quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Eu tenho voz e digo: cantada não é elogio!

"Não te conheço, então não me chame de meu bem"

A campanha "Chega de Fiu fiu", organizada pelo site "Olga", recentemente publicou os resultados de uma pesquisa que o site promoveu sobre o assédio sexual no espaço público. Junto com várias pessoas que se sentiram contempladas ao ver esse problema social sendo tão falado e denunciado, surgiram também muitas pessoas, principalmente homens cis e héteros, revoltados com a indignação das mulheres com as cantadas.

Um dos principais argumentos utilizados por esses defensores do que eles chamam de "cantada inofensiva" é que ela tem a finalidade de elogiar, é apenas "parte da paquera". Eles se dizem preocupados com o fato de que essa "perseguição às cantadas" poderia impedir que a paquera acontecesse.

Mesmo com uma pesquisa que mostra que 83% das mulheres não gosta dessa abordagem, mesmo depois de vários relatos que mostram que mulheres se sentem incomodadas, ofendidas e até aterrorizadas com esse assédio, como podem essas pessoas insistirem nessa ideia de que as "cantadas" são inofensivas?

E como podem dizer que o terror que a maioria das mulheres vivem é uma paquera, quando vários relatos mostram que se você se mantem em silêncio constrangida com o assédio, o agressor profere ofensas e ameças? Como pode ser paquera sendo que uma das partes está claramente desconfortável, constrangida, incomodada e com medo da possibilidade daquela pessoa que "mexeu com ela" agredi-la? Como tamanha misoginia pode ser considerada uma forma de aproximação amorosa/sexual?
"Sua cantada me dá nojo" - Page Revolução com Fofura

O principal ponto para desmistificar o assédio como uma forma de abordagem para aproximação é que se uma das partes não demonstrou interesse em participar daquilo, não há como se falar em flerte ou paquera, porque não há mútuo interesse, não houve consentimento de uma das partes. A violação da liberdade da mulher é tamanha que as pessoas acreditam que existe um direito exclusivo para os homens de dizer para a passante o que pensa sobre o corpo dela, como se a gente andasse na rua segurando uma plaquinha dizendo "como estou hoje?". Nossos corpos não estão disponíveis para ser avaliados, nós não estamos interessadas em ouvir o que esses caras acham de nós. Somente a ideia de que é aceitável que homens desconhecidos avaliem nosso corpo e se sintam no direito de dizer o que acharam já demonstra como o espaço público ainda não é um espaço seguro para as mulheres.

Pensar que a "cantada de rua" é uma forma de elogio é ignorar a voz das mulheres que se manifestam contra essa conduta, é ignorar que mulheres tem o direito de ir e vir no espaço público sem ter seus corpos avaliados e também é ignorar que nós não precisamos da aprovação masculina.

Outra coisa que ronda o argumento do "e como fica a paquera?" é que ela se baseia numa heteronormatividade absurda. A "cantada de rua" será incômoda não só para as mulheres héteros que, pasmem, não precisam de aprovação masculina 24 horas por dia, mas principalmente para as lésbicas que sequer tem interesse em paquerar homens.

A sociedade vê a paquera como algo que deve partir do homem,  o suposto jogo da conquista que alegam que será prejudicado com essa revolta contra a "cantada" parte de uma fala masculina, que tem sido considerada incômoda pelas mulheres. Sendo assim, se vê que a ideia de conquista não está atrelada ao consentimento de ambas as partes. E deixa claro ainda que nestas situações a mulher é vista como um troféu, um objeto de enfeite e deleite. A mulher mais uma vez é desconsiderada como sujeito, ignora-se que ela tem sexualidade própria, desejos e sentimentos. É difícil para essas pessoas entender que só é paquera se há reciprocidade e consentimento. Gritar "gostosa" para uma mulher na rua não é paquera, assim como quando um colega de trabalho ou de sala de aula insiste durante seis meses em chamar a colega para sair, elogiá-la o tempo todo sem intimidade, num constante assédio que ignora que já foi dito não um milhão de vezes também não é.

O foco do que chamam de cantada, mas que na verdade é uma violência, é a manutenção e demonstração de poder. Não é paquera; se fosse, os desejos, a voz, e os sentimentos das mulheres teriam relevância e não veríamos tantas pessoas dizendo que o resultado dessa pesquisa é exagerado e tanta gente justificando essas agressões em nome de uma paquera que ignora os desejos de uma das partes.

É sintomático que diante de tantos relatos do terror que várias mulheres passam diariamente, tantas reclamações sobre essa conduta, tantas mulheres confessando o medo que sentem, ainda haja tanta gente afirmando que falar e combater o assédio no espaço público é uma bobagem. Os vários relatos de assédio não são a única uma amostra da misoginia de todo dia, a negligência com o que mulheres tem a dizer e essa insistência em nos tratar como objeto também o é.

Bons links: "Cultura do estupro no espaço público: nosso direito de ir e vir ameaçado"
"Mulheres e cantadas: uma relação de medo" 

"Quando eu ando na rua, eu não o faço para que você avalie meu corpo.Cantada não é elogio, é uma violência! E um sintoma de como a sociedade ainda não vê a mulher como gente."



8 comentários:

  1. sabe o que é pior? eu li um cara falando que ele achava que machismo é ser contra cantadas, pq mulheres conseguem se defender sozinhas e se a gente é contra cantadas é pq a gente acha que mulher não consegue se defender, acredita?

    toda vez que tentamos destruir o machismo cultural, a gente é obrigada a ler bobagens como essa e ditos no texto como exemplo.

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  2. Sou lésbica e sou vista como lésbica pela nossa sociedade mesmo quando não estou acompanhada e quando algum homem me assedia na rua, eu sinto um medo absurdo e entrar para as estatísticas de estupro corretivo.

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  3. /\

    "Estupro corretivo" é um conceito especialmente assustador.


    Me perdoem a ignorância, mas isso acontece com o estuprador tendo em mente essa idéia especifica?

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  4. Um comentário frequente dos homens sobre isso é que existem mulheres que praticamente "pedem" por cantadas quando se vestem com roupas curtas, decote, etc. Fala sério! Que julgamento besta, todo mundo deve se vestir do jeito que quiser! Quer dizer que eu tenho que escolher na loja a blusa menos decotada, mesmo gostando dela, pq senão vão achar que eu to me insinuando, que eu quero ser cantada...Tenho que ser uma "princesa", como diria a Marina Ruy Barbosa numa entrevista dessas. E mesmo as mulheres que querem mexer mesmo com os homens: qual é o direito que muitos deles acham que tem de gritarem aos quatro ventos que vc é uma "bucetuda", por exemplo, ou de quererem pegar no seu peito?
    Ser mulher é tão foda que se vc estiver numa esquina ou parada no meio da rua, sei la, esperando uma carona por exemplo, vc pode ser confundida com uma prostituta; sério, de o cara parar o carro e mandar vc entrar. Pelo menos isso já aconteceu cmg aqui no Ceará machista e patriarcal.

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  5. É chamado de estupro corretivo porque o estuprador acredita que lésbicas não existem, que a mulher lésbica só precisa "de uma boa pica" pra deixar de ser lésbica ou mesmo uma punição pra ver se a vítima deixa de ser lésbica após sofrer aquela violência e coisas do tipo. O estupro corretivo é uma manifestação da lesbofobia e da misoginia.

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  6. Adorei seu blog, muito!

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  7. Anônimo das 08:45
    Isso já aconteceu comigo também, e olhe que eu nem estava parada na rua, mas andando, à noite. E eu só tinha 16 anos!

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  8. Quando recebo cantadas fico muito envergonhada tenho shorts curtos mas ñ quer dizer que eu goste disso odeio cantadas principalmente qdo sao caras de idade affs

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