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quarta-feira, 5 de junho de 2013

Eclipse Love - amar é estar à sombra de alguém




Tá, meu título foi enganoso. Devia ter sido "amar é estar à sombra de um homem". Porque é exatamente isso que o curso de uma agência intitulada Eclipse Love, que a Folha teve o infortúnio de trazer à tona essa semana, ensina. 

Bom, eu acho que é meio óbvio que eu discordo de todo o conceito que é vendido em tal curso, ainda mais sendo alguém-que-carrega-a-tal-da-carteirinha. Eu nem tenho muito a dizer a respeito, além de: acho triste. 

Isso mesmo, coleguinhas. Eu acho triste que tais seminários existam (tenho certeza que a Eclipse Love não é a única empresa destinada a vender status quo em formato "inovador"). 

Acho triste que alguém acredite tão piamente que o seu eu verdadeiro, que a sua essência, que aquilo que lhe define como ser humana, ou seja, a sua capacidade de falar e pensar por si própria, seja visto como algo indigno de amor. Que a pessoa acredite que, para ser amada e benquista por outrém, é preciso se anular, vestir um personagem, ser outra pessoa, um holograma, uma inexistência.

Achei especialmente deprimente o parágrafo: 

"Para a psicóloga Ana Letícia Pereira, 30, o capítulo foi bastante proveitoso. Ela acredita que perdeu um partidão por ter feito um pedido diretamente para o garçom durante um jantar. "Demonstrei ser independente demais.""

O que dizer? Nessas horas, me faltam palavras, sabe? Eu preciso então recorrer ao velho "exemplifico me expondo" para tentar explicar o meu sentimento nesse momento. 

Porque pra mim está muito claro que um relacionamento, qualquer relacionamento, é algo que envolve troca. Não digo troca no sentido imbecilizante de cobranças e exigências absurdas, mas uma troca sincera de afeto, boas energias, empatia, idéias. E nessa troca, penso eu, há que existir alguma negociação. É assim com tudo na vida. Estamos o tempo todo negociando sentidos para fins de comunicação. E, se não houver comunicação, não há relacionamento que se sustente. Daí a importância de ceder, e isso vale para os dois (ou mais!) lados da moeda. Eu não sei definir o que seria um relacionamento saudável para além do óbvio: em uma relação saudável, não há violência. De nenhuma forma. O que há, repito, é diálogo, é negociação. Com AMBAS as partes fazendo concessões. 

Mas, eu nem sempre pensei assim. Porque eu sou, também, fruto de uma cultura que busca "partidos". Vejam bem o grau de desumanização a que nos sujeitamos. De muito bom grado, acreditamos que "partido" é uma pessoa, e não uma idealização. Eu já me culpei por ter perdido um "bom partido". O crime? Ter contado piadas em um churrasco. Em um ambiente informal, eu ousei ser eu mesma. Eu fiz todos rirem e ri bastante também. Eu me senti feliz falando besteiras. Eu não usei salto, eu não usei maquiagem, eu não fiz carão. Eu relaxei, não me utilizei de artifícios e artimanhas para manter o bofe. A conclusão a que cheguei, na época com a ajuda de amigas e familiares, foi a de que eu tinha errado. Porque "homens não gostam de mulheres engraçadas, pois elas aparecem mais que eles". 

Chegaram a me dizer que eu ia acabar sozinha. Por falar demais. Por não ser delicada. Por contar piadas. Por ter o cabelo ruim (sim, ouvi). Enfim, que eu, tal como me apresentava à sociedade, não era digna de arrumar um bom partido. E eu, do alto da minha tolice, acreditava que bom partido = amor. E eu acreditei que eu não era digna de amor. Que a mim, não seria possível, jamais, arrumar um bom partido. O que fiz? Me joguei em outro relacionamento errado. Não, eu não era louca pela pessoa. Eu apenas o achava bonito. E ouvia de amigas que a tal beleza do bofe era algo tão essencial que eu não poderia, jamais, deixar o bom partido passar. 

Então eu fui me adequando. E fui cedendo a exigências descabidas. Não entrarei em pormenores de tais exigências. Limito-me a dizer que elas eram muitas, e bem estranhas. E eu, por um tempo, me ajustei. À revelia de tudo que eu era, sentia e pensava, eu me ajustei. Não houve violência física, mas eu acredito que a violência psicológica que eu sofri foi bem danosa. Mas não foi irreparável, não. A violência foi bem grande, mas não foi maior que eu. 

Eu. Essa palavrinha, "eu", me surgiu na última discussão que tivemos. Daquelas longas discussões de relacionamento, que eram, na real, bem unilaterais. Daquelas discussões em que eu sempre baixava a cabeça, pois o medo de ficar sozinha era maior que o medo da violência que eu sofria. Sem pensar muito, eu apenas disse "sai do meu carro, agora". Ele não esperava tal reação. Pra falar a verdade, nem eu imaginei que era isso que sairia da minha boca. Mas foi, e eu repeti o pedido. Ele saiu, eu fui embora e, naquela noite, não chorei. Também não dormi. Fiquei lendo e relendo o conto "A moça tecelã", de Marina Colasanti. 

No dia seguinte, me veio o luto. Eu me permiti chorar a perda. Mas, não me arrependi. Era como se um piano tivesse sido tirado das minhas costas. Eu, que me achava indigna de amor e tinha me apegado a um relacionamento falho por medo de ficar a sós comigo mesma, resolvi me aceitar. E, me aceitando, percebi que eu não precisava de um bom partido. Que eu não precisava mais me esforçar para ser outra pessoa em nome de uma fatídica "boa primeira impressão". Arrependimento? Nem por um segundo. 

E o que eu diria à psicóloga Ana Letícia, se acaso tivesse a chance de com ela me comunicar? Bom, além de contar minha história, eu diria isso: gata, não compensa demonstrar ser algo que você não é. Não compensa usar máscara. Máscara só traz angústias. Pois um dia você vai precisar tirá-la para respirar melhor. Se a primeira impressão é a que fica, o seu "partidão" vai esperar que você seja, para todo o sempre, a sua máscara. E você, minha cara, com certeza é melhor que isso. Você não precisa de um "partidão", mas sim de um ser humano que te entenda, em toda a sua complexidade. A culpa não é sua de pensar assim. Somos ensinadas a pensar assim. Mas podemos, juntas, construir uma sociedade mais justa e deixar um futuro melhor, mais pé no chão, sem tanto medo e sem tanto eclipse, para nossas filhas.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Desenhando: Mulheres e crianças primeiro e outros privilégios


A princípio penso que esse tema pode ser meio óbvio, especialmente para quem já conheceu o feminismo há algum tempo. Mas basta começarem as discussões sobre opressão que o argumento sobre os privilégios femininos é levantado, geralmente acompanhado da crença de que os tais “privilégios” tem relação com o feminismo.

Portanto acho necessário elucidar. Um post bem simples explicando ponto a ponto porque as desigualdades que, teoricamente, favorecem a mulher não tem relação alguma com feminismo, mas pelo contrário, na maioria das vezes são consequência de uma sociedade machista.

Mulheres e crianças primeiro
O clássico “ser feminista até que o navio começa a afundar”. Bom, vamos lá: Legalmente é função dar prioridade aos mais vulneráveis. Por isso temos lugares preferenciais para idosos, gestantes, pessoas com bebês ou crianças de colo ou que possuam alguma deficiência ou dificuldade de locomoção. No caso, imagino que vocês concordem comigo que bebês e crianças são bem vulneráveis, realmente precisam de ajuda e, portanto, de preferência. Acontece que nossa bela sociedade (machista, não feminista, lembram?) determinou que o cuidado dos filhos era muito mais obrigação das mulheres do que dos homens. Pense: Quantas mães solteiras você conhece? Quantos pais solteiros? Quantas vezes você ouviu em uma entrevista alguém perguntar para um homem como ele concilia carreira e filhos? Só escutamos o chamado de mulheres e crianças porque as crianças são vulneráveis, precisam ser protegidas e precisam de um acompanhante e adivinha quem em 80% dos casos é esse acompanhante? Uma mulher. Mas pode ficar tranquilo que se você for um desses pais que cria os filhos e o seu navio se chocar com um iceberg você pode pegar suas crias no colo e pedir um espacinho logo no início do bote salva-vidas sim, ok?

Licença maternidade
Mais uma vez entra em cena o pressuposto de que cuidar dos filhos é obrigação exclusiva da mulher. A licença para as mulheres atualmente é de 120 dias enquanto os homens só tem direito a quatro. E aqui pasmem: A maioria das feministas que conheço é a favor de que a licença paternidade seja estendida. Que possamos dividir com nossos companheiros o dever e o prazer de criar nossos filhos. Não é privilégio algum que sejamos incumbidas dessa função sozinhas, que não tenhamos direito a ajuda e que o vínculo entre papai e bebê não seja considerado importante.

Alistamento obrigatório
“Se querem igualdade por que não lutam também pelo alistamento obrigatório?” A resposta para essa pergunta é: Porque seria estúpido. Posso estar enganada, mas não conheci até hoje sequer uma feminista que defenda com unhas e dentes que o alistamento deva ser obrigatório. Eu vou fazer uma comparação que talvez soe meio esdrúxula, mas acho que ajuda a compreender: Por que então não lutamos para que os homens também sejam estuprados? E para que também sejam vítimas de violência doméstica? Porque não queremos essas coisas! O feminismo luta pela igualdade sim, mas por favor, que essa igualdade venha acompanhada de liberdade. Que o exército pare de ser essa instituição machista, homofóbica, engessada que obriga os homens a se alistarem e constantemente veta mulheres, gays, trans* por não acreditar que sejam capazes de ter força e de lutar. Que as pessoas possam decidir por si mesmas, individualmente, as instituições das quais querem ou não fazer parte.

Homem R$ 20 Mulher R$ 15
Ah, o bom e velho pagar menos na balada. Isso sim é um privilégio! A frase “é feminista até dizer que mulher paga menos” sempre nos serve a carapuça. Só que não. Primeiro, abram os olhos: Não são todos os lugares que trabalham esse esquema. Ambientes GLS, LGBT* e outros lugares chamados mais “alternativos” não costumam fazer esse tipo de distinção nos preços. Isso se restringe aos ambientes héteros de classe média e tem um motivo. E é um motivo óbvio, vocês sabem disso. O preço para as mulheres é menor apenas para atrair o público masculino hétero que, teoricamente, só se interessa em frequentar um lugar caso “tenha muita mulher”. Isso não tem nada a ver com feminismo. Inclusive não são poucos os casos que vemos nesse tipo de ambiente que violentam a mulher. A cultura é de que se está pagando menos ela está ali para o entretenimento masculino, portanto está ok segurá-la pelo braço enquanto ela passa, puxar o cabelo dela, apertar a bunda, beijá-la repentinamente sem consentimento e lembram do caso da moça que teve o braço quebrado por negar um rapaz? Então. Pergunte para as mulheres que você conhece que frequentam esses lugares se elas não passaram por esse tipo de situação invasiva e objetificante.

Aposentadoria
"Não entendo como podem existir homens que maltratam suas mulheres"
Essa pesquisa explica bem o porque de as mulheres se aposentarem mais cedo e não é difícil entender: Nós trabalhamos mais. Sim, por que lembram da cultura machista que eu falei lá nos primeiros tópicos? Aquela que acha que temos que cuidar dos filhos sozinhas? E da casa? E do marido? E do cachorro? E dos preparativos dos churrascos nos finais de semana e das festas de final de ano?  Além disso as mulheres passam muito mais tempo cuidando da estética, é depilação, maquiagem, e outros mil afazeres que sim, são exaustivos e socialmente necessários. Essa jornada não é "frescura" e não é uma opção nossa, vale lembrar que além do linchamento social as próprias empresas cobram isso: recepcionistas, comissárias de bordo, jornalistas de TV e muitos outros empregos exigem que as mulheres estejam fisicamente enquadradas em um determinado padrão. Pois bem, então essa tal cultura que nos engessa nesses papéis de gênero obriga as mulheres a terem o que chamamos de “jornada tripla” e tenho certeza que você já ouviu falar disso. Não dá para partir de um princípio de isonomia simplesmente inexistente e dizer que igualdade mesmo seria lutar para que nos aposentássemos ao mesmo tempo sendo que na prática a sociedade está organizada de uma forma que ignora a divisão igualitária do trabalho (essa sim, uma luta feminista). Para que esses “bônus” sejam alterados é preciso que de maneira geral não ajam tantos “ônus” por conta da estrutura patriarcal.
Bom, tentei focar nos argumentos que mais ouvi por aí para justificar as desigualdades de gênero. Esses argumentos isolados que tem por objetivo distorcer a palavra “feminismo” e ignorar as opressões diárias que as mulheres sofrem concentram-se no raso, na consequência, sem se aprofundar na raiz do problema e entender suas origens. O feminismo é uma teoria de igualdade e liberdade que em nada se assemelha com os papéis sociais que o machismo nos deu de presente como se fossem vantagens.

Leia também: "E a igualdade?"

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Machismo virou esporte olímpico?


Veterana, medalhista de ouro,
em sua QUARTA olimpíada

Mal começaram as Olimpíadas de Londres e o machismo que envolve a participação de mulheres em jogos já começa a dar sinais de presença. Algumas notícias nos chamaram atenção. Uma dessas notícias diz respeito à atleta Liesel Jones, nadadora australiana, que acusaram de estar fora de forma. A cobrança pelo corpo saradíssimo da nadadora revela machismo da imprensa e da sociedade, pois se o treinador dela afirma que ela cumpre uma rotina exaustiva de treinos, se estamos falando em uma profissional classificada para o maior evento de esporte do mundo (as fucking Olimpíadas!), quem somos nós para desmerecê-la por uma barriguinha? Será que as pessoas estão procurando barriguinhas nos atletas do sexo masculino? duvido muito.

Outra notícia é sobre a pressão do uso de biquínis nos jogos de vôlei de praia para chamar os espectadores. SIM, é isso mesmo que você leu. A FIBV, Federação Internacional de Vôlei, retirou a exigência do uso de biquínis no vôlei de praia. Mas teve até jornal fazendo campanha contra. Nem se preocuparam em dar uma desculpa para objetificar as mulheres. 

Essa objetificação passa pela desvalorização do esporte feminino. Não foram poucas as vezes em que ouvi, por exemplo, que o vôlei masculino é melhor que o feminino. Ou que o futebol masculino é superior ao feminino e etc. Então se o esporte feminino não tem tantos atrativos quanto o masculino, o que o torna viável, inclusive financeiramente? O corpo da atleta. Ao menos é isso que parece pensar uma parte da mídia esportiva, quando o esporte e a superação deveriam ser as estrelas dos Jogos.

E não são apenas as mulheres do vôlei de praia que sofrem com a objetificação de seus corpos, não. Em quase todos os esportes os uniformes femininos são menores e mais justos  que os uniformes masculinos (excetuando a natação). Aqui você pode ver o tom da matéria sobre Hóquei na grama, por exemplo.

Exemplificando melhor a desqualificação do esporte feminino, o jornalista Flávio Gomes da ESPN achou-se no direito de expressar a seguinte opinião em seu twitter:

É isso aí galera. E quando foi questionado por um amigo e leitor do Ativismo de Sofá, sua resposta foi essa:


Aparentemente, para gostar de futebol feminino é preciso ser mulher. E mais, ser mulher deve ser uma grande ofensa, né? A nossa colaboradora Thaís Campolina também se manifestou. A resposta do sujeito para todas as mulheres que se revoltaram com tamanho desrespeito?


Se você não concorda com ele e é homem, então você é "mulherzinha", se é mulher, é "feia". Cadê meu bingo das discussões com machistas?

Eu ainda não consigo acreditar que um jornalista possa demonstrar tamanho desrespeito por mulheres que estão cortando um dobrado para se manter num esporte que não dá espaço para mulheres (ao menos no Brasil), que é símbolo de masculinidade. Será que ele não vê o mérito das conquistas e do esforço diário dessas mulheres incríveis que apesar de terem ouvido a vida inteira que "futebol não é coisa de mulher", resolveram que amam esse esporte e que desejam quebrar esse paradigma machista? Como alguém pode não enxergar o grande mérito disso? Como alguém que vive de esporte consegue emitir opiniões como essa?

Infelizmente, essa é a mídia que cobre eventos esportivos. Aí alguém virá me dizer "mas nem todo mundo é assim, tem muita gente séria que não tem esse tipo de atitude..." . De fato. O problema é que tem muito mais gente machista no mundo, no jornalismo e em qualquer profissão. O que faz por exemplo o globo esporte, que é o programa esportivo mais popular do Brasil, criar uma eleição chamada "spice girls", onde diariamente são postadas fotos das atletas mais "bonitas" (dentro do padrão de beleza)? Machismo. Eleger musas é só mais uma forma de dizer para as mulheres que essa é a sua função é decorativa. É como dizer: "fica quietinha aí, flw? Você não é atleta, você só serve para o deleite masculino." Não acredita em mim? Preciso lembrar também daquela matéria para o globo esporte, há algum tempo atrás em que o repórter ASSEDIOU uma bandeirinha? Você não viu? Então assista nesse link, se conseguir.

Natalia Partyka, atleta polonesa de
tênis de mesa que competiu nas Olimpíadas
de Londres e competirá também nas  PáraOlimpíadas
Preciso desenhar o absurdo e o desrespeito que esse tipo de jornalismo é? É muito exigir um pouco de respeito pelas atletas que dedicam suas vidas ao ESPORTE? Cadê as notícias sobre os feitos dessas atletas, suas biografias, suas histórias de superação? Por que não podemos conhecê-las por aquilo que elas conquistaram?

Eu termino esse texto com uma imagem que ficou para sempre gravada na minha memória. O ouro olímpico da seleção feminina de vôlei em 2008. Seleção que chegou desacreditada, axincalhada e com fama de amarelar em grandes competições (obviamente uma fama criada e divulgada pela mídia que adora desqualificar o esporte feminino). O pedido de silêncio da Seleção, o cala-boca aos críticos está lá, registrado para sempre.

Update: A Natália Mendonça, colaboradora do Ativismo de Sofá, acaba de me informar que essa é a primeira vez na história das Olimpíadas que todas as delegações, inclusive as islâmicas, contam com mulheres. Está aí uma ótima notícia pouco abordada pela imprensa sedenta por musas.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Teu privilégio não é minha prisão


Tantas vezes falamos aqui no blog sobre "privilégio" e percebemos que nem sempre essa noção foi plenamente compreendida. Por isso tentarei jogar alguma luz sobre a questão.

O privilégio é uma vantagem. Não é algo para se envergonhar, é apenas fruto de certas características. Um exemplo: eu sou uma pessoa que fala, escuta, possui todos os movimentos e dispõe de uma boa visão (na verdade tenho um probleminha de vista que é corrigido com lentes). Possuo portanto, a vantagem de jamais me preocupar em tatear o piso antes de dar o próximo passo, pois posso enxergar o caminho adiante. Não me preocupo em frequentar espaços públicos em que uma cadeira de rodas possa circular livremente, pois posso andar. E nunca aprendi a linguagem de libras, pois posso falar e ouvir, portanto, me comunicar sem o uso de sinais.

Muitos privilégios (a maioria, acredito eu) são construídos culturalmente. Ser branco traz uma série de privilégios em relação à ser negro. O que fica evidenciado a cada vez que colocamos a raça diante do elogio, por exemplo. Já parou para pensar porque quando se elogia uma mulher branca dizemos apenas que é uma mulher bonita, mas quando o elogio é direcionado à uma mulher negra, ela se torna uma "negra bonita"? Ou ainda, já tentou imaginar o motivo pelo qual se um homem branco dirigir um carrão muita gente achará que ele é rico, mas que se o mesmo carro for dirigido por um negro, muita gente achará que ele é apenas o motorista? É a expressão do privilégio do branco, não ser discriminado por sua cor (Sobre o privilégio branco, por favor ler esse link, esse e esse).

O privilégio masculino também é cultural. Numa sociedade tão marcada pela cultura do estupro, é uma vantagem dos homens, sair à noite e temer crimes patrimoniais. Traduzindo, temer ser roubado. Uma mulher quando sai à noite teme ser estuprada. Aliás o medo do estupro que uma mulher sente é tão grande que isso rege as nossas vidas desde muito jovens e não nos abandona nem na velhice.

E aí você me diz, "MAS CALMAÍ GIZA, se não é para se envergonhar do privilégio, porque tantas vezes vocês, aqui do Ativismo de Sofá, o criticam?" Por três motivos, o primeiro é a construção de cenários que se formam em torno de um privilégio e que pode ser muito díspar. E isso revira meu sensível estômago. Uma situação que se forma em torno do privilégio masculino: recentemente, li que a escritora de romances Margaret Atwood perguntou a um grupo de homens (na minha leitura não estava especificado se eram apenas homens cis) porque os homens se sentem ameaçados pelas mulheres, eles responderam que tinham medo que elas rissem deles. Quando perguntou a um grupo de mulheres porque elas se sentem ameaçadas por homens, elas responderam que têm medo de serem assassinadas. A polaridade das respostas gera insatisfação e revolta em quem é mulher.

O segundo motivo é que os privilégios citados acima são abstratos. No sentido que não estão escritos, codificados. Mas há privilégios escritos. Ilustrando melhor, a nossa Constituição Federal, ainda não permite o casamento igualitário. Dando a um grupo, os heterossexuais, um enorme privilégio em relação a outro, os LGBTs. Um outro exemplo é o sufrágio feminino, no Brasil conquistado há apenas 80 anos.

O terceiro motivo é porque em muitos casos, na visão da pessoa que é detentora das vantagens acima citadas (e outras tantas), o privilégio se torna a sua noção de "normalidade". Ou seja, a pessoa não consegue sentir empatia por grupos não privilegiados em questões tocantes apenas a eles, gerando uma perspectiva distorcida e parcial. Pessoalmente esse motivo é o que mais me incomoda, e também é o que mais gera discussões improfícuas. Alguns exemplos de manifestações privilegiadas nesse sentido:

Quando um homem afirma que as mulheres não possuem espaço na política porque preferem seguir outras carreiras, ele se esquece que participação política muitas vezes depende de investimento. E que nem sempre os investidores estão interessados em dar crédito às mulheres. Porque a sociedade costuma incentivar mulheres à dedicar-se ao âmbito privado, relegando ao homem o âmbito público. 

Toda vez que um branco diz que as cotas raciais nas universidades são um privilégio dos negros, ele ignora a indiscutível participação ínfima dos negros em espaços acadêmicos (ainda mais se considerarmos que a maioria da população brasileira é negra), um resquício de uma sociedade que vergonhosamente aboliu a escravatura por meio formal há 124 anos.

Quando um heterossexual alega que não se incomoda com LGBTs desde que eles não andem de mãos dadas, não beijem em público, não cheguem junto, eles se esquecem que é socialmente aceitável que um heterossexual faça todas essas coisas. 

E é claro, há os privilégios que o dinheiro proporciona. Uma casa própria, um carro, um computador, um bom celular, boa educação, viagens e etc. Nenhum problema em possuir bens materiais, o problema é esquecer ou desvalorizar quem não possui ou está em situação de classe social abaixo da sua. Daí podemos extrair por exemplo as questões trabalhistas. Quando o(a) patrão(patroa) exige que a empregada durma no serviço, será que ele(a) pensa no absurdo que seria ele(a) próprio(a), dormir no escritório em que trabalha, voltando para casa apenas no final de semana? Possivelmente, não.


Os exemplos acima tratam de privilégios sobre minorias, mas mesmo entre minorias há privilégios. Não é porque fazemos parte de um grupo em desvantagem que temos a autoridade de falar sobre o sofrimento alheio. Aqui há um texto excelente falando dos privilégios da mulher branca em relação à mulher negra.

Por Arnaldo Branco
É preciso entender que embora possuir um privilégio não seja motivo de vergonha, tampouco é motivo de orgulho. Quando uma pessoa branca anda por aí com uma camiseta "100% branco" ele está exaltando algo que não gera motivo para orgulho. É muito diferente de alguém que exalta sua raça negra, pois ser negro significa um histórico de opressão e normalmente de luta e conquistas condicionadas pela raça. Se orgulhar de ser heterossexual (uma modinha que tá rolando aí nas redes sociais) é o equivalente a se orgulhar de uma facilidade, de uma condição que não impõe desafios. Eu acho até engraçado (apesar de triste), que eu tenha que escrever sobre isso, porque me parece realmente muito óbvio. 

O privilégio é cumulativo e quanto mais privilégios uma pessoa possui maior a possibilidade dela possuir a visão distorcida da qual falei antes. Tente visualizar um muro cuja altura aumenta à medida que os privilégios se acumulam. E para algumas pessoas o muro é tão alto que é impossível enxergar o que está do outro lado. 

Retomando um pouco a idéia do título desse texto, o privilégio do grupo não é prisão de outra pessoa pois não regula a vida, os pensamentos, as atitudes dos outros. Rever seus próprios privilégios, nem sempre buscando exterminá-los, pois muitas vezes isso nem é possível, mas entendê-los faz parte do processo de compreender o outro. Enquanto você não conseguir determinar onde residem os seus privilégios, você será incapaz de aceitar que as pessoas que não detêm as mesmas vantagens que você têm outra perspectiva sobre as suas próprias vidas e que é importante demais que você as ouça mais do que questione. Não são os seus privilégios que definem e norteiam a vida dessas pessoas. Como eu disse no meu post "não me ensine a militar" somente o oprimido sabe onde e como o calo aperta. 

Obs.: Se eu não me fiz entender como eu gostaria e você ainda tem interesse no assunto, eu sugiro muito esse texto aqui.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Diversas resistências; um mesmo feminismo.


O feminismo é, em sua essência, um movimento pela igualdade de gêneros. Acreditamos que vivemos em uma sociedade organizada de forma patriarcal que determina nossas vidas a partir do momento em que nascemos e somos “diagnosticados” como meninos ou meninas. O objetivo então é a desconstrução dessas determinações prévias e a valorização do ser humano enquanto ser único e livre independente de seu sexo.

Acontece que para atingir a igualdade precisamos passar por cima do machismo: A teoria que estrutura a nossa sociedade, na qual homens são tidos como superiores e as mulheres são oprimidas. E é por isso que falamos tanto de resistência, luta e empoderamento feminino, por exemplo. Então dentro de uma mesma teoria, com os mesmos pressupostos e partindo em direção ao mesmo objetivo, essas questões deveria se apresentar de forma igualitária, certo? Errado.

Antes de mais nada o que determina uma atitude como libertária, retrógrada ou qualquer outra definição é o contexto que a envolve. Não existem atitudes que possam ser colocadas em caixas de “conservadora” ou “transgressora” justamente porque para conservar ou transgredir algo em um determinado meio é preciso ter consciência de qual é aquele meio. A cultura vigente é o fator base para análise da possível resistência. Por isso o movimento feminista é um movimento heterogêneo, que tem por objetivo se opor as mais diversas formas de opressão contra a mulher.

Entretanto, é sempre complicado para quem está inserido em um contexto analisar outro distante e, muitas vezes, oposto a sua realidade. E, falando multiculturalmente, o que é extremamente imposto a um grupo,  pode ser muitas vezes o que é vetado a outro. E se a luta feminista é justamente pela libertação, nenhuma imposição pode ser considerada justa, dentro disso a resistência é justamente ir contra a ditadura, seja ela qual for. E aí obviamente, ditaduras diferentes, pedem libertações diferentes.

Recentemente assisti a um filme chamado A Fonte das Mulheres que me esclareceu muito essa questão. A história é fictícia e retrata uma vila na qual as mulheres, por terem que subir uma montanha perigosa para buscar água todos os dias, estão cansadas e perdendo seus bebês por conta das quedas. Para protestar contra isso elas então resolvem fazer o que chamam de “uma greve de amor”: sem abraços, sem sexo, até que os homens resolvam buscar a água.

Essa situação retrata duas coisas contra as quais lutamos aqui no ocidente: A visão da mulher como um ser frágil e do sexo como uma moeda de troca. Porém, alguém ousa dizer que essas mulheres não estavam resistindo? Não lutaram pelos seus direitos? Não foram feministas? Há até um momento – logo no começo do filme (e da greve) – no qual elas cantam uma música para os homens, exigindo, entre outras coisas, máquinas de lavar roupa.

Valesca Popuzuda em ensaio ativista.
E para nós tudo isso é muito opressor, essa visão da mulher como a dona de casa. É estranho pensar dentro da sociedade que vivemos em algumas dessas atitudes como libertadoras. Bem como é estranho pensar, quando estamos em um contexto de mulher objetificada, no funk feminino como uma forma de empoderamento.

Porém lutamos com as armas que temos. Para as mulheres do filme, o único poder que tinham sobre os homens foi utilizado como forma de lutar pela própria vida, de buscar formas melhores de ser mulher, transgredindo o meio que estava ao redor delas. Isso é resistência. Bem como para as mulheres que se sentem castradas, sem a possibilidade de dizer que gozam, com o medo constante do estigma da puta, o funk pode ser libertador.


Neste vídeo (maravilhoso, por favor, assistam), Kavita Ramdas fala sobre as mulheres que questionam por meios extremamente tradicionais. Como uma professora que, alegando que uma comunidade precisava de fé, utilizou-se do Corão para alfabetizar meninas, em um ambiente onde a educação feminina é tão desprezada.  Ou um grupo de mulheres que se dedica a interpretar canções tradicionais, mesmo religiosas e... são lésbicas.

Como então seria possível determinar quem é mais ou menos feminista? Como nos enquadrar em resistentes ou não? Nos encontramos em uma luta por todas e consequentemente no meio do nosso caminho encontraremos todas: Desde a visibilidade lésbica, passando pelo direito ao aborto até a maternagem consciente.

 Particularmente muito me agrada essa ideia de o feminismo ser um movimento tão plural quanto são as mulheres. E tão capaz de aparecer nas mais diversas formas, mesmo que timidamente, mesmo que não funcionando de forma universal, mas validando os pensamentos e desejos de algumas de nós. Vamos emergir todas juntas, no mesmo sentido, mas de maneiras diferentes. Andando com nossos próprios pés de acordo com o chão ao nosso redor.

Gizelli Sousa falando sobre o mesmo assunto aqui

quarta-feira, 28 de março de 2012

Menstruação é tabu?

'Menstruate with pride', oil on canvas, 215 x 275 cm - Sarah Maple

           Quem nunca ouviu a frase "Fala mais baixo, ninguém precisa saber que você está naqueles dias" ao pedir um absorvente pra colega de sala? Durante meu ensino fundamental, depois de passar muito pelo "Shiiiiiiiiu, não fale isso alto, você não tem vergonha?", eu descobri uma série de apelidos que o período menstrual tinha, por exemplo, "Tô de papai noel", "Tô de chico", "Tô naqueles dias", "Estou com visitas" e "Sinal vermelho", entre outros, todos eles com o fim de esconder a menstruação ou colocá-la com um nome "menos nojento". Os mitos que envolvem a menstruação são vários, quem nunca ouviu que mulher menstruada não pode arrumar a cama porque quem deitará naquela cama ficará doente? E não podemos esquecer dos famosos "mulher menstruada não pode fazer bolo, porque impede que ele cresça" e do "nesses dias não pode lavar o cabelo não, porque o sangue vai pra cabeça". Além desses mitos, há também o mito de que a mulher menstruada tem que ficar de repouso durante o período, e também que a mulher deve evitar de sair de casa "nesses dias". É fácil perceber como o corpo designado como feminino e a menstruação são cercados de mitos de toda espécie. Os últimos dois mitos citados tem um caráter de esconder ainda mais a mulher, além disso é possível refletir que durante o período menstrual as regras para as mulheres ficam ainda mais rígidas, como se a menstruação fosse um castigo.

  O período menstrual, na sociedade patriarcal, é considerado um período de purificação da mulher, a menstruação é vista como algum impuro, sujo, assim como a mulher, que ao mesmo tempo em que é glorificada pela maternidade, é odiada em todas as outras formas. As mulheres são consideradas desde a Antiguidade perigosas, misteriosas, frias e o tabu da menstruação cresce baseando-se num suposto lado obscuro feminino, que supostamente é expelido durante a menstruação, e essa ideia é que fomenta a Bíblia condenar o contato da mulher menstruada com os demais familiares, lugares e coisas consideradas santas, por considerar o sangue impuro. 

            E a sociedade contemporânea compactua com esse pensamento de diversas formas, a menstruação é vista como algo a ser escondido, algo sujo, imundo e que não deve ser falado, principalmente com homens cis, porque “eles não precisam saber dessas nojeiras”. O nojo da menstruação é o nojo do que é considerado feminino, tudo que faz parte do ciclo menstrual, como o sangue, a vagina, o útero e os ovários são considerados imundos. E a mesma lógica do nojo da menstruação se aplica ao nojo da vagina, o constante estímulo comercial de venda de absorventes diários que teriam a função de despistar o cheiro da vagina, os sabonetes íntimos, a vinculação da depilação com a higiene são formas de esconder e despistar o feminino. E o ódio ao nosso corpo está muito vinculado a esse tabu, afinal, a vagina é considerada feia, incompleta, com cheiros desagradáveis e tem contato com o sangue de menstruação, com tantos julgamentos a respeito do que é bonito, feio, bom e mau, conhecer nosso corpo não é nem cogitado.

            O tabu da menstruação, a misoginia e o tabu de sexo estão interligados. A menstruação na nossa sociedade simboliza que o que vem das mulheres é impuro, a misoginia está na vinculação do que é feminino ao que cheira mal, é feio, nojento, impuro e por fim, o tabu do sexo. O sexo com uma mulher menstruada é considerado um "pecado" em diversas culturas, na maioria delas, os homens que tivessem contato com o sangue de menstruação também seriam considerados impuros, como as mulheres. Há diversos mitos sobre o tema, um deles diz que as mulheres que engravidassem durante o período menstrual teriam filhos-monstros. Em outras culturas simplesmente é dito que a gravidez ocasionada pelo sexo com contato com sangue de menstruação originaria apenas filhas mulheres e por isso deveria ser evitado. O tabu do sexo vai além do sexo com menstruação. O estímulo de esconder tudo que é vinculado ao sistema reprodutor feminino faz parte da própria repressão sexual feminina, visto que esconder o ciclo menstrual seria reforçar que o desejo sexual deve ser escondido. O sexo e o desejo são considerados pertencentes ao homem cis, enquanto a mulher deve esconder seu desejo até aparentar não ter nenhum.

            Colocar o tema “menstruação” como algo exclusivamente pertencente ao feminino, evitar tocar no assunto perto de homens, é sintomático. O corpo da mulher não é dela, o corpo pertence ao que o homem pensa sobre ele e para haver a libertação é necessário falar sobre, parar de esconder e se envergonhar do próprio corpo. Falar sobre menstruação, é tomar para si o desejo, o tesão e sua autonomia. 

Observação: nem todas mulheres menstruam e não somente mulheres menstruam, entenda melhor lendo textos no "Transfeminismo". Os mitos sobre a menstruação além de misóginos e machistas, são também cissexistas.