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terça-feira, 15 de julho de 2014

Pelo direito de envelhecer

Li esse texto, do ótimo Lugar de Mulher e fiquei pensando no texto que há muito ensaio para escrever.

Eu não sou uma mulher bonita, nunca precisei, e espero nunca precisar, me valer da aparência para conquistar algo. Mas, ainda carrego um número infinito de padrões martelando em minha cabeça: "emagreça um pouco mais", "cuide do cabelo", "maquiagem pode esconder essa cicatriz aqui", "faça mais exercícios", "essa roupa modela mais sua cintura". Frases ditas por outros ou por minha (falta de) consciência.

Ano passado, eu conheci uma mulher linda, fabulosa, chamada Lina Chamie (vejam os filmes dela, vejam). Tive a Lina como professora e musa inspiradora em muitos aspectos. Uma das mulheres mais fascinantes que eu já conheci, de 51 anos e cabelo quase branquinho.

Lina Chamie, dirigindo o fantástico documentário
                              São Silvestre
Eu tenho fios brancos desde a adolescência. Com o tempo eles foram buscando mais espaço dentre os meus milhares de fios. E, por pressão de muita gente, eu usava tonalizante/tinta mensalmente. Uma média desleixada, acreditem. Me parece que a margem segura para esconder a situação é de 20 dias, estourando. Me sentia terrivelmente feia e envelhecida quando aquele meio centímetro apontava. Uma escravidão que, eu sei, muitas de vocês passam, meninas.

Então, há um ano, em maio de 2013, eu decidi que ia assumir meus fios, tal qual minha musa, a Lina. E parei de pintar. Com o tempo, o incômodo de ter parte do cabelo ainda tinto, me fez encurtá-lo. Queria logo acelerar o resultado para saber se eu me reconheceria grisalha ou não.
Grisalha e fabulosa
Eu me reconheci. Não sou mais uma jovem  (há algum lugar da legislação que limita a juventude aos 29 anos). Não quero parecer menina. Sou adulta. Não quero negar o que já vivi, maquiando minha aparência enlouquecidamente, para sorrir envaidecida em agradecimento ao "nossa, mas 33? não parece".

Eu adoro o meu cabelo grisalho. Adoro também a praticidade de lavar e hidratar e nada mais. E, olha que engraçado, as pessoas o adoram também. A reação de quem decide comentar a minha decisão varia entre elogiar e se ver refletidas na minha experiência capilar. Mulheres que afirmam desejar fazer o mesmo, mas por algum motivo (insira aqui algum padrão estético) não o fazem. Até hoje, com esse um ano de cabelo sem tinta, eu recebi quatro comentários negativos. Um, de uma amiga querida, que por me ver raramente nem notou que era uma decisão pessoal, pensou que era desleixo ou falta de tempo. E a segunda, uma pessoa embriagada no metrô, que depois de falar que eu era muito nova para isso, saiu batendo a mão em toda placa que via. O terceiro e o quarto, ah, preguiça de comentar, tudo fundamentado no padrão de beleza e no convencimento de que eu não devia deixar o cabelo assim, sob pena de aparentar mais idade do que tenho.


Eu, meu cabelo grisalho e a satisfação dos 33 anos.
E qual o problema de aparentar mais idade? Envelhecer é legal. Negar o quanto de coisas boas já viveu, por conta de uma indústria que só quer te ver sem auto estima e consumista, não.

Essa não é uma ode aos cabelos brancos. É uma ode à satisfação de ter a idade que se tem, aparentando mais ou aparentando menos, mas com um montão de experiência acumulada.



Meu corpo mutante - Aline Valek

quarta-feira, 6 de março de 2013

Oito de março é dia de luta.

Texto de Thaís e Flávia. 

Não é novidade para ninguém que o oito de março, uma data que deveria reforçar a necessidade da nossa luta para sermos vistas e respeitadas como ser humano, é visto pela mídia e pela sociedade como mais um dia para reafirmar ideais de feminilidade.

Campanha da Prefeitura de PoA.
A Prefeitura de Porto Alegre, por exemplo, em sua página no Facebook, postou uma série de afirmações que iniciavam com um "só uma mulher sabe". E as frases utilizadas para complementar a chamada são exemplos do estereótipo do que é "ser mulher". A nossa existência não pode ser resumida, em nenhum dia do ano, a apenas chegar em casa e enfim poder tirar o salto alto ou em ficar triste porque estragou o esmalte recém passado.
  
A problemática desse tipo de manifestação que resume as mulheres a enfeites, seres frágeis ou quase mágicos por aguentar tripla jornada e poder ter filhos não está só no fato de que o oito de março é um dia de luta, mas também se encontra na reafirmação do que é "ser mulher".

O dia oito de março é cheio de homenagens que nos colocam num pedestal. A mulher ideal para a sociedade patriarcal é aquela que se sacrifica diariamente e é vista como forte por isso, aquela que aguenta calada xingamentos, ofensas em forma de piada e a restrição de seus direitos. E é por isso que é tão comum vermos comentários como "parabéns mulheres por aguentarem tudo". Sacríficio é algo considerado bonito, principalmente para quem é mulher. Porque quem é mulher parece ter que ser punida diariamente por isso, com salários menores, com tripla jornada e etc.

Banner da programação da semana da mulher.
Quando a mídia e a sociedade nos parabeniza por ser mulher, foca todas as ações do oito de março em distribuir flores e chocolates, fazer promoções de itens de consumo voltados para a vaidade feminina, ela não só reforça os papéis de gênero, como também negligencia como a violência contra a mulher continua sendo um problema sério. É fácil distribuir cartõezinhos e se esquivar de discutir em profundidade a guerra contra as mulheres em que se encontra o mundo. Porque ao discutir com profundidade nota-se que o problema é a cultura de ódio em que vivemos. Uma cultura misógina, machista, homofóbica, transfóbica, lesbofóbica e racista. 

Os feminicídios ainda são chamados de "crimes passionais", as "cantadas" que ouvimos na rua desde cedo são chamadas de elogios, a objetificação das mulheres ainda é rotineira. Os salários das mulheres continuam sendo cerca de 30% mais baixos que o dos homens, sendo que a mulher negra ganha ainda menos que uma mulher branca. 
  
Campanha resposta.
Oito de março é um dia de luta contra esse ideal de feminilidade tão excludente e opressor. É o dia de falarmos que não precisamos "aguentar caladas", de jogar fora essa idéia de que é legal se sacrificar, de incentivar a solidariedade feminina e nos empoderar. Nos empoderar para lutarmos não só nesse dia, mas diariamente.

Oito de março é um dia para lembrarmos que a nossa luta é diária, que a cada passo que damos para melhorar a vida das mulheres, a sociedade se encarrega de "nos colocar em nosso lugar", em um backlash que coloca à prova a nossa força. Às vezes o desânimo toma conta de nós, pois parece que nada muda. É por isso que datas como o oito de março são tão importantes. Porque é através das "homenagens" que recebemos, que fazem questão de celebrar um sistema castrador e opressivo, que encontramos força para protestar. Oito de março é dia de dizer: o sistema tem que mudar.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Eu, balzaca e feminista


Eu nem sei com qual rapidez os anos deslizaram por entre os meus dedos, mas sei que parece ter durado menos do que durou. Eu tenho 29 anos. Portanto, doente terminal. Apenas um ano de vida me resta. Ao menos é assim que o senso comum desenha mais um estereótipo sobre mim. Aos 30 anos, eu já devia ter uma família (monogâmica e heteronormativa) formada, estar casada, até poderia ter uma carreira, se também fosse mãe e esposa. A tal jornada tripla, o destino certo da mulher de 30 anos. Minha beleza, já deteriorada pelas primeiras marcas do tempo (uma ruguinha aqui, cabelo branco ali, seio caído acolá), não é mais admirada. A juventude é parte inseparável daquele padrão de beleza do qual sempre falamos aqui no blog. Aos olhos da nossa sociedade machista, a beleza é o bem mais precioso que uma mulher carrega, sem ela, não existimos. Com ela, existimos apenas para deleite masculino.

Enquanto mascus bradam por aí que a vida deles começa aos 30, a minha deveria estar no fim. Sambando na cara da sociedade, nunca me senti tão bem comigo mesma quanto agora. Ok, há problemas aqui e ali, mas somente agora começo (sim, COMEÇO) a me entender mais claramente e a amar a pessoa que sou, ou ao menos a pessoa que me tornei. Importa bem pouco para mim a tal da ruguinha. A verdadeira mudança que vejo na pessoa que sou e naquela que fui veio de dentro. E é incrível como aconteceu em pouco tempo.

Balzac, em seu famoso livro, dizia:

"Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis. A mulher jovem tem muitas ilusões, muita inexperiência. Uma nos instrui, a outra quer tudo aprender e acredita ter dito tudo despindo o vestido. (...) Entre elas duas há a distância incomensurável que vai do previsto ao imprevisto, da força à fraqueza. A mulher de trinta anos satisfaz tudo, e a jovem, sob pena de não sê-lo, nada pode satisfazer". 

Sobre essa citação, como diria Raul Seixas, eu acho tudo isso um saco. Uma mulher de 30 anos não é diferente de nenhuma mulher. Ficar categorizando quem é melhor e quem é pior não faz bem a nenhuma de nós. O que nos difere não é a nossa idade, são experiências pessoais que podem ou não interferir na nossa vida individualmente e não coletivamente. E é nesse ponto que o feminismo fez a diferença na minha vida: 
Eu preciso do feminismo para que a sociedade entenda que minha vida não acaba aos 30 anos.

Aos quase 30 anos, eu olho para trás e vejo como fui tola em ter sido calma, quieta, submissa, calada, opressora comigo mesma e com outras mulheres. E nem tem tanto tempo assim. Eu costumava dizer todas aquelas coisas absurdas contra as quais eu luto atualmente. Por exemplo: Eu dizia que as mulheres deveriam se dar ao respeito, que é muito feio mulher que bebe, e, o pior de tudo, havia momentos em que eu dizia até mesmo que se a mulher apanhou, fez por merecer. A minha falta de empatia por outras mulheres resvalava num pedido de aceitação dentro dos grupos em que eu andava. Grupos predominantemente masculinos. Não é que esses assuntos fossem exaustivamente discutidos em nossos encontros, mas há um machismo que paira sobre algumas cabeças e que acaba contaminando a todos, de formas e intensidades diferentes. A objetificação é só uma das facetas desse machismo que se revela em um ou outro comentário. Aqui e ali, meio encoberto por uma conversa casual sobre qualquer coisa, não necessariamente sobre a questão de gênero. E assim, lentamente, eu me deixei levar.

Aliás, eu demorei demais para me dar conta do quanto eu fui colonizada. Eu realmente sou uma pessoa tímida, mas o meu silêncio quando estava com eles não era timidez, era só silêncio. Lembro-me que uma amiga, que a eras me conhecia, me disse naquele momento da minha vida que a minha luz tinha apagado, que eu estava sempre calada. Na época eu compreendia a verdade naquelas palavras mas não conseguia identificar quais processos me levaram à esse comportamento. E posso dizer sem sombra de dúvidas, observando o meu passado, que foi a minha aproximação com homens. Não todos, vale frisar. Há no meio desse grupo grandes amigos, mas mesmo entre as pessoas que mais amamos existe uma coisa chamada "comportamento de grupo", que por vezes se manifesta. E dentro desse comportamento de grupo masculino a opressão às mulheres (e ao feminino de forma geral) existe. 

Caminhando rumo aos 30 anos posso me congratular, sem pedantismo, de ter sido capaz de mudar minhas opiniões. Tive ajuda nisso. Mesmo assim, não é fácil conseguir soltar as amarras culturais que nos são impostas, especialmente quando sabemos que o preço a ser pago é alto. Perdi grande parte dos meus amigos, tenho medo de fazer uma entrevista de emprego e alguém consultar as redes sociais, espaço que uso para entretenimento mas também para uma militância contínua, e é claro que existem os haters.

Algumas coisas aconteceram na minha vida para que eu pudesse sair do meu estado vegetativo. Eu conheci um grupo de mulheres que embora não se definisse ainda abertamente como feministas, foram de grande importância para a construção não só do meu feminismo como também o delas. Construimos uma identidade coletivamente. Somado a isso, uma tragédia também aconteceu dentro da minha família, com uma prima minha, um caso extremo de violência que resultou na sua morte. Todas aquelas mulheres que apanharam do marido ficaram para sempre ligadas à mim por meio dessa história. Eu entendo a dor de seus familiares, eu entendo. Eu entendo agora que nada poderia justificar o que aconteceu com elas. Eu vejo a Carminha apanhar na novela e sinto um nó se formar em minha garganta. Eu queria poder dizer que mudei unicamente com a minha força de vontade, com o meu próprio discernimento, mas isso não é possível, fatores externos à mim me esbofetearam na cara até que eu entendesse o quanto era prejudicial o discurso que eu sustentava até então. 

E é por isso que eu não consigo simplesmente culpar as mulheres machistas pelas barbaridades que falam, talvez nem elas entendam o quanto aquelas palavras recaem sobre si. Às vezes não acho a paciência necessária para lidar com elas, mas não as culpo. Alguém, em algum momento, me estendeu a mão para me fazer entender o que acontecia comigo. E por diversas vezes eu rechacei as palavras que me foram ditas. Ainda urgia em mim a necessidade de aceitação de uma sociedade que, eu ainda não sabia, nunca iria me aceitar de maneira plena, unicamente porque sou mulher. Mas um dia, eu entendi e estou aqui construindo e desconstruindo o que eu fui e o que eu sou. A cada dia, a todo momento. 

Eu não sei o que será de mim após a marca dos 30, mas aos 29 eu estou muito melhor do que estava antes. Se não estou livre por completo, estou lentamente me dirigindo à minha liberdade. E estou gostando muito. Que venham os 30.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

De mulher para mulher, Machista


Essa semana mais uma propaganda da Marisa foi veiculada e pela terceira vez seguida, estamos diante de uma bela demonstração de preconceito. Só para variar, afinal isso quase nem acontece na publicidade, não é? O que realmente causa algum espanto é que uma empresa cujo slogan é "de mulher para mulher" seja machista. Aliás, já li algumas pessoas na rede satirizarem o slogan da Marisa: "De mulher para mulher, Machista". De fato, eu não poderia concordar mais. Vamos relembrar as campanhas que nos fizeram repudiar a marca, mas antes do almoço que é para não acabar botando tudo para fora, beleza?

Primeiro rolou aquela propaganda de lingerie super bacana (só que jamais), mostrando "estatísticas" sobre como está difícil conseguir homem na praça. 





A premissa é: Mulheres (hetero, claro, porque para a Marisa, lésbicas não existem) passem a competir entre si por um belíssimo exemplar de macho viril. Para a Marisa, homem só vale à pena se seguir à risca aqueles velhos estereótipos de gênero. Homem não pode gostar de bichinhos, morar com os pais, ter medo de barata... enfim. O horror, o horror. Vê se pode, homem que é homem não faz esse tipo de coisa, não é? Ai, Marisa... Que belo desserviço você faz à todas as mulheres e aos homens sugerindo esses padrões de comportamento, que só oprimem à todxs. Aqui podemos ver uma ótima palestra de Tony Porter sobre como a sociedade cria os meninos para odiar mulheres e sobre como colocamos em todos, inclusive nos homens, as algemas do patriarcado.

Antes fosse só isso... mas não foi! Começaram as críticas a essa propaganda nas redes e a agência que cometeu essa atrocidade resolveu ATACAR as consumidoras. Sim, queridos. Veja o print com seus próprios olhinhos nesse post. A rede Marisa, em sua página no Facebook, dizia ouvir as reclamações e agradecia as críticas, mas nada foi feito, a propaganda continuou sendo exibida e a agência seguiu cometendo erros inacreditáveis nas campanhas da Marisa. Porém, não vou crucificar a agência, uma vez que é o cliente que tem a palavra final. 

Pouco tempo depois, tivemos outra ótima surpresa. A Marisa achou que seria uma excelente idéia inverter os papéis de gênero, botando mulheres para assediar homens. OPA, assediar, não! Elogiar! 





Para a Marisa, assédio de rua é elogio. Veja, sabe quando um homem desconhecido aborda você na rua te chamando de gostosa, dizendo o que faria com você na cama, objetificando, desrespeitando? Pois bem, isso tudo é um grande elogio, aparentemente deveríamos ser submissas e agradecer. Mano, que ano é hoje? Marisa, acho que está faltando uma informação: os anos 50 já se foram há uns 60 anos! 

Agora, na campanha mais recente, que tal uma boa dose de gordofobia? Propaganda meramente machista é coisa do passado, a onda agora é estimular um transtorno alimentar. Sim, porque no verão só as magras são felizes. Não venham usar o argumento "saúde" por favor, porque NADA nesse comercial indica que o motivo da dieta da moça seja esse. Especialmente pelo final da propaganda quando a macharada toda olha para a mulher como se ela fosse um pedaço de carne. 



Me desculpe se não elogio a grande criatividade dessa propaganda, mas é que o R7 já fez coisa bem similar há pouquíssimo tempo, com a manchete "elas não estão preparadas para o verão". Essa idéia não é exatamente original, entende? Todo mundo já se cansou de ouvir essa babaquice. Inclusive recomendo fortemente a página de humor do Facebook que satiriza essa notícia, a "Projeto Verão 2013"

Imagem da página "Projeto Verão" no Facebook

São tantos os problemas dessa propaganda que fica difícil começar a listar. Primeiro, a perpetuação de um padrão de beleza gordofóbico. Magreza não é sinônimo de saúde, assim como obesidade não é sinônimo de doença. Algumas pesquisas bem recentes apontam que o obeso ativo é uma pessoa saudável. Pior ainda, atrelar a felicidade à manutenção da magreza. GENTE.

Depois, a própria idéia de que comer alimentos saudáveis é um sacrifício é contraproducente no sentido de garantir qualidade de alimentação, pois somos sempre estimulados a comer fora de hora, alimentos industrializados, altamente calóricos, fast food e etc.

E por fim, aquilo que me parece ser o mais grave de tudo: Retirar de nós o direito de ir e vir livremente. Como se o fato de não estar perfeitamente dentro de um padrão de beleza racista e gordofóbico fosse determinante para que não exista o direito de utilizar o espaço público. E sabe porque isso é tão ruim? Porque tem muita gente por aí que realmente pensa assim, a Carol Marques pontuou muito bem:



Lugar onde eram preparadas as
refeições para funcionários de oficina
de confecção da Marisa
Já comprei roupas na Marisa e acho que a qualidade é bem abaixo da média. Além disso, não sei se todos estão a par, mas a empresa já foi denunciada por ligação com o trabalho análogo ao trabalho escravo (com indícios de tráfico de pessoas) em algumas de suas oficinas de produção. Ao menos é o que informa essa notícia aqui. Foi realizado um acordo em 2007, chamado TAC, Termo de Ajustamento de Conduta. Contudo, recentemente, doída pelo dano que fez à própria imagem, a Marisa recebeu uma punição pela contestação que fez sobre a legalidade da Lista suja do Ministério do Trabalho . Falando muito claramente: A "lista suja" só prejudica o empregador. E é claro que no caso da Marisa, o empregador é uma grande rede de confecção. É quase uma carteirada, sabe? "Quem é o Ministério do Trabalho para decidir proceder de forma a prejudicar grandes empresas em prol de condições de trabalho justas para os funcionários?". Eu é que nunca mais vou de Marisa. Não quero nem de graça.

Então, recapitulando, machista, heteronormativa, gordofóbica e exploradora. O que mais está faltando, Marisa?

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A mulher inteligente, segundo o patriarcado


Peço desculpas antecipadas pelo tema escolhido, já que a querida Paula Mariá já falou nesse post sobre a dualidade entre estética e sabedoria. Por isso, talvez eu caia no erro de me repetir um pouco. 

Dia desses, me vi num debate via twitter com algumas amigas sobre a questão "beleza versus inteligência". Uma relação antagônica e opressora que no fim das contas deseja nos calar, nos silenciar (como sempre). A questão é que desde crianças somos treinados para reconhecer apenas esses dois signos: A beleza e a inteligência, pois é comum os pais (e as pessoas em volta da criança) elogiarem a inteligência e a beleza delas, deixando de observar que existem outras características notáveis.

As mulheres, em especial, são cobradas pela beleza - e por "beleza", entenda "padrão de beleza" - desde cedo. Falo por mim e por outras, pois tenho certeza que não sou a única: minha primeira dieta foi por volta dos 10 anos de idade, assim que entrei na puberdade e ganhei algum peso. Fiz alisamento nos cabelos aos 12 anos. Me depilei pela primeira vez também com essa idade. Contudo, a beleza é uma via de mão dupla, pois ao mesmo tempo em que nos cobram beleza para participar minimamente de um sistema de sociedade castrador e machista, nos dizem que beleza não é o suficiente para que sejamos compreendidas como seres humanos, agentes de nossas vidas. A beleza nos põe ocupando a função que o patriarcado exige das mulheres: meramente decorativa. Não estou com isso tentando desvalorizar aquelas mulheres que são vaidosas, longe de mim, apenas estou explicando como se dá a cobrança por um padrão inatingível para muitas pessoas.

Exemplo de imagem que separa
mulheres em para pegar e para casar
No momento que nos damos conta de que ao mesmo tempo em que somos cobradas pela beleza, somos chamadas de fúteis, de vazias, nos exigimos o outro signo, o da inteligência. Só que a inteligência que nos requisitam e que é premiada nas mulheres não deveria ser chamada dessa forma. Quem por aí não se deparou com relatos sobre a figura mitológica da mulher para casar? A mulher para pegar é aquela cuja beleza é preponderante e a mulher para casar é aquela cuja ~~inteligência~~ , acompanhada de beleza ÓBEVEO, é essencial. Não faltam memezinhos na internet demonizando mulheres e que expressam essa diferença de tratamento. Contudo, a mítica mulher inteligente, da qual tratam as imagens, só é chamada assim quando o seu pensamento se alinha ao pensamento masculino, ao pensamento daquele homem que se interessou por ela. Mulher inteligente, aos olhos de muitos homens, é aquela que não o questiona. E isso não pode ser chamado de inteligência.

Antes dos haters aparecerem perguntando "E é errado que ela concorde com ele em alguma coisa?", vou logo esclarecer: Não significa que as mulheres não devam concordar com os homens, não é disso que esse texto trata, mas da forma como costumam categorizar uma mulher como possuidora de inteligência. 

Essa polarização de beleza e inteligência é extremamente frustrante, porque faz com que esqueçamos que as pessoas não se reduzem a uma característica única. As pessoas podem ter outras características ou talentos dignos de admiração, como coragem, ousadia, determinação, bondade, solidariedade, saber dançar, pintar, tocar um instrumento e etc. Muitas coisas podem tornar uma pessoa interessante para alguém. Essa idealização da mulher dentro de certas características é muito engessadora, pois tolhe a diversidade, a pluralidade. Exaltar outras características é garantir liberdade para que sejamos quem de fato somos.

Além disso, e principalmente,  esse esforço em reduzir o conceito de inteligência às afinidades de uma mulher ao pensamento de um homem é também uma espécie de Backlash. Pois, a mulher que é valorizada é aquela cujo pensamento se alinha ao status quo e é moldada por, e para, homens.  A liberdade da mulher é uma ameaça ao patriarcado, e ao mesmo passo ele reage, imputando-lhe a idéia de que não questionar é que é ser inteligente.

Para ilustrar, eu vejo muitas amigas postando por aí a seguinte imagem:


Sério, gente? sofrer calada? Sofrimento silencioso é muito conveniente para a manutenção de relacionamentos abusivos, por exemplo. Essa é uma idéia muito torta. Internalizar o sofrimento para não parecer emocional, não parecer que se importa e etc. Por que sofrer calada? Simples: Porque se não fizermos isso, seremos desqualificadas. Porque mulheres inteligentes não reclamam de homens. Alguém dirá que a imagem fala em sofrer com dignidade. Mas que dignidade é essa que nos silencia assim? Isso para mim tem outro nome: opressão.

No dia internacional das mulheres desse ano eu me perguntei: "Mas cadê os elogios às mulheres que subvertem a ordem? Mulheres trans, lésbicas, vadias, peludas, revoltadas, militantes, sindicalistas, abortistas, rebeldes com armas em punho? Essas se tornam invisíveis ao patriarcado, para essas não existem elogios."

E é exatamente disso que se trata essa manutenção da dualidade beleza versus suposta inteligência, se trata de não dar à mulher o direito à sua própria opinião, o direito de questionar e subverter. E rejeitar sistematicamente aquelas mulheres cuja forma de pensar, agir e viver se distancia de um ideal patriarcal de mulher.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Padrão de beleza: há algo muito errado...


... quando um cabelo é mais importante que uma medalha olímpica.

A foto acima é da ginasta norte-americana Gabby Douglas. Pra quem está em órbita em algum universo paralelo (não se preocupe, isso é piada interna porque eu também vivo em alfa e perco as notícias quentinhas), a Gabby é a primeira ginasta negra a ganhar medalha de ouro numa olimpíada. 

Diante de um feito desses, era pra todo mundo estar feliz da vida comemorando o pioneirismo da garota, a garra, os movimentos perfeitos, a força de vontade, certo? Errado. O que parece estar chamando a atenção, em especial da comunidade afro-norte-americana, é o cabelo da moça. 

Não, queridxs, dessa vez nem é uma questão de mídia mainstream. São redes sociais mesmo, sabe? São pessoas comuns reclamando nos twitters da vida que ela bem que poderia ter dado um jeitinho nesse cabelo pra “representar” melhor a classe negra norte-americana. É a própria população aplicando bullying na moça, corroborando a nossa tese dos jogos olímpicos do machismo.

Abrindo um parêntese: é no mínimo irônico que a obsessão com a aparência das pessoas tenha atingido esse grau de perversidade. Ora, estamos tratando de um esporte notadamente conhecido por cobrar beleza e graciosidade de suas participantes. Elas precisam estar com o cabelo impecavelmente preso E maquiadas para competir.  Trata-se de uma exigência (a meu ver injusta) que não passaria batido pela equipe de jurados. Ainda assim ela foi cyber-rechaçada por pessoas que, de tão colonizadas mentalmente, não percebem o teor do próprio racismo.

Ah, mas isso comprova que os negros é que são racistas, dirão alguns. Eu tenho preguicinha desse argumento, mas como sei que ele invariavelmente aparece sempre que há uma discussão do tipo, vamos lá: o padrão de beleza, tal como se apresenta a nós hoje, é racista. Antes que me apedrejem, vejam a continuação do argumento: porém, o racismo do padrão de beleza não é algo aberto, escancarado, arreganhado, explícito, registrado em cartório, como a galera do “você está exagerando” gostaria que fosse. É um padrão que, por se dar em graus (há vários elementos na aparência de uma pessoa que a aproxima ou a afasta de um “ideal”) sutilmente exclui diversos brancos e inclui alguns, veja bem, ALGUNS negros.  É exatamente isso que dá ao padrão uma pretensa aura de neutralidade. E é por isso que seu combate é difícil, exaustivo.

No caso específico dos EUA, recentemente um movimento de aceitação das madeixas naturais vem ocorrendo e tem até mudado a vida de muitas mulheres negras. Elas estão aprendendo a gostar de si, a viverem em paz com o fato de que não correspondem a um padrão caucasiano (ou há dúvidas de  que cabelos lisos e corpo esbelto com pouco quadril não exclui a grande maioria das mulheres negras e até latinas?), mas a mudança é lenta. Ainda impera por aqui a mentalidade de que cabelo não-alisado ou mal-alisado é ruim, é feio, é coisa de gente pobre. Sim, amores, o elitismo vai à mil nesses casos. 

Acusam a Gabby de não estar com um cabelo “apresentável”, que faça jus à sua posição. O cabelo dela estaria mal-alisado, pois ao suar ele estaria voltando às formas naturais, o que anularia todo o seu brilhante desempenho, na cabeça doentia das pessoas.  Em outras palavras, é imperativo que qualquer negra que goze de algum status na sociedade tenha um cabelo perfeitamente sedoso. Lembremos que sedoso vem de seda, uma textura completamente alheia à composição natural dos cabelos afro. Porém, se você dispõe de recursos, é possível sim atingir tal estrutura capilar. Daí gastam-se rios e rios de dinheiros com alisantes caríssimos, hidratantes potentes ou então apliques, feitos com os cabelos lisinhos indianos (que as indianas doam aos deuses em um templo lá em Tirupati, sul da Índia, para que os deuses vendam às americanas). É um negócio milionário que, a depender de uma "elite" negra norte americana, não vai parar. 

Com tudo isso, eu acho importante frisar que o caso estadunidense não é um caso isolado. Não se trata de um padrão tipo, sei lá, o das indianas que depilam o braço inteiro e que dificilmente vai pegar nas brasileiras, aficionadas que são pela descoloração. Americanos ditam tendências, comportamentos (obviamente, europeizados). Por isso o backlash sofrido pela Gabby é tão preocupante. Assim como é preocupante a declaração da atriz e cantora Jennifer Hudson (a de Dreamgirls: em busca de um sonho): “Eu tenho mais orgulho de ter perdido peso do que de ter ganhado um Oscar”. 

Por fim, as amarras do padrão de beleza são, além de preocupantes, algo triste e revoltante, pois, como já tratamos anteriormente, essa fiscalização intensa da aparência das mulheres é nociva, humilhante, desumana. Porque não importa o quão intelectual/forte/preparada tecnicamente uma mulher seja. Numa sociedade de valores enviesados, a beleza padronizada precede toda e qualquer habilidade que uma mulher possa vir a ter ao longo de sua vida.