Ser mãe é um tesão. Começo com essa frase porque é exatamente como tenho me sentido diante da maternidade. Com aquela excitação de quem está conhecendo partes de si mesmx até então, sabe? Enfim, um tesão.
Diante de uma etapa complicada, não planejada e revolucionária da minha vida tenho procurado muita coisa para me informar. Artigos, livros, isso e aquilo que me ajudem a compreender o assunto. Dentro disso descobri uma corrente muito forte de “ensinamento” e disciplina da maternidade e da criação dos filhos. Tolerância ao choro do bebê, necessidade de “independência” (sim, independência de um bebê, pasmem!), desapego e castigo são alguns dos pontos fortemente estimulados por esse segmento.
Nossa sociedade, apesar de apontar a maternidade como algo praticamente obrigatório, não nos permite o exercício pleno desta. A “civilização” não permite que nos vejamos como mamíferas, não podemos agir como os animais que verdadeiramente somos e, por consequência, não aproveitamos a maternidade da forma que desejamos. Afinal, prega o grupo dos civilizados que tal fase deve vir de maneira planejada, racional, e serve para nos “criar juízo”, não nos deixar mais loucas.
A repressão ao sentimento materno é muito parecida com o controle da sexualidade feminina. Querem nos dizer exatamente o que fazer e como fazer. Afinal, ninguém nega que se deva fazer sexo, mas só depois do terceiro encontro, só entre duas pessoas, só dentro do quarto, só em tais posições, só com pessoas do “sexo oposto” (e ai de quem não se enquadrar nas categorias de sexo predefinidas)... Enfim, o exercício da nossa sexualidade é lotado de regras e comportamentos considerados adequados. Não podemos dar ouvidos aos nossos desejos mais secretos, nossos instintos, às vontades particulares de nosso paladar e tato ou somos consideradas imorais. Ouvir mais nosso corpo e mente do que aos outros é um ato pecaminoso e socialmente inaceitável.
Por conta disso nem nós mesmos conhecemos e desenvolvemos nossas reais vontades. A sexualidade é sufocada a tal nível que não naturalizamos nossos desejos. Por mais que existam, sempre serão vistos por nós como errados. O mesmo acontece no exercício da maternidade. A forma de ser mãe está cercada de regras, de maneira que não nos permitimos no contato com a cria desenvolver nossa sensitividade e o retorno ao nosso estado mais primitivo que nos colocaria em um constante estado de comunicação não-verbal com nossxs filhxs.
Somos ensinadas a não aceitar o choro dx nossx bebê, a focar em sua disciplina. Uma mãe não deve pegar a cria ao colo toda vez que esta chora, também não deve dormir na mesma cama, deve desmamar porque afinal “criança andando que ainda mama é muito feio” (por mais que a Organização Mundial da Saúde diga o contrário), deve voltar a trabalhar após quatro meses e deixar a criança na creche... Milhares de regras que nos dizem o que devemos ou não sentir frente à situação de ser mãe.
É claro que não nos perguntaram se preferimos deixar que nossxs filhxs chorem no berço a pegar-los no colo e fazer carinho, também não interessa se gostamos de dormir e tomar banho com elxs. E se a maioria das mães se sente culpada por voltar a trabalhar tão cedo (por favor, que licença-maternidade é essa?) já dizem que é por estar apegada demais. Não considera pensar que simplesmente a mulher em questão pode preferir estar com x bebê?
A maternidade selvagem é reprimida tanto quanto a sexualidade feminina. Vivemos uma sociedade que acredita ser civilizada demais para praticar orgias e amamentar xs filhxs até a idade que elxs quiserem. A pressão social nos sufoca e quer nos ensinar a sentir, de forma que não ouvimos nosso corpo e intuição não podendo aproveitar assim o melhor de nós mesmxs.
Bem como o sexo é pessoal, cada mãe deve se permitir desenvolver, ao longo da convivência com sua cria, um jeito singular de comunicação e compreensão das necessidades e desejo de ambos. Para que cada mulher possa aproveitar a maternidade da maneira que desejar. Com apego, com carinho, com amor.