segunda-feira, 30 de julho de 2012

Cultura do estupro, da propaganda da Prudence às piadinhas de estupro.


Um exemplo de como a cultura desvaloriza a mulher que faz sexo.
Via Slut Shaming Detected.
Numa cultura onde homens são valorizados por fazer muito sexo e com várias mulheres  e mulheres são desvalorizadas se fazem sexo, não é surpreendente que surjam muitas imagens no Facebook "ensinando" homens a "conseguir sexo". Nessas imagens, a vontade da mulher é completamente ignorada; afinal, na nossa sociedade, mulher não tem desejo sexual - ela faz sexo ou deixa de fazer por "interesses". A maneira mais mostrada de "levar uma mulher para a cama" é o pagamento de jantares e presentes, e tudo isso do mais caro e do melhor. O consentimento feminino é tratado como comprável, pois só em troca de algo valeria a pena para a mulher fazer sexo - já que fazer sexo é "se desvalorizar". Nesse ponto, muitos homens se revoltam, porque ao receber um "não" depois de todo "esse trabalho e dinheiro gasto", eles se sentem enganados. Se o jantar foi pago, pronto: na cabeça de tais homens, a mulher é obrigada a consentir.

Outro ponto, até mais assustador, é o incentivo ao uso de substâncias como o álcool (e, às vezes, outras drogas) para "dopar" a mulher e assim "conseguir sexo". Nesse caso, o consentimento da mulher é completamente ignorado e nem se faz questão de "conquistá-lo" - afinal, se ela bebe em companhia de um homem, "ela tá pedindo", ela quer.

Na cultura do estupro, o que a mulher pensa e deseja não importa: o que importa é o desejo masculino. As manifestações que reiteram essa cultura são várias e vão de "piadinhas", cenas de novelas e filmes até a publicidade. Recentemente a empresa de preservativos Prudence veiculou em sua página no Facebook uma imagem que banaliza a violência sexual. O texto da imagem rola na internet há anos, mas nunca antes tinha sido veiculado como propaganda de uma empresa. Na imagem relaciona-se o termo "sem o consentimento dela" a tirar a roupa, e também há o seguinte texto: "tirando o sutiã com uma mão e apanhando dela". Os dois itens são os que mais gastam calorias, ou seja, coloca-se a falta de consentimento feminino como algo positivo pra tal da "dieta do sexo".
Campanha do Bule Voador contra a propaganda.

O pensamento que mulheres gostam de fazer "charminho" para aceitar investidas masculinas é nocivo porque generaliza um comportamento, muitas vezes relativiza o consentimento feminino, supõe que todo "não" ou "talvez" dito por uma mulher é um sinal de que é só insistir mais que ela vai ceder e coloca toda a manifestação feminina negativa como parte de uma brincadeira. É necessário destacar que o consentimento é necessário mesmo para jogos eróticos - se não houver consentimento não há sexo: há violação do corpo. Há estupro.

O pensamento reiterado na propaganda da Prudence banaliza a violência contra a mulher, porque tira dela a condição de sujeito, de ser dona de suas próprias vontades e retira sua voz, porque a coloca  numa situação em que seu não ou sim é ignorado completamente. Ao falar "sem o consentimento dela", a violência sexual fica mais naturalizada ainda. Como se haver ou não consentimento não fosse algo que importasse. E essa naturalização da violência contribui para que o estupro seja visto como uma modalidade de sexo e não como o crime cruel e violento que é. Quando a propaganda fala sobre "tirar o sutiã apanhando dela", além de mostrar que realmente pouco importa se a mulher quer ou não fazer sexo, coloca os jogos eróticos BDSM como se eles não fossem algo de pleno acordo, baseado em confiança e em consentimento.

A Prudence, depois de muita pressão, postou uma nota se desculpando pela veiculação da propaganda e deixando claro para seus clientes que tirar a roupa da parceira sem seu consentimento é crime. Triste é ver que várias pessoas vêem essa propaganda como uma piada inocente e acham que as denúncias feitas são baseadas num "moralismo exagerado".

E um adendo: é necessário que as campanhas publicitárias de artigos sexuais, incluindo preservativos, façam propagandas levando em conta que mulheres também são ativas sexualmente. E que são donas de seus corpos e que são possíveis consumidoras de seus produtos. Colocá-las apenas como um prêmio para os homens héteros é nocivo porque contribui para a idéia de que mulheres não gostam de sexo e são apenas troféus. Homens não são predadores e mulheres não são suas presas. E é claro: seria interessante que fossem campanhas que não supõem que apenas casais heterossexuais fazem sexo.

O conceito de propaganda afirma que ela deve persuadir opiniões, sentimentos e atitudes do público-alvo. Se as campanhas publicitárias atuais levam em conta que apenas um grupo compra camisinhas e ignora outro: ela reitera a doença social do machismo. E também da homofobia e lesbofobia.

Demais textos em repúdio ao caso:
"Prudence e a fetichização do estupro", Blogueiras Feministas, Luka.
"Guestpost: Propaganda acima do bem e do mal", Escreva Lola Escreva, Vivian.
"Cultura de estupro? Não, imagine", Escreva Lola Escreva, Lola. 
"A propaganda da Prudence e a heteronormatividade", Minoria é a mãe, Kamila.
"O Estupro da Prudence e o que nós aprendemos com ele", Não precisa gritar, Lucy
"Desconstruindo a cultura do estupro", Mulher Dialética, Jarid. 
"A violência é fácil de se entender", Feminerds, Julia.
"dear Prudence", Meu palanque, Fran Carneiro.
"Nota de repúdio da Marcha Mundial das Mulheres à publicidade sexista da Preservativos Prudence", Marcha Mundial das Mulheres.
"Lira Alli: Camisinha Prudence faz apologia ao estupro", Viomundo.
"A absurda propaganda da Prudence", Machismo chato de cada dia. 
Notícia sobre o caso:
"Conar deve abrir, até amanhã, processo contra marca de preservativos Prudence"
"Marca de preservativos retira publicidade da internet após críticas"
"Fabricante de camisinha tira anúncio polêmico do ar"
"Propaganda de camisinha que incentiva violência contra mulher causa polêmica no Facebook
Outros textos:
"A graça de um estupro", Feminerds, Julia. 
"E onde está o meu consentimento?", Ativismo de Sofá, Thaís.

Machismo virou esporte olímpico?


Veterana, medalhista de ouro,
em sua QUARTA olimpíada

Mal começaram as Olimpíadas de Londres e o machismo que envolve a participação de mulheres em jogos já começa a dar sinais de presença. Algumas notícias nos chamaram atenção. Uma dessas notícias diz respeito à atleta Liesel Jones, nadadora australiana, que acusaram de estar fora de forma. A cobrança pelo corpo saradíssimo da nadadora revela machismo da imprensa e da sociedade, pois se o treinador dela afirma que ela cumpre uma rotina exaustiva de treinos, se estamos falando em uma profissional classificada para o maior evento de esporte do mundo (as fucking Olimpíadas!), quem somos nós para desmerecê-la por uma barriguinha? Será que as pessoas estão procurando barriguinhas nos atletas do sexo masculino? duvido muito.

Outra notícia é sobre a pressão do uso de biquínis nos jogos de vôlei de praia para chamar os espectadores. SIM, é isso mesmo que você leu. A FIBV, Federação Internacional de Vôlei, retirou a exigência do uso de biquínis no vôlei de praia. Mas teve até jornal fazendo campanha contra. Nem se preocuparam em dar uma desculpa para objetificar as mulheres. 

Essa objetificação passa pela desvalorização do esporte feminino. Não foram poucas as vezes em que ouvi, por exemplo, que o vôlei masculino é melhor que o feminino. Ou que o futebol masculino é superior ao feminino e etc. Então se o esporte feminino não tem tantos atrativos quanto o masculino, o que o torna viável, inclusive financeiramente? O corpo da atleta. Ao menos é isso que parece pensar uma parte da mídia esportiva, quando o esporte e a superação deveriam ser as estrelas dos Jogos.

E não são apenas as mulheres do vôlei de praia que sofrem com a objetificação de seus corpos, não. Em quase todos os esportes os uniformes femininos são menores e mais justos  que os uniformes masculinos (excetuando a natação). Aqui você pode ver o tom da matéria sobre Hóquei na grama, por exemplo.

Exemplificando melhor a desqualificação do esporte feminino, o jornalista Flávio Gomes da ESPN achou-se no direito de expressar a seguinte opinião em seu twitter:

É isso aí galera. E quando foi questionado por um amigo e leitor do Ativismo de Sofá, sua resposta foi essa:


Aparentemente, para gostar de futebol feminino é preciso ser mulher. E mais, ser mulher deve ser uma grande ofensa, né? A nossa colaboradora Thaís Campolina também se manifestou. A resposta do sujeito para todas as mulheres que se revoltaram com tamanho desrespeito?


Se você não concorda com ele e é homem, então você é "mulherzinha", se é mulher, é "feia". Cadê meu bingo das discussões com machistas?

Eu ainda não consigo acreditar que um jornalista possa demonstrar tamanho desrespeito por mulheres que estão cortando um dobrado para se manter num esporte que não dá espaço para mulheres (ao menos no Brasil), que é símbolo de masculinidade. Será que ele não vê o mérito das conquistas e do esforço diário dessas mulheres incríveis que apesar de terem ouvido a vida inteira que "futebol não é coisa de mulher", resolveram que amam esse esporte e que desejam quebrar esse paradigma machista? Como alguém pode não enxergar o grande mérito disso? Como alguém que vive de esporte consegue emitir opiniões como essa?

Infelizmente, essa é a mídia que cobre eventos esportivos. Aí alguém virá me dizer "mas nem todo mundo é assim, tem muita gente séria que não tem esse tipo de atitude..." . De fato. O problema é que tem muito mais gente machista no mundo, no jornalismo e em qualquer profissão. O que faz por exemplo o globo esporte, que é o programa esportivo mais popular do Brasil, criar uma eleição chamada "spice girls", onde diariamente são postadas fotos das atletas mais "bonitas" (dentro do padrão de beleza)? Machismo. Eleger musas é só mais uma forma de dizer para as mulheres que essa é a sua função é decorativa. É como dizer: "fica quietinha aí, flw? Você não é atleta, você só serve para o deleite masculino." Não acredita em mim? Preciso lembrar também daquela matéria para o globo esporte, há algum tempo atrás em que o repórter ASSEDIOU uma bandeirinha? Você não viu? Então assista nesse link, se conseguir.

Natalia Partyka, atleta polonesa de
tênis de mesa que competiu nas Olimpíadas
de Londres e competirá também nas  PáraOlimpíadas
Preciso desenhar o absurdo e o desrespeito que esse tipo de jornalismo é? É muito exigir um pouco de respeito pelas atletas que dedicam suas vidas ao ESPORTE? Cadê as notícias sobre os feitos dessas atletas, suas biografias, suas histórias de superação? Por que não podemos conhecê-las por aquilo que elas conquistaram?

Eu termino esse texto com uma imagem que ficou para sempre gravada na minha memória. O ouro olímpico da seleção feminina de vôlei em 2008. Seleção que chegou desacreditada, axincalhada e com fama de amarelar em grandes competições (obviamente uma fama criada e divulgada pela mídia que adora desqualificar o esporte feminino). O pedido de silêncio da Seleção, o cala-boca aos críticos está lá, registrado para sempre.

Update: A Natália Mendonça, colaboradora do Ativismo de Sofá, acaba de me informar que essa é a primeira vez na história das Olimpíadas que todas as delegações, inclusive as islâmicas, contam com mulheres. Está aí uma ótima notícia pouco abordada pela imprensa sedenta por musas.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Guestpost: Feminismo e cultura pop: Parte 2 – Mulheres como jogadoras

Olá (novamente), pessoal do Ativismo! Me chamo Taís e sou a blogueira do Colchões do Pântano. No blog, um dos meus objetivos é analisar mídias de entretenimento como games, quadrinhos e séries sob a ótica feminista. No primeiro post, o tema foi as representações femininas tanto nos jogos quanto nas HQ's. Agora o foco será sobre o tratamento que muitas mulheres recebem dentro da cultura nerd/geek/gamer em geral.

Talvez por eu ter me inserido nesse universo com força há poucos anos, já passei por preconceito algumas vezes, mas nada tão gritante em comparação aos depoimentos que jogadoras (principalmente as gringas) já deram por aí. Inclusive, parece que existe uma espécie de dicotomia: enquanto alguns jogadores as desprezam e inferiorizam com todas as forças, outros quase as idolatram e, em casos ‘extremos’, as assediam sem qualquer pudor. Alguns exemplos dessas situações:

1) Jogos multiplayer online. Só de olhar o nick e/ou avatar de alguma jogadora, desconhecidos mandam mensagem dizendo frases como “volta pra cozinha e me faça um sanduíche” ou “gata, tenho um pau grande e quero te comer”. Esse tipo de assédio também acontece quando elas se atrevem a falar pelo microfone, principalmente em jogos de tiro em primeira pessoa. No site Fat, Ugly or Slutty temos VÁRIOS exemplos.

2) Se disfarçar de homem, obviamente pelo motivo de cima. Desligar o microfone e mudar seu avatar/nick para masculino não só te poupa de tudo isso como evita que você seja expulsa (ou, no caso de jogos com friendy fire[1], morrer na mão do seu grupo) de partidas online.

3) Surpresa por você gostar de jogos e entender do assunto. Lembro muito bem de quando eu estava conversando com um cara e mencionei o fato de Portal 2 ter concorrido ao GOTY[2] de 2011. A reação dele? “Não tenho preconceito, mas uma menina saber o que é GOTY? Wow!”. Nem precisa explicar o tamanho da babaquice de se dizer isso, certo?

4) Itens raros de presente. Em multiplayers, principalmente RPG’s online, é bastante comum homens darem de bandeja presentes para personagens femininas não porque elas são bacanas ou porque sabem jogar super bem, mas simplesmente por serem mulheres. Depois de assédio, essa é a segunda maior cuspida na cara por mostrar a gritante diferença de tratamento, afinal elas não têm autonomia o suficiente pra conseguir esses itens/dinheiro virtual sozinhas! Homens também aproveitam tal comportamento se fingindo de mulher pra ganhar tais “benefícios”.

5) Seu argumento é inválido. Se você está dando sua opinião sobre um jogo/HQ/filme e é mulher, principalmente se for pra reclamar daquela roupa minúscula de uma super heroína, será automaticamente desprezada (especialmente se você não for atraente na visão deles). Mulher se metendo em assunto de homem? Sai fora! Isso nem foi feito pra você!
Outras pérolas e argumentos do tipo podem ser vistos no bingo de sexismo nos jogos.
6) Comprar pra você? Nãããão. Se você vai numa loja física comprar aquele jogo/HQ que tanto esperava, vão te tratar não como consumidora do produto, mas alguém que está comprando pro irmão/primo/amigo. E ainda pode ser assediada. Esse e vários outros problemas citados também estão no texto Nerds e o privilégio masculino.
7) Sua poser! Attention whore! Esse tópico renderia inúmeras discussões. A grosso modo, é quando uma mulher se atreve a se chamar de nerd, geek e/ou gamer e age/conhece/gosta de coisas de uma forma diferente do que é dito pela bíblia imaginária dessas tribos sobre como elas deveriam se comportar pra serem de verdade. Não gosta de Star Wars e se diz nerd? É poser! Tem o cabelo colorido, joga Super Mario, usa uma camiseta do Pikachu e se diz nerd? Poser, óbvio. Nerd de verdade é feia, espinhuda, (possivelmente) gorda, não tem vida social e usa roupas sem graça, tipo aqueles que viveram nos anos 80. É bonita e diz que gosta de jogos? Só quer chamar atenção, lógico. Posou com um joystick na boca? SUA VADIA! Ou ainda, te fazem perguntas pra testar seu conhecimento e terem certeza que você é nerd ou não. Você não vê esse tipo de questionamento voltado para homens.

Cagação de regra? Estereotipagem? Nãããão, imagina!

Todo mundo aqui sabe que quando uma mulher decide tratar seu corpo como seu e usando roupas curtas, decotes e similares, rapidamente aparecem os cagadores de regra pra contar direitinho a ela a diferença entre ser sexy e vulgar. Se você for sexy, vão te amar e enfatizar do quão é linda e gostosa; se for vulgar, vão te chamar de vadia ou usarão um termo exclusivo da tribo: pirinerd. E poser, naturalmente.

Ainda assim, reconheço que nem tudo são flores: Muitas mulheres internalizaram concepções machistas; não apenas em fazer slut-shaming com as outras, como também em “se objetificar” porque aprendeu que deve ter uma aparência agradável pros homens héteros a aceitarem e a valorizarem. Mesmo se ela jogar bem ou tiver um amplo conhecimento do que gosta – sua aparência sempre será colocada em primeiro lugar. Existem até mesmo sites enfatizando isso ao fazerem compilações de imagens com mulheres nerds sexy.

Peraí, agora você está sendo hipócrita! Por que elas podem ser gostosas sem problema algum, mas as personagens femininas de jogos e/ou HQ’s não?

Vamos fazer uma analogia. Pense numa mulher com os peitos à mostra na Playboy, depois pense em outra na mesma situação na Marcha das Vadias. O contexto e objetivos são iguais? Absolutamente não. Essas gostosas mostradas na mídia de entretenimento não seriam realmente um problema se:

- Elas não fossem o padrão como representação feminina;
- Elas não tivessem seus corpos distorcidos para parecerem mais atraentes (leia-se: hiperlordose lombar, coluna vertebral elástica, ausência de órgãos internos);
- Elas não fossem criadas para serem objetos e realizarem fetiches dos seus criadores;
- Elas não fossem tratadas como peitos e bundas ambulantes.

Assim, não é nenhuma novidade você se deparar com textos que soltem pérolas como essa: "Ok, agora mãos à obra. Vamos ajudar os quadrinhos, tentando trazer mais mulheres até eles. O pior que pode acontecer é deixarmos o mercado mais bonito”. Porque é isso que realmente importa, sabe? Sermos enfeites. Ou produtos, como as booth babes são tratadas.

Agora vamos falar sobre algumas mulheres em específico que têm ou tiveram destaque na mídia. Ano passado, um grupo de garotas publicaram o vídeo Game Girl Manifesto. Em dois minutos, elas passam uma mensagem perfeitamente clara: julgá-las pelas suas habilidades, não por serem mulheres. Elas estão aí pra jogarem. E no final dizem “Don't be racist. Don't be homophobic. Don't be sexist”. Se você tiver estômago pra ler comentários, verá que muitos odiaram o vídeo e, lógico, aproveitaram pra vomitar preconceito.

Já outro caso mais recente é sobre Anita Sarkeesian. Ela é dona do blog Feminist Frequency que criou a web série Tropes VS Women (com legendas em português), em que ela discute a qualidade das representações femininas na cultura pop. Anita se tornou extremamente popular quando começou um projeto no Kickstarter chamado Tropes VS Women in Videogames. Como você pode ver, sua intenção inicial era juntar 6 mil dólares, mas conseguiu 158 mil! Como já esperado, ela recebeu inúmeros ataques de trolls, inclusivemensagens e montagens misóginas. Fizeram até mesmo um jogo em que você a espanca e seu rosto vai se deformando a cada batida. Depois disso, não há desculpa pra disfarçar o tamanho da nojeira que existe nessa cultura.  Maiores detalhes estão neste post do Arena.

Além disso, uma mulher chamada Katie Williams contou neste post do Kotaku Austrália o que aconteceu quando ela foi à E3[3] deste ano. Ao reservar uma hora e meia para experimentar a continuação de um shooter militar conhecido, um cara das Relações Públicas que deveria estar ali pra auxiliar não acreditou que ela saberia jogá-lo por si e, pasmem, pegou o teclado sem pedir nem nada e disse que iria jogar no lugar dela! E não acabou por aí: em outras situações durante o evento, ela foi bastante subestimada, afinal de contas, garotas não entendem muito desse material, sabe? Ela também aponta uma questão interessante quando diz:

“É inacreditável que isso esteja acontecendo. Se esta é a forma que as pessoas de Relações Públicas se sentem sobre a capacidade das mulheres, não é à toa que a parte promocional dos jogos seja tão sexista. Não é à toa que as pessoas de marketing achem que está tudo bem até certo ponto ter um trailer em que um homem ataca um bando de freiras sexies, não é à toa que estamos vendo isso se espalhar entre desenvolvedores, que colocam achievements[4] no jogo pra olhar debaixo da saia de uma mulher com 19 anos vestida feito colegial[5]. Não é à toa que estamos vendo isso acontecer com os jogadores, que falam às mulheres entre nós que elas provavelmente não podem saber sobre os jogos online que jogam”.

Finalmente, deixo um convite pra vocês participarem do grupo que criei no Facebook cujo objetivo é justamente analisar elementos da cultura pop sob o ponto de vista feminista. Textos em inglês sobre a questão são suficientemente fáceis de achar, tanto que alguns blogs que conheço e têm essa abordagem em menor ou maior grau são: The Mary Sue, Go Make me a Sandwich, Gaming as Woman, The Border House e Geek Feminism. Infelizmente, eles são raros em português.
Obrigada por lerem até aqui e espero que as informações tenham sido úteis!

[1] Fogo amigável. É quando você pode ferir seus aliados e, dessa forma, torna o jogo mais difícil. O problema desse recurso é quando aparecem babacas que gostam de prejudicar os outros puramente por prazer.
[2] Game of the Year. Título dado por várias publicações especializadas (como revistas e sites) para um jogo que se destacou em seu ano de lançamento. Skyrim, por exemplo, foi um dos mais votados. Além disso, os indicados ao prêmio são divididos em várias categorias, tais como Melhor Jogo de PC, Melhor Multiplayer, Melhor RPG etc etc.
[3] Electronic Entertainment Expo. É um importante evento internacional em que empresas de jogos mostram novidades como prévias de futuros lançamentos de games e informações detalhadas de consoles e portáteis da nova geração.
[4] Um “prêmio” simbólico de quando você realiza um objetivo específico, geralmente com o intuito de ser difícil de completar. Por exemplo, resolver um puzzle em 1 minuto, ou matar 50 inimigos sem morrer.
[5] Ela provavelmente está se referindo à Juliet de Lollipop Chainsaw, que na verdade estaria especificamente vestida de cheerleader.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Teu privilégio não é minha prisão


Tantas vezes falamos aqui no blog sobre "privilégio" e percebemos que nem sempre essa noção foi plenamente compreendida. Por isso tentarei jogar alguma luz sobre a questão.

O privilégio é uma vantagem. Não é algo para se envergonhar, é apenas fruto de certas características. Um exemplo: eu sou uma pessoa que fala, escuta, possui todos os movimentos e dispõe de uma boa visão (na verdade tenho um probleminha de vista que é corrigido com lentes). Possuo portanto, a vantagem de jamais me preocupar em tatear o piso antes de dar o próximo passo, pois posso enxergar o caminho adiante. Não me preocupo em frequentar espaços públicos em que uma cadeira de rodas possa circular livremente, pois posso andar. E nunca aprendi a linguagem de libras, pois posso falar e ouvir, portanto, me comunicar sem o uso de sinais.

Muitos privilégios (a maioria, acredito eu) são construídos culturalmente. Ser branco traz uma série de privilégios em relação à ser negro. O que fica evidenciado a cada vez que colocamos a raça diante do elogio, por exemplo. Já parou para pensar porque quando se elogia uma mulher branca dizemos apenas que é uma mulher bonita, mas quando o elogio é direcionado à uma mulher negra, ela se torna uma "negra bonita"? Ou ainda, já tentou imaginar o motivo pelo qual se um homem branco dirigir um carrão muita gente achará que ele é rico, mas que se o mesmo carro for dirigido por um negro, muita gente achará que ele é apenas o motorista? É a expressão do privilégio do branco, não ser discriminado por sua cor (Sobre o privilégio branco, por favor ler esse link, esse e esse).

O privilégio masculino também é cultural. Numa sociedade tão marcada pela cultura do estupro, é uma vantagem dos homens, sair à noite e temer crimes patrimoniais. Traduzindo, temer ser roubado. Uma mulher quando sai à noite teme ser estuprada. Aliás o medo do estupro que uma mulher sente é tão grande que isso rege as nossas vidas desde muito jovens e não nos abandona nem na velhice.

E aí você me diz, "MAS CALMAÍ GIZA, se não é para se envergonhar do privilégio, porque tantas vezes vocês, aqui do Ativismo de Sofá, o criticam?" Por três motivos, o primeiro é a construção de cenários que se formam em torno de um privilégio e que pode ser muito díspar. E isso revira meu sensível estômago. Uma situação que se forma em torno do privilégio masculino: recentemente, li que a escritora de romances Margaret Atwood perguntou a um grupo de homens (na minha leitura não estava especificado se eram apenas homens cis) porque os homens se sentem ameaçados pelas mulheres, eles responderam que tinham medo que elas rissem deles. Quando perguntou a um grupo de mulheres porque elas se sentem ameaçadas por homens, elas responderam que têm medo de serem assassinadas. A polaridade das respostas gera insatisfação e revolta em quem é mulher.

O segundo motivo é que os privilégios citados acima são abstratos. No sentido que não estão escritos, codificados. Mas há privilégios escritos. Ilustrando melhor, a nossa Constituição Federal, ainda não permite o casamento igualitário. Dando a um grupo, os heterossexuais, um enorme privilégio em relação a outro, os LGBTs. Um outro exemplo é o sufrágio feminino, no Brasil conquistado há apenas 80 anos.

O terceiro motivo é porque em muitos casos, na visão da pessoa que é detentora das vantagens acima citadas (e outras tantas), o privilégio se torna a sua noção de "normalidade". Ou seja, a pessoa não consegue sentir empatia por grupos não privilegiados em questões tocantes apenas a eles, gerando uma perspectiva distorcida e parcial. Pessoalmente esse motivo é o que mais me incomoda, e também é o que mais gera discussões improfícuas. Alguns exemplos de manifestações privilegiadas nesse sentido:

Quando um homem afirma que as mulheres não possuem espaço na política porque preferem seguir outras carreiras, ele se esquece que participação política muitas vezes depende de investimento. E que nem sempre os investidores estão interessados em dar crédito às mulheres. Porque a sociedade costuma incentivar mulheres à dedicar-se ao âmbito privado, relegando ao homem o âmbito público. 

Toda vez que um branco diz que as cotas raciais nas universidades são um privilégio dos negros, ele ignora a indiscutível participação ínfima dos negros em espaços acadêmicos (ainda mais se considerarmos que a maioria da população brasileira é negra), um resquício de uma sociedade que vergonhosamente aboliu a escravatura por meio formal há 124 anos.

Quando um heterossexual alega que não se incomoda com LGBTs desde que eles não andem de mãos dadas, não beijem em público, não cheguem junto, eles se esquecem que é socialmente aceitável que um heterossexual faça todas essas coisas. 

E é claro, há os privilégios que o dinheiro proporciona. Uma casa própria, um carro, um computador, um bom celular, boa educação, viagens e etc. Nenhum problema em possuir bens materiais, o problema é esquecer ou desvalorizar quem não possui ou está em situação de classe social abaixo da sua. Daí podemos extrair por exemplo as questões trabalhistas. Quando o(a) patrão(patroa) exige que a empregada durma no serviço, será que ele(a) pensa no absurdo que seria ele(a) próprio(a), dormir no escritório em que trabalha, voltando para casa apenas no final de semana? Possivelmente, não.


Os exemplos acima tratam de privilégios sobre minorias, mas mesmo entre minorias há privilégios. Não é porque fazemos parte de um grupo em desvantagem que temos a autoridade de falar sobre o sofrimento alheio. Aqui há um texto excelente falando dos privilégios da mulher branca em relação à mulher negra.

Por Arnaldo Branco
É preciso entender que embora possuir um privilégio não seja motivo de vergonha, tampouco é motivo de orgulho. Quando uma pessoa branca anda por aí com uma camiseta "100% branco" ele está exaltando algo que não gera motivo para orgulho. É muito diferente de alguém que exalta sua raça negra, pois ser negro significa um histórico de opressão e normalmente de luta e conquistas condicionadas pela raça. Se orgulhar de ser heterossexual (uma modinha que tá rolando aí nas redes sociais) é o equivalente a se orgulhar de uma facilidade, de uma condição que não impõe desafios. Eu acho até engraçado (apesar de triste), que eu tenha que escrever sobre isso, porque me parece realmente muito óbvio. 

O privilégio é cumulativo e quanto mais privilégios uma pessoa possui maior a possibilidade dela possuir a visão distorcida da qual falei antes. Tente visualizar um muro cuja altura aumenta à medida que os privilégios se acumulam. E para algumas pessoas o muro é tão alto que é impossível enxergar o que está do outro lado. 

Retomando um pouco a idéia do título desse texto, o privilégio do grupo não é prisão de outra pessoa pois não regula a vida, os pensamentos, as atitudes dos outros. Rever seus próprios privilégios, nem sempre buscando exterminá-los, pois muitas vezes isso nem é possível, mas entendê-los faz parte do processo de compreender o outro. Enquanto você não conseguir determinar onde residem os seus privilégios, você será incapaz de aceitar que as pessoas que não detêm as mesmas vantagens que você têm outra perspectiva sobre as suas próprias vidas e que é importante demais que você as ouça mais do que questione. Não são os seus privilégios que definem e norteiam a vida dessas pessoas. Como eu disse no meu post "não me ensine a militar" somente o oprimido sabe onde e como o calo aperta. 

Obs.: Se eu não me fiz entender como eu gostaria e você ainda tem interesse no assunto, eu sugiro muito esse texto aqui.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A mais nova propaganda machista da última semana.


O vídeo começa com a namorada levando cerveja para o namorado toda carinhosa, o que é narrado como "o começo de namoro é lindo". Na segunda tomada, a namorada ocupada pegando pizzas, se recusa a levar cervejas para o namorado e para a galera dele. Nesse momento, os amigos dele riem da "tirada". O que é narrado como "mas com o tempo, a relação esfria", a narração continua falando "um dia inexplicavelmente elas se rebelam". E o vídeo continua fazendo propaganda do produto, um cooler movido por controle remoto. O que é colocado na propaganda como a maneira de permitir que o namoro volte para os tempos de paz.

Além de ignorar que, pasmem, mulher também pode gostar de beber cerveja, a propaganda coloca a namorada com uma função: buscar a cerveja gelada para o namorado; servir o cara. Nisso de "mulher não bebe cerveja", inclui todo aquele blablabla de que mulher é fresca, se bebe algo alcoólico é só coisa docinha ou bebe cerveja só pra agradar o namorado e que homens sabem se divertir e gostam disso, enquanto mulheres não. E nem venham me falar que quase no fim da propaganda, ela vai e toma cerveja. Como se isso anulasse toda a idéia que a propaganda passa, de que o cara bebe e ela serve.

Li nos comentários do youtube, (sim, às vezes sou masoquista), que reclamar dessa propaganda é idiotice, afinal, ela não é uma das piores e que na verdade ela é até uma crítica ao machismo. É fato que a propaganda fugiu do eterno "loira gostosa" se referindo a cerveja e as mulheres, né? Mas não acho que haja alguma crítica ao machismo em colocar as mulheres servindo como se essa fosse a utilidade de uma mulher. E no caso, a mulher se rebela com essa "exploração" e isso é tratado como algo inexplicável, afinal, conforme os padrões de gênero, mulheres são passivas, não tem atitude, não se rebelam e além disso, ela está se rebelando a fazer algo que mulheres "devem" fazer. No caso, a cerveja em questão, usa essa "rebeldia repentina" como uma forma de vender um cooler de controle remoto, porque se a namorada não mais vai buscar a cerveja pra ele, não é ele é que vai buscar, né? E ainda, a propaganda é totalmente voltada ao público masculino (e machista), porque quem mais supõe que mulheres devem buscar cerveja para o namorado? Quem mais fala que ela se recusar a fazer isso é uma rebeldia inexplicável? E quem mais tá interessado em resolver esse "problema dos tempos modernos"? 

Só faltou um "malditas feministas que 'ensinaram' nossas mulheres que elas não precisam nos servir" pra deixar ainda mais claro que uma mulher que se recusa a servir, tem voz suficiente pra tomar decisões que os contrariem, não é bem vista  pelos machistas de plantão. O item "inovador" nessa peça publicitária é existência de uma mulher que não só enfeita, mas tem voz. Mas que voz é essa que é considerada na narração da propaganda como "uma rebeldia inexplicável?". Nesse vídeo a mulher foi mais do que um objeto, mas continuou sendo menos que o homem.  

Sobre sexismo na mídia, indico um excelente post do Blogueiras Feministas, escrito pela Tássia Hallais: "Sobre cervejas, detergentes e desodorantes".

terça-feira, 17 de julho de 2012

Guestpost: Feminismo e cultura pop: Parte 1 – As Representações Femininas


Olá, pessoal do Ativismo! Me chamo Taís e sou a blogueira do Colchões do Pântano. No blog, um dos meus objetivos é analisar mídias de entretenimento como games, quadrinhos e séries sob a ótica feminista. Nesta série de guest-post, farei uma (não tão) pequena compilação de problemas e fatos que pude perceber e aprender com o tempo.
Quem já está familiarizado o suficiente com feminismo conhece vários estereótipos, falácias e preconceitos quando o assunto é sobre mulheres. Tudo isso também aparece no meio nerd/geek/gamer com suas peculiaridades e semelhanças.

De acordo com a ESA (Entertainment Software Association), as mulheres representam 47% dos jogadores americanos. Mesmo assim, a carga de machismo e misoginia que existe tanto nos jogos quanto entre os próprios jogadores é assustadora. O problema começa com as representações femininas criadas por desenvolvedores predominantemente masculinos. Um dos estereótipos mais frequentes é:

A Fighting Fuck Toy – Protagonista feminina que é hiper-sexualizada e ao mesmo tempo é forte, independente e chuta a bunda dos inimigos. Esse tipo de personagem me irrita bastante porque muitos a tratam como símbolo de empoderamento feminino, quando ela nada mais é do que um produto criado para satisfazer o público masculino heterossexual (ao mesmo tempo que é usado para invalidar o argumento de que elas não são objetificadas porque, afinal, olha como elas são fortes e incríveis! Como ousa não gostar delas?).

Exemplos: Ivy de Soul Calibur (que a cada jogo lançado, seus peitos tornaram-se cada vez maiores), Bayonetta (com o diferencial de usar literalmente sua “sexualidade” como fonte de poder), Lara Croft de Tomb Raider (que passou a ter um corpo ligeiramente mais realista a partir de Angel of Darkness e passou por mudanças bem mais significativas com um reboot ainda não lançado), Juliet de Lolipop Chainsaw (incluindo o bônus fetichista com uma líder de torcida), Mai Shiranui de Fatal Fury e The King of Fighters (que passou por um processo similar ao de Ivy) e as mulheres de Mortal Kombat em geral.
Fighting fuck toys, representações femininas positivas? HAHAHAHAHAHA CONTA OUTRA.

Talvez por objetificação e força estarem tão atrelados para mulheres, é possível ver um “padrão inverso”: quando a personagem não é visualmente apelativa, muitas vezes ela é como a princesa Peach: passiva, fraca e indefesa. Cheguei a fazer uma listinha com exemplos. Esse padrão também aparece na página doTV Tropes.

Outro exemplo constante de objetificação aparece nas armaduras femininas. Em muitos MMORPG’s* (principalmente os orientais), você pode comparar os gêneros da mesma raça, classe e nível que a mulher provavelmente vai ter muito menos proteção que o homem. Existe até um nome próprio para couraças femininas: boopblate (ou seja, a armadura tem o formato dos peitos definido).
Exemplos: Tera Online, Fiesta Online, World of Warcraft, Perfect World e Dragon Nest**.
Comparação de armaduras de níveis diferentes e a lógica “menos é mais e melhor”. Imagem de Tera Online.
Como homens de armadura ficariam se tivessem o mesmo nível de proteção das mulheres.

Por último, temos uma situação que não chega a aparecer tanto nos jogos, mas MUITO em HQ’s: a “boob-and-butt pose”, em que as mulheres são desenhadas em uma posição que é possível ver os peitos e bunda ao mesmo tempo. O problema é que além de ser desconfortável, a contorção é tão grande que a coluna vertebral quebraria se fosse de verdade (além de outras poses ridículas consideradas “sexy”). Tal fato deu origem ao tumblr Escher Girls, publicando, parodiando e consertando inúmeros exemplos.
Sexy ou ridículo? Depende, é claro.
Aí aparecem alguns com a falácia da falsa simetria afirmando que homens fortes e musculosos também são objetificados! Tá reclamando do quê? Homens também sofrem, tadinhos!

Tal afirmação é falaciosa por uma razão muito simples: Homens musculosos e mulheres gostosas são produtos para um público dominante masculino heterossexual.  Enquanto heróis musculosos representam o que eles gostariam de ser, heroínas gostosas são o eles querem que elas sejam para satisfazerem seus desejos e fetiches (além de mulheres halterofilistas não serem consideradas atraentes por motivos óbvios). Em suma: não confunda idealismo com objetificação.

Cara, como você é uma feminazi chata, credo! Só tá reclamando neste post! Não tem nada de positivo pra mostrar não?

Tem sim. Apesar de poucas, existem personagens que não só são mais realistas na aparência, como também podem ter uma personalidade mais interessante e humana.
Exemplos: Faith de Mirror’s Edge, April de The Longest Journey, Zoë de Dreamfall, Jade de Beyond Good & Evil, Alyx de Half-life 2 e Episodes, Zoey de Left4Dead, Rochelle de Left4Dead 2 e Chell de Portal e Portal 2.

Quanto a jogos em que mulheres usam armaduras convincentes, temos Skyrim, Mass Effect e The Lord of the Rings Online como exemplos.
Representações femininas legais (e mais diversas) existem, apesar de serem escassas.
Ah, mas você tá levando os jogos a sério demais! Eles foram feitos pra nos divertirem!
Primeiro, se divertir com alguma coisa é bastante subjetivo depende dos gostos de cada um (ou você conseguiria se divertir jogando Dear Esther ou Amnesia: The Dark Descent?). E segundo, esse tipo de desculpa para fugir do problema não é muito diferente de dizer “é só uma piada!” para gracinhas preconceituosas.

Então você está sugerindo que os desenvolvedores sentam e pensam de como vão criar uma personagem feminina ofensiva.

Sim, eu já tive a oportunidade de ouvir essa pérola e alguém acreditar que esse problema é exclusivo E intencional da indústria de jogos é ser bastante ingênuo e não ver o preconceito como fruto de uma sociedade machista.

No próximo post, o tema será sobre o tratamento que mulheres como jogadoras recebem (ou dão) nesse meio, principalmente quando é para protestar contra o preconceito que elas sofrem.

*Massive Multiplayer Online Role-Playing Game. Jogos com vários jogadores simultâneos conectados que criam personagens com um determinado nível de customização na aparência, roupas e funções, e que precisam realizar tarefas para subirem de nível e consequentemente adquirindo armas, armaduras e poderes melhores.
**Esse jogo tem gender lock, ou seja, o gênero do personagem que você vai jogar é pré-determinado pela classe. Warrior e Cleric são garotos enquanto Archer e Sorceress são garotas.


Para ler a parte dois da série de guestposts sobre Feminismo e Cultura Pop escrita pela Taís Fantoni clique aqui

sábado, 14 de julho de 2012

Disney-Pixar Valente: essa princesa aqui tem mãe!

*CONTÉM SPOILERS*

De um lado, temos o estúdio de animações Pixar e seu histórico: nenhuma protagonista do sexo feminino. De outro, temos a Disney: nenhuma princesa que tenha, de fato, uma mãe. Uma mãe com presença, que realmente se relacione com a filha. A boa notícia? A Disney-Pixar lança seu mais novo filme, Valente, que conta com uma personagem principal feminina, cuja história é praticamente toda centrada na relação mãe e filha. Foi emoção demais para o meu coraçãozinho feminista. 

Eu gostaria muito de escrever um texto sem spoilers, mesmo porque este não tem a menor pretensão de ser uma resenha (e porque eu sou péssima nisso, beijos). Porém, findado o processo de escrita, eu percebi que botei a história mais a perder do que o esperado. Peço sinceras desculpas. Creio que ultrapassei limites por conta do encantamento gerado por essa bela animação. O motivo do fascínio passa, obviamente, pelo fato de eu tê-la achado feminista.

A princípio, vou tentar focar na parte simbólica do filme: achei acertada a escolha do urso para firmar o enredo. Eu acho que o urso fornece um escopo muito forte para ilustrar o grau de profundidade de uma relação mãe e filha.

Porque é justamente o urso, animal temido e ao mesmo tempo admirado ao ponto de virar brinquedo de pelúcia, que possui a simbologia da introspecção, do despertar de consciência. Em culturas como a indígena norte-americana, o urso é o símbolo da sabedoria. O urso é visto como aquele que sabe discernir se o ato de continuar a insistir em algo vale ou não a pena. E, tomada a decisão, o urso não pestaneja em mudar, seguir adiante.

Como fiquei satisfeita de ver a simbologia do urso aparecendo na animação, fui ler mais a respeito e acabei encontrando um pouquinho acerca do urso na simbologia céltica: trata-se de animal cujos poderes são igualitários entre macho e fêmea. A mitologia celta conta com duas deusas que se transmutaram em urso, a Andarta e a Artio. O urso-macho é associado ao Rei Arthur. Além do mais, o urso aparece, na tradição celta, como o arquétipo materno: mãe por excelência, a figura do urso estaria diretamente vinculada à maternidade e proteção de crianças. 

É justamente essa bela simbologia, de um animal que cuida, protege suas crias, ao mesmo tempo em que não hesita em ponderar suas crenças e portanto mudar, que aparece na tela de Valente. Aliado a paisagens belíssimas, muito bem arquitetadas graficamente, o filme conseguiu me prender do início ao fim. Eu li algumas resenhas bem negativas, dizendo que a animação tinha tudo pra ser uma grande aventura e não foi. O problema é que esses críticos não conseguem enxergar que os desenhos animados (pelo menos os mainstream) nunca se aventuraram a aprofundar o assunto <relação mãe e filha>. Isso pra mim foi A aventura. 

Mas os críticos ainda estão muito preocupados em ver ações de acordo com aquilo que o olhar “masculino” deles considera uma aventura. Desconfio que tais críticos, cujos links não acho dignos de compartilhar com vocês, esperavam que a “valentia” da Merida (o nome da protagonista é Merida, eu falei que não sei escrever resenha, certo?) se fizesse ao decepar monstros ou derramar muito sangue. Só que não. A Merida é valente justamente por defender a mãe. Com o bônus de não precisar de nenhum príncipe encantado para ajudá-la. Aliás, a ausência de um príncipe encantado salvador é também digna de nota, já que a Disney é conhecida por reforçar o mito de que mulheres não sabem se virar sozinhas, colaborando, assim, com a manutenção do patriarcado nosso de cada dia. 

E o ápice da valentia se dá numa das cenas mais fortes do filme. Aquela cena em que me foi impossível não chorar. A cena em que, simbolicamente, ocorre uma violência doméstica. A cena em que ficou claro pra mim que a Disney finalmente entendeu que não precisa matar a mãe da princesa pra fazer uma história tocante, que valha a pena. Trata-se do momento em que a Merida se coloca entre o pai e a mãe e, muito corajosamente, desafia o pai e o impede de matar a própria esposa. Achei a metáfora perfeita, tanto para ilustrar a real de uma violência contra a mulher (ilustrar é diferente de justificar, pfvr), como para mostrar que somente após a morte de mães como a da Branca de Neve,  da Cinderella, da Ariel, da Bela, da Pocahontas, além do fato de Rapunzel e Bela Adormecida terem retornado à convivência materna somente após os 16 anos, que a Disney admitiu que, oh céus, dá pra retratar mãe e filha juntas, vencendo obstáculos, aprendendo uma com a outra, sendo amigas! Lavei minh’alma.

Preciso abrir dois parênteses. Primeiro, pra falar que sim, eu entendo que muitas das obras mencionadas acima são adaptações de contos de fada que já existiam. Aliás, tem um texto ótimo que eu gostaria de linkar aqui, além desse outro texto, um guestpost publicado pela Lola, que fala sobre a evolução das princesas Disney. Por outro lado, se formos analisar os desenhos Disney como um todo, e não só aqueles baseados em contos de fada, veremos que a maioria absoluta retrata crianças/adolescentes sem mãe. O segundo parêntese é pra dizer que esse fato talvez corrobore o que uma amiga me disse outro dia: talvez a Disney nem tenha nada contra a figura materna em si, mas apenas queira demonstrar que a vida sem uma mãe se torna, literalmente, um inferno. O que acabaria por cimentar em nós a noção de que homens não são bons cuidadores. E que madrastas são todas carrascas. O que é igualmente problemático, a meu ver. 



Pra terminar, não posso deixar de mencionar o cabelo da Valente. Fez justiça a todas as meninas crespas. Saber que as garotas de hoje terão um arquétipo com um cabelo natural, não-domado, é muito gratificante pra mim. Eu sei que sou Pollyanna demais, mas entendam: eu não me recordo de UMA princesa ou boneca que tivesse um cabelo não-domado. Até a Tiana, que eu me lembre, teve seu cabelo penteado “certinho”. Lembremos que Valente conta com a assinatura da Pixar, o que faz muita diferença em termos de qualidade gráfica. Portanto, celebremos a cabeleira natural da Merida, com seus cachos heterogêneos que, mesmo molhados, dão a impressão de algo real, não-fabricado. Em tempos de plastificação de corpos, cabelos e mentes, isso já é um grande avanço. 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O gay e a piriguete nas novelas da Globo


Helena sofredora moradora da Zona Sul
Eu é que não vou mentir, curto a novela Avenida Brasil. A Zona Sul do Rio de Janeiro tirou férias do horário nobre, a bola da vez é a Zona Norte. Lá fica o fictício bairro "Divino" que é muito mais interessante. Os personagens da novela refletem a ascensão das classes sociais no Brasil. De forma totalmente realista? Não. Quando eu digo que "reflete", quero dizer que o telespectador começa a querer se sentir representado. Quando o Manoel Carlos colocava uma Helena branca e rica na tela da TV, indiretamente o que se pode compreender é que apenas ricos escrevem a história, o dinheiro é o que torna possível ser agente do seu próprio destino, os pobres seguem conforme a maré, sendo, na maioria das vezes o núcleo engraçado da novela. 

Vilã e mocinha são
pessoas cheias de defeitos
Ainda que Avenida Brasil continue tendo protagonistas ricos, integram o grupo denominado "novo rico", que um dia foi pobre, e agora possui grana e disposição para gastar, mas sem o refinamento típico dos personagens do Manoel Carlos. Os personagens são moradores do Divino, jogadores de futebol, a mocinha é a (rica) empregada doméstica. E num arroubo dramático, a mãe adotiva da personagem principal mora no lixão. E ninguém é perfeito, todos tem pequenos deslizes morais em sua história, incluindo a mocinha sofredora e vingativa. Dentro desse contexto, cada personagem dá um texto, quiçá uma tese. Hoje, entretanto, vou focar em dois personagens que conquistaram o carinho do público. A piriguete Suellen e o gay Roni.


Vejamos o que diz o site da novela sobre Suelen:

"Musa mau-caráter do Divino. Trabalha na loja de Diógenes, mas vive faltando ao serviço para ficar assediando os jogadores de futebol. Maria-chuteira clássica, sua meta é se casar com um craque e se mudar para o exterior. Esconde um passado misterioso."

Se quem deu esse resumo ao site foi o autor, nem ele deve compreender o monstro que criou. Quando digo monstro, não falo de forma pejorativa, me refiro ao tamanho e densidade que a personagem hoje possui. Suelen é demais. Os mais apressados dirão que Suelen é uma mulher sem caráter, que não se dá ao respeito. Pois bem, se você pensa dessa forma, amigo, volte para os anos 50. "Se dê ao respeito" é uma das coisas mais machistas constantemente repetidas nos ouvidos das mulheres, pois significa "comporte-se". Pedir que uma mulher se dê ao respeito é o mesmo que dizer que ela abra mão da sua liberdade sexual, pela qual tantas mulheres lutaram. E Suelen é a liberdade sexual personificada, por isso incomoda. Ela deu pra todo mundo porque, quando e como quis. E também deixou de dar quando não quis. 

Outros ainda chamarão Suellen de interesseira, de mulher que não sabe amar (como a própria atriz Isis Valverde falou para o Faustão no programa do dia 08/07). Mas a Suellen é mais, muito mais do que isso. O "passado misterioso" a que se refere a descrição de Suelen é que ela já foi garota de programa e o seu ex-cafetão é obviamente um explorador, que já chegou a ameaçá-la e a bater nela em alguns episódios. Suelen é interesseira? Sim. Mas o que dizer dos homens que desejam dela apenas o corpo, um momento de diversão, que a objetificam, a usaram, humilharam e até bateram nela? Ninguém está por aí falando mal dos caras com quem ela fez sexo na novela. À piriguete couberam todos os julgamentos morais, por ser mulher, por ser ex-prostituta, por gostar de sexo, por não se envolver e por gostar mais de dinheiro que de homem (e olha que ela gosta muito de homem!). Entre uma cena e outra, ela diz "Já passei por muita coisa dura nessa vida. Mas nunca matei, nunca roubei, nunca fiz mal a ninguém. Só a mim mesma". A conduta sexual da Suelen não é atestado de seu caráter. Suelen é interesseira, mas no quesito dinheiro é sincera. Fala claramente para quem quiser ouvir que está interessada principalmente (e não apenas) no dinheiro. Acho que a cena que melhor mostra as diversas facetas de Suelen e como ela possui valores morais é uma em que ela repreende Lúcio pela forma como trata a mãe. Você pode ver aqui.

Se Suelen é a mulher julgada por todos pela sua conduta sexual, Roni é julgado pela sua orientação sexual. Duas faces do machismo, duas vítimas do mesmo ódio. Roniquito é o filho querido de um pai machão e de uma mãe evangélica. Jogador de futebol, mesmo que esse não seja o grande sonho de sua vida (e sim de seu pai), Roni é craque. E não consegue fechar com um grande time por causa da homofobia. Nossa sociedade machista e homofóbica botou o futebol como o esporte que reflete a virilidade e todo um ideal de masculinidade. Tanto é que ainda tem muita gente por aí que repete igual vitrola quebrada que "mulher não entende de futebol" e nunca ouviu falar de Marta ou de Formiga.

Entendidos os personagens, vamos aos fatos que inspiraram esse texto: Suelen foi presa e seria deportada para a Bolívia, seu país de origem. E Roni quer muito entrar para um grande time de futebol. A mãe, evangélica, convence o filho a pedir Suelen em casamento com a desculpa de que um casamento de fachada irá dissipar os rumores sobre a sua orientação sexual, mas na verdade o que ela realmente quer é "curar" o filho da doença que ela pensa existir. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

No princípio, eu comemorei o casamento de fachada de Suelen e Roni. Pois achei que essa era a forma dos dois de lutar contra a opressão que os acometia. Ele deixou claro que o casamento evitaria a deportação e que seria um relacionamento aberto e portanto ela poderia manter a sua liberdade sexual e ele poderia finalmente ser um jogador de um grande time. Eu imaginava que esse casamento não duraria muito porque é novela e todos os segredos são revelados no final e o segredo dos dois é grande demais para permanecer nas sombras.  Um casamento de fachada vai contra o final feliz que normalmente é adotado pela globo, que quase sempre reafirma que a felicidade só pode vir da família tradicional, do casamento, dos filhos e da monogamia.

Porém, o meu maior temor é outro. A união da piriguete e do gay não é novidade numa novela do João Emanuel Carneiro. Em "a Favorita", Orlandinho casou-se com Maria do Céu. O resultado no passado foi uma ex-piriguete e um ex-gay. O tratamento dispensado aos gays e às piriguetes não é a liberdade de ser, de existir, de agir, de amar quem quiser. Em vez de admirar a beleza do ponto fora da curva, a tendência é a de voltar todo mundo para o seu lugar heteronormativo, machista e castrador. 

Quem dera esses fossem os únicos exemplos de ex-gays em uma novela ou série da Globo. Recentemente também tivemos uma série toda em volta dessa temática: "Macho-man", onde o personagem principal sofre um pequeno acidente e SE TORNA heterossexual (Socorro, gente, não dou conta dessa série...).

Na novela Caras & Bocas, do Walcyr Carrasco, teve o casal queridíssimo do público Cássio e Léa. Um gay jovem e uma mulher mais velha e heterossexual. 

Beijo gay que é bom, cadê? LGBTs* não se relacionam seriamente com ninguém nas tramas da globo. Até existiram alguns exemplos, mas nunca vimos um só beijo. No máximo troca de olhares, insinuações. Ou mesmo amor sem carícias. Tudo fica implícito. Não são a piriguete e o gay que não sabem amar, é a Globo que não sabe diversificar. Mulheres piriguetes em geral acabam por se apaixonar por um homem para se redimir da sua conduta sexual pregressa. E gays em novela são em sua maioria tipos engraçados, pois só assim o homossexual é aceito, fazendo um papel risível, gerando situações cômicas. O drama de ser homossexual é invisibilizado (não vou nem falar de trans e lésbicas, que o buraco é muito mais embaixo e dá todo um outro texto). A Globo, como maior produtora de novelas da TV aberta, não pensa fora da caixa: até bota os holofotes sobre o personagem polêmico, mas tem feito aquilo que toda a bancada evangélica tenta fazer a tanto tempo: calar mulheres, exterminar/curar homossexuais. 

A heteronormatividade da Globo me leva a crer que o futuro de Roni e Suelen está traçado, que haverá um casamento mais padrão do que eles esperam. Só me resta torcer para que minhas suspeitas sejam infundadas, que João Emanuel Carneiro continue demonstrando a sensibilidade com que tratou os dois personagens até aqui, sem fazer de Roni uma piada e nem de Suelen um estereótipo. Esperamos que o autor não faça de "Roni e Suelen" outro "Orlandinho e Maria do Céu" e eles possam ser simplesmente livres. Um gay e uma piriguete até o último episódio dessa novela, que até aqui tem sido tão boa.