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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Ver ou não ver fotos vazadas: uma questão de consentimento.

 "É meu corpo e deveria ser minha escolha.
O fato de não ser minha escolha é absolutamente nojento"

No final de agosto, várias famosas tiveram sua privacidade violada, entre elas Jennifer Lawrence. Várias fotos íntimas dela e de outras mulheres conhecidas no mundo do entretenimento foram roubadas e posteriormente colocadas na internet. Não preciso dizer que as fotos foram disponibilizadas sem o consentimento das vítimas, né?

Após o vazamento criminoso das fotos, as vítimas foram ofendidas e culpabilizadas, afinal, dentro do patriarcado, a sexualidade feminina é sempre atacada. As fotos das artistas rodaram o mundo, a internet em peso compartilhou as imagens ou pelo menos as visualizou.


A Atriz Mary E. Winstead, uma das vítimas dessa exposição em massa, publicou em seu twitter uma crítica a quem buscou as fotos dela com uma mensagem que poderia ser traduzida como "Para aqueles que estão olhando as fotos que eu tirei com meu marido há anos atrás na privacidade da nossa casa, espero que vocês se sintam ótimos com vocês mesmos."

Jennifer Lawrence demorou para se pronunciar sobre o acontecido, até que na entrevista para a revista Vanity Fair, a atriz falou sobre e como tamanha exposição mexeu com ela. Na matéria, ela deixou claro que o que ocorreu não foi um escândalo ou uma polêmica e sim um crime sexual. 

Ela afirma que temeu como a repercussão do caso poderia atrapalhar sua carreira e que tentou escrever diversas vezes sobre o acontecido, mas que sempre acaba ou com raiva ou chorando. Ela afirma também que chegou a começar a escrever um pedido de desculpas, mas que viu que não tinha motivo para se desculpar. A atriz falou várias vezes sobre o corpo ser dela e sobre escolha, deixando claro que visualizar as fotos vazadas é uma violação da escolha dela de não divulgá-las. Uma violação de consentimento.

Ao conceder essa entrevista, ela deu voz para várias mulheres que foram vítimas de revenge porn e que nunca tiveram onde se manifestar para serem ouvidas, mulheres que sofreram as consequências da exposição de imagens íntimas numa sociedade machista. Ela deixou claro que o vazamento criminoso de fotos é um crime sexual e que não deve ser relativizado por causa da existência das fotos e vídeos íntimos.

Jennifer Lawrence fez um favor para todos nós que combatemos o revenge porn, a objetificação do corpo designado feminino, a culpabilização da vítima e a demonização da sexualidade feminina ao dar um chega pra lá em todo mundo que diz "mas as fotos já vazaram mesmo" e buscam as fotos vazadas e as compartilham. 

Se as imagens estão na internet porque foram disponibilizadas sem o consentimento das fotografadas e filmadas, você ao buscar uma forma de visualizar as fotos viola a escolha dela de não ter essas fotos vistas por mais ninguém além do real destinatário. 

Jennifer Lawrence disse "Até pessoas que conheço e amo me disseram que viram as fotos. Não quero ficar com raiva, mas ao mesmo tempo penso que não disse a elas que elas podiam olhar para meu corpo nu". Vale a pena lembrar toda vez que ocorrer casos de revenge porn que não temos autorização para ver esses corpos, já que não somos destinatários desses nudes.

"Privacidade é um direito humano e mulheres, sendo anônimas ou não, devem ter seus direitos respeitados. Os corpos das artistas não pertencem ao fandom, nem aos sites de notícias e nem a quem as expôs. Os corpos das mulheres não pertencem aos namorados, companheiros, ficantes ou aos antigos relacionamentos delas. O corpo é delas e elas tiram fotos nuas se curtirem isso e compartilham apenas com quem elas quiserem e nós, internautas, que não somos os reais destinatários dessas imagens não devemos alimentar ainda mais essa exposição." - Trecho do texto do Ativismo de Sofá sobre exposição de fotos sem autorização das vítimas. 
As declarações de JLaw foram tão poderosas, que por represália editaram a página dela na Wikipedia adicionando as fotos roubadas. A página original já foi restaurada, mas o ocorrido serve de amostra da misoginia presente em nossa sociedade. Essa misoginia que quer punir a atriz pelas fotos ao saber que ela não vai pedir desculpa por ter sexualidade faz questão de tentar humilhá-la, mais uma vez, através das imagens.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Esquerda, tem que ver esse machismo aí



A discussão acerca da seletividade do Direito Penal é urgente, mas não pode atropelar outra pauta tão essencial quanto essa, que é a do combate à violência contra a mulher. Infelizmente isso acontece. A esquerda questiona e problematiza várias coisas, mas o machismo continua sendo posto de lado.

Duas páginas, que antes desse episódio eu curtia, publicaram uma imagem que frequentemente é postada em páginas misóginas do facebook que simplesmente banaliza a violência doméstica. A imagem não foi postada sozinha, mas junto com uma matéria sobre uma fala da ativista Angela Davis em que ela disse que a criminalização da violência doméstica não basta para solucionar o problema e fez críticas ao sistema prisional/punitivo, mas ainda assim continua misógino. 

A imagem em questão é utilizada em várias páginas do facebook para desqualificar as denúncias de violência doméstica, colocando o dinheiro e aparência do agressor como um diferencial na hora de "gostar de apanhar" e na hora de denunciar. Uma das leituras possíveis da imagem é que a mulher é interesseira e não denunciaria caso o homem fosse rico.

Homens pobres e negros compõem majoritariamente a população carcerária brasileira e homens brancos e ricos raramente são condenados por seus crimes, mas essa imagem simplesmente culpabiliza a vítima. Coloca nos ombros dela a culpa disso tudo, ignorando que as mulheres também sofrem com essa dualidade do Direito Penal já que encontram desafios gigantescos para denunciar homens brancos e ricos quando eles as agridem e muitas vezes não o fazem por medo do poder do agressor. E também ignora a questão da dependência financeira que muitas vezes compõe o cenário da violência doméstica.


Comentário retirado da postagem de uma das páginas que
deixa claro o tipo de pensamento que a imagem reproduz.
A lei Maria da Penha foi sancionada em agosto de 2006, após a luta de entidades de direitos humanos que levaram o caso da Maria da Penha para a Corte Interamericana de Direitos Humanos. A mulher que dá nome à lei sofreu duas tentativas de homicídio por parte do marido e ficou paraplégica. Na justiça, ele foi condenado, mas passados 15 anos e ele continuava livre. Com a pressão exercida por uma organização internacional, 19 anos depois, o agressor foi preso.

A decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos levou em conta que o Brasil é signatário da Convenção Americana de Direitos Humanos e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher e afirmou que o Brasil era negligente e omisso quanto a esse tipo violência e recomendou ao país uma série de medidas para combater tal negligência. 

Após a decisão da CIDH, em 2003, houve a publicação da lei que determina a notificação compulsória, no território nacional, de casos de violência contra a mulher que for atendida em serviços de saúde públicos ou privados e posteriormente, em 2006, a Lei Maria da Penha. 

É essencial destacar que a condenação do Brasil na Corte se deu porque ficou provado que o caso em questão não era isolado, pelo contrário, era sistêmico. Documentos estatísticos sobre o período apresentaram o dado que apenas 2% das denúncias apresentadas aos tribunais que caracterizavam violência doméstica resultavam em condenação.

Indispensável também é ter em mente que a partir da criminalização da violência doméstica iniciou-se um processo de diminuição da negligência social/estatal com a violência doméstica e reconhecimento do problema. A existência da lei é apenas um passo dado no combate do problema e a trajetória dela expõe o quanto todas as instituições e como nossa cultura naturalizam tais agressões como aceitáveis. 

A imagem publicada, mesmo num contexto de crítica à seletividade do direito penal, é apenas mais um exemplo de como a sociedade ainda banaliza um problema social que coloca o Brasil em 7º lugar no ranking de feminicídios. 



A violência doméstica durante muitos anos era vista como um problema familiar apenas, um assunto privado que se referia apenas ao casal ou à família. A frase "em briga de marido e mulher não se mete a colher" é infelizmente quase um ditado ainda hoje. Desprezar o contexto social e histórico da violência doméstica numa "piada" é contribuir para a negligência e para a continuidade da banalização da misoginia. Violência doméstica não serve para piada de entretenimento e nem pra piada crítica do Direito Penal. 

Instituir políticas sérias de combate ao machismo e modificar a cultura que naturaliza a violência nas relações entre homem e mulher são outros passos que precisam ser dados no combate a violência de gênero. Reproduzir a imagem criticada é desprezar a importância da mudança cultural na transformação da realidade social, tanto para diminuir as agressões contra as mulheres, quanto para modificar o sistema penal brasileiro.

Biblografia: A Lei Maria da Penha na perspectiva da responsabilidade internacional do Brasil - Flávia Piovesan e Sílvia Pimentel. 

Brasil só criou Lei Maria da Penha após constrangimento internacional 

Indicação: Violência Doméstica não é piada! 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Chega de violência obstétrica! Pelo direito de parir e nascer sem violência.

Retratos da violência obstétrica
A violência obstétrica acontece quando profissionais de saúde desrespeitam a vontade e autonomia da grávida, omitem informações sobre parto e saúde que possibilita a mulher de fato escolher se quer parto normal ou cesariana, utilizam-se de técnicas arcaicas e agressivas contra o corpo designado como feminino e tratam a grávida de forma completamente desumanizada, fazendo piadinhas com sua sexualidade e impedindo que a grávida manifeste suas emoções . 
"A violência obstétrica existe e caracteriza-se pela apropriação do corpo e processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso da medicalização e patologia dos processos naturais, causando a perda de autonomia e capacidade de decidir livremente sobre seus corpos e sexualidade" 
Ela é naturalizada em nossa sociedade por causa da misoginia tão enraizada na nossa cultura e nas práticas médicas. Uma das fontes dessa naturalização da violência é a ideia de que o corpo da mulher é público, especialmente durante a gravidez. Muitas mulheres relatam que ao noticiar a gravidez todos se sentem no direito de opinar sobre o corpo delas e se o comportamento delas é coerente com o de uma futura mãe e até mesmo passam a tocar na barriga sem consentimento. 

Se a grávida se mostra incomodada com as intromissões e toques não consentidos, ela ouve frases como "Nossa, mas grávida fica muito sensível mesmo, não é?" e até mesmo "Nossa, bem que dizem que grávida fica beirando a histeria". Essa visão de que grávidas são malucas, histéricas e não sabem o que querem e o que fazem contribui muito para a naturalização da violência obstétrica porque é uma forma de desvalorizar a voz das mulheres que ousam denunciar. As denúncias de violência obstétrica são encaradas pela maioria das pessoas como um exagero, excesso de sensibilidade, sendo que é uma violência e é necessário dar visibilidade a voz das mulheres que foram vítimas dessa desumanização para que as pessoas parem de encarar uma violência sistêmica como uma bobagem. 

Na maioria dos relatos de sobreviventes dessa violência a gente vê como a demonização da sexualidade feminina influencia nas frases tão agressivas que são ditas para as pacientes. Frases comuns nos relatos são "Na hora de fazer você não gritou" e "Pensava nisso antes de abrir as pernas" e elas escancaram como a dor na hora do parto muitas vezes é vista como uma punição para a mulher que exerce sua sexualidade. 

Um procedimento médico comum nos hospitais brasileiros é a episiotomia de rotina e posteriormente, o "ponto do marido". A episiotomia é um corte cirúrgico na área do períneo pra ajudar na saída do bebê que é, na grande maioria das vezes, desnecessário. A episiotomia de rotina, procedimento tão naturalizado no mundo médico, é uma violência obstétrica, principalmente porque ela ocorre muitas vezes sem o consentimento da grávida. O "ponto do marido" ocorre na sutura da episiotomia e consiste em dar um pontinho a mais. Normalmente também ocorre sem o consentimento e sem o médico dar as devidas informações para a grávida. A violência do "ponto do marido" é escancarada, já que o corpo da mulher, sua recuperação e sua sexualidade são colocados como menos importantes que o prazer do parceiro e também por ter muito a ver com a visão arcaica que vaginas "relaxam" e da valorização da virgindade feminina.

"No Brasil e em outros países, temos o agravante do chamado "ponto do marido", a apertada adicional da vulva supostamente para "devolver à mulher a condição virginal", muito freqüentemente associada a dores na relação sexual e mesmo à impossibilidade da penetração, necessitando correção cirúrgica".

Não só o machismo influencia nas agressões, mas também o racismo, visto que as mulheres negras sofrem com o mito, que se funda no racismo, de que elas são mais resistentes. Por causa desse mito, mulheres negras recebem menos anestesia durante o parto. 

A violência obstétrica está presente na história das mulheres que engravidam e sua gravidade não é reconhecida pela sociedade. Falar sobre violência obstétrica, lutar pela humanização do parto, utilizar a internet e conversas para informar mulheres sobre seus direitos e sobre procedimentos considerados arcaicos e agressivos é lutar contra a violência contra a mulher.

Por isso, no dia 24 de julho, haverá um tuitaço com a hashtag #ParirSemViolência, a partir das 16 horas. Ajude dar visibilidade a esse problema e diga conosco: Chega de violência obstétrica! (a hashtag #NascerSemViolência também pode ser usada em conjunto com a outra)




Para quem quer saber mais sobre o assunto, eu indico os sites Paula IrRita, Para BeatrizFemmaterna, Estude, Melania, estuda, Cientista que virou mãe e os nossos textos sobre maternidade e feminismo.

Cientifique-se humana -  Paula Mariá 

Quanta dor cabe em um corte de cesária -  Paula Mariá

Não deixem de conhecer o projeto Retratos da violência obstétrica e sua página no facebook Projeto 1 : 4.

Mais textos:

Violência obstétrica é violência de gênero. Ou até quando vamos tolerar misoginia? - Para Beatriz 

Negra e grávida: ainda mais invisível? - Blogueiras Negras

Grávida, pobre e negra - quando a violência e a omissão obstétrica matam e parir vira uma questão de coragem - Blogueiras Negras

Na hora de fazer não gritou 

Observação: homens trans e pessoas não binárias com útero também podem engravidar.  A reivindicação de um parto sem violência é alcança também essas pessoas. (Nem todas as mulheres podem engravidar e tem útero). 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Violência doméstica não é piada!

Alemanha não "estuprou" o Brasil. Eles simplesmente ganharam. Desde quando estuprar se tornou equivalente a ganhar? Escolha suas palavras com sabedoria.
O futebol ainda é um reduto masculino quase intocável: no Brasil, apenas o futebol masculino é valorizado, o jornalismo esportivo tem como uma das principais pautas musificar torcedoras, jornalistas, bandeirinhas e atletas e as torcidas continuam usando frases como "ele joga como uma menininha" para ofender jogadores e times e a rivalidade entre times é fortalecida com xingamentos homofóbicos, misóginos e às vezes até racistas.

A construção da masculinidade perpassa pela valorização da agressividade e pela reprodução de opressões contra grupos vulneráveis, como mulheres e crianças. Sendo, no Brasil, o gostar de futebol e ser torcedor parte da cultura da masculinidade, oprimir dentro do futebol é considerado algo natural e não criticável.

A ostentação que muitas vezes é reproduzida pelos jogadores e pela mídia reforça a cultura da meritocracia, que só fortalece o capitalismo e, principalmente, o machismo, visto que muitas vezes as namoradas, companheiras e esposas dos jogadores são tratadas como troféus. As mulheres que acompanham os craques são objetificadas, são vistas como um prêmio que veio do esforço e treino deles, assim como os carros importados que alguns adquirem. 

A objetificação das mulheres é um lugar-comum do jornalismo esportivo. A musificação de mulheres para atrair cliques é uma prática comum que mais uma vez reafirma que esporte, especialmente futebol, não é um lugar em que mulheres são bem-vindas. Atletas, jornalistas e torcedoras são constantemente lembradas que são enfeites e não indivíduos. Ainda hoje, quando uma mulher fala de futebol, ela não é levada a sério. Gostar de futebol é visto por muitos homens como algo que mulheres fingem fazer pra conquistá-los. Um exemplo do machismo em torno do futebol é que recentemente, uma bandeira, após cometer um erro crasso de arbitragem, sofreu com o machismo de fãs do esporte e até com um comentário objetificador e machista de um diretor de futebol. 

No período de Copa do Mundo, muitas mulheres relataram assédio verbal e até físico no espaço público por parte de torcedores estrangeiros e brasileiros e de certa forma, isso era previsível, não só porque são práticas naturalizadas na cultura machista, mas também porque a forma que o jornalismo esportivo é conduzido reproduz a ideia de que mulheres são apenas um corpo disponível e não pessoas completas, com vontades, anseios e direitos.

Além disso, quando um time perde de goleada, é comum ouvir e ler pessoas dizendo que o time perdedor "foi estuprado". Essa frase, apesar de comum no meio do futebol, é de uma insensibilidade tremenda porque banaliza uma violência seríssima. Mas as "piadas" de viés misógino não são apenas reforçadoras da cultura do estupro, mas também da violência doméstica.

Matéria "Goleada da Alemanha contra Brasil na Copa gera piadas na internet"

Após a derrota do Brasil de 7 x 1 na semi-final da Copa do Mundo em casa, essas piadas de extremo mal gosto viraram febre na internet. Vários memes foram feitos e de forma muito irresponsável, o G1 veiculou uma imagem reforçadora de violência doméstica com a legenda falando que a imagem representava "uma crise familiar".

A irresponsabilidade do veículo de comunicação ao veicular a imagem como se engraçada fosse e ainda com a descrição de que ela trata de uma crise familiar e não de violência é gritante. Num país com estatísticas tão assustadoras de violência doméstica e discriminação contra a mulher, banalizar uma violência como essa é reforçar a cultura que a mantem presente e sistêmica.


Vídeo da campanha inglesa.

A veiculação da piada misógina no portal do G1 se torna ainda mais absurda quando analisamos a publicação sob a ótica de que uma campanha inglesa contra violência contra a mulher apresentou o dado de que no contexto inglês, os casos de violência doméstica aumentam cerca de 38% quando a Inglaterra é derrotada. No Brasil, as estatísticas não devem ser as mesmas, mas agressões especialmente contra mulheres aumentam sim após derrotas, especialmente goleadas. 

Ser uma piada e ser sobre futebol não afasta o caráter opressor da imagem. É necessário reconhecer que sim, o futebol muitas vezes reproduz dinâmicas de poder que devem ser questionadas e criticadas. Enquanto ignorarmos o machismo, racismo, homofobia e transfobia presentes no futebol, jamais conseguiremos eliminar tais preconceitos da nossa cultura. A cultura de violência das torcidas, as ofensas preconceituosas que surgem com a rivalidade dos times e a exclusão das mulheres como futebolistas e comentaristas de futebol não é saudável e nem natural, ela só é um sintoma de como a masculinidade é construída de forma problemática e como o futebol, como espaço masculino, acaba por reproduzir tudo isso. 

"A mulher brasileira existe, mas não para satisfazê-los" - Aline Valek no Escritório Feminista.

"Quando o xaveco é quase uma agressão sexual" - Reportagem

"Mulheres relatam como foram assediadas nas festas da Copa na Vila Madalena" - Reportagem

"GQ India tells Indian men to harass Brazilian women" - Texto em inglês da Flávia Simas.

"World Cup of Sexism" - Texto em inglês da Flávia Simas. 

"O outro saldo da Copa" - Lugar de Mulher. 

"Mulheres nos esportes" - Podcast feminista "We can cast it!"

"Onde estiveram as mulheres na Copa do mundo?" - Blogueiras Feministas

Futebol também é lugar de mulher! Conheça a história da Marta Vieira da Silva, uma das maiores futebolistas do mundo e da Léa Campos que foi a primeira árbitra de futebol do mundo. 

domingo, 15 de junho de 2014

Dos esqueletos que a Irlanda guarda no armário

Então que eu estou vivendo na Irlanda há um ano. Tenho realmente muitas coisas positivas a dizer sobre o país. Além de ser um lugar lindíssimo, eu estou gostando muito de morar em uma cidade pequena (cerca de 75 mil habitantes) em que posso andar pra tudo quanto é lugar, sem precisar dirigir. Aqui em Galway praticamente não tem verão mas, apesar do frio, a cidade é charmosa, artística, vibrante e feliz

Uma coisa, entretanto, me chamou atenção desde o momento em que coloquei meus pés aqui: a luta pelos direitos das mulheres ecoa e muito as pautas brasileiras. Também não era pra menos: tratam-se de dois países profundamente influenciados pela Igreja Católica, que tanto cá quanto aí, manda e desmanda na sociedade em geral, dando as cartas na política e cultura locais. 

A influência da religião na vida da população se reflete no tratamento misógino dado às mulheres: a Irlanda é um dos países com as leis mais rígidas do mundo no tocante ao aborto. Teoricamente, por aqui só se aborta em casos em que há risco de morte para a gestante. Trata-se de uma lei nova que ainda vai levar um tempo para ser absorvida pela sociedade. É parcialmente resultante do caso que narro abaixo.


Em 2012, a morte de Savita Halappanavar causou furor em boa parte da sociedade. Ativistas pró-escolha foram às ruas protestar contra a negligência do Estado para com as mulheres. O que aconteceu com Savita exatamente? Bom, sintam-se livres para googlar o nome dela, porque eu vou fazer um resumão bem resumido aqui: a Savita estava grávida de 17 semanas quando entrou em processo de abortamento natural. Ela procurou o hospital local, aqui em Galway, e os médicos se recusaram a fazer a interrupção da gravidez nela, porque "a Irlanda é um país católico". Sim, foi essa a justificativa. Em pleno 2012. Savita morreu de complicações decorrentes de uma infecção generalizada. 

Espero que tenha ficado claro que o caso acima aconteceu em um país europeu, em uma cidade "moderninha" em que as pessoas são altamente educadas e extremamente descoladas em suas aparências. Acontece que as aparências, amigues, elas enganam. Mas isso é o tipo de nuance que você só vai entender quando passa um bom tempo em determinado lugar. A mente irlandesa ainda é muito conservadora e fechada no tocante à sexualidade. No que diz respeito à sexualidade da mulher, então, a desinformação/preconceito rolam soltos. Eu lembro do meu choque ao ir em uma palestra da fundadora de uma ONG local de saúde reprodutiva. Na década de 90, NOVENTA, ela enfrentou uma forte reação conservadora da sociedade, por ousar distribuir camisinhas e pílulas anticoncepcionais às mulheres. 

Toda a narrativa acima serve de pano de fundo para o que eu quero discutir no texto que vos fala: foram encontrados esqueletos de cerca de 800 bebês e crianças que morreram em um asilo para mães e bebês aqui da Irlanda. Asilo que fazia parte de uma rede imensa que tinha instituições do tipo por toda a Europa. Estima-se que seja a ponta de um imenso iceberg de descarada violação de direitos humanos. Há várias narrativas populares apontando para outros casos de bebês que foram simplesmente jogados em valas comuns, sem identificação, sem velório, sem nada. E a Igreja Católica está envolvida até o pescoço nisso.

O asilo para mães e bebês que funcionava em Tuam, onde as ossadas foram encontradas. 

Mas do que se tratam os tais asilos? Bom, eu vou novamente resumir bastante, mas deixo um link informativo aqui, caso interesse.Tratam-se de instituições de ""reabilitação"" de mulheres consideradas desviantes. Pra ICAR, obviamente, o desvio está em ser humana, em fazer sexo, basicamente. Mulheres pobres, estrangeiras, ciganas também entravam na roda da humilhação. Eu li bastante coisa, mas os relatos que ouço das minhas amigas irlandesas me deixam ainda mais horrorizada: essas mulheres eram forçadas a trabalhar em lavanderias gerenciadas por freiras. Trabalho exaustivo, pouca comida, tratamento médico zero, muitas doenças (parece que as lavanderias que tratavam de roupas de hospitais eram as piores) e um frio de lascar. Era assim que a Igreja imaginava que reabilitaria essas mulheres, cujo grande crime foi ter feito sexo: na maioria dos casos, antes do casamento.


O sadismo era tanto que essas mulheres tinham tratamento médico negado no pós-parto. Muitas morriam de infecção generalizada, pois as freiras se negavam a prover-lhes antibióticos. As crianças eram extremamente mal-cuidadas e mal-tratadas. Acreditava-se por aqui que filho bastardo coisa boa não poderia ser, então a política era deixar morrer. As que tiveram sorte suficiente de sobreviver eram enviadas pelas freiras à escolas católicas, e tinham que se sentar distante das crianças "legítimas". A separação entre "legítimas" e "bastardas" era total, e dizem que as tais legítimas eram ENCORAJADAS a humilhar as bastardas. Li uma história de uma mulher que enrolou uma pedra num papel de bala e deu para uma dessas pobres crianças, só para morrer de rir da carinha triste dela. A mulher se arrependeu amargamente de ter feito isso, e o resultado é que ela é hoje a historiadora que investigou o ocorrido.

Tem um filme rodando por aí, chamado Philomena, que mostra a busca de uma mulher por seu filho, que nasceu em uma dessas lavanderias, que eu ainda não tive a chance de assistir. Mas, eu li uma entrevista que a Philomena deu recentemente, expressando choque e horror com relação ao caso que ficou conhecido como "os bebês de Tuam". Ela disse: "Como pode eles terem feito isso? Como que mulheres que professaram seu amor por Deus, que eram Cristãs, podem ter pensado que agir assim era o certo? (...) É de uma crueldade impensável. Meu coração dói por essas crianças e suas pobres mães. Eu poderia chorar hoje. Elas foram alimentadas com água e açúcar e eu imagino que ficaram tão desnutridas que acabaram morrendo e sendo jogadas fora". A entrevista completa, em inglês, pode ser lida aqui.


Eu traduzi a fala acima para abrir um pequeno parêntese: a comoção em torno do caso acabou colocando as freiras na posição de bode expiatório. O que é até previsível, considerando o grau de misoginia da sociedade. Os líderes da igreja, que são todos homens, estão sendo poupados de críticas e isso é bem sintomático de um sistema que demoniza as mulheres. Como essas lavanderias eram administradas por freiras, o primeiro instinto é justamente pensar como a Philomena pensa, e isso agrava ainda mais a situação de ódio contra as mulheres no país. Estão xingando as freiras enquanto a estrutura patriarcal da igreja continua intacta. 

O assunto mexe muito com os brios dos irlandeses. Praticamente todo mundo que tem a cabeça no lugar se envergonha desse passado não muito distante (as tais lavanderias, olha só, funcionaram até a década de noventa). E a igreja católica, como se posiciona? Tergiversando, óbvio. O bispo local veio com a velha e manjada ladainha que temos que analisar o "passado" com os olhos no "passado". Sabe, aquela historinha do contexto? Um contexto que só serve pra justificar as merdas que a igreja faz, e não necessariamente aquilo que o povo faz? Então. É isso, gente: os padres dizem que temos que analisar as coisas sob uma perspectiva histórica, sendo que os fatos são tão recentes que muitas vítimas ainda estão vivinhas da silva. Sendo humilhadas por um silêncio que já dura décadas.

Daí que pelo tom desse texto já deu pra ver que eu estou emputecida, né? Pois bem. Reuni minhas amigas feministas e resolvemos planejar um protesto. Tive a idéia de cortar 796 bonequinhas de papel e distribuir na praça principal da cidade, que fica em frente de casa. Uma amiga tinha o contato da organização pró-escolha de Galway, e as meninas da organização ficaram felizes em nos encontrar. Nos reunimos para um chá e decidimos como seria o evento. Resolvemos que não seria um protesto propriamente dito, mas uma vigília, uma solenidade para relembrar as vítimas e exigir atenção do Estado ao caso. 

O evento aconteceu na quarta-feira, dia 11 de junho de 2014, e eu posso dizer com certeza que foi um dos momentos mais marcantes da minha vida. Galway é uma cidade pequena, e nós não tivemos tempo e nem muito espaço na mídia para divulgar o evento. Ainda assim, umas 200 pessoas compareceram ao local. A Rachel, ativista pró-escolha e apresentadora do evento, foi muito aplaudida quando pediu pela total separação de Estado e Igreja. As pessoas levaram flores e colocaram próximo às bonecas de papel. 

Euzinha lendo o poema. Maria ao meu lado (de perfil)
Quando eu e Maria estávamos cortando as bonecas, nós tivemos a compreensão da dimensão do horror: era boneca que não acabava mais! As nossas mãos doíam, acabou que nem conseguimos numerar todas em casa, tivemos que abrir as correntes de boneca na praça, e ali mesmo conseguimos mais voluntárias para numerar as bonequinhas. Cada número era uma lembrança da triste realidade de que seres humanos foram tratados daquela forma impessoal - apenas um número, apenas mais um corpo a ser jogado numa fossa. A tristeza foi tanta que eu escrevi um poema, e acabei tendo a chance de ler o mesmo durante o evento, e o pessoal gostou bastante. Deixo o link para o poema, em inglês. 

A descoberta das ossadas revela mais que um capítulo sombrio da história da Irlanda: ela demonstra como a influência da religião pode ser perniciosa para as mulheres. Ela demonstra que a mulher na Irlanda não vale nada. Essas mulheres que foram enviadas às tais instituições tiveram a escolha roubadas de si. Por que será que é tão mais fácil se relacionar com bebês de forma abstrata (afinal, todo o conceito de 'pró-vida' é isso: uma abstração) do que cuidar da materialidade de seres humanos que já existem? Por que será que a igreja achou (e pelo visto, ainda acha) normal considerar o aborto algo errado ao mesmo tempo em que incita tamanha violência contra crianças indefesas que só precisavam de um pouco de amor? Qual o problema desse mundo?

A vigília foi notícia em vários jornais locais, e online eu encontrei essa reportagem e essa aqui

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Feminicídio e misoginia: por que é tão importante usar essas palavras?

Machismo mata mulheres todo dia - Grafites Feministas
Mais um caso de massacre com motivação misógina ocorreu na última sexta-feira (23/05). Elliot Rodger esfaqueou três colegas de quarto e atirou em duas mulheres no campus, além de atirar sem alvo até ser encontrado morto em sua BMW. E a mídia, em sua grande maioria, mais uma vez, ignora a questão de gênero que está por trás desse crime.

Elliot Rodger deixou claro o quanto odiava mulheres em um vídeo gravado por ele em que ele culpava as mulheres por sua solidão e jurava vingança contra todas as mulheres que o rejeitou se referindo a elas como "vagabundas mimadas". Foi achado um diário de 140 páginas em que ele destila seu ódio com frases como "Mulheres não merecem ter qualquer direito". 

No Brasil, ocorreu um massacre em Realengo, em 2011, quando Wellington Menezes entrou numa escola e assassinou dez meninas e dois meninos. Quando isso ocorreu, por mais que o crime claramente tivesse sido motivado pela misoginia e essas meninas tivessem sido vítimas por serem mulheres, a mídia não se pronunciou a respeito. E assim como Elliot, Wellington tinha vínculo com grupos masculinistas. 
Fonte
Mas a misoginia não influencia apenas ataques em massa, mas também nos assassinatos de mulheres por seus maridos, ex-namorados e até mesmo pais. Quando a cultura misógina diz que mulheres devem obediência aos homens e que pertencem a eles, ela influencia esse tipo de crime. O feminicídio de Eloá é emblemático: seu ex-namorado, Lindemberg, invadiu a casa de Eloá, onde ela estava fazendo trabalhos escolares e ela e uma amiga foram mantidas por ele em cárcere privado . A amiga dela foi liberada e participou das negociações e depois de 100 horas, Eloá foi assassinada pelo ex, após uma ação mal efetuada pela polícia. O feminicídio foi televisionado, entretanto, jamais foi falado do caráter misógino da ação do ex. 

Chamar um feminicídio de crime passional é ignorar os aspectos culturais que induzem homens acharem que mulheres são propriedade deles e assumir que paixão/amor são capazes de fazer pessoas agirem com tamanha violência. Sendo que não é o amor, paixão ou desejo que motivam essa violência e sim as relações de poder e a naturalização de relacionamentos abusivos como românticos. 

É importante desmistificar que só é misoginia e machismo quando chega a ocorrer tais crimes. Afinal, por trás dessa violência, há o descaso e despreparo da polícia para atender as vítimas de violência doméstica e de estupro, o que dificulta que as denúncias sejam feitas e que quando feitas, surtam efeitos. E há também toda uma cultura que reafirma que os corpos das mulheres são disponíveis, de culpabilização da vítima e que coloca o ciúme e o controle da vida do parceiro como românticos, o que naturaliza os relacionamentos abusivos.

Elliot Rodger já tinha demostrado antes seu ódio por mulheres. Por exemplo, ele jogou café em duas mulheres numa lanchonete, porque elas não sorriram de volta para ele. No diário citado acima, ele afirma que queria que o café estivesse mais quente, para queimá-las. Se vocês tiverem estômago, leiam esse texto aqui, que expõe várias barbaridades que ele escrevia.

Homens: Mulheres não te devem nada. Isso mesmo, nem mesmo um sorriso

A importância da mídia nomear esse tipo de crime como um crime de gênero é que ao fazer isso, ela reconhece que a misoginia e o machismo existem e devem ser combatidos para evitar mais mortes. O reconhecimento de que existe sim uma cultura que coloca a mulher como inferior ao homem e de ódio contra tudo que é feminino e a influencia dessa cultura na existência de alguns crimes, faz parte do processo de conscientização de que ela tem que mudar.

Só é possível combater a misoginia, usando essa palavra toda vez que comportamentos e discursos que a reproduzem aparecer.  É necessário dizer que é misoginia, quando frases como "Aquela vadia dá para todo mundo, menos pra mim. Odeio essa vagabunda" são ditas e assim aos poucos destruir a ideia de que mulheres devem alguma coisa para os homens. Nomear o problema é um passo essencial para que ele passe a ser combatido como deve e não ter aspectos essenciais de mecanismo de desconstrução negligenciados.

Quem o machismo matou hoje? 

Vale muito a pena dar uma olhada na hasthtag "#YesAllWomen" ("#YesAllWoman")

terça-feira, 27 de maio de 2014

Não somos todxs vadixs



Mulheres são constantemente xingadas de vadias. As situações em que a palavra "vadia" é utilizada para nos ofender são várias e não só quando nós exercemos nossa sexualidade e usam essa palavra para controlar o nosso corpo e nosso comportamento. Mas é uma palavra que mulheres ouvem também quando tem suas fotos e vídeos íntimos disponibilizados na internet sem o seu consentimento, enquanto o criminoso nem mesmo é lembrado e muitas vezes é aplaudido por ter exposto essas mulheres que, para alguns, não mereceriam respeito. 

Somos chamadas de vadias quando bebemos, fumamos, respondemos cantadas, engravidamos fora do casamento, quando andamos sozinhas de noite, quando dizemos não para algum cara e até mesmo quando a gente denuncia violência de gênero na delegacia, ouvimos que a culpa foi nossa porque vestimos ou nos comportamos como vadias.

Vadia, vagabunda e puta são palavras usadas para desqualificar e ofender mulheres. Homens cis não são ofendidos com a palavra vadia. Eles não são desqualificados com essa palavra, não são vítimas de revenge porn, visto que a sociedade não chama o cara que faz sexo de vadio. Homens quando respondem grosseiramente cantada de rua não ouvem "vadio", os corpos deles não são vistos como disponíveis. Homens cis não sofrem culpabilização da vítima com gente dizendo que eles tem culpa porque se comportaram como um vadio.

É necessário observar que mesmo entre as mulheres o xingamento vadia tem pesos diferentes. Por exemplo, a mulher negra, que é vítima da soma de duas opressões, o racismo e o machismo, sofre com a hipersexualização de sua imagem, fazendo com que a palavra vadia, para muitas seja considerada impossível de se ressignificar. É só a gente pensar que ainda é comum ouvir absurdos como "Mulher negra não é para casar, apenas se divertir", coisa que a mulher branca não está sujeita. Outro exemplo, é o caso das mulheres trans e travestis, que são tratadas como um fetiche por vários e essa especifidade também deve ser lembrada. 

Apesar disso, em eventos feministas, como a Marcha das Vadias, é comum encontrar homens cis se designando vadias ou vadixs, o que é bem problemático, porque é uma apropriação de uma opressão que não os atingem. No caso do vadix, ainda há um adendo a ser feito, o uso da linguagem neutra pode ser visto como uma apropriação da causa trans, visto que essa é mais uma opressão que homens cis não sentem na pele.

Sei que muitos homens usam a frase "somos todxs vadixs" com boas intenções, querendo deixar claro que não concordam com as ofensas direcionadas às mulheres, mas assim como  "somos todos macacos" é uma frase que invisibiliza o racismo, "somos todxs vadixs" invisibiliza a misoginia. 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Moça, a culpa não é sua.

*Trigger warning. Texto de conteúdo potencialmente incômodo.



Moça, hoje eu escrevo para você. Sei que muitas vezes você ouviu que a culpa foi sua, que você poderia ter evitado, mas esse texto quer passar uma mensagem muito diferente dessa que todas nós estamos cansadas de ouvir (ou ler). Sei que talvez você ouviu culpabilizações de alguém bem próximo em que você confia/confiava e que você contou o que aconteceu esperando uma palavra de apoio e um abraço e quando esse apoio não veio, você sentiu o peso dessa culpabilização recair em você e acreditou que foi culpa sua. Sei que talvez você não tenha acreditado por completo, mas ainda assim, se sente culpada.

Moça, acredite em mim, acredite em nós, você não tem culpa alguma. Ao contrário do que te disseram, seu short curto, sua calça justa, o fato de você ter bebido, o caminho que você percorreu, nada disso faz com que a culpa seja sua. A culpa é do agressor. A culpa é do estuprador. 

Moça, o corpo é seu e seus sentimentos, suas vontades e suas escolhas importam. A culpa é de quem ignora seu não e passa em cima do seu consentimento. Moça, lembre-se, a culpa não foi sua.

Moça, eu não me esqueci de você que sofreu violência do seu parceiro e esteve em um relacionamento abusivo e ouviu que a violência que você sofria foi causada por você. Você não tem culpa, moça. E eu sei que talvez você pode ter ouvido isso de policiais, mas o fato deles serem policiais não transforma o que eles disseram em verdade.

Moça, não tem nada de errado em tirar fotos nuas e filmar momentos íntimos. O que é errado e criminoso é divulgar essas fotos e o vídeo sem o seu consentimento. A culpa não é sua. Sei que estão te ofendendo e te culpando, mas a culpa é de quem violou seu direito à intimidade. 

Moça, talvez você tenha ouvido ou lido que o seu sofrimento é um exagero e eu sinto muito por isso, mas além de culpar a vítima, o machismo e a misoginia também faz questão de desmerecer a voz das mulheres que sofreram violência ou estão sofrendo para silenciá-las. E a forma que eles tem de desmerecer é banalizar diversas agressões e duvidar dos relatos de violência.

Moça, a culpa não foi sua, quando você foi encoxada no metrô. Você tem direito à cidade, você tem direito a utilizar o transporte coletivo sem sofrer violência sexual. A roupa que você usava no momento não importa, você não teve culpa disso ter acontecido.

Moça, a culpa não é sua. E nós estamos aqui para te lembrar disso quantas vezes você precisar. Estamos aqui para ouvir você, estender a mão para você e oferecer nossa solidariedade para que você se empodere.

sábado, 12 de outubro de 2013

Sonhos de menina


Quando eu era criança, uma menininha muito falante e bochechuda, eu falava para todo mundo que eu queria ser paleontóloga. Eu adorava pedras, dinossauros, brincar de lego, criar histórias, ler histórias, ler enciclopédias, desmontar coisas para ver como elas funcionavam (e eu fazia isso sempre com calculadoras), brincar de lego e construir universos para brincar que incluíam bonecas Susi, personagens de Dragon Ball Z, pokemóns, dinossauros, cavalos e a casinha do Mickey. Gostava de montar barraquinhas com lençóis que viravam um verdadeiro outro mundo onde um ursinho de brinquedo minúsculo era uma imperadora chamada Yasmin.

E eu não quis ser só paleontóloga, quis ser astrônoma, jornalista, escritora, pintora, contadora de histórias, atriz e professora. Queria saber do que nosso planeta era feito, como as pedras surgiam, como eram feitos os brinquedos e como contar piadas e assobiar (as duas últimas nunca consegui aprender). E eu não era a única menina que tinha diversos interesses e sonhava com as mais diversas carreiras. Lembro de várias meninas dizerem que queriam ser juízas, fotógrafas, médicas, veterinárias, professoras, atrizes, escritoras, cozinheiras, atletas e cientistas.

Só que a maioria das meninas tem seus sonhos e oportunidades restringidos pelos papéis de gênero. Desde cedo, ao invés de brincar, elas são ensinadas a cozinhar, arrumar a cama, cuidar do irmão, varrer e a se conter. Algumas meninas sequer podem frequentar a escola. A maioria das meninas tem seus sonhos minados aos poucos porque ouvem que não servem para serem médicas, cientistas, poetisas. Ouvem que não são boas o suficiente o tempo todo e descobrem que vivem em um mundo em que ser mulher é visto como algo inferior. Logo descobrem que quando são boas em alguma coisa, é comum que se ouça coisas como "você é até boa nisso, para uma menina". E as meninas logo percebem que os meninos que brincam com elas são ofendidos pela palavra "mulherzinha" e cada dia que passa elas percebem que quando foram designadas ao nascer como meninas foi escolhido para elas um destino cheio de regras e que as coloca como inferiores. O destino cheio de regras se estende também aos meninos, mas para eles, o papel é outro, é o papel de superior.

É comum que coloquem toda a discussão sobre a divisão de brinquedos para menino e para menina como uma coisa boba, pequena, insignificante. Mas é essa divisão que, no futuro, se torna a divisão sexual do trabalho e faz existir a dupla jornada. É na infância que é ensinado que meninas devem cuidar da casa e das pessoas e que meninos podem ser o que quiserem, desde que não seja algo feminino. É sem a divisão sexista dos brinquedos, tarefas e cores que todas as crianças aprendem que podem ser o que quiserem. E começam a sonhar, aprender e buscar quem elas querem ser. Essa divisão só serve pra enfraquecer a autoestima das meninas e restringir os sonhos das meninas às caixinhas padronizadas e tradicionais que ignoram que cada um de nós é único e tem poder de construir a própria história.

Imagens retiradas de "24 Badass Halloween Costumes to Empower Little Girls." 

Recomendo: Texto da Daniela Andrade sobre crianças, brinquedos e normatização de gênero AQUI 

Observação: 70% das 1,3 bilhões de pessoas em extrema pobreza no mundo são meninas e mulheres.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Beijaço lésbico: a resistência choca o conservadorismo


Texto de Thaís Campolina com colaboração de Kelly Campos.

No dia que o Papa chegou, em meio aos cristãos em êxtase, houve também um beijaço lésbico motivado pelos discursos de ódio proferidos contra não héteros, transgêneros e aos direitos reprodutivos e sexuais das mulheres com a desculpa da religião.

Duas fotos desse protesto chocaram a sociedade brasileira, afinal, duas mulheres se beijando semi nuas despertam a lesbofobia e a misoginia infelizmente tão comuns e ainda vistas como aceitáveis em nossa sociedade. O teor dos comentários das fotos nos chocaram, pelo moralismo e preconceito e a gente resolveu rebater os mais repetidos.

Fotografia de Ide Gomes

"Querem respeito, mas não se respeitam e nem respeitam os outros" 

Respeito não tem que "ser ganho", ele é inerente da pessoa humana. Então falar em "se quer respeito, tem que se respeitar", "vocês jamais conseguirão conquistar respeito dessa forma" e afins não é válido porque coloca como se alguns grupos de pessoas não merecessem respeito, a não ser que se comportem de acordo com o que alguns dizem que é certo. Me lembra aquele famoso discurso "tudo bem ser gay, mas precisa mostrar pra todo mundo?" que é bastante problemático porque deixa claro o que a sociedade só "aceita" o diferente se ele estiver não visível. Coloca como regra que a pessoa deve esconder quem ela é e suas preferências para que ela mereça respeito, que para alguns é inerente. Enquanto o "merecer respeito" for seletivo e pautado em preconceitos e moralismo, haverá protestos e eles serão legítimos.

Sua variação "se você não respeita, não pode exigir respeito" é cruel porque compara a agressão de uma sociedade homofóbica, moralista, transfóbica e misógina com a reação de quem luta para sobreviver. Ignora que o beijaço e que a semi nudez são atos políticos, formas de contestar esse senso comum preconceituoso. E pra mim o pior é: ignora que quem não respeita primeiramente são as pessoas que proferem esses discursos de ódio e que o combate a essas ideias que eles proferem é uma tentativa de fazer valer a máxima de que todos devem ser respeitados.
Gabriella Mendes em seu perfil - clicar na imagem facilita a leitura.

"mas a Igreja não vai na Parada LGBT interferir"

Essa frase não faz sentido porque diariamente os dogmas da Igreja que são contra mulheres cis, os não héteros e as pessoas trans interferem bastante na vida dessas pessoas. Interferem colocando-os como aberrações e lutando para que eles não tenham os mesmos direitos e qualidade de vida que todos. Muito do preconceito sofrido diariamente por essas pessoas tem como base discursos de ódio que são proferidos com a desculpa da religião.

"Desnecessário"

Não há nada de desnecessário num beijaço lésbico, com ou sem semi nudez, porque todos os dias muita gente usa a desculpa da religião cristã para pregar ódio contra homossexuais, transgêneros, bissexuais e mulheres. Não há nada de desnecessário nisso, porque a Igreja insiste em colocar obstáculos para que essas pessoas tenham acesso aos seus direitos. Não há nada de desnecessário porque muitas pessoas religiosas são eleitas com a influência de sua religião e tentam impor a todos o que acreditam, impedindo muitas pessoas terem acesso a seus direitos humanos. Como tudo isso acontece, é legítimo que os oprimidos se manifestem contra isso.

Lembrando aqui da famosa frase do Malcom X: "Não confunda a violência do opressor com a resistência do oprimido". Com tanta opressão baseada num fanatismo religioso que cria tabus como o da nudez, do sexo, da homossexualidade e do aborto. É inacreditável que as pessoas insistam em colocar um beijaço lésbico com semi nudez, que tem finalidade de protestar contra esses preconceitos, como algo tão agressivo quanto a busca incessante para marginalizar certas pessoas.

Imagem de Indiretas Feministas
O que é desnecessário e agressivo é o discurso de ódio de vários comentaristas dessas imagens que deixaram claro seus preconceitos ao dizerem coisas como "que nojo" e também as diversas declarações do Pastor Feliciano e não só dele, mas de vários padres e pastores que pregam contra a homossexuais, contra a liberdade para a mulher, etc. Ataque não é quando pessoas protestam para que sejam vistas como pessoas normais, é quando tentam impedir que algumas pessoas tenham direitos, quando se incentiva preconceito e até mesmo violência física contra casais homoafetivos, pessoas trans* e contra as "vadias". E tudo isso ainda acontece e é fomentado por discursos de ódio que são proferidos por várias pessoas, e algumas dessas usam a religião pra justificar seus preconceitos.

"Mas precisava ficar sem roupa?"

As imagens mostram que a nudez das manifestantes não era completa, era uma semi nudez. Apenas os seios estavam a mostra. Homens podem ficar sem camisa à vontade, não é? Não são chamados de "vadias" quando fazem isso e se participam de um protesto sem camisa não são vistos como "eles só querem chamar atenção". A nudez dos seios é uma forma de contestar a construção social de que os seios ditos femininos são sexuais e devem ser escondidos, enquanto o peito masculino pode ser mostrado sem problemas. Inclusive, essa sexualização do seio atinge várias mulheres que se sentem inibidas de amamentarem seus filhos em público, porque a sociedade vê a mama como algo imoral.

O nu é visto como atitude rebelde, subversiva, um rompante de liberdade que afronta o moralismo. E de fato o é, numa sociedade que mistifica e endeusa o nu. Mas o nu é natural. A polêmica do nu não só atingiu essa manifestação, como também a foto da ocupação da Câmara de Porto Alegre.

Além disso, o beijaço entre mulheres é considerado algo político e ameaçador para os fanáticos, mas não traz a mesma visibilidade midiática do corpo despido. Fazer uso do corpo feminino para algo que não seja acalantar os desejos masculinos sempre soará subversivo. O corpo, como instrumento de prazer para as mulheres se torna uma importante arma de protesto ativista. É a afirmação de que o corpo é da mulher e não de quem o quer.

Foto de Pedro Teixeira - O Globo.
A pergunta que não quer calar é "por que nos cobram tanto de respeitar os tabus de quem nos desrespeita e buscam incessantemente nos manter marginalizados?", enquanto querem que a gente proteste de uma forma que não incomode, quietos e invisibilizados, cartilhas como o Manual da Bioética para Jovens que está sendo distribuída na Jornada Mundial da Juventude deixam claro que a Igreja Católica se mantem firme em seu posicionamento conservador e em seus discursos preconceituosos. E sim, isso justifica os protestos barulhentos, com beijos e nudez, porque isso é ato político de resistência. É estar na luta para ser livre até que todos sejam respeitados, independente de agirem de acordo com a moral cristã.

JMJ: manual de bioética e os catolicismos possíveis - Blogueiras Feministas 
"Para a Católicas pelo Direito de Decidir, vinda do papa pode significar um momento preocupante para o debate em torno de políticas públicas sobre aborto e direitos de homossexuais"  - Revista Fórum