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terça-feira, 30 de outubro de 2012

O eterno mito das mulheres incompletas

Uma mulher sem um homem é como um peixe sem uma bicicleta.

A mídia e toda a sociedade trata as mulheres como se fôssemos completamente dependentes da opinião masculina e do desejo masculino. O pensamento vigente é que uma mulher só pode ser genuinamente feliz se acompanhada de um homem que a deseja.

As expressões "mal amada" e "mal comida" são bons exemplos de como a sociedade insiste em colocar como o desejo principal da mulher o relacionamento com um homem. Mulheres que desafiam a norma e fazem parte de movimentos sociais, como o feminismo, são constantemente atacadas por essas ofensas. Ofender uma mulher com essas expressões é afirmar que toda reclamação, revolta, luta dela só existe porque ela não tá ocupada sendo feliz com um homem bom, sabe? Como se qualquer revolta feminina fosse fruto da falta de despertar desejos masculinos, na falta de amor e não no fato de que nosso gênero é constantemente diminuído, oprimido, desrespeitado e violentado.

E ainda tem o fator de que condicionar a felicidade feminina aos homens dessa forma, colocar essa preocupação de atrair o desejo masculino, de buscar a qualquer custo um namorado, como algo feminino é mais uma vez reafirmar a suposta inferioridade feminina. Afinal, numa sociedade que separa as pessoas entre racionais e emocionais, como se apenas as racionais tivessem o seu valor, dizer que mulheres precisam de homens para serem felizes é dizer que mulheres são fúteis, são irracionais e etc. Tanto a Paula, quanto a Gizelli, já trataram sobre o assunto.

Se você é mulher e está fora dos padrões de beleza (ou seja, praticamente todo mundo), você já deve ter ouvido algum "elogio" como: "Ah, tem homens que gostam de *insira aqui a característica sua que difere do padrão de beleza*", como se noticiar que você pode ser atraente para um homem fosse fazer sua autoestima se reerguer das cinzas. Como se a remota esperança de que algum dia você pode despertar o desejo masculino fosse uma dádiva. Como se somente a possibilidade de atrair os olhares masculinos fosse capaz de fazer uma mulher se sentir bem. E ainda tem o fator de que toda decisão feminina, seja mudar de emprego, seja cortar o cabelo ou vestir uma roupa diferente, conforme a sociedade, é condicionada ao que o homem vai acha daquilo, como se mulheres não fossem donas de seus corpos e de suas vidas e precisassem sempre de alguém pra guiá-las ou mesmo como se a gente precisasse sempre pensar em agradar o parceiro acima de agradar a si.

Não posso ser a mulher da sua vida
porque sou a mulher da minha.
A cultura de que somente acompanhada de um homem uma mulher pode ser feliz e tem valor fomenta uma série de coisas: A mulher é considerada a responsável por fazer o relacionamento dar certo, porque para o status quo é ela que precisa de manter aquela relação e isso enseja dependências emocionais, uma certa obrigação de se submeter ao que o parceiro deseja e etc.
A sociedade trata a mulher como a maior interessada, às vezes até mesmo como a única interessada em manter um relacionamento, afinal, o modelo tradicional de relacionamento coloca o homem  como provedor (atualmente, o principal provedor, né?) e a mulher como a pessoa que depende do outro, a pessoa que consome e quer sempre consumir. Além disso, há também o fato de que os homens são positivamente vistos se tem várias mulheres, se fazem muito sexo, e as mulheres se fazem muito sexo, são consideradas vadias, que é um termo ofensivo se não ressignificado. O homem continuar solteiro é algo positivo, até porque se ele adiar o casamento, mesmo ao envelhecer será visto como mais sábio e charmoso, enquanto a mulher solteira é vista como mal amada, "ninguém aguentou" e que só tem valor se é jovem e dentro dos padrões estéticos. Todos esses pontos relacionados ocasionam naquela camisa famosa e muito vendida onde o casamento para o cara é o game over e para a mulher é sinônimo de felicidade e naquela famosa piadinha que diz que o cara casa de terno preto porque tá de luto pela vida de solteiro, pelas mulheres que não são mais "dele" e etc.

Outra coisa é que tratam tudo que uma mulher faz como se fosse algo para chamar atenção dos homens: a roupa que ela usa, o corte de cabelo, se usa salto ou não. Tratar nossa vida como se o objetivo dela fosse despertar o desejo masculino faz com que cantadas de rua sejam consideradas algo "simpático, um elogio", sendo que elas são invasivas e não desejadas; Gizelli aprofundou muito nesse ponto aqui. O vínculo desse comportamento de assédio nas ruas é fácil de se perceber quando a gente pega nossas experiências e vê que se a gente tá acompanhada de um homem, as "cantadas" acontecem com menos frequência; o que mostra que  se a gente tá acompanhada de um homem, a gente tem "dono", nosso corpo não está mais disponível.

Sou alérgica ao patriarcado
E por fim, destaco o quão heteronormativo é fazer essa vinculação. Tratar as mulheres dessa forma é ignorar que lésbicas existem e que lésbicas são mulheres. É compactuar para a invisibilidade lésbica e para que as mulheres que se relacionam com mulheres sejam tratadas como fetiches masculinos e não como donas de sua sexualidade.

E ainda vejo uma possibilidade de questionamento, para o meio feminista, sobre o assunto: Aquela famosa frase "homem feminista é sexy" talvez carregue um pouco desse mito e seus desdobramentos. Eu já usei essa frase, muita gente que eu admiro já usou a frase, mas nem por isso a gente não deva questioná-la, né? Afinal, o uso dessa frase coloca o homem feminista como um cara que merece mais atenção que os outros, ser considerado sexy, atraente seria um prêmio para a pessoa, sabe o confete que alguns caras acham que merecem por serem legais com mulher? Então, o homem feminista ser visto como sexy é uma forma de jogar confete, sendo que respeitar mulheres como pessoas é uma obrigação. 

Sei que essa frase também é uma forma de combater pensamentos como que o homem deve ser rude, grosso e sistemático, que tem que "mandar na mulher" e todos os desdobramentos desse pensamento, mas acho que vale a pena a gente refletir.

Por que atrair atenção dos homens para o feminismo falando de sensualidade e não em direitos de fato, sabe? Por que valorizar tanto o apoio dos homens ao movimento? Será que usar essa frase não fortifica o mito de que homens estão sempre interessados em sexo e mulheres em outras coisas, como se o sexo para as mulheres dependesse sempre de outros fatores mais "teóricos"? Será que essa frase não reafirma a dependência feminina? Será que essa frase não supervaloriza a participação masculina num movimento que deveria se focar principalmente nas mulheres?

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Relações tradicionais e a infidelidade feminina


Apesar das múltiplas formas de relações que conhecemos hoje – principalmente quando começamos a nos envolver em meios de luta feminista, LGBT* e questionar determinadas normatividades vigentes – em geral bem sabemos que a estrutura social e a força política está concentrada em torno de apenas um modelo familiar: Heterossexual e monogâmico.
Ninguém está aqui para negar que possam existir relações heterossexuais e monogâmicas muito bem sucedidas. Com igualdade, liberdade e escolha dos envolvidos. Porém não podemos desconsiderar que esses dois pontos são compulsórios, ou seja, nos são ensinados desde muito cedo como as únicas formas possíveis de amor. E quando digo muito cedo, digo muito cedo mesmo, palavra de uma mãe que desde que teve a filha no útero ouviu coisas como “é uma menina? Fulana está grávida de um menino, olha só, podem ser namoradinhos rs”.
Esse modelo familiar tradicional é estruturalmente patriarcal e, consequentemente, machista. E aí entramos no verdadeiro assunto desse texto: A infidelidade. Mesmo nos meios feministas é possível notar uma certa resistência a visualizar a dita “traição” e compreende-la, admitir que ela pode não ser algo tão errado assim. Isso acontece porque partimos de um princípio de isonomia que na prática da maior parte das relações é inexistente.
Em uma relação monogâmica e heteronormativa a figura feminina está invisivelmente sendo oprimida. A família do comercial de margarina é, na realidade, uma estrutura que sujeita a mulher a uma série de agressões físicas, sexuais e psicológicas que agem no sentido de manter o status quo familiar. Um dos exemplos mais importantes é a questão da autoestima feminina que é minada socialmente. É consenso desde as igrejas às revistas femininas que  ela deve ser a base do lar, cabe sempre a ela a manutenção do casamento e a função de agradar o homem.
Diante de uma relação permeada por essa violência, como podemos equiparar a infidelidade masculina da feminina? Quantas vezes já ouvimos falar do homem que “trai” por que a mulher não cumpre sua “função” como esposa? Iludido por essa lógica patriarcal o homem espera encontrar dentro de casa não uma companheira, mas uma mulher que esteja sempre sujeita as suas vontades.
A mulher, ao se ver dentro de uma relação que desconsidera suas vontades, oprime sua liberdade de ser e mina sua autoestima, passa a viver um mundo que não é o dela, mas sim o do marido e da estrutura familiar tradicional.
Nesse sentido, a infidelidade feminina não é apenas uma forma de alcançar prazer, de viver um caso de amor (embora possa sim ser também), mas sim de se desvincular dessa vida de opressão que foi imposta a ela, desse lugar comum que a violenta diariamente. A “traição” funciona como uma fuga, a busca de encontrar um ambiente no qual tenha sua autoestima elevada, no qual seja compreendida, acalentada e possa realizar suas próprias vontades.
Mesmo quando a pessoa com quem a mulher se envolve não seja um exemplo a ser seguido (é possível, inclusive, que seja tão opressora quanto o homem que se encontra dentro de sua casa), não aja de maneira a colaborar para a visibilidade dos desejos da mulher. Mas para quem está sujeita a viver buscando realizar exclusivamente a vontade alheia (do chefe no trabalho, do homem no casamento, dos filhos dentro de casa), a infidelidade em si age como um processo libertador, afinal, é uma decisão dela, uma ação que ela escolheu fazer por si própria.
A mulher que “trai” encontra nessa “traição” uma forma simbólica de realização pessoal, de autonomia, coisas que não são permitidas a ela na vida tradicional em que se encontra. Mais do que isso, está fugindo das agressões, do aprisionamento, do cerceamento que é feito sobre ela pela família patriarcal. A atração que leva a infidelidade feminina não é apenas pelo outro, mas sim por si mesma, pelo resgate de si, pela vivência de relacionamento visceral, fora das aparências que exigem dela uma anulação diária.
E a premissa de simplesmente “abrir o relacionamento” aqui não é válida. Pelo simples motivo de que as relações não-monogâmicas ainda vivem no campo da marginalidade, do desconhecido. Quantas pessoas você conhece que admitem a possibilidade de viver uma relação aberta? Ou sequer sabem que existe essa possibilidade? Eu mesma não sabia até os meus 17 anos, quando um livro sobre o assunto pulou nas minhas mãos. Essa alternativa ainda não é palpável para a maioria das pessoas.
Sendo assim, ao falar de infidelidade não podemos apenas partir do pressuposto da palavra, do acordo de monogamia pré-estabelecido, acreditando que toda quebra de acordo é um erro e fim. O contexto deve ser levado em conta e enquanto não houver igualdade de gênero, as relações não seguirão de forma horizontal, portanto, olhando criticamente as atitudes não podem ser consideradas iguais.
Vou terminar esse texto reiterando o óbvio: Não estamos falando de todas as relações, todos os homens, todas as mulheres, todas as monogamias. Mas como já falamos aqui no blog, generalizamos porque não queremos tratar das exceções, queremos problematizar a ordem dominante.