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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Cissexismo: meu relato.



Visite a página das feministas do cariri. O trabalho delas é excepcional.

Era uma cidade qualquer no interior de Goiás. Eu resolvera me aventurar e dar aulas numa faculdade por lá. Seria a minha primeira experiência como professora universitária e eu me encontrava pra lá de ansiosa.

Se me perguntarem hoje, eu não saberia responder com exatidão quais foram as turmas em que eu entrei naquele meu primeiro dia de aula. Mas eu me lembro como se fosse ontem da minha estréia em uma daquelas turmas.

Cheguei e antes de iniciar a lição, resolvi fazer a chamada. Nunca fui boa com nomes, então sempre fiz questão de fazer chamada para ir me familiarizando com xs alunxs. Obviamente, eu tinha preparado uma longa dinâmica para conhecê-lxs melhor mas, naquele início, eu achei prudente fazer uma chamadinha básica.

Chamei alguns bons nomes até chegar naquela fatídica letra F. Acho que falei um Fabiane, um Fábio, um Fabíola até chegar em... Fernando. A sala explodiu em uma uníssona gargalhada. Eu, que já estava bem nervosa (primeira vez em um curso universitário é de dar nos nervos de qualquer professorx, presumo), fiquei sem saber direito o que fazer. Não entendi nada. Não ri. Apenas observei a boa risada que xs alunxs davam e perguntei qual a piada. Não se preocupe, professora, amanhã você vai entender a piada. O Fernando deve aparecer por aqui.

Resolvi não botar pilha. Terminei de chamar os nomes e me levantei. Continuei a aula e tudo correu dentro dos conformes do meu plano de aula. Uns ajustes aqui, outros ali e eu consegui dar uma aula razoavelmente dentro da abordagem comunicativa, à revelia de se tratar de um grupo visivelmente heterogêneo e numeroso.

Fui embora e a tal da piada incompreendida não saiu da minha cabeça. Fui andando para casa atordoada, imaginando quem seria o tal do Fernando. O pior se abateu sobre mim: deve ser algum aluno muito, muito indisciplinado. Daqueles capetas que simplesmente não deixam a aula acontecer. Céus, teria eu que encarar problemas de disciplina até numa universidade?  

O fato é que o “mistério” fora desvendado no momento em que pisei na sala de aula, no dia seguinte. Olhei e de imediato identifiquei que a “piada” era alta, tinha os cabelos longos, lisos e castanhos, olhos amendoados, um lindo sorriso e roupa/maquiagem impecáveis. Caminhei em direção a ela e me apresentei. Sou a teacher Flávia, e você é a...? Eu sou a Fernanda, mas pode me chamar de Nanda. 
  
Eu sentia o olhar de ironia dxs alunxs ao redor, mas elxs não se atreveram a gargalhar. Iniciei a chamada e ao chegar no nome dela, falei simplesmente Fernanda, e dei seguimento com naturalidade. Dei a aula e já pude identificar, naquele dia, que a Nanda era uma aluna excepcional. E parece que era justamente o fato de se tratar de uma excelente aluna que fazia com que xs colegxs se calassem perto dela. Mas, seria esse silenciamento fruto de um respeito que a Fernanda, enquanto ser-humano, merecia? Pelo gargalhar do dia anterior, parecia que não.

Enfim. Não demorou muito e já éramos amigas. Eu nunca suportei a clausura da sala de professores por lá, então eu ficava era no pátio mesmo. E passava os intervalos com a Fernanda. Tivemos momentos de muita amizade e cumplicidade. Ela me contava de seus casos amorosos, alguns bem tristes, e eu lhe contava dos meus perrengues em relacionamentos falidos.  Falávamos também de música, livros e filmes. Ela despertou em mim o gosto pela Thalia e sua evidente paixão pelo espanhol me fez ter interesse pela língua e eu acabei aprendendo um pouco do idioma com ela. Discutíamos, também, acerca de amenidades diversas, tais como cuidados com cabelo e unhas.

Era tudo lindo e eu me encontrava numa bolha cor-de-rosa. Até o dia em que a bolha fora violentamente rompida por uma colega, professora de literatura portuguesa naquela instituição. Estávamos organizando uma Semana de Letras e eu pensei que talvez a Nanda pudesse cantar  uma música em espanhol. Alguma coisa da Celine Dion, pensei. Ia ficar diva demais. Foi então que eu, alegrinha, propus a idéia pra essa professora, antes mesmo de falar com a Nanda a respeito (my bad, eu empolgo às vezes). Para minha surpresa, e horror, a professora começou  praticamente a gritar comigo. Parecia que ela estava botando pra fora um rancor que já durava uns três meses (o tempo que eu estava por ali, diga-se de passagem). Ela tinha muita coisa entalada na garganta. Muita coisa preconceituosa.

De tudo que ela disse, eu só consigo me lembrar com exatidão do sentido de uma parte da bronca: “Aquele rapaz se chama Fernando, F-E-R-N-A-N-D-O, e eu acho um absurdo quem não o chama assim. Na identidade dele tá assim e eu não vou compactuar com essa pouca vergonha. Eu faço chamada todos os dias e o chamo pelo nome que ele tem, por aquilo que ele é: um homem. Sem-vergonha, com problemas mentais, o que seja: aquilo ali NÃO é mulher”.

Eu sentei no banco (estávamos no pátio porque como eu disse, eu não frequentava a sala de professores), em choque. Ela, sem ter mais o que dizer, retirou-se do local pisando alto. Era muito ódio, era muito preconceito, era muita transfobia. Olhei para os lados e, em meio a muitos alunos que iam e vinham, eu avistei a Nanda. Ela veio correndo ao meu encontro. Eu não queria falar exatamente o que ocorrera, então tentei buscar indiretamente uma resposta. Pelo que a Nanda me disse, eu era praticamente a única a chamá-la pelo nome devido. Aquilo foi devastador pra mim. Percebendo o meu estarrecimento, Nanda mudou de assunto.

Com o ocorrido na cabeça, eu tentei uma aproximação com xs demais professores da instituição. Cheguei em alguns e falei que talvez fosse o caso de termos uma reunião pra explicar que a Nanda precisava ser chamada pelo nome correto. O que eu ouvi foi desalentador: entendemos o seu ponto de vista. Porém, se o Fernando realmente estiver preocupado, ele que tente fazer outra identidade. Aliás, ele nunca reclamou disso. Seria mais um desconforto seu, não?

Baita mundo injusto. Será que tais professores não entendiam que, numa dinâmica de poder e hierarquia tal como é a sala de aula, umx alunx levantar a voz para reivindicar direitos poderia significar o fim de sua vida acadêmica? Qual alunx em sã consciência, num lugar tradicional daquele, poria em risco o seu futuro dessa forma? Qual alunx peitaria toda uma construção ideológica a fim de ser respeitadx pra, no fim, acabar perseguidx? Se existem alunxs assim, certamente não era o caso da Nanda. E eu jamais a culparei por isso.

Porque acabou também não sendo o meu caso. Eu, que na época não me declarava feminista e não tinha idéia do que seria o cissexismo , deixei pra lá. Perguntei se aquilo a incomodava, se a atingia e ela me disse incomoda, né teacher, mas isso não vai tirar de mim a condição de mulher. Falem o que quiserem, eu vou é começar o meu tratamento hormonal o mais rápido possível para ter seios lindos. Quem sabe um dia, operar. A cabeça fechada dessas pessoas não vai me impedir. 

O ano passou, eu acabei indo dar aulas numa outra cidade, perdendo assim o contato que tinha com a Nanda. Ficamos conversando online por um tempo e realmente o preconceito das pessoas não a impediu de seguir sendo uma mulher. Entretanto, aquele episódio nunca me fará esquecer 1. quão ignorante eu era; 2. que eu não devia ter deixado isso pra lá.

Sabe quando alguém te fala alguma coisa e você não tem resposta e depois de um tempo você encontra todas as respostas e se sente um lixo por não ter rebatido à altura em tempo? É exatamente assim que eu me sinto quando me lembro de cada episódio machista, sexista, misoginista, cissexista, elitista, especista e racista que eu já passei em minha vida. Entretanto, assim como a Nanda, isso tudo não vai me impedir de viver o presente e tentar fazer alguma coisa para desconstruir os preconceitos que as pessoas carregam em si. Assim como não vai me impedir de continuar, sempre, a confrontar meus próprios preconceitos.

Eu estou contando essa história principalmente por um motivo: tenho visto feministas às turras com representantes do transfeminismo por conta de uma suposta confusão que o termo cissexismo geraria nas pessoas. Amgs, acreditem: quando um grupo oprimido chega a criar um termo para problematizar o opressor, é porque a coisa chegou a níveis críticos. Digo crítico tanto com relação a difícil como com respeito à criticidade, mesmo. Essas pessoas não só têm o direito de questionar as nossas posturas, como também são as mais indicadas para tal.

Afinal, quantas Nandas há por aí nesse mundo, sem ter o direito de serem chamadas pelo nome que melhor se adequa às suas condições? Sem ter o direito de usar o banheiro público que melhor lhes convém, sem ter direito a inclusive dividirem celas com pessoas do mesmo gênero que elxs?  O que dizer do caso da Cece Macdonald? Não tá claro que tudo isso é cissexismo? Será difícil entender que o termo não veio para confundir, e sim agregar? E que, infelizmente, esse termo não precisaria existir se nós não cruzássemos os braços e encarássemos as pessoas trans como uma exceção pitoresca a regras injustas? Até quando vai isso tudo?

E não, eu não escrevi sobre isso antes porque me dói muito lembrar dessa história. E o nome Fernanda é, obviamente, uma modificação para preservar-lhe a identidade.   

Leia mais sobre o transfeminismo aqui e sobre a necessidade de um feminismo sem cissexismo aqui.







segunda-feira, 23 de julho de 2012

Teu privilégio não é minha prisão


Tantas vezes falamos aqui no blog sobre "privilégio" e percebemos que nem sempre essa noção foi plenamente compreendida. Por isso tentarei jogar alguma luz sobre a questão.

O privilégio é uma vantagem. Não é algo para se envergonhar, é apenas fruto de certas características. Um exemplo: eu sou uma pessoa que fala, escuta, possui todos os movimentos e dispõe de uma boa visão (na verdade tenho um probleminha de vista que é corrigido com lentes). Possuo portanto, a vantagem de jamais me preocupar em tatear o piso antes de dar o próximo passo, pois posso enxergar o caminho adiante. Não me preocupo em frequentar espaços públicos em que uma cadeira de rodas possa circular livremente, pois posso andar. E nunca aprendi a linguagem de libras, pois posso falar e ouvir, portanto, me comunicar sem o uso de sinais.

Muitos privilégios (a maioria, acredito eu) são construídos culturalmente. Ser branco traz uma série de privilégios em relação à ser negro. O que fica evidenciado a cada vez que colocamos a raça diante do elogio, por exemplo. Já parou para pensar porque quando se elogia uma mulher branca dizemos apenas que é uma mulher bonita, mas quando o elogio é direcionado à uma mulher negra, ela se torna uma "negra bonita"? Ou ainda, já tentou imaginar o motivo pelo qual se um homem branco dirigir um carrão muita gente achará que ele é rico, mas que se o mesmo carro for dirigido por um negro, muita gente achará que ele é apenas o motorista? É a expressão do privilégio do branco, não ser discriminado por sua cor (Sobre o privilégio branco, por favor ler esse link, esse e esse).

O privilégio masculino também é cultural. Numa sociedade tão marcada pela cultura do estupro, é uma vantagem dos homens, sair à noite e temer crimes patrimoniais. Traduzindo, temer ser roubado. Uma mulher quando sai à noite teme ser estuprada. Aliás o medo do estupro que uma mulher sente é tão grande que isso rege as nossas vidas desde muito jovens e não nos abandona nem na velhice.

E aí você me diz, "MAS CALMAÍ GIZA, se não é para se envergonhar do privilégio, porque tantas vezes vocês, aqui do Ativismo de Sofá, o criticam?" Por três motivos, o primeiro é a construção de cenários que se formam em torno de um privilégio e que pode ser muito díspar. E isso revira meu sensível estômago. Uma situação que se forma em torno do privilégio masculino: recentemente, li que a escritora de romances Margaret Atwood perguntou a um grupo de homens (na minha leitura não estava especificado se eram apenas homens cis) porque os homens se sentem ameaçados pelas mulheres, eles responderam que tinham medo que elas rissem deles. Quando perguntou a um grupo de mulheres porque elas se sentem ameaçadas por homens, elas responderam que têm medo de serem assassinadas. A polaridade das respostas gera insatisfação e revolta em quem é mulher.

O segundo motivo é que os privilégios citados acima são abstratos. No sentido que não estão escritos, codificados. Mas há privilégios escritos. Ilustrando melhor, a nossa Constituição Federal, ainda não permite o casamento igualitário. Dando a um grupo, os heterossexuais, um enorme privilégio em relação a outro, os LGBTs. Um outro exemplo é o sufrágio feminino, no Brasil conquistado há apenas 80 anos.

O terceiro motivo é porque em muitos casos, na visão da pessoa que é detentora das vantagens acima citadas (e outras tantas), o privilégio se torna a sua noção de "normalidade". Ou seja, a pessoa não consegue sentir empatia por grupos não privilegiados em questões tocantes apenas a eles, gerando uma perspectiva distorcida e parcial. Pessoalmente esse motivo é o que mais me incomoda, e também é o que mais gera discussões improfícuas. Alguns exemplos de manifestações privilegiadas nesse sentido:

Quando um homem afirma que as mulheres não possuem espaço na política porque preferem seguir outras carreiras, ele se esquece que participação política muitas vezes depende de investimento. E que nem sempre os investidores estão interessados em dar crédito às mulheres. Porque a sociedade costuma incentivar mulheres à dedicar-se ao âmbito privado, relegando ao homem o âmbito público. 

Toda vez que um branco diz que as cotas raciais nas universidades são um privilégio dos negros, ele ignora a indiscutível participação ínfima dos negros em espaços acadêmicos (ainda mais se considerarmos que a maioria da população brasileira é negra), um resquício de uma sociedade que vergonhosamente aboliu a escravatura por meio formal há 124 anos.

Quando um heterossexual alega que não se incomoda com LGBTs desde que eles não andem de mãos dadas, não beijem em público, não cheguem junto, eles se esquecem que é socialmente aceitável que um heterossexual faça todas essas coisas. 

E é claro, há os privilégios que o dinheiro proporciona. Uma casa própria, um carro, um computador, um bom celular, boa educação, viagens e etc. Nenhum problema em possuir bens materiais, o problema é esquecer ou desvalorizar quem não possui ou está em situação de classe social abaixo da sua. Daí podemos extrair por exemplo as questões trabalhistas. Quando o(a) patrão(patroa) exige que a empregada durma no serviço, será que ele(a) pensa no absurdo que seria ele(a) próprio(a), dormir no escritório em que trabalha, voltando para casa apenas no final de semana? Possivelmente, não.


Os exemplos acima tratam de privilégios sobre minorias, mas mesmo entre minorias há privilégios. Não é porque fazemos parte de um grupo em desvantagem que temos a autoridade de falar sobre o sofrimento alheio. Aqui há um texto excelente falando dos privilégios da mulher branca em relação à mulher negra.

Por Arnaldo Branco
É preciso entender que embora possuir um privilégio não seja motivo de vergonha, tampouco é motivo de orgulho. Quando uma pessoa branca anda por aí com uma camiseta "100% branco" ele está exaltando algo que não gera motivo para orgulho. É muito diferente de alguém que exalta sua raça negra, pois ser negro significa um histórico de opressão e normalmente de luta e conquistas condicionadas pela raça. Se orgulhar de ser heterossexual (uma modinha que tá rolando aí nas redes sociais) é o equivalente a se orgulhar de uma facilidade, de uma condição que não impõe desafios. Eu acho até engraçado (apesar de triste), que eu tenha que escrever sobre isso, porque me parece realmente muito óbvio. 

O privilégio é cumulativo e quanto mais privilégios uma pessoa possui maior a possibilidade dela possuir a visão distorcida da qual falei antes. Tente visualizar um muro cuja altura aumenta à medida que os privilégios se acumulam. E para algumas pessoas o muro é tão alto que é impossível enxergar o que está do outro lado. 

Retomando um pouco a idéia do título desse texto, o privilégio do grupo não é prisão de outra pessoa pois não regula a vida, os pensamentos, as atitudes dos outros. Rever seus próprios privilégios, nem sempre buscando exterminá-los, pois muitas vezes isso nem é possível, mas entendê-los faz parte do processo de compreender o outro. Enquanto você não conseguir determinar onde residem os seus privilégios, você será incapaz de aceitar que as pessoas que não detêm as mesmas vantagens que você têm outra perspectiva sobre as suas próprias vidas e que é importante demais que você as ouça mais do que questione. Não são os seus privilégios que definem e norteiam a vida dessas pessoas. Como eu disse no meu post "não me ensine a militar" somente o oprimido sabe onde e como o calo aperta. 

Obs.: Se eu não me fiz entender como eu gostaria e você ainda tem interesse no assunto, eu sugiro muito esse texto aqui.