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quinta-feira, 23 de maio de 2013

A famigerada mini blusa

Cropped é para todxs! Fonte da foto aqui

Às vezes nosso receio de usar determinadas roupas que achamos bonitas, assumir certas preferências, se comportar diferente do esperado são apenas sintomas de certas prisões que a gente se encontra. Para ilustrar, compartilho uma história boba da minha trajetória para finalmente usar um modelo de blusa chamado "cropped", que é um estilo de mini blusa.

Eu desejei usar uma dessas blusinhas por muito tempo. Via outras pessoas usando e achava lindo, mas sempre arrumava uma desculpa para eu não procurar uma para usar. Sempre afastava a blusinha do pensamento alegando que "esse estilo de roupa é para outras, não combina muito comigo". Por mais que eu afirmasse que não combinava comigo, eu continuava a achar bonito e a querer usar, mas faltava algo. Faltava coragem.

E de repente constatei que a falta de coragem inexplicável era um medo das pessoas constatarem que eu não era uma "moça tradicional", a famosa "moça de família". Eu percebi que dentro de mim ainda há diversos fragmentos da tradicional família mineira e um deles era esse medo inconsciente de ser "confundida" com uma vadia. E eu que já há muito tempo digo que roupa não define caráter, que um vestido curto é só um vestido curto e eu que sempre usei shortinhos e vestidinhos pra sair me vi numa prisão que já imaginava ter me livrado a tempos.

A história é sempre a mesma: a gente deixa de passar um batom vermelho que achamos lindo com medo das pessoas acharem que somos vulgares, a gente abandona o shortinho, a blusinha, o vestidinho, as cores fortes. A gente segura as estribeiras na hora de dançar, rir, chorar. E devagarinho, quase sem a gente ver, a gente tá abandonando uma vida inteira de pequenas coisas. Tudo que a gente gostaria de fazer, mas teme, vai ficando para trás.

Há também aquela vontade enorme de deixar de fazer algo que encontra muitas vezes até mais resistência da nossa parte e da sociedade. Um exemplo é a depilação: muita gente não gosta de se depilar, sente dor, tem alergia, se coça toda, mas continua fazendo por receio. Por medo de ser julgada, ser ofendida e por sentir que se achará feia sem se depilar e etc. Enfrentar ou não esses nossos receios é uma decisão que devemos tomar conhecendo bem as origens desse medo e também o tamanho da vontade de dizer sim ao que você quer fazer.

Enquanto isso, se você procura "cropped" no google, há dezenas de textos explicando "como usar". E eles criam regras e mais regras, "proíbem" certos corpos de usarem, zombam de quem é diferente do padrão de beleza e usa peças proibidas mesmo assim, colocam limites do quanto você pode mostrar e repetem a exaustão a famosa frase "assim você fica sexy, sem ser vulgar".

E onde quer que você vá, você vai encontrar regras e mais regras de como usar determinadas roupas, quem pode usar, o que é bonito, o que é feio, o que é anti-higiênico, o que é vulgar, e por ai vai. E de tanto ouvir essas estúpidas regras, a gente se abandona.

Bons links: Documentário "My body, my hair" (Meu corpo, meu pêlo) sobre mulheres que decidiram manter seus pêlos corporais filmado em Londres, Inglaterra. 

sexta-feira, 30 de março de 2012

Eu não gosto de me depilar

Pois é, não gosto. E a parte triste da história é que estou sempre depilada. Não faço por mim, faço em nome do patriarcado, faço por não ter coragem de ir contra essa imposição. Mas não gosto.


Muitas mulheres dizem que se sentem bem, se sentem “limpas” (péssima essa associação de depilação com higiene, já totalmente furada pela medicina) e, por isso, acham que faz bem para a autoestima. Pois eu discordo. Apesar de também me sentir dessa forma, não acho que isso tenha algo a ver com autoestima. Se sentir bem por estar dentro do padrão não é necessariamente gostar de fazer algo.


Quando eu saio depilada me sinto bem, me sinto bonita. E não tenho a menor dúvida de que todos estão admirando minhas belas pernas depiladas (na minha cabeça, claro). Nem considero a possibilidade de alguém sentir desgosto ou aversão por eu estar depilada, o que não é apenas usual, mas senso-comum acontecer quando a mulher ousa sair sem se depilar. O que não há de programas de “fofocas” apontando as que deixaram escapar um pelinho na entrega do Oscar, hein.


Percebo que é muito diferente de me tatuar ou de pintar o cabelo, por exemplo. Nessas duas outras manifestações de vaidade – porque sim, por mais que a tatuagem tenha o significado mais transcendental da história, ela ainda é estética, então, sim, é vaidade – eu mal considero a possibilidade de alguém reparar. Me sinto tão bem, tão bonita, tão “para mim” que se alguém de fora vai olhar ou não, não faz a menor diferença. Se vai gostar então, menos ainda.

O momento em si também é diferente. Tatuar também dói, mas é uma dor que me agrada, pintar o cabelo demora, mas não me incomoda. Nos dois casos o resultado final é tão prazeroso quanto o resto do caminho. Já a depilação dizem que “dói, mas compensa” (?). Eu suporto a dor do processo em busca do resultado final, o momento da depilação não é, de maneira alguma algo que eu goste de fazer.

Acontece então que ao me depilar me sinto bem por conta da “aprovação social” que recebo, e coloco essa aprovação entre aspas, pois ninguém vai me dar parabéns ou me elogiar pela depilação, afinal, como mulher, "não é mais que minha obrigação" fazê-la. A aprovação em questão é meramente não receber olhares de repúdio, asco – e, claro, comentários maldosos – a pernas não depiladas. E eu preciso dessa aprovação social na depilação, justamente por não gostar dela. O “sentir-se bem” neste caso está diretamente ligado ao consenso do que é belo e não a minha imagem e satisfação pessoal e particular.

É necessário saber diferenciar o que nos faz intimamente bem do que é socialmente esperado de nós, pelo nosso próprio autoconhecimento. Autoestima é diferente de satisfação por se encaixar na estima alheia. A libertação é processo gradual e, de uma forma ou de outra, todas contribuímos com a escravidão de nosso corpo, quando nos mutilamos desgostosamente em função do outro. Reconhecer como nos sentimos e porque nos sentimos assim diante de cada detalhe do nosso corpo é libertar a consciência e visualizar o que há de mais íntimo em nós. É necessário.

Particularmente, eu me tatuo por mim. Mas me depilo pelo patriarcado. Ainda e infelizmente.