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sábado, 18 de maio de 2013

Tentativas de silenciamento: mulheres caladas agradam o patriarcado.


Quem milita pelo feminismo (ou outras causas) e é mulher já ouviu muitas vezes algumas frases que mesmo sendo completamente diferentes querem dizer "cala a boca". Tais frases são uma tentativa de desqualificar nosso discurso e nos calar.

A Lídia Freitas escreveu um texto sobre uma das formas de tentar nos silenciar que foi publicado como guestpost aqui, nele ela fala sobre feministas serem consideradas chatas e os lugares da fala. Mas as tentativas de silenciamento são várias e eu decidi que vale a pena destrinchá-las.

Chamar de histérica, irracional, agressiva, louca do útero, e perguntar se você está de TPM são desqualificações de discursos muito comuns se você é uma mulher cis e parte de uma ideia de que o organismo dito feminino é instável, beira a loucura e afins. Um discurso antigo, que sempre retorna com a finalidade de colocar as mulheres como inferiores. Aparentemente, quem usa qualquer uma dessas palavras numa discussão, desqualifica sua voz simplesmente por você ter o organismo dito feminino e acredita que tudo que você diz é fruto de "seus hormônios loucos".

Outra tentativa de silenciamento muito comum é quando começam a opinar sobre sua aparência física, inclusive às vezes acontece desse silenciamento ocorrer em forma de (um suposto) elogio. Exemplo: "Você é bonita para uma feminista". Mas o mais comum acontece com fins de ofender mesmo: avaliam seu corpo, seu rosto, seu peso, sua altura, seu cabelo, suas roupas, se você se depila ou não etc. Esse tipo de desqualificação é sintomática, mostra como mulheres tem uma função essencial na nossa sociedade: a de enfeitar e como os homens acreditam que suas opiniões sobre nossa aparência PRECISAM ser faladas.

Há formas não óbvias de deslegitimar o discurso proferido por uma mulher como o paternalismo. Nesses casos, o machista só quer seu bem, ele diz que sua militância é coisa de mulher chata, que vai afastar os homens (como se todas nós fôssemos hétero, né? E como se a gente PRECISASSE de homens para conseguir ter uma vida com sentido). O paternalismo muitas vezes se desdobra nos supostos elogios do tópico acima. E muitas vezes são puros exemplos de mainsplain/homexplicanismo.

Queria comentar também do famoso "você é muito racional para uma mulher" que surge em alguns debates. É um suposto elogio extremamente misógino que me lembra a infância. Sabe quando você, menina, ganhava em algum jogo de um menino e todo mundo zombava dele porque ele perdeu de uma menina? Então. Misoginia e machismo sendo ensinados desde cedo e que se desdobram nesses "para uma mulher, você até tem tal qualidade".

Há também o "você precisa de pica", "você precisa de um homem", que eu considero assustadores. Essa visão de que uma mulher que profere um discurso precisa de pênis tem muito a ver com a cultura do estupro. Afinal, o pênis seria uma forma de corrigir/punir/ a mulher que está fora de seu lugar e assim ensiná-la seu devido lugar. Acho assustador, além de heteronormativo e transfóbico. E também há o "mal amada" e o "mal comida", que mais uma vez nos resume a apenas complementos dos homens, como se todos nossos sentimentos, insatisfações, sonhos e medos se resumissem a isso.

E claro, tem a versão imatura dessas tentativas de silenciamento (não que as outras não sejam), como o "vai lavar louça/roupa". chamar de vadia e outros termos do tipo, que só demonstram como que a voz das mulheres não é desejada, esperada e bem vista. Mulher boa é a mulher calada. A mulher que não denuncia, não reclama e se fala, só concorda com o status quo.
Alguns tweets que são a base desse texto.

Na história, muitas palavras foram usadas para se referir às mulheres para desqualificá-las: quando queríamos votar e participar da política, isso nos era vedado com as mais diversas justificativas: as paternalistas como "vocês são puras demais para esse assunto" e "nós só queremos proteger vocês desse mundo", as misóginas e machistas que simplesmente diziam que não servíamos para isso, que isso nos distrairia das nossas "reais funções", como o cuidado da casa e dos filhos. E também havia quem colocava o útero, o ovário e afins como um impedimento para que mulheres fossem racionais. As tentativas de silenciamento não ficaram no passado, infelizmente ainda são atuais o suficiente pra gente sempre ter que se lembrar que não devemos nos calar.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Guestpost: Feministas chatas e lugares de fala

Chato: adj. Liso, plano; sem relevo/ Fig. Gír. Importuno, maçante, aborrecido; monótono.” (Dicionário online de português).  Mulheres que vem a público demandar direitos ou tentar se inserir em práticas intelectuais e artísticas desde sempre existiram. Formavam uma tímida minoria, mas estavam lá.  Elas foram chamadas de “imorais”, “perigosas”, “diabólicas”, “bruxas”, e recentemente ganharam o título de “feministas chatas”.  Como nossa sociedade constrói significados engessados em oposições binárias e pouco subjetivas, a “feminista chata” só poderia existir em oposição a uma suposta mulher não-chata, ou mulher agradável.  Essa mulher agradável seria aquela que atende a todos os desejos do marido/namorado, é delicada e feminina, não questiona os padrões estabelecidos e aceita com candura a “natural” superioridade masculina.  Do outro lado da história está a “feminista chata”,  uma criatura incômoda que repudia sua própria natureza (feminina) e aterroriza mesas de bar com “teorias conspiratórias” de que está sendo vilipendiada pelo sistema. Ela é vista como uma figura ranzinza com mania de perseguição.  Se nos permitirmos a reflexão por alguns minutos, chegaremos a duas conclusões essenciais:

 1- Estamos realmente sendo vilipendiadas pelo sistema patriarcal e isso deixa muitas de nós irritadas e reclamonas sim;
2- Não é necessariamente o conteúdo da fala das feministas que é chato e chateia os homens.  O que os perturba é algo muito mais profundo e naturalizado nas sociedades: o lugar de fala. Quem pode falar? De que lugar se pode falar? Sobre o que certas pessoas podem falar e outras não podem? O que realmente incomoda os homens é o fato de uma mulher tomar o lugar público da fala e falar sobre coisas relevantes, sobre temas da esfera pública.

O espaço feminino e o espaço masculino são divididos entre o par privado x público.  Há inúmeros exemplos da aplicação dessa oposição em nossas vidas práticas e ela vai desde nossos corpos até nossa educação social.  Nós mulheres temos corpos e lugares de fala privados, já os homens têm corpos e lugares de fala públicos. Enquanto meninas devem manter as pernas fechadas e nunca brincar com os órgãos sexuais, meninos têm os pênis elogiados e tratados como personagens à parte.  Enquanto o homem vai ao trabalho, aos bares e às praças, a mulher é ensinada a se manter no espaço doméstico.  Seu corpo é propriedade e a propriedade deve ser guardada em local seguro: a casa. Quando uma mulher é estuprada, as primeiras perguntas que as pessoas fazem são: “Onde ela estava? Que hora aconteceu o fato? O que ela estava vestindo?”  Especula-se se essa mulher não causou o estupro fazendo o que não deveria, ou seja, saindo de casa a noite expondo publicamente partes do seu corpo. A mulher que se mantém no espaço privado estaria teoricamente isenta do natural e incontrolável impulso sexual masculino. Essa, infelizmente, é a lógica comum em casos de estupro. Lógica bastante incoerente se considerarmos o que realmente nos dizem os dados. A maioria dos casos de violência contra a mulher tem origem dentro de casa e o sujeito é o próprio companheiro.

A história, a política e as artes foram sempre espaços negados à mulher. Educadas para a passividade e excluídas da fala pública, não é surpresa constatar que mesmo em 2012 ainda não há muitas mulheres intelectuais, cientistas, comentaristas políticas ou deputadas. Não há muitas mulheres no hall dos “formadores de opinião”, pois a elas não foi permitido ter uma opinião. A mulher que tem opinião própria e não tem vergonha de expô-la em público será eventualmente chamada de “chata”, e se ela defender os direitos de outras mulheres de também expressarem suas opiniões, então ela será coroada  “feminista chata”.
Mulheres não falam demais como esbraveja o senso comum. Elas falam de menos.  Basta observar uma sala de aula ou uma mesa de jantar com pessoas de ambos os sexos e notar a desigualdade de iniciativa de fala e turnos de fala entre homens e mulheres.  As mulheres falam pouco, e quando falam seu argumento não é levado a sério ou é infantilizado.  É preciso falar e falar em público. Só dando voz às mulheres poderemos empoderá-las. Por tudo isso, digo com orgulho que sou uma feminista chata e falastrona.


Lídia Freitas é formada em Letras e atualmente é servidora pública. Seus textos podem ser encontrados no blog abajur literário. Contato: lidiaspes@gmail.com

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A mulher inteligente, segundo o patriarcado


Peço desculpas antecipadas pelo tema escolhido, já que a querida Paula Mariá já falou nesse post sobre a dualidade entre estética e sabedoria. Por isso, talvez eu caia no erro de me repetir um pouco. 

Dia desses, me vi num debate via twitter com algumas amigas sobre a questão "beleza versus inteligência". Uma relação antagônica e opressora que no fim das contas deseja nos calar, nos silenciar (como sempre). A questão é que desde crianças somos treinados para reconhecer apenas esses dois signos: A beleza e a inteligência, pois é comum os pais (e as pessoas em volta da criança) elogiarem a inteligência e a beleza delas, deixando de observar que existem outras características notáveis.

As mulheres, em especial, são cobradas pela beleza - e por "beleza", entenda "padrão de beleza" - desde cedo. Falo por mim e por outras, pois tenho certeza que não sou a única: minha primeira dieta foi por volta dos 10 anos de idade, assim que entrei na puberdade e ganhei algum peso. Fiz alisamento nos cabelos aos 12 anos. Me depilei pela primeira vez também com essa idade. Contudo, a beleza é uma via de mão dupla, pois ao mesmo tempo em que nos cobram beleza para participar minimamente de um sistema de sociedade castrador e machista, nos dizem que beleza não é o suficiente para que sejamos compreendidas como seres humanos, agentes de nossas vidas. A beleza nos põe ocupando a função que o patriarcado exige das mulheres: meramente decorativa. Não estou com isso tentando desvalorizar aquelas mulheres que são vaidosas, longe de mim, apenas estou explicando como se dá a cobrança por um padrão inatingível para muitas pessoas.

Exemplo de imagem que separa
mulheres em para pegar e para casar
No momento que nos damos conta de que ao mesmo tempo em que somos cobradas pela beleza, somos chamadas de fúteis, de vazias, nos exigimos o outro signo, o da inteligência. Só que a inteligência que nos requisitam e que é premiada nas mulheres não deveria ser chamada dessa forma. Quem por aí não se deparou com relatos sobre a figura mitológica da mulher para casar? A mulher para pegar é aquela cuja beleza é preponderante e a mulher para casar é aquela cuja ~~inteligência~~ , acompanhada de beleza ÓBEVEO, é essencial. Não faltam memezinhos na internet demonizando mulheres e que expressam essa diferença de tratamento. Contudo, a mítica mulher inteligente, da qual tratam as imagens, só é chamada assim quando o seu pensamento se alinha ao pensamento masculino, ao pensamento daquele homem que se interessou por ela. Mulher inteligente, aos olhos de muitos homens, é aquela que não o questiona. E isso não pode ser chamado de inteligência.

Antes dos haters aparecerem perguntando "E é errado que ela concorde com ele em alguma coisa?", vou logo esclarecer: Não significa que as mulheres não devam concordar com os homens, não é disso que esse texto trata, mas da forma como costumam categorizar uma mulher como possuidora de inteligência. 

Essa polarização de beleza e inteligência é extremamente frustrante, porque faz com que esqueçamos que as pessoas não se reduzem a uma característica única. As pessoas podem ter outras características ou talentos dignos de admiração, como coragem, ousadia, determinação, bondade, solidariedade, saber dançar, pintar, tocar um instrumento e etc. Muitas coisas podem tornar uma pessoa interessante para alguém. Essa idealização da mulher dentro de certas características é muito engessadora, pois tolhe a diversidade, a pluralidade. Exaltar outras características é garantir liberdade para que sejamos quem de fato somos.

Além disso, e principalmente,  esse esforço em reduzir o conceito de inteligência às afinidades de uma mulher ao pensamento de um homem é também uma espécie de Backlash. Pois, a mulher que é valorizada é aquela cujo pensamento se alinha ao status quo e é moldada por, e para, homens.  A liberdade da mulher é uma ameaça ao patriarcado, e ao mesmo passo ele reage, imputando-lhe a idéia de que não questionar é que é ser inteligente.

Para ilustrar, eu vejo muitas amigas postando por aí a seguinte imagem:


Sério, gente? sofrer calada? Sofrimento silencioso é muito conveniente para a manutenção de relacionamentos abusivos, por exemplo. Essa é uma idéia muito torta. Internalizar o sofrimento para não parecer emocional, não parecer que se importa e etc. Por que sofrer calada? Simples: Porque se não fizermos isso, seremos desqualificadas. Porque mulheres inteligentes não reclamam de homens. Alguém dirá que a imagem fala em sofrer com dignidade. Mas que dignidade é essa que nos silencia assim? Isso para mim tem outro nome: opressão.

No dia internacional das mulheres desse ano eu me perguntei: "Mas cadê os elogios às mulheres que subvertem a ordem? Mulheres trans, lésbicas, vadias, peludas, revoltadas, militantes, sindicalistas, abortistas, rebeldes com armas em punho? Essas se tornam invisíveis ao patriarcado, para essas não existem elogios."

E é exatamente disso que se trata essa manutenção da dualidade beleza versus suposta inteligência, se trata de não dar à mulher o direito à sua própria opinião, o direito de questionar e subverter. E rejeitar sistematicamente aquelas mulheres cuja forma de pensar, agir e viver se distancia de um ideal patriarcal de mulher.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

"O feminismo não me convence"

Porque né, direitos humanos agora é uma questão de convencimento. 

Todas repete com Rachel: Oi q?

Sabemos que nossa luta sofre uma tentativa de silenciamento a cada vez que abrimos a boca ou as redes sociais para protestar contra alguma coisa.

Porém, tem saltado aos olhos uma nova face do conservadorismo que eu não havia percebido, talvez pela lerdeza que me é característica: trata-se da galera do “me convence”.  Essa nova modalidade de comentaristas não chega a ser troll, porque o teor daquilo que falam não é necessariamente odioso.

Entretanto, a galera do “me convence” possui traços em comum que nos permite agrupá-los em uma mesma categoria de opinadores. Trata-se de gente que acredita piamente que é natural privar as pessoas de suas liberdades individuais (desconfio que elas só dizem isso ou por não estarem privadas das mesmas, ou então por se encontrarem num grau tão gigantesco de alienação que nem se dão conta do próprio cárcere). Mas não se enganem. Essa modalidade não se manifesta apenas nos blogs, embora tenham encontrado nestes e em demais redes sociais um habitat extremamente favorável à sua ânsia por falar mais alto em qualquer discussão. Ad nauseam.  

Um fato que eu acho extremamente curioso é que essas pessoas jamais se atreveriam a discutir, questionar e duvidar de alguma teoria científica num sentido estritamente positivista comteano do termo. Em outras palavras, o olhar dessas pessoas é tão treinado que elas não consideram importante tentar entender o porque das coisas existirem. "O mundo é assim e não vai mudar" parece ser a única explicação concebível para essas pessoas. Imaginação e tentativa de problematizar a realidade seriam desnecessárias. A necessidade de concretude é tanta que a pessoa, ao ler sobre ideologias, status quo e formações discursivas diversas, surta.

É com tudo isso em mente que eu enumero algumas características da geral do “Me convence”:

1. Rebuscamento de palavras: são capazes de proferir clichês tais como “lugar de mulher é na cozinha” sem utilizar nenhum dos vocábulos do clichê que defendem. Frases extensas, bem estruturadas e com uma pretensa aura de neutralidade dão o tom da postagem. Se acham OS e AS originais por defenderem “valores” excludentes de uma época que envergonharia até minha bisavó (que o universo a tenha).

2. Alguma ofensa. Não, um indivíduo “me convence” padrão jamais irá xingar. Mas vai tentar insultar, geralmente utilizando palavras como “desinteligente”, “desnecessário”, “inútil”, “ingênuo”, “irrelevante”. Lembremos que a intenção é silenciar, e nada mais tentador que desqualificar um texto com um “essa discussão é irrelevante”. Clamam que somos pessoas inteligentes e que, doravante, não deveríamos estar queimando neurônios com assuntos que não importam. É válido repetir aqui que tais assuntos, geralmente, dizem respeito a direitos humanos. Questionar uma piada que ridiculariza alguma minoria? “Desnecessário”. Falar de uma propaganda que claramente desrespeita as mulheres e endossa a cultura do estupro? “Desinteligente”. Celebrar que uma mulher se empodera discursivamente ao falar de sexo numa sociedade que sutilmente invisibiliza a sexualidade feminina? “Não vale o gasto de neurônios filosóficos”.

3. Ofendem-se. O grau de ofensa é variável, mas geralmente a pessoa vem, te chama de burra, surda (é sério), ingênua. Ou então diz que aquilo que foi escrito é irrelevante, não vale a pena, é desnecessário. Ou então você faz um texto inteiro tratando de obstetrícia e a pessoa bate o pé que você deveria ter falado era de astronomia. Daí você faz o quê? Responde, ué. Educadamente? A pessoa ofende. Com ironia? A pessoa ofende. Daí você se cansa e manda a pessoa abrir um blog pra falar as merdas que ela quiser? Falta de respeito. Nessas horas fica bem claro que elas fazem questão de ter direito ao respeito, à revelia de todo um claro desrespeito aos direitos das mulheres que, olha só, também são seres humanos! Justificam o preconceito e a hierarquização de mulheres com base em nossa sexualidade e atributos físicos e qualquer argumento ou ironia que utilizemos contra já recebe o brado: falta respeito!

4. Continuam comentando. Elas já deram o veredicto que a discussão é irrelevante, que o texto é besta e que nós não percebemos as obviedades concretas das coisas. Porém, estranhamente, a cada resposta que você dá, elas retornam e fazem questão de continuar a discussão (lógico que a gente tem mais o que fazer e geralmente desiste de ficar respondendo). Tudo pra continuar dizendo coisas do tipo “o mundo é assim, não vai mudar, mulheres precisam mesmo receber rótulos o tempo todo e tá ok discriminá-las porque nós somos bbks e vocês desconsideram a sabedoria de botequim que é riquíssima e silencia as minorias e insistem nessa história de que mulher entende seu corpo e seus anseios e sabem o que é melhor para si mas vejam bem... isso que vocês defendem não é científico!”

Postos os exemplos acima, fica a questão: por que isso acontece? Olha, eu não tenho respostas. Mas desconfio que, ao tratarmos de preconceitos, nós estamos mexendo na identidade dessas pessoas. Numa sociedade castradora, os padrões identitários se formam a partir da discriminação. Porque são justamente eles, os preconceitos, que garantem os privilégios de uns, em detrimento da exclusão de outros tantos. As pessoas não percebem que, ao lutar para manter suas identidades intactas, elas estão colaborando para a manutenção das desigualdades. Não conseguem perceber que, se a base de uma identidade é o preconceito, então essa identidade pode sim ser questionada, já que carrega em si o velho joguinho de reprodução de valores e dominação (Bourdieu manda beijos). Mas é muito mais fácil nos chamar de tapadas do que pensar em mexer nas bases de um sistema de crenças. Ao admitir que nós estamos sim certas em clamar por direitos iguais, essas pessoas estão passando um atestado de que a identidade delas não é soberana. Nem a única possível. Tampouco justa. E é isso, na minha opinião, que as deixa sem chão. 

Finalmente, quando discutimos essa questão da identidade e privilégios, fica muito claro pra mim que essa insistência em acreditar na imutabilidade de padrões culturais revela não apenas o velho e 'bom' backlash, como também um profundo desconhecimento daquilo que se está rejeitando. Refutam nossas idéias pelo simples fato de estarmos questionando toda uma cultura, todo um padrão identitário. E, ao lidarmos com identidade, a reação das pessoas passa a ser de total incredulidade. Porque, como bem coloca a Simone, é muito difícil entender que o "ser" não é tão absoluto como se crê, que mudar é realmente possível: "(...) quando um indivíduo ou um grupo de indivíduos é mantido numa situação de inferioridade, ele é de fato inferior; mas é sobre o alcance da palavra "ser" que precisamos entender-nos; a má-fé consiste em dar-lhe um valor substancial quando tem o sentido dinâmico hegeleano: "ser" é ter-se tornado, é ter sido feito tal qual se manifesta. Sim, as mulheres, em seu conjunto, são hoje inferiores aos homens, isto é, sua situação oferece-lhes possibilidades menores: o problema consiste em saber se esse estado de coisas deve perpertuar-se".