segunda-feira, 23 de julho de 2012

Teu privilégio não é minha prisão


Tantas vezes falamos aqui no blog sobre "privilégio" e percebemos que nem sempre essa noção foi plenamente compreendida. Por isso tentarei jogar alguma luz sobre a questão.

O privilégio é uma vantagem. Não é algo para se envergonhar, é apenas fruto de certas características. Um exemplo: eu sou uma pessoa que fala, escuta, possui todos os movimentos e dispõe de uma boa visão (na verdade tenho um probleminha de vista que é corrigido com lentes). Possuo portanto, a vantagem de jamais me preocupar em tatear o piso antes de dar o próximo passo, pois posso enxergar o caminho adiante. Não me preocupo em frequentar espaços públicos em que uma cadeira de rodas possa circular livremente, pois posso andar. E nunca aprendi a linguagem de libras, pois posso falar e ouvir, portanto, me comunicar sem o uso de sinais.

Muitos privilégios (a maioria, acredito eu) são construídos culturalmente. Ser branco traz uma série de privilégios em relação à ser negro. O que fica evidenciado a cada vez que colocamos a raça diante do elogio, por exemplo. Já parou para pensar porque quando se elogia uma mulher branca dizemos apenas que é uma mulher bonita, mas quando o elogio é direcionado à uma mulher negra, ela se torna uma "negra bonita"? Ou ainda, já tentou imaginar o motivo pelo qual se um homem branco dirigir um carrão muita gente achará que ele é rico, mas que se o mesmo carro for dirigido por um negro, muita gente achará que ele é apenas o motorista? É a expressão do privilégio do branco, não ser discriminado por sua cor (Sobre o privilégio branco, por favor ler esse link, esse e esse).

O privilégio masculino também é cultural. Numa sociedade tão marcada pela cultura do estupro, é uma vantagem dos homens, sair à noite e temer crimes patrimoniais. Traduzindo, temer ser roubado. Uma mulher quando sai à noite teme ser estuprada. Aliás o medo do estupro que uma mulher sente é tão grande que isso rege as nossas vidas desde muito jovens e não nos abandona nem na velhice.

E aí você me diz, "MAS CALMAÍ GIZA, se não é para se envergonhar do privilégio, porque tantas vezes vocês, aqui do Ativismo de Sofá, o criticam?" Por três motivos, o primeiro é a construção de cenários que se formam em torno de um privilégio e que pode ser muito díspar. E isso revira meu sensível estômago. Uma situação que se forma em torno do privilégio masculino: recentemente, li que a escritora de romances Margaret Atwood perguntou a um grupo de homens (na minha leitura não estava especificado se eram apenas homens cis) porque os homens se sentem ameaçados pelas mulheres, eles responderam que tinham medo que elas rissem deles. Quando perguntou a um grupo de mulheres porque elas se sentem ameaçadas por homens, elas responderam que têm medo de serem assassinadas. A polaridade das respostas gera insatisfação e revolta em quem é mulher.

O segundo motivo é que os privilégios citados acima são abstratos. No sentido que não estão escritos, codificados. Mas há privilégios escritos. Ilustrando melhor, a nossa Constituição Federal, ainda não permite o casamento igualitário. Dando a um grupo, os heterossexuais, um enorme privilégio em relação a outro, os LGBTs. Um outro exemplo é o sufrágio feminino, no Brasil conquistado há apenas 80 anos.

O terceiro motivo é porque em muitos casos, na visão da pessoa que é detentora das vantagens acima citadas (e outras tantas), o privilégio se torna a sua noção de "normalidade". Ou seja, a pessoa não consegue sentir empatia por grupos não privilegiados em questões tocantes apenas a eles, gerando uma perspectiva distorcida e parcial. Pessoalmente esse motivo é o que mais me incomoda, e também é o que mais gera discussões improfícuas. Alguns exemplos de manifestações privilegiadas nesse sentido:

Quando um homem afirma que as mulheres não possuem espaço na política porque preferem seguir outras carreiras, ele se esquece que participação política muitas vezes depende de investimento. E que nem sempre os investidores estão interessados em dar crédito às mulheres. Porque a sociedade costuma incentivar mulheres à dedicar-se ao âmbito privado, relegando ao homem o âmbito público. 

Toda vez que um branco diz que as cotas raciais nas universidades são um privilégio dos negros, ele ignora a indiscutível participação ínfima dos negros em espaços acadêmicos (ainda mais se considerarmos que a maioria da população brasileira é negra), um resquício de uma sociedade que vergonhosamente aboliu a escravatura por meio formal há 124 anos.

Quando um heterossexual alega que não se incomoda com LGBTs desde que eles não andem de mãos dadas, não beijem em público, não cheguem junto, eles se esquecem que é socialmente aceitável que um heterossexual faça todas essas coisas. 

E é claro, há os privilégios que o dinheiro proporciona. Uma casa própria, um carro, um computador, um bom celular, boa educação, viagens e etc. Nenhum problema em possuir bens materiais, o problema é esquecer ou desvalorizar quem não possui ou está em situação de classe social abaixo da sua. Daí podemos extrair por exemplo as questões trabalhistas. Quando o(a) patrão(patroa) exige que a empregada durma no serviço, será que ele(a) pensa no absurdo que seria ele(a) próprio(a), dormir no escritório em que trabalha, voltando para casa apenas no final de semana? Possivelmente, não.


Os exemplos acima tratam de privilégios sobre minorias, mas mesmo entre minorias há privilégios. Não é porque fazemos parte de um grupo em desvantagem que temos a autoridade de falar sobre o sofrimento alheio. Aqui há um texto excelente falando dos privilégios da mulher branca em relação à mulher negra.

Por Arnaldo Branco
É preciso entender que embora possuir um privilégio não seja motivo de vergonha, tampouco é motivo de orgulho. Quando uma pessoa branca anda por aí com uma camiseta "100% branco" ele está exaltando algo que não gera motivo para orgulho. É muito diferente de alguém que exalta sua raça negra, pois ser negro significa um histórico de opressão e normalmente de luta e conquistas condicionadas pela raça. Se orgulhar de ser heterossexual (uma modinha que tá rolando aí nas redes sociais) é o equivalente a se orgulhar de uma facilidade, de uma condição que não impõe desafios. Eu acho até engraçado (apesar de triste), que eu tenha que escrever sobre isso, porque me parece realmente muito óbvio. 

O privilégio é cumulativo e quanto mais privilégios uma pessoa possui maior a possibilidade dela possuir a visão distorcida da qual falei antes. Tente visualizar um muro cuja altura aumenta à medida que os privilégios se acumulam. E para algumas pessoas o muro é tão alto que é impossível enxergar o que está do outro lado. 

Retomando um pouco a idéia do título desse texto, o privilégio do grupo não é prisão de outra pessoa pois não regula a vida, os pensamentos, as atitudes dos outros. Rever seus próprios privilégios, nem sempre buscando exterminá-los, pois muitas vezes isso nem é possível, mas entendê-los faz parte do processo de compreender o outro. Enquanto você não conseguir determinar onde residem os seus privilégios, você será incapaz de aceitar que as pessoas que não detêm as mesmas vantagens que você têm outra perspectiva sobre as suas próprias vidas e que é importante demais que você as ouça mais do que questione. Não são os seus privilégios que definem e norteiam a vida dessas pessoas. Como eu disse no meu post "não me ensine a militar" somente o oprimido sabe onde e como o calo aperta. 

Obs.: Se eu não me fiz entender como eu gostaria e você ainda tem interesse no assunto, eu sugiro muito esse texto aqui.

13 comentários:

  1. De fato, essa autocrítica é essencial. Enquanto quisermos manter nossos privilégios em detrimento dos outros, o mundo continuará sendo o que é -- bom apenas para os reacionários. Um ponto que acho importante é a questao dos privilégios desfrutados quem é cis frente a quem é trans*, que vem provocando questionamentos fundamentais no Feminismo. Fato é que ainda temos muito -- MUITO -- a avançar no processo de construçao de uma sociedade igualitária. Muito bom o texto, Gizelli!

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    1. Poxa, querido, obrigada. Essa questão do privilégio Cis merece um texto separado. Acho muito importante a reflexão.

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  2. Seja bem vinda, Lanna. Ficamos felizes que você tenha gostado do nosso blog, a gente escreve com muito carinho. Volte sempre. ;)

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  3. Uma explicação muito boa de privilégios: Ter privilégios é como ter pés grandes. Ninguém te odeia por isso, mas você tem que ter cuidado aonde pisa. (https://sindeloke.wordpress.com/2010/01/13/37/)

    Outra coisa que acho importante, e até comentaram num texto recente sobre cissexismo no blogueiras feministas, é a questão de entenderes teus privilégios e não tomar pra ti as histórias e sofrimento dos outros, mas isso não significa ser conivente e ignorar a dor dos outros

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    1. Oi, Diana. Exatamente! A questão é empatizar com o sofrimento alheio, isso jamais significará tomar para si esse sofrimento, apenas passar a enxergá-lo, a compreendê-lo. O que é muito difícil para muita gente, infelizmente.

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  4. Esse post me lembrou discussões que tive: a primeira delas era um conhecido reclamando que a Dilma exigir ser chamada de 'presidentA', quando a denominação permite chamá-la de presidente, era excesso de feminismo (ficarei imaginando sua cara ao ler isso e imagino q será igual a minha quando li). Eu perguntei pra ele o que era feminismo na opinião dele e, pasme, ele deu a definição correta. Desenvolvemos um debate no post de facebook dele e dentre outras pérolas ele soltou que 'essa não era a luta dele'(tenho colegas anarquistas e comunistas que também pensam assim e acho ainda mais vergonhoso). O seu texto me fez lembrar disso.
    Na tentativa de quebrar esse raciocínio mesquinho, há um documentário muito bom sobre o assunto chamado 'olhos azuis', mas ele fala de preconceito racial. O documentário acontece com estudantes e a professora e psicóloga, coloca as pessoas com esse raciocíonio em situações de opressão e depois faz com que as pessoas reflitam sobre o porquê não deve seguir passivos em preconceitos mesmo que não seja com elas mesmas.

    A segunda passagem do seu post que me lembrou uma situação interessante é esse orgulho de privilégios. Debati com gente que dizia se orgulhar do direito à liberdade de não militar por nada (juro que a pessoa disse mesmo isso). Respondi que dizer isso era como dizer que se orgulha por respirar! É algo que não demanda nenhum esforço, nenhuma luta. Como você bem lembrou. Citei ainda aquele movimento ridículo e rechaçado com veemência, chamado São Paulo para paulistas, coisas totalmente despropositadas.
    Mas aí a pessoa preferiu desviar o foco do assunto se escondendo (novamente) na tal liberdade de expressão + respeite minha opinião. Nunca vou entender como conseguem distorcer tão ridiculamente o conceito de liberdade.

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    1. Anônimo eu não poderia concordar mais com você. Já passei por essas situações também. Inclusive, recentemente, DOIS ANOS depois da Dilma ser eleita ainda tive que ir lá tentar explicar o porquê do presidentA (que por sinal nunca foi errado e inclusive consta no dicionário). Vou procurar o documentário, obrigada pela recomendação!

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    2. Melhor não militar por nada do que fazer ativismo de sofá e achar que é um militante.

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    3. HAHAHAHAHAHA. Então continue militando por nada, "Asdrubal".

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    4. Obrigado. E continue militando no sofá, giselinha. :-)

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  5. Só pra você saber Adrúbal, eu sou a anônima da postagem sobre a Dilma e, acredite você ou não (se é q você não está aqui just for trolling) 'ativismo de sofá' é militância sim. Eu e meu namorado temos parentes bem reaças(antes fosse só eu, né? rs), tipo Bolsonaro. Aí um dia desses rolou aqueles convites de programas familiares que por várias questões eu procuro evitar que sejam constantes, mas esse primo do meu namorado é bem persistente, então cedemos e fomos com ele almoçar e passear na liberdade.
    Ele é evangélico-praticante-chato, é do tipo q não lava um copo porque isso é coisa de mulher...zzzzzz Enfim: durante o caminho ele abordou o assunto feminismo por iniciativa dele, estávamos falando de estudar, faculdade... Ele só tem o ensino médio e se sentiu motivado a cursar nível superior, disse que ia estudar pro vestibular, perguntou por materiais de estudo... Até q ele começa a abordar sobre feminismo, dizendo que caiu pergunta do gênero no vestibular dele e que ele conseguiu responder baseando-se nos meus posts e links de facebook (sério, senti um orgulhinho dele e de mim :´)). A pergunta era o que ele achava de mulheres que não votam em mulheres em eleições, e ele lembrou, no enredo de sua reposta, que o machismo é um preconceito social, que supera barreiras do gênero. A própria mulher dele diz que ele está mudando o tratamento que ele dispensa à ela. Que agora ela pode sair sozinha, pode ter uma vida mais individuada que ele não dá chilique.
    Ele terminou dizendo que entende o que quero dizer com minhas postagens e que, dentre outras coisas, parou de curtir páginas como o 'testosterona.com'.
    Eu senti como se fosse algo me dizendo: olha, esse mundo tem jeito ainda, olha só...

    Desculpe pelo big post, mas isso pra dizer que consegui, apenas com postagens de facebook, mudar uma mente, melhorar uma relação, e fazer com que uma pessoa queira ser mais esclarecida. É só uma pessoa, mas já faz toda a diferença!

    Acho desnecessário, mas vou pontuar mesmo assim, que não é só o ativismo de sofá que conta e dentre outras coisas, a gnt também acaba fazendo um 'trabalho formiguinha'. Tipo, abodar esses princípios e assuntos com conhecidos, parentes, com uma eloqüência e exemplos que os façam pelo menos refletir, dar exemplos por comportamentos, etc. Não é (lógico) o suficiente, mas pode fazer toda a diferença!

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    1. anônima, obrigada pelo big post. <3

      Nosso trabalho é de formiguinhas mas dá retorno. São pequenas vitórias que se somam. Ontem mesmo um grupo de pessoas no twitter e no Facebook acabou por fazer com que uma marca de preservativos retirasse do ar uma campanha que fazia apologia e incitação ao crime de estupro. Sem precisar ir até o conar (que normalmente de nada adianta mesmo), ou à justiça que, sabemos, é morosa.

      Casos como o do rapaz da sua família eu já tive vários. Dentro da família não tanto, porque tenho pouco contato, mas entre amigos sim. Principalmente entre amigAs. Várias pessoas com quem eu tinha pouco contato, senão por redes sociais, foram se interessando cada dia mais pelas coisas que eu posto sobre a questão de gênero. Meu blog ainda é pequeno, mas veja o caso das blogueiras feminitas e da Lola. Ou da Letícia, que tem blogs muito acessados. Elas falam para milhares de pessoas todos os dias. As redes sociais tem uma importante função de informar e articular os movimentos.

      Daqui da minha cadeira estou me comunicando com vários coletivos feministas do país. Além de acompanhar os movimentos, debates, palestras. E tento passar um pouquinho do que aprendo aqui. E aqui também aprendo um bocado com os leitores e comentaristas. Essa troca é boa para todo mundo. Infelizmente tem gente que não consegue olhar para essa articulação e troca sem ser na superficialidade.

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  6. Bom texto, exceto pelos links para o Papo de Homem.

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