Chato: adj. Liso, plano; sem relevo/
Fig. Gír. Importuno, maçante, aborrecido; monótono.” (Dicionário online
de português). Mulheres que vem a público demandar direitos ou tentar
se inserir em práticas intelectuais e artísticas desde sempre existiram.
Formavam uma tímida minoria, mas estavam lá. Elas foram chamadas de
“imorais”, “perigosas”, “diabólicas”, “bruxas”, e recentemente ganharam o
título de “feministas chatas”. Como nossa sociedade constrói
significados engessados em oposições binárias e pouco subjetivas, a
“feminista chata” só poderia existir em oposição a uma suposta mulher
não-chata, ou mulher agradável. Essa mulher agradável seria aquela que
atende a todos os desejos do marido/namorado, é delicada e feminina, não
questiona os padrões estabelecidos e aceita com candura a “natural”
superioridade masculina. Do outro lado da história está a “feminista
chata”, uma criatura incômoda que repudia sua própria natureza
(feminina) e aterroriza mesas de bar com “teorias conspiratórias” de que
está sendo vilipendiada pelo sistema. Ela é vista como uma figura
ranzinza com mania de perseguição. Se nos permitirmos a reflexão por
alguns minutos, chegaremos a duas conclusões essenciais:
1- Estamos realmente sendo vilipendiadas pelo sistema patriarcal e isso deixa muitas de nós irritadas e reclamonas sim;
2- Não é necessariamente o conteúdo da fala das feministas que é chato e chateia os homens. O que os perturba é algo muito mais profundo e naturalizado nas sociedades: o lugar de fala. Quem pode falar? De que lugar se pode falar? Sobre o que certas pessoas podem falar e outras não podem? O que realmente incomoda os homens é o fato de uma mulher tomar o lugar público da fala e falar sobre coisas relevantes, sobre temas da esfera pública.
O espaço feminino e o espaço masculino são divididos entre o par privado x público. Há inúmeros exemplos da aplicação dessa oposição em nossas vidas práticas e ela vai desde nossos corpos até nossa educação social. Nós mulheres temos corpos e lugares de fala privados, já os homens têm corpos e lugares de fala públicos. Enquanto meninas devem manter as pernas fechadas e nunca brincar com os órgãos sexuais, meninos têm os pênis elogiados e tratados como personagens à parte. Enquanto o homem vai ao trabalho, aos bares e às praças, a mulher é ensinada a se manter no espaço doméstico. Seu corpo é propriedade e a propriedade deve ser guardada em local seguro: a casa. Quando uma mulher é estuprada, as primeiras perguntas que as pessoas fazem são: “Onde ela estava? Que hora aconteceu o fato? O que ela estava vestindo?” Especula-se se essa mulher não causou o estupro fazendo o que não deveria, ou seja, saindo de casa a noite expondo publicamente partes do seu corpo. A mulher que se mantém no espaço privado estaria teoricamente isenta do natural e incontrolável impulso sexual masculino. Essa, infelizmente, é a lógica comum em casos de estupro. Lógica bastante incoerente se considerarmos o que realmente nos dizem os dados. A maioria dos casos de violência contra a mulher tem origem dentro de casa e o sujeito é o próprio companheiro.
A história, a política e as artes foram sempre espaços negados à mulher. Educadas para a passividade e excluídas da fala pública, não é surpresa constatar que mesmo em 2012 ainda não há muitas mulheres intelectuais, cientistas, comentaristas políticas ou deputadas. Não há muitas mulheres no hall dos “formadores de opinião”, pois a elas não foi permitido ter uma opinião. A mulher que tem opinião própria e não tem vergonha de expô-la em público será eventualmente chamada de “chata”, e se ela defender os direitos de outras mulheres de também expressarem suas opiniões, então ela será coroada “feminista chata”.
Mulheres não falam demais como esbraveja o senso comum. Elas falam de menos. Basta observar uma sala de aula ou uma mesa de jantar com pessoas de ambos os sexos e notar a desigualdade de iniciativa de fala e turnos de fala entre homens e mulheres. As mulheres falam pouco, e quando falam seu argumento não é levado a sério ou é infantilizado. É preciso falar e falar em público. Só dando voz às mulheres poderemos empoderá-las. Por tudo isso, digo com orgulho que sou uma feminista chata e falastrona.
Lídia Freitas é formada em Letras e atualmente é servidora pública. Seus textos podem ser encontrados no blog abajur literário. Contato: lidiaspes@gmail.com
1- Estamos realmente sendo vilipendiadas pelo sistema patriarcal e isso deixa muitas de nós irritadas e reclamonas sim;
2- Não é necessariamente o conteúdo da fala das feministas que é chato e chateia os homens. O que os perturba é algo muito mais profundo e naturalizado nas sociedades: o lugar de fala. Quem pode falar? De que lugar se pode falar? Sobre o que certas pessoas podem falar e outras não podem? O que realmente incomoda os homens é o fato de uma mulher tomar o lugar público da fala e falar sobre coisas relevantes, sobre temas da esfera pública.
O espaço feminino e o espaço masculino são divididos entre o par privado x público. Há inúmeros exemplos da aplicação dessa oposição em nossas vidas práticas e ela vai desde nossos corpos até nossa educação social. Nós mulheres temos corpos e lugares de fala privados, já os homens têm corpos e lugares de fala públicos. Enquanto meninas devem manter as pernas fechadas e nunca brincar com os órgãos sexuais, meninos têm os pênis elogiados e tratados como personagens à parte. Enquanto o homem vai ao trabalho, aos bares e às praças, a mulher é ensinada a se manter no espaço doméstico. Seu corpo é propriedade e a propriedade deve ser guardada em local seguro: a casa. Quando uma mulher é estuprada, as primeiras perguntas que as pessoas fazem são: “Onde ela estava? Que hora aconteceu o fato? O que ela estava vestindo?” Especula-se se essa mulher não causou o estupro fazendo o que não deveria, ou seja, saindo de casa a noite expondo publicamente partes do seu corpo. A mulher que se mantém no espaço privado estaria teoricamente isenta do natural e incontrolável impulso sexual masculino. Essa, infelizmente, é a lógica comum em casos de estupro. Lógica bastante incoerente se considerarmos o que realmente nos dizem os dados. A maioria dos casos de violência contra a mulher tem origem dentro de casa e o sujeito é o próprio companheiro.
A história, a política e as artes foram sempre espaços negados à mulher. Educadas para a passividade e excluídas da fala pública, não é surpresa constatar que mesmo em 2012 ainda não há muitas mulheres intelectuais, cientistas, comentaristas políticas ou deputadas. Não há muitas mulheres no hall dos “formadores de opinião”, pois a elas não foi permitido ter uma opinião. A mulher que tem opinião própria e não tem vergonha de expô-la em público será eventualmente chamada de “chata”, e se ela defender os direitos de outras mulheres de também expressarem suas opiniões, então ela será coroada “feminista chata”.
Mulheres não falam demais como esbraveja o senso comum. Elas falam de menos. Basta observar uma sala de aula ou uma mesa de jantar com pessoas de ambos os sexos e notar a desigualdade de iniciativa de fala e turnos de fala entre homens e mulheres. As mulheres falam pouco, e quando falam seu argumento não é levado a sério ou é infantilizado. É preciso falar e falar em público. Só dando voz às mulheres poderemos empoderá-las. Por tudo isso, digo com orgulho que sou uma feminista chata e falastrona.
Lídia Freitas é formada em Letras e atualmente é servidora pública. Seus textos podem ser encontrados no blog abajur literário. Contato: lidiaspes@gmail.com



