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quarta-feira, 5 de junho de 2013

Eclipse Love - amar é estar à sombra de alguém




Tá, meu título foi enganoso. Devia ter sido "amar é estar à sombra de um homem". Porque é exatamente isso que o curso de uma agência intitulada Eclipse Love, que a Folha teve o infortúnio de trazer à tona essa semana, ensina. 

Bom, eu acho que é meio óbvio que eu discordo de todo o conceito que é vendido em tal curso, ainda mais sendo alguém-que-carrega-a-tal-da-carteirinha. Eu nem tenho muito a dizer a respeito, além de: acho triste. 

Isso mesmo, coleguinhas. Eu acho triste que tais seminários existam (tenho certeza que a Eclipse Love não é a única empresa destinada a vender status quo em formato "inovador"). 

Acho triste que alguém acredite tão piamente que o seu eu verdadeiro, que a sua essência, que aquilo que lhe define como ser humana, ou seja, a sua capacidade de falar e pensar por si própria, seja visto como algo indigno de amor. Que a pessoa acredite que, para ser amada e benquista por outrém, é preciso se anular, vestir um personagem, ser outra pessoa, um holograma, uma inexistência.

Achei especialmente deprimente o parágrafo: 

"Para a psicóloga Ana Letícia Pereira, 30, o capítulo foi bastante proveitoso. Ela acredita que perdeu um partidão por ter feito um pedido diretamente para o garçom durante um jantar. "Demonstrei ser independente demais.""

O que dizer? Nessas horas, me faltam palavras, sabe? Eu preciso então recorrer ao velho "exemplifico me expondo" para tentar explicar o meu sentimento nesse momento. 

Porque pra mim está muito claro que um relacionamento, qualquer relacionamento, é algo que envolve troca. Não digo troca no sentido imbecilizante de cobranças e exigências absurdas, mas uma troca sincera de afeto, boas energias, empatia, idéias. E nessa troca, penso eu, há que existir alguma negociação. É assim com tudo na vida. Estamos o tempo todo negociando sentidos para fins de comunicação. E, se não houver comunicação, não há relacionamento que se sustente. Daí a importância de ceder, e isso vale para os dois (ou mais!) lados da moeda. Eu não sei definir o que seria um relacionamento saudável para além do óbvio: em uma relação saudável, não há violência. De nenhuma forma. O que há, repito, é diálogo, é negociação. Com AMBAS as partes fazendo concessões. 

Mas, eu nem sempre pensei assim. Porque eu sou, também, fruto de uma cultura que busca "partidos". Vejam bem o grau de desumanização a que nos sujeitamos. De muito bom grado, acreditamos que "partido" é uma pessoa, e não uma idealização. Eu já me culpei por ter perdido um "bom partido". O crime? Ter contado piadas em um churrasco. Em um ambiente informal, eu ousei ser eu mesma. Eu fiz todos rirem e ri bastante também. Eu me senti feliz falando besteiras. Eu não usei salto, eu não usei maquiagem, eu não fiz carão. Eu relaxei, não me utilizei de artifícios e artimanhas para manter o bofe. A conclusão a que cheguei, na época com a ajuda de amigas e familiares, foi a de que eu tinha errado. Porque "homens não gostam de mulheres engraçadas, pois elas aparecem mais que eles". 

Chegaram a me dizer que eu ia acabar sozinha. Por falar demais. Por não ser delicada. Por contar piadas. Por ter o cabelo ruim (sim, ouvi). Enfim, que eu, tal como me apresentava à sociedade, não era digna de arrumar um bom partido. E eu, do alto da minha tolice, acreditava que bom partido = amor. E eu acreditei que eu não era digna de amor. Que a mim, não seria possível, jamais, arrumar um bom partido. O que fiz? Me joguei em outro relacionamento errado. Não, eu não era louca pela pessoa. Eu apenas o achava bonito. E ouvia de amigas que a tal beleza do bofe era algo tão essencial que eu não poderia, jamais, deixar o bom partido passar. 

Então eu fui me adequando. E fui cedendo a exigências descabidas. Não entrarei em pormenores de tais exigências. Limito-me a dizer que elas eram muitas, e bem estranhas. E eu, por um tempo, me ajustei. À revelia de tudo que eu era, sentia e pensava, eu me ajustei. Não houve violência física, mas eu acredito que a violência psicológica que eu sofri foi bem danosa. Mas não foi irreparável, não. A violência foi bem grande, mas não foi maior que eu. 

Eu. Essa palavrinha, "eu", me surgiu na última discussão que tivemos. Daquelas longas discussões de relacionamento, que eram, na real, bem unilaterais. Daquelas discussões em que eu sempre baixava a cabeça, pois o medo de ficar sozinha era maior que o medo da violência que eu sofria. Sem pensar muito, eu apenas disse "sai do meu carro, agora". Ele não esperava tal reação. Pra falar a verdade, nem eu imaginei que era isso que sairia da minha boca. Mas foi, e eu repeti o pedido. Ele saiu, eu fui embora e, naquela noite, não chorei. Também não dormi. Fiquei lendo e relendo o conto "A moça tecelã", de Marina Colasanti. 

No dia seguinte, me veio o luto. Eu me permiti chorar a perda. Mas, não me arrependi. Era como se um piano tivesse sido tirado das minhas costas. Eu, que me achava indigna de amor e tinha me apegado a um relacionamento falho por medo de ficar a sós comigo mesma, resolvi me aceitar. E, me aceitando, percebi que eu não precisava de um bom partido. Que eu não precisava mais me esforçar para ser outra pessoa em nome de uma fatídica "boa primeira impressão". Arrependimento? Nem por um segundo. 

E o que eu diria à psicóloga Ana Letícia, se acaso tivesse a chance de com ela me comunicar? Bom, além de contar minha história, eu diria isso: gata, não compensa demonstrar ser algo que você não é. Não compensa usar máscara. Máscara só traz angústias. Pois um dia você vai precisar tirá-la para respirar melhor. Se a primeira impressão é a que fica, o seu "partidão" vai esperar que você seja, para todo o sempre, a sua máscara. E você, minha cara, com certeza é melhor que isso. Você não precisa de um "partidão", mas sim de um ser humano que te entenda, em toda a sua complexidade. A culpa não é sua de pensar assim. Somos ensinadas a pensar assim. Mas podemos, juntas, construir uma sociedade mais justa e deixar um futuro melhor, mais pé no chão, sem tanto medo e sem tanto eclipse, para nossas filhas.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O eterno mito das mulheres incompletas

Uma mulher sem um homem é como um peixe sem uma bicicleta.

A mídia e toda a sociedade trata as mulheres como se fôssemos completamente dependentes da opinião masculina e do desejo masculino. O pensamento vigente é que uma mulher só pode ser genuinamente feliz se acompanhada de um homem que a deseja.

As expressões "mal amada" e "mal comida" são bons exemplos de como a sociedade insiste em colocar como o desejo principal da mulher o relacionamento com um homem. Mulheres que desafiam a norma e fazem parte de movimentos sociais, como o feminismo, são constantemente atacadas por essas ofensas. Ofender uma mulher com essas expressões é afirmar que toda reclamação, revolta, luta dela só existe porque ela não tá ocupada sendo feliz com um homem bom, sabe? Como se qualquer revolta feminina fosse fruto da falta de despertar desejos masculinos, na falta de amor e não no fato de que nosso gênero é constantemente diminuído, oprimido, desrespeitado e violentado.

E ainda tem o fator de que condicionar a felicidade feminina aos homens dessa forma, colocar essa preocupação de atrair o desejo masculino, de buscar a qualquer custo um namorado, como algo feminino é mais uma vez reafirmar a suposta inferioridade feminina. Afinal, numa sociedade que separa as pessoas entre racionais e emocionais, como se apenas as racionais tivessem o seu valor, dizer que mulheres precisam de homens para serem felizes é dizer que mulheres são fúteis, são irracionais e etc. Tanto a Paula, quanto a Gizelli, já trataram sobre o assunto.

Se você é mulher e está fora dos padrões de beleza (ou seja, praticamente todo mundo), você já deve ter ouvido algum "elogio" como: "Ah, tem homens que gostam de *insira aqui a característica sua que difere do padrão de beleza*", como se noticiar que você pode ser atraente para um homem fosse fazer sua autoestima se reerguer das cinzas. Como se a remota esperança de que algum dia você pode despertar o desejo masculino fosse uma dádiva. Como se somente a possibilidade de atrair os olhares masculinos fosse capaz de fazer uma mulher se sentir bem. E ainda tem o fator de que toda decisão feminina, seja mudar de emprego, seja cortar o cabelo ou vestir uma roupa diferente, conforme a sociedade, é condicionada ao que o homem vai acha daquilo, como se mulheres não fossem donas de seus corpos e de suas vidas e precisassem sempre de alguém pra guiá-las ou mesmo como se a gente precisasse sempre pensar em agradar o parceiro acima de agradar a si.

Não posso ser a mulher da sua vida
porque sou a mulher da minha.
A cultura de que somente acompanhada de um homem uma mulher pode ser feliz e tem valor fomenta uma série de coisas: A mulher é considerada a responsável por fazer o relacionamento dar certo, porque para o status quo é ela que precisa de manter aquela relação e isso enseja dependências emocionais, uma certa obrigação de se submeter ao que o parceiro deseja e etc.
A sociedade trata a mulher como a maior interessada, às vezes até mesmo como a única interessada em manter um relacionamento, afinal, o modelo tradicional de relacionamento coloca o homem  como provedor (atualmente, o principal provedor, né?) e a mulher como a pessoa que depende do outro, a pessoa que consome e quer sempre consumir. Além disso, há também o fato de que os homens são positivamente vistos se tem várias mulheres, se fazem muito sexo, e as mulheres se fazem muito sexo, são consideradas vadias, que é um termo ofensivo se não ressignificado. O homem continuar solteiro é algo positivo, até porque se ele adiar o casamento, mesmo ao envelhecer será visto como mais sábio e charmoso, enquanto a mulher solteira é vista como mal amada, "ninguém aguentou" e que só tem valor se é jovem e dentro dos padrões estéticos. Todos esses pontos relacionados ocasionam naquela camisa famosa e muito vendida onde o casamento para o cara é o game over e para a mulher é sinônimo de felicidade e naquela famosa piadinha que diz que o cara casa de terno preto porque tá de luto pela vida de solteiro, pelas mulheres que não são mais "dele" e etc.

Outra coisa é que tratam tudo que uma mulher faz como se fosse algo para chamar atenção dos homens: a roupa que ela usa, o corte de cabelo, se usa salto ou não. Tratar nossa vida como se o objetivo dela fosse despertar o desejo masculino faz com que cantadas de rua sejam consideradas algo "simpático, um elogio", sendo que elas são invasivas e não desejadas; Gizelli aprofundou muito nesse ponto aqui. O vínculo desse comportamento de assédio nas ruas é fácil de se perceber quando a gente pega nossas experiências e vê que se a gente tá acompanhada de um homem, as "cantadas" acontecem com menos frequência; o que mostra que  se a gente tá acompanhada de um homem, a gente tem "dono", nosso corpo não está mais disponível.

Sou alérgica ao patriarcado
E por fim, destaco o quão heteronormativo é fazer essa vinculação. Tratar as mulheres dessa forma é ignorar que lésbicas existem e que lésbicas são mulheres. É compactuar para a invisibilidade lésbica e para que as mulheres que se relacionam com mulheres sejam tratadas como fetiches masculinos e não como donas de sua sexualidade.

E ainda vejo uma possibilidade de questionamento, para o meio feminista, sobre o assunto: Aquela famosa frase "homem feminista é sexy" talvez carregue um pouco desse mito e seus desdobramentos. Eu já usei essa frase, muita gente que eu admiro já usou a frase, mas nem por isso a gente não deva questioná-la, né? Afinal, o uso dessa frase coloca o homem feminista como um cara que merece mais atenção que os outros, ser considerado sexy, atraente seria um prêmio para a pessoa, sabe o confete que alguns caras acham que merecem por serem legais com mulher? Então, o homem feminista ser visto como sexy é uma forma de jogar confete, sendo que respeitar mulheres como pessoas é uma obrigação. 

Sei que essa frase também é uma forma de combater pensamentos como que o homem deve ser rude, grosso e sistemático, que tem que "mandar na mulher" e todos os desdobramentos desse pensamento, mas acho que vale a pena a gente refletir.

Por que atrair atenção dos homens para o feminismo falando de sensualidade e não em direitos de fato, sabe? Por que valorizar tanto o apoio dos homens ao movimento? Será que usar essa frase não fortifica o mito de que homens estão sempre interessados em sexo e mulheres em outras coisas, como se o sexo para as mulheres dependesse sempre de outros fatores mais "teóricos"? Será que essa frase não reafirma a dependência feminina? Será que essa frase não supervaloriza a participação masculina num movimento que deveria se focar principalmente nas mulheres?